Made of Stone

61 XLVIII. De todos os remendos do mundo


Notas iniciais
Oi, hihi, que nervoso essa plataforma. Eu tô nervoussa, não tô acostumada com essa versão nova do Nyah, mas mesmo com medo do diferente, vamos mergulhar juntinhos, de mãos dadas, nesse novo ambiente? Hã, dia 9 foi meu aniversário, então presente pra vocês, 1/3 que eu prometi pra dezembro. Espero poder cumprir com os outros dois kkkkkk. E ficou longo, óbvio, eu não sei mais fazer capítulo curto. E tô cansada, não revisei ainda, só terminei e joguei aqui. Agora de madrugada eu reviso e arrumo se tiver erro. Boa leitura! ♥

Eu estou em uma espiral ruim.

Eu admito.

Era um pouco humilhante saber que, agora, não era apenas eu e meus amigos mais próximos que sabiam sobre a causa dessa espiral ruim, mas a minha família também. Se minha mãe sabia, meu irmão também sabia, meu cunhado sabia e certamente meu padrasto sabia também. Mamãe havia apelidado carinhosamente de “coração partido” durante aquela conversa e eu tenho vontade de cavar um buraco para me esconder só de lembrar disso.

O fato é que eu estou em uma espiral ruim nos últimos meses, envolto somente com meu próprio sofrimento e nada mais, incapaz de conviver em sociedade — ou algo menos dramático que isso. Mas agora que eu havia retornado para o colégio, eu admito que as coisas melhoraram um pouco, apenas um pouco, quando eu já não tinha mais tanto tempo para sofrer em silêncio.

Talvez tenha a ver com a volta de uma rotina, com as preocupações comuns colegiais, sobre trabalhos e provas, e nenhuma sobre amores da minha vida indo embora. Agora eu já não conseguia focar tanto na minha dor, porque meu foco era desviado para a maneira irritante que a professora de física mascava chiclete todo santo dia. Ou, então, a professora de literatura e sua insistência em formar duplas involuntárias, pareando-nos com qualquer pessoa que não nossos amigos. Foi assim que fiz um trabalho sobre romantismo com a Cindy, o esteriótipo da líder de torcida que só podia não ter amigos porque um amigo avisaria que ela estuda em um colégio de bairro pobre, portanto, não faz sentido ter o rei na barriga. Ou, então, para a infeliz mania do professor de educação física de me enfiar em esportes com envolvimento de bolas que certamente irão encontrar minha testa em uma velocidade considerável, deixando um galo por uma semana. Querendo ou não, coisas assim me tiravam do meu tormento pessoal interno para o mundo externo com todos seus tormentos à parte.

Acho que está tudo bem em admitir que eu estou meio quebrado, injuriado e manco. E eu aceitei por um tempo, sem saber como tentar mudar a situação, mas com o passar das semanas acho que eu aprendi a tentar me remendar. Pela primeira vez desde que o Alex se foi, eu começava a tentar me remendar aos poucos.

Não que estivesse surtindo efeito.

— Will, pela milésima vez, eu tô bem.

Eu estava a meio caminho andado do colégio, a mochila leve de um caderno só nas costas, o fone de ouvido caído no pescoço, e o celular grudado na orelha.

Will suspirou que ouvi dali.

Eu sei que você tá bem, você tá sempre bem — reclamou, estalando a língua, como se implorasse que eu estivesse mal para variar um pouco. — É que, às vezes, Caleb, é bom não estar. É bom surtar um pouco, chorar um pouco, gritar um pouco. Sabe? — perguntou, soando frustrado, e eu estreitei os olhos. — Tá tudo bem em não estar bem.

Diminuí um pouco o passo, desconfiado. — O que a mãe te falou?

Ela devia ter falado alguma coisa? — perguntou, soando confuso. — Por quê? O que houve?

Suspirei, aliviado, porque ainda que eu houvesse cometido a proeza de chorar no colo da mãe feito uma criança desamparada, isso não queria dizer que os outros deviam saber. E muito menos queria dizer que o Will devia ficar sabendo disso. Minha mãe certamente havia contado sobre o Alex, mas eu tinha uma pontada de esperança que ela tenha deixado de lado a parte sobre o chororô.

— Porque vocês tão sempre de conversinha sobre mim — emendei, embora fosse verdade. — Eu ouço, às vezes.

Will bufou do outro lado da linha.

Alguém tem que estar de conversinha sobre você né, Caleb, já que você não fala — resmungou, frustrado. — A gente tem que falar por você, tentar entender as coisas que você não fala, quem sabe entre duas cabeças a gente consiga desvendar o que se passa na sua.

Engoli em seco, chutando uma pedrinha.

— Já disse que tô bem — insisti, virando a esquina. Então, adicionei, alguns tons mais debochado: — Tô nas mesmas ruas que a gente caminhou a vida toda, acabei de virar a esquina e tô vendo o colégio. — Parei para pensar por cinco segundos. — Também tô usando meu uniforme e trouxe minha mochila, vou encontrar meus amigos logo que chegar, dei um beijo na mãe antes de sair. O que mais você precisa saber?

Will não disse nada por alguns instantes, mas se eu o conhecia o suficiente, ele estava torcendo o nariz.

Grosso — reclamou, e eu acabei sorrindo ao passo que ele fazia uma pausa. — Não preciso saber de mais nada. Só quero que você saiba que agora que eu tô aqui em Lydris, longe de vocês, existe um lado bom nisso. — Franzi o cenho, pensando que não haveria absolutamente nenhum lado bom nisso que não beneficiasse apenas ele. — É que eu também estou longe de tudo e de todos — enfatizou, e eu continuei boiando. — E, se um dia você precisar ficar longe de tudo e de todos, é só me avisar que eu arrumo uma passagem sua pra cá.

Acabei sorrindo quando entendi, assentindo, ao chegar em frente aos portões envelhecidos e tingidos de azul por cima da ferrugem.

Dá um grito e o mano te busca — sentiu a necessidade de evidenciar, com a voz terna. — Tá bom?

Assenti, mesmo que ele não pudesse ver. — Tá bom, Will, vou ter isso em mente.

A partida do Will era constantemente aliviada pelas suas insistentes mensagens e ligações, se eu fosse sincero, às vezes parecia que ele sequer estava longe. E tinha vezes que eu desejava que ele estivesse um pouquinho menos presente, inclusive. Apesar do fato aquecer meu coração, também trazia um gosto amargo à boca, porque eu queria poder esfregar isso na cara de outra pessoa. Eu queria poder dizer a ele que é assim que se deixa alguém que ama para trás: não deixando realmente. Caso contrário, não deveria ser amor.

Mas há muito eu cheguei à conclusão de que o único amor com o qual eu poderia contar, era o amor da minha mãe e do meu irmão.

E, bom, talvez o amor do meu melhor amigo ciumento.

Mason estava, mais uma vez, olhando para o Chris dos pés à cabeça enquanto o grupo estava no meio de uma conversa acirrada no pátio frontal do colégio. O sinal ainda não havia soado e eles estavam ali, ao menos, os que haviam chegado no horário. Volta e meia eu o pegava assim, desconfiado, medindo Chris uma vez mais para garantir que ele era digno de confiança e de um lugar na panelinha. Apesar de que, a julgar por todos os demais, Maze era o único ainda a avaliar.

— Chegou o assunto — comentou Dan, com um sorriso de canto, e eu arqueei as sobrancelhas.

— Vocês só podem ser obcecados por mim — apontei, jogando minha mochila leve no colo do Mason, que estava sentado no banquinho, já que não havia espaço para mais ninguém nele. — Por que eu sou sempre o assunto?

— Porque a gente te ama — respondeu Bex, aproximando-se ao fazer carinho nos meus cabelos.

— Porque somos sedentos pelo seu amor — apontou Korn, descendo uma mão pelo próprio corpo com sensualidade, o que fez todos gargalharem.

Bex riu, apontando um dedo para o namorado. — Guarda o show pra mim.

Os demais torceram o nariz e resmungaram alguns “que nojo”, “não na nossa frente”, “ai, meus olhos” ao passo que os dois se aproximavam feito ímãs a despeito dos demais. Assim que a comoção cedeu, arqueei as sobrancelhas e insisti: — E então?

Grace deu de ombros, apontando o polegar para o Chris.

— Nada, Topher aqui perguntou sobre você.

Desviei os olhos para ele, arqueando as sobrancelhas.

Chris piscou, as bochechas não mais rechonchudas corando, e então deu de ombros também, parecendo sem jeito. Ele estava sentado na beirada no banco, com Grace no meio e Mason na outra ponta. Bex, Korn, Dan e eu estávamos em pé, enquanto Ian e Cristina não haviam chegado, uma grande novidade, eles quase nem estavam sempre atrasados.

— Ah, eu só perguntei se você sempre chega cedo — explicou, quando todos os olhos voltaram-se para ele.

Era uma pergunta coerente, visto que eu raramente me atrasava, e hoje era provável de ser o primeiro dia que eu chegava uns minutos depois que todos, já que eu me demorei na ligação com o Will.

— Ele é privilegiado — explicou Dan —, mora aqui pertinho.

Chris alternou o olhar entre ele e eu, como se para se certificar de que era verdade, e o que deve ter visto em meu rosto confirmou, porque assentiu com um “ah” quase mudo.

— E você, meu bem, mora aonde? — perguntou Bex, referindo-se ao Chris.

Chris deu de ombros. — Agora a gente tá morando em um apartamento, no centro.

— Droga — resmungou Dan em resposta, diretamente para o Korn, e os dois riram.

Korn explicou: — A gente tava apostando se você morava em casa ou prédio, sabe, pro caso da gente precisar de um lugar no próximo rolê.

Bex deu um peteleco nos cabelos do namorado e no de Daniel, simultaneamente, ao estalar a língua. — Vocês só pensam nisso — reclamou —, por isso as notas tão caindo quando o ano mal começou.

Korn então resmungou que não era verdade, Dan concordou, e iniciou-se uma discussão generalizada entre os três, ao passo que os demais riam. No meio disso tudo, senti os olhos de Chris em mim novamente, então os segui automaticamente.

— Não se preocupe — garanti, embora não soubesse se era mesmo isso que deixou sua expressão pensativa —, a gente não é de “dar rolê” com frequência. Nossas saídas, num geral, envolvem assistir filme atirados na casa de alguém e encher a pança com porcaria — resumi bem, embora meu estômago revirasse com a verdade.

Apesar de ser verdade, ainda assim eu tinha noção que havia uma época, não muito tempo atrás, que a gente se envolvia em uns rolês esquisitos com muita gente, envolvendo identidades falsas e bebidas alcoólicas. Isso se concentrou quando éramos ainda muito novos, logo que Alex chegou, com a panelinha antiga. E depois de um período meio dormente, ano passado com os aniversários de quinze, também veio à tona.

E tudo por conta do Alex.

Mas agora ele não estava mais aqui, e os rolês se tornaram mais e mais tediosos e sedentários, e nada aventureiros.

— Talvez ele não esteja preocupado — sugeriu Mason, ao ouvir nossa conversa, antes que Chris pudesse responder. — Talvez ele prefira rolês mais loucos.

Chris piscou, balançando a cabeça de um lado ao outro com rapidez, e inclinou o corpo para frente para poder olhar diretamente para o Mason.

— Não — verbalizou, soltando um riso nervoso. — Não posso dizer que algum dia eu tive um “rolê louco” — riu, e eu acabei sorrindo junto. — Eu sou bem caseiro.

— Por quê? — insistiu Mason, arqueando uma sobrancelha. — Por que você é caseiro?

Chris arqueou as sobrancelhas, não esperando a pergunta, e eu revirei os olhos, relanceando Grace, que riu para mim, compartilhando do mesmo pensamento.

— Isso aqui traz um pouco de nostalgia — comentou ela com diversão, comigo, mas Mason ignorou e Chris, sem entender, apenas respondeu:

— Eu não sei — respondeu, soltando outro riso nervoso. — Eu acho que eu só sou mais quieto então gosto de lugares quietos também? — sugeriu, sem ter certeza.

— Mason — reclamei, em tom de aviso, mas ele me ignorou.

— Se a gente quiser sair, você não iria junto então? — Maze insistiu e, dessa vez, os demais pararam sua conversa paralela para também prestar atenção.

Chris novamente negou de um lado ao outro, rapidamente.

— Não, eu iria sim, se vocês me convidassem — respondeu, com um sorriso desconfortável. — Agora eu poderia ir. Eu só... Não é algo que eu faria sozinho — explicou, a voz em um fiapo no final.

— Judiaria — apontou Bex, estalando a língua. — Para com isso, Maze, olha o que tá fazendo com o coitado do Topher.

— Mason — avisei uma vez mais, e os olhos azuis voltaram-se a mim rapidamente com frustração.

— O que foi? Eu só tava perguntando — defendeu-se, estalando a língua. — Você já conhece o cara, eu só tô tentando conhecer também, afinal, é do Número Um que estamos falando aqui. Tem que ter um motivo pra ele ser o número um, no final das contas, você não é amigo de qualquer um — resmungou Mason, em resposta, firmando o olhar no meu.

Revirei os olhos.

Mason acabava de exemplificar seu ciúmes com o apelido que deu ao Chris: Número Um. Depois que eu o apresentei, contando que ele havia sido meu melhor amigo quando éramos crianças, Mason fez questão de ficar doído com a informação. Começou a dizer que ele era o número um, o primeiro melhor amigo, e que estava acima dele por algum motivo. Chris não pareceu se importar, mas ele era uma pessoa genuinamente alegre, então não parecia que se importava com nada realmente. Ele apenas ria, assim como os demais, e verbalizou algumas vezes que achava bonitinho o quanto Mason gostava de mim.

— Olha esse Mason, cara — gargalhou Dan, e Bex deu um tapa nele.

Grace sorriu, virando-se para o Chris. — Não dá bola, Topher —aconselhou, com gentileza. — Maze é assim mesmo, vai durar só uns dias e depois passa.

Chris apressadamente disse que estava tudo bem, que ele não se importava, porque ele realmente era gentil a este ponto. Mason estalou a língua, olhando para mim com o nariz torcido em ciúmes, agora era óbvio o sentimento, dentre todas as coisas. Onde já se viu, pensei, envergonhado pela ideia.

— Todos passamos por isso — enfatizou Dan, com os olhos alargados, entre Chris e Mason, e Grace riu. Ele colocou uma mão acolhedora no ombro de Chris. — Relaxa, Topher.

Algumas confusões ocorreram com os apelidos Chris e Cris, depois que os charás se encontraram, e ficou decidido que passariam a chamar o Chris de Topher apenas e que a Cristina seguiria sendo a Cris, porque não havia como mudar o apelido dela à esta altura do campeonato. Ele concordou sem segundas discussões, inclusive disse que era chamado de Topher por alguns amigos e familiares. Mas eu não conseguia chamá-lo assim, porque eu havia conhecido o Chris por esse apelido e, inclusive, lembro vagamente do choque quando descobri que Chris não era seu nome completo na infância. Ele era Chris para mim e seguiria sendo, não fazia sentido um nome completo como Christopher.

— Eu sou um livro aberto — declarou Chris, com um sorriso, ao olhar diretamente para Mason. — Pode me investigar o quanto quiser, Maze.

Mason definitivamente odiou ser chamado pelo apelido por ele, e eu acabei rindo, pensando que bem feito.

O sinal acabou tocando antes que a conversa continuasse e Cristina passou pelos portões alguns segundos depois, como sempre fazia, para então nos acompanhar até a sala de aula. Ela ficou entre Mason, que tinha um beiço em emburrado, e Grace, que ria contando as últimas novidades a ela. Ian chegou apenas depois que a porta da sala de aula, inclusive, foi fechada, e ele a abriu com um estrondo, sem fôlego, recebendo um olhar azedo do professor.

Algumas coisas estavam em movimento, em mudança constante, algumas desagradáveis e outras nem tanto. Mas eu sentia algum conforto, nos últimos tempos, quando eu pensava que algumas coisas simplesmente nunca mudam.

*

Mais tarde, naquele mesmo dia, eu me peguei viajando novamente. Sempre aconteceu, minha mente vagar por aí quando eu menos esperava, mas nos últimos tempos tem acontecido com mais frequência. Talvez tenha a ver com a espiral ruim na qual eu me encontrava, mas era mais frequente, o que tornava muito difícil me concentrar em coisa que fosse.

Meus estudos que o digam.

Quando saí de Nárnia, onde minha mente estava, tentei prestar atenção no que a professora dizia, algo a respeito de textos descritivos novamente, e eu pensei que era algo bom. Sendo minha nota em literatura uma bosta, havia sido um grande avanço eu ter tirado uma nota boa na descrição que eu fiz de uma pintura de vaso aleatória.

Ok, não era aleatória, aparentemente aquela pintura vale mais do que a minha vida, assim como tantas outras.

— Desta vez, eu quero que vocês façam um texto descritivo sobre alguém que vocês gostem muito — apontou ela e eu subitamente desisti da nota boa. Um vaso era bem diferente de uma pessoa. — Pode ser um familiar, um amigo, um namorado — apontou, com um sorrisinho.

— Tá, mas é tipo o quê? — perguntou alguém do fundo, e nosso colega apelidado de Patolino também perguntou:

— Tipo, a Cindy tem a crina loira e os zóio azul?

Todos caíram na gargalhada, inclusive a professora, embora fosse óbvio que ele só falou daquela forma para fazer os outros rirem. Cindy deu um tapão nos cabelos dele, que chegaram a ir parar do outro lado da cabeça.

— Não — riu a professora. — O texto descritivo da semana passada foi objetivo e impessoal. Desta vez, eu quero que o texto descritivo seja subjetivo e que seja tão pessoal quanto conseguirem. Por exemplo, se eu fosse falar sobre o Tim — disse, referindo-se ao Patolino —, eu diria: Timothé é um menino tagarela — diz, com carinho, e os demais dão risada. — Tem um gosto fenomenal para camisetas de memes e acredita serem apropriadas para o ambiente escolar. — Desviei o olhar para ele, vendo que usava uma camiseta estampada com o meme presunçoso do Willy Wonka de 1971. — Vez ou outra, durante as semanas, Tim consegue fazer um passeio até a sala da diretora. — As gargalhadas fizeram-se ouvir outra vez. — Tim sempre chega atrasado e sua chegada é anunciada lá do portão, antes de entrar na sala, por conta da centena de adoráveis e barulhentos chaveiros de sua mochila. Apesar de deixar o cabelo da diretora em pé, a prof. Bia sabe que Timothé é um menino bom e espirituoso.

Depois de mais alguns instantes de risadas, nos quais eu contemplei que eu tiraria um lixo de nota, mais algumas perguntas foram direcionadas à professora.

— Tá, mas então não é pra descrever a aparência? — perguntou uma colega, confusa. — É mais sobre quem a pessoa é?

— Pode ser sobre a aparência também, não tem problema — acrescentou ela, descartando com a mão como se não fosse preocupante. — Mas independentemente, tem que ser algo subjetivo. Não pode simplesmente dizer: “Tim tem cabelos e olhos castanhos”. — Minha colega piscou, confusa, e eu compartilhei da mesma confusão. — Aqui vai mais um exemplo: “Mamãe sempre usa os finos cabelos louros em um coque familiar e seu cabelo tem cheiro de côco, o que me faz sentir em casa. Seus olhos verdes levam-me à memória de um piquenique no jardim de nossa antiga casa.”

Bom, eu estou fodido.

Para começo de conversa, eu nunca fui bom em escrever coisa que fosse, motivo pelo qual passei em literatura com as calças na mão ano passado. E mais do que isso, eu sempre fui péssimo em entender o que os outros escrevem. A parte de poesia era uma dificuldade imensa para mim, porque enquanto todos pareciam interpretar mil coisas em uma simples frase, eu lia e relia sem entender o básico daquilo. E agora eu tinha que escrever, o que já sou péssimo, algo com teor emocional, pior ainda, em uma descrição abstrata cuja única regra é ser “subjetivo”? Algumas coisas nem pareciam descrição mas narração — e sim, ela explicou a diferença, mas eu ainda não entendi.

E para fim de conversa, bom, eu só conseguia pensar no Alex.

Desde o momento em que ela pediu para descrever alguém, antes mesmo dela chegar na parte de “que vocês gostem muito”, eu já estava pensando nele. E, mais tarde, quando eu sentei para fazer essa tarefa em casa, eu não conseguia pensar em ninguém além dele, ainda que eu encostasse a caneta no papel forçando-me a descrever qualquer outra pessoa. Eu percebi que não conseguiria escrever sobre mais ninguém sem colocar aquilo para fora, que talvez fosse útil jogar no papel o que eu estava sentindo, então eu escrevi. Escrevi com rapidez, sem pensar duas vezes, na urgência de colocar para fora e me livrar do que era ruim, ainda que não funcionasse. A pressa era tanta que eu apenas rabisquei por cima de passagens que eu não gostei ou que pensei doer demais, ao invés de recomeçar, até que estivesse finalizado.

Quando eu terminei e li o que havia escrito, percebi que ficou longo demais e pessoal demais, e eu vi que era uma péssima ideia quando fugiu completamente da proposta da professora. Pessoal e objetivo eram as únicas características da proposta que se mantiveram. E apesar de pessoal haver sido um requisito da professora, definitivamente não era um requisito meu, não quando eu me expunha do avesso.

Suspirei e encarei o papel antes de amassar e jogar fora.

Não há maneira no mundo que eu vá ler aquilo em sala de aula.

Eu teria que inventar algo novo.

Eu penso muito sobre as coisas, mas na hora de colocar em um papel, acaba saindo uma bosta. E agora meter o emocional junto de uma descrição abstrata tornava tudo mais difícil.

Depois de fechar o caderno e procrastinar o dia inteiro, eu decidi sentar e escrever sobre o Mason, visto que meu melhor amigo andava clamando sobre nossa amizade como se fôssemos amantes. Fiz questão, inslusive, de mostrar a ele o texto para amenizar seu ciúmes. Algo saiu do meu texto, algo subjetivo o suficiente para que eu recebesse uma nota boa, mas não o suficiente para fazer os olhos da professora brilharem como quando viu a descrição de Grace sobre o seu pai.

Ah, bom, era o suficiente para mim.

*

Eu realmente estava tentando remendar cada pedaço esmigalhado da minha vida.

E eu não brinquei quando disse que a rotina escolar ajudava e muito na arte de melhorar as coisas, envolvendo-me em trabalhos e lições escolares que obrigavam meu cérebro a trabalhar em qualquer coisa que não martírio próprio. Era, também, o que estava me mantendo próximo aos meus amigos, já que estávamos todos enroscados no mesmo ambiente escolar, e estar perto deles também ajudava muito.

De alguma forma, eu tinha uma estranha certeza de que, não fosse o colégio, eu estaria isolado de tudo e de todos, em um casulo dolorido e solitário.

— Abre a boca.

Minha atenção foi desviada aos dois patetas. Korn tinha um pacote de salgadinhos em mãos e Ian abriu a boca, como pedido, antes que ele tentasse acertar um salgadinho de uma distância de dois metros no máximo. Ele acertou e os dois comemoraram feito imbecis, tendo em vista que antes foi o Ian que tentou e errou cinco vezes seguidas — em uma delas acertou a lente do óculos de Korn, engraxando-a.

Revirei os olhos.

— Amor, abre a boca — pediu Korn, em seguida, para Bex.

Bex sorriu maliciosamente.

— Só quando a gente tiver à sós.

Todos torcemos o nariz em resposta, enojados, e eu me forcei a fisicamente olhar para longe. Eu não sei se é a idade, mas esses dois andavam mais e mais abusados com o passar do tempo, e tal qual pais perto dos filhos, eu me sentia pessoalmente atacado com as obcenidades, se não traumatizado por elas.

— Precisava? — perguntou Grace, com uma careta. — Precisava mesmo?

Bex deu de ombros, com um Korn muito feliz abraçado em seu pescoço, por trás.

Estávamos no chafariz, havendo tido que ter uma pequena briga local por ele quando outra panelinha mais popular havia se formado e o roubado de nós por dias seguidos. Havíamos proclamado nosso poder sobre o chafariz envelhecido, como uma propriedade pessoal, ao chegarmos sempre mais cedo nele e monopolizá-lo para os demais.

Mantivemos isso e tanto mais, embora as coisas mudassem com o tempo. Dei uma olhada ao redor, estando sentado entre Mason e Chris, alguns dos nossos amigos sentados ao chão à nossa frente, na sombra daquela velha árvore.

Era muito difícil, às vezes, aceitar que Alex não estava mais aqui. Mas também haviam vezes que eu percebia que o mundo realmente continuava a girar, e algumas mudanças teriam acontecido com ou sem a sua ausência, o curso das coisas simplesmente já encaminhado.

Dan e Grace eram um exemplo disso, porque era tão estranho vê-los tão próximos, embora isso se encaminhasse para acontecer muito antes do Alex ir embora. Que eles óbvia e finalmente estivessem ficando, no ano em que Alex não mais estava aqui, era apenas coincidência. Eu conseguia ver isso. Apesar deles cortarem qualquer pergunta ou piadinha dos demais — ou retribuírem com semelhantes piadas — a respeito deles, todos sabiam que eles estavam meio que juntos.

Ao mesmo tempo, estranhamente, Grace e Ian voltaram a ser o que eram antes. Por um tempo, principalmente no final do ano passado, eles haviam se afastado e ficado estranhas entre os dois — e ninguém havia percebido, acredito eu, ou apenas eu não havia percebido, porque estava envolvido nos meus próprios dilemas pessoais. Durante as férias, no entanto, eles voltaram a se aproximar e foi só quando isso aconteceu que eu me dei por conta que não estava acontecendo antes.

Eles voltaram a implicar um com o outro, fazer picuinhas entre si, odiar-se publicamente quando todos sabiam que não era ódio de verdade, para no fim do dia estarem um ao lado do outro conversando.

Era assim que eles costumavam ser e era assim que eles voltaram a ser, apesar da Grace estar em uma espécie esquisita de relacionamento com o Dan. E por falar nele, Ian parou de implicar — apesar de olhá-lo com rancor vez ou outra pelo canto do olho — e eles se tratavam da mesma maneira que tratavam os demais.

Eu achei tudo peculiarmente curioso.

Além disso, Ian estava esquisito por si só e eu não soube dizer quando exatamente aconteceu porque eu não estava prestando atenção. Ele estava menos idiota, se é que isso faz sentido, e mais sério, a menos que estivesse com Korn. Korn havia adotado Ian, foi como eu enxerguei, depois que o Alex sumiu. Eles pareciam dividir o mesmo neurônio a maior parte do tempo, imagino que encontraram coisas em comum, visto que os dois viviam fissurados em esportes.

Eu imaginei que fosse algo temporário, mas eles seguiam muito próximos. Eu podia falar o mesmo da Grace com a Cristina, porque elas viviam dando rolês só as duas, excluindo todos os demais da equação.

Agora, isso sim era esquisito.

Eu ainda não conseguia entender como as duas podiam se dar bem, mas aconteceu em algum momento das provas finais do ano passado e estava acontecendo até agora. Grace ajudou Cris a estudar e agora elas eram inseparáveis, coisa mais esquisita, e o pior era que elas pareciam realmente gostar uma da outra. Brigavam de vez em quando, e as brigas eram mais feias que as picuinhas que Grace tinha com o Ian às vezes, mas elas sempre voltavam a se falar.

Quanto ao Dan, bom, ele tinha outros amigos além da gente. Ele era meio que famoso agora, sua popularidade crescia com a sua dança profissional e os seus constantes vlogs. Ele era muito ocupado fora do colégio, mas sempre encontrava tempo para ficar com a gente, e quando não estava com todos, estava com a Grace. Em um geral, quando estávamos todos juntos, ele parecia se dar melhor com Bex e Korn juntos, e ultimamente, com o Chris também.

Chris ainda era novo na panelinha, então ainda estava em processo de se enturmar com todos, mas a maior parte do tempo ele apenas colava em mim por algum senso de segurança. Eu entendia, porque se ele fosse o único que eu conhecia em um grupo de amigos, eu também ficaria mais próximo dele. Eu apenas não passava mais tempo com ele, ainda mais quando não estávamos no colégio, porque eu não tinha cabeça para isso e também porque todo meu tempo social livre era consumido por seres irritantemente protetores.

Minha mãe, estranhamente meu padrasto também, meu irmão — mesmo à distância, conseguia ser intrometido -, meus amigos em um geral e, é óbvio, a criatura mais intrometidamente protetora do mundo, que me encarava nesse exato momento por trás de óculos redondos.

Mason, ultimamente, andava quase me perseguindo. Desde que o Alex foi embora, ele tem estado superprotetor comigo e havia passado do modo de ser fofo, agora era apenas irritantemente sufocante. Depois que o Will também partiu, mais recentemente que o Alex, aí sim que a coisa se tornou sufocante. Eu sei que ele só queria ajudar, mas o Mason era exagerado e intenso por natureza, e eu sou o completo oposto, então era meio enlouquecedor. E não ajudava que Cristina agora não estivesse sempre com ele, porque Mason não sabia muito o que fazer consigo mesmo, então na dúvida, ele simplesmente invadia meu casulo dolorido e me tirava de lá por livre e espontânea pressão.

Algumas coisas mudaram e se tornaram bem esquisitas.

Eu andava perdido, confuso, capenga.

Enquanto eu tentava processar tudo o que estava acontecendo com a minha vida, ao passo que tentava deixar com que a ficha caísse, eu também tentava processar que o mundo à minha volta também mudava constantemente. Eu observava tudo de longe, estando envolto por meus amigos mas sem realmente me enturmar, porque isso era o meu máximo no momento e, sinceramente, eu sentia que era o que eu mais precisava. Apenas estar perto deles, envolto por um pouco de normalidade em meio à tanta esquisitice, ao passo que eu tentava me remendar aos poucos.

Eu não tinha certeza se estava funcionando, mas eu seguia assim, apenas observando.

Era uma experiência curiosa, apenas observar todo mundo.

Aquilo me trouxe reflexões pessoais sobre todos, mas também sobre mim mesmo. Eu sempre fui muito observador, relembrei, em algum momento, não é de agora. Deparei-me com questionamentos doloridos, como o porquê de recém agora começar a perceber coisas mais intrínsecas sobre os meus amigos, já que sempre fui observador.

A resposta, obviamente, recaía sobre o Alex. Desde que ele apareceu, ele roubou toda a minha atenção, todos os meus pensamentos, toda a minha observação. Tudo era destinado a ele, desde meus olhos curiosos até meus devaneios extensivos a respeito de quem era Alex, quais eram seus gostos, medos e paixões, e o que o movia. Eu sempre entreguei meu todo a ele. E eu sempre fui muito observador, o que havia mudado era que meu foco de atenção simplesmente havia sumido, desaparecido, perdido.

Agora eu me pegava observando meus amigos.

Eu já não me perdia nele.

O pensamento apertava meu peito, mas eu podia lidar com isso.

Ao mesmo tempo, na ausência de alguém que roubasse minha completa atenção e devoção, eu me pegava com as mãos vazias. Elas estavam livres para agarrar-se no que eu achasse necessário, e isso era libertador.

Eu me peguei deparando-me comigo mesmo pela primeira vez em muito tempo, como se volta e meia, eu me pegasse encarando o espelho — era essa a sensação. E não era apenas porque eu me pegava sozinho mais vezes que antes — ainda que eu estivesse cercado, eu ficava sozinho comigo dentro da minha cabeça -, mas porque, por mais que meus pensamentos seguissem retornando ao Alex, não havia mais nada novo que remoer. As memórias eram todas velhas, antigas, presas no passado, então não havia nada de novo, porque não haviam memórias novas. E eu me pegava, cada vez mais, escaneando-as mais depressa, acabando com a cabeça vazia novamente, composta apenas pelo meu eu. Eu seguia deparando-me comigo.

E isso, certamente, também era esquisito.

Não é que eu me desgostasse, ou que me odiasse, ou qualquer coisa parecida — mas eu também não sentia o contrário, eu não me amava, eu não me gostava. Eu sempre fui neutro com relação a isto, porque eu simplesmente sou, e eu também não sei o que sou. Eu nunca soube quem eu sou, então era esquisito deparar-me comigo, tentando me conhecer mas sem saber por onde começar. Então eu apenas me contentava em apenas estar comigo, sozinho, vinte e quatro horas por dia, enquanto observava os demais.

Às vezes, no entanto, estar próximo deles não ajudava em nada, como exemplificado por Korn a seguir:

— Falando nisso, como é que tá o Alex? — perguntou diretamente para o Ian. — No fim, nossa última conversa inteira foi só troca de memes, não perguntei mais como tão as coisas por lá.

Ian, que já havia devorado o restante do salgadinho sob protestos de Grace, que queria ter comido mais antes dele acabar, apenas deu de ombros.

— Ele tá bem, só tá um pouco estressado com o serviço — comentou Ian, amassando o pacote nas mãos. — Anda brigando muito com o León.

Korn franziu o cenho, forçando a memória. — O amigo dele?

Ian negou, ao mesmo tempo que Mason também balançava a cabeça de um lado ao outro, e respondeu: — Não, o amigo dele é o Lorenzo — especificou. — León é o chefe.

— Coitado — riu Grace, a carranca para o Ian sumindo ao pensar no Alex —, a vida privilegiada não o preparou pra trabalhar como proletariado.

Eles gargalharam, embora fosse óbvio que todos estivessem muito felizes por ele e torcessem muito pelo seu sucesso. Eu apenas sorri junto, ou esperei que aquilo fosse um sorriso, ao passo que me sentia querer me encolher no meu casulo. Como sempre acontecia quando ele era mencionado, eu esperava que o assunto morresse ou se desviasse para outra coisa o mais rápido possível, mas às vezes demorava.

Eu não podia culpá-los, porque por muito tempo eles realmente evitaram o assunto na minha frente, sequer mencionavam seu nome. Só que o mundo gira, a vida segue, e eles não podiam simplesmente fazer o que Alex havia pedido de mim — e de mim apenas -, que era fingir que ele não existia. Ele foi e seguia sendo parte da panelinha, e não fazia o menor sentido que eles vivessem evitando falar ou relembrar de alguém que eles tanto amam.

Não seria justo com o Alex e nem com eles, então sem combinar nada, ele voltou à boca da panelinha quando perceberam que eu não surtaria por isso, embora alguns deles seguissem me observando com curiosidade a respeito da ausência de uma palavra minha sequer. Eu me perguntei se alguns deles já haviam percebido que Alex não tinha nenhum contato de amizade comigo, nem pessoalmente nem por redes sociais. Se eles houvessem percebido, eu me perguntava se saberiam que foi ele que me excluiu de tudo, da sua vida, ou pensariam que fui eu que fiz a proeza de expulsá-lo da minha vida por estar com raiva dele haver partido. Eu me perguntava, às vezes, se ele não havia pessoalmente contado aos demais o que havia acontecido.

Geralmente chegava à conclusão de que não era o caso, e que cada um chegava à sua própria conclusão com relação a nós.

— Ele largou o colégio depois que se mudou? — perguntou Chris, tentando acompanhar a conversa paralela.

Engoli um suspiro pesado.

Como ele havia sido a única e última adição à panelinha, ele era o único que não conhecia o Alex, então era o único com perguntas sobre todos nós. Eu tive que presenciar logo na primeira semana as perguntas dele a respeito do Alex, sobre quem ele era, quem era MJ, quem eram os outros mencionados por todos, da antiga panelinha. Mas só algumas semanas haviam se passado, então logicamente ele ainda não havia colocado o quebra-cabeças junto, esquecendo-se de alguns detalhes e perguntando a mesma coisa algumas vezes.

Eu não o ressentia por isto, eu só...

Eu me sentia cansado.

— Não, foi ele que se formou agora no final do ano com a MJ, lembra? — recordou Grace, paciente, com um sorriso. Chris reconheceu o que ouvia e assentiu com um “ah, é mesmo”. — Agora ele tá só trabalhando mesmo, só que longe de nós. Babaca — resmungou, mas ninguém acreditaria que o tom carinhoso indicasse irritação.

Chris acabou sorrindo. — Vocês devem sentir muita falta — comentou com ela, e eu olhei para longe. — Falam muito dele.

Grace estalou a língua. — Que nada, aquele imbecil não faz falta nenhuma — mentiu, por todos nós.

Chris riu, obviamente captando a mentira.

— De quem ele era mais próximo? — perguntou, e eu disparei o olhar para Grace, que me olhou instantaneamente. — Ou ele era do tipo que se enturmava com todo mundo?

Eu senti meu coração acelerar e desacelerar ao mesmo tempo, se é que era possível, ao passo que ele se apertou no peito. Não foi necessária uma resposta, embora eles houvessem respondido depois de uns segundos de silêncio constrangedor, porque todos os olhos pousaram em mim. Chris obviamente os seguiu até mim, arqueando as sobrancelhas em surpresa, a compreensão recaindo sobre ele.

— Eu, óbvio — respondeu Ian, ao mesmo tempo que Grace dizia:

— Ele era enturmado com todo mundo — respondeu calmamente, me dirigindo um olhar compassivo.

— Até os professores gostavam dele — apontou Cristina, rapidamente, em auxílio.

Chris assentiu, com um sorriso, embora seus olhos se voltassem a mim, mas eu não consegui falar nada, olhando para os meus próprios pés. Se ele percebeu que todos automaticamente fizeram um esforço coletivo para me tirar do holofote que envolvia o Alex, ele não comentou. Chris também não fez mais nenhuma pergunta sobre o Alex o restante do dia e eu, bom, eu acabei me fechando um pouquinho.

Aquilo me revirava o estômago.

A ideia de que todos pareciam saber sobre o Alex e eu, como se houvéssemos estado exposto a todos o tempo todo, era particularmente de dar náuses — principalmente quando eu pensava que eu e Alex nunca houvemos estado juntos. O que tivemos foi algo...

Engoli em seco, sem conseguir finalizar o pensamento.

O que tivemos foi inominável e isso, por si só, dizia o suficiente. Então o contraste em nunca termos tido algo concreto o suficiente para dar um nome e o fato de todo mundo parecer saber a respeito como se sequer precisasse de um nome era perturbador.

Eu me fechei tanto que desviei da conversa até ouvir meu nome novamente.

— A gente pode ir na casa do Caleb — sugeriu Ian, e eu pisquei, voltando-me a ele.

Processei o que havia ouvido e entendi com base nas palavras soltas que eu havia captado que aquilo era sobre o trabalho de história individual que tínhamos que fazer. — Casa de quem? — perguntei, arqueando uma das sobrancelhas.

— Você mora perto, a gente sai daqui e vai até lá. Bora, Topher? — convidou Dan, passando um braço por cima dos ombros dele.

Chris tentou um sorriso fraco em minha direção, já que eu obviamente não havia consentido com aquilo. — Hã...

— Tá, que saco — reclamei, levantando quando o sinal soou para a gente retornar para o restante das aulas. — Vai ser lá então.

— Claro que vai — retrucou Grace, ao meu lado, limpando o traseiro com tapinhas depois de levantar do chão. — Já foi decidido.

Suspirei, olhando para ela com frustração mas, quando ela viu, apenas me dirigiu um sorriso adorável antes de se aproximar e me abraçar de lado enquanto caminhávamos.

— Você ainda mora na mesma casa? — perguntou Chris, dirigindo-se a mim, atrás da gente.

Acabei assentindo, recém dando-me por conta que Chris realmente já havia estado na minha casa antes, mil anos atrás. Eu não lembrava direito, mas acredito que tenha sido vezes suficiente para que ele pudesse realmente conhecê-la.

— Ah, então quer dizer que o Número Um ainda não apareceu na sua casa até agora? — perguntou Mason, empurrando os óculos para cima ao nos olhar de um ao outro.

Revirei os olhos novamente ao passo que Chris abria um sorriso largo, os dentinhos separados à mostra, realmente divertido com o ciúmes do Mason.

— Não, Mason, em pouco mais de um mês que a gente se conhece, ele não foi na minha casa — debochei, e Mason deu de ombros com desdém.

Chris ao meu lado riu, junto do Dan que subitamente tirou o braço do entorno de Chris, aproximando-se de Mason para provocá-lo com diversão a respeito do ciúmes bobo. — Vem cá, Maze, você tá jogando pros dois times agora? — provocou, olhando para ele com travessura. — Vai trocar a Cris pelo Caleb agora?

Os demais riram, e Mason não respondeu, resmungando feito um velho.

— Que trabalho é esse, afinal? — perguntou Korn, olhando de Bex para os demais e de volta para o seu amor.

Bex deu de ombros. — É da turma deles.

Korn arqueou as sobrancelhas acima dos óculos, olhando para Bex com uma falsa frustração e decepção. — Viu só? — perguntou, alto o suficiente para todos ouvirem. — A gente nem saiu do colégio ainda e eles já tão nos excluindo dos rolês. Ninguém nos convidou, você viu, não é? — insistiu, e Bex concordou, também forçando uma careta zangada.

— É isso mesmo, meu amor, é nessas que a gente descobre quem é de verdade — acrescentou, empinando o nariz, e Korn concordou com um beiço.

Acabei rindo, um reflexo dos demais. — É claro que tão convidados — convidei, já que estávamos falando a minha casa. Ao mesmo tempo, Grace dizia:

— Mas venham também, a gente vai precisar!

Cristina acrescentou, ao seu lado: — A gente vai precisar de ajuda mesmo.

O casal, então, se entreolhou rapidamente com um súbito olhar de alarme, também exagerado por encenação. Os dois já estavam se afastando ao se dirigir para a sua sala de aula, um tanto distante da nossa, quando responderam:

— Acho que a gente vai recusar — informou Bex, com um sorriso de canto.

— Sabe que a gente tem um compromisso? — mentiu Korn, com um riso engasgado.

— Depois ainda reclamam! — resmungou Grace, atirando-os a língua como a perfeita imagem da maturidade.

O casal riu, correndo para entrar na sala de aula, longe de nós.

Subitamente paramos porque Ian havia deixado cair o celular no chafariz e voltava para buscá-lo. Eu estanquei, esperando por ele, e Chris também parou ao meu lado, como era de se esperar. Mason e Cristina seguiram em frente, em meio a uma conversa, e logo Grace também quis seguir.

— Vem, vamos — chamou Grace, puxando Dan para longe e ele automaticamente foi, rindo.

Chris inclinou-se um pouco na minha direção, perguntando baixinho: — Tem certeza que eles não namoram?

Acabei rindo, balançando a cabeça de um lado ao outro, ao pensar no que responder. Chris era novo na panelinha e as perguntas inconvenientes o colocavam em uma posição ruim, mas eu conseguia entender que não era sua culpa.

— Conselho de amigo — adiantei, vendo que ele arqueou as sobrancelhas: — Nunca pergunte isso para o Ian ou na frente do Ian.

Chris piscou, os olhos desviando por entre os membros da panelinha, tentando processar a informação, antes de assentir, voltando-os para mim.

— Valeu.

Sorri, dando de ombros. — Por nada.

*

Resultou que os que mais colocaram pilha em virem fazer o trabalho aqui em casa foram os primeiros a dar para trás na hora que saímos debaixo do sol desgraçado do verão. Resolveram que iriam passar em casa antes para tomar um banho e trocar de roupa antes de irem, então restou apenas eu e o Chris.

Sinceramente, não entendi por que ele ainda quis vir. Ele pareceu meio incerto no começo, quase envergonhado — depois de um tempo de análise, cheguei à conclusão que ele realmente era um pouco tímido, algo incomum no nosso grupo -, e chegou a perguntar se eu preferia que ele fosse embora e viesse mais tarde como os outros. Eu neguei, obviamente, e disse que ele poderia vir junto. Durante o caminho, apenas continuamos a conversa do colégio, sobre o trabalho e os professores, bem como a relação estranha do Dan com a Grace, e a maneira como Ian parecia se envolver no meio de tudo isso. E, quando chegamos, o óbvio desconforto de Chris, que já havia amenizado um pouco, deu completo lugar à instantânea animação quando olhou para a minha humilde casa.

— Caramba, eu lembro tanto da tua casa! — informou o que os olhos animados já diziam. Sorri, abrindo o portão para ele. — Tá um pouco diferente mas, em algum sentido, tá igual. Que foda poder vir aqui de novo!

Chris apontou para o canteiro de flores e riu, dizendo que uma memória foi desbloqueada de quando ele tropeçou e afundou no meio das roseiras na hora de ir embora, e foi chorando. Acabei rindo, embora eu não me lembrasse do caso, a história soava familiar. Aproveitei que ele estava empolgado ali fora mesmo e sentei nos degraus de pedra em frente à entrada, onde tinha sombra, atirando minha mochila no chão.

Sorri, achando graça. — Você lembra tanto assim?

Chris voltou os olhos castanhos para mim, amenizando um pouco a empolgação antes de dar de ombros timidamente. — É, me marcou muito.

— Acho que eu lembro um pouco da tua casa também — apontei, forçando a memória. Quando eu pensava no Chris, as memórias mais fortes que eu tinha eram umas duas na sua casa — imagino que eu não fui muitas vezes lá — e outras no colégio. Nunca aqui. — As paredes tinham uma textura meio, sei lá, rugosa?

Chris riu.

— É, parecia um bolo vermelho visto de fora — especificou, e aquilo me trouxe familiaridade também, porque acho que era assim que ele chamava quando criança.

— Isso — concordei, rindo ao estranhar a familiaridade.

Chris tirou a mochila das costas e saiu do sol, sentando-se ao meu lado esquerdo, colocando-a entre as pernas.

— Eu não vou poder te levar lá, porque não é mais nossa — contou, com um sorriso culposo. — Ainda tava alugada quando a gente voltou pra cidade. Mas se um dia você quiser conhecer nosso novo lar, você é sempre bem-vindo — convidou, os olhos límpidos de falsa cordialidade. Acabei sorrindo em resposta. — Meus pais ainda se lembram de você com carinho também.

— É mesmo?

Arqueei as sobrancelhas, piscando algumas vezes, ponderando se eu conseguia me lembrar sequer dos rostos deles mas não obtive sucesso. Na verdade, nenhuma memória da minha infância era muito nítida, pelo contrário, era uma bagunça de borrões que não traziam muita informação, principalmente as de quando era mais novo. Quanto mais longe eu tentava ir nas memórias, menos clareza eu encontrava.

— Uhum — murmurou ele, encostando o rosto no próprio ombro ao me olhar.

— Minha mãe lembra de você também — decidi comentar, vendo-o sorrir. — Quando contei que você voltou, ela lembrou na hora.

— É? — perguntou, encarando-me um pouco antes de se distrair ao dar uma olhada em volta e para a porta atrás da gente. Observei seu movimento com o canto do olho. — Ela tá em casa?

Neguei, curioso com a sua reação, mas dei de ombros.

— Não, tá no serviço.

Chris assentiu, olhando para trás de novo. — E o seu pai?

Talvez eu tenha virado para ele de forma súbita demais a julgar pela sua reação surpresa, mas eu analisei seu rosto, tentando ler o que havia em sua reação. Eu não soube bem o que pensar e o que sentir, exatamente, então decidi apenas perguntar:

— Você lembra do meu pai?

Chris, que tinha as sobrancelhas lá em cima, apenas me olhou com um tanto de surpresa e receio. Apesar de manter o rosto na minha direção, seus olhos olharam ao redor outra vez, como se esperasse que meu pai pulasse detrás de um arbusto a qualquer momento.

— Um pouco, sim, ele causou uma impressão — optou por dizer, o tom de interrogação e preocupação ao mesmo tempo. — Ele... Ele faleceu? — perguntou, com cuidado.

Não tive muito espaço para sentir dó dele, por estar perdido com a minha reação — e devia ter sido uma reação estranha, já que o menino estava agindo como se pisasse em ovos.

— Não sei. — Chris piscou, confuso, e eu expliquei: — Ele foi comprar cigarro.

O rosto dele subitamente contorceu-se em uma careta apologética, um tanto infeliz, ao piscar algumas vezes. — Poxa, Caleb, que merda — falou, sem pensar muito. — Nem sei o que te...

— O que você lembra dele? — interrompi, ainda focado no comentário a respeito de “causar uma impressão”. — Que impressão ele causou?

Chris pareceu ficar meio sem jeito, desviando o olhar ao virar o rosto em direção à rua. Não me passou desapercebido que, apesar do seu desconforto, ele havia relaxado a postura quando descobriu que não encontraria meu pai aqui. Ele pareceu não saber onde colocar as mãos, remexendo-as na alça da mochila.

— Ah — murmurou, vagamente. — Sei lá, eu acho que eu tinha um pouco de medo dele. Não que ele fosse... — Apressou-se em dizer, virando para mim outra vez, sem saber como finalizar. — Não sei também, eu não conhecia ele direito. Eu só.... É só uma impressão minha. — Não pisquei, apenas observando-o com ansiedade, talvez por isso ele continuou, com cautela: — Lembro de algumas coisas que ele disse na minha frente, só isso, não tenho muita lembrança dele. Geralmente quando eu vinha aqui, tava só você e seu irmão. Minhas memórias de infância também não são lá grande coisa — explicou-se, com um riso, sem jeito.

— O que você lembra dele ter dito? — insisti.

Chris perdeu o sorriso ao fazer uma careta, remexendo-se no lugar. — Ah — murmurou, parecido com antes. Mordeu o lábio inferior. — Não pensa muito disso, Caleb, talvez fosse só uma visão infantil da minha cabeça naquela época. Não quer dizer que ele fosse má pessoa ou...

— Ele era — cortei, sem rodeios. — Má pessoa. Ele era — expliquei, vendo-o me olhar com compaixão. — Eu quero saber o que foi que ele disse — insisti, talvez um pouco sério demais.

Chris engoliu em seco e, apesar do calor, a gota de suor formando-se na sua têmpora fez parecer que era por nervosismo. Os olhos de chocolate evitaram os meus por um tempo, enquanto relatava:

— Alguns comentários machistas — apontou, dando de ombros, como se tentasse dizer que não era nada fora do comum. — Algumas falas racistas também — acrescentou, sem coragem de me olhar nos olhos. — Certamente homofóbicas. — Deu uma pausa, observando-me rapidamente, como se para se certificar que eu queria continuar ouvindo, antes de voltar: — A minha primeira impressão dele já foi ruim, talvez por isso tenha me marcado tanto. Naquele dia, eu não vi o seu pai quase o dia todo que passei aqui, acho que ele tava no quarto dormindo. Quase na hora de eu ir embora, ele apareceu na cozinha — apontou, às nossas costas —, onde a gente tava. Foi quando eu o vi pela primeira vez. Ele parecia meio alterado, de mau humor, e foi direto pra geladeira beber água. — Engoli em seco, pensando que não era água. — Ele me olhou de cima à baixo e fez um comentário racista que eu não vou repetir — enfatizou, sério, ao negar. — Em outras palavras, perguntou quem eu era e o que fazia ali. Então ele voltou pro quarto e logo depois meus pais chegaram pra me buscar. Não lembro de muita coisa mais daquele dia, nem se sua mãe tava junto com a gente ou não, só lembro que a vibe ficou meio estranha depois que ele deu uma aparição e eu fui embora com um sentimento ruim.

Quando percebi que ele terminou o relato, pisquei e olhei para longe, percebendo que meus olhos estavam um pouco esbugalhados e vidrados na memória que ele relatava. Era como se eu pudesse imaginar com meus próprios olhos. Senti algumas coisas, um tanto de vergonha também pela maneira que ele foi tratado, e eu quis pedir desculpas.

Mas não consegui, um nódulo na minha garganta.

Chris pareceu perceber e, a voz com um tanto de culpa, apressou-se em dizer: — Mas eu também tenho uma memória um pouco diferente dele. — Desviei os olhos para os seus. — Talvez por isso que eu não levei tão a sério a primeira impressão. Lembro de um dia que ele tava de bom humor, era de tarde e a gente tava aqui fora. Lembro vagamente dele tentar nos ensinar a jogar futebol? — tentou, a voz interrogativa, incerto. Pisquei, alargando um pouco os olhos, como se a memória estivesse na ponta da minha língua e eu quase conseguisse acessá-la. Ou, bem, na ponta da minha consciência. — Eu falei que eu não sabia, que não jogava, sei lá, e ele disse que eu tinha que aprender, como você, que tava aprendendo já desde novinho. Ele disse que homem que é homem gosta de futebol e o filho dele seria um “homem de verdade” — falou, com um riso desconfortável, ao fazer as aspas. Então explicou: — Ele falava esse tipo de coisa, sabe, em tom sério. Acho que era isso que eu não gostava nele também, porque naquela época eu já tava meio ciente que eu gostava de outros meninos. Sabe? — perguntou, e eu pisquei, assentindo. Se Chris já havia mencionado sua sexualidade antes, o que eu supus ser o caso pela naturalidade com que mencionou, eu não estava por perto ou não estava prestando atenção. — E também me marcou que, naquele dia, ou em outro, não sei se isso aconteceu mais de uma vez, você fez um gol nele e ele te ergueu, colocou você sentado nos ombros dele, e comemorou correndo de um lado pro outro. Isso me marcou porque eu pensei: “talvez ele não seja tão ruim quanto eu imaginei”. — Eu assenti e Chris ficou me olhando por um tempo antes de abrir um sorriso fraco e desconfortável, e dizer baixinho: — Mas parece que ele era, então. Sinto muito.

Eu apenas assenti.

Durante todo o relato, eu tive a sensação de estar lá dentro daquela memória, porque ela parecia tão familiar, mas ao mesmo tempo, era estranha o suficiente para que eu me questionasse se não criei a imagem na cabeça com base no que eu ouvia. Ao relatar as falas problemáticas e comentários preconceituosos do meu pai, subitamente veio uma memória, quem sabe inventada pela minha própria cabeça, de uma frase dele. “Eu não vou ter mais um filho viado” ecoou em minha cabeça na entonação da voz grossa, como se fosse tudo, menos invenção da minha criatividade.

Pisquei, tentando forçar mais as memórias, mas tudo parecia borrado e subjetivo demais para que eu tirasse algo concreto disso.

— Desculpa, Caleb — pediu Chris, e eu subitamente lembrei da sua existência ao meu lado. Ele parecia muito arrependido e muito culpado, que eu senti dó. — Eu não devia ter dito nada.

Pisquei, balançando a cabeça.

— Não se desculpe, eu quis ouvir — pedi, descartando, antes de olhar para ele com seriedade. — Encontrei pelo menos uma pessoa que lembra do meu pai e tá disposta a falar dele sem usar frases de efeito vagas sobre isso. Minha mãe e meu irmão não falam dele. Meus tios não falam dele — apontei, referindo-se aos meus tios postiços da casa ao lado, que tanto cuidaram de nós três desde a época que meu pai destroçava a família diariamente. — Não conheço ninguém que conhecia meu pai e que falaria sobre ele comigo. E eu... — Engoli em seco, olhando para longe. — Acho que eu fui esquecendo de tudo aos poucos, sabe? Eu mal lembro de coisa alguma. As memórias que você tem do meu pai, Chris, depois de ter visto o cara, o quê, umas três vezes na vida? — chutei, e ele assentiu. — As suas memórias são mais concretas do que qualquer uma que eu tenha. As minhas são vagas e borradas, esquecidas em algum lugar empoeirado da minha cabeça.

Chris suspirou, parecendo pensar sobre isso.

— Talvez seja por isso que ninguém fale dele — sugeriu, e eu olhei para ele outra vez. — Justamente pra que ficasse mais fácil de você esquecer, já que não eram muitas memórias boas. Talvez seja bom que eu tenha memórias mais concretas do que você. Não acha?

Engoli em seco, franzindo o cenho, antes de negar.

— Não acho — respondi, com um pouco de amargor. — Eu pensava a mesma coisa antes, mas agora eu só consigo... — Suspirei. — Eu discordo — decidi, um pouco surpreso com minha própria resposta.

Chris novamente apoiou o rosto no ombro, inclinando-se na minha direção, analisando-me. Como se não soubesse se devia perguntar, sua voz soou baixinha: — Por quê?

Mordi os lábios, voltando os olhos para ele.

— Porque é a minha vida — murmurei, tão baixo quanto ele, sem saber o porquê. — Eu devia lembrar da minha vida, da minha história, de quem eu sou — apontei, enquanto eu raciocinava sobre isso. — Todo mundo decidiu algo por mim, algo que era minha escolha. Eu devia lembrar, sim, se eu quisesse, não vou morrer disso — defendi, com certo rancor. — Ele se foi, não vai voltar, tudo isso ficou no passado. E má pessoa ou não, eu devia ser capaz de me lembrar do meu pai. Bom, pai não... — Ajeitei a postura, dando de ombros. — Genitor. Que seja.

Chris ficou em silêncio por um tempo, pensativo.

E eu tive tempo o suficiente para ter a decência de me envergonhar pelo que tinha acabado de acontecer. Não importa que Chris fosse o Número Um que Mason tanto fala, vindo direto do meu passado onde conheceu meu eu criança e minha família disfuncional. Para todos os efeitos, eu recém estava começando a conhecer o menino, porque certamente ele agora é uma pessoa completa que eu não conheço, e eu já havia despejado um monte de bagagem pessoal nele.

Eu estava prestes a pedir desculpas, quando ele comentou: — É, eu acho que você tem razão. Mas... — Hesitou, e eu olhei para ele, mortificado por estar sendo consolado e aconselhado por alguém que recém havia pisado na minha casa pela primeira vez. — Nosso cérebro tem uma função específica de lembrar o que é importante e descartar o que não é, porque a gente não é computador, não temos a capacidade de lembrar de tudo o que nos acontece o tempo todo — apontou, e eu franzi o cenho. — E talvez seja um mecanismo de defesa, que você não se lembre, porque seu corpo decidiu que a memória não vai te trazer nada bom. Mas independentemente, se você não se lembra, é porque seu cérebro não julgou importante o suficiente pra lembrar.

Deu de ombros.

Aquilo me deixou pensativo por um bom minuto.

Havia certa lógica no que ele dizia, no entanto, havia o Alex. Ele tentou esquecer a morte da própria irmã por tanto tempo para não ter que lidar com aquilo, e deu no que deu. Provavelmente foi a origem de todos os problemas dele, porque afinal, o mecanismo do cérebro não estava tão certo em agir da forma que agia. E agora ele tinha que tomar remédio e fazer terapia para forçar a cabeça a agir de uma maneira normal. Ou algo parecido, eu não entendi direito como funciona, por mais que ele explicasse.

E, naquele instante, uma ideia aterradora passou pela minha cabeça: e se eu também for uma bomba-relógio, como o Alex foi?

Sacudi a cabeça, afastando o pensamento tão logo surgiu.

— Talvez não seja — murmurei, apenas.

*

Curiosamente, foi naquela mesma noite que eu tive um momento de epifania.

Depois de todos chegaram para fazer o trabalho de história, a gente fez tudo menos o trabalho de história. A intenção foi essa e iniciou como um trabalho coletivo, onde todo mundo — pelo menos isso — decidiu que tópicos seriam discutidos em nossos próprios trabalhos, mas depois se desviou com rapidez. Alguém reclamou de fome, então eu fui para a cozinha fazer algo, e isso logo transformou-se em uma bagunça geral que convenceu a todos de que não era tão necessário assim fazer aquele trabalho hoje, já que tínhamos uma semana ainda para finalizar.

Foi uma ocasião rara, porque todos apareceram, inclusive Bex e Korn, que haviam dito que não apareceriam. Eles foram os principais causadores do caos que se seguiu, porque nos convenceram pouco a pouco a apenas maratonar filmes e comer pipoca, e ninguém foi bobo de trocar isto por estudos.

Eu havia colocado um bolo, que fiz muito rapidamente enquanto me atrapalhavam na cozinha, no forno. Enquanto esperávamos, fiz pipoca suficiente para encher três bacias grandes, apagamos as luzes e colocamos os filmes do Senhor dos Anéis por insistência da Grace. Pouco tempo depois é que meus pais chegaram — quero dizer, minha mãe e meu padrasto.

Eles ficaram na cozinha depois de se trocarem do serviço e eu me deparei com eles quando corri para tirar o bolo do forno, que conversavam quietamente, sentados na mesa da cozinha ao tomar café e observar a turminha fazer bagunça em sua sala pela primeira vez em muito tempo.

Quando retornei para a sala, estanquei momentaneamente no lugar, com os olhos nos meus amigos. Eu os observei rirem, brigarem entre si e conversarem no meio do filme. Eles atiravam-se pipocas uns aos outros nos sofás da minha casa reformada, enquanto um cachorro caramelo corria de um lado ao outro e tentava dividir-se em três para pegar todas as pipocas caídas no chão e engoli-las em velocidade admirável. Atrás de mim, separados por um balcão ao invés de uma parede como era anteriormente, estavam minha mãe e Theodore, parecendo muito satisfeitos ao bebericar seus cafés, com sua casa cheia.

Foi aquele meu momento de epifania.

Eu percebi, quando relanceei minha mãe, que piscou um dos olhos para mim com um sorriso terno, que eu finalmente começava a entender o que ela queria dizer com “vai passar”. Aquilo havia rodopiado na minha cabeça por muito tempo, mas envolto na negativa de que jamais passaria. Eu, agora, conseguia ver o outro lado, embaçado por nuvens de dor e sofirmento, parcialmente visíveis ao longe. As palavras dela significavam que as coisas acabariam se normalizando, e não que ficariam muito bem, apenas que tornariam-se toleráveis. Entre altos e baixos, havia o mediano, e era ali onde eu me encontrava.

Aos poucos, eu sentia que estava conseguindo remendar minha vida, pontinha por pontinha, remendo por remendo, até que estivesse consertada da maneira que dava, que podia, que conseguia.

Cada pontinha que eu soltava daquela metafórica rede de pesca da vida do Alex, para que ele vivesse a vida dele longe de mim, era uma pontinha a mais da minha própria vida que eu remendava para que segurasse a minha própria rede de pesca metafórica.

Ainda que fossem remendos provisórios, eles seguravam firme.

E o resto eu deixava para depois, porque pouco a pouco, eu sentia haveria um “depois” e a ideia não mais me aterrorizava.

Notas finais
Sobre o capítulo, ainda estamos em período de ajuste do Caleb, mas as coisas já começam a andar aqui mesmo, ainda que não pareça pra vocês. Não se assustem, tem muita coisa nova acontecendo - na história, no site, na nossa vida -, mas vamo que vamo que a gente tá junto ♥ Sobre comentários, ainda não tem a opção de responder aqui, então vou ficar devendo. Sobre o Nyah/Plusfiction, tenham paciência que algumas coisas ainda tão sendo arrumadas. Se tiver erro na plataforma de vocês, mandem para o e-mail do criador, com prints se necessário, pra agilizar o processo. Eu sinto falta de algumas coisas, mas cheguei à conclusão de que as coisas novas só vem depois que descartadas as velhas. Às vezes, a gente precisa desapegar pra poder se apegar a algo novo, faz parte da vida, e isso tá bem enlaçado com essa nova fase de MOS também. Mas enfim, tô esperando que a função de avisar que tem capítulo novo ainda esteja funfando. Na parte da edição, tem mt coisa legal, sabia que dá pra adicionar resumo do capítulo antes de lerem e também dá pra adicionar notas do autor em frases e parágrafos específicos? Muito massa, vou testar mais tarde! E não vou nem comentar sobre as notas iniciais e finais serem mantidas, eu cheguei a encher os olhos d'água quando vi (Seiji ia tirar essa função do site, pra quem não sabe), porque né, nem gosto de falar com vocês quase KKKKKKKKK. Apesar de que agr percebi que tem um limite de palavras, então eu tô fu- Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! ♥