Magia, luz e trevas
1 Cap 1 - As Novas Ameaças
Notas iniciais
Nico não conseguia parar de olhar para Lucas. Sentado na varanda da Casa Grande, o magricelo e pálido filho de Hades observava o jovem de cabelos loiro queimados e corpo atlético, enquanto este mostrava toda sua habilidade com arco e flecha no topo da colina Meio-Sangue. O garoto disparava contra protótipos voadores criados pelos filhos de Hefesto. Era um recém-chegado e tinha catorze anos, um ano a menos que Nico (desconsiderando que seu nascimento fora, na verdade, antes mesmo da Segunda Guerra Mundial).
Lucas parou por um momento seu treinamento e, avistando Nico na varanda, abriu um sorriso charmoso e acenou. O semideus retribuiu o cumprimento e lamentou não estar perto o suficiente para ver as típicas 'covinhas' do novo amigo.
– Gosto da ideia de vocês juntos! — anunciou Piper, às costas de Nico, que enrubesceu imediatamente.
– Eu não... — começou a dizer.
– E você sabe que esse sentimento numa filha de Afrodite significa esperança! — a semideusa continuou, sentando-se ao lado de Nico.
Piper usava uma trança belíssima enfeitada com penas brancas, dando um charme especial a seus trajes do acampamento. Mantinha um sorriso meigo no rosto e olhava para o amigo com ternura, como se dissesse: “sei que é um assunto delicado, mas pode confiar em mim em questões do coração, ok?!”
O garoto resolveu aceitar silenciosamente o pedido silencioso por um voto de confiança.
– É estranho porque... ele é um filho de Apolo! Deveria ser esse cara brilhante que toca instrumentos o dia todo e adora ser o centro das atenções. O que certamente não combinaria comigo! Mas ele não é assim. Na verdade, se parece bastante comigo. Vejo sofrimento nos olhos dele, um certo... sentimento de exclusão. Deuses, ele nem é bom com música ou poesia! E ainda é mais baixo e magrelo que qualquer filho de Apolo. Meu ponto é: ele me entende, porque também se sente deslocado e diferente. Me sinto bem quando estou com ele.
– Mas vocês são só amigos.
– Sim. — disse, não conseguindo esconder seu desapontamento.
– E você sentiu essa conexão desde o dia em que o ajudou a cruzar os limites do acampamento, não é?!
Pronto. Toda a intenção de 'se abrir' com Piper sumiu com a lembrança daquela noite. Nico arriscara a confiança de seu pai e agora tinha um deus ceifeiro de vidas com rancor dele. Tudo pelo que fizera para manter Lucas vivo.
O semideus se levantou rapidamente, evitando o olhar da amiga, cheio do charme que o fazia se sentir tão confortável. Sabia que o poder de Piper poderia 'baixar sua guarda' a ponto de fazê-lo contar seu segredo.
– Obrigado Piper, mas estou realmente cansado. Depois falamos mais sobre isso.
– Nico, espere!
Mas o garoto já não prestava mais atenção à amiga. Desceu a escada da varanda apressadamente e seguiu em direção ao seu chalé. No caminho, olhou uma última vez para Lucas, certificando-se de que continuava ali, vivo. O filho de Apolo estava sentado à base do pinheiro, recolocando suas flechas na aljava e acariciando o dragão Peleu.
Como já se passara uma semana, a preocupação de Nico já diminuíra. Mas ainda assim, não tinha uma só noite em que não sonhasse com seu amigo sendo levado por...
Percy Jackson surgiu a frente do filho de Hades, fazendo-o voltar a realidade. Estava todo suado e sujo, a blusa rasgada e o cabelo desgrenhado. Para Nico... lindo.
– Hoje é aniversário do George do chalé de Hermes.
Nico não fazia ideia de quem Percy estava falando, nem porque lhe dizia aquilo. Na verdade, estava mais concentrado no sorriso bobo do amigo.
– O que eu quero dizer é que... seria bom ter você jantando com a gente hoje a noite.
Então era isso. Mais uma tentativa de fazer Nico se enturmar. Ele já estava farto disso, mas forçou um sorriso simpático e respondeu:
– Estarei lá.
Em seguida, Percy correu ao encontro de Annabeth e Nico seguiu sua caminhada até o chalé, tentando se convencer de que se reunir à fogueira com os outros não seria tão mau.
Chegando ao chalé 13, o garoto hesitou a porta. Fazia um bom tempo que não se sentia bem dentro daquele dormitório sombrio. Seu interior negro mal iluminado e repleto de imagens do Submundo o fazia lembrar-se do tempo que passara no Tártaro. Mesmo assim, Nico entrou e jogou-se numa das camas cobertas de seda vermelho-vivo. Adormeceu instantaneamente. Pena que adormecer significava sonhar. E para semideuses... isso nunca era bom.
* * *
Nico abriu seus olhos e se deparou com as estrelas. Aquilo o assombrou por um instante, até que raciocinou que deveria estar tendo outro pesadelo.
O garoto sentou-se no gramado e olhou em volta. Logo reconheceu o local. Estava na colina, do lado de fora do acampamento. O silêncio reinava na escuridão da noite, mas seus ouvidos ribombavam com a presença poderosa da Morte.
A sua frente, erguia-se a gigantesca figura de um homem alado. Uma de suas asas estava danificada e seus olhos brilhavam com um ódio mortal.
– Nico di Angelo! — sua voz retumbou por toda a colina, fazendo o jovem se encolher — Não pense que vai sair impune do que fez. Seu feitiço não vai durar muito tempo. E quando o momento chegar, não hesitarei em levar o garoto e me vingar de você!
– Você não pode fazer nada contra mim! — gritou Nico, levantando-se e encarando o oponente.
O deus negro inclinou-se, aproximando seu rosto ao do garoto. Nico imaginou que teria sua alma sugada ali mesmo, através do olhar do inimigo, mas este apenas... sorriu. E ao mesmo tempo, milhares de vozes se manifestaram de todas as direções. Gritos e choros davam a impressão de que o mundo inteiro ao redor dos dois morria dolorosamente.
– Semideus ingênuo. Você não terá a proteção de seu pai quando ele souber o que fez. Apostou alto quando interferiu em meu trabalho. Quebrou regras de uma maneira nunca antes vista. Uma audácia nunca antes demonstrada por um filho de Hades. — o deus aproximou-se ainda mais de Nico, sussurrando em seu ouvido uma última mensagem que resumia tudo — Você vai sofrer!
De repente, o cenário mudou. As vozes desapareceram e Nico estava sentado a mesa com os amigos do acampamento. Seu pavor pela experiência anterior tomou sua atenção por alguns instantes. Só depois que seu batimento cardíaco voltou ao normal, ele percebeu que todos os outros semideuses haviam sumido, a não ser por Piper, Annabeth, Percy, Leo e Lucas, que sentavam com ele. Hazel, Frank e Jason também estavam ali, de pé em volta da mesa.
Todos o observavam atentamente, em silêncio. Subitamente, seus olhos ganharam um brilho sobrenatural, num tom arroxeado. E então, sem motivo aparente, começaram a falar, em uníssono:
– Você enfrentará meu poder logo, filho das trevas. Por isso, desde já, lhe aconselho: simplesmente abra mão de sua arma. É o mais sábio a fazer.
Aquilo tudo era sinistro, mas uma coisa intrigava Nico mais do que a mensagem: a voz que saía das bocas de seus amigos. Era uma voz única e feminina, mas que certamente não pertencia a uma deusa. Soava como uma garota. Determinada e perigosa, sim. Porém, uma simples jovem. Era como se sua irmã o ameaçasse a ficar de castigo.
– O que está para ser feito mudará o mundo que conhecemos, então realmente espero que não se atreva a interferir. Caso contrário...
Nesse momento, Jason, Hazel e Frank desabaram no chão, se debatendo e gemendo de dor. Percy, Annabeth, Piper e Leo tiveram um acesso de tosse barulhento, até que sufocaram sem conseguir respirar e suas cabeças foram de encontro a madeira. Nico estava aterrorizado, mas não conseguia se mexer ou falar. Olhou para Lucas que, ainda com o brilho nos olhos, sorriu e disse na voz desconhecida:
– Lembre-se de não resistir!
Dito isso, o garoto levou uma adaga até o pescoço e o cortou.
* * *
Nico despertou com um sobressalto...
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