Madness
5 Talvez devêssemos tomar chá
Notas iniciais
Connaweir encarava a boca e os olhos azuis com interesse, tentando descobrir o motivo do riso e por que aquilo o incomodava tanto. Ace por sua vez ignorava o ruivo, dobrando o corpo enquanto ria mais e mais alto e enxugava as lágrimas que insistiam em escorrer.
Era um riso tão desprovido de real vontade que chegava a doer. Mas ele não podia evitar. Algo em seu interior fazia com que o riso explodisse daquela maneira tão insana. Para ser sincero consigo mesmo, o Gato estava com nojo de si mesmo. Muito nojo. Além de sumir em pleno ar ele não conseguia nem controlar os próprios atos. Emoções confusas giravam na cabeça do rapaz, e mais uma vez Connaweir foi sua tábua de salvação.
– Ace... – O ruivo estendeu a mão. – Calma. Eu estou aqui.
Ace recusou a mão do Chapeleiro, mas agradeceu mentalmente por aquele gesto. Com lentidão, o garoto de olhos azuis começou a recuperar o controle sobre o próprio corpo, até finalmente conseguir parar com o riso ensandecido.
– Eu não sei como fazer para voltar ao normal. – A voz sem corpo parecia extremamente frustrada. – Connaweir, o que eu faço?
– Eu não sei. – Conn respondeu com naturalidade, enquanto dava voltas no lugar onde Ace estava. – Quem sabe se você se acalmar... Ou talvez só deva ordenar ao próprio corpo que volte.
Privando-se de uma resposta azeda, o moreno tentou com todas as forças acalmar a própria mente. Após alguns minutos de um silêncio ele balançou a cabeça, esquecendo que Connaweir não podia vê-lo. Com um suspiro ainda mais frustrado do que o tom de voz anterior, o Gato simplesmente encarou o vazio onde o corpo deveria se encontrar e começou uma discussão mental consigo mesmo, berrando para o vazio dos membros que ele sentia falta da própria carne, berrando que queria poder se ver novamente, berrando que queria o corpo dele para conversar normalmente com aquele garoto tão estranho e ao mesmo tempo tão normal.
Para sua grande surpresa o corpo obedeceu e voltou com um solavanco ao lugar de origem, deixando o ás sem ar.
– Mas que mer... – Ele começou, agarrando o próprio peito.
Connaweir não pensou duas vezes e agarrou o garoto pelas axilas, carregando-o até o sofá. Não foi uma tarefa exatamente fácil para quem praticamente não tinha forças nos músculos após três longos anos de coma, mas o ruivo deu o melhor de si.
– Ás, você está bem? – Ele perguntou, agitado a ponto de trocar o nome do moreno.
–Ás? — Com um olhar torto e sarcástico, Ace assentiu. – Já estive melhor, mas sim, estou bem.
– Ás soa melhor para o Gato de Cheshire. – Connaweir respondeu, inconsciente das palavras que estava proferindo.
– Tudo certo Chapeleiro. – O outro respondeu cinicamente.
– O Chapeleiro Maluco. Absurdamente irônico alguém que não lembra quem é ser intitulado louco. — Connaweir riu baixinho. – Mas aceito o título.
Algo dentro dos dois indicava que nada estava mais certo do que aquilo. Eles realmente eram o Gato e o Chapeleiro. E nada iria mudar aquela memória ancestral encravada em seus “eus”.
– Então eu acho que deveríamos tomar uma xícara de chá. – Ace propôs. – E conversarmos mais sobre essa confusão.
Enquanto o moreno preparava o chá, Conn observava o pequeno apartamento com interesse. O mesmo era atulhado de livros de todos os tamanhos e formatos, desde ficção até política, de romance a matemática, de mangás a história, e assim por diante.
– São muitos livros. – Ele comentou. – Muitos e muitos livros.
– São. – Ace respondeu, distante. Sua mente trabalhava com rapidez surpreendente ao tentar entender por que aquela criatura não estava surpresa por ele sumir em pleno ar e por que raios ele o chamara de Chapeleiro. O moreno não entendia nem parte do que estava acontecendo ali, mas havia entendido que era ligado ao livro de Alice.
– Eu queria ter tido o privilégio de ler todos esses livros. — Tocando a lombada de algum livro absolutamente aleatório, Connaweir suspirou baixinho.
Pena. Pena era tudo o que o garoto de olhos azuis conseguia sentir do ruivo. Aqueles três anos provavelmente fariam muita falta na vida do rapaz.
– Eu posso te emprestar se quiser. – Ele murmurou. – Pegue os que te agradarem e me devolva quando terminar.
– Obrigado. — De costas para o ás, os olhos de Connaweir brilhavam. – Realmente, obrigado.
O tintilar de porcelana batendo em madeira chamou a atenção do Chapeleiro, que imediatamente pegou a própria xícara e tomou um longo gole, ignorando completamente os avisos do Gato sobre o quanto estava quente. O chá era doce e tinha um gosto tão absurdamente delicioso que era impossível evitar.
– É realmente o Chapeleiro. – O garoto de olhos azuis comentou, cheio de ironia.
– Nem brincando diga essas palavras Gato. – Os olhos heterocromáticos se fixaram em Ace com uma pontada de humor.
– É tão estranho e ao mesmo tempo tão certo. – As palavras foram proferidas sem pensar.
– Sim. É sim. Mas algo me diz que não estamos tão longe assim da verdade.
– Claro. Agora só precisamos encontrar os outros personagens. – Ace realmente pensava naquilo. Ele sentia uma imensa vontade de encontrar seus companheiros. Ou quem deveriam ser seus companheiros. Um flash de um sorriso passou por sua mente, juntamente com um perfume delicioso. Seria um deles?
Minutos se passaram em amistoso silêncio, até Connaweir pousar a xícara na mesa e suspirar.
– Creio que seja hora de voltar. – Ele falou, em tom de desculpas. – Mas a minha avó ficou na porta sem nenhuma explicação minha e...
– Não precisa se desculpar. – Os cabelos negros do rapaz voaram enquanto ele balançava a cabeça e erguia uma das mãos. – Eu entendo. Mas venha me visitar de novo, sim?
– Sim, eu virei. – O ruivo prometeu.
E assim ele foi embora, sem uma palavra de adeus ou um aperto de mãos.
– Connaweir! – O berro de Maya machucou os ouvidos do chapeleiro. – Connaweir nunca mais faça isso comigo! Ouviu Connaweir?
O olhar do garoto era distante no momento, e ele finalmente entendia os sentimentos de Ace. Nem sua mente nem seu corpo lhe pertenciam mais. Lentamente seus olhos se focaram na avó, que agarrou as têmporas e soltou um grito indistinto, que mais parecia um uivo. E então começou a murmurar palavras sem sentido e balbuciar sons esquisitos. Era assustador.
A mulher atirou-se no chão e então riu, rolando de um lado para o outro e veias palpitavam em sua testa. Os olhos desvairados e agora estrábicos não fixavam nada e ao mesmo tempo viam tudo, enquanto a risada aumentava o tom e as mãos apertavam mais e mais as têmporas.
Conn estava em choque. O que raios estava acontecendo com aquela bondosa senhora que dizia ser sua avó?
A mesma parou abruptamente de rir e rolar no chão, levantando-se encostando a cabeça na porta do prédio de Ace, para então bater a cabeça com força na mesma. Uma vez, duas vezes, três. O ruivo não sabia como reagir, então agarrou a mulher pelos ombros e tentou arrastá-la dali. Porém Maya não era Ace, Maya não passava os dias trancada em casa lendo livros ou fuçando na internet. A senhora desvencilhou-se do neto com uma facilidade absurda e seguiu batendo a cabeça na porta do prédio, até que a mesma abriu-se e revelou um Ace de olhos arregalados.
– Mas o que raios essa mulher está fazendo?
Foi então que a ficha de Connaweir caiu. Era culpa dele. Ele havia enlouquecido a própria avó.
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