Made of Stone

67 EXTRA - Sobre amizades reais


Notas iniciais
Panditores, se vocês não me amavam antes, deveriam agora com o meu combo de capítulos. Serão 3, no total, contando com o extra <3 Sem querer desanimar os que esperam rever a panelinha antiga, mas os próximos extras serão referidos à nossa panelinha atual. A gente tá na finaleira da MOS, praticamente, e eu acho que algumas histórias deles merecem um foco maior do que simplesmente sob a perspectiva do Caleb. A gente acompanha alguns destes personagens desde o início, outros vieram um pouco depois, mas eu tenho um carinho gigantesco por todos eles. OBS.: mudei o nome da irmã da Cristina para Catalina, porque a intenção era mesmo dois nomes comuns e próximos na língua espanhola. Como sempre acontece com os extras, eles não são exatamente necessários para a leitura dos demais capítulos, mas eles os complementam, então pode ser que falte algo pra vocês caso pulem. Enfim, os próximos dois capítulos ficaram prontos antes desse e eu fiquei muito ansiosa pra publicá-los mas não podia porque tinha que finalizar este aqui kkkkk. Eu sou meio cricri com algumas coisas, então eu não quis mudar a ordem de capítulos mesmo que este fosse apenas um extra, eu tinha que publicar antes KKKKKKKKKKK. Ah, já falei que eu tô de férias? Aproveitem e boa leitura! <3

“A amizade não precisa de palavras — é a solitude libertada da angústia da solidão.”

(Dag Hammarskjöld)


Amizade não se constrói em um dia.

É um processo contínuo que provém do cuidado, da paciência e do amor; como cuidar de uma planta desde brotinho e acompanhá-la ao longo de seu crescimento. Na verdade, é bem mais simples do que parece para aqueles que não conseguem manter suas plantas vivas ao esquecer de regá-las ou regá-las excessivamente. Regar uma amizade vem naturalmente — você não esquece de ser um ombro amigo para quem ama, de explorar interesses em comum, de rir até a barriga doer por besteira, de celebrar suas conquistas e lamentar suas derrotas lado a lado, de perdoar quando cometem erros.

Amizade real é assim mesmo — você nunca esquece de regá-las.

*

Grace estava atirada na cama de Cristina.

O quarto da ruiva era uma mistura das cores preto e branco, com algum rosa intrometido nas cortinas, no tapete e em alguns detalhes das suas estantes. O demais era bastante neutro e escuro, mas as paredes brancas e as janelas bem abertas impediam que o quarto fosse uma caverna total.

Cristina estava sentada na janela baixa que dava direto em telhas laranjas, uma vista para a frente da casa. Grace havia sentado na cadeira ao lado da mesma janela quando estava fumando com ela, mas já estando chapada o suficiente, havia se jogado na cama enquanto conversavam. Nas primeiras vezes, Grace ficou apreensiva de fumar ali, tão à vista para quem entrasse na casa e também para os vizinhos, mas logo entendeu que não havia ninguém prestando atenção — o que era, de fato, o problema e o motivo da Cris ser assim, para começo de conversa.

Grace ouviu a van e confirmou quando observou Cristina encarar a frente da casa, abaixando instintivamente a mão que segurava o baseado. Era a van que levava e trazia Catalina do colégio, visto que os pais estavam sempre trabalhando.

Cristina apagou o fumo, com um suspiro, ao lamber os lábios secos. Em seguida, ela escondeu o crime em uma gaveta e levantou-se em um hábito tão costumeiro que Grace pensou ser dejà-vu. Seu racicínio estava meio lento, então ela apenas observou quando Cris juntou o purificador de ar em spray que ficava embaixo da cama e espirrou-o por todo o quarto de tal maneira que quase as sufocou ali dentro, mesmo com as janelas arregaçadas.

Não é que Grace não entendesse os motivos dela, porque ela fazia o mesmo em casa, ou melhor, ela era muito mais cuidadosa. Não fumava quando o pai estava em casa e usava mais do que purificadores de ar — e ainda insistia em tomar banho e escovar os dentes logo depois, apenas por precaução de que não estivesse cheirando a maconha. E isto apenas em casos extremos, porque evitava ao máximo fumar em casa, e os banhos aconteciam sempre que chegava depois de haver fumado em outro lugar, como na casa da Cristina, o lugar de sempre. Porém, quando se tratava da sua amiga, sabia que o único motivo de Cristina fazer este ritual após Catalina chegar era para não influenciar a irmã, mas ela não fazia um bom trabalho nisto.

Grace tinha quase certeza que a menina sabia.

— Não interessa que ela saiba que eu fumo — defendeu Cristina, quando Grace verbalizou o que pensava —, interessa que ela saiba que eu não quero que ela faça o mesmo.

Grace arqueou as sobrancelhas, mas soltou um som baixo pelo nariz, dando de ombros. — Se você diz.

Grace pensou que Catalina não iria se importar de se aventurar da mesma maneira que a irmã mais velha apenas porque Cristina não queria que ela fizesse isto. No entanto, com uma careta, Grace pensou que realmente conseguia ver Catalina deixando de fazer algo apenas porque Cristina não quer, e suspirou.

— Talvez esse seja o único lado positivo da família estranha de vocês — riu ela, pegando um dos travesseiros e abanando-o para espalhar os cheiros antagônicos.

Cristina revirou os olhos, sentando-se novamente na cadeira ao lado da janela, e assim que o fez, a porta foi aberta sem cerimônias.

O rosto de Catalina esgueirou-se na porta e, quando as viu ali, abriu-a um pouco mais. Ela olhou para as duas com estranhamento e com olhos de quem sabe mais do que deixa transparecer, que provou o ponto de Grace, principalmente quando a menina torceu levemente o nariz.

— Cheguei — anunciou, como sempre fazia. — O que vocês tão fazendo?

Cristina deu de ombros e respondeu sucintamente: — Nada. Como foi a escola?

Catalina deu de ombros, os olhos entediados parecidos com os da irmã, pareceu que a escola foi tão desinteressante que sequer mereceu uma resposta. — Tem comida? — perguntou, ao invés disso, uma mão posicionando-se na barriga.

Cristina soltou um bufo. — Tá separada pra você no microondas, e tem sobremesa no congelador — instruiu, naquele tom sério que usava apenas com a irmã. Catalina assentiu e estava prestes a sair quando ela acrescentou: — Cata! Se você tem tarefas pra fazer, faça antes de enfiar a cara nos gibis. Eu vou checar antes de dormir — avisou, em um tom autoritário.

Catalina revirou os olhos, mas assentiu com um “tá, tá” antes de fechar a porta com tanta cerimônia quanto a abriu. Grace observou tudo com diversão, alternando o olhar entre as duas irmãs.

Elas eram parecidas o suficiente para que fosse perfeitamente crível quando informado que são irmãs, ainda mais se estivessem lado a lado, mas também eram diferentes o bastante para que, vistas em um mesmo grupo de pessoas, não fosse tão óbvio assim. Cata sempre foi mais esguia e miúda que sua irmã, seus cabelos igualmente lisos eram de uma tonalidade de ruivo mais puxada para o loiro do que para o laranja como os da Cris. Os olhos dela eram castanhos ao invés de verdes e não era preciso muita análise para dizer que ela era bem mais expressiva que a irmã mais velha.

Grace sempre achou fascinante a interação entre irmãos, principalmente porque ela não os tinha — quando criança, era um desejo pessoal, e via que mesmo mais velha, ainda ponderava se a vida não teria sido melhor com eles. Haviam papéis em comum que os irmãos mais velhos e mais novos desempenhavam, repetidos em várias pessoas que ela conhecia. De alguma forma, no entanto, ela achava um pouco triste a maneira como Cristina e Catalina não tinham uma relação convencional de irmãs, Grace sentia que elas nunca eram irmãs, sempre mãe e filha. O que era ridículo, se parasse para pensar, quero dizer, esta é a Cristina — ela não sabe cuidar nem de si mesma, que dirá de outra pessoa.

— Você devia passar mais tempo com ela, sabe — comentou Grace, vendo os olhos verdes focarem nela. — Fazer alguma coisa normal, de irmãs — especificou —, ir no cinema, no parque de diversões, fazer uma noite do pijama, sei lá, dar um rolê na rua.

Cristina arqueou uma das sobrancelhas. — Ela tem doze anos.

Grace revirou os olhos.

— Eu não quis dizer esse tipo de rolê — explicou, bufando. — E você ouviu as outras sugestões?

— Ouvi e, como eu disse, ela tem doze anos — enfatizou, como se Grace fosse burra, o que gerou outra revirada de olhos. — Ela quer sair comigo tanto quanto quero sair com ela. Cata vive enfiada com o nariz nos livros e na tela do computador, ela tá nessa fase, nem com as amigas sai mais.

Grace piscou. — E você não acha que isso é preocupante? — perguntou, crítica. — A menina é pré-adolescente, ela deve estar cheia de inseguranças e medos e dúvidas, ainda mais com... — Impediu-se quando Cristina desviou o olhar. — Bom, você sabe. Você é a irmã dela, tem que focar menos em checar se ela tá alimentada e mais em checar se ela tá bem.

Cristina olhou-a friamente, de cima à baixo, e Grace arqueou uma das sobrancelhas em resposta. — Alguma vez na vida você pensou que não deveria se intrometer no que não te diz respeito?

Grace empinou o queixo. — Nenhuma — enfatizou, e Cris bufou. — Se não quer falar sobre isso, então vamos conversar sobre a faculdade. Você já pensou no que fazer?

— Eu já te disse que isto não importa agora — descartou, dando de ombros, como sempre.

Agora é a hora de importar — retrucou Grace, sem desistir. — Dentro de alguns meses, a gente vai estar no último ano do colégio.

— O que eu quero dizer é que não é uma decisão tão importante, a maior parte das pessoas que entra pra faculdade desiste um tempo depois ou troca de curso, então tanto faz — deu de ombros outra vez.

Grace inspirou fundo para juntar um pouco de paciência. — Mesmo que você mude de ideia — insistiu —, você devia ir pensando o que vai fazer com a sua vida. É sua vida, Cristina, são suas escolhas.

Cristina suspirou pesadamente antes de comentar: — Eu não tô chapada o suficiente pra essa conversa.

Grace bufou, atirando-se entre os travesseiros, encarando o teto.

— Eu acho que você devia fazer algo na área de jogos, sabe — continuou, ignorando o suspiro pesado que veio da cadeira —, porque é algo que você gosta. E hoje em dia dá pra ganhar dinheiro com isso também. Se você tá só matando tempo enquanto descobre o que fazer com sua vida, melhor estar fazendo algo que gosta e você é boa nisso também — divagou, enquanto Cristina ouvia silenciosamente. — Eu quero cursar Cinematografia, você sabe, e eu tava olhando as opções de faculdade à distância e tem umas bem boas. Quero dizer, não tem na HFU e não é como se eu quisesse ir pra longe logo que sair do colégio, não quero deixar meu pai sozinho.

Cristina olhou pela janela, percebendo que o céu já começava a ficar alaranjado com o pôr do sol. Apesar de Grace ser a pessoa mais irritante do mundo, no fundo, ela gostava de ouvir os conselhos sinceros dela.

— Você ainda tá insistindo em arranjar alguém pra ele? — perguntou, o julgamento vazando de sua voz, e Grace estalou a língua com uma careta.

— Eu só quero que ele tenha alguém, sabe, pra não ficar sozinho — resmungou, abraçando uma almofada.

Cristina lambeu os lábios secos outra vez. — Talvez ele esteja esperando você ir embora pra arranjar alguém — apontou, ignorando a encarada impaciente da amiga.

No entanto, depois de um tempo em silêncio, quando Grace falou, ela não referiu-se ao próprio pai: — É isso o que pensa? — Cristina olhou para ela, piscando lento, sem entender. — Que eles tão esperando você sair de casa pra se separarem?

Cristina desviou o olhar, dando de ombros, antes de dizer: — Talvez — murmurou, olhando para o horizonte alaranjado. — Melhor que estejam esperando por mim e não pela Cata também.

Grace ficou em silêncio, compreendendo o que ela quis dizer, entristecida com isso.

Os pais delas estavam há anos em brigas incessantes e diárias por tudo, um dia se davam bem e os outros seis da semana se davam mal, às vezes nem conversavam e por mais que as brigas não fossem muito escandalosas, na maior parte do tempo, eles apenas ficavam se alfinetando. Todos sabiam que eles deviam estar divorciados há anos, mas por algum motivo que ela não entendia, eles não pareciam querer. Nenhum dos dois eram um pai ruim, segundo ela, apesar de ter mais afinidade com o seu pai do que com a sua mãe, enquanto Cata era mais apegada à mãe, mas eles simplesmente não funcionavam juntos. Não havia amor, quase nenhum afeto entre os dois, e isso acabava pesando no ambiente, sem falar que nunca paravam em casa para não ter que passar tempo um com o outro.

Cristina evitava falar sobre isso, mas Grace já havia pegado todo o contexto aqui e ali, e conseguia compreendê-la. Os pais a deixavam infeliz, mas o que Cristina temia mesmo era que fizessem sua irmã mais nova infeliz e que ela se transformasse em uma versão alternativa da Cristina. Isso parecia aterrorizá-la mais do que qualquer coisa: que sua irmã seguisse seus passos.

— Você se cobra demais por coisa que não tá na sua alçada — comentou Grace, em um tom suave, ao observar o perfil da amiga.

Cristina olhou para ela com um sorriso maldoso. — E você me cobra de menos — reclamou, como sempre fazia, da maneira como Grace era empática demais com todo mundo.

Apesar de tudo — e de nunca confessar -, Grace era como uma lufada de vento em sua vida sufocada. Cristina gostava muito mais do conforto da amizade de Grace do que um dia seria capaz de admitir, e Grace não estaria ali quase todo dia se não se sentisse da mesma forma. Entre suas profundas diferenças, elas conseguiam confortar uma a outra à sua própria maneira — Grace gostava da sinceridade crua e direta da Cristina e Cristina gostava da gentileza intrometida da Grace. Elas se entendiam de uma maneira estranha, e apesar de viverem brigando, resultou que já não viviam uma sem a outra.

Grace revirou os olhos e, antes que pudesse acrescentar algo, seu celular tocou. Ela o puxou e encarou a tela por um tempo, piscando lentamente ao processar que aquele era seu pai, e então sentou-se em um pulo que pareceu lento aos seus olhos.

— É o meu pai, vou ter que ir embora — anunciou para a Cris, que assentiu distraidamente, antes de atender. — Oi, pai.

Hein, negona — chamou ele, do outro lado da linha, sem nem mesmo um “alô” —, fiz noite da pizza pra nós. Onde cê tá?

Grace acabou sorrindo. — Na Cris, mas tô indo agora mesmo — enfatizou, pensando na pizza. Em seguida, virou-se para a amiga. — Quer ir junto? Noite da pizza — especificou, para ela.

Cristina negou, sentia que estava cheia por uma vida inteira depois de haver repetido o almoço requentado, nem mesmo o efeito do baseado havia sido o suficiente para fazê-la querer comer com o tanto que se sentia estufada. Ainda assim, sentiu-se tentada a ir junto da Grace apenas para fugir mais um pouco da áurea estranha da sua casa. — Não, valeu, eu ando saindo muito — murmurou, pensando no conselho da Grace. — Vou ficar com a Cata hoje.

Grace sorriu petulantemente, sabendo que era por causa dela, mas a sobrancelha arqueada de Cristina ao encará-la a desafiava a verbalizar isto em voz alta sem levar um chute.

Opa, vamos ter companhia? — perguntou o pai, do outro lado da linha, o som de talheres soando. Grace quase podia vê-lo com o celular preso entre o ouvido e o ombro, um avental de cozinha, enquanto arrumava a mesa.

— Não, ela não vai poder ir — informou ao pai, que respondeu com um “ah, que pena”, antes de continuar: — Mas eu já tô indo. Tô varada de fome.

Cristina sorriu diabolicamente para o comentário, sabendo que aquilo não era fome de verdade, era larica. Grace revirou os olhos para ela enquanto o pai finalizava: — Então vem logo encher a pança, o pai tá esperando — respondeu ele, com um riso, antes de dizer: — Te amo, nega.

— Tá — riu —, também te amo, pai.

Grace levantou-se, molhando os lábios ressecados também, antes de buscar pela sua mochila. Eles tinham o costume de jantar juntos, seu pai e ela, mas não era uma obrigatoriedade, já que ultimamente ela costumava passar as noites na casa dos amigos, em especial na Cristina. Era algo que ela não podia recusar, no entanto, e não era apenas pela larica atual, era por outros dois motivos: a comida do seu pai era sempre perfeita e a conversa durante o jantar também. Se não tinham nada de novo para contar um ao outro, apenas fofocavam sobre a vida alheia ou sentavam para jantar no sofá da sala ao assistir alguma coisa juntos na televisão ultrapassada.

— Tem certeza que não quer ir junto? — perguntou para a ruiva, mas ela disse que sim. Grace, então, inclinou-se para estalar um beijo em sua bochecha antes que ela se desse por conta e afastou-se antes de receber o empurrão dela, rindo. — Só pensa no que eu te falei, tá? Fica bem — pediu, antes de sair do quarto, deixando-a na cadeira, acostumada demais para que houvesse a necessidade da formalização de que Cristina a acompanhasse até a saída.

Cristina suspirou diante do silêncio do quarto, alternando o olhar entre a tela do computador com as redes de jogos abertas, a pilha de quadrinhos em uma das estantes e os livros do colégio abertos na mesa de estudos à sua frente.

Era a última semana de aulas no colégio, embora mal houvesem aulas, a maior parte do tempo eram apenas provas, e Cristina já sabia que havia ficado em recuperação em algumas para a semana que vem. Ela precisava estudar se não quisesse repetir de ano. Ela viu o que isto fez com o Alex quando aconteceu com ele e não queria o mesmo para ela. Grace estava ajudando com seus estudos e fichas de memória, e Mason estava ajudando ao manter-se longe na época de provas, mas às vezes, Cris pensava que nem isto era o suficiente. E sentia falta do namorado, apesar das suas constantes mensagens, como ela se manteve longe dos jogos também — outro meio de comunicação com o Mason -, nem assim eles tinham contato.

Era o melhor, só por estas duas semanas, até que ela passasse nas provas.

Cristina não percebeu sua irmã até que ela estivesse parada diante da porta, encarando-a com uma ruga entre as sobrancelhas, apoiando um ombro no batente. Ela ergueu os olhos para a Cata, recém dando-se por conta que Grace saiu e deixou a porta do quarto escancarada.

— Você tá bem? — perguntou, miúda, e Cristina também deu-se por conta, então, que estava sentada na cadeira com o olhar vazio, perdida em pensamentos.

Cristina não se sentia exatamente bem há muito tempo mas assentiu mesmo assim, devolvendo o olhar. — E você?

Catalina forçou um sorriso de volta, e a irmã soube instantaneamente que era forçado antes que ela mentisse: — Sim.

Por um momento, Cristina perguntou-se há quanto tempo as duas mentiam o suficiente para que sequer vacilassem, e se começaram a acreditar nas próprias mentiras. Cata interrompeu seus pensamentos perturbadores quando perguntou: — Você já comeu? Quer jantar comigo?

Cristina inclinou um pouco o rosto, analisando a irmã de cima à baixo, as palavras de Grace retumbando na sua mente. Por um momento, ponderou se a irmã realmente precisava mais do que ser alimentada e se o pedido para a janta — que agora ela percebia que costumava recusar porque comia cedo — não era mais um pedido por companhia. Sentiu o coração apertar um pouco com o pensamento, vendo que a irmã parecia estranhamente vulnerável, apesar do cenho franzido em uma carranca adolescente de quem não gosta de estar vulnerável para começo de conversa, esperando por uma resposta.

Cristina soltou um suspiro depois de relancear os livros e voltou-se para a irmã antes que ela prevesse a negativa: — Tô morrendo de fome. Vamos assistir um filme também?

Catalina arqueou as sobrancelhas e piscou algumas vezes, rápido o suficiente para que pudesse voltar a uma tentativa de faceta entediada como a da irmã mais velha, mas não o suficiente para que Cristina não percebesse. Então, deu de ombros como se não se importasse e disse: — Tá, pode ser.

Cristina levantou e, quando saiu do quarto, puxou a porta para fechá-la atrás de si, ponderando como é que caberia mais comida no seu estômago.

*

O último dia de aulas no colégio chegou como uma sexta-feira qualquer.

Para a grande maioria dos alunos, incluídos aqueles dentro da panelinha do ensino médio, era apenas mais um final de ano letivo comum. Havia mais um ano até que pudessem deixar o colégio de vez e partirem para o restante de suas vidas do lado de fora dos portões envelhecidos. Mas não para dois deles, abraçados entre si no chafariz, aquietados demais para o normal, diante dos amigos.

No momento, eles estavam brincando sobre montarem um negócio juntos no futuro, com as habilidades unidas. Tudo começou com a Grace, que estava comentando sobre as diferentes universidades nas quais ela poderia cursar Cinematografia como queria. Christopher, instantes antes, estava comentando algo sobre seu grupo de teatro e possíveis apresentações no final do ano, então Dan sugeriu que ele atuasse em algum enredo que Grace dirigisse no futuro. Logo, eles desataram em uma busca desenfreada de tentar enroscar as possíveis carreiras futuras em apenas um negócio.

— Faz sentido pra mim — dizia Dan, com uma risada. — Pega a Grace com conhecimento de cinematografia que ela cria toda uma história e a transforma em filme, aí entra nosso querido Topher pra atuar como protagonista — apontou, ignorando quando Grace dizia que cinematografia não significava que ela "criaria" histórias, e Topher apenas riu, balançando a cabeça. — Dava pra adaptar essa história também pra algo tipo anime ou quadrinhos, ou até mesmo jogos, porque vai ter que ser famoso, não é?

Caleb apontou para o casal ao lado. — Se vai adaptar pra jogos, então a Cristina e o Maze podem entrar no negócio também.

Os dois não tiveram muita reação mas Grace soltou um riso e bateu palmas. — Isso mesmo, eles podem criar juntos todo um programa de jogos para a minha história — exclamou, uma mão no peito, como se o enredo, de fato, já existisse e fosse de posse dela, apesar de haver negado instantes antes que seria roteirista.

— Se é assim, então quem faz o design gráfico dos jogos e dos quadrinhos é o Caleb — apontou Mason, de volta, e Caleb franziu o cenho, mas riu.

— Eu mal sei desenhar em um papel, você quer que eu desenhe em um computador? — perguntou ele, duvidoso, mas divertido.

— Você se dá pouco crédito — acusou Grace, estreitando os olhos. — Seus desenhos são muito bons, Caleb, e na faculdade você pode aprender outros tipos de design ou sei lá como se chama! — exclamou, e todos pareceram concordar.

Caleb fez uma careta, mas não quis discutir, enquanto os demais exclamavam que seu negócio entre amigos estava praticamente pronto, só precisavam montar.

— Como assim tá pronto? — reclamou Ian, torcendo o nariz. — Por que tem gente de fora? Onde é que a gente entra?!

— Talvez você não entre em parte nenhuma — riu Dan, dando um empurrãozinho no Ian, que estava em pé ao seu lado. Ian estreitou os olhos. — Se a gente vai ter um filme, podemos levar a história para o teatro e fazer adaptações! — sugeriu, animado, ao olhar para o Topher. — A gente pode montar uma peça de teatro e uma de dança onde eu poderia me apresentar também. Ou — falou, mais animado, com um riso divertido — poderia ser uma peça de teatro musical, com danças incluídas! Bora?

Topher riu, assentindo com entusiasmo. — Bora, bora!

Bex e Korn riram e logo iniciou-se uma discussão muito acirrada sobre como os demais se encaixariam no negócio também, então eles começaram a inventar maneiras de enfiar-se no meio forçadamente.

— Então eu e o Korn também podemos participar da peça musical, nós somos atléticos — apontou Ian, entre os dois, e Korn assentiu —, a gente pode muito bem aprender a apresentar!

— Ou podemos ser os dublês dos filmes — acrescentou Korn, sugestivamente, e Ian gostou da ideia.

— Vocês tão inventando coisa agora! — acusou Grace, falsamente irritada. — Isso não vale!

— E Bex vai dirigir a coisa toda — acrescentou Caleb, quando percebeu que faltou apenas um deles.

Todos caíram na gargalhada, chamando atenção dos demais alunos que circulavam ali, o sol escondendo-se entre as nuvens brevemente, aliviando o ardor nos olhos para enxergar.

— Vocês que vão arrumar outro negócio separado de nós — ordenou Dan, rapidamente, gerando reclamações. — Nós vamos ficar só com Bex, né, Grace? — chamou, e Grace assentiu exageradamente. — Bex é excelente em tudo o que faz, pode dirigir, fazer toda a trilha sonora, palheta de cores; qualquer coisa que Bex faça sai extraordinariamente — elogiou e Bex sorriu largamente, empinando o queixo em concordância, e todos pareceram assentir. E então Dan focou nos demais, especialmente em Ian, ao declarar, com um riso: — O restante de vocês tá dispensado.

Como um passe de mágica, o sinal tocou no mesmo instante e eles caíram na gargalhada outra vez enquanto Dan fazia movimentos exagerados para demonstrar que tinha superpoderes.

Em questão de segundos, todos começaram a levantar e caminhar preguiçosamente em direção às salas de aula. Alguns deles tinham prova após o intervalo, outros tinham apenas aula — que eram apenas papos aleatórios de final de ano -, e eles comentavam sobre como recaía sobre eles que era o último dia letivo novamente. Korn e Bex não se levantaram do chafariz, ficaram em silêncio, observando-os se afastar e conversar entre si entre a escassez dos demais alunos das outras turmas, já que muitos não viam necessidade de ir no último dia se não tinham avaliação nenhuma.

Para Korn e Bex, no entanto, aquele era seu último dia no colégio — era a última semana de aulas antes das provas de recuperação que, possivelmente, nenhum dos dois pegaram; era o último intervalo com os amigos no chafariz ao rir sobre bobagens; era possivelmente a última vez que entrariam naquelas salas de aulas. Nenhum dos dois quis levantar, aconchegados um no outro, observando o pátio esvaziar aos poucos.

— Você lembra de como era antes? — perguntou Bex, sorrindo com ternura ao observar os últimos dos amigos entrarem nas salas. — Era só nós dois. — Korn assentiu, apertando sua mão na dele. — Eu tô com os nervos à flor da pele ultimamente, porque tudo o que eu consigo pensar é que, por mais que os pestinhas nos amem tanto, depois daqui vai ser só nós dois de novo. E eu amo que seja nós — acrescentou, rapidamente, ao olhar para o namorado —, desde sempre, para sempre, mas...

Korn assentiu mais uma vez, deixando um beijo terno na testa de Bex.

— Eu sei, é assustador — concordou, assentindo, baixando o olhar apenas para ver que os olhos de Bex estavam marejando ao percorrer o pátio daquele coleginho de bairro.

— Quando a gente veio pra cá, quando a gente teve que vir pra cá — corrigiu, porque não foi por livre e espontânea vontade —, eu não esperei encontrar uma família. Porra, vida — xingou, baixinho —, eu achei que a gente tava indo pro purgatório quando a gente deixou aquele inferno que era aquela merda daquele colégio. — Bex, então, sorriu, lágrimas perdidas pulando de seus olhos com o estreitamento do espaço e Korn as pegou antes que chegassem ao seu queixo. — Mas parece que alguma coisa aconteceu no meio do caminho e a gente encontrou um caminho pro céu.

Korn sorriu com a metáfora, sentindo o próprio nariz pinicar quando percebeu que havia mais beleza ali do que se dispôs a divagar sozinho. Ele inclinou-se para deixar beijinhos por todo o rosto de Bex, sentindo-os salgados devido às lágrimas que haviam escapado.

— Eu já tinha encontrado um pedacinho do céu em você — sussurrou, envolvendo seus braços ainda mais fortemente contra o corpo de Bex. — Então eu soube que tudo o que eu precisava fazer era te seguir e você me levaria mais alto do que eu imaginei possível.

Bex normalmente teria achado graça, soltado um riso zombeteiro da breguice fofa do namorado, de sua incontrolável ternura que vazava de todos os poros, mas tudo o que saiu foi um som abafado de engasgo.

— Você sempre diz que eu salvei sua vida, mas meu amor, você deu propósito à minha — murmurou Korn, contra seus cabelos cheirosos.

Bex acabou chorando, escondendo o rosto na curvatura do pescoço do namorado e abraçou-o de volta com igualável força. Nenhum dos dois importou-se que o pátio estivesse vazio e que eles estivessem perdendo o começo do fim das aulas. Se havia algum monitor trabalhando naquele dia, também, eles não o viram ou não se importaram em fazê-los sair dali.

— Pare de dizer coisas bonitas, você me tem nas suas mãos há quatro anos — resmungou Bex, enfim, contra o seu pescoço.

Korn riu. — E daí? — perguntou, gracioso. — O cara não pode mais ser romântico agora?

Bex revirou os olhos, conseguindo afastar-se o suficiente para limpar o próprio rosto sob supervisão de Korn. Ele ficou subitamente sério e Bex viu que os olhos dele também estavam mais brilhantes que o normal, avermelhados, inclusive.

— Eu também tenho medo, sabe — admitiu, baixinho, e Bex assentiu.

— Eu sei, amor — sussurrou, levando uma mão para fazer carinho em seu rosto.

— Mas no fundo eu sei que vai ficar tudo bem. Quando a gente ficou junto e o mundo pareceu desabar em cima da gente, sabe, pra nos esmagar de propósito — especificou, porque era assim que parecia, e Bex entendia tão bem quanto, assentindo —, eu me fiz de forte o tempo todo. Eu sabia que você tava com medo, e com medo por mim, porque você se sentiu responsável pelo que aconteceu, mesmo nunca tendo sido sua culpa. Eu não te culpei por nada — relembrou, e Bex acabou sorrindo fracamente —, mas eu também não queria que você se culpasse, então eu me fiz de forte. Eu disse que eu não tinha medo. Eu... Eu te segurei firme e disse que tinha certeza absoluta que tudo ficaria bem, mas... Eu não tinha certeza de nada — admitiu, uma ruga culpada entre as sobrancelhas. Bex engoliu em seco. — Eu tava aterrorizado, sabe? — Bex assentiu e ele soltou um riso, a tensão diminuindo um pouco quando murmurou: — É claro que sabe. — Bex sorriu um pouco mais, acariciando o lóbulo de sua orelha, e Korn suspirou. — E agora, pela primeira vez, eu falo a verdade quando digo que eu sinto, que eu sei, que vai ficar tudo bem. Eu tô com medo, é assustador, porque a gente fica pensando que nunca mais vai ter a mesma sorte de novo...

Bex riu, em meio às lágrimas que voltavam a se formar, porque era exatamente assim que se sentia quando um terror tomava conta de seu corpo ao pensar no futuro: que eles não teriam mais a mesma sorte. E Bex devia saber que Korn compreendia do avesso.

Quando pensava na faculdade, ou melhor, na turma da faculdade, nos professores e orientadores e colegas de classe; quando pensava nos empregos que encontraria por aí, nos colegas e chefes de trabalho — o problema eram sempre as pessoas, afinal -; Bex se pegava pensando que não havia como terem tido a mesma sorte que encontraram neste colégio.

— ... mas eu sei, vida, eu sei que a gente consegue sair por cima, que a gente vai ficar bem e que tudo vai se desenrolar para o melhor. Eu tenho certeza — enfatizou, firme, quando Bex o olhou com certa dúvida, os olhos puxados presos nos olhos castanhos de seu amor. — Confie em mim.

Bex soltou um riso meio acanhado, pela maneira como ele conseguia ficar mais atraente quando estava determinado e fazia um trabalho tão bom em fazer com que Bex se sentisse no ápice da determinação também. Korn era ainda mais atraente quando fazia Bex se sentir em segurança, como se ajudasse seus pés a firmarem no chão, como se ajudasse a abrir as portas à sua frente. Ele seguia sendo o perfeito cavalheiro que sempre foi, desde que pressionou uma bolsa térmica em sua testa após ter sido golpeada por uma bola de vôlei no colégio, e seguiria sendo assim até seu último suspiro.

— Ah, amor, assim fica difícil que eu me mantenha uma sad emo girl — brincou, jogando o cabelo pendurado do rabo de cavalo para o lado.

Korn gargalhou, puxando Bex até que seus lábios pressionassem um contra o outro com tanta segurança quanto os dois se faziam sentir assim, ao passo que sorriam contra a boca um do outro.

Eles tiveram uma história de amor peculiar, para dizer o mínimo, não era algo que frequentemente ouvissem de outros casais.

Quando conseguiram transferência para este colégio de fim de mundo — como houveram descrito na época, propositalmente -, eles queriam apenas enfiarem-se em um lugar onde ninguém os conhecesse. Isto havia acontecido no início do ano letivo de 2019, dois anos antes. Mas, quando ocorreu, Bex já havia saído de casa uns cinco meses antes para morar com a avó, no final do ano anterior.

Eles tinham apenas treze anos quando se conheceram no colégio anterior, o mesmo que Bex havia estudado durante toda a vida.

Bex sempre fez parte da exclusão, mesmo quando se identificava como menino, nunca na vida havia sido tratada como uma pessoa normal. Era um “menino” muito feminino, mas não feminino o suficiente; era considerado quieto demais, mas quando falava, preferiam vê-lo calado do que ouvir seus trejeitos. Isto acontecia antes da transição e seguiu acontecendo depois. Ninguém respeitava os pronomes pedidos, nem alunos nem professores, todos recusavam a chamar Bex pelo nome informado, até mesmo sua família dentro de casa. Bex havia se acostumado tristemente com a ideia de não ter amigos, de saber que as únicas pessoas que se aproximavam faziam isto por pena ou por ódio. A única pessoa daquela época que olhou para Bex como se fosse apenas Bex, desde a primeira interação, tinha o mesmo olhar estampado no rosto ao delinear seus traços até agora, neste momento, por trás dos óculos redondos.

Korn não era um rapaz excluído, pelo contrário, ele tinha muitos amigos. Não era aquele cara popular, sempre foi um pouco nerd, mas estava longe de pender para qualquer lado de algum esteriótipo. Ele tinha muitos amigos e colegas próximos, fazia amizades facilmente, sem nenhum esforço, com quem quer que conhecesse. Foi assim com Bex também, no ginásio do colégio, quando estava jogando vôlei na educação física e um colega adversário a golpeasse com força o suficiente para que voasse nas arquibancadas, direto para a testa de seu futuro amor. Os colegas riram, mas ele correu para ver se Bex estava bem. Quando Korn começou a tomar interesse por seu amor, sequer foi romântico, apenas um interesse genuíno ao ouvir uma piada inteligentemente sarcástica e moderadamente sinistra que saiu dos lábios de Bex. A partir de então, ele quis saber mais sobre aquele colega de classe que estava sempre sozinho por nenhum motivo, de grandes olhos castanhos cuja vulnerabilidade óbvia contrastava com os comentários afiados e humor ácido. Quanto mais se aproximava de Bex, mais seus supostos amigos afastavam-se dele, até que isto atingiu o início do pico quando Bex transicionou e explodiu em suas caras quando eles começaram a namorar um pouco antes dos quinze anos. Apenas um amigo de Korn permaneceu até os dias atuais, o Nick, e ele não estudava no mesmo colégio mas os dois eram vizinhos desde a infância e, inclusive, ele já havia conhecido a panelinha toda em algumas saídas juntos.

Korn sempre foi criado bem, então apesar da perda dos amigos — que não era amigos, no final das contas — ter sido dolorosa, ele sequer vacilou nas suas escolhas. Ele nunca foi ensinado a odiar pessoa que fosse e cresceu com tanto amor e tanto apoio que, quando começou a amar Bex mais intensamente do que um amigo amaria, ele sequer teve algum surto de identidade. Korn sempre soube que ele seguiria sendo ele mesmo, seja quem fosse o alvo de seu amor e sua atração, e soube que queria ser ele mesmo com Bex.

O amor que Bex sentia por este homem ia para além de outras vidas e seu romance foi um bônus, porque apenas a amizade do Korn já havia salvado a sua vida infinitas vezes. Antes de conhecê-lo, Bex rodopiava em ciclos de desilusão sobre a vida, chegou a pensar que não havia como nada melhorar, tendo a certeza que a vida apenas pioraria dali para adiante, quanto mais próximo chegasse da vida adulta. Então, quando Korn aconteceu, Bex demorou muito tempo para entender o tamanho de sua sorte e quando compreendeu, não esperou e nem pediu por mais nada. Aquilo era o máximo que Bex teria e, se fosse, sentiria gratidão assim mesmo, porque era mais do que imaginou possível.

Eles trocaram de colégio quando a convivência tornou-se insuportável para os dois com os antigos colegas, os intolerantes professores, e o constante bullying que os dois passaram a sofrer. Ninguém respeitava a relação homoafetiva entre eles e a desprezavam. Todos seguiam chamando Bex pelo antigo nome, evitavam até respirar o mesmo ar ao anunciar que sairiam infectados como Korn havia estado, declaravam maldades bestas e imaturas de crianças desenvolvidas em meio a um ódio sem tamanho. Korn era tratado com mais piedade do que com ódio, como se ele realmente fosse um cara bom manipulado para o lado ruim, apenas alguns valentões destilavam ódio descontrolado pelo colega haver virado um maricas subitamente. Em meio a todo esse tormento que eles decidiram que aquele seria o último ano naquele colégio infernal.

Foi assim que apareceram aqui, juntos, sempre juntos e sozinhos, um com o outro, apenas os dois.

Inesperadamente, no entanto, assim como um arco-íris depois de uma tempestade, pegando-os tão desprevenidos, encontraram uma família inteira de pessoas. Um batalhão firme, forte e reforçado de amor, aceitação, lealdade e tanta, tanta ternura. O afeto entre este grupo de amigos era tão grande que eles sentiram que respiravam ar fresco pela primeira vez na vida.

Dois anos atrás, quando conheceram a turminha por meio do Alex, eles passaram semanas a fio conversando um com o outro, perguntando-se se aquilo era mesmo real. Eles passaram muito tempo tentando entender como é podiam haver pessoas assim no mundo, pessoas tão abertas e receptíveis, pessoas tão queridas e genuinamente incríveis. Nenhum dos dois teve a coragem de acreditar, por semanas seguidas, que podiam confiar o suficiente naquele grupo magnífico de pessoas para abaixar a guarda sem serem apredejados. A concepção era triste, mas os enchia de esperança, e foi apenas abraçando todo aquele afeto que eles se permitiram senti-lo pela primeira vez na vida. Isto os levou a perguntarem-se por que haviam levado tanto tempo para sair do antigo colégio e ponderaram se as coisas aconteciam realmente do jeito que tinham que acontecer. Aquele era o potinho de ouro no final do arco-íris quando tudo o que eles pensaram é que nada encontrariam lá, apenas passariam reto pelo caleidoscópio de cores e encontrariam mais tempestade. Passaram tantos dias, tantas semanas, uma após a outra, conversando sobre isto, sobre a ideia de terem amigos — e amigos de verdade, algo que ambos desconheciam, ao menos, neste nível de compatibilidade e reconhecimento.

Esse colégio mudou a vida deles, tanto do Korn quanto de Bex, e era muito agridoce deixá-lo para trás, mesmo sabendo que o motivo de terem suas vidas transformadas era a panelinha que sempre carregariam consigo. Costumavam conversar, no silêncio da noite, sobre como desejavam finalmente deixar o colégio para trás para nunca mais lidar com a toda a tortura emocional que passaram lá, e agora encontravam-se desejando poder ficar um pouquinho mais, não perder a sensação que fazia seus corações cantarolarem. Eles tinham um ao outro, sempre teriam, mas foi tão bom entrar aqui dois anos atrás e saber que não estavam sozinhos, que não precisavam apenas contar um com o outro. E foi tão bom finalmente poder conversar, Bex sobre Korn, Korn sobre Bex, com outras pessoas. Fez o amor que sentiam um pelo o outro, inclusive, crescer e se fortalecer desta forma, poder tatuar o que viam um no outro em outras pessoas além deles próprios, como se garantido que seu amor fosse visto por todos e que, portanto, isto o tornava ainda mais forte e mais real.

O tempo passou, no entanto, e era hora de dizer adeus. Crescer e seguir em frente não era opcional, nunca foi, o tempo não volta. Eles sabiam que teriam que seguir seus caminhos e que, mesmo juntos, tinham jornadas individuais a trilhar. Ainda assim, deixar esse marco para trás não foi fácil como pensaram que seria e estavam com saudades antes de mesmo de partir.

Aquele colégio os presenteou com amigos que levariam para a vida toda, sabiam disto, e com as mais belas memórias colegiais que salvaram a experiência como um todo. Não haviam agradecimentos suficientes, porque não se podia medir o amor que sentiam pela família que ali encontraram.

Quando cruzaram os portões para não mais retornar — ao menos, até o dia da formatura -, portanto, eles saíram com o mais profundo sentimento de gratidão.

Notas finais
Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! <3