Made of Stone

64 L. De todos os hábitos do mundo


Notas iniciais
Gente linda, gente boa, gente bela! Primeiramente, feliz 2025 pra vocês, que seja melhor que 2024! Hã, eu fiquei devendo 1 cap em dezembro, eu tinha prometido 3 e no fim publiquei 2 e meio (com o despejo emocional), então eu me esforcei ao máximo pra trazer dois de uma vez agora, o do Caleb e o do Alex, o que faltava de dezembro e um pra janeiro! Boa leitura! <3

Alex, Alex, Alex.

Não sei como é possível, mas depois que ele foi embora, parece que meus pensamentos giram ainda mais em torno dele. Quando ele estava aqui, eu conseguia focar em outras coisas, mas agora que ele não está, meus pensamentos sempre acabam recaindo sobre ele. Ele não tomava conta da minha mente o suficiente, suponho eu, porque agora ele simplesmente não sai.

Conforme a dor aguda no meu peito passava a se tornar crônica, eu percebia que não deixava de ser dor. À medida que as suas palavras, suas feições, sua voz, seu cheiro, o amparo dos seus braços, retumbavam na minha cabeça, cada mínimo detalhe, eu desejava poder cumprir o que me havia sido pedido. Eu desejei poder seguir com a minha vida sem olhar para trás, poder esquecê-lo como se eu nunca houvesse esbarrado nele na vida, como se ele nunca houvesse existido para mim. Eu desejei poder não esperar por ele como se ele estivesse prestes a correr de volta para os meus braços.

Eu garanti que isso não aconteceria.

Eu garanti que seria impossível.

E, ainda assim, eu me peguei desejando poder cumprir com o que me foi pedido. Principalmente, porque talvez assim eu conseguisse que parasse de doer e não mais sentisse que havia um buraco em minha vida. Mas eu também me peguei desejando fazer exatamente o que ele havia pedido para que ele visse o estrago que causou, para que doesse tanto nele quanto doeu em mim.

E, ainda assim, eu não conseguia.

E, ainda assim, seguia sendo impossível.

Alguns dias antes dele ir embora, eu cheguei a perguntar se ele não sentia falta da nicotina, se havia sido mesmo tão fácil parar de fumar, visto que ele não teve nenhuma recaída. Alex disse que não era fácil e que ele sentia falta diariamente, sem nunca saber se aquele dia seria o dia em que ele cederia à vontade de fumar. Ele disse algo a respeito de ser uma luta diária, e que eram as motivações dele que o possibilitavam vencê-la no final de cada dia, não só por teimosia mas por medo. Ele tinha medo do que significava perder a luta contra o vício do cigarro. Ele tinha medo que assim que perdesse essa luta, perderia todas as demais.

Volta e meia essa conversa voltava à minha mente, porque agora eu me sentia de forma parecida. Só que não era da nicotina que eu sentia falta, eu tinha abstinência dele. Eu sentia que, assim que eu ligasse para ele e que mandasse mensagem, assim que eu implorasse para que ele me puxasse de volta para a sua vida, eu teria perdido uma luta e todas as demais. Eu perderia a razão, a dignidade e o meu coração no processo.

Mas eu não estava inteiramente convencido disto porque, ainda que eu vencesse a luta diária de não ir atrás dele, ainda assim eu sentia que perdi a razão, a dignidade e o meu coração, do mesmo jeito.

Alex me falou que, apesar dele ser movido pela sua motivação de não querer perder a luta contra o cigarro, o que permitia que ele seguisse sua motivação eram seus hábitos. Seu hábito de sono, de refeição, de medicação, de reflexão — tudo isso veio com a terapia, e eu vi que funcionava porque ele estava mesmo melhor antes de partir. Os hábitos mantinham uma rotina que permitia que ele não se desviasse dos aprendizados da terapia.

Eu desejei tanto poder cumprir com o que me foi pedido que eu tornei um hábito fingir que havia conseguido.

Eu tornei um hábito fingir que eu não havia sonhado com ele esta noite, que eu não havia chorado ontem quando percebi que seu cheiro não estava impregnado em mais nenhuma das minhas roupas, que eu não havia engolido um nódulo quando Ian comentou que o Alex parecia melhor do que nunca. Eu tornei um hábito fingir que nada relacionado ao Alex me afetava, que seu nome repetidamente mencionado pelos demais me trazia apenas conforto ao relembrar de um amigo, que minha boca não azedava toda vez que eu percebia que todos os nossos amigos seguiam conversando com ele. Eu tornei um hábito fingir que meu lápis não estava automaticamente desenhando seus contornos, que eu não futricava em suas redes sociais pelo celular dos meus amigos quando estavam distraídos, que o pingente de bala escondido debaixo da minha camiseta não havia sido um dia seu.

Eu pensei que eu estava ficando bom nisso, porque agora, quando ele era relembrado, eu não ficava apenas quieto. Eu sorria e comentava algo também, memórias de um antigo amigo.

Eu tornei um hábito fingir que não era impossível.

E então junho chegou.


feliz aniversário, caleb. me desculpa fazer o pedido por você meio ano atrás. e me desculpa por isso, por favor, mas neste momento, neste minuto, neste dia, eu vou quebrar meu próprio pedido. é uma data especial, aniversário do dia que você nasceu e eu sou tão grato por isso. eu sei que tô sendo impulsivo, mas antes que eu tenha um resquício de consciência, me diz: ainda é impossível?


E bem assim, em um estalar de dedos, tudo desmoronava.

Alex tinha tanto poder sobre mim que uma simples e pequena mensagem de texto, depois de seis meses, fez ruir todo o castelo de fingimento de que eu era capaz de superá-lo. Lavou qualquer resquício de progresso que eu estava tendo — ou, ao menos, foi essa a sensação que eu tive. Um perigo, foi o que pensei, que alguém assim existisse andando solto por aí, com a possibilidade de um dia aparecer na minha frente de novo, com a capacidade de me ter nas mãos em um piscar de olhos.

A mensagem chegou um minuto para a meia-noite, quando eu não tinha mais esperanças de que ele entrasse em contato. E eu estupidamente tive esperanças, embora as mantivesse um tanto escondidas, ocupado em tentar manter o hábito de fingir que eu o esqueci por completo, um que não durou muito.

Era meu aniversário e eu passei o dia todo deprimido.

Eu fui recebido por confetes e apitos no rosto — uma incomum tradição de família, desta vez, sem o Will, apenas com minha mãe, meus tios e a Kira. Eu sorri, aceitei os abraços e os presentes, e falei com o meu irmão por videochamada, que observava tudo do celular apoiado no balcão da cozinha. Eu aceitei os presentes e até mesmo o olhar compassivo e preocupado da minha mãe quando eu não corri para engolir o bolo de chocolate por inteiro. Céus, isso devia ser mesmo um alerta de que algo estava errado.

Eu nunca fui muito fã de aniversários — coisa boba comemorar trezentos e sessenta e cinco dias — até o Alex aparecer. Ele fazia parecer que era um motivo lindo de celebração mas ele era suspeito para falar, porque ele usava qualquer motivo para celebrar. E agora que ele não estava aqui, e que ele já não era parte da minha vida nem mesmo à distância, fazer dezesseis anos perdeu o sentido, parecia a coisa mais deprimente do mundo.

Eu estava melhor, eu juro que estava.

Eu realmente tornei um hábito fingir que eu não precisava dele, era um hábito diário, um hábito que começou a vir naturalmente. Mas eu suponho que eu podia abrir uma exceção ou outra para sentir a sua falta, principalmente quando era tão forte que ficava muito difícil fingir que não, como no meu aniversário. Sem falar que era a metade do ano, ou seja, por metade de um ano todo eu não o tive em minha vida. Este foi o período de tempo mais longo que eu passei sem vê-lo desde que o conheci e o abismo era insuportável.

Eu sentia que esta data representava esse marco de meio ano sem o Alex, e não a minha idade, então o motivo para comemoração se perdia no meio.

A data caiu em uma terça-feira, então eu fui dispensado do colégio pela minha mãe, ainda que eu insistisse que eu preferia estar com meus amigos. E eles insistiram em comemorar, por algum motivo. Alex parece ter infiltrado esse espírito de celebração neles também, porque todos amavam uma desculpa para comer e beber e festejar. Eu não quis fazer festa, então eles apenas vieram aqui para casa e a gente passou a tarde e a noite juntos. Mason, Grace e Ian decidiram dormir aqui no final da noite. Chris foi o último a ir embora, quase meia-noite, e me deu um abraço antes de entrar no carro, agradecendo por ter sido convidado para mais um aniversário meu.

Quando ele entrou no carro e partiu, eu relaxei os ombros e suspirei, contemplando o escuro e o silêncio do lado de fora.

Aniversários também eram datas muito sociais, ou seja, eu mal tive um tempo sossegado comigo mesmo, ainda que parecesse que eu precisava disto ainda mais do que o normal hoje.

Hoje, dentre todos os dias.

Eu ainda conseguia ouvir as risadas histéricas do Ian daqui — ele estava especialmente feliz hoje, por ter mais tempo a sós com a Grace, sem o Dan por perto, visto que todos os demais já haviam ido embora. Uma hora atrás eu arrumei as camas no chão do meu quarto, onde não dava nem para se movimentar dentro, com a porta bem aberta por pedido da minha mãe. Magic estava bem deitado entre elas da última vez que eu vi, mas agora eu podia ouvir os latidos aqui de fora — seja lá o que eles estivessem fazendo, Magic ria junto deles, da sua forma canina.

Eu não quis entrar, então fiquei emperrado no chão.

Enquanto eles estavam ali, forçando-me a interagir, eu não tinha tempo para simplesmente sentir o que quer que eu estivesse sentindo. E agora que eu tinha alguns minutos, no silêncio e no escuro do lado de fora, eu não conseguia sentir nada.

É possível não sentir nada?

Só que então meu celular vibrou no meu bolso.

Era uma mensagem do Alex.

Por um vislumbre de segundo, eu pensei que pudesse ser ele, mas apenas porque é o que eu sempre pensava antes que a realidade se infiltrasse. E quando eu li a mensagem do número dele, que eu nunca consegui deletar, com seu nome escrito com todas as letras, eu quase chorei. As palavras eram tão Alex que eu acho que só naquele momento eu consegui entender a magnitude do quanto eu sentia falta dele.

Eu reli as palavras milhões de vezes antes de desligar o celular e escondê-lo de mim mesmo no bolso, retirando a mão como se me queimasse. Eu podia reler o que havia acabado de ler na minha mente, como se as palavras houvessem sido marcadas à ferro debaixo dos meus olhos, eu ainda podia vê-las — céus, eu quase podia ouvi-las na voz dele.

Minha visão ficou turva, sinal de que eu deveria ficar por ali por um momento.

Meu coração estava acelerado como ficava toda vez que ele se aproximava — era o mais próximo que eu teria disto, uma mensagem de texto digital. Antes que eu me livrasse dele, o celular vacilou nas minhas mãos porque elas tremiam e eu senti a boca seca. Eu senti tantas coisas, tudo de uma vez, que não consegui processar tudo. No final, não sei o que mais perpetuou no meu peito: ódio ou alívio. Os dois sentimentos foram bem fortes, direcionados à mesma coisa, ao fato dele haver vindo atrás de mim mesmo quando eu não deveria ir atrás dele.

Eu senti ódio, raiva e rancor.

Ao mesmo tempo, eu senti alívio, esperança e ternura.

Eu sobrecarreguei, obviamente, e quando voltei para dentro de casa, eu já não tinha energia nenhuma para gastar. Observei, com a tentativa de um sorriso, meus amigos fazerem guerra de almofada, então me arrastei para o quarto, jogando meu celular longe. Grace espiou pela porta, perguntando se estava tudo bem, e eu devo ter murmurado algo sobre bateria social baixa quando me atirei na minha cama e virei em direção à parede.

Eu fiquei acordado, a cabeça à mil por hora.

Eu ainda estava acordado quando Ian e Grace deitaram praticamente um ao lado do outro, paralelos à minha cama, enquanto Mason ficou aos pés deles basicamente. Eu não me movi e não falei nada, com a cabeça quase grudada na parede, fingindo estar dormindo. Eu ainda estava acordado quando se faziam ouvir os cochichos de Ian e Grace e as risadas que tentaram ser controladas. Eu ainda estava acordado quando ouvi os resmungos do Mason, irritando-se porque não conseguia dormir com as risadas deles, o que fazia os dois rirem ainda mais. E eu seguia acordado quando eles caíram no sono e eu finalmente pude mudar de posição, vendo que Grace e Ian dormiram de frente um para o outro e que Mason estava sendo sufocado por um cachorro caramelo.

Eu me ajeitei, abraçado no Waltney, e tentei dormir.

Eu ainda estava acordado quando os pássaros começaram a cantar, e só quando a luz de fora começou a infiltrar no quarto é que eu fui abraçado pela escuridão do sono.

*

Alex podia ser a pior pessoa do mundo quando queria.

Depois de muito refletir e sentir sobre a mensagem, eu cheguei a esta conclusão e decidi que mais nenhuma conclusão sobre ele importava. Acontece que era difícil tomar uma decisão sobre o outro quando você não convive com ele há seis meses, sentindo que talvez já nem o conheça mais tão bem quanto pensava. Mas essa foi essa a conclusão final: ele podia ser o pior tipo de pessoa que existe, ah, ele podia mesmo.

Não deveria me parecer uma novidade, afinal, eu conheço o Alex há três anos e eu sempre estive muito ciente do seu lado sombrio, quebrado, instável, seu outro lado da moeda. Eu costumava pensar que ele era bipolar — sem sequer saber o que é bipolaridade -, que haviam duas personalidades disputando o mesmo corpo, e não foi sem motivos. Esse era o motivo, essa briga interna dele contra ele mesmo, afinal, acho seguro afirmar que o Alex é o seu maior inimigo. Eu estava ciente deste lado e, se dependesse deste lado apenas, eu não teria permanecido na sua vida por três anos, não teria mesmo.

Era o outro lado que me fazia ficar, a parte dele que era luminosa, calorosa e inteira, a parte que fazia dele o melhor tipo de pessoa que existe nesse mundo.

De alguma forma, com o tempo, acho que ficou óbvio que não se pode ter o Alex pela metade, por nenhuma delas, elas vinham juntas em uma mistura caótica, desordenada e absurdamente linda.

Eu aceitei isso.

Mas quando esse lado instável vinha à tona para me lembrar de todos os motivos pelos quais eu nunca baixava a guarda com ele, eu tinha vontade de devolvê-lo à fábrica. Eu queria que ele sumisse da minha vida para sempre, apenas para um segundo depois ter meu coração espremido dentro do peito pela simples ideia de que meu pedido fosse subitamente atendido pelo universo.

Isso não era uma conclusão, era apenas uma reflexão.

A conclusão era que o Alex podia ser realmente detestável, seja quais forem suas razões, seus motivos, seus poréns. E eu não conseguia encontrar nada que justificasse o quão cruel ele poderia ser — comigo, dentre todas as pessoas.

Era injusto.

Ele era injusto comigo.

Qual era a necessidade de sumir e depois fazer uma rápida aparição — o suficiente para me puxar de volta a ele?

Não havia sentido em me fazer passar por tudo isso, de fazer os pedidos horrendos que ele me fez, e então esperar meio ano para retirar tudo em meio segundo com apenas um par de palavras, devido a uma fraquejada de consciência. Eu não sabia se ele sequer tinha noção do que havia feito, de que havia jogado o motivo de uma decisão no lixo ao mesmo tempo em que continuava firme na mesma decisão. Ele havia jogado no lixo, também, todo o meu progresso — que parecia grande, diga-se de passagem, apesar de agora parecer apenas uma ilusão — em esquecê-lo, ou fingir que estou esquecendo-o. Se ao menos ele estivesse voltando atrás na sua decisão, se apenas ele pudesse pedir desculpas que durassem mais do que apenas um dia, se ele quisesse remendar as coisas de uma maneira diferente, então eu poderia considerar genuíno o suficiente para perdoar.

Mas não era o caso.

Pelo contrário, quanto mais eu pensava sobre isso, mais eu entendia que não é que ele estivesse esperando uma resposta minha, é que ele simplesmente mandou uma via única de mensagem. Não foi um convite para que eu retornasse para a sua vida porque ele se arrepende, foi um lembrete de que ele segue não me querendo em sua vida, mas que ainda tem consideração pela época em que queria.

Ele queria saber se seguia sendo impossível acatar aos seus pedidos horrendos, então talvez ele tenha se assustado pela ideia de que havia se tornado possível. Talvez ele não goste de pensar que vale tão pouco assim, que ele seria descartado da forma como pediu para ser, que ele teria uma pessoa a menos no mundo. Talvez ele esteja perdendo batalhas por lá, o suficiente para sentir um pouco de agonia ao pensar que perderia mais algumas aqui. Ou talvez ele apenas tenha dito aquilo em tom de piada e eu esteja pensando demais sobre isso. Quem sabe se não foi apenas uma descontração no final de um “parabéns” desconfortavelmente educado, sem significado por trás, como quando você vê um lembrete de aniversário de um conhecido nas redes sociais e não consegue fingir que não viu porque a consciência pesa.

De toda maneira, não era um convite para conversa. E definitivamente não era um convite para a sua vida.

— Hã, Caleb? O Alex chegou a te dar os parabéns?

Demorei a processar que a voz pertencia a Grace e que ela já havia arrumado as cobertas onde dormiu, agora sentada ao meu lado na cama. Ian e Mason já haviam ido embora, e ela estava esperando seu pai buscá-la.

Estranhei a pergunta, mas acabei assentindo.

— Ah. — Grace soou confusa e ficou quieta por um tempo, antes de pensar em falar novamente. — Eu achei que ele não tivesse, que talvez fosse por isso que você ficou estranho ontem.

Franzi o cenho, finalmente olhando para ela.

— Ele me mandou mensagem — decidi dizer, apenas, ao invés de negar que o Alex realmente tivesse a ver com a minha “estranheza” de ontem.

Grace me olhou por um tempo e então assentiu, desviando o olhar antes de suspirar e deixar os ombros caírem no que parecia cansaço. Supus que era, em parte, sono, já que tivemos que acordar cedo e, bom, se eu dormi duas horas foi muito.

— Sabe, no início a gente pensou que vocês tinham brigado. De novo — acrescentou, revirando os olhos. — No dia que ele foi embora — especificou, quando eu só pisquei. — Mas o Alex insistiu que não. Então a gente pensou que você tivesse, sabe, ficado chateado depois dele ter ido e que era por isso que você decidiu cortar laços com ele. Algo assim. Eu sei, desculpa — apressou-se, quando eu fiz uma careta —, mas é que a gente realmente não tava entendendo. Vocês nem eram mais amigos nas redes sociais. Então eu perguntei, já que ninguém teve as bolas de se meter entre vocês dois, e o Alex me contou que foi decisão dele.

Desviei o olhar, com um suspiro, e me remexi no lugar.

De alguma forma isso me fazia sentir envergonhado — humilhado, quase — que eu tivesse sido descartado da vida do Alex dessa forma e que ele não tivesse problemas em dizer que foi decisão dele para uma amiga em comum.

— Caleb, eu juro que nunca xinguei tanto alguém na minha vida!

Franzi o cenho, voltando os olhos para ela, as engrenagens funcionando para um lado desagradável. — Foi por isso que ele me mandou mensagem ontem?

Grace franziu o cenho e então negou, incerta.

— Duvido muito — resmungou, estalando a língua, e eu relaxei minimamente. — Isso foi semanas atrás e mesmo que eu tivesse xingado até a vigésima geração dele, ele não cedeu. Ele ainda acha que tá certo. — Ela puxou um pedaço do jeans desfiado. — Otário.

Desviei o olhar novamente.

Eu definitivamente não queria conversar sobre isso, e muito menos com a Grace.

— Caleb... — chamou, mas eu não quis olhar para ela, meus olhos na janela aberta pela qual ele sempre entrava. — Eu não vou defender o Alex, não mesmo, porque ele tá errado. Mas você entende que, de uma maneira muito distorcida, ele acredita que tá fazendo o melhor pra você, não é?

Suspirei, sentindo meu cenho vincar.

Eu suponho que eu consiga entender isso.

Já havia me passado pela cabeça, no entanto, essa era apenas uma das possibilidades. Talvez fosse essa a intenção dele, ou talvez seja apenas o que ele se fez acreditar, mas também poderiam haver outros motivos. Eu posso conhecer o Alex, mas nunca vou saber por completo o que ele está pensando, eu não sou ele. O ponto é que, no final das contas, nada disso importa. Ele teria que repensar em algum momento, depois de meses, a possibilidade de estar errado, de estar fazendo o pior para mim. Eu aposto que chegou a repensar, mas no final, ele seguiu com a mesma decisão.

Sinceramente, eu acho que eu sou apenas parte disso.

Alex tomou uma decisão baseada em toda a vida dele, no que seria melhor de todos os ângulos, na melhor aposta. E talvez o resultado final não seja tão ruim para ele, afinal, ele está começando uma vida nova, está fazendo o que gosta, está sendo livre como sempre quis ser. Que ele mantenha a mesma decisão, depois de semanas e semanas seguidas, só pode significar que isso está sendo mais benéfico do que maléfico para ele.

De toda forma, mesmo que ele realmente se importe comigo, mesmo que queira o melhor para mim, mesmo que esteja sofrendo tanto quanto eu, isso não tem importância mesmo que fosse verdade.

Não importa porque ele está errado.

Eu não estou melhor sem ele.

— Não importa mais. — Então, olhei para ela, com uma tentativa de sorriso. — De boas intenções o inferno está cheio — citei, dando de ombros. — Não importa no que ele acredita. Ele fez uma escolha e eu vou respeitar.

Grace ficou em silêncio quando voltei a olhar para a janela, até sua voz soar incerta: — Mas você nem tentou falar com ele?

Neguei, os olhos ainda observando o movimento da minha cortina nova com o pequeno e fraco vento.

— Você simplesmente aceitou?! — falou, o volume aumentando, e eu logo vi que eu seria o próximo a ser xingado. — Você não pode simplesmente aceitar que ele seja um idiota! Você devia ter falado umas verdades, Caleb, dito que ele...

Virei-me para ela. — Não.

— Caleb! — exclamou, incrédula, antes de suspirar. — Escuta, você tem que falar com ele. Uma coisa é eu puxar a orelha dele por algo que ele fez com você, outra bem diferente é você fazer isso! — apontou, palavra por palavra, tentando esconder a frustração mas ela exalava de cada sílaba indignada. — Ele pode não me ouvir, mas ele ouviria você.

Neguei, sem deixar espaço para discussão.

— Não vou fazer isso.

— Caleb!

— Não vou, Grace — insisti, tentando soar mais firme, ao franzir o cenho e sustentar seu olhar. — Ele quis isso, então que ele tenha o que quer.

— Ele não...

Grace se impediu de continuar, frustrada, como se desse por conta de que eu negaria qualquer coisa que ela dissesse. Então se pôs a pensar por alguns instantes ao passo que eu pegava meu celular para me distrair e logo o largasse ao lembrar do porquê de não haver mexido nele até agora.

— Você não pode simplesmente aceitar tudo o que fazem com você — falou, finalmente, mais calma. E eu suspirei pesadamente, cansado da conversa, relembrando o porquê de eu nunca haver conversado sobre isso com ela. — Se algo tá errado, você tem que falar que tá errado. Você tem que lutar um pouco, pelo menos, pelo que você quer, Caleb — insistiu, a voz voltando a se tornar urgente, como se não pudesse controlar. — Você não pode viver a vida assim, desistindo de tudo o que dá errado, tudo o que podia ser consertado com diálogo.

Pisquei, olhando para ela com o que eu imagino que seja indignação. — Não, quem desistiu foi ele.

Grace negou, com um olhar compassivo.

— Não, Caleb, ele pode ter desistido primeiro mas quem desistiu foram vocês dois.

Evitei bufar mas desviei o olhar novamente.

Alex sempre encontrava uma maneira de estragar tudo, e talvez não fosse culpa dele, mas era o que sempre acontecia. Foi o que aconteceu no dia da tempestade, e ainda assim — ainda assim! — eu não durei muito tempo longe dele. Ele precisava de ajuda e eu jamais daria as costas para ele dessa forma, mesmo que eu estivesse magoado, mesmo que eu não tivesse perdoado-o por completo. Eu quis continuar ao lado dele, mesmo que eu ainda não conseguisse baixar a guarda para que a gente ficasse...

Suspirei, bloqueando o final daquela frase, vendo que Grace parecia me esperar.

O fato é que, se dependesse de mim, nós ainda estaríamos bem.

Alex foi quem tomou essa decisão.

— Eu vou te dizer isso porque eu sou tua amiga e eu te amo muito — continuou ela, quando segui em silêncio, e eu engoli em seco. — Mas eu venho observando vocês dois por anos agora, então eu posso dizer isso com propriedade. Essa pode ser a primeira vez que o Alex corta laços com você, Caleb, mas não é a primeira vez que você corta laços com ele.

Virei o rosto para ela em um vulto, meus olhos tentando ler se ela estava mesmo falando sério, porque o que diabos?!

— Eu nunca...

— Sim, fez — interrompeu, séria. — É algo que você faz, Caleb, você desiste. Você dá as costas. Você se fecha. E não, eu não sei o que foi que o Alex fez durante as picuinhas entre vocês que eu testemunhei, mas o que eu sei é que era sempre ele pedindo desculpas.

Cerrei a mandíbula, sentindo um ódio que eu não deveria sentir da minha amiga, mas ele estava borbulhando no meu peito.

O que caralhos?!

— E eu não sei disso de certeza — adiantou, sincera —, mas conhecendo você, eu imagino que o único motivo pelo qual vocês fizeram as pazes naquelas vezes é porque ele não desistiu de você. Foi porque mesmo quando ele também tava puto com você, ele continuou tentando manter você na vida dele. Eu tô errada?

Pisquei, ainda encarando-a com toda a indignação do mundo, ao pensar em uma resposta. E a minha mente voou em um espiral de todas as respostas mais rudes que eu poderia pensar desde “quem você pensa que é?” até o “você não sabe de nada sobre o que eu passei com o Alex”, mas tudo seria raivoso demais para que eu verbalizasse.

Acabei optando pelo silêncio, desviando o olhar para que eu não a xingasse pelos olhos também, já que eu entendia que a minha raiva dela era desproporcional, apenas uma reação defensiva do meu eu furioso.

E era essa questão ultimamente, eu andava sempre furioso.

Suspirei, tentando relaxar e pensar no que ela havia dito, mas meu lado teimoso não queria considerar palavra nenhuma dela, porque ninguém tinha o direito de se meter nessa história — ao menos, era isso o que o meu lado furioso dizia.

— Desculpa, Caleb, eu não quero... — Suspirou, ao menos soando um pouco arrependida. — Eu não tô em posição nenhuma de dar lição de moral em ninguém, eu só... Eu ando preocupada com você — murmurou, sincera, e eu voltei meus olhos a ela.

Engoli em seco, o castanho me encarando de volta com nada mais do que honestidade.

— Você tá tão diferente — murmurou, soando entristecida. — Desde que o Alex se foi, você parece mais fechado do que antes, sabe? — apontou, e eu apenas pisquei. — E você fala mais, parece, e anda mais com a gente, parece também, mas ao mesmo tempo, é como se você não estivesse realmente ali.

Desviei o olhar para a janela outra vez, sentindo meus olhos arderem, piscando para afastar.

— Parece que sua luz apagou, sabe? — continuou, soltando um suspiro baixo. — Eu percebi isso ontem, porque mesmo sorrindo e cercado de gente, você tava... Apagado. E eu acho que eu só tô tentando achar uma maneira de acender sua luz de novo.

Engoli em seco mais algumas vezes.

— Eu só...

Fechei a boca, sem conseguir terminar.

Eu queria achar uma maneira de me explicar, porque era muito humilhante que a única explicação para algo tão grande quanto “minha luz apagar” fosse a ausência do Alex.

Forcei meus olhos a focarem nela quando dei de ombros, sentindo-me pequeno, e disse em um fiapo de voz: — Ele era meu melhor amigo.

Era a primeira vez que eu dizia algo assim, no passado, como uma admissão de que isso não era mais verdade agora.

E acho que era esse o problema: Alex era realmente o meu melhor amigo, de um jeito que nenhum deles é, nem mesmo o Mason. Eu não consigo conversar com o Mason sobre as coisas que eu conversava com o Alex e eu não me sinto compreendido pelo Mason como eu me sentia compreendido pelo Alex. E sim, de certa forma, Maze também é meu melhor amigo, porque eu simplesmente não preciso falar com ele sobre sentimentos e devaneios interpessoais, ele entende quando preciso de companhia e quando preciso ser deixado sozinho, como se, com base nos meus movimentos, ele saiba como se movimentar também. É esse o tipo de amizade de outro mundo que eu tenho com o Maze.

E com o Alex, era...

Eu não precisava falar com ele, mas às vezes eu precisava falar, e ele me ouvia. Ele me via e me entendia. Simplesmente acontecia, sem nenhuma necessidade e nenhuma cobrança, sem nenhuma estranheza. Era genuíno e fluido e certo. Ele nem sempre sabia quando eu precisava estar sozinho ou precisava de companhia, ele me magoava muitas vezes, e em outras vezes ele dizia todas as coisas erradas. Mas era sempre genuíno e sempre fluido e sempre certo.

Quando eu estava com ele, eu me sentia bem.

Não era uma amizade comum, era algo bônus, algo a mais, algo que talvez eu não precisasse antes, mas depois de ter, parece impossível viver sem aquilo. E agora que eu tinha que viver sem ele, eu sentia que haviam coisas presas dentro de mim que eu precisava colocar para fora, coisas que saíam livremente e circulavam em torno de mim e dele quando estávamos caminhando pelas ruas escuras de madrugada, coisas que às vezes saíam pela minha boca tão fechada, porque parecia certo falar, com ele, quando nunca falo nada. E agora tudo isso estava trancado na minha garganta, tornando-se incômodo, ao mesmo tempo em que eu me sentia tão sozinho.

E eu não estava sozinho, era essa a questão, mas eu...

Eu sinto falta dele.

É por isso que “ele era meu melhor amigo” é mais sincero do que “eu sou apaixonado por ele”. Eu não sinto falta dele por conta da vontade de me atirar em seus braços quando ele estava por perto, nem pela possibilidade dele me beijar, nem pelo sonho acordado de segurar sua mão na minha.

Eu sinto falta dele porque ele me fazia bem.

— Eu sei — sussurrou Grace, depois de um tempo, quando eu nada mais disse. — É por isso que você não devia desistir e nem deixar que ele desista. Melhores amigos servem pra isso, pra puxar a orelha do outro quando fazem algo de errado.

Suspirei, mas acabei negando, de um lado ao outro.

Isso não tem conserto, não mais.

Grace franziu o cenho para a minha resposta não verbal. — Vocês dois tão deixando o fato de você serem mais do que amigos — enfatizou, devagar — interferir na amizade de vocês.

Abaixei os olhos para os meus pés, não conseguindo sustentar o olhar duro dela. E agradeci mentalmente quando a buzina familiar do carro do pai da Grace soou do lado de fora.

— Pensa no que eu falei — pediu, levantando e deixando um beijo no meu rosto. — Não finja que não ouviu.

Grace foi embora e eu, de fato, pensei no que ela falou.

Eu não queria pensar nisso, mas depois do meu ataque de raiva inicial, eu realmente processei o que ela havia dito sobre eu haver cortado o Alex da minha vida mais vezes antes dele ter feito isso por conta própria.

Eu quis discordar, eu pensei em mil maneiras de dizer que era mentira, porque eu sempre estive ali e eu nunca fui parar em outra cidade e nunca deletei o Alex da minha vida. Eu quis dizer que eu havia perdoado tudo o que ele fez e que, se fizemos as pazes todas aquelas vezes, foi porque dependeu de mim também. Eu quis contar que fui eu que ofereci uma trégua no aniversário dele do ano passado, que eu também pedi desculpas a ele algumas vezes pelo que falei ou pelo que fiz.

Eu quis dizer que, mesmo que o Alex tivesse desistido de mim nas vezes em que eu momentaneamente — porque era momentâneo, não era? — cortei laços com ele, eu não teria desistido dele.

Mas eu não consegui.

Eu não tinha certeza se era verdade.

*

Algumas semanas depois, entediado na aula de literatura outra vez — embora aliviado que os textos descritivos houvessem acabado, pelo menos, por um tempo -, eu me peguei desenhando. Eu sempre carregava grafites agora para onde quer que eu ia, alguns que eu havia ganhado, outros que eu havia comprado, na minha mochila.

Eu desenhei o vislumbre de uma praia, em um cais parecido com o que eu vi em uma publicação do Alex quando espiei o celular do Ian, imaginando como seria a vida dele lá. Eu estava cogitando se não havia sido algo bom — para ele — mesmo, que houvesse cortado qualquer vínculo comigo, se ele realmente não seria mais pleno e feliz dessa forma.

Eu imaginei, enquanto rabiscava a união da água com o céu no horizonte, que o mar me lembrava dele, uma vastidão de sentimentos acoplados em uma pessoa só. A maneira como as ondas se movimentavam indicavam a liberdade que ele queria encontrar, correndo em sua direção. Rabisquei um cachorro de pelugem escura ao preenchê-lo com o grafite, sentado na beirada do cais, os olhos vidrados no mar, desejando mais do que tudo unir-se a ele.

Não percebi que a professora parou ao meu lado até que ela soltou um som pelo nariz, recém dando-me por conta que a sombra no meu desenho era o corpo dela bloqueando a luz das milhares de janelas da sala de aula.

Acabei fechando o caderno com mais rapidez do que imaginei possível, visto que eu estava longe de fazer o que era pedido em aula: ler mais um capítulo de Romeu e Julieta e fazer um resumo curto para discutir em aula. Para ajudar minha situação, o caderno que fechei era, de fato, um caderno de desenhos, porque eu já não gostava de desenhar em folhas pautadas. Ou seja, meu caderno de aula estava fechadinho e a tela do meu celular, aberta na versão pdf do livro — já que não haviam físicos o suficiente na biblioteca pública para todos -, estava apagada pelo tempo em desuso.

Apesar das minhas notas ruins e do meu esforço ser pior ainda, a professora Bia sorriu.

— Você é muito bom — elogiou, as sobrancelhas pintadas lá em cima, em admiração genuína. Então elas baixaram outra vez quando o sorriso gentil aumentou, tornando-se divertido. — Eu poderia fazer vários textos descritivos sobre o seu desenho. Várias prosas e poesias. Eu poderia escrever um livro inteiro baseado em você, no meio da aula de literatura, desenhando uma praia.

Senti as orelhas queimarem, mas quando olhei em volta, poucos olhares voltaram-se para ela, porque ela falava baixinho para não interromper a leitura e o raciocínio dos demais.

Engoli em seco, sentindo um pouco de culpa pela falta de esforço, só porque tirei uma nota razoável no último exercício.

— Sabe, eu não acho que você seja ruim em literatura, Caleb — refletiu, baixinho. — Eu acho que você apenas se esforça para vê-la com olhos objetivos, sendo que a única parte objetiva da literatura está na superfície, nas classificações e divisões para estudos, é apenas a casca que a envolve. Todo o demais é subjetividade, todo o demais é arte pura — clamou, mas eu achava que ela era suspeita para falar, sabe, a professora de literatura. — Como um artista você mesmo, acho que você tem total capacidade de ver isso.

Em seguida, ela levou uma mão para o meu caderno de desenhos fechado e eu, hesitantemente, deixei que ela o abrisse outra vez onde meu grafite jazia na curvatura das folhas. Ela bateu o dedo indicador no desenho duas vezes, com um sorriso, antes de olhar para mim.

— Isso aqui é poesia. Você consegue ver? — perguntou, com olhinhos brilhantes na magia do magistério. Eu apenas desci meus olhos para o desenho, sem conseguir responder, para a subjetividade escondida ali. Eu não podia mais ver seu sorriso, mas ouvi que ela soltava um riso apreciativo quando pediu apenas: — Pense nisso, hum? — E então retornou a circular entre as classes, sem nada mais a dizer sobre Shakespeare e o capítulo não lido.

Apesar de todo o clichê, aquilo realmente me deixou pensativo.

Não foi sobre a literatura em si, óbvio, mas eu também senti que a professora também não se referia totalmente à literatura. Ela costumava fazer isso, tentar levar o conteúdo obrigatório lecionado para fora, para as nossas vidas pesadamente reais.

Era a segunda vez em pouco tempo que me falavam coisas para logo em seguida pedir que eu pensasse sobre essas coisas. Querendo ou não, isso me fez revisitar minha vida, o que eu faço ou o que eu falo, e quem eu sou.

Eu sei que tudo é uma questão de perspectiva, como ver as coisas de maneira objetiva ou subjetiva, como me ver sentado, no meio da aula de literatura, desenhando uma praia ou ver as ondas do mar, sentado em um cais, buscando liberdade. Entendo que existem lados de um mesmo fato, de uma mesma imagem, de uma mesma realidade. Mas acho que foi a primeira vez que eu entendi que existem lados de um mesmo lado, que sentado onde estou, vendo as coisas pela mesma lente, eu ainda consigo ter perspectivas diferentes.

Não se trata de literatura, nem do Alex, se trata de mim.

Pode não ser o resultado que Grace esperava, ou até que minha professora esperava ao tentar me inspirar sobre literatura, mas eu decidi que eu devia pensar em mim. Isso significava deixar para trás o que se foi e deixar de lado o que eu não tenho interesse — desculpa, literatura — e focar no que eu quero e no que eu gosto. E talvez isso também signifique focar em literatura, em matemática, no que seja, para que eu consiga me formar e fazer um futuro para mim, porque eu nunca realmente parei para pensar em um futuro que seja meu.

Eu quero desenhar melhor, fazer melhores traços, conseguir desenhar uma pessoa sem que eu torça o nariz para o resultado, e quem sabe começar a usar cor. E eu sei que existe poesia na arte, é algo que eu tenho dificuldade em transmitir, e eu também quero ficar melhor nisso.

Alex está vivendo a vida dele e eu deveria viver a minha — e talvez seja assim que eu deva vivê-la. E talvez seja difícil e tudo o que eu consiga são passos de bebê, mas quem sabe passos de bebê sejam tudo o que eu preciso. Talvez tudo seja mesmo uma questão de perspectiva, então me ocorreu que o que eu precise para tirar a mente do Alex seja focar a mente em mim, já que eu sou tudo o que me restou.

Não espere por mim.

Siga a sua vida.

Viva como se nunca tivesse me conhecido.

Não olhe para trás.

Eram pedidos centralizados no Alex e era justamente por isso que eu não conseguia segui-los. Eu nunca conseguiria segui-los, ainda que eu quisesse com todas as minhas forças. Mas a medida que eu passava a pensar em mim, eu percebia que eu não tinha por que segui-los e eu também não tinha por que ser atormentado por eles.

Seguia sendo impossível, sim, mas não significa que eu não possa conseguir o mesmo resultado de uma perspectiva diferente. Eu tenho estado emperrado porque tudo o que eu tenho agora, eu tenho na ausência do Alex, e não é porque ele está em tudo, é porque eu olho para tudo pensando nele. É uma questão de perspectiva e ele toma conta da minha, mas é minha, e deveria ser apenas minha, porque é minha vida e eu deveria ser muito mais do que apenas quem eu sou com o Alex nela.

Eu não consigo seguir minha vida sem ele, porque ele sempre estará presente mesmo em memórias, mas eu consigo caminhar em frente. Eu não consigo me abster de esperar por ele, mas eu consigo me ocupar enquanto no fundo eu espero, em segredo, baixinho e quieto no meu coração. Eu não consigo me impedir de olhar para trás, porque tudo o que me restou dele está atrás, mas eu consigo alternar entre olhar para frente também.

Eu não preciso — e nem conseguiria — viver como se eu nunca houvesse conhecido o Alex, mas eu preciso viver.

*

Eu só precisava passar pelo aniversário dele.

Só isso.

Meu aniversário havia mexido comigo, desenterrado coisas e sentimentos e reflexões que eram difíceis de empurrar guela abaixo novamente, e meu hábito de fingir que eu podia esquecê-lo transformou-se em frangalhos. Inclusive, decidi que tomaria outro hábito, o hábito de fingir que eu quero simplesmente viver até que eu realmente queira de verdade. Mas o aniversário dele estava logo ali e então eu supus que eu poderia começar a colocá-lo em prática depois de passar por aquele dia, porque eu não conseguiria antes disso.

Eu ainda não havia respondido.

Uma ansiedade e um nervosismo se enroscaram em mim por dois meses seguidos, desconfortáveis, sufocantes, limitantes. Eu não queria responder, eu queria que a ausência de uma resposta fosse uma resposta por si só — uma mentira necessária -, mas eu sabia que esse dia chegaria a um fim e eu não conseguiria deixá-lo passar em branco.

Eu não conseguiria mentir para ele sobre isso, não mais, e eu precisava dar uma resposta.

Não era tão difícil: eu enviaria uma mensagem de via única, como ele havia mandado, então poderíamos cair em silêncio por mais alguns meses sem que nada mudasse. A mensagem de resposta não significaria nada e não mudaria nada, assim como a mensagem da pergunta não significou e não mudou.

Mas foi um pouco mais difícil que o meu aniversário.

Eu não estava tão miserável quanto eu estava no meu aniversário, mas era difícil de uma maneira diferente: eu precisava tomar uma decisão. Por mais que fosse agonizante remoer-me dois meses atrás, na espera de algo que talvez nunca viesse, eu sabia que estava além das minhas mãos, que eu não tinha controle de nada, que eu estava à mercê da decisão de outro alguém.

Agora a decisão era minha, e tudo o que eu conseguia pensar era em um ano atrás, e no significado que carregou esse aniversário: aquele dia da trégua.


Eu não pensei que fosse gostar mesmo de você.

Eu quis tanto te beijar.

Eu pensei que eu pudesse entregar tudo de mim só pra ter um pouco de você.

Eu posso te entregar tudo o que você quiser.

Você não pode me beijar de volta.

Você não pode me olhar dessa forma.

Eu quero ter o meu melhor amigo de volta.


Fechei os olhos.

Definitivamente não ajudava que todos estivessem comentando sobre o aniversário do Alex, sobre o quão ruim era que não estivéssemos com ele, sobre como ele iria comemorar, sobre como era triste que nenhum de nós estivesse com ele, sobre como podia ser que ele tivesse outros amigos por lá com quem passar a data.

Eu propositalmente me ausentei da conversa a respeito de comemorarmos ao longe também — a pedido dele, a propósito -, de sairmos e dedicarmos uma bebida ao Alex e mandarmos uma foto para ele. A simples ideia me deu náuseas e eu me retirei do chafariz antes mesmo do sinal pensar em soar, inventando uma desculpa que sequer me lembro.

Quando caminhei para casa mais tarde, eu estava disperso em pensamentos, principalmente quando passei ao lado da quadra de futebol — o esporte que absolutamente todos nós abandonamos com o tempo — e, consequentemente, ao lado daquele banco de pedra rachado e a árvore que fazia sombra nele. Eu desviei o olhar como eu sempre fazia quando passava ali, um gosto ruim se alastrando na boca, fazendo meu estômago revirar.

Depois que cheguei em casa, decidi que ficaria em silêncio e fingiria que esqueci que dia é hoje e que deveríamos sair, para no outro dia apenas me desculpar com meus amigos e dizer que meu celular estava sem bateria, então não vi a ligação de ninguém. Uma pena, eu diria, estava cansado e dormi cedo, esqueci de colocar o celular a carregar.

Mas quando ouvi a voz do Chris no portão, eu quis morrer.

Quando marquei que faríamos o trabalho de biologia, em dupla, na sexta-feira, e também assistiríamos Senhor dos Anéis, eu não me dei por conta que sexta era dia sete de agosto.

Suponho que seja mesmo o mês do desgosto.

Mas Chris, ao menos, evitava falar dele a maior parte do tempo e, por consequência, hoje evitou falar sobre a nossa suposta saída à noite. A gente terminou o trabalho em tempo recorde, porque eu me apressei para que ele fosse embora antes de escurecer, assim ainda poderia colocar meu plano em marcha. Mas haviam os filmes — ao menos um deles por ora -, e que o universo proteja Peter Jackson, mas três fodidas horas era demais para um dia como hoje.

— Ei, você tá bem?

Pisquei, desviando os olhos do Frodo para o Chris ao lado.

— Tô — murmurei, remexendo-me no sofá. — Você tá?

Chris tentou um sorriso, parecendo um tanto desconfortável.

— Sim, eu só... — Pigarreou, também ajeitando-se no lugar ao meu lado. — Você parece distraído. Se não tá com cabeça pra isso, a gente pode assistir outro dia. Ou, sei lá, assistir outro filme em outro dia, ou fazer outra coisa — acrescentou, com um sorriso singelo.

Pisquei, um pouco confuso, porque apesar de realmente não estar com cabeça para isso, ainda assim eu tinha certeza que instantes atrás eu encarava os olhos muito azuis do Frodo. Então por que eu parecia distraído, se meus olhos estavam na televisão?

— Por que acha que eu tô distraído? — verbalizei, um tanto receoso pela resposta.

Chris deu de ombros, inclinando um pouco o rosto para o lado. — Você pareceu distraído o dia todo.

Desviei o olhar, meus olhos agora capturando Aragorn.

— Seus olhos ficam vidrados quando você tá distraído — contou, com um toque de diversão, embora soasse preocupado —, como se você não tivesse aqui de verdade.

— Eu tô bem aqui — falei, sem ter certeza do porquê, quase como uma tentativa fraca de me convencer disto, de que eu estou aqui mesmo e que estar aqui, eu comigo, deveria ser o suficiente.

Chris pareceu confuso também, mas franziu um pouco as sobrancelhas, quase com piedade, quando me analisou.

— Eu sei — garantiu, com cuidado, baixinho. — Eu só não pude deixar de perceber que você se ausentou um pouco quando o pessoal começou a falar do aniversário do amigo de vocês, e a planejar a saída de hoje. E você nunca se recusa a sair — acrescentou, com um sorriso mínimo, e eu quis me atirar da janela. — Então imaginei que tinha algo errado.

Lá se vai meu plano água abaixo. Mais do que isso: eu ainda sou encurralado a falar sobre isso diretamente. Engoli em seco, me remexendo no lugar.

— Eu não sou mais próximo do Alex, como os outros são — decidi falar, apenas, porque isso já havia ficado implícito no que os demais falavam sobre nós. — Então eu só... Não vejo motivos em ir junto deles.

Chris me olhou por um tempo e então assentiu lentamente.

— Ah — murmurou, mas soou como uma pergunta. Em seguida, ele apenas soltou um riso. — Mas você sabe que isso é só uma desculpa pra eles saírem, né?

Acabei sorrindo de volta, dando de ombros. — É, acho que sim.

— Não vai ser o mesmo sem você — apontou, diminuindo o riso para um fraco. — Você devia ir junto.

Forcei um sorriso, mas desviei o olhar para a televisão, mentindo quando nós dois sabíamos que era mentira: — Vou pensar.

Chris assentiu ao meu lado e ficou quieto por mais alguns minutos, o filme rolando na tela da televisão, os potes de pipoca já vazios, assim como os copos de refrigerante. Eu podia ouvir nossos celular vibrarem, no mesmo grupo de amigos, e nós dois sabíamos que era sobre a saída, mas nenhum de nós ousou pegar e ler.

Boromir recém havia sido introduzido aos espectadores quando Chris quebrou o silêncio outra vez.

— Posso te fazer uma pergunta?

Pisquei, olhando brevemente para ele, e Chris parecia sério o suficiente para que eu não quisesse sustentar os olhos castanhos, então voltei os olhos para a tela. — Pode — respondi, mas minha voz soou incerta.

— Você e o Alex tinham... algo?

Congelei, os olhos presos na discussão de Aragorn e Boromir, sem sequer ousar piscar.

— Por que diz isso?

Eu não quis soar tão ríspido ou grosso, simplesmente saiu assim, na defensiva, como se ele houvesse ofendido a mim, a minha família e a todos os meus antepassados.

Chris percebeu o suficiente para gaguejar inicialmente: — N-nada em especial. — Pigarreou e vi pelo canto do olho que ele se ajeitava no lugar. — Acho que é só a maneira que todos falam de vocês dois, faz parecer como se tivesse algo a mais entre vocês. Mas eu não quis... — Interrompeu-se, desconfortável. — Bom, você não precisa responder, eu só... Eu fiquei curioso, só isso.

Pensei por um momento, desconfortável, subitamente relembrando o quanto eu me sentia à vontade com o Chris por ele nunca falar do Alex. E agora aqui estávamos.

— Alex era meu amigo — declarei, depois de um tempo, ainda na defensiva, embora o murmúrio não tinha sido alto o suficiente para que eu parecesse ríspido.

Eu vi pela visão periférica que ele assentiu depois de um tempo.

— Tudo bem, me desculpa, eu não devia...

— Não, eu...

Suspirei, depois de interrompê-lo.

Com o seu silêncio repentino, acabei ajeitando-me no sofá, dobrando as pernas e sentando em cima de uma delas, e só então criei coragem de olhar para ele. Chris tinha os olhos um pouquinho arregalados, como um cervo com medo, como se estivesse esperando que eu o xingasse pela intromissão.

— Alex foi muito importante pra todos nós. Ele foi importante pra mim também — admiti, escolhendo palavra por palavra. — Ele... — Engoli em seco. — Alex era maluco.

Chris arqueou as sobrancelhas com minha mudança de tom.

Eu mexi na minha calça de moletom com a ponta dos dedos, desistindo de olhar para a tela, mas também não olhando para ele. De alguma forma, eu sabia que ele estava olhando para mim, e que estava esperando para prestar atenção em cada palavra que saísse da minha boca.

Eu pensei no Alex, naquele do qual eu sentia falta.

Eu pensei no dia da aventura no mercadinho do bairro, na primeira de muitas festas as quais ele nos arrastou, na prova de matemática que roubamos, na noite que invadimos o colégio. Eu pensei nos abraços, nas risadas, no ombro amigo que ele oferecia a todos quando ele era o que mais precisava. Eu relembrei as vezes que ele pulou pela minha janela, que compartilhamos esse mesmo espaço no sofá, que conversamos ao caminhar pelas ruas escuras da madrugada.

— Ele respirava loucura, faz parte de quem ele é. — Chris sorriu também, um espelho do meu sorriso fraco, e só então eu percebi que meus lábios haviam esticado. — Ele tornava uma simples ida pra casa depois do colégio em uma aventura. Tudo era uma aventura com ele. Era uma loucura sempre, com tudo, o tempo todo. Então quando ele foi embora, tudo ficou meio... — Suspirei, deixando os ombros caírem. — Cinza sem ele.

Eu não esperava ser tão sincero.

Talvez a necessidade de falar sobre ele com alguém que não fosse a Grace, ou o Mason, ou o Ian, ou qualquer um que o conhecesse, fosse tão grande que escapou. Foi natural e instintivo, como se aquilo estivesse esperando por uma oportunidade de escapar boca afora, como se eu precisasse falar sobre ele. Não me escapou à compreensão que parecia que ele estava morto pela maneira como eu o descrevia no passado, mas a triste realidade era que ele havia escolhido não estar no meu presente.

Engoli em seco, olhando para um Chris pensativo, ao passo que ele assentia. — É, eu acho que posso entender isso. Pessoas assim são difíceis de esquecer — murmurou, os olhos longe, como se falasse por experiência própria. — É só que...

Chris se impediu de continuar depois de me olhar hesitantemente, e caiu no silêncio outra vez.

— O quê?

— Eu acho que ele significava mais pra você — murmurou, um tanto tímido, um tanto receoso de verbalizar. Eu desviei o olhar, piscando algumas vezes. — Sabe, porque você parece ser o único deles que tá tentando esquecê-lo — murmurou, receoso, sobre o que havia acabado de falar. — Não que eu super te conheça ou algo assim, ainda mais depois de anos sem se ver, mas... — Deu de ombros, deixando a frase morrer. — Só me pareceu assim.

Chris ainda abriu e fechou a boca mais algumas vezes, mas não parecia saber como continuar, como se tivesse medo de me ofender de alguma forma. Eu o observei dessa vez, porque era ele quem evitava meu olhar agora, por alguns instantes.

— Você acha que eu sentia algo por ele? — especifiquei, direto, sem saber se realmente me sentia ofendido, ou irritado, ou apenas visto.

Ele engoliu em seco, dando de ombros.

— Você soa como eu — acabou falando, sem jeito, e eu não consegui franzir o cenho porque já estava vincado. Ele apressou-se em explicar: — Quando eu me separei do meu... Bom, do meu primeiro amor — contou, de um jeito bonitinho.

Arqueei as sobrancelhas.

— Seu primeiro amor? — repeti, em misto de diversão e curiosidade.

Chris assentiu, e seu rosto pareceu colorir-se rapidamente.

— A gente chegou a namorar — contou —, por um tempo, escondidos, e então chegou o dia em que ele simplesmente não quis mais. Levei um pé na bunda — riu-se, dando de ombros, como se isso não doesse. — Os pais dele eram homofóbicos de carteirinha, sabe, do tipo que acredita em família tradicional e costumes ultrapassados. Scott tinha muito medo da represália também, não aguentou a pressão e me cortou da vida dele — revelou, com um sorriso que não chegava aos olhos. Deu de ombros outra vez antes de encolher o rosto em direção ao ombro e apoiá-lo ali, uma mania que já percebi que ele tinha. — Não posso culpá-lo — acrescentou, em um tom triste. — Mas eu não pude evitar me sentir assim, sabe, meio perdido e meio vazio, por muito tempo depois que acabou. — Então, olhou para mim. — Do jeito que você parece se sentir.

Pisquei, havendo me perdido tanto em seu relato que cheguei a esquecer como havíamos chegado nele para começo de conversa. A voz do Chris era grave e suave ao mesmo tempo, calma como uma onda silenciosa, e era hipnotizante ouvi-lo falar às vezes.

Ainda assim, não era o suficiente para me fazer ignorar por completo o que ele havia acabado de insinuar.

— No meu caso, nada acabou porque não tinha nada que acabar — retruquei, cuidando para não ser grosso, o tom baixo, tentando imitar a mesma calmaria da sua voz. — Alex e eu nunca estivemos juntos.

Uma parte de mim queria gritar que sim, estivemos, de todas as maneiras que importavam, ainda que nenhuma fosse formal. Outra parte entendia que eu estava sendo sincero em partes, mas também gritava que isso não era relevante, porque tendo estado com ele ou não, eu realmente me sentia meio perdido e meio vazio como Chris havia descrito.

— Não?

Pisquei, vendo que ele parecia genuinamente surpreso, se perdendo um pouco em pensamentos, antes que eu respondesse não tão firme quanto quis soar: — Não.

— Ah — solta, piscando, abrindo um sorriso mínimo apologético. — Eu achei que tivesse rolado algo entre vocês.

Eu quis dizer a ele que o fato de que nunca estivéssemos estado juntos — formalmente — não queria dizer que nunca houvesse acontecido algo entre nós. Eu queria corrigir essa falha de conclusão da parte dele, com influência minha, e dizer que as coisas eram mais complicadas do que isso, mas eu não consegui abrir a boca.

Desviei o olhar novamente, sentindo-me um mentiroso.

— Mas não importa que não tenha rolado nada — acrescentou Chris, para a minha surpresa, instantes depois. Eu olhei para ele, piscando em confusão, até que a pergunta viesse: — Ele foi? —Pisquei. — Ele foi o seu primeiro amor?

O quê?

Pisquei, sentindo meus olhos desfocarem por um instante, minha cabeça rodopiando na pergunta por mais tempo do que o necessário para um ser humano normal processar.

Ele foi meu primeiro amor?

Era uma pergunta simples, boba até, clichê, doce e inocente como um sonho de criança. E ainda assim, conseguiu me atingir na boca do estômago como um soco dolorido, que doeu mais, e um pouco mais, e um pouco mais.

Eu repassei a minha história ao lado dele e meu cérebro conseguia ser tão cruel, tão cruel, que colocou a música dele de fundo ao repassar nossa história, como se associasse uma coisa a outra. Afinal, ele havia desenhado nossa história nas notas musicais de seu violão, não havia?

Eu relembrei os abraços repentinos; os sorrisos de canto; os buracos negros da imensidão dos olhos escuros, tão escuros; os beijos inesperados que levavam um pedacinho de mim; o dia em que eu o conheci pela primeira vez; o dia em que eu o vi pela última vez.

Senti meus olhos marejarem subitamente, assim, em um piscar de olhos, sem dar tempo de eu decidir se podia ou não chorar na frente de um amigo recente.

— Ah, droga.

O murmúrio de Chris soou tão arrependido que eu quis rir, mas eu não consegui, desviando o olhar para a cozinha, piscando para manter as lágrimas ali dentro apenas para deixá-las jogarem-se do abismo dos meus olhos.

É, droga mesmo.

— Droga, Caleb, me desculpa — continuou, sem jeito, soando impotente. — Eu não quis...

Eu limpei o rosto com raiva, com vergonha, com sentimentos que me faziam querer me enfiar no quarto e me trancar lá dentro, imaturo dessa forma mesmo.

— Sim — respondi, rápido, limpando meu rosto uma última vez antes de olhar para ele, os olhos já limpos. — Sim, ele foi.

Chris assentiu, lentamente, quando entendeu.

Eu não deixaria mais nenhuma lágrima cair, nenhuma mesmo, então me permiti sentir dó dele. Havia uma culpa desgraçada em sua expressão, arrependimento que matava estampado nos olhos de corça, um sorriso tão fraco e rendido em seus lábios. Ele pareceu que pediria desculpas novamente, mas eu fechei a cara em antecipação, então ele fechou a boca como um reflexo.

Quando a abriu de novo, um sorriso receoso brincou em seus lábios, como se tentasse à todo custo aliviar o clima ruim: — Bom, você sabe qual é a cura pra isso, não é?

Ajeitei a postura, tentando espairecer, antes de perguntar, ainda mais desconfiado, mas desesperado para sair do assunto: — Qual?

Seu sorriso aumentou, mostrando-me os dentinhos separados.

E então, naquela mesma noite, estávamos em um bar.

Chris foi compassivo o suficiente para esperar e ir comigo, e apenas depois de todos haverem chegado lá, para dar espaço que fizessem menções ao Alex e mandassem foto para ele, e só então chegarmos.

O restante da noite foi nossa — de quem estava ali, e não de quem estava longe. Eu agradeci por isso, por mais que não quisesse celebrar coisa alguma, e por mais que preferisse minha casa, Alex ainda foi mencionado poucas vezes, mas eu bebi e curti com quem ficou.

Zeppelin foi uma recomendação do Chris, o bar ficava no centro da cidade, e na real o bar em si não era exatamente a atração principal. Ele estava no meio de uma quadra inteira de ponto de encontro para a galera adolescente — eles ficavam aos montes na praça da frente, lotando a rua todo final de semana.

O Zeppelin era meio aberto, havia o espaço interno e fechado e do lado de fora, um degrau acima das ruas, ficava um espaço aberto com mesas ao ar livre e cercas separando-os das ruas. Os shows se faziam ouvir do lado de fora, e uma galera se juntava ali na frente para ver ou apenas ouvir a cantoria. Era cobrado para entrar, é claro, mas o povo mais jovem gostava mesmo era de beber litrão — comprado no boteco da esquina — na rua à música ruim e estourada de caixas de som.

Nós entramos no bar com as IDs falsas, e suponho que essa seria minha única homenagem ao Alex de hoje, porque Chris disse que valeria a pena ao menos uma vez estar lá dentro. Ele disse que já esteve ali com os seus pais, que as coisas eram caras, mas a gente dividiu apenas umas cervejas e umas batatinhas fritas, de vez em quando, até o final de noite. Estávamos os nove em frente a um palco onde uma banda de rock metaleiro na verdade tocava acústico em bom som. Descobri, então, que essa era uma paixão especial do Chris: o rock. E ali ficamos até uma da manhã, quando o bar fechava, embora a galera nas ruas amanhecessem festejando ali fora.

Só quando saímos para fora é que começamos a beber destilados baratos, de fato, no meio da multidão — uma rara ocasião para os caretas que nos tornamos, e eu me permiti esquecer que dia era hoje.

O Zeppelin, apesar de nunca mais colocarmos o pé lá dentro por ser caro demais, se tornou nosso novo ponto de encontro quando decidíamos sair para beber. Bom, não exatamente o Zeppelin, mas a rua lotada em frente a ele.

Ainda com todos os motivos do mundo para me distrair, eu não consegui desviar os olhos do relógio. Um minuto antes da meia-noite, ao som acústico de rock'n'roll, entre cervejas e batatinhas que me reviravam o estômago, eu mandei a ele a mensagem mais sincera que eu poderia mandar.


feliz aniversário. eu não desculpo nenhuma das coisas. tornei um hábito fingir que a resposta é não. mas impossível quer dizer impossível, alex.


Notas finais
Não sei o que falar sobre o capítulo kkkkkkk Olha, eu tenho 1 domingo no mês (ontem), passei ele inteiro escrevendo praticamente, então por favorzinho, gente, eu sei que tem bastante gente lendo ainda, comentem pra eu saber se vocês tão curtindo, se nem tanto, se tão putos, se tão desesperançosos, se tão apaixonados, enfim. Um que outro comenta só. Vocês tão muito quietos, tão me deixando nervoussa! Hahahahhaa. Sobre quem comentou, gente, tô só esperando retornar a opção pro site de responder os comentários pra responder, ok? Amo vocês <3 Eu vou tirar um dia também pra colocar resuminho dos capítulos, achei bacana a ideia do site, pra quando lerem um cap depois de um tempo, poderem recapitular brevemente o que aconteceu no anterior! :3 Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! <3