Madness
3 O ás e a cartola
Notas iniciais
Connaweir só percebeu que a senhora o abraçava e embalava murmurando palavras de consolo quando o pranto finalmente cessou e só restaram soluços contidos. Os olhos de cores diferentes encontraram o rosto bondoso da mulher, que lhe apertou contra o peito em uma atitude tanto carinhosa quanto protetora.
– Conn... Eu vou te contar uma história. – Ela pareceu ter pensado muito antes de dizer tais palavras. – Um casal e seu filho saíram para uma viagem de férias. Eles voltavam de uma festa de família e o pai estava um tanto quanto... Embalado pelo vinho. Era noite, a estrada era escura e o carro acabou colidindo com o carro de outro casal. O casal que voltava de viagem não sobreviveu, e a segunda família... Também não. Porém, o filho do casal saiu vivo das ferragens, embora estivesse em coma. Durante três anos esse garoto esteve em coma, até que eu o encontrasse acordado hoje.
O ruivo encarou a mulher em silêncio, tentando absorver a notícia. Três anos de coma? Ele não tinha mais pais? O que ele deveria estar sentindo sabendo que os pais dos quais ele não lembrava haviam morrido? E a outra família? Eles teriam filhos? E o mais importante, quem era aquela mulher afinal?
– Eu... Vou te dar um tempo para pensar. Enquanto isso chamarei os médicos. – A senhora saiu a passos lentos do quarto, deixando a porta entreaberta.
Ao mesmo tempo em que o garoto tentava absorver a notícia, deu-se uma bateria interminável de exames. Após muitos protestos e xingamentos de um furioso Connaweir e uma reação atônita dos doutores para o fato do corpo do garoto estar absolutamente perfeito, foi concedido que ele poderia sair durante a tarde, se a senhora o acompanhasse e ele voltasse para passar a noite no hospital.
– Eu quero saber sobre o casal. – Connaweir soltou, encarando a mulher. – Eu quero saber sobre as pessoas que morreram com meus pais.
– Sobre... Eles? — A mulher pareceu perplexa. – Não quer saber quem eu sou? Ou sobre seus pais?
O ruivo ruminou a possibilidade por alguns momentos, inclinando levemente a cabeça enquanto isso.
– Sobre isso também.
– Eu sou Maya. Sou sua avó. – A senhora suspirou, o peso de muitos anos de lembranças dolorosas parecendo oprimir seus ombros. – E... Bom, o que posso contar sobre eles? Eu os amava muito, e com toda a certeza foi um infeliz acidente. Porém... Bom, aconteceu. Só podemos lamentar.
– Eu não consigo sentir absolutamente nada por eles. Nem dor pela perda, nem lamentar por estar sozinho. Não há nada mesmo, nem interesse. — Connaweir suspirou também, balançando a cabeça. – Mas quero saber sobre esse outro casal. Eles tinham filhos?
– Oh, sim. Ace. – Maya passou a mão pelos cabelos brancos, sorrindo tristemente. – É um bem garoto solitário.
– Quero conhece-lo. – O ruivo respondeu imediatamente, abrindo lentamente um sorriso.
– Você... O que?
– Me leve até lá. Eu quero conversar com ele. – Connaweir parecia agitado, a expectativa de ter seu pedido atendido flutuando a sua volta.
– Eu... Tudo bem. – Maya parecia atônita com o pedido, mas incapaz de recusar ao neto o que ele pedia. – Só... Não sei se ele vai te receber.
– Por que não iria? – O ruivo inclinou novamente a cabeça, o sorriso se apagando.
– Como eu disse, Ace é um garoto solitário e isolado. Ninguém consegue alcançá-lo.
– Não importa. Eu quero tentar mesmo assim.
– Não é tão longe daqui. — A senhora suspirou, balançando a cabeça. – Podemos chegar lá em menos de dez minutos.
– Ótimo.
Enquanto caminhavam, o ruivo encarava a cidade com olhar maravilhado. Ao mesmo tempo em que sabia tudo sobre o que via, ele não conhecia nada. O conhecimento que tinha sobre o mundo não parecia ter sido apagado, apenas suas memórias sobre si mesmo. Era estranho, mas era. E não havia nada que ele pudesse fazer.
Quando chegaram as portas de um prédio pequeno e de aparência antiga, a mulher apertou o número 303 no interfone e esperou.
– Quem? – Uma voz ríspida perguntou.
– Eu sou... Eu sou Connaweir. – O ruivo respondeu, corando. – E gostaria de conversar com você sobre seus pais. O acidente...
–Você... O que? — Um arquejar alto foi ouvido vindo do interfone.
– Eu... Eu preciso. – Connaweir respondeu, a voz tornando-se estridente a medida que falava. – Eu... Conversar.
– Entre. Sozinho. – Ace respondeu, a voz mais ríspida do que o normal.
O ruivo não pensou duas vezes antes de escancarar a porta do prédio e batê-la da cara da senhora atordoada parada ao seu lado.
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