Magia e outras historias
4 Peculiaridades
Notas iniciais
Theresa levantou os olhos, meio abismada. Giovani deu uma olhada pra camisa, outrora intacta e agora desfiada e rasgada em vários pontos, a descartando sem um segundo pensamento.
Alastor também olhou as próprias roupas, empoeiradas e chamuscadas demais pra serem consideradas usáveis. Deu de ombros, deixando os trapos onde estavam.
A loira continuou estupefata, tentando processar as memorias daquela luta. Finn bagunçou seus cabelos, rindo internamente da confusão da garota.
— E ai, filhote, entendeu alguma coisa?
Tess já ia dizer alguma coisa mas desistiu antes mesmo de formar a frase.
— Não.
Finn riu sonoramente, ganhando um olhar fuzilante de Tess por isso.
— Ok, ok, caras, se importam de explicar?
Os dois finalmente se incluíram na conversa, e sem saber por onde começar, depois de um tempo olhando um pro outro, Alastor disse:
— O que você não entendeu?
Eufórica, a garota fez um circulo com as mãos, englobando eles, o terreno baldio que serviu de campo de treinamento atrás deles, o céu e a porra toda, depois disso amassando como se fossem uma latinha de refrigerante e jogando os braços pros ares, como se a latinha tivesse explodido.
— Que raios foi isso?!
Todos os três envergaram uma sobrancelha.
— Isso o que?
— Essa luta! Vocês.. vocês.. o que?!
Eles riram alto, deixando-a mais emburrada ainda. Ainda rindo Finn indicou pro interior da hospedaria. Eles entraram e se sentaram numa mesa qualquer, Theresa ainda tentando processar tudo.
Giovani distraidamente serviu a todos, cortes como era, colocando sobre a mesa queijo, carne e vinho( além de um suquinho de laranja pra Tess) assobiando uma musica qualquer, que logo Alastor entrou no compasso e ate mesmo Finn passou a acompanhar depois de um tempo.
— Ei!
Os homens do lugar a encaram:
— Hum? – disseram em uníssono.
— Vocês podem me explicar a luta?
O gentil Gigi soltou uma risada:
— Pois bem, minha querida, tomando uma abordagem inversa a do Allie aqui, o que você entendeu da luta?
— Eu...nada..
Outra risada. Isso já estava ficando irritante.
— Você conseguiu nos acompanhar? Sabe, seguir nossos movimentos com os olhos?
— Mais ou menos. No começo sim...mais depois de algum tempo vocês estavam brigando rápido demais pra acompanhar e teve uma hora que pareciam que estavam.. parecia que vocês estavam voando.
— Ah sim- Alastor abriu um sorriso orgulhoso- eu de fato estava. Humm..na verdade é mais adequado dizer que eu estava correndo no ar.
As engrenagens da cabeça de Tess estavam superaquecendo, se a fumaça saindo pelas orelhas servia de indicação.
— Ok..Hummm..como eu explico isso..Vetores. Você sabe o que são vetores?
Ela nega com a cabeça.
— Vetores são a forma matemática de representar as Grandezas Vetoriais Físicas. Velocidade, força, quantidade de movimento, tudo isso são vetores. Quando você corre, você esta criando um vetor de velocidade, lembrando que todo vetor tem uma direção e um sentido, sendo direção um traçado imaginário indo pra todos os lados de onde o vetor esta e sentido seria esquerda, direita, etc, ah, e o vetor só tem um sentido por vez. Esta entendo tudo ate agora?
Acenou que sim, arquivando e catalogando mentalmente tudo que Allie dizia.
— Perfeito. Pois então, minha magia é criar e manipular vetores.
— Serio?
— Uhum. Da pra usar isso em basicamente tudo. Agarrar, socar, chutar e mais uma infinidade de “Ar”- disse rindo da própria piada- eu não voei naquela hora. Eu apenas projetei vetores de força pra o chão e a partir dos meus pés. Eu estava literalmente correndo pelo ar. Eu chamo de “Skywalke”, Legal, ne?
— Muito. Mas...- Tess levantou a mão, como se estivesse numa sala de aula-isso da certo sempre?
— Claro que tem suas desvantagens. Eu não vou te falar todas, obviamente, mas é bem chatinho que eu não posso, por exemplo, usar o “Skywalke” em alta velocidade. É a velocidade de uma corrida normal.
— Ué, por que não?
— Você faz ideia do quão insanamente difícil é projetar vetores de força o suficiente pra correr no meio do ar? Não é um mar de rosas, te garanto isso. Projetar vetores de velocidade ao mesmo tempo é complexo demais pra valer a pena numa batalha real.
—Complexo?
— Sim, essa magia, mesmo tendo sido eu a formula-la, tem suas condições que nem eu posso ignorar. Cálculos. Eu tenho que calcular o vetor que eu quero projetar e como ele se aplica num objeto se eu não quero arriscar destruir esse objeto. A maioria das equações necessárias eu faço em segundos, mas tem algumas mais complicadas.
— humm...
— É. Quem diria que matemática ia te ajudar a fazer magia, ne? Tirando essa parte teórica eu posso fazer umas coisas bem legais.
— Tipo o que?- os olhinhos dela estavam brilhando.
— Isso- o moreno levantou um dedo e pulsos milimétricos de energia começaram a escapar dali. Perto dela uma cadeira levantou no ar.
Ela riu boba que nem a criança que era.
Ele intensificou o pulso de energia. A cadeira se esmigalhou como se uma mão gigante a esmagasse, a cor fugia do rosto da garota.
— Instrutivo o suficiente?
Ela acenou que sim, quietinha e pensando com sua mente de criança nas possibilidades. Allie fez uma careta ao notar que, muito provavelmente, assustou a garota. “ah, eu dou um chocolate pra ela depois” pensou ascendendo um cigarro.
Notando o clima pensativo da garota, Gigi perguntou:
— Só isso de duvida, Tess?
— Hummm....e aquelas explosões?
— Explosões?- Giovani envergou uma sobrancelha, confuso.
— O Plus&Mines, Gigi- soprou Finn.
— Ah sim, quer dizer quando eu encostava nas rochas e elas desmontavam?
Theresa confirmou. Em vários momentos durante a luta dos dois, o castanho encostou em rochas ao invés de Alastor e os pedregulhos caíram desmontados como se fossem de lego.
Ele levantou as mãos, deixando as costas de frente pra ela, e energia começou a circular ali, escapando por entre os poros da pele. Depois de uns segundos um + e um – apareceram vistosos nas mãos direita e esquerda, respectivamente.
— É a minha magia. Plus&Mines, como o chefe disse.
A loira voltou os olhões verdes pras mãos dele, analisando atentamente a pulsação de energia latente.
— O que ela faz?
— Tem duas funções principais. A primeira, e a mais simples ate, é transmutar minha energia em eletricidade.
Como que para ilustrar seu ponto veios de eletricidade começaram a escapar pelas mãos dele e ele alisou os cabelos da garota, que reagindo como ao contato com estática, começou imediatamente a levitar.
Ela riu.
— E qual a segunda função?
— Eu posso impor a condição da atração e repulsão a qualquer coisa.
Oh, a carinha de confusa dela foi adorável.
— Calma, querida, eu explico. Ok, você, sabe que todo imã tem um polo positivo e um polo negativo, certo?
— Uhum.
— E assim como polos diferentes se atraem polos iguais se repelem. Minha magia permite que eu imprima em qualquer corpo físico esse conceito. Eu posso fazer com que qualquer coisa atraia qualquer coisa e que qualquer coisa repila qualquer coisa, seja blocos de concreto repelindo ao chão ou moléculas atraindo uma a outra, sendo que minha mão direita impõe atração e a esquerda impõe repulsão.
Mas uma vez como que para ilustrar seu ponto ele catou um garfo da mesa com a mão esquerda, a negativa, e deixou a energia vermelha fluir pelo garfo.
Ela viu primeiro o vermelho infiltrar o garfo e em seguida, Bam! O garfo se espalhou, reduzido a poeira de metal, todos os grãos tentando ao máximo se afastar um do outro.
— Uou..- novamente o braço levantado- mas como da pra usar isso pra lutar?- perguntou lançando um olhar de canto de olho pra Alastor, que tranquilamente tragava seu cigarro.
Giovani sorriu ferinamente.
— já parou pra pensar, querida, que eu posso repulsar os átomos do seu corpo um do outro?
Ela apertou os lábios, pensando, e em seguida ficou branca.
— Se bem que isso também me ajuda a separar elétrons de prótons, facilitando minha alquimia subatômica- divagou o castanho.
— hein?
— Nada, te conto quando for mais velha.
— ta...mas ei, vocês podem me ensinar isso?
Allie e Gigi se entreolharam e a resposta veio em uníssono:
— Não.
— mas..mas..mas..mas por que não? Só vocês são tão fortes? Não é justo assim!- disse fazendo beicinho.
Finn riu, chamando sua atenção ao começar a brincar com seus cabelos, que a esse ponto já tinham voltado ao normal.
— Por que- disse se inserindo na conversa novamente, depois de passar longos minutos pensando no nada- são as Peculiaridades deles.
— Peculiaridades?- arqueou uma sobrancelha, cansada de fazer tantas perguntas.
— Sim. Apesar que todos nos temos magia, e que elas são virtualmente iguais, toda magia tem características diferentes entre si. Quando exploramos essas diferenças e usamos elas na pratica acaba surgindo uma reação diferente. Sua própria magia. Uma magia só sua. Dai que chamaram isso de Peculiaridades. Essas são as Peculiaridades deles e é impossível replica-las. Poderia sair algo ate similar, mas não seria igual de forma nenhuma, entendeu?
— Uhum...
— Então o que ainda esta fazendo aqui? Você não queria ficar mais forte? Vá treinar garota. Quem sabe você não crie uma Peculiaridade tão forte quanto a deles?
Tess, com um sorrisão no rosto, saiu correndo da guilda, indo direto pra casa da sua amiga Anabel, pronta pra contar sobre vetores, e polos e garfos que explodem e o quanto os donos da hospedaria eram fortes e o quanto Alastor era malvado.
...
— Vocês acham que ela ainda vai desenvolver uma Peculiaridade?- perguntou Alastor, oferecendo seus cigarros.
— Talvez. Quem sabe um dia- disse Gigi já com o cigarro na boca.
— Neh...com certeza, e vai seu uma bem forte- rebateu Finn tragando longamente.
— Pode ser, mas nada como a sua, né chefe? Seu “The one for all” — alfinetou Allie.
The one for all, a peculiaridade que replicava e cristalizava a força de todo e cada um que seguia seu portador. A peculiaridade que dava a Finn a força de todas os sete magos rank S que o seguiam, incluindo os dois a sua frente.
Finn deu de ombros, elegantemente.
— Talvez ela desenvolva o The one for all, acima de tudo, eu tenho grandes planos praquela pirralha, sabe?
...
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