Mahou Shoujo no Houseki
2 Futago no Houseki!
Notas iniciais
O quarto inteiro de Milena era mergulhado pela luz melancólica da madrugada soturna, junto de feixes turvos da luz lunar que transpassavam pelas finas cortinas de linho. Lá fora, as silhuetas das árvores remexiam-se inquietamente, abaixo de um céu limpo e escuro, tamanho negrume que ia até onde os olhos podiam ver.
Em sua cama, Milena permanecia com os olhos pesados, que recusavam-se a fechar. O odor do sangue que tão pouco sentira impregnava toda a sua mente, fazendo com que sua cabeça doesse e seus olhos lacrimejassem. Com suas mãos geladas, ela segurava firmemente a pedra, perto de seu peito. O leve fluxo de energia que parecia percorrer por seu corpo também parecia causar uma insonia. A todo momento que Milena tentava fechar seus olhos, as imagens obscuras do que aconteceu anteriormente vinham à tona. Ela se perguntava se era realmente assim na vida real — diferente dos animes que assistia, onde num passe de mágica, as protagonistas transformavam-se em gloriosas musas, munidas de brilho e saltos, com os quais chutavam a bunda dos vilões. O máximo que Milena fez foi atacar um velho aleatório com uma pedra aleatória para salvar uma mulher aleatória.
Mesmo sentindo que fizera um grande ato, a garota sentia também um vazio em seu peito, enquanto o cheiro de sangue continuava a perturbar seu sono. Com os olhos aborrecidos, ela aproximou a joia de seu rosto, e logo em seguida a levantou de modo que a luz do luar atravessasse a pedra. Qual não foi sua surpresa ao perceber que entre o pequeno e infinito mar de estrelas presente na joia, um líquido negro se remexia como se estivesse debaixo d'água.
O fato inesperado fez com que a garota derrubasse a joia em seu peito, porém, a recolhendo novamente logo em seguida e encarando seu interior. O líquido negro dançava delicada e vagarosamente, percorrendo entre as estrelas e por todo o interior do artefato. Milena levantou seu tronco, de modo que encostasse na cabeceira de sua cama, e uma vez mais levantou a joia. Seus olhos brilharam.
Pelo resto da noite, a garota atônita colocou a joia sobre o chão de seu quarto, num ponto onde fosse iluminada pela luz noturna. Em seu ocioso devaneio onde apreciava a pedra tentando a entender, a impaciência bateu e Milena foi direto para seu notebook, a pedra segurada por uma das mãos em seu colo. Com os olhos cansados, ela sequer conseguia discernir algumas palavras — mas ela ainda tentava mesmo assim.
Com seus olhos percorrendo entre as várias páginas que abrira, a menina não conseguia tirar nenhuma informação. No entanto, um link na 9ª página de seu navegador atraiu a atenção de Milena.
Antes que pudesse clicar neste, a garota arrepiou-se ao ouvir um barulho característico de maçaneta. Instintivamente, ela fechou o notebook, e petrificou. Um raio de luz iluminou suas costas
— Milena... você sabe que horas são?
A garota engoliu em seco, e virou-se lentamente, apertando os olhos; já que, acostumados com a escuridão, ardiam. Antes que pudesse dizer algo, sua mãe foi até ela rapidamente; com um olhar preocupado, pousou as mãos sobre o rosto de Milena.
— Céus! Você ao menos dormiu?! Eu sei que você pode estar assustada por causa do que houve mais cedo, mas você tem aula de artes amanhã! Tente se esforçar um pouco! Não faça isso! Eu vou ter que tirar seu notebook... é pra sua própria segurança!
Sem poder dizer qualquer coisa sem ser interrompida, a garota viu sua mãe carregar debaixo do braço seu notebook e logo depois a encarando com um olhar que misturava, de certa forma, tanto decepção quanto preocupação. Ao passo de que a mulher fechou a porta, Milena fez uma careta e segurou um grito estridente que escapava fracamente do fundo da sua garganta.
A garota jogou-se em sua cama, frustrada. Ao se cobrir com a coberta, percebeu que havia esquecido a joia em cima de sua mesa. Os olhos obsessivos a encaravam com certa ansiedade. No entanto, o cansaço chegava ao ponto de causar até mesmo ilusões em sua visão: a brilhante joia no escuro não parecia passar de nada além de uma luz no final do túnel, cercada por um longínquo breu.
Milena envolveu-se nas cobertas, o coração batendo aceleradamente. De repente, aquela pedra parecia dar a ela tamanhas sensações diferentes, mas a ansiedade era uma aparente consequência de sua própria curiosidade. De certa forma, a garota sentia-se conectada com o artefato. No entanto, essa conexão parecia estar... se desmanchando? Seria paranoia?
Não tinha tempo para pensar nisso. Mas devia. Mas não tinha. Mas devia. Mas...
— Milena...? Milena!
A garota acordou num susto, olhos arregalados. Ouvindo burburinhos, Lena percorreu os olhos pelo ambiente. Qual não foi sua surpresa ao se ver cercada de seus colegas de classe — e posteriormente batendo sua cabeça na parede, já que sua carteira ficava na primeira fileira. A sala explodiu em risos, que abafavam o suspiro solto pelo professor.
Milena esfregou a testa com a mão, ajeitando os óculos e olhando para o homem — que carregava em sua face uma expressão ranzinza. A garota engoliu em seco, repuxando o canto dos lábios atônita e remexendo os ombros. O professor a encarou, cruzando os braços e apontando para a porta. Nela, uma velha senhora de cabelos crespos e ruivos esperava pacientemente na porta.
— Sinta-se em casa. Quer um chá?
Rosalinda era o nome da senhora. Sua sala era completamente colorida e decorada, recheada de tecidos, tapetes, cortinas, flores, bijuterias, e tudo que se podia imaginar. Mesmo assim, aquele poluído arco íris parecia intimidar a maioria dos alunos, incluindo Milena. Era por isso mesmo que, para alguns, a existência dessa sala nem era conhecida. E por isso mesmo que ser chamada nela era tão aterrorizante. Principalmente se você estivesse mal na matéria dela.
— N-N-Não, s-se...
— Ora menina, deixe disso! Eu disse para sentir-se em casa.
Rosalinda puxou um sorriso, mostrando os dentes amarelados e meio tortos. Com toda sua serenidade, ela encostou-se em sua poltrona encapada com babadinhos, segurando uma xícara quente de chá. Ela sorriu uma vez mais, estendendo os lábios pintados de um forte batom rubi. Milena, por sua vez, pressionava os ombros ao seu corpo, com um olhar cabisbaixo. Sentou-se timidamente em uma das duas cadeiras que acompanhavam a mesa cheia de tranqueiras.
A mulher bebericou o chá quente, dando um suspiro de satisfação logo após terminar seu pequeno gole; colocou a xícara de lado na sua mesa, e pôs se a apoiar os cotovelos nela; cruzando os dedos e pousando o rosto sobre os mesmos. Ela encarou Milena diretamente, fazendo com que a jovem ficasse um pouco desconfortável. Percebendo isso, Rosalinda soltou uma risada e encostou-se novamente na poltrona, cruzando os braços. Puxou outro sorriso sapeca, enquanto Milena evitava olhar diretamente para a senhora.
— Não quer "memo" chá, minha linda?
— Não gosto de chá, d-desculpa.
Rosalinda a encarou com um olhar debochado, que fez com que a menina gelasse mais um pouco. Murmurou um "que pena" e bebeu mais um pouco de seu chá.
Milena pousava as duas mãos sobre suas coxas, apertando os punhos e com os ombros um pouco flexionados para cima. Ela respirou profundamente; e tentou se recompor, abrindo as mãos, abaixando os ombros e tentando olhar para a professora. Ainda assim, ela transmitia um pouco de receio.
Finalmente, a mulher posicionou-se afrente, cruzando os braços uma vez mais; porém, colocando-os em cima da mesa dessa vez. Pigarreou, e puxou uma folha alva de sulfite para o centro da superfície.
— Vamos começar... Milena, né mesmo?
— Isso...
— Bem Mileninha — ela ajeitou alguns papéis que estavam de lado — aparentemente a senhorita não anda muito bem na minha matéria, né? Pode me dizer o... porquê?
Milena puxou a gola da camisa com o dedo indicador direito, engolindo em seco. Ela desviou o olhar, flexionando novamente os ombros e apertando o punho da outra mão. Sua perna direita começou a tremer com o nervosismo, e a garota rapidamente colocou a mão esquerda sobre ela. Rosalinda soltou outra gargalhada, e logo depois suspirou. Ela levantou-se de sua poltrona, e colocou a mão no queixo de Milena — que arregalou os olhos.
— Não fique nervosa minha linda, 'tamo aqui justamente pra discutir isso.
— Ahn?
— Bem, eu vi que a mocinha não copia nada e nem desenha; faz todas as matérias, menos a minha... se não tem um porquê, vamos te dar um.
Ela sentou-se; tomou outro gole de chá, e colocou um lápis em cima da folha sulfite, a empurrando para a garota
— Do que você gosta de fazer?
Milena desviou o olhar, colocando a mão sobre o queixo e pensando. sua mente pareceu clarear por um momento, e ela puxou o lápis rapidamente, desenhando algo. Entre um momento e outro, a garota parava para pensar mais um pouco — ou para corrigir alguns erros. Alguns minutos depois, levantou os olhos para Rosalinda, e girou a folha de modo que ficasse de frente para ela.
No papel, Milena desenhara uma típica garota de anime. No entanto, suas habilidades com desenhos não eram lá muito avançadas. O que parecia ser era que a garota tinha uma saia com babados, olhos de estrela, vários enfeites e segurava um cajado de coração com asinhas. Ela possuía botas altas com um belo salto, e de seu cajado emanava uma magia com vários brilhos.
Rosalinda colocou a mão sobre o queixo, observando o desenho com certa inquietude. Ela puxou sua xícara de chá, no entanto, sem desviar os olhos do desenho; e bebeu o resto do líquido, pingando uma gota de chá na folha sem querer — o qual ela rapidamente tampou com a mão. Rosalinda encarou Milena novamente, com um sorriso amarelo no rosto. Isso assustou um pouco a garota.
A professora se recompôs, pigarreando e olhando mais um pouco o desenho. Ela abriu a terceira gaveta, e ficou um certo tempo revirando as coisas lá dentro. Com brilho nos olhos, Rosalinda soltou um "arrá!" e colocou uma joia sobre a mesa.
Tão brilhante quanto a opala cor de céu, em seu interior, a joia possuía diversas cores: azul claro, escuro; laranja, rosa, vermelho, amarelo. Ao que tudo indicava, o pôr do sol estava pintado dentro da pedra.
Milena a encarou com tamanha admiração, e o artefato fez seu coração palpitar como com a outra joia. Rosalinda puxou os lábios num largo sorriso, e colocou a pedra sobre o desenho.
— Eu acho que só falta isso pra ficar perfeita, né?
A garota observava a situação com muita admiração. Ela sorriu leve e instintivamente, aproximando sua mão da joia de forma lenta. Conquanto, antes que pudesse toca-la, foi interrompida por Rosalinda, que colocou sua mão sobre a da garota. Milena olhou para a mulher, um pouco atônita. Rosalinda, por sua vez, sorriu uma vez mais, e segurou a pedra, a encarando e posteriormente a chacoalhando. Ela arregalou os olhos, sorrindo, e encarou Milena.
— Você tem um futuro... brilhante! Certamente não precisa da minha matéria... mas sim... disso.
A mulher segurou a mão de Milena, e colocou a pedra nela, logo em seguida a fechando. A garota, antes cansada, sentiu um aliviamento instantâneo — semelhante ao da outra pedra. Ela arregalou os olhos, os piscando rapidamente e olhando para Rosalinda, que riu uma vez mais.
— Vá, pequena, faça sua vida... faça seu sonho!
Milena levantou-se, empolgada, e agradeceu da mesma forma que as pessoas fazem no Japão. O comportamento fez com que Rosalinda estranhasse um pouco, que ignorou isso e abanou a mão para a garota, dando tchau. Lena abriu a porta, e voltou correndo para sua sala — fazendo com que o vento fechasse a porta ele mesmo. Não só por empolgação, mas por constrangimento do que tinha feito também. Heh.
Ela a segurou perto de seu peito, e sorriu, aliviada... porém, com uma certa dúvida na cabeça, da qual nem ela mesma sabia o que era.
Antes que entrasse na classe, Milena escondeu a joia ao colocar os braços atrás das costas. As pessoas estranharam o comportamento da garota, ao andar de lado tentando esconder o artefato. No entanto, acabou esquecendo que as pessoas que sentavam na mesma fileira que ela ainda viram a pedra, já que ela fez seu caminho até a penúltima carteira da fileira, sentando-se na cadeira dela.
Milena logo guardou a joia rapidamente em sua mochila, fazendo com que as pessoas se desinteressassem com o que ela estava escondendo e voltaram a seus hábitos cotidianos. Com exceção das que viram o que era.
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