Madness

4 Se apresentam os poderes do ás de espadas


Notas iniciais
Ace é meu ás de espadas por que sim ~

Os pensamentos de Ace corriam em desesperada desordem, e ele tocava a marca marrom que cobria sua canela. A mancha na verdade parecia com uma listra grossa, quase como uma tatuagem indígena. Ele preferia pensar naquilo como uma tatuagem indígena do que como listras de um gato, pelo menos.

Com um suspiro pesado, ele tentou mover os dedos anular e mínimo, notando que mesmo fora do lugar ambos podiam se mover muito bem e exercer perfeitamente suas funções. Ou quase. Ainda desgostoso e confuso, o rapaz abraçou os joelhos, afundando o rosto no peito. Já não bastava toda sua vida ter sido destruída a tão pouco tempo, ele agora havia ficado louco e obcecado por um personagem de um livro infantil? Ridículo.

– Sempre comigo. – Ele resmungou baixinho, balançando a cabeça e passando as mãos nos cabelos negros. – Tudo sempre acontece comigo.

Enquanto distraia a si mesmo com pensamentos de autopiedade, Ace podia sentir o estranho formigamento voltando aos membros e a leveza que indicava que eles já não estavam mais lá. Soltando um palavrão que não seria bonito citar aqui, o garoto tentou tocar nos braços e nas pernas, mas surpresa! Não havia mão com que tocar, nem pernas para encostar. Lágrimas de raiva, medo e mais autopiedade escorriam pelo rosto muito branco do rapaz, indicando a mescla confusa de emoções que se amontoava em seu íntimo. Depois de tantos anos ele teria enlouquecido? Estaria ele sofrendo de alucinações que denunciavam o quanto sentia a falta dos pais mortos em um acidente?

Foi então que o interfone começou a berrar, uma tábua de salvação para o Gato que começava a perder a noção do que era real e do que era imaginário.

– Quem? – Sua voz saiu mais áspera do que pretendia.

– Eu sou... Eu sou Connaweir. – Uma voz que soava como a de alguém extremamente tímido pode ser ouvida vinda do interfone. — E gostaria de conversar com você sobre seus pais. O acidente...

– Você... O que? – Ace não conseguiu evitar de arquejar, não pode evitar o golpe doloroso que essas palavras provocaram em seu peito já destroçado.

– Eu preciso... Eu... Conversar... – A voz do outro lado do aparelho tornara-se aguda e chorosa, denunciando o desespero de seu dono.

– Entre. Sozinho. – Sem conseguir segurar as novas lágrimas, o rapaz dos olhos azuis parou na porta aberta, encarando o corredor vazio a espera do desconhecido.

Quando Conn chegou ao apartamento encontrou um Ace de olhos avermelhados e faces molhadas, indicando que sua explosão de emoções ainda não cessara.

– Quem é você? – O ás perguntou, inclinando a cabeça.

– Connaweir. Connaweir... – O ruivo parou quando notou que não sabia o próprio sobrenome.

– Só Connaweir? – O outro perguntou, piscando os enormes olhos ciano.

– Só. – Connaweir respondeu amargamente. – Eu não sei meus outros nomes.

– Hum... – O moreno estendeu a mão. – Eu sou Ace. Ace Waios.

Com alguma hesitação o chapeleiro apertou a mão de Ace, sentindo um choque gelado percorrer todo o corpo. Que sensação era aquela...?

– Venha, entre. – O gato convidou, meio sem jeito. – É um tanto quanto bagunçado, mas...

– Eu... Obrigado. – Resolvendo-se pela resposta mais curta, o rapaz de olhos heterocromáticos adentrou o apartamento pequeno, sentando-se em um sofá ainda menor que preenchia boa parte do espaço da sala.

Com um suspiro mental de dor e confusão, o anfitrião sentou-se ao lado de Connaweir.

– Então... O que você quer saber? – A pergunta explodiu dos lábios do Cheshire antes que ele pudesse reprimi-la.

– Eu... Tudo. – O ruivo respondeu. Foi então que seu olhar encontrou a mão esquerda do outro garoto, e ele franziu levemente as sobrancelhas. Era impressão sua ou os dedos do garoto eram trocados?

– É um assunto delicado. – Ace não sabia por onde começar, e ao notar o olhar do garoto fechou a mão em um punho, envergonhado de sua nova “deficiência”.

– Lamento. – As bochechas de Connaweir combinavam com seu cabelo agora. – Não sabia que seria algo tão ruim para você.

Lentamente, o garoto de cabelos negros balançou a cabeça e lançou a Conn um sorriso torto.

– Sabe Connaweir, talvez já esteja mesmo na hora de eu falar algo sobre o ocorrido. Diga-me exatamente o que quer saber.

– O que você sentiu? Sabia quem eram meus pais? Como os seus pais eram? Você me odeia? – Conn atirou todas as perguntas em cima de Ace, os olhos desiguais brilhando com nova esperança.

– Eu senti dor. A saudade dói tanto quando qualquer machucado físico. Não, não sabia. Meus pais... Eu os amava. Eles carinhosos, eles me apoiavam. Eram tudo para mim. E por que raios eu deveria te odiar? – O rapaz ergueu as sobrancelhas com descrença.

– Por que eu estava lá e sobrevivi. – O ruivo desabafou, sentindo-se um tanto estúpido depois de pronunciar tais palavras.

– Não, eu não poderia te odiar por isso.

Droga. Droga. Droga.

A sensação que de leveza nos membros estava voltando. E foi então que Ace simplesmente sumiu. Pela primeira vez ele sentia o corpo ali, embora não pudesse vê-lo.

– Onde você...? – Connaweir encarava o ar com espanto, as mãos tateando inutilmente a procura do corpo que já não estava mais ali.

– Eu... Oh. – O moreno não sabia como explicar aquilo, então soltou apenas soltou um risinho nervoso.

– Você parece o Gato de Cheshire! – O ruivo anunciou alegremente. – Opa. Como eu sei sobre...?

– Alice. – Ace respondeu amargamente. – Começou a acontecer depois que eu li Alice.

– Eu suponho que deveria estar assustado. – Conn respondeu pensativamente. – Mas só consigo achar absurdamente normal.

O ás começou a gargalhar histericamente, dando ao chapeleiro um vislumbre de seu enorme sorriso e dos olhos azuis. Estava conversando com alguém tão louco quanto ele.