Made of Stone
62 Especial - Despejo emocional
Notas iniciais
Alex
Alex
Alex era
Alex é maluco.
Quando eu digo “maluco”, eu não quero dizer no sentido ofensivo da palavra. E também não quero dizer que pessoas com algum diagnóstico são malucas. O que eu quero dizer...
E quando eu digo “maluco”, quero dizer que ele não se encaixa em “normal”, e nada é mais “Alex” do que isto. E nada menos “Alex” me faria sentar aqui para descrevê-lo.
Alex não é nada normal.
Seus olhos parecem buracos negros, mas não são pretos, são castanhos tão escuros que parecem uma noite sem estrelas. E agora que escrevi, percebo que não há nada que descreve o Alex mais do que isto. Ele aparenta ser algo, mas então não é, e quando você olha perto o suficiente, percebe que este algo está ali, tão misturado com o que não está, que os dois se mesclam.
Ele é dois polos opostos em um mesmo corpo.
Ele é contradição ambulante.
Ele tem a mania irritante de nos meter-nos em confusão, tanto as que envolvem fogo e gelo, quanto as que envolvem paraquedas e cigarros roubados. É o tipo de pessoa que tem a ideia de invadir o colégio durante a noite, mas também é o tipo de pessoa que dá no pé na primeira impressão de que seremos pegos.
Alex, resumidamente, é o pior tipo de pessoa que existe. Mas ele também é o melhor tipo de pessoa que existe.
Alex é maluco.
É três anos mais velho que eu, visíveis pela altura e pela altura apenas (e nem tanto assim), porque a mente se encontra três anos atrás da data em seu documento de identidade verdadeiro. Sem um pingo de senso comum em seu corpo, não consegue discernir o que é certo e o do que é errado. Acaba por burlar todas as regras e nos incentivar-nos a quebrá-las. E o pior de tudo é que ele nem ao menos se importa!
Claro, quando seu pai não está por perto.
A verdade é que Alex pode não se importar com coisas assim, mas ele se importa com outras. Ele se importa até demais, tanto que deixam ele doente quanto não se importa com ele próprio, o que também faz do Alex, o Alex.
Alex é maluco.
Dono do sorriso mais ridiculamente perfeito, Alex é o tipo de cara que todos querem como amigo. O tipo de parceria para loucuras que todos querem para festas, concertos e rolês. Isso, claro, porque ninguém sabe sobre a caixinha de argumentos que ele guarda embaixo da cama, nem ao menos tampouco do tesouro enterrado em uma garrafa no seu jardim. Se ele deixasse visível para o mundo o lado sombrio que o faz despertar no meio da noite e perambular pela cidade, ninguém se atreveria a se aproximar.
Ninguém que não se importasse com ele.
Ninguém além de
Ninguém além de mim.
Exceto, talvez, eu.
Exceto, talvez, eu.
Porque se Alex é o maluco, acho seguro afirmar que eu sou o idiota.
Eu sou idiota.
Eu sou o idiota.
E quando eu digo “idiota”, eu quero dizer no sentido ofensivo da palavra. E também quero dizer que eu não me encaixo em “normal”, mas ao contrário do Alex, isso não trás traz ninguém aqui.
Ninguém além de
Ninguém além de mim.
Eu sou o idiota.
Eu, que devia ter o pé no chão, o coração protegido e a cabeça no lugar.
Eu estava lá em todas as confusões, tanto as que envolvem fogo e gelo quanto as que envolvem paraquedas e cigarros roubados. Eu sou o tipo de pessoa que concorda consente com a ideia de invadir o colégio durante a noite, mas também sou o tipo de pessoa que o segue cegamente na primeira impressão que seremos pegos.
Eu o acompanho acompanhava em todas as confusões, eu escondo escondia os seus segredos, eu corro corria ao seu lado com bebidas roubadas, eu sempre abro abria a janela para que ele entre entrasse.
Eu sou o idiota.
Eu, que me pego desenhando seus traços, que me reviro na cama pensando em seus beijos, que guardo seus pertences pra quando no caso de sentir sua falta, que faço até mesmo uma tarefa boba girar em torno dele. Eu, que sempre soube que as pessoas nos machucam, nos marcam para a vida toda e então nos abandonam. Eu, que ignorei meus instintos para me apaixonar por um passarinho em uma gaiola. Eu, que sempre soube que nem tudo o que vai, volta, e ainda assim estou esperando voltar.
Eu sou o idiota.
Ele não está escrevendo sobre mim, ou sentindo minha falta, ou burlando as regras para ouvir minha voz, ou fazendo qualquer questão de sequer mandar uma mensagem, ou chorando até dormir abraçado em minha camiseta.
Eu é que sou o idiota.
Alex é o tornado caótico que passou tirando tudo de lugar na vida de todos e eu sou o imbecil que se recusa a querer arrumar a bagunça que ele deixou.
Eu tinha o pé no chão, eu tinha o coração protegido, e eu tinha a cabeça no lugar.
E então, Alex apareceu.
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