Madness
8 Capitulo 8
Winter estava quase a acabar as tarefas. Faltava a entrada, lavar a roupa e fazer o jantar.
Ao chegar à entrada o elevador assustou-a, começou o fazer barulhos e o piscar dos botões. Ela lembrou-se do que Philipe lhe tinha dito: O elevador serve para nos ajudar, não para nos magoar.
A porta do elevador abriu revelando uma garota. Ela era loira de olhos azuis, vestia uma camisola branca com um desenho da Hello Kitty, uns calções de ganga e uns ténis rosa-choque. Pareceu espantada ao ver Winter e com o susto derrubou o saco preto com produtos de limpeza.
A loira recuou e bateu com as costas na porta do elevador, apertou o botão como se a vida dependesse disso.
–O-oque..? — acabou por perguntar a loira- O que fazes aqui?
–Isso pergunto eu, visto que estás a invadir propriedade privada — exclamou Winter calmamente — Podes dizer o teu nome?
–Aurora. E o seu?
–Winter, Winter Wonderland. És amiga do Philipe?
–Conhece o Philipe Hatter? — ela parecia espantada e assustada
–Sim, caso contrario não estaria aqui. — Winter sorriu calorosamente — És amiga do Philipe?
–Sou a neta da vizinha, nós brincávamos juntos quando éramos pequenos. Vim limpar a casa dele, a minha avó pediu.
–Vieste ajudar-me nas limpezas? — Winter pegou na mão de Aurora e sorriu — Sabes lavar a roupa?
Winter puxou Aurora para a sala sorriu abertamente, fechando os olhos como se o sorriso luminosos os encandeasse.
–O Philipe não tem uma máquina-de-lavar?
–Uma quê? — Aurora seguiu Winter até dentro da casa
–Máquina-de-lavar. Não sabe o que é?
–A minha familia não gosta muito de tecnologia, acho eu. Só tínhamos o básico, ou nem isso. — Winter sorriu
–Não é da familia do Philipe? — perguntou Aurora, parecia curiosa enquanto se dirigia à cozinha, ainda de mãos dadas com Winter
–Eu sou uma amiga dele, saí de casa recentemente. Foi má ideia sair de casa sem ter uma para eu ficar, mas eu acho que estava a precisar de sair. Felizmente o Philipe é um santo e me acolheu pelo tempo que eu quisesse. Talvez eu mude de casa em breve.
–Entendo. — foi dito com ironia que logo foi calada mão de Aurora
Um longo e silencioso caminho até à maquina foi quebrado de novo.
– Tem outros amigos sem ser o Philipe? — perguntou Aurora fazendo conversa enquanto não chegavam à cozinha — Se não a ofendo com a pergunta.
–Não, só o Philipe. — Winter falou tristemente — Mas eu espero fazer mais amigos em breve
–Bem, por agora tem dois amigos. — Aurora abriu uma porta nas traseiras da cozinha — Aqui está a maquina.
–Dois?
–Sim, o Philipe e eu. — Aurora sorriu tão luminosamente aberto quanto o de Winter — Mas, se não quiser ser minha amiga, ficarei feliz se ficar feliz com a decisão
–Obrigada, — declarou Winter -por te importares comigo.
Aurora não respondeu, pegou na roupa suja e preparou a máquina e ligou-a, Winter encarou a máquina com espanto enquanto a roupa girava no interior. A espuma branca a decorar a maquina e as roupas coloridas a serem levemente empurradas umas pelas outras. Os rugidos bruscos da máquina e a vibração intensa abraçavam o silencio entre as duas garotas.
–Aurora Sleeping Beauty, o meu nome completo. — exclamou Aurora de repente
–Lindo. Eu sou só Winter Wonderland. Podes tratar-me por “tu”.
–Sério? Que estra… Quer dizer, obrigada. é um nome muito bonito
–Obrigada. — Winter corou ao de leve — Muito obrigada!
Philipe chamou o elevador que estava a ser mantido no andar abaixo do seu. Depois de entrar no elevador percebeu que algo estava diferente, talvez alguém o tivesse limpado e os produtos o estivessem a incomodar.
Ao sair do elevador deparou-se com a porta escancarada, e um cheiro diferente na casa. Um cheiro de Lasanha, de casa limpa e Amores-perfeitos.
–Podes me passar essa mola? — perguntou Winter a alguém — Não chego lá.
–Claro. — respondeu alguém com uma voz feminina — Aqui está.
Philipe fechou a porta e foi ver com quem Winter estava a falar. Passando pela sala, até à cozinha e finalmente chegando à marquise.
–Philipe! — gritaram as duas meninas ao mesmo tempo.
Elas se entreolharam e sorriram uma para ela, agarraram na mão uma da outra e gritaram em coro:
–Bem-vindo a casa, Philipe — Philipe estava a tentar perceber quem era aquela outra menina, tentando arranjar uma maneira de a tirar dali para contar a Winter o que aconteceu, tentando não ficar cego com o brilho do sorriso das meninas e tentando arranjar uma desculpa para meter o dedo naquela Lasanha.
–Quem és tu? — perguntou Philipe olhando a menina lora de olhos azuis
–Aurora Sleeping Beauty. — disse sorrindo — À quanto tempo, Philipe.
–Meu Deus, és mesmo tu Aurora?
–Não, é uma assombração. — respondeu Aurora ironicamente — Dá-me um abraço e cala-te.
Aurora esticou os braços e Philipe abraçou-a, levantando-a do chão e fazendo-a girar no ar. Philipe e Aurora faziam o mesmo quando eram pequenos e isso lembrou-o daquele dia…
–Philipe, olha ali o coelho! — gritou amavelmente a mulher de cabelos puxados em coque, com um vestido comprido roxo-palido — Ali, meu filho!
O pequeno Philipe correu pelo jardim da casa de campo. Vestia um macacão de ganga e uma camisa branca, uns ténis castanhos com meias brancas.
A mãe de Philipe não se importava de limpar a sujeira que o pequeno fazia, na verdade ela dizia sempre que gostava mais de ter um filho travesso que um calmo. Como a casa deles era no campo, havia sempre muita lama, folhas, árvores, entre outras coisas que rasgavam e/ou sujavam as roupas de Philipe.
Helena bordava um laço femenino para a sua convidada, ou melhor, futura convidada. À muito tempo que convidara Lilith e sua filha Aurora, para brincar e tomar chá. Hoje esse dia chegara e como sempre Philipe não estava de todo apresentável, mas Aurora também não estaria depois de brincar com o pequeno. Philipe não era tímido com as meninas, com os rapazes era outra historia. A mãe achava que ele se sentia estranho perto dos outros rapazes, porque eram muito brutos, como os rapazes costumam ser. As meninas eram mais delicadas, tal como Philipe. Mesmo que se sujasse e corresse como se não houvesse amanhã, ele era tão delicado e frágil como uma Amor-Perfeito. Já tinha trazido um lobo bebe para casa porque tinha a pata ferida, depois da sua mãe ter chamado o veterinário e ele ter curado o lobo, Philipe devolveu o lobo à sua respetiva mãe. Ajudou um passarinho a voltar para o ninho, mesmo tendo caído da árvore umas cinco vezes.
Os pensamentos de Helena foram interrompidos por palmas delicadas, só havia uma pessoa que ainda batia à porta assim. Lilith e sua filha Aurora tinham chegado.
–Lilith. — cumprimentou Helena ao ver a amiga — E se esta não é a pequena Aurora. Estás tão grande e bonita que eu quase não te reconheci.
–Helena — cumprimentou Lilith — Vez, eu disse-te que esse vestido iria ficar lindo. Onde está o Philipe?
–Lá fora, o Benny fugiu. — respondeu Helena calorosamente enquanto fechava a porta.
–Quem? — perguntou Lilith olhando para Helena
–O coelho da vizinha fugiu e ele está a tentar pega-lo para o devolver.
–A Senhora Robinson? Ainda é viva? Ouvi dizer que tinha morrido no mês passado. — Lilith sentou-se ajeitando o vestido rasa-palido — Vai brincar com o Philipe, minha filha.
–Não te preocupes, Aurora, podes ir. — o sorriso brilhante de Helena incentivou Aurora
Ao chegar do lado de fora, Aurora não viu Philipe de primeira. Apenas uns abanões nas folhagens e uns barulhos de passos.
–Apanhei-te Benny! — gritou Philipe, aparecendo com o coelho branco nos braços — Oh, olá. És a Aurora, certo?
Aurora recuou quando o menino entrou na cerca e a fechou. Soltou o coelho branco de olhos vermelhos e disse:
–É para ficares DENTRO da cerca, até a Senhora Robinson chegar, entendido? — o coelho olhou para Philipe e começou a saltar por ai — Prazer, eu sou o Philipe.
Aurora recuou mais, batendo com as costas na porta de madeira que dava para o interior da casa rustica. Passado um momento foi Philipe quem recuou e declarou com um tom baixo:
–Eu não avançarei, não te olharei, não te tocarei nem mais te falarei enquanto não me autorizares. — dito isto o pequeno sentou-se na relva e olhou para o coelho que esfregava o focinho rosado.
Após uns minutos Aurora chegou-se perto do menino e quase sem se ouvir perguntou:
–Posso fazer um carinho no coelho? — ela estava vermelha como um pimentão maduro
Philipe não a olhou, nem falou com ela, simplesmente continuava a mirar o coelho saltitante. Aurora agarrou na mãe de Philipe que recuou e ela declarou:
–E-eu…Eu d-dou-te a-autorização. — ela gaguejava de nervosismo e não de medo — P-posso?
–Claro! — Philipe pegou na mão de Aurora levando-a para perto do Benny — Vamos buscar cenouras para lhe dar?
Passaram a tarde inteira a brincar com o coelho, a subir às árvore e a brincar na lama. Horas e horas de risos e diversão infantil, num mundo onde ninguém podia toca-los ou feri-los. Beijados pela Mãe-Terra e abraçados pelo Pai-Univeso.
–Faz quantos anos que não nos vemos? — perguntou Philipe ainda abraçado a Aurora, ele falava muito rápido com a emoção do momento — Tinha tantas saudades. A avó disse que tu vinhas mas eu pensei que ela só disse por dizer e…
–Calma, Lipe. — interrompeu Aurora usando a alcunha de crianças
–Estou calmo, Rora. — imitou-a Philipe fazendo o som de “ro” e não de “rro”, como as crianças costumam dizer “corer” em vez de “correr" — Já vi que conheces a…Onde está a Winter?
–Ué, ela estava aqui mesmo. — declarou Aurora saindo a correr da cozinha — Winter! Winter!
Aurora e Philipe procuraram pela casa inteira até repararem na porta escancarada e no elevador a subir. Winter não usaria o elevador sozinha, apenas se alguém estivesse com ela. Mas se fosse um daqueles monstros não a levariam para cima e sim para baixo, a menos que a Senhora das Rosas, o Senhor Machado e o Lobinho soubessem voar.
O elevador parou no andar da senhora Granny, um pânico horrendo instalou-se no peito de Philipe. Uma coisa era terem levado Winter, qualquer coisa ele arranjava uma maneira de a trazer de volta. Outra coisa era envolver uma velhinha inocente naquele problema.
Os dois chamaram o elevador e Aurora digitou o código da casa da avó. Ao chegarem a porta estava entreaberta, apenas uma fresta para os olhos curiosos espreitarem. Aurora agarrou a porta pela fresta e antes de abrir e entrar perguntou com um olhar muito sério:
–Tu poderias não contar nada do que vires nesta casa?
Philipe já tinha ouvido uma pergunta parecida ultimamente, de Winter, ele respondeu mais ou menos no mesmo tom:
–Eu não contarei, a menos que tu me permitas contar.
–Obrigada, isso é muito importantes para nós. — agradeceu Aurora abrindo a porta e revelando uma casa estilo Vitoriano.
As paredes vermelho-escuras com roda-pés dourados, o teto dourado com cantos negros. Uma casa Vitoriana? Não, uma casa Vitoriana/Gótica. Tinha uma grande poltrona negra e madeira escura virada para uma lareira de madeira escura. Ao lado da poltrona tinha uma almofada vermelha sobre o chão de mármore branco.
No lado direito, tinha uma mesa de madeira escura com vidro no centro, rodeada por cadeiras de madeira mais clara. Uma porta de madeira bege encontrava-se do outro lado da mesa, bem afastada de tudo. Provavelmente a cozinha.
No lado esquerdo, tinha duas portas de madeira bege. Ambas estavam visivelmente trancadas por um cadeado dourado.
–Achas que a Winter está aqui? — indagou Philipe entrando e fechando a porta
–Se a Sábia a viu, tenho a certeza — Aurora já não estava cintilante, estava sombria e melancólica — A minha avó não iria deixar algo tão precioso por ai á solta.
–O quê? — a palavra “preciosa” não fez sentido, tendo em conta que aquela senhora não conhecia Winter
–Ela já te conta, Filho do Chapeleiro. — aquele nome foi dito com o respeito de uma serva perante um rei — Não sou eu que te devo revelar a verdade.
–O quê? — Só isso que vais dizer, pensou Philipe, “O quê?” a tua melhor amiga está a agir de uma maneira bizarra, acabas de descobrir que o teu chefe é um lobo, a tua pequena miúda que não é tua desapareceu e mais mil e uma coisas que tu vais descobrir agora sobre TI e tudo o que tu sabes dizer é “O quê?”.
Aurora abriu uma das portas trancadas e bateu palmas quatro vezes. A porta abriu sozinha, revelando um quarto sem mobília comum de quarto. Tinha uma poltrona igual à da sala, mas branca com madeira escura; uma mesa da mesma madeira, cheia de rolos de papel velhos com fitas vermelhas e selos , livros com capas de couro e papeis amarelados.
–Onde estamos? — as mão de Philipe tremiam perante a resposta
–Isso compete à Sábia revelar-vos. Acompanha-me, Filho do Chapeleiro, vem conhecer a tua verdadeira historia.
Continua…
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