Madness

2 O chapeleiro maluco


O ruivo de olhos heterocromáticos estava assustado. Que lugar era aquele? O quarto de paredes cuidadosamente pintadas de azul lhe oprimia, e um sentimento urgente e desesperado dizia que ele devia sair dali o quanto antes. Mas aonde era o ali? Ele não conseguia lembrar. Aliás, quem ele era? No fundo de sua mente, uma vozinha ecoou o nome Connaweir, que ele supôs que era seu. O garoto soltou um profundo suspiro de raiva e desabou na pilha de travesseiros macios que circundavam a cama, apertando os joelhos contra o peito. Só seu nome não era pista para absolutamente nada (pelo menos ele presumia que aquele era seu nome) e não saber quem era ou o que fazia ali trazia uma profunda sensação de impotência e frustração.

De onde ele vinha? Onde estavam seus pais? Ele tinha pais? Quantos anos ele tinha? Por que estava no quarto azul? Estas e outras milhares de perguntas faziam manobras vertiginosas na mente conturbada do garoto, rodopiando zombeteiramente pela consciência vazia de Connaweir, que ficava cada vez mais desapontado com a situação.

Foi então que a porta do quarto lentamente se abriu, e a senhora vestida de branco pareceu assustar-se ao ver o ruivo acordado.

– Conn...? – Ela perguntou baixinho, tocando o rosto do rapaz e fitando seus olhos desiguais. – Você... Finalmente acordou.

Um olho azul e outro negro se fixaram no rosto da mulher, sem conseguir entender o que ela dizia. Ele estivera dormindo?

A compreensão iluminou o olhar da senhora e uma profunda decepção marcou o semblante cansado.

– Você não sabe não é mesmo? Não sabe absolutamente nada. – Ela concluiu, fechando os olhos marejados. – Oh Conn... Eu esperava tanto...

Connaweir abriu a boca e fechou-a novamente, com medo de magoar ainda mais a senhora que parecia ter tanto apreço por ele e estar tão desiludida por sua amnésia.

A verdade era que as únicas coisas das quais o ruivo tinha certeza no momento era do próprio nome e da necessidade de sair daquele lugar.

– Eu quero chá. – O garoto se surpreendeu tanto com o pedido quanto com a própria voz. Sua voz era linda, levemente rouca e ao mesmo tempo suave. Não havia como descrever. Mas era tão... Dele. – Chá de pêssego.

A senhora pareceu ainda mais surpresa do que o rapaz, mas sorriu e assentiu, levantando da beirada da cama do ruivo e encostando a porta ao sair.

Connaweir começou então a explorar o quarto a partir de sua cama, notando que a parede de seu lado direito era coberta de pôsteres de diversos tipos e tamanhos, desde um time de... Bem, de alguma coisa, até vários desenhos e animes que ele não reconhecia.

A sua esquerda uma bolsa com fluído transparente pingava devagar por uma mangueira que terminava embaixo do lençol que cobria seu corpo. Dominado pela curiosidade, o garoto levantou a coberta o horror da situação ficou claramente estampado em seu rosto. Todo o corpo estava conectado a pequenos tubos para os quais o líquido fluía continuamente.

Um grito escapou dos lábios agora descorados do garoto, e ele tentou desesperadamente arrancar as pequenas agulhas gravadas em sua carne.

A senhora que fora buscar o chá escolheu este exato momento para adentrar o quarto, parando na porta e derrubando a xícara e o bule, que se espatifaram ao encontrar o chão.

– Connaweir não! – Ela gritou, agarrando as mãos do menino. – Não faça isso.

– Eu... Eu estou em um hospital. – O garoto sussurrou, deixando silenciosas lágrimas escaparem ao pronunciar tais palavras.