Made of Stone

66 LII. De todas as fugacidades do mundo


Notas iniciais
Feliz 2025, panditores, e boa leitura! <3

Meu último recomeço foi difícil.

Este ano alavancou como um carro com problemas de ignição; lento, repetitivo e longo. As semanas se arrastaram, os meses pareciam ter o dobro do tempo, os dias foram torturantes. Havia certa melhora ao longo do tempo, os dias começaram a ser menos insuportáveis, os meses esticados pareciam não ser tão ruins, mas o progresso seguia lento.

Isso é normal, não é, com o tanto que mudou?

Alguma coisa aconteceu em agosto, no entanto, porque parece que o carro simplesmente arrancou. Assim, sem mais nem menos, como se nunca houvesse estado estancado para começo de conversa, e arrancou como um foguete. Eu nem sei dizer o que aconteceu entre agosto e dezembro. E isso não queria dizer, necessariamente, que o progresso também havia alavancado, pelo contrário, parece que absolutamente nada mudou de lá para cá porque eu seguia estancado em uma mesma etapa.

Mas dezembro estava aqui em um piscar de olhos.

Isso significa um milhão de coisas juntas, todas apitando em alerta vermelho no fundo da minha cabeça, tão fundo que soava mais como um zumbido de moscas ao longe. Acho que é porque eu me desliguei um pouco das coisas que me incomodavam, até porque, não é como se eu conseguisse resolvê-las, então eu decidi ignorá-las para um bem maior. Elas seguiam lá, no entanto, gritando como se implorassem por atenção, e eu seguia aqui, dormente para tudo.

É melhor do que eu faço parecer, porque isso é outra coisa sobre mim ultimamente: eu sou um pessimista agora. Não que antes eu não fosse, mas acho seguro afirmar que as coisas pioraram um pouquinho nesse quesito. Então não quer dizer que eu esteja enfiado em uma cama, depressivo, escutando músicas tristes, vinte e quatro horas por dia, apesar de soar assim. Minha dormência se referia a algo mais intrínseco, mais abstrato, que eu sequer saberia explicar.

O ponto é que, dormente ou não, os alarmes estavam lá — e eu sei o que eles significavam, apesar de não pensar muito a respeito.

Dezembro significa que um ano se passou, assim, como se não fosse nada. Faz um ano desde que eu vi Alex pela última vez; um ano desde que ele saiu do colégio com a Mary Jane e foi viver em outra cidade; um ano desde que ele me cortou da vida dele, como um pedaço estragado de uma fruta; um ano desde que ele disse que me amava pela primeira e última vez.

Haviam outros significados, um deles resumido em um convite de formatura dourado com dois nomes: Bex e Korn. Um ano voou e eles estavam deixando o colégio também, deixando a panelinha deformada com mais dois espaços vazios.

Porra.

Desde quando está tudo bem que o tempo voe?

Eu teria que começar outro ano logo em seguida, o último ano do colégio, diga-se de passagem, e eu ainda estou processando lentamente o que aconteceu no ano passado. Eu sequer comecei a processar o ano atual, este ano, que dirá mais um, que dirá um último ano de colégio, que dirá um ano de despedidas de tudo o que eu conheci por mais de dez anos de vida acadêmica.

Eu só queria gritar que: porra, calma aí, dá um respiro, espera um pouco, eu não estou pronto!

Por dois anos eu pensei que essa sensação era unicamente dedicada ao Alex, porque por dois anos seguidos, eu sentia que o tempo voava para levar o Alex para longe no final. Ao menos isso era algo positivo que tirar da sua ausência: agora eu percebia que nem tudo se tratava dele, que isso é uma sensação generalizada do tempo, que ele está sempre correndo, sempre voando na frente dos nossos olhos.

O tempo nos arranca do que nos pertence debaixo dos nossos narizes, arrastando tudo com ele para longe, trazendo o que não pedimos e levando embora o que imploramos para manter.

Mas eu não estou pensando nisto.

Eu não vou pensar nisto.

Subitamente, empurrei todos os alertas para o mais profundo da minha mente, sentindo os nervos começarem a acalmarem, a ansiedade se aquietando por livre e espontânea pressão. Eu não me deixaria ser engolido por tormentos mentais, não depois de tudo o que passei, não iria mesmo.

O ponto é que, bom, dezembro está aqui.

Isso significa semanas de estudos e mais estudos, provas e trabalhos, porque por mais que eu queira retardar o tempo para que eu processe o que está acontecendo, eu definitivamente não vou conseguir fazer isto reprovando de ano no colégio. Então tudo o que andei fazendo ultimamente é estudar. E sim, eu peguei recuperação em duas matérias novamente, então meu ano letivo se estendeu por mais uma semana.

Me perdoe se meu cérebro está frito o suficiente para divagar sobre coisas que evito quando está funcional.

— Caleb!

Eu havia feito uma pequena pausa dos estudos diários para cozinhar a janta de hoje, porque havia prometido, já que todos estariam muito ocupados para cozinhar. Talvez por isso eu tenha divagado, para começo de conversa, cozinhar era simplesmente deixar a mente correr solta, sem qualquer restrição — e talvez por isso eu já não mais gostava de ficar na cozinha.

Eu sequer registrei meu nome antes de que algo colapsasse contra mim e nos jogasse ao chão — literalmente. Eu ainda tinha uma colher na mão, então um pouco de molho de tomate dela acabou saltando na parede e no chão.

— Will — ofeguei, tendo reconhecido a voz, os cabelos — que foi o único que consegui ver — e o grude. — Ah — resmunguei de novo, quando ele me apertou mais, sequer se importando que estávamos no piso —, eu acho que bati minha cabeça.

— Eu tava com tanta saudade! — chorou, o óbvio, antes de processar o que eu falei. Afastou o suficiente para que eu pudesse ver seu rosto. — Eita, bateu mesmo, foi? Talvez assim você crie juízo!

— Will!

A exclamação veio da porta da cozinha, percebi, assim que Will desgrudou o suficiente — apenas o suficiente — para que eu pudesse me sentar e ver minha mãe entrando abraçada em dois travesseiros e uma coberta. Magic pulava e latia em volta, sem parar, rodopiando de um lado ao outro, revezando entre a gente e o restante das pessoas da casa.

— Vocês podiam ter se machucado — ralhou, mas não enganava nem a si mesma, com o sorriso largo e bochechas avermelhadas de emoção. — Will, deixa seu irmão respirar, você vai matá-lo sufocado!

— É, me deixa respirar — ofeguei outra vez.

Will estava sentado ao meu lado, quase ao meu colo, com os braços ainda em torno do meu pescoço, apertando com força desmedida. — Cala a boca e aceita o meu amor.

Em minha defesa, eu cheguei a retribuir o abraço e agora que me faltava ar, eu ainda dava tapinhas reconfortantes em seu ombro, mas haviam limites de grude e meu irmão ultrapassava todos.

— Will, a janta vai queimar — tentei outra vez, e ele negou.

— Ah, meu irmãozinho! — chorou, dramático, mas eu soube que era atuação pelo exagero. Ou seja, ele estava me sufocando de propósito, sem motivos emocionais — apenas motivos malévolos de irmãos. Meu próximo tapinha em suas costas foi com mais força e ele resmungou. — Ai, ai, ai! — gritou, exageradamente, quando se afastou — ainda não o suficiente. — A gente cria, dá tanto amor e só recebe pancada!

Eu ouvi o riso da minha mãe lá da sala, e em seguida, vi entraram o Theodore e o Turner, com malas em mãos, também olhando para nós dois esborrachados no chão com olhos divertidos. Magic estava variando entre cheirar a roupa do Turner e tenta cavar um buraco em suas pernas para receber atenção.

— Sai de cima de mim — resmunguei para o outro cachorro grudento, tentando tirar os braços dele de mim, literalmente, porque o momento de amor acabou.

Quando arranquei uma das suas mãos, Will usou a outra para manter meu rosto no lugar e dar beijinhos na minha testa. — Que coisinha mais bonitinha que você tá, igual o mano, um divo! — exclamou, espalhando beijos em minha testa e meu rosto quando virei para o lado ao tentar escapar. Céus, ele conseguia ser pior do que a mamãe! — Receba amor, receba!

— Cala a boca — acabei rindo, quando finalmente tirei-o de cima de mim o suficiente para me levantar.

Para ser sincero, eu sentia muita falta do Will.

Era algo que se estendia para o dia a dia, óbvio, quando ele costumava agir normalmente comigo já que nos víamos todo dia, mas quando a gente se reencontrava depois de meses, ele agia dessa forma: grudento e dengoso. Mas nem disso eu podia reclamar. Bom, não tanto, ao menos.

Quando digo que de agosto para dezembro foi um pulo, era a esse tipo de coisa que eu me referia. Parecia ontem, final de agosto, quando Will nos visitou por um final de semana, a última vez que nós o vimos. Ele veio sozinho, então fazia ainda mais tempo que não víamos o Turner — pessoalmente, é claro, porque minha família estava sempre fazendo videochamadas. E agora eles ficariam aqui por algumas semanas, já que estavam de férias — bom, mais ou menos, segundo o Will, com o mestrado ele não tirava férias, em suas palavras.

— E aí, garoto?

Turner me abraçou ao cumprimentar e eu abracei de volta, um tanto desajeitado, porque até nisso eles combinavam. Aposto que Will reclamava tanto de saudade da gente que ele passava um pouco disso para o homem, que sempre que aparecia, fazia questão de distribuir abraços apertados.

Que casal mais tátil.

— Hum, bem — respondi, automaticamente. — E vocês?

— Eu estou um pouco cansado da viagem, mas parece que sou o único — brincou, olhando para um Will que pulava e beijava nossa mãe com muita energia, tendo desviado o foco de mim para ela. — Will passou a viagem toda tomando energético só porque gosta do sabor.

Arregalei os olhos teatralmente, relanceando o meu irmão, antes de comentar: — Que perigo.

Meu irmão parecia... bem. Mais do que bem, parecia saudável, com as bochechas rosadas, os olhos brilhando e tudo. Will sempre foi esguio como eu, então ele continuava assim, apesar de eu sentir que eu havia ganhado peso desde o início do ano, a julgar pelas minhas roupas apertadas. Ele havia deixado os fios claros crescerem até enroscarem-se nas orelhas, dei-me por conta, achando curioso, porque eu também não havia mais cortado meus cabelos. Ele havia feito a barba e me senti agradecido, porque eu não gostava de como ele se parecia com ela.

Quanto ao professor, bem, ele é que havia cortado os cabelos, rentes novamente, e sua barba escura havia crescido um pouco mais do que o comum. Ele nunca mudava muita coisa em sua aparência.

Turner gargalhou. — Um perigo, de fato. Mas bom — acrescentou, com um riso —, pelo menos ele tornou impossível que eu dormisse no volante.

— Eu imagino — murmurei, em solidariedade, ao mesmo tempo que Theodore passava pela cozinha com uma caixa transportadora de animais em mãos:

— Minhas simpatias — brincou ele, tendo ouvido que o Will metralhou de palavras os ouvidos do pobre namorado por horas a fio. Ou, bem, noivo.

Arregalei os olhos, de surpresa, desta vez.

— Smaug! — chamei, animado, ao me aproximar da caixinha e enxergar o gato que eu não via desde visitei-os em Lydris pela primeira e única vez lá no início do ano. — Vocês trouxeram ele!

— É, a gente não teve coragem de deixá-lo por duas semanas — contou Turner, dando de ombros, ao olhar para o gato.

O gato foi adotado ainda no início do ano quando era filhote — bom, ele ainda é — e agora devia ter quase um aninho. Era todo cinza, inclusive o focinho, tipo um korat ou um russo azul, mas era definivamente um vira-lata. Eu também poderia argumentar que o Magic estava entre um labrador e um golden retriever e que é tudo mentira dos outros quando dizem que ele é um vira-lata caramelo. Mas quem eu estou querendo enganar?

Eu amo meu camarelinho.

— Ah — falei, enfiando o dedo mindinho dentro da caixa que Theo segurou virada para mim —, ele vai odiar o Magic.

Meu cachorro não é agressivo com outros animais. Kaori volta e meia adotava gatos de rua que iam e vinham de sua casa e Magic adorava latir para eles quando ficavam no muro. Mas alguns mais corajosos seguiam entrando no nosso pátio e, inclusive, se sentido à vontade o suficiente para se enfiar aqui dentro de casa, e Magic decidiu que aquilo era bom porque faria amizades.

Coitado.

A maioria dos gatos simplesmente não acha inteligente fazer amizade com cachorros. Eu não os julgo, pensei, vendo Smaug cheirar meu dedo de longe e, em seguida, retornar cautelosamente para detrás da caixa.

— Não ajuda que ele seja gato de apartamento — comentou Turner, achando a coisa toda engraçada.

Magic virou circulando em torno da caixa segurada por Theodore, cheirando e cheirando e cheirando mais um pouco, antes que ele a levasse para o sofá.

— Ei, a gente passeia com ele! — protestou Will, lá da sala, ainda abraçado na mamãe. — Ele já sabe tolerar cachorros, pelo menos. Mais ou menos — acrescentou, com uma careta, e o Turner riu.

Eu retornei para as panelas, desligando algumas bocas e tentando raciocinar o que faltava fazer, tendo a cabeça sido desviada totalmente para as visitas. Enquanto foquei no que fazia, eu ouvi as últimas fofocas e atualizações de Lydris pelas vozes combinadas de Will e de Turner.

Nem acredito que meu irmão é uma visita aqui em casa.

Fazia quase um ano desde que ele se mudou mas, como eu disse, o tempo se arrastou à princípio e então, a partir de agosto, ele voou. Apesar de eu haver sentido toda a falta que ele fazia, diariamente, em todos os dias que se arrastaram com melancolia, ainda assim é como se minha ficha não houvesse caído.

Como eu disse, o ano passado ainda estava entalado na minha garganta, sem chances de eu processar esse ano em poucos dias até que estivéssemos no ano que vem. E ele estava logo ali, como um monstro em uma esquina, esperando seu momento para assustar, e eu não poderia estar mais despreparado.

*

A formatura aconteceu no próximo final de semana.

Como se minha mente quisesse retrucar comigo sobre os últimos meses haverem passado em um piscar de olhos, a última semana se arrastou — mas de um jeito bom.

Com a nossa visita antecipada do natal e virada de ano, eu não tive muito tempo sozinho, atormentado pelos meus pensamentos, os dias foram longos e cheios de afazeres. Will queria fazer de tudo: jogar jogos de baralho e maratonar séries; visitar todos os seus amigos e me arrastar junto quando eu não conseguia fugir com os meus; acampar e fazer piquenique por aí com a família inteira; visitar a cidade inteira feito um turista, como se não a conhecesse da vida toda; fazer uma cama coletiva no meio da sala como cinema, apenas para dormir abraçado em mim ao me sufocar com seu grude. Will drenou toda e qualquer bateria social que eu tivesse e quando eu tinha alguma folga dele, tudo o que eu podia fazer era desenhar e dormir, eu fiquei neste nível de cansaço mental.

Quanto às minhas duas provas de recuperação, eu passei nas duas, e todos os meus amigos também, ficamos sabendo até sexta, o que era meio em cima da hora, considerando que a formatura veio em um sábado.

E lá vinha mais um motivo de tormento mental.

Nós conversamos sobre isto um ano atrás, sobre o momento em que Korn e Bex iriam se formar neste ano, e sobre o momento que chegaria ano que vem, com a formatura do restante de nós. E a gente já havia chegado neste ponto. Como pode? Por quê?

Novamente, os pensamentos me perturbavam.

E não era apenas isto, mas a a questão que me torturou e me deixou acordado noites adentro também foi: Alex viria?

Não é como se eu não pudesse conversar com os meus amigos a respeito, porque todos conversamos, mas a questão é que ninguém sabia a resposta. Alex foi convidado, obviamente, assim como a Mary Jane, mas a única resposta que veio dele é que ele faria o possível para conseguir vir, embora não soubesse de certeza.

A resposta certa veio apenas depois: não.

No entanto, dias já haviam se passado em que eu me revirava na cama pensando o que aconteceria se eu o visse na minha frente outra vez, um ano depois, em outra formatura. Eu me perguntei como ele agiria, se ele fingiria que não me conhece — como pediu que eu fingisse — ou se ele agiria como sempre agiu. Eu ponderei como eu reagiria, tendo-o diante de mim, em carne e osso e alma, se eu conseguiria olhá-lo na profundidade negra de seus olhos ou se eu me acovardaria antes mesmo de tentar.

O fim do meu tormento chegou quando Bex me contou, a mim antes de todos, logo que soube: ele não viria. Bex esperou que estivéssemos sozinhos para me contar que Alex havia conseguido ser liberado do serviço por um final de semana, que León havia feito essa mão por ele, mas que ele não tinha o orçamento de uma viagem de ida e volta, muito menos grana para ficar por dois dias. Korn havia sido o que liberou Alex, Bex contou, porque ainda que a gente fizesse uma vaquinha para trazê-lo, o casal percebeu que por trás de toda a boa vontade do Alex de vir à todo custo, dois dias sem trabalhar em pleno dezembro iria custar no bolso dele independentemente. E com os finais de semana sendo os dias mais movimentados do bar — ainda mais em dezembro -, que geravam mais engajamento para ele nas redes sociais, os dois não tiveram coragem de fazê-lo vir e garantiram, de todo o coração, que não ficariam chateados.

Alex relutou em aceitar, segundo Bex, mas não teve escolha.

Eu não soube dizer se aquilo me deixou aliviado ou atormentado, definitivamente um dos dois. E eu também não tive coragem de perguntar a Bex o porquê de me contar sobre isso à sós, em um semi-tom sedativo, com uma mão segurando a minha. Mas acho que ambos sabíamos a resposta.

— Eu vou sentir sua falta — falei, sincero, quando abracei Bex ao parabenizar pela formatura. — Você não tem ideia.

— Para com isso, menino! — reclamou, dando um tapa carinhoso no meu ombro antes de se afastar. — Eu não vou a lugar algum, eita, que bad! Vocês tão querendo se livrar de mim? — perguntou, apertando minha bochecha antes que eu afastasse sua mão, para mim e para Mason, Grace e Ian ao meu lado. — Durmam que passa!

Bex usava um terninho estilo smoking ajustado ao corpo, uma cinta na curvatura da cintura apenas porque podia, preto e branco. Os cabelos escuros e longos, sempre longos, estavam erguidos em um familiar rabo de cavalo, desta vez, trançados até as pontas. A sombra em seus olhos castanhos era azul brilhante, cheia de glitter, contrastando com a pele escura, e os lábios que se curvavam em um sorriso estavam delineados em uma tonalidade nude.

Korn também vestia um terno, embora tenha abandonado o casaco logo no início da festa, ficando só com a camisa branca social e a gravata azul, da cor dos acessórios e maquiagem de Bex.

A festa de formatura foi no jardim da casa dos pais do Korn, dispensando a costumeira festa com os demais formandos no ginásio do colégio — eu agradeci, principalmente para não ter que pisar em outra formatura lá tão cedo. Os convidados, em sua maioria, faziam parte da grande e tumultuosa família do Korn, embora todos parecessem muito receptivos. Era triste que a única convidada de Bex fosse sua avó, mas Bex não parecia infeliz com a sua pequena família centralizada em uma pessoa só, imaginei que era porque a pequena senhora valia por um batalhão inteiro.

— Bex — choramingou Grace, correndo para se enfiar na minha frente e se jogar em um abraço brusco, parecendo muito miúda nos braços de Bex —, não posso viver sem você naquele colégio! Eu vou enlouquecer com esse bando de patetas!

Bex gargalhou, fazendo carinho nos cabelos dela.

— Eu acho engraçado — começou Korn, aproximando-se ao nos analisar com os olhos estreitados em julgamento — que até agora ninguém se lamentou assim com a minha partida. Eu ainda não recebi um abraço desses!

Bex revirou os olhos, Grace ignorou-o, continuando a lamentar-se, e eu apenas ri. Ian aproximou-se dele, com um ar de importante e afetado antes de puxá-lo para um abraço de urso. Korn era alto, mais alto que Bex, mas Ian conseguia passar da altura dele, e isso tornou a cena um tanto cômica.

— Eu vou sentir sua falta, parceiro — disse, com um toque dramático, e Korn retribuiu da mesma forma.

Apesar da falsa encenação, no fundo, eu me perguntei se Ian não havia chorado secretamente no chuveiro. Os dois haviam se tornado uma unidade só durante o ano todo, Korn praticamente adotou Ian no lugar do Alex, e agora os dois eram inseparáveis. Bex comentou que às vezes tinha o namorado roubado por um gigante, com bolas de vôlei ou controles de videogame.

Dan aproximou-se e abraçou os dois por cima, com um ar ainda mais afetado, e Chris gargalhou ao tirar uma foto dos três que definitivamente iria para as redes sociais. Cristina, Mason e eu apenas nos entreolhamos, inafetados, pela cena toda.

Eu estava muito mais sentido com tudo do que eu deixaria transparecer, um pouquinho surtado da cabeça, inclusive, mas meu mantra começava a ser: isso é problema do meu eu de amanhã. Então eu apenas me deixei levar no presente, abraçando um pouco mais meus amigos — céus, meu irmão me contagiou? -, relembrando memórias da panelinha e rindo até a barriga doer para não chorar de saudade antecipada.

Em algum momento, tive que observar o casal, e me permiti fazer isto apesar de evitar o máximo que eu podia observar qualquer casal ultimamente.

Eles estavam dançando lento, apesar da música de fundo ser um pop bem agitado e não ter ninguém dançando no jardim, o barulho das conversas nas mesas improvisadas mais alto que o retumbado da música. Em um cantinho próximo a um arbusto, Korn puxou Bex para uma dança no meio de uma conversa que eles estavam tendo, e Bex aceitou.

Korn e Bex tinham maneirismos conjuntos muito parecidos com os da minha mãe e Theodore, ou até mesmo Mason e Cristina, e eu também muito similares aos do meu irmão e seu noivo, eu teria que dizer. Quando um se movia para um lado, o outro se movia para o outro; quando um se afastava um passo, o outro se aproximava um passo; quando um pensava, o outro dizia como se tivesse lendo sua mente. Eu sempre me perguntei como é que isso era possível, porque apesar de já haver me apaixonado, eu nunca cheguei a namorar. E ainda que minhas duas semanas no paraíso com o Alex pudessem até contar como namoro em um universo paralelo, ainda assim eram apenas duas semanas.

Eu tive gostinho suficiente do amor para sentir aversão a ele.

Eu me refiro apenas ao amor romântico, porque obviamente que eu não desgostava da sensação de amar e me sentir amado dentro da minha família e dentro do meu grupo de amigos. Mas mesmo vendo com os meus próprios olhos a maneira como Korn e Bex pareciam fazer isto funcionar, bem como o Will e o Turner, casal cujo o qual eu seria obrigado a observar por dias agora, minha mãe e Theodore pareciam fazer parecer que aquilo estava funcionando — apesar de eu ainda esperar um desastre iminente -, eu ainda não conseguia acreditar totalmente. Havia algo de tão vulnerável, exposto e cru na relação de todos eles que faziam parecer que era algo bom, porque agora estava funcionando, mas tudo o que eu conseguia pensar era que no momento em que tudo explodisse em suas caras, e tudo explodiria, o amor seria a dor mais horrenda que eles poderiam imaginar.

Desviei o olhar, piscando algumas vezes, antes de tentar virar o copo, apenas para me dar por conta que já estava vazio. Ao menos uma coisa podia se tirar da formatura não ter sido organizada pelo colégio e professores: aquilo era álcool mesmo. A família do Korn parecia realmente gostar de álcool, a julgar pela própria chopeira que eles já tinham quase esvaziado em menos de três horas de comemoração.

Na mesa destinada aos colegas, estávamos nós todos.

Mason, Cristina, Grace, Dan, MJ e Ian, com algumas cadeiras vazias na mesa estendida — acredito que fossem duas mesas juntos debaixo da toalha. Eles compraram refris e salgadinhos de festa para esta, além da chopeira que era o de mais importante para os adultos, aparentemente. Mason também parecia entretido, tendo bebido o suficiente para os olhos ficarem pequenos e ele remexia no copo com tédio; ao seu lado, Cristina e Grace estavam no meio de uma conversa cochichada que parecia pessoal pela maneira séria como olhavam uma para a outra; Dan estava no meio de uma conversa com MJ enquanto Ian encarava Grace com os olhos brilhantes de álcool.

Revirei os olhos para o último, suspirando em seguida, antes de desviar os olhos para o casal que seguia dançando.

Apesar da minha aversão ao amor, eu tinha muita curiosidade de saber como era namorar com alguém, algo sólido, algo inquestionável, algo exposto ao mundo. Haveriam confidencialidades no meio da madrugada, conversas profundas sobre assuntos profundos, mas também haveria a exposição de dançar lento em meio a uma música pop na frente da família e dos amigos como se estivessem a sós no cenário. Haveria o andar de mãos dadas na rua, beijos e demonstrações de afeto públicos, convívio diários de trocas conjuntas de comunicação, almoço em família como um casal.

Eu nunca havia pensado muito sobre isto quando Alex estava aqui, sobre o que viria depois que eu pudesse ficar com ele, porque tudo o que eu queria o tempo todo era poder ficar com ele. Em meio a isso tudo, o que eu também queria era poder ficar bem com ele, porque sempre havia algum tipo de briga, e se não havia briga, havia uma estranheza no ar com tantos mal entendidos. Pensar em um futuro que pudéssemos andar de mãos dadas nunca fez parte da minha rotina de tormento diário, era algo mais focado: querer pegar a mão dele na minha, mas sem as implicações externas, apenas querer sentir pele na pele, querer segurá-lo de todas as maneiras que eu pudesse.

E agora que eu tinha tempo demais para pensar sobre o que diabos eu faço com a minha vida, às vezes, minha cabeça se voltava à coisas bestas e adolescentes como esta: como seria poder namorar com alguém.

Um pigarreio fez-se ouvir ao meu lado e eu pisquei, o copo cheio estendido à minha frente recém focado na minha visão, que anteriormente jazia no casal apaixonado. Por instinto, levei uma mão para pegá-lo antes mesmo de erguer os olhos para o Chris.

— Eu vi que seu copo tava vazio — comentou ele, com um sorriso de canto, antes de se sentar ao meu lado novamente com outro copo nas mãos. — Se não quiser mais, eu bebo por você — acrescentou, rapidamente, quando tudo o que eu fiz foi piscar —, tenho tolerância alta.

Acabei sorrindo para o seu sorriso, o que o fez sorrir mais ainda, e eu assenti, levando o copo à boca. — Valeu.

Quando desviei o olhar do Chris para o Ian, que estava ao seu lado, ele já não mais encarava Grace, ele encarava a mim. Arqueei as sobrancelhas, mas ele desviou o olhar para o Chris por meio segundo antes de voltar a olhar para frente, próximo de onde Grace estava, sem nada dizer. Suspirei, vendo que Chris começava a me contar uma história sobre a sua própria família e o gosto parecido da família de Korn sobre o álcool, e sorri para ele.

Depois disto, o final da festa foi um borrão.

Eu não cheguei a ficar bêbado nem nada assim, mas eu estava no brilho o suficiente para que o mundo ficasse leve e me levasse pelo tempo rapidamente. E, a julgar pela maneira como todos tinham olhos brilhantes, supus que todos estavam no brilho. Exceto por Ian, ele estava bêbado mesmo.

Assim que todos foram para suas respectivas casas, alguns de nós pegamos táxi juntos para aproveitar a viagem, outros pegaram carona, então eu fui no mesmo com Chris e Dan. E, assim que eu tropecei na calçada antes de entrar e Chris, de dentro do carro, segurou firmemente minha mão ao guiar-me para entrar ao seu lado, meus pensamentos voltaram-se uma vez mais à curiosidade crescente envolta em namoros.

Eu não estava inteiramente convencido de que minha mente deveria viajar para tais lugares.

*

Em algum momento da próxima semana, quando o sol não estava tão quente e havia um vento com gosto de pré-chuva, nós estávamos sentados na grama dos fundos de casa enquanto conversávamos. Bom, na verdade, eu não estava exatamente conversando, mas participando ocasionalmente na conversa dos demais.

Will relembrava de quando conheceu Kaori, nossa vizinha japonesa, na época em que eles se mudaram para a casa ao lado. Eu ouvi, bastante interessado, porque nenhum de nós parecia ter ouvido a história antes, até mesmo K estava tendo dificuldade, dizendo que lembrava apenas vagamente. Algo a respeito dele estar chorando em um dia ruim — ele não precisou contar, porque todos os presentes entendíamos o que um dia ruim na nossa infância significava — e sobre uma pequenina japonesa pular o muro com um pote de sorvete de menta e duas colheres. Ele apontou para a árvore na qual eu me apoiava, dizendo que estava bem ali quando ela apareceu.

Era raro que todos nós estivéssemos juntos, mesmo antes do Will ir embora, porque como os Ishikawa eram praticamente parte da família, a gente ia e vinha de lá e eles vinham e iam daqui. Então quase nunca havia uma reunião com todos presentes, sempre faltava um ou outro, e no momento, não faltava nenhum — inclusive, tanto Turner quanto Ryan, o namorado de Kaori, estavam presentes naquele domingo.

Os mais velhos, minha mãe e Theodore, e tia Kira e o tio Shiori, estavam sentados em cadeiras práticas na sombra das árvores. Os demais estávamos esparramados na grama mesmo — no meu caso, eu estava sentado em meio a duas protuberâncias de raízes, com as costas apoiadas na árvore e um montinho de cascas de tangerina ao meu lado, enfiando gomo por gomo na boca. Will estava sentado praticamente entre as pernas da tia Kira enquanto ela fazia carinho em seus cabelos, olhando para Kaori que estava à minha direita, apoiada em Ryan, que tinha as longas pernas esparramadas em frente. Turner estava sentado de uma maneira parecida comigo, em uma árvore mais próxima da mamãe.

Magic estava deitado entre mim e o Turner, a bunda na minha direção e a cabeça na direção do meu cunhado. Ele estava de barriga para baixo, os olhos esticados para cima, para cima da árvore na qual Turner se recostava, onde jazia um arisco Smaug, que lhe julgava lá do alto. Turner o trouxe nos braços, muito alto para que Magic alcançasse, e sentou com ele em seu colo quando viemos para fora, mas assim que Magic tentou fazer amizade novamente, Smaug deu um pulo, subiu arranhando o braço, o peito e o rosto do Turner — seu braço tinha um arranhão sangrento, a propósito — e escalou a árvore em desespero até que estivesse seguro do cachorro babão lá em cima.

Nós apenas rimos, e eu fiz carinho nas orelhas de Magic conforme ele latia um pouco e chorava outro pouco, antes de desistir e deitar, esperando pela descida do gato.

— E então ela disse algo tipo: “a melhor cura pra tristeza é um bom sorvete e uma boa companhia” — relembrou, alegre e divertido, mas os olhos verdes brilhavam com carinho para a melhor amiga.

Kaori escondeu o rosto, rindo junto dos demais, enquanto os mães faziam um som conjunto de “awn” com carinho, e Ryan apertava a bochecha da namorada em resposta.

— Eu sei, eu sei — concordava ela, revirando os olhos, ao dirigir-se ao Will —, eu sou um amor mesmo, a melhor de todas. Cara, eu não lembro disso — acrescentou depois, abismada.

— Como assim?! — exclamou meu irmão, dramático.

— Tá, não, eu lembro que eu pulei o muro pra falar com você — contou, rindo ao gesticular —, mas puts, eu não lembrava do que eu tinha falado nem nada assim. Eu lembro do sorvete — apontou, mais alto, quando Will começou a gritar coisas indignadas, então riu ao olhar para os pais —, porque se não me engano, a gente tinha visto você chorando da janela e eles foram cúmplices — apontou, para os pais, que riram —, dizendo que eu devia oferecer sorvete pra você e fazer amizade.

Will soltou um arquejo. — Ah, então quer dizer que você nem queria vir falar comigo, foi o tio e a tia que te convenceram?! — perguntou, horrorizado, ao olhar dela para os pais enquanto todos riam. — Nossa amizade foi criada em cima de uma mentira?!

— Cala a boca, Will! — reclamou ela, jogando uma semente de tangerina nele. — Você sabe como eu sou, óbvio que eu queria fazer amizade, eu não tinha amigos! — defendeu, gritando acima dos gritos dele, aos risos. — Mas foram eles que me deram luz verde.

O tio Shiori teve que interferir rapidamente ao erguer uma mão. — Nós nunca te estimulamos a invadir propriedade privada, Kaori, era pra você convidá-lo ali do muro pra ir lá em casa tomar sorvete — apontou, e a tia Kira concordou.

Kaori bufou, mas riu. — Tá, mas ele tava chorando — defendeu-se —, óbvio que ele não ia vir! Então eu tive que tomar medidas drásticas — apontou, convencida. Depois de uma pausa das vozes que sobressaíam, ela acrescentou: — Mas é, eu nem lembro do que a gente conversou, tudo o que eu lembrava era que depois disso eu passei a te encher o saco todo dia!

Em seguida, iniciou-se uma conversa a respeito de como foram feitas as amizades entre nossas famílias, sempre deixando quieto, debaixo dos panos, todo o contexto desta casa. Mamãe contou vagamente sobre como a tia Kira se aproximou de uma maneira parecida com a da Kaori e o Will, dela: para ajudá-la, perguntando se estava bem, se precisava de algo. Ela contou com carinho todas as maneiras — vagas, sempre vagas — com as quais eles salvaram a vida dela com uma amizade tão bonita e duradoura, que eles eram nossa segunda família.

— Turner, você precisa contar sobre como conheceu o Jay! — pulou Will, subitamente, e Turner assentiu com um sorriso caridoso. Eu me perguntei se ele também havia notado, já que se conhecem tão bem, que o Will pegou a primeira oportunidade para sair de qualquer menção à nossa vida antiga e todas as maneiras com as quais precisávamos de ajuda. Eu sei que eu percebi, porque eu sentia a mesma urgência.

— Não tá nem perto de ser tão adorável quanto você e a K — avisou ele, apoiando-se melhor na árvore. — Jay sentou comigo no refeitório uma vez, só uma vez, e foi isso o que bastou. Óbvio que ele não calava a boca — contou, e eu acabei rindo, porque eu gostava do Jay —, ele meio que forçou a amizade guela abaixo e eu tive que deixar. Eu disse a ele que meu nome é Richard Turner e a partir daí eu virei só o “Rich”, assim, com a intimidade de uma vida inteira.

Acabei rindo, enquanto minha mãe abria um parêntesis para perguntar como estava o Jay e se ele não queria vir nos visitar, que fazia tempo que não o víamos. E então, entre uma tangerina e outra, eu percebi que todos os olhares voltaram-se para mim.

— Hum? — perguntei, desconfiado, tentando processar o que havia sido dito.

— A gente quer saber a sua história, Caleb — logo disse o Will, arqueando uma das sobrancelhas. — Você tem um batalhão de amigos — apontou, invejoso —, eu nem sabia que isso era possível no colégio. Nessa época eu só tinha a K, o Gabe e o Cenoura — comentou, e todos concordaram, inclusive os pais, porque parecia mesmo raro a minha quantidade exacerbada de amigos. — Como você virou amigo do Mason ou do Ian, que foram os primeiros?

Arqueei as sobrancelhas, subitamente desconfortável com todos os olhos em mim. Pisquei, pensando sobre isso, se minha história aleatória de amizade com eles seria entretenimento o suficiente para eles ouvirem, mas pensei que não.

— Acho que foi o Chris — apontou minha mãe, relembrando, antes de desviar o olhar do Will para mim —, não foi, Caleb?

Um sorriso um tanto presumido demais se formou em seu rosto, e eu franzi um pouco do cenho para ela, antes de desviar o olhar para o Will, que tinha um vinco entre as sobrancelhas, como se tentasse se lembrar de quem ela estava falando mas não conseguisse. Tínhamos isso em comum, eu suponho.

— Hum, sim, mas eu não lembro direito — contei, porque era verdade, não saberia dizer como é que a gente virou amigos naquela época. Era um borrão na minha memória. — Não sei como começou.

Remexi-me no lugar, vendo que o ambiente ficou subitamente quieto, meros segundos de expressão perdida dos demais antes que a atenção do meu irmão se desviasse, dando de ombros. — Tá, mas e os outros?

Para não deixá-los murchos sobre isso, eu acabei assentindo.

— Mason fez dupla comigo em algum trabalho, porque a gente sentava próximos um do outro e ele me fez um monte de perguntas invasivas — contei, um pouco aliviado que isso trouxe sorriso em alguns rostos, então desviei o olhar para baixo, puxando um pedaço de grama. — Eu tinha ficado um ano, eu acho, sem nenhum amigo próximo, e o Maze também era meio solitário, então a gente meio que se aproximou. Ele era nerd também, então... — dei de ombros — funcionou.

— Era? — provocou Will, com uma sobrancelha arqueada, antes de gargalhar. Estalei a língua, mas acabei sorrindo. — E o Ian? — perguntou, mais quietamente.

Eu já havia percebido que meu irmão fazia isto muitas vezes.

Essa coisa de, quando percebe que eu estou muito quieto, tenta me chamar para a conversa também, me trazer para fazer parte do assunto, me manter como parte de um todo ao invés, eu acho, de ficar à parte do todo. E também era fácil de perceber que havia uma genuína curiosidade nas perguntas que ele fazia, como se realmente quisesse saber as coisas que eu tinha para contar ou comentar, mas que aquilo acontecia, principalmente, para me manter falando — mesmo que eu contasse algo que ele já soubesse.

— Ian entrou pro colégio só no outro ano e foi o Mason, na verdade, que meio que recrutou ele pra nós — contei, nas palavras que Alex usaria. — Com o Ian foi diferente porque ele realmente parecia perdido e miserável sozinho, enquanto eu e o Maze — comentei, dando de ombros —, a gente já tava acostumado. — Pigarreei, vendo que meu último comentário fez todos caírem no silêncio novamente, alguns obviamente desconcertados, então acrescentei um último comnetário para aliviar a tensão: — Mas, hã, aquele foi o primeiro dia a gente fez uma dupla de três.

Fiquei aliviado, outra vez, quando novamente isto trouxe um sorriso aos rostos deles, e me deixei relaxar, finalmente, quando o assunto foi desviado para algo além de mim.

Quando decidimos finalmente entrar, umas duas horas haviam se passado e o sol já estava se pondo, a clareira dos fundos começando a escurecer e esfriar sem o calor do sol. Nós entramos aos poucos, uns ficaram para trás, os outros circularam um pouco, Kaori e Ryan sumiram quando ela foi levar ele até a parada de ônibus e não retornou. Depois que, de alguma forma, a maioria de nós estávamos já nos acomodando lá dentro, a televisão ligada e uma chaleira no fogão, mamãe me chamou.

— Caleb, traz as coisas lá de fora pra mãe.

Soltei um suspiro cansado e levantei do sofá. — Tá bom.

Quando me dirigi para o pátio traseiro, percebi que os únicos que ficaram foi o meu irmão e o meu cunhado. Pelo que entendi, a julgar pelos esquemas que eles estavam conjurando, eles bolavam um plano para tirar o pequeno arisco Smaug de cima da árvore. A ideia é que um deles o espantasse de um lado para que ele saísse pelo outro, direto aos braços arranhados de seu outro tutor mas, pelo visto, não iria funcionar muito bem.

Eu achei justo não comentar que a ideia daria errado, limitei-me a fazer o que eu tinha que fazer. Tive que fazer mais de uma viagem, para não tirá-los de sua confabulação ao pedir ajuda com o carregamento das coisas, buscando tudo que eu tinha que buscar. Primeiro peguei uma cadeira em cada braço, ouvindo os esquemas que dariam muito errado, e entrei para dentro de casa ao deixá-los para trás.

Mamãe me manteve uns cinco minutos lá dentro porque pediu para eu encontrar um aplicativo em seu celular que ela mesma havia deletado e, quando eu fui buscar o resto, Smaug passou correndo por mim, os pêlos eriçados lá em cima, antes de voar para cima da geladeira da cozinha. Lá fora, os noivos estavam no meio de uma conversa aleatória, os dois apoiados na mesma árvore, e eu ponderei se sequer perceberam que o gato já havia entrado.

— ... porque você não contou sobre seus amigos quase aposentados e as tias da limpeza! — era o que escapava da boca do meu irmão, o tom travesso, como uma provocação. — Essa era uma história boa de contar!

Turner meio bufou, meio choramingou, meio riu, não sei ao certo, quando encostou a testa na casca da árvore e pediu: — Will, pelo amor de deus, deixa estar.

Meu irmão estalou a língua, o sorriso arteiro ainda modulando seu rosto quando continuou, fazendo-se de desentendido: — Mas eu acho tão bonitinho que seu único amigo que não tenha passado da meia idade seja o Jay!

— Você diz isso como se fosse algo ruim! — exclamou meu cunhado, em sua própria defesa, com indignação, o que fez Will cair na risada.

Sumi porta adentro outra vez com as outras duas cadeiras, levando meu tempo para dizer à minha mãe que não, não havia baixado o aplicativo ainda, por isto que não estava abrindo. Na volta, ouvi o que parecia a continuação da mesma conversa na voz do meu irmão:

— ... que vocês tem mais em comum do que você imagina — soltou no ar, faltando estar checando as unhas, dissimulado.

— O que isso quer dizer? — Will soltou um riso engasgado, não tendo conseguido segurar nem por um segundo, quase um ronco. — Will, olha aqui pra mim, que diabos isso quer dizer?!

Juntei os pratos de vidro com biscoitos — e com formigas — que estavam em cima de dois banquinhos e os levei para dentro, ignorando as risadas de Will e a insistência muito ofendida do Turner para que ele finalizasse aquele pensamento em voz alta. Dentro de casa, minha mãe sacudiu o celular para mim e eu a informei, pacientemente, que aquilo significava que não havia espaço suficiente para outro aplicativo. Mamãe bufou, exigindo saber o que havíamos feito no dia dezoito de outubro do ano retrasado que agora o celular estava sempre sem espaço suficiente.

Quando retornei para o jardim, eles estavam cochichando coisas que eu não iria querer ouvir, supus, pelo sorriso matreiro e divertido dos dois lados.

— Ah, é? — perguntou Turner, provocativamente, antes que Will se empertigasse e desse um passo para trás. — Vem aqui, anjo, vem cá. Você vai ver só!

Will tentou escapar depois de atirar-lhe a língua, correndo para longe, mas ele mal deu três passos antes que Turner o agarrasse pela cintura e o puxasse para si. Meu irmão gargalhou, ainda tentando escapar, o corpo meio curvado para frente em um ângulo de noventa graus enquanto Turner o provocava ainda mais com palavras de revanche, e eu acabei desviando o olhar.

Suspirei, juntando os dois banquinhos, agradecendo a todo o universo que fosse minha última ida até ali, porque da próxima, eu poderia sair traumatizado.

— Sai, Turner, sai! — esperneou-se ele, e eu tive que olhar novamente para trás quando ouvi o barulho: Turner basicamente jogou o Will no chão com um som abafado e ele recomeçou a gargalhar, tentando escapar de algo que eu não queria ver mas supus que fosse a língua dele. — Que nojo! Socorro! Mãe, socorro!

Quando entrei para dentro de casa, minha mãe ignorou os gritos do Will, irritadiça, reclamando sobre nós com a tia Kira — a única além de mim e dos pombinhos lá fora que ainda estava aqui, o tio Shiori e o Theodore não estavam à vista. Mamãe resmungava que eu e o Will sabíamos tudo sobre tecnologia e nunca a ajudávamos com seu celular. A tia Kira concordou, dizendo que com a Kaori era a mesma coisa, que era impressionante que quando era para ajudá-la com essas tecnologias, ela tinha má vontade.

Revirei os olhos, finalmente retornando ao sofá.

Magic estava aos meus pés, havendo cansado de correr atrás de Smaug o dia inteiro, os olhinhos pesados que mal se abriam na minha ida e volta repetitiva, apenas havia levantado a cabeça levemente quando viu o gato passar voando mas voltou a deitar, exausto, em desistência.

Eu não o julgava, eu o entendia, eu estava exausto também.

Havia sido um dia peculiarmente caseiro, familiar e morno. Apesar de todo o cansaço — principalmente, o cansaço emocional -, fazia muito tempo que eu não me sentia tão pleno, tão em casa, quanto hoje. Havia algo naquilo que aquecia meu peito e embolava um nódulo em minha garganta ao mesmo tempo, mas em um geral, era uma sensação boa e a consequência — o cansaço — era um cansaço bom.

Minha única reclamação, que nada tinha a ver com eles, seria que eu passei o dia inteiro cercado de casais, então eu não poderia ficar mais amargurado sobre isso se eu tentasse.

Relanceei a porta que levava aos fundos, à direita, podendo ter visão das pernas entrelaçadas do casal apaixonado, ainda atirados na grama, agora sem nenhum deles se debater ou gritar por ajuda. Estava escuro o suficiente para que ninguém os visse à primeira vista, mas como eu sabia que estavam no chão, consegui enxergar os dois pares de pernas. Eles estavam quietos, mas eu ainda podia ouvir risinhos do meu irmão, e quase nada da voz do Turner.

Eles provavelmente estavam se beijando — ou conversando baixinho, um na cara do outro, como fazem de vez em quando, de um jeito que faz parecer que eles nem sequer percebem. Com toda a socialização e os programas de família da última semana, era de se supôr que eles não tiveram muito tempo à sós, então eu não os culpava por aproveitarem os minutos que tinham. Conhecendo Will o suficiente, eu diria que eles não levariam mais de quinze minutos para entrar e voltar a invadir meu espaço pessoal com conversas curiosas.

Retornei os olhos para a televisão.

Não é que eu estivesse com inveja — bom, talvez um pouco. Era mais do que aquela sensação de amargura que faz você torce o nariz para a felicidade alheia, era bem mais do que isto. Era a sensação de simples incompreensão. Eu não entendia como é que eles podiam ser tão felizes e tão despreocupados, como eles poderiam ficar tão à vontade um com o outro, como se a relação que eles tem fosse intocável pelo resto do mundo. Não era intocável, afinal, e a qualquer momento tudo poderia acabar, de infinitas maneiras diferentes e todas as possibilidades eram horrendas. Essa felicidade não iria durar para sempre, era passageira — ainda que dessem sorte de durar alguns anos -, então como é que eles podiam viver como se fosse eterna?

Era incompreensível.

Eu me sentia conflitado com isto, porque apesar de não compreender, eu não tinha certeza se eu não queria compreender. A amargura vinha de um lugar de querer muito poder ser tão despreocupadamente feliz assim ao mesmo tempo de não querer, sob hipótese alguma, ser tão despreocupadamente feliz assim. Eu queria entender, para poder me sentir leve da maneira como eles se sentiam, para poder finalmente relaxar um pouco na minha própria pele, para entender o que é ser feliz de verdade. E, ainda assim, eu não queria. Eu tinha aversão à ideia de deixar-me cair nessa bolha de ignorância, baixar a guarda e não ter qualquer preparo para quando tudo explodisse na minha cara e me fizesse desejar haver explodido junto apenas para não ter que sentir os destroços deixados para trás.

Não é que eu apenas invejasse a felicidade deles, eu temia por ela — porque não iria durar, a felicidade é tão fugaz quanto o tempo, e eu teria que juntar os destroços deles quando acabasse.

No que diz respeito a mim, no entanto, eu decidi jamais deixar destroços para alguém limpar.

Notas finais
Deste ano, não passa! Não pode passar, a gente vai finalizar MOS! Declarei! Joguei pro universo! Hahahhahahaha. E não, eu não tô com pressa de chegar ao fim, eu odeio finais, mas eu tô com pressa de dar um fim para o Caleb e para o Alex (e os demais), porque eles merecem! E eu sei que faltam bastantinhos capítulos até, pela minha conta, uns 20 capítulos mais ou menos (+ alguns extras), mas como eu tô trabalhando nisto com afinco, eu meio que tô vendo todas as pontas se fecharem. Ai, gente, tá dando um aperto no peito! Eu não escrevi tudo, mas tenho esboço de todos os capítulos finais já, TODOS, então eu tô vendo o fim materializado como se já estivesse escrito. Tô surtando um pouquinho com isto e precisava compartilhar com vocês pra amenizar minha angústia e meu amor desmedido ahahahah. Eu amo tanto esses personagens, como se fossem meus filhos - e eu nem quero ter filhos, então isso é dizer muito. Bom, vamo que vamo, tem um trecho de jornada ainda pela frente! Amem, odeiem, mas me digam o que acharam!