Made of Stone
63 XLIX. O melhor de mim - Pt. II
Notas iniciais
Eu estava errado.
A decisão mais duvidável do mundo não foi ir até o trailer enfrentar um pedaço do meu passado, foi voltar a ele por motivos diferentes. E eu realmente tinha motivo, um que parecia ser o suficiente para justificar minha palhaçada: eu havia saído de lá mais frustrado do que estava quando cheguei.
E porra, como é que eu vou deixar isto para lá?
Quando eu retornei ao trailer menos de uma hora depois, porque eu obviamente sou estúpido o suficiente para voltar, Dean seguia desacordado feito um defunto. Desta vez, no entanto, a porta estava escancarada como eu havia deixado.
Depois de observá-lo ao refletir, decidi que era melhor que ele estivesse apagado mesmo, então pus-me a trabalhar.
Comecei com o lixo, jogando tudo para o lado de fora, sem incomodar-me em levar para a lixeira, apenas para tirá-lo dali de dentro o mais rápido possível com pouca delicadeza e muito ódio. Eu ainda estava com ódio, percebi, por mais que houvesse amolecido um pouco — apenas um pouco — por pena. Então eu fui para as panelas, colocando toda a comida podre fora, assim como as comidas que estavam no pequeno e velho frigobar — se é que dava para chamar aquilo de frigobar, a julgar que ele sequer performava sua única função: manuseio de temperatura. Em seguida, eu pus-me a lavar toda a louça e tive que economizar o máximo que pude do resto de um sabão de cozinha, porque isto eu havia esquecido de trazer.
Eu havia comprado apenas produtos para limpeza mais pesada, sacos de lixo e alguns lanches como pão, biscoitos e café quando passei no mercadinho do bairro. E de casa eu trouxe uma muda minha de roupa limpa, porque suspeitei que teria que colocar todo o guarda-roupa dele para lavar. E só depois de chegar, lembrei que não trouxe uma muda de roupa de cama também.
Suspirei, limpando o suor do rosto.
Prontifiquei o restante, limpando parte por parte daquele trailer velho, organizando o que podia e tirando um saco gigante de roupas para levar até a lavanderia, que deixei à minha espera do lado de fora. Obviamente também levei os lixos — tanto os que tirei do trailer quanto os que estava jogados do lado de fora há dias, pelo visto — até a lixeira lá da frente. Não coube tudo, então alguns ficaram no chão.
Assim que retornei para o trailer uma vez mais, eu consegui fazer o café e olhei, com gosto, para a pia e bancada limpas. As drogas eu havia enfiado em uma gaveta da cômoda, um pouco temeroso que ele não reagisse bem se eu as jogasse fora. Supus que ele não tinha um emprego fixo e a julgar pela quantidade de drogas distintas, ele não as mantinha apenas para uso, mas para venda.
Isso era definitivamente estranho, e muito perigoso, um contraste do que era no passado. Na minha época, Dean comprava apenas só o que usava e acabava vendendo quando estava nos rolês e havia gente desesperada atrás de pílulas e pó. Isso era tudo, porque em pequena quantidade, em rolês aleatórios, sem compradores fixos, não era algo que chamasse atenção e que o colocasse em apuros. Agora, pela quantidade que eu havia nesse trailer, das duas, uma: ou ele se envolveu no tráfico ou ele começou a vender por conta própria, o que o envolveria no tráfico rapidinho se fosse descoberto.
— Alex?
Durante a minha faxina, Dean havia acordado algumas vezes, mas parecia tão cansado que não conseguiu processar o que acontecia. Mas eu estava ali há umas duas horas e o sol já estava quase se pondo, então era de se supôr que em algum momento ele acordaria.
Ele olhou em volta, confuso, e piscou lentamente uma vez mais.
— O que você...?
Percebi que a lentidão não era por ação química, desta vez, e sim pela ausência dela ao despertar. Havia uma sobriedade estranha em seu rosto também, deixando-o menos relaxado e mais desconfiado, os olhos percorrendo tudo e voltando até mim.
— Você não devia deixar a porta aberta, é perigoso — acabei dizendo, sem saber onde colocar as mãos.
Dean sentou na cama, ainda parecendo processar o que acontecia, as sobrancelhas unidas ao passo que piscava mais rapidamente, desta vez. — O que você tá fazendo? — conseguiu pronunciar, rouco, mais sério do que esperava.
Engoli em seco, pigarreando em seguida.
— Eu limpei um pouco, desculpa — expliquei, pateticamente, como se houvesse cometido um crime ao limpar. — E trouxe algo pra comer, imaginei que você tivesse com fome — já que não tem absolutamente nada para comer nesse trailer que não esteja em estado de decomposição.
Alguma coisa me dizia que ele não se referia a isto, e tampouco se referia à limpeza.
Dean, enfim, soltou um som pelo nariz. E quando falou novamente, a seriedade havia sumido de sua voz, parecendo divertida até, apesar de um tanto incerta. — E o que te traz aqui, chuchu? — veio a pergunta óbvia, e eu engoli em seco, desviando o olhar. — Tá perdido?
Acabei encolhendo os ombros e apoiei-me na bancadinha ao lado da pia para olhar melhor para ele. Sorri fracamente quando admiti: — Um pouco.
Dean inclinou a cabeça para o lado, analisando-me, e ali estava a pontada de desconfiança e incerteza, apesar dos lábios sorrirem não tão maliciosamente quanto eu esperava.
— Hum — murmurou ele, enfim, depois de alguns segundos. — Eu tava mesmo pensando em adotar um cachorrinho de rua.
Sorri de volta, mas neguei, segurando-me na bancada.
— Eu tô só de passagem.
Dean arqueou uma das sobrancelhas, aparentando estar curioso e descrente ao mesmo tempo. Ele apontou com a cabeça para o local, os olhos afiados em mim.
— Me parece que você trabalhou demais pra quem tá só de passagem — gracejou, e eu soube exatamente o que ele quis dizer. — Não precisava tudo isso, você tem passagem de graça na minha cama.
Já não bastasse, ele ainda deu duas batidinhas no colchão.
Lá estava a sugestão novamente, falando sobre descontos, e eu engoli o nó da garganta com dificuldade, desviando o olhar para longe, um amargor se espalhando pela minha boca.
— Eu não tive essa intenção — defendi, seco. — Não vim aqui pra isto, Dean.
— Não?
A repetição da resposta veio com uma arqueada de uma das sobrancelhas, antes de se levantar. Acabei piscando, desorientado, quando eu o vi de pé, percebendo que agora o trailer parecia ainda menor com nossas duas presenças na vertical. Feliz ou infelizmente, eu não tinha certeza, Dean não estava cambaleante dessa vez quando caminhou na minha direção.
Dean seguia sendo um pouco mais alto que eu, percebi, engolindo em seco.
— Com certeza não veio pra fazer faxina de graça? — zombou, aproximando-se o suficiente para que eu sentisse sua presença. Levou um dedo para deslizar pela lateral do meu rosto até o queixo, os olhos de mel afiados feito um felino. — Não precisava de tudo isso, moreno, tudo o que precisa dizer é que quer me comer gostoso como nos velhos tempos e eu fico de quatro pra você rapidinho — ronronou, levando o polegar para o meu lábio inferior, pressionando-o para baixo.
Quase engasguei, dando um passo para trás ao desencostar-me dele, estranhando que meu coração tenha reagido a isto, bombeando o sangue com maior velocidade. Fiquei confuso mas também enojado comigo mesmo, não só porque ainda reagi ao Dean dessa forma mesmo depois de tanto tempo e mesmo no contexto atual, como por reagir assim a ele quando ele está neste estado. Dean continuava com a aparência lamentável e tampouco estava cheirando muito bem, para não ser mais grosseiro. Ainda assim, supus que a presença fraca já metabolizada de drogas em seu organismo permitiu que ele se comportasse da mesma maneira de sempre. Ele era um conquistador nato, afinal de contas, e até mesmo o som da sua voz era melado como a cor de seus olhos.
— Eu realmente não vim aqui pra isso — repeti, mas a minha voz soou estranha, e Dean inclinou a cabeça para um dos lados.
— Pra que mais viria? — estranhou, e eu pensei ouvir um toque de irritação atrás do tom monótono e sedutor de sempre.
— Eu voltei pra ver você — deixei escapar, porque desta vez era verdade —, pra ver como você estava e ajudar com o que precisasse.
Dean acabou soltando um som pelo nariz, definitivamente irritado, embora divertido, e sorriu ainda mais.
— Ainda soa como se tivesse vindo pra uma foda.
— Dean...
Frustrado, não consegui dizer mais nada sob pressão dos olhos afiados. E desta vez, ele não conseguiu disfarçar a irritação ao franzir o cenho e me olhar com uma nota de escárnio. Percebi que os mesmos olhos desviaram para a outra bancada, onde estavam as drogas, como se recém desse falta delas, antes de retorná-los a mim.
Dean pareceu repensar o que diria e a face relaxou por um momento, com um toque de carinho no olhar.
— Moreno, você tá bem longe de casa, não acha? — perguntou, usando do mesmo tom aveludado que usava comigo quando eu era criança. — Você parece bem — acrescentou, encaixando sua mão na minha nuca, de forma que pôde usar o polegar para fazer um carinho na minha bochecha —, não devia ter voltado pra cá. Devia ir embora.
De alguma forma, o tom baixo soou como um aviso.
Um aviso que eu ignorei.
Em seguida, ele deu as costas e revirou as gavetas até encontrar o que estava faltando. Deu um suspiro aliviado e me olhou rapidamente como quem diz: eu sabia que você não jogaria fora. No entanto, pegou apenas o cigarro e o isqueiro para acender ali mesmo, sentado na cama. Não pude deixar de notar que suas mãos estavam trêmulas e os reflexos mais rápidos, e tive a triste noção de que ele provavelmente havia usado aquelas merdas o suficiente para depender delas.
E eu não me referia à nicotina.
Eu o observei por alguns minutos, o ressentimento retornando quando me deparei com a mesma faceta que ele usava durante os anos que passei com ele, apesar de mais lamentável.
— Eu disse que viria — apontei, amargamente, apenas porque parte de mim desejava saber como ele reagiria ou se sequer lembraria desta promessa quebrada. — Eu disse que quando eu fosse maior de idade, iria voltar pra gente ficar junto.
Dean arqueou as sobrancelhas, mas não parecia surpreso de fato. Ele expirou a fumaça e eu tranquei a respiração por conta da tentação de querer voltar a fumar também, então ele sorriu.
— Então você veio mesmo pela foda — decidiu, jocoso, ao tragar uma vez mais. Acabei franzindo os lábios, desgostoso. — Começou bem, comprando meu amor com comida — elogiou, apontando com a cabeça para a comida na bancadinha da pia.
— Você não me conhece mesmo.
E talvez ele tenha percebido que eu torci o nariz, nauseado uma vez mais, porque perdeu o sorriso também.
— E eu deveria? — perguntou, rapidamente, com estranhamento. Então, soltou um riso seco, gesticulando na minha direção com interesse. — Afinal, o que você realmente tá fazendo aqui? — perguntou, novamente, cético. — O que quer de mim? Veio até aqui pra declarar seu amor e a gente poder foder pela eternidade? — debochou antes de se inclinar um pouco para frente. — Não vai embora antes de ter um gostinho? — sussurrou, maldoso e malicioso ao mesmo tempo, em intensidades semelhantes. Em seguida, ele apontou para o próprio corpo como uma oferenda. — Pois muito bem, sirva-se.
Acabei soltando um som frustrado.
— Dean, você... — Sinceramente, eu não sei o que mais me enojava: o fato dele insistir em oferecer-se como um objeto ou as possibilidades por trás do porquê ele fazia isto. — Pare de dizer besteira! Pare de se oferecer! Tá maluco?!
Dean arqueou as sobrancelhas, com certo desdém, mas também com certa impaciência.
— Se você não veio pela foda, então não precisava vir — descartou, entediado, e eu trinquei a mandíbula. — Se você anda se rebelando de novo, então é melhor que volte logo pra saia da sua mãe. Como pode ver, a vida aqui é um lixo mesmo, você não sobreviveria uma semana. — Fez uma pausa antes de acrescentar, gesticulando vagamente para o trailer limpo: — Tem imundícies que não se limpam.
Ele só pode estar fodendo comigo.
— Eu não sou um rebelde sem causa que fugiu de casa. Eu não vim pra me refugiar aqui e muito menos vim pra ficar com você — cuspi, por último, mais forte que eu. — Eu tenho onde morar, tô recomeçando minha vida e apareci aqui pra tirar satisfação com você pelo passado — acabei contando, a irritação fazendo coçar minha pele. — Mas quando vi seu estado miserável — joguei, outra vez, com menos delicadeza que devia —, eu desisti. Eu não iria chutar cachorro morto. Quis te ajudar, pensei em você. Pensei que eu podia ressignificar algumas coisas ruins, mas pelo jeito, tem alguns males não se ressignificam — cuspi, por último, ao repetir o que ele havia dito sobre imundícies.
Dean piscou, como se estivesse genuinamente confuso por um momento, então franziu o cenho como se compreendesse do que eu estava falando e, por último, abriu um sorriso descrente.
— Satisfação? — perguntou, duvidoso, então soltou um riso fraco. — Pela sua paixonite não correspondida? — E eu não gostei do nível de sarcasmo em sua voz. — Você quer diga que era apaixonadinho por você também, que eu te amava?
— Claro que não — cuspi, rapidamente, antes de engolir em seco. — Eu sei que você não sentia isso. Agora eu sei — retruquei, rapidamente. — Eu sei que se você ama alguém, você não o toca quando ele tem treze anos de idade. Quando você ama alguém, não importa o que sinta, você não o fode quando ele tem catorze anos de idade — cuspi, enojado, mais irritado do que planejei. — Porque se você ama alguém, você se importa o suficiente para não destruir essa pessoa. Você não abusa a pessoa que você ama, você cuida dela — desabafei, aquilo entalado na minha garganta há um tempo. — E se necessário, não importa o quanto te doa, você o deixa ir. Se é o melhor para ele, você o deixa ir. — Por fim, finalizei, com mais rancor do que imaginei que ainda sentisse: — E você certamente não promete que vai estar com ele em alguns anos e não o faz acreditar que estará esperando por ele quando não está.
Dean piscou, arqueando as sobrancelhas ao passo que me ouvia e, por fim, quando a compreensão batia nele, ele limitou-se a sorrir com descrença no olhar.
— É isso então? — minimizou, o toque de impaciência e julgamento no mesmo nível de um revirar de olhos. — Sério? Você levou isso pro coração? — A próxima tragada foi mais longa, e quando soltou, estalou a língua. — Chuchu, eu gosto muito de você, mas tá na hora de você crescer, hum?
Eu devo tê-lo mutilado com o olhar, porque ele não o sustentou.
Ainda assim, ele soltou um suspiro cansado e apagou o cigarro, inclinando-se para abrir a gaveta mais uma vez e preparar uma seringa. Dean parecia prestes a comentar algo sobre o que eu disse quando eu arranquei a seringa da mão dele, jogando-a de volta na gaveta.
— Que porra você tá fazendo? — perguntei, empurrando a gaveta até que se fechasse com um estrondo não muito delicado. — Por que tá usando essas porcarias? — vociferei, já havendo me alterado o suficiente para perder qualquer resquício de tato. — Desde quando você tá usando ao invés de vender?
Dean apenas me olhou com as sobrancelhas arqueadas.
— E desde quando anda se prostituindo?! — exigi, furioso. — Olha só pra você, olha pra esse lugar! — ralhei, gesticulando. — Esse lugar costumava ser seu santuário, seu lar, quando foi que isso mudou?! Quando foi a última vez que você tomou um banho, Dean, que você comeu alguma coisa?!
Aquilo pareceu acabar com qualquer resquício de diversão no rosto dele, e eu honestamente fiquei satisfeito com isso. Ele acabou revirando os olhos, no entanto, no meio das minhas perguntas e dirigiu-se às gavetas mais uma vez sem responder.
Eu a empurrei outra vez, assim que ele abriu, e pareceu que eu havia cutucado a onça com vara curta, negando-o suas drogas.
— Pode parar — reclamei, bufando. — Agora você nem consegue ficar sóbrio por uma conversa inteira que já tá se coçando pra se injetar mais porcaria? E na porra da minha frente?! — grunhi, negando com a cabeça. — Na minha frente, não, Dean!
Ele levantou-se no mesmo instante.
— Escuta aqui, moreno — começou, com o tom baixo e feroz, de uma maneira que eu nunca havia ouvido —, você pode limpar meu trailer e me trazer comida, porra, você pode até mesmo me comer. Quer fugir pra cá quando brigar com sua família controladora? — sugeriu, com um tom ácido de deboche que me fez engolir amargo. — Pode vir, vou te esperar de pernas abertas. Se não quiser foder também, por mim tá ótimo, eu sou todo ouvidos sobre como o papai tá fodendo as secretárias e como a mamãe te enfia na igreja aos domingos — murmurou, doce e afiado, e então deu um passo em frente e o volume da voz baixou drasticamente. — Mas você não vai se enfiar aqui pra me dar lição de moral do seu mundinho de Beverly Hills e nem me oferecer palestra sobre hábitos saudáveis do alto da sua zona norte. E sinceramente? — perguntou, a voz perdendo a acidez em troca de um tom monótono e entediado. — Também não tô interessado em ouvir choramingos sobre como sou o vilão da sua história só porque deixei você vir aqui pra foder quando bem queria.
Dean virou as costas e abriu a gaveta outra vez e, desta vez, eu não o impedi. Sinceramente me senti tentado a deixar que ele enfiasse o que quisesse em seu organismo.
— Eu tinha catorze anos — grunhi, as mãos em punho.
Dean me olhou como se eu fosse burro.
— Todos tem — descartou, como se fosse ridículo pensar o contrário —, com que idade se deve foder? — perguntou, retórico, e o fato dele parecer honestamente confuso me deixou ainda mais incrédulo. — Eu tinha onze, nem por isso tô perdendo meu tempo indo atrás do tio Bert pra tirar satisfação — zombou, enfim, ao passo que virava um saquinho com pó na mão para analisá-lo.
Pisquei, indignado, frustrado, chocado, e sem reação.
O que eu responderia para uma merda dessas?
Dean estalou a língua ao analisar o pó, percebendo que não era aquele que queria, então revirou a gaveta mais uma vez. Ele não parecia encontrar a heroína, a se supor pelo isqueiro e a colher enferrujada. Encontrou apenas um saco pequeno rasgado e vazio. Havia um toque de urgência e nervosismo nisso, talvez por tal motivo que, quando ele falou novamente, distraído e irritado, a doçura havia sumido de sua voz por completo.
— Se quer saber, você teve foi sorte de ter me usado como primeira experiência — resmungou, em sua ávida busca. — Muitos são azarados como eu, com um tio nem um pouco gentil — contou, estalando a língua — e um pai bruto, que te vendeu a velhos mais brutos ainda. Cacete, de onde você acha que tirei a ideia de me prostituir? — zombou, assim que viu a provável cara horrorizada que eu exibia.
Dean torceu o nariz quando puxou a gaveta com mais força que pensei possível pelos braços finos para vasculhá-la melhor. Não tendo sucesso, ele a empurrou com força e abriu a segunda gaveta. Em seguida, a terceira e, ainda mais nervoso, a quarta.
— Agora se mexa e me ajude a encontrar um pacote menor que esse — disse, erguendo um pequenino que devia ser cocaína, lacrado como se pronto para vender. — Onde você colocou?!
Engoli com dificuldade, nauseado, e acabei falando com mais rancor que planejei: — Coloquei todas as suas merdas na primeira gaveta — cuspi. — Se não tá aí, deve estar nessa cama imunda, que foi a única porcaria que não limpei.
Dean apenas resmungou e voltou-se para a cama, revirando os lençóis e o colchão — mais fino e encardido que alguns que já vi debaixo de moradores de rua.
— Você tá mesmo afundado — comentei, antes que pudesse impedir, o nariz torcido para o cheiro fétido que veio da cama quando ele a revirou.
Dean parou momentaneamente o que fazia para me destinar um olhar cético.
— Isso te incomoda, moreno? — perguntou ele, ainda assim, com o tom zombeteiro e amargo, apontando para a cama revirada. — A imundície? O lixo? As drogas? — debochou, mas não obteve uma resposta, suor se acumulando na testa, iluminando o rosto esverdeado, antes de voltar ao que fazia. Olhou por debaixo da cama. — Pois eu não sei o que você esperava. Você se enfia na zona sul, na porra de um beco de fim de mundo, em um trailer caindo aos pedaços, e ainda não entendeu que essa é a porra da realidade? — perguntou, ofegante, e não tive certeza se era pela pequena busca no pequeno espaço do trailer. — É essa a realidade de metade dessa merda de cidade. Os ricos no luxo, os pobres na imundície — resumiu, enojado, e eu sabia que ele não estava errado. MC era bem polarizada desta forma, sempre foi muito gritante. — Enquanto você foge da fortuna da sua família porque eles não são perfeitos, alguns de nós tem que se virar com o que tem. Porra! — berrou de súbito, sobressaltando-me.
Dean havia empurrado o colchão longe e, em seguida, com os cabelos grudando no pescoço, ele passou a mão trêmula na testa suada. Acalmou-se por um momento e olhou para algum canto sem enxergar, o que restava dos neurônios trabalhando em como conseguir mais. Era isso o que ele estava pensando, sem necessidade de palavras: como conseguir mais.
Dean resmungou alguma coisa para si mesmo e buscou o celular, mandando uma mensagem para alguém, os dedos movendo-se com rapidez, os olhos vidrados como se fosse outra pessoa.
— Minha vida não era nada como você imaginou, Dean — acabei falando, quando consegui, secamente.
— Ah, cala a boca! — gritou, perdendo qualquer compostura, jogando o celular na cama. — Cala a porra da boca! O que você sabe sobre a vida?! O que sabe sobre o sofrimento?! Você tem noção da sorte que você tinha?! — perguntou, tão indignado que não soube nem gesticular direito, tremendo dos pés à cabeça, e eu pisquei. — Você tem noção do que você jogou fora?!
Eu não havia dito com todas as letras, mas suponho que Dean se lembrava de mim o suficiente para saber que esse havia sido o meu destino: eu havia abandonado minha família e a fortuna da qual ele tanto fala. Meu querido pai não me deixaria encostar em um centavo do dinheiro dele ainda que eu ficasse, mas eu entendi a que Dean se referia: a fortuna maior que eu abandonei foram meus privilégios. Eu havia dito tantas vezes no passado que era isso o que iria acontecer, que eu ia seguir minha vida sozinho e que iria fazer música para me sustentar e ser feliz.
Bom, pelo visto, ele se lembrava. E os neurônios não estavam tão fritos por químida a ponto de não saber ligar uma coisa a outra: eu só podia estar ali enfiado porque essa era minha vida agora.
— Foda-se se o papai e a mamãe não sabiam amar! — gritou, e eu fechei os olhos. — Que se fodam seus probleminhas de adolescente! Que se foda sua rixa com o seu pai só porque te bateu uma ou outra vez! Você não sabe o que é não ter dinheiro nem pra comer, porra! — berrou, a voz arranhando pelo volume usado, tremendo ainda mais que antes. — Você não sabe o que é crescer em uma família fodida de verdade, mas fodida mesmo! — insistiu, a voz craquelando pelos gritos incomuns. — Você não sabe o que é passar de mão em mão de velhos tarados desde que se conhece por gente! Você não sabe o que é ter um pai que te fode de noite e de dia bate na sua mãe até ela perder a consciência! — gritou, apontando para um ponto abstrato, como se eu pudesse olhar para a cena que ele via em sua mente.
Engoli em seco, sentindo os olhos marejarem subitamente.
Eu não tenho maturidade para processar tão rápido tudo o que eu estava sentindo. A vontade de chorar era por um misto de motivos, desde estar sendo gritado quando eu devia ser acolhido, como pela frustração de não poder descontar algo sofrido em alguém que também sofre, até o óbvio desabafo de alguém talvez ainda mais quebrado do que eu.
Depois de tudo isso, acho que é bem visível que eu nunca conheci o Dean de verdade. Talvez apenas um esboço dele, e não de quem ele foi no passado, mas de quem ele fingiu ser. As palavras na voz doce e os olhos melados que tornavam tudo em seda pura eram apenas uma máscara estranha que ele aprendeu a usar para viver. E agora eu pude conhecer outros dois lados: o lado entorpecente de um viciado e o lado raivoso de uma alma quebrada.
Eu havia feito terapia o suficiente para entender que o que havia sido feito com ele não minimizava o que ele fez comigo. E acredito que também havia sido o suficiente para entender que a raiva que ele parecia sentir por mim nesse momento, acendida com as próprias palavras, não era realmente destinada a mim.
Aquilo era um desabafo.
Bem mais pesado do que eu esperava.
— Você não sabe o que é ter que fugir de casa aos catorze pra nunca mais ter que lidar com essa merda de novo, viver de favores e usar o corpo aos quinze como seu pai ensinou — cuspiu — porque era a única coisa que você sabia fazer, pra poder colocar comida na mesa! Pra poder pagar a porra da minha casa! — gritou, apontando vagamente para o trailer, e dessa vez eu pude ver que seus olhos também estavam quase transbordando, assim como seu coração. — Você não sabe o que é descobrir que, enquanto você não tava lá, sua mãe foi espancada até a morte!
Sua voz falhou na última frase, e eu reconheci muito bem — bem até demais — o sentimento estampado em seus olhos avermelhados.
Era culpa.
Eu não sabia em que momento eu comecei a chorar, apesar de ver que Dean também começava a perder qualquer resquício de força, mas eu já não conseguia vê-lo direito pela visão embaçada. Vi o suficiente para saber que ele limpou o próprio rosto com muita força e muita raiva, visto que ele avermelhou rapidamente, suas mãos vacilando.
— Você não sabe o que é ser mais uma história fodida! — declarou, enfim, a voz falhando em um tom amargo e sofrido. — Viver em um lugar imundo onde todo mundo tem uma vida mais fodida que a outra e não poder nem reclamar, nem por pedir por ajuda, porque tá todo mundo afundado na mesma merda! Você não sabe o que é sofrimento! Você se criou em uma mansão, um teto em cima da cabeça, com comida na mesa e com a porra dos estudos pagos! — vociferou, sem paciência. — E agora quer vir aqui me dar lição de moral? Porque eu sou viciado? Porque eu me prostituo? Porque eu deixo a porra da porta aberta?! — numerou, com tanta raiva que a voz craquelou de tal forma que eu soube que sua garganta havia doído. — Vai se foder, Alex, vai se foder!
Por um momento inteiro, eu fiquei sem reação, vendo-o bufar e andar de um lado para o outro no trailer, recuperando-se do choro certamente não planejado. Por alguns instantes, ele ficou de costas para mim, como se para se recusar que eu o visse ainda chorando. Dean juntou o celular na cama quando vibrou e ficou mandando mensagens enquanto eu ponderava se eu devia ou queria abraçá-lo pelo que ele passou ou socá-lo no meio das fuças pelo que eu passei, mas pelo olhar molhado em fúria e vulnerabilidade que ele me lançou em seguida, eu decidi optar por nenhuma das opções.
A verdade é que eu não tinha nada a argumentar com ele.
E então, antes que ele me expulsasse uma segunda vez, eu fiz o único que eu poderia fazer nessa situação: eu fui embora.
*
Remoí o que aconteceu pelos próximos dias.
Remoí de todos os ângulos, de todas as perspectivas, de todos os sentimentos conflitantes entre si, de todos os lados da história. E tudo o que consegui foi ficar frustrado e perdido, cada vez mais, sem respostas e sem soluções que me agradassem o suficiente. Eu finalmente entendi, pelo menos, que voltar lá não me faria sair menos frustrado, então fiquei em casa.
Estancado quando o assunto era o Dean, eu decidi me voltar ao que eu conseguia empurrar para frente. Eu acabei focando na minha vida nos dias seguintes, ao invés de me preocupar com a vida de quem não se importa comigo, e me voltei para a minha música.
As minhas apresentações estavam melhorando, no bar, e eu havia conseguido mais um dia dedicado a tocar, depois de muito barganhar com o León. Na mesma semana, eu decidi que eu deveria investir nisso, literalmente, e não era só o meu tempo escasso. Eu comecei a comprar aos poucos a aparelhagem para as apresentações, deixei para depois a ideia de investir nas plataformas online e em redes sociais, porque não haveria maneira no mundo de eu equilibrar as coisas tão cedo.
Em um dos meus treinos em casa, na próxima semana, aconteceu algo que eu poderia considerar fofo. E considerando que a palavra referia-se ao León, isso dizia o suficiente.
Eu soube desde que apareci aqui que eu incomodava León com o barulho do violão e da cantoria durante as madrugadas e algumas manhãs, porque ele não perdia uma chance de me xingar por isso ou de olhar azedo para mim. Mas naquela manhã, ele abriu a porta do meu quarto enquanto eu tocava, com uma carranca, e então, sem dizer absolutamente nada, ele deixou uma xícara de café com um croissant em cima da mobília. Eu entendi que era um reconhecimento pelo meu esforço — além da tentativa frustrada de me fazer comer porque eu tinha o costume de esquecer, envolvido em tudo e, bom, León era praticamente um pai nesse sentido. Era aquele tipo de coisa que irmãos mais velhos fazem, e eu não estava acostumado com isso. Eu fui o irmão mais velho e não pude ser por muito tempo, além de desempenhar um papel parecido com o Ian. Eu nunca tive ninguém cuidando de mim nesse sentido, em nenhum momento da minha vida. No fim, tudo o que eu pude fazer foi sorrir e fazer uma breve pausa para o café antes de continuar.
Eram coisas assim que me faziam sentir em casa.
Como eu mal tinha tempo para comer, eu também não passava tanto tempo com León a não ser no serviço, como patrão e empregado. Eu mal tinha tempo livre, no final das contas, e quando eu tinha, eu ia para a praia muito raramente ou quando o Enzo estava aqui em um ou outro final de semana, a gente saía para dar um rolê. Mas não durava muito, porque eu não tinha energia para isso. E quando eu tinha um pico de energia para socializar, eu ligava para o Bruno, para a MJ, para o Ian, ou algum dos meus outros amigos, e ficava horas conversando para matar a saudade.
Também havia a terapia, e eu não faltava nunca.
Por um tempo eu comecei a me esquivar de mais assuntos do que deveria. Não gostava de falar sobre a minha mãe, me recusava a abordar algumas das técnicas de enfrentamento ao meu trauma, e agora eu também me esquivava de contar a ela sobre o Dean. Isso perdurou algumas semanas, enquanto eu me remoía por dentro, pensando que era algo a ser discutido.
Minha mãe, por exemplo, seguia me mandando passagens bíblicas e mensagens curtas diárias. Raras eram as vezes em que ela escrevia textos mais longos, como foi o caso de hoje:
Oi, meu filho. Como você está? A mãe esteve triste hoje, mas Deus já lavou toda a escuridão de mim. Eu sei que você pediu que eu não falasse mais no seu pai, mas acredito que você não se incomodará com essa notícia. Hoje foi o dia de assinarmos os papéis do divórcio, então está oficializado. Demorei muito tempo para entender que não estaria me desviando do caminho do Senhor ao quebrar os votos matrimoniais, pois há muito já haviam sido quebrados, tantas vezes, pelo seu pai e eu. Demorei, mas entendi que tudo acontece por um motivo e minha vida junto ao Henry foi necessária e trouxe tanta beleza à minha vida, na forma dos meus filhos amados. Apesar dos conflitos com seu pai, ele possibilitou que eu tivesse vocês e que, portanto, minha vida estivesse completa. Não é bom alimentar sentimentos amargurados, pois eles nos afastam do Senhor, comendo as beiradas do nosso coração. Aconselho-te, meu filho, a fazer o mesmo que eu: afastar-se da escuridão para abraçar a luz. Esse ciclo fechou-se porque tinha que fechar, mas Deus é bom e Deus é justo, e quando fecha uma porta, duas se abrem. Um novo ciclo abençoado iniciou-se e eu te convido a fazer parte dele. Por favor, Alex, pensa nisso. Eu estou esperando por você, a mãe sempre esperará de braços abertos. Tenha uma boa noite e durma com Deus, anjos cuidarão de você.
“Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida; o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.”
Salmo 30:5
Suspirei, encarando por um tempo a tela do celular.
Eu não soube o que pensar ou o que sentir com aquilo, novamente, a maior parte do tempo eu simplesmente não sabia como me sentir. Ela havia comentado em uma das mensagens no início do ano que não estava mais morando com o meu pai. Eu não soube se acreditava ou se confiava que isso iria durar e que ela não voltaria correndo para debaixo do teto dele. Mas, pelo visto, durou. Eu senti rancor, óbvio que senti rancor, que apenas agora quando a merda foi jogada no ventilador e eu sumi do mapa da vida deles é que resolveram se divorciar. Mas eu também senti alívio — por mim, mas principalmente por ela -, porque ela finalmente se livrou do embuste e teria uma chance de viver em paz.
Fora isso, eu apenas buguei nos sentimentos e não soube bem o que pensar. Acho que a maior sensação que tive — e que sigo tento há tanto tempo — é a de desistência. É tão foda que eu desisto de me estressar com a sensação de indignação e de ódio, eu começo a sentir o borbulhar de emoções e logo largo de mão, como um carro que deixo morrer no meio de uma subida. É foda, é triste, é frustrante, é enfurecedor, é desesperador que eu tenha chegado a este ponto — ao ponto de desistir de tudo e de todos — para que eu tenha algum retorno positivo de toda a merda que passei, mas é o que tem para hoje. A sensação dessa desistência, se fosse uma expressão, seria: Porra, que merda, mas é isso aí né, fazer o quê?
Então talvez eu devesse mesmo levar isso para a Morgan.
Mas não agora, ainda não.
Subi a conversa para ver as outras mensagens da Katya que não foram lidas nas últimas semanas — pela minha conta rápida, eu não a respondia há três semanas — e vi que ela havia estado falante ultimamente. Ela mandou mensagem todo santo dia, como era de se esperar, algumas vezes apenas enviava uma imagem de bom dia, boa tarde ou boa noite, como uma velha senhora. Às vezes, apenas dizia que ela estava com saudade e perguntava como eu estava. Haviam outras que ela apenas mandava um triste e solitário “por favor, me responde”, para no outro dia mandar um “bom dia” novamente com mais uma passagem bíblica. E haviam dias que eu recebia apenas passagens bíblicas mesmo, mas sempre havia algo.
Li as últimas mensagens, as maiores, acima desta.
Oi, amor da mãe. Como vai? Aqui está tudo bem, dia nublado mas lindo como o Senhor fez, choveu hoje. Lembrei de você e orei muito. Peço que atenda minhas ligações, porque algumas coisas não servem de nada ditas em oração, eu preciso que você as ouça também. Pedirei perdão milhares de vezes, se assim desejar, e aqui peço mais uma vez. Eu errei, pais também são passíveis de erros, mas eu sinto tanto por isso. Perdão, meu filho, estou dando meu melhor. Amo você daqui até o infinito. Me responda, por favor.
“E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor.”
Efésios 6:4
Bom dia, meu amor. Às vezes, eu fico tentando me colocar no seu lugar, entender o que se passa com você. Eu tento entender o que você pensa, como se sente, o que você teme, com o que você sonha, o que você guarda de lembrança do que se passou entre nós. E um pensamento muito ruim surgiu, então eu orei muito pedindo auxílio ao nosso Pai. Decidi que eu deveria dizer com todas as letras, meu filho, para que você jamais venha a se confundir: eu tenho muito orgulho de você. Se eu me preocupo tanto com você, meu filho, não é por não confiar que você pode se virar sozinho, é apenas preocupação de mãe. Não importa onde você esteja e o que está fazendo, eu confio plenamente que você trilhará um caminho de luz. Eu conheço você, meu amor, eu criei você e sei que carrega consigo grande caráter. Eu sei que você não se desviará para caminhos obscuros e que jamais sairá do lado do nosso Senhor. Eu sei que você não acredita nisso, meu bem, mas nosso Pai está sempre você, pois sabe que seu coração é bom. A mão dEle está sempre estendida, meu amor, assim como a minha, tudo o que você precisa fazer é aceitá-la. Deus mostrará o caminho quando ele turvar. E a mãe te acompanhará. Sempre.
“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.”
Provérbios 22:6
Acordei com um sentimento ruim, você está bem? A mãe está mandando energias positivas de longe e muito amor, saiba que sempre estarei contigo e que Deus também está abençoando-o sempre. Confia nEle e Ele irá te ajudar.
“O senhor é meu pastor, nada me faltará.”
Salmo 23:1
Boa tarde, filho. Hoje me peguei pensando que você estava mesmo certo em abrir as asas e voar. Você não devia esperar pela mãe estar pronta para deixar que você se vá, porque penso que eu nunca estaria. Deus sabe o que faz, e hoje me peguei pensando que talvez você tenha enxergado o plano dEle ainda melhor que eu. Eu sinto sua falta, mas eu me sinto aliviada por você estar fazendo o que pensa ser melhor para você e estou certa que o Senhor te acompanha. Só espero que não se perca e que, caso se perder, confie que Deus iluminará o caminho certo. Meu coração chora de felicidade por você, vida. Tenha uma boa tarde.
“Se, pois, o Cristo vos libertar, verdadeiramente sereis livres.”
João 8:36
Alex, estou mandando uma passagem muito linda para que leia quando esteja passando por dificuldades, esteja perdido sobre o qual caminho seguir ou cogite desistir. A mãe te ama. Beijo.
“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.
O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco.
Ora, muito me regozijei no Senhor por finalmente reviver a vossa lembrança de mim, visto que vos tínheis lembrado, mas não tínheis tido oportunidade.
Não o digo como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho.
Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade.
Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.”
Filipenses 4:8-13
Deixei escapar um riso quando li a última.
Ela realmente deve pensar que eu ando passando fome.
Na minha formatura, eu contei a ela que estava de saída naquela mesma noite e ela chorou muito. Ainda assim, ela sabia que não podia me impedir, então apenas me perguntou se eu tinha para onde ir, se eu ficaria bem, se eu estaria seguro. Eu não quis dizer a ela exatamente onde eu estaria, mas garanti todo o resto, porque não queria que ela aparecesse na minha porta do nada. Depois disso, eu mandei mensagem assim que cheguei em MC para informar que eu estava bem e estava acolhido e empregado. E minha mãe, bom, ela seguiu mandando infinitas mensagens de perdão, passagens da bíblia e do deus dela, e me ligando todos os dias. Todos os putos dias, sem nunca desistir. Eu nunca atendi as ligações, no máximo mandei alguns áudios de cinco ou dez segundos para que ela também ouvisse que estou bem e que sou eu mesmo. E eu raramente respondia as mensagens com monossílabos, apenas para garantir a ela que eu estava vivo e impedir que ela viesse atrás, e ela continuava sem nunca desistir.
Se eu fosse honesto comigo mesmo, eu gostava muito de ler as mensagens quando eu tinha tempo, porque eram a cara dela. A maneira como gosta de ser ortograficamente correta, como se estivesse escrevendo um e-mail, e a maneira como sempre acha um jeitinho de enfiar o deus dela no meio. Era um pouco irritante, mas eu também achava engraçadinho. E a maneira como se dava ao trabalho de procurar uma passagem bíblica que encaixe no que ela anda pensando, sentindo ou na mini conversa que ela decidiu ter por mensagem.
Eu só as deixava acumular, às vezes, porque era muita fé concentrada e isso sempre me deu muitos gatilhos. Eu não podia evitar, sempre que minha mãe relembrava o seu deus nas mensagens sobre perdão, tudo o que eu conseguia pensar era nela plantada no chão ao lado do meu pai, chorando sem fazer nada depois dele me bater por causa da minha sexualidade. Meu estômago seguia embrulhando quando ela dizia coisas sobre fazer o que é certo, desviar dos caminhos turvos, buscar perdão em deus, confiar que eu sou um ser de luz, e todas essas coisas. No fim, nunca tivemos uma conversa real sobre o que se passou. Mesmo tendo conhecido a mulher a vida toda, eu não saberia dizer se, apesar de seguir lutando para estar na minha vida, pedindo por perdão e dizendo que me ama, ela realmente me aceita do jeito que eu sou. Uma parte de mim pensa que ela apenas tem esperança que, com o estímulo certo, eu possa virar hétero. Em nenhum momento ela afirmou isso com todas as letras, que ela aceita minha sexualidade, e eu honestamente não conseguia ser otimista ao pensar que a resposta é “sim”.
A dor era quase física quando eu pensava sobre isso, então eu evitava pensar e falar, o que significa que eu evitava o assunto com a Morgan mesmo.
Assim como evitava o assunto “Dean”.
Especialmente porque eu retornei a ele toda semana.
Para ser sincero, eu não sabia o que estava fazendo.
À princípio, eu apenas queria acertar as contas de anos atrás, dizer umas verdades, perguntar os seus motivos e colocar um ponto final nisto. Eu não esperei encontrá-lo daquela maneira, com o lugar que costumava ser seu santuário naquele estado. Ouvi dizer que o estado da nossa casa diz muito respeito ao estado da nossa mente, e suponho que este foi o caso. Ainda assim, eu disse algumas verdades e ouvi outras, e eu o perdoei.
Essa era a verdade: eu já havia perdoado.
Então por que eu estava ali?
Por duas vezes seguidas, ele estava apagado quando cheguei, no mesmo horário do primeiro dia. Supus que ele era ativo à noite e durante a tarde ficava apagado mesmo, com ajuda das drogas. Na terceira, eu fui um pouco mais tarde e não o encontrei em casa, mas ainda assim fiz o que eu tinha que fazer: dei uma ajeitada, tirei os lixos e deixei comida para ele. Na quarta vez, fechando um mês da minha primeira aparição, ele estava acordado.
Dean apenas revirou os olhos quando me viu, um sorriso sinistro no rosto, então eu apenas deixei o que vim deixar e não limpei nada.
— Sabe o que eu acho? — declarei, subitamente, quando larguei as sacolas na bancadinha da pia.
Seus olhos castanhos pararam em mim com escárnio, como se zombasse e menosprezasse tudo o que eu estava prestes a dizer antes que eu dissesse. Ainda assim, eu não me importei, porque eu precisava colocar para fora.
— Acho que você sabe muito bem o que fez de errado. E também acho que você nem sabe nem entende o porquê de haver feito — declarei, vendo que ele apenas suspirava pesadamente, cansado de mim ao desviar os olhos com ar monótono. — Eu acho que você sequer se importou em pensar sobre isso. Não te culpo por isso — percebi, subitamente. — Você realmente deve ter infinitos demônios gigantescos ocupando sua mente pra sequer dedicar um minuto de ponderamento sobre mim. Eu nunca fui uma memória ruim pra você — dei-me por conta, ainda mais porque ele jamais me recebeu mal ou com qualquer coisa que não um sorriso. — Eu nunca precisei ser, você não fez questão disso, de repensar o que poderia haver de ruim no que se passou. Afinal, eu fui uma memória boa e você tem o suficiente de memórias ruins pra ficar reavaliando as boas também. Eu vejo, eu entendo — murmurei, finalmente, ao contemplar a miséria que envolvia o Dean, em todos os sentidos possíveis da palavra. — E eu não preciso de um pedido de desculpas seu, não preciso mesmo. Ver que você não recebeu nenhum pedido de desculpas quando te devem vários é o suficiente pra que eu entenda. Em um mundo ideal, eu ia gostar que você entendesse que errou, mas você tem razão, esse não é um mundo ideal. A realidade é essa aqui mesmo. Então não se preocupa — acrescentei, em um tom seco, ao olhar ao redor com amarguez —, eu não vou dar nenhuma lição de moral sobre as porcarias que você anda usando. Eu vou fazer o que me cabe, e o que cabe a você é apenas seu. Sinta-se à vontade pra ir atrás de se afundar mais nessa realidade miserável do que ir atrás de tentar sair dela.
Eu não olhei uma segunda vez para ele antes de ir embora, mas eu também não pude adiar mais o assunto com a Morgan.
Ela ficou bem surpresa, porque imagino que isso tenha sido a última coisa que teria passado pela cabeça dela. Principalmente, imagino eu, porque eu havia mencionado o Dean de forma vaga uma que outra vez no ano passado, e nunca mais pronunciei seu nome de novo.
— E qual é o seu objetivo? — perguntou, em algum momento, depois do meu relato. — Você já pensou nisso?
Desviei o olhar, remexendo as mãos.
Eu me dignei a pensar sobre isso, porque perguntando assim, sem pensar muito, minha resposta seria “não tenho a menor ideia”. Acho que é esse o motivo de eu haver me esquivado do assunto na terapia, porque trazer isso para cá significa que eu vou ter que pensar mais a fundo e encontrar uma resposta mais elaborada.
Eu não queria respostas elaboradas, porque uma grande parte de mim não queria entender meus motivos.
— Eu não sei se tenho um objetivo, Morgan — admiti, com um sorriso fraco, não conseguindo olhar muito tempo para ela. Suspirei, ajeitando-me na cadeira novamente, sem olhar para a tela do computador. — É só que... Eu passei tanto tempo sentindo rancor e ódio de tanta gente, sabe, principalmente de mim mesmo, que eu só tô cansado. Acho que uma das coisas que eu posso tirar de finalmente ser livre é poder ser livre de sentimentos assim — divaguei, relanceando uma Morgan muito neutra na tela, que apenas assentiu, acompanhando meu raciocínio. — Não foi minha primeira intenção, eu admito — falei, com um riso nervoso. — Eu fui atrás dele porque eu só tava frustrado e queria descontar em alguém. E por que não nele? Esse tempo todo eu sentia que a gente tinha esse assunto pendente, sabe, então uma hora ou outra eu acabaria lá. Então por que não quando tô com raiva? — joguei no ar, dando de ombros. — Eu acho que, se eu não tivesse com raiva, eu não teria coragem de entrar naquele trailer. Mas por semanas eu tenho pensado em ir atrás dele, sabe, porque eu queria tirar satisfação, queria que ele soubesse que ele errou comigo e eu também queria entender os motivos dele. — Bufei, balançando a cabeça de um lado ao outro. — No fim, eu vi que nem motivos ele tinha. E porra, o que eu faço com isso? — perguntei, sem esperar uma resposta, remexendo na minha própria roupa.
Era isso o que mais me frustrava com relação ao Dean.
Tudo o que eu queria era alguém que eu pudesse culpabilizar pelos meus traumas e nem isso eu consegui. A gente gosta de pensar que existe um certo e um errado, o bom e o ruim, que as coisas são preto e branco. Essa separação torna as coisas tão fáceis quando tudo o que a gente precisa é estar de um lado separado de todos aqueles que nos magoaram. Existe o culpado e existe a vítima, e tudo fica em paz.
A realidade, no entanto, não é preto e branco.
Não existe isso.
Em momentos assim, eu gostaria de ser ignorante, porque a ignorância torna tudo tão fácil. Essa separação entre o bem e o mal é tão fácil, declarar que um ser humano como você é apenas um monstro é tão fácil. Eu gostaria que as coisas fossem fáceis assim, e que a realidade não fosse tão complexa que só torna tudo tão difícil e tão, tão, tão fodido.
É muito fodido pensar que a pessoa que te deu traumas pode ter tido traumas muito piores. Não é algo que justifique o que ela fez, não é algo que vitimize essa pessoa, não é algo que desculpe toda a merda, mas é algo e continua sendo algo. E se você se deixar pensar muito nisso, você vai entrar em pânico rapidinho, porque tudo o que conhece parece que começa a colapsar.
— É meio fodido pensar nisso — comentei, só então percebendo que eu não havia compartilhado com ela tudo o que pensei. — Eu só... — Suspirei. — Eu não consigo deixar de pensar na maneira como ele falou, sabe, na maneira como ele normalizou tudo o que aconteceu com ele e também o que aconteceu comigo, porque eu repasso aquilo na minha cabeça e não foi forçado, sabe? — Apontei, e Morgan franziu o cenho. — Não foi forçado, não foi como se ele tivesse tentando se justificar, foi só... — Dei de ombros. — Como as coisas são. Para ele — acrescentei, rapidamente. — É como as coisas são pra ele. Parece que ele teve que enxergar as coisas assim pra poder processar o que aconteceu com ele, pra poder sobreviver a toda aquela merda, e chegou em um ponto que ele nem questionou mais. Sei lá, eu tive essa impressão. No fim... — Suspirei pesadamente. — No fim, por mais fodido que eu seja também, eu percebi que eu tô acima de todas as coisas fodidas que me aconteceram. E ele nunca esteve. Então tudo o que eu consegui sentir foi pena. Essa é a verdade — admiti —, Dean me deu pena. E perdoar ele foi tão fácil. Eu nem pensei em perdoar, eu só perdoei. Por mais que nossa relação tenha sido abusiva — testei a palavra, desconfortável —, no mínimo, ele foi alguém importante pra mim. É muito triste pensar que alguém que eu me importei tanto uma vez na vida esteja tão afundado assim. E que não tem nada que eu possa fazer pra mudar isso, porque tá fora da minha alçada. É simplesmente como as coisas são, a realidade de algumas pessoas é simplesmente fodida.
Morgan sorriu depois que meu silêncio perdurou, e eu me remexi no lugar mais uma vez. Ela foi cautelosa com o assunto, mas de alguma forma, eu senti que o julgamento não foi tão pesado quanto imaginei que seria.
— Eu acho que entendo exatamente o que você quer dizer, Alex — comentou, enfim, apoiando-se em sua mesinha. Eu senti falta, naquele momento, de poder ter a sessão pessoalmente. — É muito importante aprender a perdoar e acho que você tem razão, parte da liberdade que você procura envolve se libertar de sentimentos como o ódio e o rancor. Não tenho nada a acrescentar sobre isso — falou, para a minha surpresa, e eu me senti muito inteligente. Eu quis rir do pensamento, mas eu sabia que mais viria, principalmente com o ar de cautela dela. — Eu só vou lembrá-lo que, tão importante quanto aprender a perdoar, é aprender a virar a página. Se você já encontrou o que buscava, se já o perdoou, então por que segue indo atrás dele?
Engoli em seco, voltando a olhar para as minhas mãos, assentindo.
— Acho muito bonito que você consiga ser capaz de olhar para a dor do outro e respeitar isso, além de sentir compaixão. Sentimento lindo, esse, eu acho — acrescentou, com um sorriso meigo —, a compaixão. Eu só espero que você entenda que não tem responsabilidade nenhuma de curar as dores dos outros, por mais que sinta compaixão por elas. Especialmente se tratando de alguém que tem um histórico de não sentir compaixão pelas suas dores — acrescentou, e eu senti o soco no estômago, senti mesmo. — Sinceramente, acho que mantê-lo por perto possibilita que você normalize o abuso que sofreu dele que, apesar de não configurar crime por uma mera tecnicidade, continua sendo uma relação abusiva — apontou, como se reforçasse com firmeza o que eu disse com hesitação, e eu desviei o olhar. Eu tinha catorze anos na minha primeira vez com o Dean, e em nosso país, se eu consenti com catorze, não configura abuso, ainda que Dean tivesse oitenta anos de idade. Fodido, mas é o que tem para hoje. — Ainda que pareça para você que não foi nada demais, nós também não discutimos isso em terapia e seria tolo de ambas nossas partes simplesmente supôr que está superado porque você decidiu que está. — Voltei os olhos culpados para ela. — Não é?
— Eu não... — comecei, mas me impedi, suspirando. — Eu só...
Não consegui terminar a frase, fechando a boca e simplesmente olhando para ela como se tivesse levado bronca. Morgan suspirou também, acomodando-se na cadeira, quando eu não continuei.
— Eu vou te dizer a mesma coisa que eu te disse quando conversamos sobre os seus pais — disse ela, e eu já me encolhi um pouco na cadeira. — É natural que você queira entender o porquê das pessoas agirem como elas agem, ainda mais quando isso te machuca, quero dizer, olha só para mim. — Riu. — Meu trabalho é entender de onde vem os sentimentos e os pensamentos das pessoas, então acredite, Alex, eu entendo. Só que o que acontece em situações assim é que, essa necessidade de entender o outro quando diz respeito a algo que afeta você pode ser prejudicial porque acaba caindo muito mais próximo do “outro” do que de “si” — falou, devagar, escolhendo as palavras. Eu pisquei, tentando entender. — Nosso processo de cura é muito individual, Alex, a terapia é muito individual. Isso não quer dizer que você não tenha que colocar um esforço para conviver e ouvir e aprender com outras pessoas, não. Mas as suas feridas, suas mágoas, seus traumas — especifica — são seus. E por mais que eles tenham surgido a partir de outras pessoas, o processo de cura inicia com você. Entende o que eu quero dizer? — perguntou, e eu assenti, sério. — Então eu entendo de onde vem essa curiosidade do porquê o outro age como age e pensa como pensa, mas o que vai te ajudar aqui é entender o porquê você age como age e pensa como pensa, e sente como sente — acrescenta, mais suavemente. — Você precisa entender como você se sente primeiro, e por que se sente assim, e de que forma isso está afetando a sua vida. É só depois de explorarmos isso que a gente vai começar a entender no que temos que trabalhar e o que temos que fazer para reeducar alguns pensamentos, algumas crenças, alguns sentimentos. E então, apenas então — enfatizou —, que podíamos considerar se seria benéfico para você enfrentar esse rapaz pessoalmente ou não. É essa a abordagem que faríamos se você tivesse conversado comigo antes ao invés de me jogar essa informação só agora.
Acabei soltando um riso nervoso e sorri como quem aprontou mesmo, ao passo que Morgan revirava os olhos e sorria mesmo assim, balançando a cabeça.
Ela tem razão, obviamente, mas agora as coisas já estão assim.
Acho que parte do motivo pelo qual eu também não gostaria de falar sobre o Dean é que eu teria que entrar em detalhes no porquê dele ter me magoado tanto. E é meio fodido também que não tenha sido por conta da diferença de idade, apesar de eu imaginar que tenha influenciado muito também.
A dor que o Dean me causou nunca circulou em torno da minha idade — isso foi uma racionalidade adquirida mais tarde -, foi por outros motivos. Foram promessas quebradas, enroscadas em um desdém, caídas no esquecimento. Foi um lar, um porto seguro, falho. O que mais me doeu foi que ele houvesse me oferecido um lar, um corpo, um porto seguro, para logo tomá-lo de volta. Essa foi a minha maior dor, sentir pela primeira vez que alguém poderia tomar conta de mim para logo dar no pé na primeira oportunidade. Por mais de um ano, ele me ofereceu apenas coisas lindas — ou, bem, feias mas embelezadas — de uma vida ao seu lado — mas, principalmente, ao lado da sua liberdade -, e assim que eu realmente precisei estar ao seu lado, ele se retirou da equação em um estalar de dedos.
O que havia de bonito em ser desamparado — uma vez mais, já que meus pais seguiam fazendo isso — por alguém que me prometeu amparo?
Dean havia sido um escape da minha realidade, uma salvação de certa forma, porque ele foi a primeira pessoa desde a Agatha com a qual eu podia ser eu mesmo. Isso é um fato. E o fato dele ter feito isso, por si só, me trouxe um gosto de liberdade que eu continuei perseguindo até hoje. Ele me ouvia, me enxergava, me entendia. Dean foi o motivo de eu começar a me aceitar do jeito que eu sou, começar a entender que eu tinha uma voz por mim mesmo, que eu não devia aceitar tudo o que me demandava minha família. E agora que eu sei mais sobre a dele, eu compreendo melhor o porquê dele haver querido me ajudar nesse processo.
O fato é que ele não sabia ajudar, não realmente, então quando eu caí e precisei de amparo, ele não estendeu a mão. Ele mal conseguia amparar a si mesmo e, pelo jeito, isso ainda não mudou.
E eu sei, eu sei que nossa relação não deveria ter acontecido — por infinitos motivos -, mas aconteceu. E não foi preto e branco, como nada é, e eu não tenho certeza se eu teria chegado até aqui, caso as coisas não se desenrolassem exatamente do jeito que aconteceram.
Ao mesmo tempo, se qualquer um dos pestinhas, quando tinham seus catorze anos, aparecesse para mim dizendo que um cara mais velho está levando-o para um trailer em um beco enquanto usam drogas e fodem, eu certamente ficaria alarmado.
Era nessa balança que eu me encontrava, de um lado eu entendia que eu não deveria ter passado por isto e do outro eu também entendia que ter passado por isto me trouxe aqui. E aqui finalmente é um lugar onde eu começava a me encontrar, mas eu também tenho noção que não foi Dean quem me trouxe aqui, foi eu mesmo e foi todos os aspectos da minha vida inteira. Mas se ele não leva crédito pelas coisas boas, então por que ele deveria levar algum crédito pelas coisas ruins?
Essa era a balança, que pendia tanto para um lado quanto para o outro mas nunca equilibrava, porque a realidade é um complexo colorido, o branco e o preto apenas uma pequena parte da mistura caleidoscópica.
— Você acha que, quando eu o perdoei, eu passei a aceitar e normalizar nossa relação? — consegui formular, baixinho, ao olhar para ela. — Você acha que, pra levar a sério o que ele fez, eu não deveria perdoá-lo?
Morgan suspirou, parecendo também formular uma resposta por alguns segundos ao piscar algumas vezes, antes de responder:
— Não — respondeu, simplesmente. — Eu não acho que uma coisa anula a outra. O que eu acho é que, nesta situação específica, você o perdoou antes mesmo de ter uma chance de lidar com isso — especificou, devagar, ainda pensando no que dizia. — Você pulou etapas e eu acredito que tenha pulado porque é muito mais fácil pular para a parte em que você o perdoa e tudo fica bem do que discutir em terapia o que você realmente sente com relação ao que aconteceu — alfinetou, arqueando uma das sobrancelhas, e eu quase me encolhi na cadeira. — E eu acho que você pode e deve perdoar quem seu coração mandar, Alex, mas isso não significa que seja uma decisão sábia — enfatizou — mantê-los em sua vida. Muito menos tomar pra você a função de salvá-los de seus próprios demônios — usou a palavra que eu sempre repetia nas sessões.
Eu assenti de tal forma que foi frenético, demorando um tempo para encontrar uma resposta, preocupado com o quão certeira ela foi. Haviam livros inteiros em sua estante sobre isso?, eu subitamente me perguntei. Será que eu sou apenas mais uma variação copiada do comportamento de milhares de pessoas?
— Eu não tô tentando salvá-lo — defendi, mas parece que não tive muita firmeza na voz a julgar pela expressão descrente dela. — Eu só quero, sabe, ajudar um pouquinho. Não me custa nada — acrescentei, e ela pareceu discordar. — Eu só... — Bufei, ajeitando-me na cadeira. — Eu não sei o que eu tô fazendo, Morgan, mas de alguma forma, eu sinto que eu tenho que fazer isso. Eu sinto que é algo bom. Eu sinto que eu preciso disso tanto quanto ele precisa disso — contei, porque era verdade. Engoli em seco. — E talvez eu esteja errado, caralho, eu tô acostumado a errar o tempo todo. Mas eu sei que... Com a sua ajuda — enfatizei, com um sorriso mínimo —, agora eu sei que eu posso lidar com estar errado também.
Eu sentia que estava fazendo o certo, que havia uma resposta na ponta da minha língua, que minhas mãos estendidas quase roçavam em algo que eu não sei o que é, mas que eu preciso.
Morgan assentiu, como se já esperasse que essa fosse minha resposta, apenas discordasse dela.
— Você sabe o que significa errar com frequência, não é? — perguntou, com um sorriso meigo, e eu podia jurar que os olhos brilhavam com um pouquinho de orgulho. Arqueei as sobrancelhas. — Significa que você tá tentando com frequência, tomando decisões com frequência, aprendendo com frequência — apontou, sorrindo e eu acabei sorrindo de volta, sentindo o nariz pinicar. — Você tá tomando rédeas da sua vida. E isso aqui, tudo isso — gesticulou vagamente, entre o espaço entre nós — aqui faz parte desse processo. — Morgan, então, soltou um suspiro alto e ajeitou-se na cadeira. — Muito bem — falou, mais alto, com um sorriso de quem estava minimamente curiosa para onde isso me levaria. Talvez um pouco esperançosa de que eu estivesse certo. — Não se acanhe de me contar mais tarde o desenrolar da situação.
Remexi-me no lugar outra vez, subitamente ansioso.
— Eu realmente preferia quando você me dizia o que fazer — comentei, com um riso nervoso.
Morgan arqueou as sobrancelhas. — Alguma vez eu fiz isso? — perguntou, mas ambos sabíamos a resposta.
— Ah, você sabe o que eu quis dizer — resmunguei, e ela riu.
— Uns meses atrás você precisava de uma bicicleta com rodinhas — explicou, simplesmente. — E em alguns aspectos, você ainda precisa. Em outros, bom, eu não tenho por que colocar rodinhas se você já aprendeu a se equilibrar sozinho. É difícil, mas é apenas justo.
Acabei sorrindo, assentindo. — Eu odeio que isso faça sentido.
— Quanto às respostas, bom, Alex — disse ela, dando de ombros —, eu sei tanto quanto você. Posso auxiliar sempre, mas nunca te dizer o que fazer, só porque eu tomaria uma decisão diferente da sua. Afinal, é a sua vida. E isso tem grande parte no objetivo da nossa terapia aqui: que você tome suas próprias decisões. Eu sei que é difícil de acreditar — brincou, relaxando o rosto —, mas eu não tenho a resposta pra tudo. — Deu de ombros. — Eu tenho as minhas respostas, e meu papel aqui é te auxiliar a obter as suas respostas. E também — acrescentou, intensa, como se soubesse que era isso que aconteceria —, ampará-lo quando você obter respostas que não espera ou que não deseja e ajudá-lo a entender que isso faz parte.
Eu murchei um pouco ao pensar nisso, ainda que ela sorrisse confortavelmente.
— Minhas respostas são uma bagunça, nem respostas são — resmunguei, estalando a língua. — Às vezes, vejo que eu não sei o que eu tava pensando quando quis tomar minhas próprias decisões.
Morgan riu abertamente.
*
Meu ciclo de terapia havia mudado um pouco por conta do Dean, isso fez com que fosse impossível não discuti-lo nas próximas sessões. Segundo Morgan, aquilo era necessário, porque a gente precisava falar sobre o que aconteceu. Mas, ainda assim, ela obviamente não havia me dito o que fazer.
Então eu fiz.
Na próximas vezes que apareci no trailer, Dean estava apagado ou não estava em casa. E agora, quando entrei em seu trailer com mais comida, ele estava imóvel na cama e sequer ergueu o olhar para checar se era eu, apesar de haver me ouvido, então tomei como luz verde para ajeitar as coisas.
Quando ele estava dormindo ou não estava em casa, eu organizava um pouco o trailer e lavava a louça apenas, o local meio conservado da minha primeira faxina, e eu tirava o lixo. Levava sempre uma sacola com algo para comer e beber. Desta vez, eu levei uma marmita do León e um suco, pensando que o Dean não deveria viver apenas de lanches de café da tarde, mas refeições completas mesmo. Decidi não pensar muito sobre a última vez que o homem comeu um almoço ou uma janta próprios. Eu teria levado as duas refeições se aquela porcaria da geladeira fosse capaz de conservar, mas não era o caso, uma segunda refeição ia acabar apodrecendo até o final do dia.
— Você realmente deveria trancar a porta — acabei falando, enquanto lavava a louça, mas não obtive resposta. Seu celular estava tocando uma música em volume baixo. — Há quanto tempo não come? — insisti, depois de alguns minutos, mas novamente recebi apenas silêncio como resposta.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Quando sequei as mãos após lavar a louça, eu ouvi ele se mexer na cama e olhei para lá. Assim que nossos olhos cruzaram, ele desviou o olhar para o teto novamente.
— Desculpa — murmurou, tão baixo que cogitei ser produto da minha imaginação.
— Hum? — perguntei, incerto.
— Me desculpa.
Por alguns instantes, eu fiquei sem reação.
Eu não sei por que eu insistia em retornar, mas não era por um pedido de desculpas. O máximo de dor que senti por conta do Dean foi quando pensei que eu não era bom o suficiente para ele e que, portanto, ele não iria me amparar e definitivamente não estaria esperando por mim. E digamos que nossa relação tóxica e infeliz apenas acrescentou negativamente nas minhas inúmeras inseguranças e demônios, mas não era algo específico. De resto, eu sabia que era errado ter me envolvido com ele, mas não é algo que tenha afetado negativamente a minha vida por si só, apesar de eu saber que tinha potencial para isto.
Mas eu não mais queria um pedido de desculpas, porque eu não mais necessitava de um.
Seu tom foi baixo e taciturno, quase como se ele estivesse quebrado. No segundo que eu havia visto seus olhos castanhos, eu pude perceber que ele estava deprimido hoje.
Eu nunca havia visto Dean deprimido antes.
— O que tá no passado ficou no passado — declarei, apenas, baixinho também, apoiando-me na bancadinha ao olhar para ele.
Quando prestei atenção, vi o reflexo do caminho de lágrimas onde meus olhos podiam alcançar e também percebi que seu rosto estava avermelhado, talvez desde antes de eu chegar. Pude distinguir a marca de dedos no pescoço dele, fortes o suficiente para criar uma mistura de vermelho, roxo e verde. Ele tinha um dos braços dobrados acima da cabeça, a mão apoiada na testa e as pontas dos dedos mexendo nos fios de cabelo. Pareceu uma maneira de se acalmar, movimentos repetidos para aliviar o estresse.
— Eu não devia ter feito o mesmo com você — murmurou, a voz rouca, e apesar do pedido de desculpas, ele não soava arrependido, soava apenas dormente, letárgico, apático. — Você era bem novo mesmo, eu sei, eu... — murmurou, quase sereno, um pouco confuso. — Eu devia saber.
Eu não soube dizer a quem ele se referia com “haver feito o mesmo comigo”: ao pai, ao tio ou aos tantos outros mencionados por arruinar sua infância e arrancar sua inocência.
Franzi o cenho, desencostando-me da bancada para me aproximar. Vi que ele percebeu minha presença, tendo um mínimo de reação a isto: piscar rapidamente e virar a cabeça um pouco mais para lá, como se não conseguisse olhar na minha cara.
— Eu sei que eu era, você era também — murmurei de volta, parando quando cheguei na cama, olhando-o de cima. — Eu já te perdoei. Deixa estar.
Vi quando seu beiço tremeu mais um pouco e mais algumas lágrimas caíram, os dedos nos cabelos continuando o mesmo movimento contínuo.
— Eu não consigo.
Pisquei algumas vezes, percebendo que ele não estava falando de mim, mas dele mesmo. E eu também não conseguiria deixar estar se acontecesse o mesmo comigo, eu sei que não, então não tive nenhum conselho a oferecer.
— Eu sei — sussurrei, apenas.
Dean finalmente colocou os olhos vermelhos em mim, e eu senti meu coração encolher em alguma parte do meu peito.
— Eu sinto falta dela.
A declaração veio baixa, embargada, em tom não mais tão sereno, a julgar pelas lágrimas seguintes. Senti meus olhos marejarem em resposta. Aquilo atingiu direto no meu estômago, porque eu também sentia falta dela, embora estivéssemos falando de pessoas diferentes. E havia sido mesmo por sentir falta dela que eu apareci ali da primeira vez.
Engoli em seco, tentando não piscar para que as lágrimas não caíssem, e ergui o queixo. — De quem?
— Minha mãe.
O sussurro veio trêmulo, e então Dean limpou o rosto, deixando os dois braços dobrados ao lado da cabeça, ambas as mãos com as palmas para cima descansando em cima dos olhos molhados.
O nódulo em minha garganta aumentou.
— Eu sei que eu tô afundando — declarou ele, mais sério e sóbrio do que eu o vi na vida, a voz rouca e embargada. — Mas drogas são um escape, Alex — explicou, e eu pisquei quando ele usou meu nome ao invés de um apelido. — Sem elas, a gente fica depressivo. E quando a gente cai na depressão, a gente também cai da Ponte dos Sonhadores.
Estremeci com a menção à Ponte dos Sonhadores.
É uma ponte de mais de dez metros de altura, quase na saída da cidade, de onde muita gente se jogou, também conhecida como a Ponte dos Suicidas.
Quando eu era criança, eu sonhava em abrir a porta do carro no exato momento em que passávamos na ponte, a vista era bonita e eu me jogaria em direção às pedras, encontrando a Agatha assim que acordasse no além. Não era uma vontade racional, era um pensamento obscuro e impulsivo de quem guardava muita dor e muito rancor e muita culpa, mas que no fundo tinha medo da morte. Nunca considerei, de fato, fazer algo do tipo. Ainda assim, subia um calafrio desagradável na minha espinha à simples menção dessa ponte amaldiçoada.
— Não diga isso — pedi, mas sem saber como confortá-lo. — Eu vou te ajudar no que eu puder — garanti, engolindo em seco, vendo que ele ainda não havia descoberto os olhos. — E hoje eu vou ficar aqui, com você, se não se importar.
— Você devia ir embora — disse, sem muita vontade, a voz falha.
— Hoje, não — declarei, apenas. — Hoje eu fico.
Dean não chegou a soluçar, mas eu vi seu peito magricela oscilar, a respiração irregular, ao passo que as lágrimas escorriam como se não tivesse um fim.
Acabei sentando na colchão ao seu lado, e era tão fino que mal se moveu, então eu o observei.
— Eu não sei o que eu tô fazendo — sussurrou, perdido. — Eu não sei como eu tô vivo ainda — admitiu, assombrado. — Eu nem sei se eu tô vivo. Eu não aguento mais.
Tentei controlar meu próprio choro ao ouvir aquilo, as palavras pesadas tocando partes sombrias e marcadas pelos meus próprios demônios. Senti o nódulo na garganta tornar-se maior, então peguei uma das suas mãos, tirando de seu rosto, e apertei na minha.
Dean estava gelado e trêmulo, naquele calor infernal.
— Eu sei, eu te entendo — assegurei, quando ele me espiou por entre o pequeno espaço das pálpebras. — Vai ficar tudo bem.
— Eu não aguento mais — repetiu, os olhos entorpecidos em mim. — Nada faz sentido.
— Eu sei.
Eu segurei sua mão até que ele se acalmasse.
Dean ficou meio apático depois que o choro passou, como se ainda estivesse entorpecido, e não teve muita reação enquanto eu conversava com ele sobre besteiras e dava comida em sua boca. Eu contei sobre o meu dia, sobre o bar, sobre o León e o Enzo, inclusive contei a ele sobre os amigos que deixei para trás. Eu contei sobre as minhas músicas e em como eu estava pegando o jeito em alguns quesitos, mas em outros eu seguia vacilando.
Em algum momento eu percebi que ele começava a prestar atenção e que os olhos castanhos começavam a focar em mim mais vezes do que focavam o vazio. As orbes cor de mel seguiam meus movimentos de mão ansiosos e então focavam na boca, que não parava de mover-se ao vomitar palavras, e então subiam para os meus olhos e ali ficavam. Ele sorriu algumas vezes, sorriso que não chegava aos olhos, e resmungava “hum” vez ou outra, em tom exclamativo ou interrogativo, no meio de uma história.
Quando abriu a boca novamente, agradeceu, mas quando agradeceu, olhou para longe outra vez. E em seguida, começou a responder que sim, que não, que talvez, e assim por diante. Alguma cor havia retornado ao seu rosto quando a noite caiu, mas a doçura da voz e dos olhos melados não haviam retornado ainda.
A noite veio e eu tive que ir embora, mas quando voltei no outro dia — e eu voltei bem cedo, ansioso, com medo que ele fizesse alguma besteira que eu pudesse ter impedido -, todo o mel me esperava em um sorriso malicioso. E pela primeira vez, eu fiquei genuinamente feliz de vê-lo sendo ele mesmo.
Com o passar dos dias, eu finalmente compreendi o porquê de seguir voltando para ele. Compreendi o porquê de me sentir compadecido e o porquê da necessidade de ajudá-lo.
Pouco tinha a ver com ele, como pessoa — porque eu sinceramente não havia decidido ainda se eu gostava ou não de quem ele é, ou se eu deveria sequer mantê-lo na minha vida, como Morgan aconselhou -, e mais com o que ele representava para mim.
A compaixão que eu sentia por ele era a compaixão que eu gostaria que fosse sentida por mim. Havia uma linha fina entre nós, e eu subitamente percebi que eu poderia ter acabado exatamente onde ele estava. Pessoas maravilhosas cruzaram o meu caminho, fizeram parte da minha história, tornaram-se minha família e o meu lar, pessoas que jamais prometeram me acolher e ainda assim me acolheram de todas as formas que eram humanamente possíveis. Dean não havia tido essa sorte, e da mesma forma que ele havia errado profundamente comigo, aquilo havia sido produto de tanta gente que errou profundamente com ele.
Dean era um espelho no qual eu me enxergava.
Apesar dele haver colocado tanta distância entre eu e ele, em seu desabafo pesado sobre os diferentes níveis de sofrimento, nós tínhamos mais em comum do que eu ou ele imaginávamos.
Desde que eu o conheci, eu o associava à uma falsa ideia de liberdade: ele podia ser ele mesmo, podia ficar com outros homens sem ter medo ou vergonha, ele não precisava dar satisfação a ninguém e morava sozinho em um trailer foda, e no tempo livre se divertia mundo afora. Era uma ideia imatura e ingênua, mas também era uma ideia de como eu me via no futuro. Eu cresci e agora tenho a idade que ele tinha quando ficou comigo a primeira vez, eu também sou uma ideia de liberdade do meu eu mais jovem, morando sozinho e sem dar satisfação para ninguém, sem família por perto e também sem perspectiva de um futuro. E eu havia deixado alguém jovem para trás, alguém apenas um ano e meio mais velho do que eu era quando me envolvi com o Dean.
Haviam tantos paralelos, como se Dean houvesse se enroscado na minha vida, mas na verdade, nós fomos apenas duas almas quebradas que se encontraram.
E quando eu o enxerguei neste estado, tudo o que eu podia pensar era que esse podia ter sido o meu futuro e o meu fim. Somos um reflexo um do outro, e este poderia ser eu, caso algumas circunstâncias houvessem acontecido diferentemente.
Quantas circunstâncias e privilégios nos separavam?
Se este fosse eu, eu gostaria que alguém me estendesse a mão.
Então eu estendi a minha.
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