Made of Stone
65 LI. O melhor de mim - Pt. III
Notas iniciais
Eu fiz merda.
Acho que depois de todas as merdas que eu já fiz na vida, eu posso falar com propriedade quando eu faço merda, porque eu sei identificá-la e reconhecê-la há quilômetros de distância. Então eu sei que eu fiz merda e mais do que isso, eu entendo a gravidade da merda que eu fiz.
Em minha defesa, é a minha primeira vez vivendo — que eu saiba. Ninguém me ensinou a fazer isso.
E talvez eu simplesmente não tenha uma defesa propriamente dita e só queira tirar o meu da reta, mas eu gostaria de poder contar para alguém que eu me sinto culpado pelo que fiz tanto quanto me sinto satisfeito. E eu estou bem ciente dos sentimentos opostos conflitando entre si.
O fato é que, bom, é junho.
E apesar do mês não ter um significado importante para mais ninguém, bom, para mim é um mês especial, porque é o mês do aniversário do Caleb. À esta altura do meu relato, se eu pudesse estar contando isso para alguém, um amigo certamente saberia para onde esta história está indo e estaria com a mão erguida para me esbofetear.
Mas como é que eu poderia deixar passar em branco?
Eu sei que eu não podia voltar atrás na minha palavra, eu mesmo repeti para mim de novo e de novo que se eu voltasse atrás, todo o sofrimento mútuo teria sido em vão. Eu sei que eu havia decidido isso por nós dois, que eu havia tomado uma decisão sem o consentimento do Caleb, eu havia cortado minha alma gêmea da minha vida por livre e espontânea vontade. Eu havia me certificado de não deixar nenhuma ponta sem nó em relação a isto, tudo o que eu fiz foi meramente deixar a linha aberta para que ele tivesse acesso a mim se quisesse. E ele não quis. Caleb basicamente não usou essa linha direta este tempo todo — e eu também não, porque não deveria, sob nenhuma hipótese -, então era possível ponderar se isso era um consentimento tardio dele para a nossa separação de rumos de vida.
E isso não é novidade, afinal, esse era o objetivo.
Eu quis que isso acontecesse, porque então minha decisão fodida de tê-lo cortado da minha vida teria possivelmente funcionado. Caleb estava livre de mim, finalmente, e, quando se viu livre de mim, ele não veio correndo atrás. E mesmo que isso me doesse, era esse o objetivo. Até porque, se ele tivesse tentado se enfiar de fininho de volta na minha vida, sejamos honestos, eu teria deixado. Eu não teria encontrado forças para tentar afastá-lo uma segunda vez, pelo contrário, tendo sentido como é não tê-lo na minha vida, eu teria me agarrado a ele como se minha vida dependesse disso. E de fato, quanto mais o tempo passava, mais eu me dava por conta que minha vida realmente depende do Caleb para ser completa. Eu posso viver sem ele, eu tenho aprendido a viver aos poucos, mas eu tenho estado constantemente ciente do buraco que eu mesmo cravei nela ao me afastar dele. Então, caso ele estivesse tentando me puxar de volta para ele, eu teria ido, independentemente de quais eram meus objetivos ao afastá-lo.
Portanto, tudo havia funcionado como deveria.
Eu o afastei e ele não se aproximou novamente.
E eu também não, até porque, eu não deveria.
Eu não deveria mas, ainda assim, era seu aniversário.
Eu me peguei escrevendo para ele. Eu escrevi textos sobre aniversários e sobre parabéns que logo se transformavam em declarações de amor, pedidos por perdão e súplicas patéticas para que voltássemos a ser o que éramos. E então eu apagava tudo e começava a reescrever novamente, apenas um parabéns — só um parabéns, para que ele ao menos soubesse que eu não esqueci.
Mas de que adiantaria dar parabéns em seu aniversário?
Se eu fosse brutalmente honesto comigo mesmo, sendo o fodido que eu sou, eu diria que essa data é tão difícil por causa do histórico dela. Eu sempre adorei os aniversários do Caleb, desde o primeiro que eu passei com ele, por infinitos motivos. Era sempre muito feliz para mim saber que aquela criaturinha havia nascido e estava completando mais um ano iluminando a vida dos outros com a existência dele. E também era uma carta branca, desde o primeiro aniversário, para que eu pudesse fazer coisas que o Caleb normalmente não deixava que eu fizesse, com a desculpa de ser seu aniversário. Eu podia presenteá-lo sem que ele negasse o presente, eu podia roubar beijos e abraços o quanto eu quisesse, eu podia ficar o dia inteiro ao seu lado e eu podia tratá-lo feito uma celebridade por um dia inteiro. Bom, no último ano eu consegui a proeza de magoá-lo e fiz com que ele chorasse, mas eu preferia não relembrar isso.
O fato é que seu aniversário era dia de declarações de amor.
Eram veladas, silenciosas e não verbais, às vezes doloridas — como da última vez -, mas eram declarações de amor.
E deixar seu aniversário passar em branco era como se eu dissesse que não tenho mais nada a declarar, porque eu não o amo mais. E eu sei que minhas ações não disseram o contrário, cortá-lo da minha vida e manter-me em silêncio por meio ano, mas não é como se eu houvesse dito algo parecido com não amá-lo. Inclusive, eu tinha a iludida esperança de que ele entendesse que era por amá-lo tanto que eu queria desvinculá-lo de mim. Mas eu não podia dizer isso com todas as letras, arriscando-o vinculá-lo a mim outra vez. Só que eu também não podia simplesmente deixar seu aniversário passar em branco, porque eu me sentia agoniado de imaginar que ele pensaria que eu havia esquecido, que eu havia superado, que eu não sentia mais todas as coisas bonitas do mundo por ele. Na verdade, eu podia e eu deveria fazer exatamente isso, porque então eu cortaria qualquer chance que poderíamos voltar a ter um dia.
E era isso que era o melhor, não era?
Era esse o objetivo, não era?
Eu não tinha certeza, portanto, eu não conseguia fazer isto.
Eu podia, eu devia, mas eu não conseguia.
Incontáveis foram as vezes que eu escrevi e reescrevi a mensagem, tendo um embrulho no estômago toda vez que eu via que ele estava online, porque antes de hoje eu não podia saber se ele estava online ou não. Como eu tive que salvar seu número de novo — aquele que eu havia gravado na memória -, para poder escrever uma mensagem, agora esse era um privilégio e uma maldição a qual eu tinha acesso. Eu fiz isso o dia todo, em casa, na rua, no serviço — nos intervalos entre atender os clientes, e então era quase meia-noite e o dia estava quase acabado. Geralmente eu estufaria o peito por enviar a mensagem na meia-noite do dia anterior, para ser o primeiro a dar parabéns, mas agora eu corria contra o tempo para conseguir enviar ainda hoje e ser o último.
Se eu esperasse só alguns minutos, a hora passaria e o dia teria passado em branco, como talvez devesse acontecer. Mas eu não esperei, eu não consegui, então às 23:59 daquela noite, Caleb recebeu uma mensagem minha.
Foi uma mensagem curta, talvez curta demais, mas o fato de eu enviá-la para ele era mensagem suficiente por si só.
Eu fiz merda.
Eu sei que eu fiz, principalmente quando eu vi que ele havia visualizado a mensagem segundos depois de eu haver enviado, e eu me senti culpado por isso. Eu me senti aliviado, também, por conseguir colocar para fora, mesmo em uma curta mensagem, que ele ainda seguia nos meus pensamentos e no meu coração. Eu fiz merda, porque o Caleb estava online a maior parte do dia de hoje e quando ele visualizou, ele subitamente ficou offline e não retornou até o outro dia. Eu sei disso porque eu encarei a tela do meu celular madrugada adentro.
Mais uma vez, eu percebi que fiz merda quando me dei por conta que ele não me responderia nem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã.
Eu senti culpa, eu senti alívio, e eu senti que não poderia ter feito diferente porque eu não poderia ser diferente.
Hoje eu tive medo de perder a melhor coisa que havia me acontecido na vida, eu tive medo de viver o resto da minha vida arrependendo-me disso, eu tive medo de nunca mais conseguir ser feliz. Hoje eu tive tanto medo por mim que eu fui egoísta, e eu não consegui ter medo por ele.
Hoje eu fui covarde.
Mas eu estava acostumado a ser.
*
O silêncio do Caleb teve um significado bem mais pesado dessa vez, porque eu havia aberto uma linha direta para ele, e seu silêncio significava que ele a havia ignorado por livre e espontânea vontade.
Pelas próximas semanas, então, eu me mantive ocupado.
Eu tive que manter minha cabeça ocupada, senão ela explodiria a qualquer momento. Isso significou, obviamente, envolver-me na minha música e, no meu tempo livre para socializar, quase enlouquecer envolvendo-me com o Dean.
Isso significava que eu passava horas do meu dia apenas tentando arrancar o desgraçado das drogas como tentava puxar uma criança mimada de um brinquedo brilhante dentro de um shopping, enquanto ela se agarrava nele ao espernear no chão. Era essa a experiência, em resumo, e não melhorava quando ele se acalmava e tentava barganhar seus motivos e suas razões. E ele é muito bom nisso, muito bom mesmo, mas eu tinha ensinamentos da Morgan ao meu lado e eu tinha minha própria jornada largando as minhas drogas — eu sei, eram mais leves que as dele, mas mesmo assim — ao meu lado, então eu o quebraria.
No futuro, eu o quebraria.
Por mais que eu houvesse visto uma versão deprimida e uma versão surtada do Dean, eu descobri que foram ocasiões raras porque não aconteceram novamente. Mesmo quando eu o provocava ou me irritava com ele, ainda assim Dean era incrivelmente controlado, como sempre foi. A única versão diferente dele que eu estava vendo nos últimos tempos era sua versão viciada, mas eu podia lidar com ela.
Mas era difícil.
Ele se recusou a admitir que estava viciado, segundo ele, ele apenas usava drogas para escapar um pouquinho do mundo, como todos. Ele tinha essa mania irritante de dizer que, se todo mundo faz algo, é porque é normal. Mas se fosse normal passar por toda a merda que a população marginalizada da sociedade passa, então toda essa merda nunca teria existido para começo de conversa. Enfiar isso na cabeça dele era outra história, no entanto, e se fazia bem difícil de concretizar. Além de se recusar a admitir que tem um problema, ele se recusou a fazer reabilitação, ainda que eu tenha dito que pagaria por ela — e eu sei que eu não poderia pagar, porque é caro para um cacete, mas ele não sabia disso. Ele também não quis participar dos grupos anônimos — e gratuitos- de NA que encontrei para ele, e também ousou ficar puto quando eu tomei medidas drásticas de esconder suas drogas e seu dinheiro para que não comprasse mais.
Eu andei analisando a situação, aos poucos, e fiz anotações mentais sobre quanto tempo ele conseguia ficar longe da heroína — e era esse o maior problema, a propósito, a heroína — e qual era a intensidade dos sintomas de abstinência dele. Fiquei otimista quando percebi que a situação poderia estar muito pior, e consegui barganhar para que ele aumentasse esse tempo entre os usos, mesmo que fosse por algumas horas, até conseguir ficar mais tempo sem.
Dean concordou, por livre e espontânea pressão, e então eu passei para o próximo problema: seu emprego. Vender drogas era algo que ele recém tinha voltado a fazer e era um problemão por si só. Até agora nenhum traficante do bairro havia se dado por conta da quantidade absurda que ele havia acumulado para vender, porque se houvesse, sua cabeça já estaria arrancada do corpo. Isso não era algo com que se brincasse, era de senso comum: você não pode simplesmente comprar drogas em pequena quantidade de diferentes traficantes, juntá-las ao invés de consumir, e então começar a vender por conta própria. As pessoas morrem por muito menos na zona sul, muito menos mesmo, e o Dean era um filho da puta sortudo. Isso, para mim, só demonstrava o quão pouco ele valorizava sua própria vida, porque ele sabia disso melhor do que eu, e eu ponderei até que ponto não foi intencional para que ele buscasse a própria morte.
A ideia me deu um calafrio ruim.
Então eu o convenci a parar de vender e procurar um emprego de verdade para compensar, mas é claro que antes disso ele me torturou por semanas ao vender de pouquinho em pouquinho o que ele já tinha. Todo dia, quando eu entrava em seu trailer — a propósito, nunca trancado, um convite incessante para a morte -, eu ponderava se não iria encontrar seu corpo. Em uma dessas, eu percebi o porquê da Morgan torcer o nariz em discordância quando eu disse que não me custava nada ajudá-lo. Estava custando um pouco da minha sanidade mental, eu sei, eu admito.
Dean não disse com todas as letras, mas eu entendi que ele havia voltado a vender porque queria diminuir a quantidade de vezes que precisava se prostituir. Arriscar a própria vida ao vender a droga de outros mercadores dizia o suficiente sobre o quanto ele detestava vender o próprio corpo. E eu também cheguei à conclusão de que havia sido no meio tempo entre não mais suportar a prostituição e decidir começar a vender drogas — a despeito disso colocar um alvo em sua cabeça -, que ele começou a se afundar nas drogas. Eu também podia apostar que ele devia usar heroína antes de “trabalhar” para que ficasse mais fácil, e ainda assim não ficou.
Mas as coisas não são tão simples, eu logo entendi.
Em um dia vendendo o corpo, Dean conseguia o equivalente de uma semana de trabalho comum, então com quatro dias, ele tinha um salário mínimo. Em menos de uma semana, ele tinha o suficiente para se virar todo o mês, eu fiz as contas, e considerei o dinheiro gasto com a heroína. Não precisava perguntar para saber o porquê dele não tentar um emprego comum, não com a sua reputação, sua falta de instrução educacional e com as condições físicas e mentais de seu vício.
Eu evitei perguntar os porquês, porque da última vez que insisti, ouvi um desabafo traumático que me atormentava até hoje. Volta e meia eu me pegava pensando nisso, mais um motivo, imagino eu, para a Morgan achar uma péssima ideia que eu mantivesse Dean em minha vida. Então eu comecei a evitar a cobrança de porquês e, pelo contrário, comecei a oferecer os porquês — todos os motivos pelos quais ele deveria escolher entre as opções que eu entregava a ele.
Funcionou, mais ou menos, ele aceitou procurar um emprego, mas é claro que ele não moveu um dedo para isso. E ele também aceitou parar com a prostituição, mas ele parecia estar esperando as coisas apertarem para chamar algum velho nojento. E ele também aceitou diminuir o uso, mas eu não podia vigiá-lo o tempo todo, então eu não podia saber.
Estar com o Dean era exaustivo, tomava muito de mim, mesmo que eu não quisesse admitir isso. Eu estava constantemente angustiado, e sempre que eu passava meu tempo com ele, eu saía de lá como se carregasse o peso do mundo nos ombros. E, ainda assim, eu pensei que podia lidar com isso.
Bom, eu também não sou totalmente descompensado da cabeça.
Decidi fazer um acordo comigo para poder aguentar e esse acordo foi impedir que isso me tocasse no meu dia a dia. Foi manter os assuntos do Dean na minha cabeça apenas quando eu estava com ele, que não era muito tempo, para ser sincero, e assim que eu saísse de perto, ele sairia da minha mente.
Funcionou, mais ou menos, também — e funcionou apenas porque eu tinha mais com o que me ocupar minha mente: meus próprios problemas.
Eu comecei a planejar melhores maneiras de divulgar minha música, ainda que fosse com apenas covers: fiz um canal no Youtube, um perfil nas redes sociais, e em outros aplicativos dedicados à música não tão conhecidos. Gravei inicialmente com meu notebook e, depois, com o notebook do León — bem melhor do que o meu -, que cedeu com uma carranca. A qualidade dos vídeos era péssima e eu tive que ler muito sobre algoritmo para sequer ter algum mínimo retorno. O retorno maior inicial foi o das redes sociais, com a ajuda da divulgação dos meus amigos.
Minha aparelhagem começava a melhorar, apesar de que resultou em algumas contas parceladas que começavam a pesar no bolso. Era o suficiente para apresentar um conteúdo minimamente aceitável e eu podia trabalhar com isso, logo em seguida comecei a destinar o investimento para a produção de conteúdo online. Mas isso também era apenas o começo, porque não restava dinheiro o suficiente — ou limite de cartão o suficiente.
Foi apenas um começo de tudo, na verdade, porque tomava muito tempo de mim produzir conteúdo — ainda que de qualidade duvidável — enquanto trabalhava e me apresentava no bar. Eu basicamente não tinha vida fora disso e um pouquinho do meu gosto pela música, apenas um pouco, se perdia no processo, porque tornava-se algo estressante.
Ainda assim, eu gostava de pensar que nem tudo está perdido.
Morgan retumbava na minha cabeça com a positividade, com a questão das perspectivas, e de vez em quando eu ouvia. Ela tinha razão, sempre haveriam coisas das quais reclamar, sempre mesmo, e isso acaba ofuscando as nossas conquistas. Quando eu conseguia conquistar ou alcançar algo incrível, sempre haveria um porém, sempre haveria um novo objetivo com o qual me estressar para alcançar.
Às vezes, é bom lembrar de se sentir grato pela sua própria jornada e sentir um pouco de orgulho com o quão longe você foi.
Caralho, Morgan, no que você me transformou?
Fiz uma nota mental de comentar isso com ela na próxima sessão e vê-la bater palminhas e encher-se de orgulho. Ela fez isso poucas vezes e quem ficava orgulhoso era eu, então eu seguia esperando que ela fizesse outra vez, mas era difícil arrancar essa reação dela.
Eu havia conquistado o suficiente para um começo, e isso ia além do emprego, a moradia e a parceria dos meus amigos daqui. Eu havia conseguido performar como músico no Del Rey e eu havia melhorado o suficiente para ter um público que realmente prestasse atenção na apresentação a ponto de bater palmas. Eu, inclusive, tinha clientes assíduos que sempre me davam gorjeta, e isso me fazia sentir que meu esforço tinha um valor além do sentimental. As reclamações do León com relação à minha música, também, haviam morrido, e apesar de isso não ser um elogio verbal, era um elogio no estilo do León. E o melhor dos elogios dele, em específico, foi começar a publicar fotos e vídeos meus nas redes sociais do bar, um convite diário para o público ouvir música ao vivo. E quanto às redes sociais, por falar nelas, as coisas estavam lentas mas era um começo bom, eu começava a me adaptar aos poucos.
Eu tinha muito motivo para estar grato.
Com relação à música, eu tinha apenas alguns problemas, sendo o maior deles as minhas originais. Eu não estava tendo o menor sucesso em terminar minhas músicas, elas seguiam inacabadas e incompletas. A única que eu havia finalizado, e que não tinha letra, era a música do Caleb.
Mas eu não tinha coragem de tocá-la para outras pessoas.
— Um passarinho me contou que é seu aniversário amanhã — cantarolou uma voz ao meu lado, me tirando dos meus devaneios. — Posso saber por que você não disse nada?
Sorri fracamente para a Mandy, mas acabei dando de ombros.
— Não sei — admiti, apoiando-me no balcão.
Mandy deu um tapa no meu ombro.
— Como “não sabe”, menino?! — Dei de ombros outra vez, sorrindo para a irritação dela, e então sua expressão suavizou, quando ela inclinou o rosto para me analisar. — Fala com a tia, pode falar.
Acabei rindo, balançando a cabeça. — Você nem é muita coisa mais velha que eu.
— Quando você tiver minha idade, vai entender que de dezoito para trinta e quatro existe um abismo profundo — disse ela, com gravidade, e eu apenas ri. — Você é praticamente um feto.
Gargalhei, mas revirei os olhos em seguida.
— Dezenove, na verdade — corrigi, pensando no amanhã.
Como se voltasse ao motivo da conversa, ela piscou rapidamente, estalando a língua. — Isso mesmo! Por que você não contou antes? — reclamou, outra vez. — A gente podia ter planejado um rolê daora, e agora tudo o que vai dar pra fazer é um uma noite de pizza no máximo, às pressas, porque todo mundo trabalha amanhã.
Acabei balançando a cabeça, sorrindo, e dei de ombros.
— Sinceramente, se meus amigos não tivessem comentado comigo, eu não teria lembrado — contei, e ela estalou a língua. Suspirei. — Sei lá, eu não faço questão de comemorar.
Noah, que havia retornado com um pedido, parou ao nosso lado com estranhamento. — Você não me parece alguém que não faz questão de festejar aniversário.
Revirei os olhos.
Um passarinho contou a todo mundo, pelo visto, e eu até sei seu nome.
— Eu realmente não sou — falei, rindo, mas Noah logo deu as costas para levar o pedido até a tia Rosa. Mandy piscou, olhando-me com interesse, e eu fiquei sério ao relembrar. — Eu sempre fiz questão de comemorar, na verdade, com os meus amigos. Sempre busquei motivos pra estar na rua, pra ficar longe de casa, sabe? — falei, mais baixo, para a Mandy, ao passo que pensava nisso. — Eu saía, dava meus rolês, fazia besteira, bebia e fumava horrores, sempre na rua, sempre festejando até o que não tinha pra festejar.
Mandy assentiu, compreensiva, também caindo em seriedade.
— O que houve? — perguntou, supondo que eu não tinha mais motivos para comemorar. — O que mudou?
Acabei sorrindo, dando de ombros outra vez, reflexivo.
— Eu mudei — murmurei, sem graça. — Eu acho — falei, incerto. — Eu não tenho mais motivos pra fugir de casa — dei-me por conta, arqueando minhas sobrancelhas.
A percepção foi tão súbita e tão forte que eu fiquei em silêncio, divagando sobre isso, e esqueci da minha colega por um tempo. Ela chamou meu nome e eu olhei para ela, focando os olhos em seu rosto jovem — ela realmente não parece ter a idade que tem.
Pigarreei, e compartilhei o que estava na minha mente: — Eu acho que é um misto de coisas, na verdade, e em todas elas existe mudança. Eu mudei de cidade, eu tô aqui agora, então mesmo que eu quisesse sair pra comemorar, as pessoas com quem eu gostaria de comemorar não tão aqui. — Ri, vislumbrando a careta de ofendida dela. — Não leva a mal, eu adoraria comemorar com vocês, eu só... Eu gostaria de comemorar com eles também. Fora isso, eu mudei tanto do ano passado pra cá, que eu nem sei no que implicaria “comemorar”. Eu já não bebo nem fumo e eu também já não tenho uma casa com piscina pra oferecer aos meus amigos. Eu não moro mais com os meus pais, e eu... Eu não tenho motivos pra fugir de casa — repeti, os olhos longe. — Eu gosto de ficar em casa — dei-me por conta, e a concepção fez meus olhos marejarem —, eu me sinto em casa aqui. Eu não me sinto desconfortável nem oprimido, e eu não devo nada a ninguém. Eu pago meu aluguel, minha comida e minhas contas, eu não preciso que ninguém faça isso por mim. Não existe pressão nem cobrança, eu só sou e estou. Então eu não sinto essa necessidade que eu sentia antes de sair porta afora, encontrar motivos tipo comemorar e me enfiar em qualquer canto pra ver se assim eu me sentiria bem e se em algum lugar eu me sentiria em casa.
Mandy tinha um sorriso compassivo no rosto, e não ousou dizer nada por uns instantes, talvez imaginando que era um desabafo. E eu percebi que era mesmo, porque eu divaguei outra vez, e demorei para ver que ela me encarava.
Soltei um som pelo nariz.
— E não foi isso que você perguntou — falei, com um riso fraco, tentando piscar as lágrimas para longe. Funcionou. — Eu não faço questão, mas eu também não me oponho. Vou adorar “uma pizza às pressas, porque todo mundo tem que trabalhar amanhã”.
Mandy passou um braço ao meu redor, abraçando-me de lado, com um sorriso.
— Que bom, porque é isso que vamos fazer — contou, sorrindo largo. — Já tá tudo pronto, o León que organizou. Claro que foi ele — acrescentou, quando arqueei as sobrancelhas, porque é claro que foi mesmo. — E sobre seu devaneio, na verdade, foi exatamente o que eu perguntei. Eu fiz uma pergunta complexa, ela mereceu uma resposta complexa — chegou à conclusão, e eu assenti, agradecido. — No início, eu pensei que você não tinha mais motivos pra comemorar, vou te ser sincera. Mas agora, eu vi que você recém começou a ter motivos pra comemorar de verdade. Então essas mudanças todas, elas são boas. E esse — garantiu — é mais um motivo pra comemorar. — Acabei rindo. — E não se preocupa, meu bom garoto, a titia aqui bebe por ela e por você juntos. Falou?
Assenti, rindo, e aceitei o abraço dela. Em seguida, ela me soltou para gritar para todos que nossos planos de amanhã estavam em marcha. Gritou um “yay” empolgado e deu pulinhos. León sorriu ao longe, mas Noah comemorou com ela.
Mandy havia se tornado apenas uma visita no bar, porque seus horários diminuíram mais ainda, ela estava no meio de um doutorado e de um estágio que passou a tomar mais horas dela. De vez em quando, ela precisava de uma grana extra e aparecia — nos últimos dois meses, se ela chegou a trabalhar quatro dias era muito. Então quando ela não podia aparecer e o Kyle também não, que eram nossos reforços, a gente tinha que chamar gente nova ou trabalhar por dois — ou por três, em dia de movimento. Mas eu ficava muito feliz toda vez que ela aparecia, e eu sei que León também, inclusive seu humor melhorava com ela por perto — o de todos.
*
Na manhã seguinte, acordei com o café da manhã farto pronto, como um presente de aniversário. Passei a estranhar na hora do almoço, porque León fez lasanha, depois de eu haver dito semana passada que era minha comida favorita. E então, de noite, realmente foi uma noite de pizzas planejada — e foi peculiar, para dizer o mínimo.
Como meu aniversário caiu em uma sexta-feira e era uma noite movimentada, inclusive, o bar ficava aberto até mais tarde, madrugada adentro, as coisas tiveram que ser peculiares mesmo. Encomendamos as pizzas e as bebidas e, como León me deixou sair mais cedo, eu fiquei em casa com o Lorenzo. Os demais revezaram, já que todos estavam trabalhando: a tia Rosa e o Jose Luis na cozinha e León, Mandy, Noah, Kyle, e a menina nova que não durou muito, a Wanda, no bar. Enquanto três deles escapavam do bar para a casa para comer pizza, beber e descansar conosco, os demais trabalhavam. E isso se alternou até com a cozinha, quando a tia Rosa foi comer pizza com a gente, Jose Luis ficou trabalhando na cozinha com o León, e o contrário também.
E assim o intervalo de todos durou bem mais do que o normal.
Eu achei uma graça como todos encontraram uma maneira de participar. E antes da pizza, logo antes de eu haver saído do meu turno para ir para casa com o Lorenzo, também houve o bolo e o parabéns no bar, na frente de todos, e com a participação dos clientes.
Eu fiquei muito tocado.
— Menino querido — elogiou a tia Rosa, me abraçando com força desmedida —, que você siga sendo esse sem vergonha amadinho sempre, que siga iluminando a vida de todos por onde passar com essa tua alma preciosa. Que Deus te ilumine e te proteja sempre.
As preces foram seguidas de beijinhos nas minhas bochechas, e apesar de não acreditar nessas coisas, eu fiquei tocado com o carinho por detrás delas.
— Amorzinho, você sabe o que eu vou desejar né? — perguntou Mandy, quando foi sua vez de me abraçar. Arqueei as sobrancelhas, incerto. Ela sorriu com carinho. — Que você siga tendo motivos reais pra comemorar. — Sorri, fazendo um beicinho com a meiguice disso. E então ela acrescentou com mais seriedade: — E que sempre me convide pra eu beber por você, é claro!
Ela me abraçou forte em seguida, e eu agradeci do fundo do meu coração.
Recebi tapinhas nas costas e apertos de mão com singelos “parabéns, cara” bastante reservados dos demais, como se podia esperar de homens héteros e da menina que eu mal conhecia. Ao menos ela chegou a me abraçar ao dar um tímido “parabéns”, bem mais do que os meus amigos que me conhecem há meio ano de convívio diário.
Com exceção, é claro, do Lorenzo, mas ele não contava.
E bom, mais tarde, eu descobriria que haveria mais do que o simples tapa nas costas do León — que, inclusive, quase deslocou meu ombro. Talvez tenha sido quando ele fez a pausa do serviço, depois de todos haverem feito, para comer pizza em casa, mas aquele microfone simplesmente não estava ali antes.
Eu havia entrado no meu quarto para carregar meu celular, ansioso por uma mensagem específica que não chegava nunca, mesmo que a meia-noite se aproximasse. E lá estava, em cima da mesinha com meu notebook, ao lado do tripé com luz que eu havia comprado e em frente à cadeira com meu violão repousado: um microfone condensador dinâmico.
Aquilo custava, no mínimo, uns duzentos contos.
Eu enchi os olhos d’água, agradecido que o Lorenzo parecia entalado no banheiro até agora e que não veria para tirar sarro. E eu sabia que aquilo era do feitio do León, sem o Lorenzo, por conta própria, porque não havia mais ninguém que faria algo assim por mim aqui — e que tivesse dinheiro para isso.
Rosa fez o bolinho do meu aniversário, Mandy me deu uma camiseta nova depois de tanto reclamar que eu estou usando sempre as mesmas e o Lorenzo me deu uma luminária nova depois que eu — acidentalmente — quebrei a dele. Eram coisas simples e de coração, coisas úteis que estavam dentro do orçamento de quem trabalhava em bares. E os demais que não me deram um presente específico ainda assim ajudaram no valor das pizzas.
Mas isto era outra coisa.
León era um homem rabugento e carrancudo, e eu não diria que ele era um homem de poucas palavras, porque eram muitas e eram bagaceiras também, mas eram poucas palavras afetivas. Ele demonstrava carinho desta forma e era tão bizarramente paternalista que eu só podia estranhar. Mas eu jamais poderia reclamar, não do microfone novo e certamente não da comida e da preparação da festa toda.
Às vezes, eu pensava que ele só sentia falta de ter o Lorenzo por perto, desde que cheguei aqui, por causa de todo o paternalismo em casa. Por exemplo, era ele quem sempre fazia o almoço e a janta — eu comprava os ingredientes também, é claro, mas quem cozinhava era ele -, mesmo que eu nunca houvesse pedido e mesmo que, envergonhado nas primeiras vezes, eu houvesse verbalizado que ele não precisava fazer comida para mim também. Ele resmungou alguma coisa e continuou fazendo. E não apenas isso, León também comprava coisas a mais, para mim também, e colocava em cima da minha cama, na minha parte do armário da cozinha ou do armário do banheiro, para não deixar espaço para dúvidas. Com o tempo, eu me acostumei. Mas eu sempre fiquei ponderando se, às vezes, ele não fazia isso por hábito e apenas depois dava-se por conta que era eu no quarto do irmão dele, então acabava deixando para mim.
Acho que foi por isso que me emocionei.
Aquilo foi por mim e para mim.
Não foi um equívoco ou um hábito esquecido de irmão mais velho, foi um presente de um amigo. E talvez ele realmente fizesse as coisas, às vezes, por hábito, e realmente sentia falta do caçula o suficiente para sentir a necessidade física de estar cuidando de alguém que não ele. Mas ainda assim, agora eu tinha certeza que ele não se importava que esse cuidado todo fosse destinado para mim.
Quem diria que um velho rabugento desses seria tão querido.
Depois de analisar com muito carinho meu novo presente, eu conectei meu celular para carregar e recebi a notificação que eu havia esperado o tempo todo. Eu estava meio distraído, ainda, com minhas reflexões sobre o León, então aquilo me pegou de surpresa.
Eu estava tão ansioso por isso, eu não deixava meu celular em paz — por isso que ele precisou de bateria — o dia inteiro, eu fiquei esperando pela mensagem dele e na espera, murchei mil vezes quando percebi que era de outro alguém. E então, quando a mensagem finalmente veio, eu ainda assim tive que reler mil vezes antes de entender que realmente era uma mensagem dele.
Caleb havia me mandado uma mensagem às 23:59.
Eu me emocionei de novo.
A mensagem dele foi igualmente curta, uma resposta curta para a minha mensagem curta de dois meses atrás, e que significava tanto, mesmo assim. Eu li e reli milhares de vezes, ponderando se eu deveria escrever algo de volta, visto que ele seguia online, e se eu deveria manter essa linha direta entre nós.
Mas eu não era tão inconsequente assim, ainda que quisesse.
Eu sabia que era errado, mas eu fiquei tão aliviado.
A resposta dele foi tão “Caleb” e eu senti tanta saudade que meu peito ardeu.
*
Pelas próximas semanas, eu fui mais feliz.
Eu trabalhei com um pouco mais de empolgação, e ela demorou muito tempo para baixar, meus colegas rabugentos e de mal com a vida que o digam. Ainda que houvessem coisas perturbando minha mente, em especial as que envolviam o Dean mas também as que envolviam meu futuro, minha carreira e minha vida amorosa — basicamente tudo o que envolvia o amanhã -, eu me permiti ver as coisas de uma perspectiva diferente, como Morgan tanto me incentivava.
Eu ainda tinha meus afazeres, no entanto, e foi pensando nisso que eu pigarreei ao lado do meu querido chefe, observando com atenção o seu trabalho. León tinha um pano de prato no ombro ao passo que ajeitava os copos recém limpos no armário. Ele destinou um olhar ranzinza para mim quando percebeu que eu inspecionava seu serviço, as sobrancelhas grossas unidas em irritação.
— Que foi, porra?!
Sorri abertamente, apoiando-me no balcão.
— Eu tava pensando se você não quer mais um ajudante aqui agora que a Jasmine saiu — joguei no ar, com a melhor cara que pude fazer de altruísmo.
— Era esse o nome dela? — debochou, bufando, ao voltar-se para os copos.
Acabei rindo.
Wanda, a menina nova que, inclusive, participou do meu aniversário, não durou mais do que três dias depois. Então veio uma nova leva de funcionários, entre eles a Jasmine, que durou dois dias. Alguns deles realmente vinham como freelancers quando eram chamados para reforço em dia de movimento quando Kyle e Mandy não podiam, mas os demais — que deveriam ser regulares - simplesmente evaporavam.
— Bom, ela chegou a ficar dois dias — defendi, dando de ombros. — Você não quer que eu encontre um novo empregado? — insisti, mordendo o lábio inferior.
— Quero que você trabalhe e pare de encher meu saco — retrucou, carrancudo, antes de acrescentar: — Já coloquei o anúncio na porta e na página, agora só esperar. E trabalhar — acrescentou, azedo, ao me olhar de canto de olho.
— Já vou — resmunguei, estalando a língua, antes de jogar no ar outra vez: — Mas e se eu recomendasse alguém pro cargo?
León não virou-se totalmente para mim, mas me olhou rapidamente. Ele pareceu prever que nada de bom viria da minha sugestão, mas ainda assim perguntou, desconfiado: — Quem?
Remexi as mãos, agitado, e desencostei-me do balcão.
— É um amigo, um bom amigo — acrescentei, rapidamente —, que eu tô tentando ajudar. Ele tá precisando muito — enfatizei — do emprego, então ele não vai arriscar pisar na bola, como esses outros que você anda chamando.
Esperei que minha última frase não tivesse saído com um ponto de interrogação, porque se eu fosse sincero, eu não tinha certeza que ele não pisaria na bola, ainda que ele realmente precisasse muito do emprego. Vá entender a mente das pessoas: às vezes elas não querem aquilo do que precisam.
León estalou a língua e resmungou: — Já fiz minha parte aos necessitados quando te aceitei aqui.
Evitei revirar os olhos, porque precisava convencê-lo da minha causa: — Ele não precisa de um lugar, ele tem onde morar, ele só precisa de um emprego bom, sabe? — tentei, com a voz mais mansa que consegui. — E um pouco de paciência — acrescentei, rapidamente, para não dourar tanto a pílula.
León destinou um olhar debochado para mim.
— Toda a minha paciência doada vai pra você.
Franzi o cenho, cruzando os braços no peito. — E quanto ao Enzo?
León soltou um som pelo nariz, balançando a cabeça.
— Aquilo não é doação, é obrigação, é meu dever — acrescentou, soltando um riso rouco e baixo. — E já toma o suficiente de mim. Não bastasse, ainda tem você agora.
O acréscimo ofensivo no final de fala foi seguido de suas costas quando ele marchou para longe, pegando mais uma bandeja de copos limpos e molhados com a tia Rosa para secar. Quem via a maneira como ele me tratava aqui nunca diria que ele me dava presentes caros de aniversário, fazia meu almoço e me levava café da manhã no quarto quando eu estava ocupado demais com meu treino para comer.
Suspirei, não levando para o coração.
— Bom, esse meu amigo — continuei, indo atrás dele — não é como eu, já que você me odeia tanto — reclamei, mais forte que eu, e León me destinou uma sobrancelha grossa arqueada que dizia que ele não acreditava em mim. Tornei a tentar vender o peixe: — Ele é muito carismático, sabe bem lidar com o público, tem experiência em inúmeros serviços e sabe bem trabalhar sob pressão.
León suspirou pesadamente ao colocar a bandeja mais uma vez em frente ao armário, mas antes de envolver-se na secagem, ele virou-se para mim.
— Ele não vai colocar os pés no meu bar.
Pisquei, levando um tempo para processar a informação, antes de franzir o cenho em confusão e, então, em compreensão.
— Como sabe de quem eu tô falando?
León torceu o nariz, fazendo um gesto vago. — Eu vi você rodeando aquele terreno imundo algumas vezes que passei por lá.
Suspirei pesadamente, deixando os ombros caírem.
Eu sabia que o Dean não tinha exatamente uma boa fama entre as pessoas que o conheciam como prostituto, como drogado, como traficante ou simplesmente como viado. Digamos que não é um repertório muito bom — dã - e que em vilas como as que moramos todo mundo meio que se conhece, então além de não ser bom, ainda é um repertório conhecido. E como eu sabia que o León pessoalmente conhecia o Dean, minha ideia era apenas trazê-lo para um dia de teste sem que León soubesse, e Dean fizesse um trabalho foda a ponto de virar a chave do jogo para ele. Ou, bem, melhor não usarmos trabalho e foda na mesma frase quando falamos do Dean.
De qualquer forma, meu plano foi por água abaixo.
— Ele precisa muito de uma chance — insisti, ainda assim, com os olhos pidões —, só de uma chance, e tenho certeza que ele vai se sair bem.
León pareceu pensar por meio segundo, secando os copos, e apenas respondeu, sem olhar na minha cara: — A resposta é não.
Bufei, subindo no balcão ao me sentar nele, e León olhou para mim de cara feia. Mas eu já não estava mais tentando convencê-lo a me ajudar, então não me importei com a carranca.
— Porra, o que foi que ele fez pra você, afinal?
León soltou um som pelo nariz, continuando o que estava fazendo, só que de frente para mim.
— “O que ele fez”? — perguntou, as sobrancelhas arqueadas. — Você quer dizer, além de tentar vender e comprar drogas em torno do meu bar, arranjar briga aqui dentro e tentar comprar meus clientes pra serem clientes dele naquele trailer podre?! — Fiz uma careta, e León terminou, debochado: — Não consigo pensar em nada.
Porra, mas esse miserável não se ajuda também.
Quando perguntei a ele sobre o León, se ele sabia quem era, demorou cinco dias úteis para Dean lembrar-se vagamente, e apenas porque eu expliquei que era o dono do Del Rey. Ele fez um gesto vago com a mão, com uma careta, e disse que lembrava dele expulsando-o de lá uma vez apenas, talvez a única na qual ele estava sóbrio ou vagamente sóbrio para se lembrar.
Ele esqueceu de mencionar — ou esqueceu dos fatos em si — os motivos pelos quais foi expulso. E por mais que eu quisesse dizer que era exagero do León, que haviam outros merdinhas que se enfiavam no bar, eu não poderia. Se eu não conhecesse o Dean, também iria querer vê-lo longe daqui e definitivamente não iria querer trabalhar com ele.
León me tirou dos devaneios quando, enfim, devolveu a pergunta com certa curiosidade: — O que foi que ele fez pra você, afinal, pra merecer tanta empatia?
Arqueei as sobrancelhas.
Abri e fechei a boca algumas vezes, sob sobrancelha arqueada dele, mas acabei desistindo com um suspiro e dei as costas, marchando para longe, para trabalhar, como ele tanto enfatizou.
No fundo, entretanto, aquilo alugou um triplex na minha cabeça, porque apesar de eu saber os meus motivos — um tanto distorcidos, é fato — para me envolver em ajudar o Dean, ainda assim não é como se o Dean, sendo quem ele é, tenha feito algo em específico por mim para merecer minha amizade e lealdade.
E isso me jogou em uma reflexão profunda, que me acompanhou pelo restante do dia.
Eu sei que ele não precisou fazer nada por mim, eu quis ajudá-lo sem nada em troca, eu me vi demais nele para simplesmente dar as costas e deixá-lo ao acaso do destino cruel que esperava por ele. Mas ainda assim, ele não havia feito nada em específico que tomasse de mim tanta empatia. Se eu parasse para pensar, caralho, o Dean nem havia sido tão importante assim para mim, apenas a ideia vaga que eu havia fantasiado sobre ele e sobre um futuro que nunca aconteceu.
E isso estava me incomodando porque, bem, havia alguém cujas ligações eu constantemente recusava. Alguém que eu não me permiti perdoar, porque a dor causada por ela com certeza é muito mais profunda do que qualquer desavença na minha relação com o Dean pudesse me causar. Alguém cuja porta do passado eu me recusava a abrir.
Minha mãe.
E por mais que eu pudesse listar motivos pelos quais ela não merecia meu perdão, eu também conseguia listar incontáveis motivos pelos quais ela merecia. Eu podia pensar em milhares de coisas que ela havia feito por mim para merecer minha empatia. E, apesar do motivo da minha dor ser justamente as coisas que ela não havia feito por mim, isso não minimizava o demais.
Minha mãe me ama, porra, mesmo que ela não saiba amar.
Então por que eu não consigo estender minha mão a ela?
O pensamento me doeu bem mais do que eu imaginei, e eu me vi enfiando-me no banheiro no meio do meu turno para me acalmar, evitando uma crise.
Eu não havia ignorado-a por completo, em minha defesa, eu apenas fui desaparecendo aos poucos da vida dela. O problema é que ela não aceitou isso em nenhum momento, então ela nunca desapareceu da minha.
É óbvio que eu me sentia culpado, embora também soubesse que era ela quem deveria se sentir culpada, mas eu andava ocupado demais para ter tempo de pensar sobre isso. A noção de que eu havia perdoado o Dean, dentre todas as pessoas, e não conseguido perdoar a minha mãe, no entanto, embrulhou meu estômago.
Naquele instante, eu decidi que eu precisava parar de me esquivar do assunto “mãe” na terapia de uma vez por todas.
*
Aconteceu quando eu estava voltando do mercado.
Eu estava cheio de sacolas, meu pé escorregando do chinelo de dedos com a quantidade de pó sujo das ruelas daquele bairro, uma gota de suor descendo pelas minhas costas. O meu celular capenga começou a tocar, mais uma vez, e eu soube que estava entre ser o León me chamando para pular no bar porque alguém faltou, cobranças de algumas faturas atrasadas ou minha mãe.
Bom, era ela.
Eu havia pensado muito nela nos últimos tempos, inclusive conversei brevemente com a Morgan a respeito, mas eu ainda seguia não conseguindo criar coragem de enfrentá-la. Ainda assim, acho que refleti o suficiente para entender o porquê de ser mais fácil perdoar o Dean do que perdoar a minha mãe: as feridas deixadas por ele eram muito superficiais comparadas às feridas enraizadas que minha mãe havia deixado em mim. E eu entendo que, em um cenário diferente, com demônios diferentes, o que Dean havia feito poderia ter me assombrado muito mais e o que minha mãe havia feito, quem sabe, muito menos.
Mas esse não foi o caso comigo.
As dores que minha mãe causou eram muito profundas.
E, ainda assim, ao contrário do Dean, eu a amava.
Eu amo a minha mãe e eu sei que ela me ama.
Então por que é tão difícil simplesmente atender suas ligações?
Entrei pelo portão e deixei as sacolas na grama rala, apoiando-me no murinho baixo da casa dos Hernández. Eu não sabia se o León estava ali ou no bar, então optei por ficar ali para ter um pouquinho de privacidade antes de deslizar o dedo na tela trincada do celular.
— Oi, mãe.
Katya havia ligado, como todos os dias, e eu atendi pela primeira vez em quase um ano. Era de se esperar o espanto, mas eu senti meu coração apertar quando ouvi o pequeno, quase mudo, arquejo que ela soltou quando ouviu minha voz.
— Meu filho...
Fechei os olhos, apoiando mais do meu peso no muro, na necessidade de ter onde me segurar. Fiquei em silêncio enquanto ela chorava, murmurando algumas vezes “meu filho”, “Abe”, “Alex”, balbuciando frases incompletas que não entendi.
— Sim, sou eu — murmurei, apenas para que ela soubesse que eu ainda estava na linha.
— Você tá bem, meu amor? — perguntou, a voz falha, tentando a todo custo controlar-se. Engoli em seco. — Tá seguro? Tá bem alimentado?
Inspirei e expirei algumas vezes, controlando minha respiração como aprendi, e talvez tenha demorado um pouquinho demais para responder, mas ela foi paciente ao esperar.
— Tudo isso — concordei, remexendo as mãos. — Eu tô tudo isso.
Ela soltou um som aliviado. — Eu tava tão preocupada — contou, baixinho, e eu engoli em seco.
— Não precisava se preocupar — falei, rapidamente. — Eu te respondo às vezes pra garantir que eu tô bem. Sem falar que — acrescentei —, você deve saber pelos meus tios e pelo Ian.
Minha mãe soltou um suspiro cansado, entre fungadas do nariz.
— Eu não seria mãe se não me preocupasse — disse, previsivelmente. Acabei sorrindo, sem pensar. — Mesmo ouvindo sua voz, me garantindo que tá tudo bem ou que não poderia estar melhor, eu ainda vou me preocupar — estabeleceu, firme. — Você não tá aqui comigo, tá solto no mundo, eu sempre vou me preocupar.
Meu sorriso se perdeu quando eu quis muito dizer “e a culpa é de quem?”, mas mordi minha língua e controlei meu rancor. Respirei fundo algumas vezes, tentando pôr os pensamentos e sentimentos em ordem, e vi que ela pareceu respeitar o suficiente para esperar por uma resposta.
— Eu preciso fazer uma pergunta — acabei dizendo, antes mesmo de pensar, e fiquei surpreso comigo mesmo quando percebi que esse seria o rumo da conversa. Nós tínhamos tanto do que falar, principalmente sobre eu e ela, sobre nossa relação de mãe e filho, sobre o tanto que se quebrou entre nós. Mas o que saiu, ainda assim, foi: — É sobre a Agatha.
Mesmo depois de tanta terapia, ainda era difícil pronunciar o nome dela, quase como se eu estivesse convocando-a para a conversa. Eu quase pude ouvir minha mãe prender a respiração, se é que é possível ouvir isto por telefone, e apenas o silêncio veio como resposta.
— Se você não pode responder, eu vou desligar.
— Não! — apressou-se ela, e eu novamente pude ouvir a respiração pesada. — Espera, não desliga. Por favor, Alex, não desliga — pediu, e eu engoli em seco. Ela baixou o volume da voz fina quando respondeu: — É claro que eu posso.
Assenti, ainda que ela não conseguisse ver, e comecei a ficar nervoso no mesmo instante. A impaciência esvaiu-se por completo e eu me peguei querendo fugir daquela conversa que eu mesmo iniciei. Inspirei e expirei fundo mais alguma vezes, remexendo-me no lugar, olhando para a rua, repensando minhas próprias escolhas uma vez mais.
— Ela pegou pneumonia de mim, não foi?
Eu joguei no ar e, desta vez, fui eu que prendi a respiração.
A pergunta estava entalada na minha garganta há um ano, desde as minhas primeiras sessões de terapia, nas quais Morgan me motivou pelas primeiras vezes a conversar com os meus pais sobre o ocorrido. Bom, sobre a minha experiência traumática, mas eu não gosto de chamar assim. Morgan e eu seguimos no meu tratamento da TEPT, semanalmente, e enquanto eu aceito algumas técnicas de enfrentamento, eu também me nego a algumas. Morgan havia me instruído a desconstruir tudo o que havia acontecido naquela noite, parte por parte, mas isso era algo que eu não havia conseguido me colocar a fazer.
Só que algo estava me incomodando, e eu não saberia dizer se era uma centelha de esperança ou se era um presságio de maiores tormentos existenciais. Morgan havia apontado algumas inconsistências nos meus relatos, e me informou que algumas das minhas lembranças estavam errôneas, basicamente que a linha de tempo na minha memória é bem fodida. Uma das maneiras de resolver, que ela desistiu de insistir, era conversar sobre isso com quem passou pelo mesmo, ou seja, quem esteve comigo. Por meses, eu evitei fazer isto.
Mas, de alguma forma, eu me peguei fazendo isso agora.
— O quê?
A pergunta veio confusa e eu fechei os dedos no muro, vendo-os esbranquiçar, meu coração acelerado à toda.
— Não — veio a resposta, ainda confusa. — Claro que não —enfatizou, e eu engoli em seco. — Como assim? Alex, do que você tá falando? Por que você...?
As perguntas vieram emboladas, o toque de preocupação aumentando a cada palavra, e eu imaginei que ela realmente começava a ligar os pontos. Sua reação pareceu genuína o suficiente para encher meu coração com um pouco de esperança e outro pouco de rancor.
— Não mente pra mim — firmei, grave, cerrando a mandíbula.
Ouvi sua respiração falhar.
— Alex — pronunciou, com o máximo de seriedade que conseguiu na voz fina e trêmula —, meu bem, você não passou nada para a sua irmã. Ela estava doente — enfatizou, palavra por palavra.
Acabei bufando de frustração quando voltei a respirar, recém percebendo que prendi a respiração novamente, então tentei me acalmar.
— Eu... — Suspirei, frustrado, ao esfregar o rosto com a mão. — Eu sei que ela tava doente, eu sei que ela tinha asma, não é disso que eu tô falando. Eu tô falando sobre a pneumonia — atropelei, tudo junto, e ela ficou quieta. — Eu fiquei doente antes, com a mesma coisa que ela teve, do dia que a gente ficou tempo demais na piscina. Eu peguei pneumonia e ela também, e não adianta mentir — enfatizei, duramente —, porque isso tá no meu histórico médico.
— Abe...
Fechei os olhos com força pelo apelido carinhoso dado ao meu primeiro nome e respirei fundo, sentindo minhas forças oscilarem, os olhos começarem a querer arder.
— Você acha que teve algo a ver...? — a pergunta veio baixa, quase sussurrada, e também horrorizada.
— Me responde — exigi, sem esperar a continuação.
Pude ouvir que ela controlava seu próprio choro ao respirar fundo. — Eu não sei por que você tá perguntando isso agora — continuou —, mas meu bem, você adoeceu depois dela. Foi você que pegou dela, Abe, era pneumonia bacteriana.
Neguei com a cabeça, como se ela pudesse ver, incapaz de aceitar aquilo, porque minhas memórias diziam o contrário.
— Não — neguei, tentando manter firmeza. — Não. Eu lembro de ficar uns dias na casa de um colega, o Liam, justamente pra ela não pegar nada. Eu lembro disso — enfatizei, desacreditado, porque eu não sou louco. — Foi no verão, foi depois do dia na piscina.
Eu ouvi minha mãe chorar baixinho do outro lado da linha, fungando algumas vezes, a respiração falha.
— Você tá se confundindo, meu bem, pneumonia não se pega dessa forma, por ficar tempo demais na piscina — explicou, devagar, bem articulada. — Não funciona dessa maneira, Abe.
Suspirei, frustrado. — Mas eu me lembro de...
— Alex, me escuta — interrompeu, a voz firmando aos poucos, como se estivesse em uma missão. — Quando vocês eram pequenos, vocês se passavam na piscina mesmo e a mãe dizia que iam se resfriar porque eu não sabia melhor do que isso na época — explicou, o som triste. — Eu repetia o que minha mãe dizia pra mim, mas não é assim que se pega gripe. E às vezes vocês realmente se resfriavam, como toda criança, mas o caso asmático da sua irmã nada tinha a ver com isso e muito menos piorava por conta da piscina. — Eu abri a boca para retrucar, mas ela continuou, como se soubesse do que falava de tal maneira que eu começava a duvidar das minhas próprias memórias: — E meu bem, você nunca ficava doente a ponto de ser separado dela, quem sempre adoecia era sua irmã. Você ficou uma semana na casa do Liam, medicando-se por precaução, quando ela pegou pneumonia viral pela primeira vez e queríamos evitar que você adoecesse também.
Esfreguei a testa, tentando me lembrar, forçando a memória, sentindo a cabeça começar a latejar. Eu não conseguia lembrar de mais detalhes, além do geral que eu havia gravado feito um filme de terror e repetido para mim mesmo durante anos — durante uma década inteira.
— Eu não entendo...
Katya ficou em silêncio do outro lado por um tempo, aparentando estar confusa e entristecida, fungando vez ou outra. Quando ela pronunciou-se novamente, parecia também não entender de onde eu havia tirado minha versão da história.
— Agatha teve pneumonia algumas vezes, meu bem — informou, devagar — porque a saúde pulmonar dela era fragilizada, e a última vez que ela pegou foi a que...
Eu não precisei interromper, apesar dos meus olhos se fecharem em resposta, se recusando a ver o que viria a seguir — como se isso ajudasse -, porque ela mesma se interrompeu. O silêncio que veio a seguir foi ensurdecedor e, quando ela pronunciou-se outra vez, sua voz carregava um peso de preocupação e uma dose de desespero que deixou meu coração apertado.
— Abe, por que você pensaria que tem alguma culpa disso? — perguntou, como se pudesse me ler feito um livro. Quem sabe realmente pudesse. Em seguida, eu senti que ela começou a perder as estribeiras: — Por quanto tempo você tem pensado que...? — Um arquejo veio. — Meu Deus, meu filho.... — O choro invadiu a linha e estremeceu cada parte do meu corpo cansado e eu curvei-me no muro até que minha cabeça estive apoiada na minha mão. — Pelo amor de Deus, Alex, você não tem nada a ver com o que aconteceu com a sua irmã!
Minha mãe quebrou-se e eu quebrei junto.
Ela começou a chorar sem qualquer restrição e, desta vez, eu não consegui enfiar as lágrimas de onde não deviam ter saído. Meu lábio inferior começou a tremer e meus olhos já não mais viam coisa que fosse, o desespero da minha mãe do outro lado da linha atingindo cada parte do meu ser.
Eu estava tão acostumado a me sentir assim, a relembrar das coisas desta forma, nesta ordem de eventos, que apenas naquele momento eu consegui perceber que aquela crença distorcida — assim chamava Morgan — era fodida e grave. Essa compreensão só veio quando ela arquejou e desabou-se como se a simples ideia de eu pensar que causei a morte da minha irmã fosse a maior dor do mundo para ela. Naquele instante, e apenas naquele instante, eu entendi que aquilo era um nervo de dente inflamado e exposto que eu exibia por aí, sem entender que a dor era desnecessária porque havia uma solução, um tratamento, que eu não enxergava.
Eu desabei junto dela, sentido por seus sentimentos, embora estivesse receoso de acreditar por completo, de dar razão a ela, de aceitar o que ela me oferecia como verdade.
— Você tem certeza que foi assim? — consegui perguntar, erguendo a cabeça e tentando limpar os olhos embaçados com a mão trêmula.
Minha mãe soluçou e eu tentei me controlar para não imitá-la.
— Por Deus, Alex — choramingou, em desalento, antes de soluçar uma vez mais, tentando se recompor. Quando o fez, sua voz estava embargada: — Absoluta. Certeza absoluta. Deus, eu devia... Eu devia ter conversado mais com você sobre o que aconteceu. Eu devia ter...
Engoli em seco quando ela prendeu a respiração e eu praticamente a ouvi engolir em seco — engolir o choro, em todos os sentidos da palavra, para se recompor. Meus olhos ainda marejados encararam a rua sem nada ver ao passo que eu seguia tentando limpar meu rosto molhado.
— Agatha nasceu prematura, meu bem, e ela teve que ficar entubada por semanas no hospital. Ela desenvolveu bronquiolite desde cedo e quando já era grandinha, teve o diagnóstico de asma. A pneumonia veio mais de uma vez, ela tinha muitas recaídas. Você... — Suspirou, como se carregasse o peso do mundo. — Você lembra que ela teve que passar por uma cirurgia?
Tive que forçar a memória, mas eu lembrava vagamente.
— Lembro — falei, fracamente. — Foi mais de uma, não foi?
— Não, meu bem, foi uma só depois de crescida — insistiu ela, o tom pesaroso. — Ela já tinha seis anos, teve que ser internada algumas vezes porque teve uma complicação da pneumonia viral recorrente, algo chamado de derrame pleural.
Acabei levando a mão à boca, puxando a pele entre as unhas com ansiedade, ficando mais nervoso quanto mais ela entrava em detalhes.
— Derrame?
Para mim, derrame era algo relacionado à cabeça e eu tinha certeza que era causa de morte de muitos idosos.
— Pleural — especificou, paciente. — É um acúmulo de pus no pulmão. Não costuma ser grave, mas ela precisou de uma cirurgia pra poder consertar isso. — Em seguida, soltou um suspiro pesado, como se preparasse para o que viria a seguir: — O que aconteceu, Alex, é que sua irmã desenvolveu uma pneumonia bacteriana do próprio procedimento cirúrgico, e foi enviada para casa sem o tratamento adequado. É muito provável que tenha tido uma contaminação bacteriana por conta da videopleuroscopia, por meio da entubação — explicou, e eu franzi o cenho. Como caralhos eu não sabia de nada disso?— Levamos sua irmã para casa com os remédios do pós-cirúrgico e passados alguns dias ela teve uma piora. Nós ligamos para os médicos mas eles disseram que os remédios fariam efeito logo. E sua irmã, ela apenas.... — Minha mãe fez uma pausa e eu segurei o choro também, vendo que ela se controlava. — Alex, ela tinha uma fragilidade maior, e os pulmões dela simplesmente... Ela simplesmente se foi...
Fechei a mão em punho e apertei o celular contra meu rosto, tentando controlar minha ansiedade — o último que eu queria era ter uma crise antes de ouvir a história toda. Mas eu não conseguia apagar os flashes de memórias dela, naquele dia pavoroso, e seu braço caído quando...
Fechei os olhos, mas isso apenas me fazia ver com mais nitidez o que eu queria esquecer.
— Você não lembra que a gente, inclusive, processou o hospital por negligência médica?
— Não...
Abri os olhos uma vez mais, tentando focar os olhos em um cara aleatório que passava na rua para apagar a imagem que eu seguia vendo, mas não funcionou muito bem.
— Alex... — chorou, e eu não consegui falar nada, engasgado. — Eu odeio tanto — sussurrou — que tenha sido você quem a encontrou. Meu Deus, como eu daria qualquer coisa pra impedir que você a tivesse visto daquela maneira!
Não consegui dizer nada, parado, estancado no chão, ao passo que tentava não dissociar antes da conversa acabar. Eu comecei a me sentir dormente em algum momento — no exato momento em que voltei a ter flashes daquela noite -, e eu comecei a desejar fugir daquela sensação.
Uma maneira de fazer isso é me desligando.
Minha mente simplesmente foi apagando aos poucos.
E eu fui me fechando.
— Então, meu bem, não foi você que passou isso para ela — concluiu, e eu voltei momentaneamente a focar no que ela dizia, apesar de me sentir sumir aos poucos em um estado de fuga que minha mente criou. — Ela já estava em tratamento por alguns dias antes que você adoecesse, bem no dia que ela...
Uma mulher em uma bicicleta passou na rua.
Havia algum problema na correia dela porque fazia barulho.
O sol estava queimando meu couro cabeludo e subitamente me tornei ciente dele, bem como do suor que descia pela minha nuca, embora o rosto estivesse molhado das lágrimas.
A grama amarelada e baixa parecia ainda mais miserável agora.
Remexi os dedos, vendo que uma cor vermelho-escarlate chamou minha atenção, então descobri que eu puxei uma das peles em torno das unhas com força demais. Também percebi que estava ardendo e latejando, e que eu não havia sentido sangrar até ver.
Um homem passou com sacolas de mercado.
Desviei, então, os olhos para as sacolas que eu trouxe, esquecidas no chão. Havia uma manteiga ali, percebi, e estava pegando sol.
Alex?
— Alex — continuou ela, como se me chamasse de volta sem nem saber que eu me fui —, quando ficamos sabendo que você tinha sido levado ao hospital também, que estava do outro lado do hospital quando nós dois acabávamos de ouvir que sua irmã não havia resistido — a voz tremeu —, seu pai e eu quase enlouquecemos.
Aquilo me puxou de volta.
E, assim como o nome me chamava de volta, o rancor ao ouvir “pai” também retornou. Soltei um som pelo nariz, talvez baixo demais que ela não tenha escutado, porque não deu sinal, e o ar que saiu da minha boca me despertou um pouco mais. Seu pai e eu quase enlouquecemos?, meu cérebro debochou, voltando à vida, e me senti tentado a desligar na cara dela. Talvez porque eu ainda me sentia dormente e sabia que demoraria a passar, mas a tentação foi real.
No entanto, o que veio a seguir acabou me chacoalhando para fora da dormência e, principalmente, para fora de qualquer ressentimento.
— Eu senti o chão terminar de esvair debaixo dos meus pés — contou, a voz desolada. — E eu pensei “por favor, meu Deus, os dois não” — sussurrou, sem perceber —, e então eu barganhei pela sua vida.
Pisquei algumas vezes, unindo minhas sobrancelhas em desorientação ao processar aquilo, um nódulo começando a formar-se em minha garganta antes mesmo de eu ouvir o restante do relato:
— Eu O xinguei tanto e eu gritei tanto com Ele por tentar tirar meus dois filhos de mim, os maiores amores em forma de gente que já conheci na minha vida. E então eu implorei, ajoelhada na capela, por misericórdia. Eu disse a Ele que me entregava, que faria tudo e qualquer coisa para não perder você também, que eu entregava a minha vida pela sua. E Ele ouviu, ah, meu bom Deus me ouviu! Eu não sabia naquele momento, mas Ele realmente atendeu minhas orações e protegeu você. E eu cumpri com a minha parte, e vou seguir cumprindo até meu último suspiro, eu realmente entreguei minha vida a Ele.
O soluço alto que machucou saiu de mim.
Eu acabei perdendo a força nas pernas e desabei, agachando-me ali mesmo, caindo entre a grama entristecida e o muro de casa. Mas eu despertei — muitas partes da minha consciência despertaram ao mesmo tempo, e eu chorei como uma criança desamparada, como há muito tempo não chorava.
Minha mãe fez uma pausa no relato para chorar junto de mim, murmurando meu nome em apelidos carinhosos que doíam tanto mas pareciam curar também.
— Você é um milagre, meu bem — contou, e eu choraminguei —, você é a maior prova do amor de Deus que existe. Eu sei que não entende minha fé e eu não quis te contar sobre isso antes porque eu sempre tive muita dificuldade em falar sobre a sua irmã, mas... Hoje eu vejo que você precisa saber. Eu espero que, ainda que você não consiga entender meu amor por Ele, você ainda possa entender meu amor por você.
Solucei mais uma vez, abraçando meus joelhos com um dos braços, sentindo tanto que achei que fosse implodir.
— É o amor mais puro que tenho na vida — continuou, chorosa — e o mais bonito do mundo. Quero que saiba disso. E eu espero que consiga encontrar um espaço em seu coração para me perdoar, um espaço para que eu possa mostrar o quanto eu sinto muito e o quanto quero consertar as coisas entre nós. Eu sinto muito, meu filho, por ter falhado com você tantas vezes — pediu, a voz fraquejando, e ela voltou a chorar. — Eu estive tão focada em entregar minha vida a Ele que perdi o foco do maior motivo disso, que foi querer proteger você. Eu quis protegê-lo tanto da morte que falhei em protegê-lo da vida, da dor, do sofrimento, da solidão. Fique bravo comigo, Alex, me odeie se isso faz aliviar sua dor, mas por favor, me dê uma chance de mudar as coisas e de mostrar que eu mudei. Não há nenhuma pessoa nesse mundo, meu filho, que eu ame mais do que você. E eu amo... — A voz suave falhou, ao passo que o choro a deformava. — Eu amo você, meu amor, do jeitinho que Deus te fez, cada parte que faz de você você. Não importa, meu bem, quem é que você ama, porque eu amo você. O que importa é que você esteja bem, esteja feliz e esteja seguro.
Solucei alto, sentindo-me tão aquecido e sobrecarregado de emoção que não conseguia racionalizar absolutamente nada do que estava acontecendo.
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Solucei uma última vez antes de desligar a chamada.
Eu não tinha capacidade psicológica, emocional ou mesmo física de ouvir qualquer outra palavra bonita de declaração de amor que saísse da boca da minha mãe. Se eu ouvisse mais uma palavra de amor, mais um apelido tomado de ternura, eu era capaz de entrar em estado de surto total.
Eu não havia me preparado para isto.
Quando eu atendi a ligação, eu não estava esperando nada disto e mesmo depois que atendi, quando iniciei o assunto sobre minha irmã, eu ainda assim não esperei por essa reviravolta.
Essa outra reviravolta.
Eu ainda estava digerindo as informações a respeito da saúde de Agatha que eu desconhecia e a ordem dos eventos que eu havia fodido com meu trauma. E eu lidaria com isso, eu realmente lidaria com isso — na terapia, nos sonhos, nos pesadelos, no dia a dia, na minha música, eu lidaria com isso. Porque o fato de eu não haver causado a morte da minha irmã ainda estava entalado na minha garganta e eu não conseguiria engolir até que tivesse desconstruído cada mínimo detalhe do que acabei de ouvir. Eu estava processando aquilo, um processamento muito lento, porque parecia muito surreal, e eu precisava lidar com o fato de ser real, a ficha ainda precisava cair.
Mas isto, todo esse amor, foi processado imediatamente.
E era isto que me deu um pane.
As fichas iam caindo conforme entravam, uma após a outra, porrada de amor atrás de porrada de ternura, e elas caíam mesmo com a ficha de “eu não causei a morte da minha irmã” presa pela metade. E era muita coisa para cair ao mesmo tempo, muita coisa que eu não precisava processar, muita coisa que eu apenas sentia e sabia.
Eu sabia que era verdade, que era genuíno, que era puro.
E talvez eu não precisasse de tempo para processar porque levei muito tempo esperando por isso — esperando, mas sem acreditar que viria. Era um buraco no peito, uma ausência que fazia falta, algo que só podia ser preenchido com aquilo. E então foi, e como foi!, preenchido.
Jogou-me para fora do eixo.
Minha vida dividiu-se bem ali, com relação à descoberta sobre não haver causado a morte da Agatha, obviamente, mas também com o amor da minha mãe. Haveria apenas o antes e o depois dessa divisão, para sempre.
Antes, eu sabia que minha mãe me amava sem saber o que isso realmente significava. Depois, eu fui apresentado a esse amor — ela me apresentou a este amor.
Ao mesmo tempo em que sangrava, também curava.
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