Madness

9 Capitulo 9


Philipe não se lembrava de ter adormecido ou desmaiado, mas acordou numa sala branca e vazia, sozinho. Mas não sentiu medo ou pânico, apenas fascínio e admiração. A nostalgia de um velho quando vê a sua primeira chupeta invadiu a mente de Philipe. Sentiu como se aquele lugar branco, onde nunca esteve, fizesse parte dele.
Um gemido fez-se ouvir à direita, aquele gemido típico de quem acabou de acordar e quer dormir mais “cinco minutos”, que nunca são cinco minutos e nunca são suficientes. Winter estava deitada no chão, com os cabelos espalhados um pouco por todo o lado, em volta do rosto como uma moldura loiro-acastanhada. Parecia tão calma e celestial que era difícil imaginar que era real, naquela posição e com aquela calma, ela era mais Anjo que Humana.
O vestido branco, que ela não vestia antes, moveu-se levemente e os olhos dela abriram, piscando rápida e repetitivamente. Ao abrir os olhos arroxeados Philipe congelou com o sentimento de culpa. Ele tinha trazido aquela maninha delicada e frágil para um mundo que ela não conhecia, deixado-a sozinha numa casa que ela não conhecia e em vez de tomar conta dela ficou a festejar com a amiga de infância (que agora já não parecia tão amigável). Ele era responsável por ela, mas não tinha sido muito cuidadoso, tinha?

–Desculpa… — tinha sido Winter a falar, não Philipe

–Eu devia pedir desculpas. Tu não fizeste nada, és apenas um pequeno floco-de-neve no meio de uma tempestade. — Philipe fez uma pausa olhando tristemente para Winter — E fui eu que te trouxe para o nevão e abandonei-te no meio da queda até ao chão. A culpa foi minha, não tua.

–Philipe eu… — Winter levantou-se de um salto e abraçou Philipe -Eu não devia ter ido com aquela senhora e rapaz, mas eu pensei que…

–Espera. — interrompeu Philipe — Qual rapaz?

Uma porta, que antes não existia, abriu-se e revelou dois rapazes.

–Ei, como estão? — perguntou o de cabelos acastanhados, que trazia na cabeça um pequeno gato listrado da mesma cor que o cabelo — Estão com fome, sede ou algo assim?

–Interrompemos alguma coisa, meus senhores? — perguntou o loiro fazendo uma vénia e puxando o outro para faze-la também — Se preferirem, nós voltaremos noutra altura.

Winter andou devagar na direção do acastanhado e tocou no seu queixo, puxando-o levemente para cima. A surpresa dominou o seu rosto. As palavras saíram mais fracas do que provavelmente ela pretendia:

–Os teus olhos…eles s-são… — ela não acabou a frase, mas também não largou o rapaz que sorria com tanto brilho que quase cegou Philipe

–São iguais aos teus. — concluiu o acastanhado sorrindo como uma criança num parque de diversões- Tal como o meu cabelo e sangue.

–Os irmão são assim, eu acho. — declarou o loiro, finalmente, parando de fazer a vénia — Ou é assim na maioria dos casos.

O gato miou em concordancia e saltou da cabeça do acastanhado para o pescoço de Winter, aconchegando-se como se fosse o lugar mais confortável do mundo.

–Uau, ele só costuma ficar na minha cabeça. Acho que ele sabe que és da família.

–T-tu és mesmo…? — ela estava em choque, respirava com dificuldade enquanto olhava o acastanhado — És mesmo meu irmão?

–Sou. Bem, gémeo na verdade, não fazes ideia de quanto eu esperei por este momento.

–Eu…Eu não acredito que tenho mesmo um irmão, quer dizer…Eu… — no rosto de Winter escorriam lágrimas — Eu…

O acastanhado abraçou Winter com tanta força que Philipe pensou que iria quebra-la, tinha tanto amor no abraço. Viu-se lágrimas em ambos os rostos, lágrimas de amor e felicidade, cada gota impregnada de uma paixão tão grande quanto o tempo e tão profundo quanto um buraco negro. Philipe não confiava inteiramente nos rapazes, mas aquelas lágrimas não eram falsas, aquelas palavras não eram falsas, aquele amor não era falso…
O acastanhado piscou os olhos para afastar o choro, largou Winter e tentou pegar no gato, que não quis saber do acastanhado. Ele abanou a cabeça e disse:

–Vais trocar-me por ela, Felix? Fui eu que te dei à luz ou já te esqueceste? — o rapaz fez uma pausa antes de continuar — Eu sou o Jack Wonderland , aquele rapaz educado demais ali ao fundo chama-se William.

–Prazer em conhecer-vos, meus senhores. — William vez outra vénia seta vez mais baixa, se isso era possível — William Beast, sempre que precisarem da minha ajuda, estarei aqui.

–Eu sou o Philipe, Philipe Hatter. — declarou Philipe falando pela primeira vez — O prazer é meu.

Ambos os rapazes olharam um para o outro enquanto arregalavam os olhos e abriam a boca, como se o nome fosse demasiado surpreendente para ser dito assim, do nada.

–És tu? Tu é o Filho do Chapeleiro? — Jack segurou a mão de Winter e pôs-se à frente, como se a protegesse com o corpo

–Porque toda a gente me chama Filho do Chapeleiro? Alguém me esplica? Foi a Aurora, o meu chef, aqueles irmãos bizarros.

–Que irmãos bizarros? — perguntou Aurora que se encontrava na abertura da porta — Já vi que conheceste o teu irmão, Winter, eu sabia que iriam se dar bem.

–Eu estou feliz por ter encontrado o meu irmão, mesmo não tendo provas físicas que ele diz a verdade. Eu sei que ele é meu irmão, eu sei, mas não consigo saber como eu sei. Podo isso de lado, o que se passa aqui?

–Primeiro: Tu sabes que eu sou teu irmão porque sentes o teu sangue nas minhas veias. — Jack falava calmamente — Segundo: A Sábia vai contar-vos tudo. E terceiro: Acho que o Felix adormeceu no teu pescoço.

Todos riram quando o gato começou a ressonar no pescoço de Winter.
Falaram um pouco, Jack contou a Winter que os pais não estavam vivos. Aurora contou a Philipe que estavam no Palácio Branco. E William contou a ambos que eles conheciam a Sábia, pelo nome de Elizabeth Granny e que na verdade ela não era a avó de Aurora, mas sim uma ancião.
Aurora sugeriu que fossem ter com a Sábia. Winter pegou na mão de Philipe com a mão direita e na de Jack com a esquerda, sorrindo abertamente e seguiu Aurora e William que não se tinham olhado uma única vez.

–Será que a Sábia sabe que ele é o Filho do Chapeleiro? — indagou Jack olhando para Philipe

–Dá para parar de me chamar assim?- pediu Philipe calmamente — Eu tenho nome. Philipe Hatter. Se me tratarem por Philipe eu fico muito feliz.

–Desculpe-o pelos seus modos, senhor Hatter. — desculpou-se William num tom de suplica — Jack não tem trancas na boca e isso às vezes ofende os outros.

–Eu não me ofendi, simplesmente o meu pai não trabalhava com chapéus e como nunca o conheci não gosto de falar sobre ele.

Os rapazes e Aurora olharam para ele com um serto alivio.

–Vamos? — perguntou Aurora abrindo a porta branca — Eu não gosto de fazer a Sábia esperar.

Do outro lado da porta havia um palácio completamente branco com janelas em todo o lado, tinha jardins verdes com rosas brancas lindas e uma fonte com a figura de dois Anjos. Havia um portão dourado que separava o palácio de onde eles estavam. O céu azul e o sol brilhante fizeram com que a agua da fonte brilhasse. O portão estava fechado, mas a porta dourada do palácio estava aberta de tal maneira que parecia querer convidar todos os presentes a entrar.
Ao caminhar para o palácio Philipe olhou para trás e não viu nada, literalmente nada. Nem porta, nem caminho,nem céu ou nuvens. Era como uma tela inacabada.
O portão abriu sozinho, convidando-os para entrar.

–É tão lindo! — exclamou Winter largando as mãos dos rapazes e correndo para a fonte — Os Anjos são simplesmente…magníficos.

–Eu me sinto meio envergonhado eu dizer, mas somos nós os dois. — esclareceu Jack tocando no Anjo feminino com carinho — Esta casa é nossa, foram os pais que a mandaram construir e depois que nascemos eles mandaram fazer esta escultura.

–O que lhes aconteceu? Porque eu não cresci aqui contigo?

–Não lhe compete a ele contar. — declarou Aurora que já estava encostada à porta do palácio — Desculpa, Winter, mas a Sábia pediu que fosse ela a contar.

Winter assentiu, pegando nas mãos dos dois rapazes e entrando na porta.

Continua….