Magia, luz e trevas
2 Cap 2 - Uma Nova Profecia
Notas iniciais
Nico despertou com um sobressalto. Alguém chamava seu nome do lado de fora do chalé, mas não conseguia se concentrar na voz nem identificá-la. Disparou em direção ao banheiro e vomitou na pia de mármore preto. Nunca ficara tão nervoso com um pesadelo antes. E olha que sua cota de sonhos ruins já seria suficiente para levar um mortal comum a loucura.
Resolveu tomar um banho para se acalmar e quando saiu do banheiro, enrolado na sua toalha decorada com caveiras, sua mente ainda estava extremamente concentrada nas ameaças do deus alado e da voz misteriosa. Entretanto, não foi difícil perceber o semideus que entrava apressado no chalé. A expressão de Lucas passou de preocupação para constrangimento no momento em que viu Nico em seu traje. Ou melhor, na falta de um. Rapidamente, o filho de Apolo abaixou a cabeça, deu meia volta e deixou o dormitório.
A situação mais vergonhosa e o pesadelo mais assustador de sua vida. Tudo num só dia! Parabéns, Nico di Angelo! Por ser tão azarado, pensou o jovem enquanto se vestia.
Saiu do chalé apressadamente, desejando que Lucas ainda estivesse ali. E estava. O vento frio da noite agitava seu cabelo angelical enquanto andava de um lado para o outro, murmurando em grego antigo e apertando o casaco de aviador contra o corpo. Nico não se importava nem um pouco em vê-lo com seu agasalho, mas o fato mesmo é que não tivera coragem de pedi-lo de volta, desde o incidente na semana anterior.
O garoto loiro parou de repente e disse, nervoso:
– Me desculpe por isso. Sério. Mas faz um tempo que te chamo aqui fora e você não respondia. Então eu decidi entrar, checar se estava tudo bem.
Lucas falava de um modo rápido e atrapalhado, o que fez Nico sorrir. Logo o sorriso foi retribuído e a tensão entre os dois, aliviada.
– Você não está mesmo planejando ir ao aniversário do tal filho de Hermes, não é?! — Lucas perguntou depois de um breve silêncio, como se conhecesse bem os hábitos antissociais de Nico.
– Não mesmo.
– Passeio pelo lago?
– Eu não acho que seja uma boa ideia...
– Ah, vamos lá! Você anda me evitando muito nos últimos dias. E toda noite recusa esse meu convite. Não pretendo aceitar um ‘não’ dessa vez!
– É contra as regras. — comentou Nico, desafiador.
– Sou fã de aventuras. — respondeu Lucas, com um sorriso malicioso.
Pouco tempo depois, caminhavam lado a lado na margem do lago. Nenhum dos dois sabia ao certo sobre o que conversar, então passaram alguns minutos apenas aproveitando a brisa carregada com doces vozes das náiades próximas. Por fim, Lucas foi quem quebrou o silêncio, como sempre.
– Espero que não fique zangado com a minha pergunta, mas... é verdade que você perdeu sua irmã?
Nico olhou para o amigo e, talvez pela primeira vez, não se sentiu indignado ao falar sobre o assunto.
– Sim. O nome dela era Bianca. Morreu numa missão com Percy há alguns anos, pouco tempo depois de se tornar uma Caçadora. — respondeu com tristeza.
Lucas apenas balançou a cabeça, abatido, e falou:
– Também sinto falta da minha irmã.
O comentário surpreendeu Nico. Ele nunca ouvira o amigo mencionar uma irmã antes.
– Fiquei com minha mãe o máximo de tempo que consegui... — começou a explicar — Mas a minha presença a colocava em risco, assim como à minha meia-irmã e ao meu padrasto. Por isso, eu fugi. Passei meses vagando sem rumo pela cidade, me mantendo vivo pela esperança de achar um lugar seguro. Até que Apolo falou comigo através de um sonho, me orientando a como chegar ao acampamento.
– Sinto muito. Imagino como deve ter sido difícil se afastar da sua família dessa maneira. Eu mesmo não suportaria deixar Hazel.
– Difícil, também, foi chegar até aqui vivo!
Lucas fez uma careta e parou de caminhar, passando a encarar Nico.
– O mais esquisito é que não sei como você me salvou. Lembro de estar sendo perseguido por uma empousa enquanto subia a colina e de ter acreditado que aquele seria meu fim. Eu não tinha força suficiente para me defender. E, em seguida, apaguei.
Nico queria, desesperadamente, mudar de assunto. Mas como?
– Quando percebi, já estava a salvo dentro dos limites mágicos, enrolado em seu casaco. O que me lembra...
O semideus tirou o agasalho e o estendeu em direção ao dono. Nico respirou aliviado pela facilidade com que o assunto “aquela noite” deixara de ser o foco da conversa.
– O frio não me afeta como a todo mundo, Lucas. É algo com o qual se aprende a lidar quando o contato com as trevas e com os mortos é constante. Você precisa dele mais que eu, no momento. — explicou o filho de Hades.
– Mas eu também não sou afetado. Tenho meu próprio sistema de regulagem de temperatura. Sou filho do deus quente, lembra?!
Nico ergueu uma sobrancelha, confuso.
– Então por que ficou com ele esse tempo todo?
– Como eu disse, você tem andado meio afastado ultimamente. Pelo menos com esse casaco, seu cheiro esteve comigo a maior parte do tempo. Mas agora você está aqui... e é tudo o que eu preciso.
Lucas soltou o casaco na areia e, com um braço, envolveu a cintura de Nico, lentamente aproximando-o para si. Com a outra mão, tocou a face pálida do garoto, enquanto seus rostos chegavam mais perto (o filho de Apolo era realmente quente!).
Quando seus lábios estavam finalmente prestes a se tocar, Lucas deu um empurrão em Nico que o fez cair há metros de distância, com um baque. A cabeça do semideus chocou-se contra o chão, deixando-o zonzo demais para tentar imaginar o motivo do ataque ou o porquê de seu amigo-que-quase-o-beijara estar correndo de volta à área dos chalés. No entanto, esforçou-se para ficar de pé e correr atrás de Lucas.
Já recuperado, Nico observou o outro semideus entrar no chalé 13 com uma vantagem de, aproximadamente, 20 metros. Imediatamente, o filho de Hades ergueu uma de suas mãos e uma fissura gigantesca abriu-se no chão ao seu lado, liberando três guerreiros que não passavam de esqueletos empunhando espadas de bronze e com os crânios cobertos por elmos.
Nico havia quase alcançado o chalé quando Lucas ressurgiu na entrada, dessa vez empunhando uma espada negra. Seus olhos brilhavam num tom arroxeado e, pelo seu sorriso, poderia se dizer que ansiava por um confronto com os guerreiros esqueleto, que não hesitaram em avançar. Mas uma lembrança terrível alarmou Nico em relação ao erro que estava prestes a cometer.
“Simplesmente abra mão de sua arma. Lembre-se de não resistir! Caso contrário...”
A voz misteriosa o alertara mais cedo sobre aquela situação. Defender-se significava colocar seus amigos em risco. Então Nico ordenou a seus comandados, antes que suas lâminas alcançassem o filho de Apolo possuído:
– PAREM! Deixem-no partir.
Os guerreiros logo abaixaram suas armas e abriram passagem para o semideus, que fingia desapontamento pela batalha não realizada. Ele passou ao lado de Nico e, com aquela voz estranha, sussurrou-lhe ao ouvido:
– Desculpe acabar com seu momento de romance, mas há muita coisa em jogo! E, a propósito, sábio comando.
Em seguida, Lucas correu até o topo da colina, embainhando a espada de ferro estígio de Nico, e ultrapassou os limites do acampamento.
A partir daquele momento, as ações do filho de Hades foram praticamente impensadas. Sua mente raciocinava numa velocidade alucinante, ao mesmo tempo em que se preocupava com seu amigo possuído e nutria um ódio mortal pela desconhecida dona daquela voz.
Primeiro, enviou seus guerreiros de volta ao subterrâneo. Depois entrou em seu chalé e começou a preparar sua mochila preta com tudo o que se espera para uma missão de dias: ambrosia, néctar, roupas, uma adaga que funcionaria como arma reserva.
Deveria avisar a alguém que estava partindo numa caçada por um semideus endemoniado? Não tinha tempo para isso! Deveria seguir pelas sombras? Provavelmente assim não conseguiria rastrear tão bem sua espada. Deveria, então, montar num pégaso? Na Sra. O’Leary?
Por fim, decidiu apenas correr. Talvez pegar um táxi. Usar o modo convencional, pelo menos por enquanto que não conseguia pensar numa solução melhor.
Nico virou-se para a entrada e já ia sair em disparada quando percebeu, com um susto, a presença de uma garota ruiva e alta, parada em silêncio.
– Desculpa, Rachel. Mas não posso explicar o que está acontecendo agora. Hm... Mesmo que eu soubesse o que está acontecendo. Preciso me apressar. Sinto muito mesmo!
– Calma, Nico. — falou rapidamente para o garoto, mostrando as palmas das mãos em sinal de espera, como se aquilo fosse confortante — Não precisa me explicar nada, muito menos se desculpar. Entendo que esteja com pressa. A questão é que... eu não poderia deixar você partir numa missão sem antes dar-lhe meus típicos conselhos confusos com voz de velha.
Nico teria, no mínimo, sorrido diante da piada. Mas isso numa situação normal. Ao invés disso, observou impacientemente enquanto uma sorridente Rachel se dirigia a uma das camas do dormitório. Sentou-se ali e deixou sua mágica acontecer: uma fumacinha verde rondava seus pés e saía de sua boca, o olhar brilhante e vazio encarava o garoto e a voz, que parecia vir da época da criação do mundo, dizia:
No jogo da Morte está, pela vida poupada
Com a Nova Esperança, a feiticeira o aguarda
Magia, luz e trevas, enfim conectadas
E a chance de amar, só com a vitória, conquistada
Meigo, pensou Nico. Mas não foi isso o que disse. Na verdade, murmurou algo parecido com “Obrigado pela parte que me toca”, o que não deixava de soar ingrato.
Sem mais delongas, o garoto disparou porta afora, deixando a garota-oráculo no dormitório.
Já no pinheiro da colina, o semideus parou por um instante e olhou para trás. Todos os campistas festejavam ao longe enquanto ele se lançava em outra tarefa suicida.
– Parabéns, Nico di Angelo! Por ser tão azarado. — disse outra vez para si mesmo.
E sumiu na escuridão da noite.
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