Made of Stone

60 XLVII. O melhor de mim - Pt. I


Notas iniciais
Gente linda, gente boa, gente bela. A gente já tá em novembro então a perspectiva de terminar MOS esse ano vai para o ano que vem. Acho seguro admitir, né? Kkkkkkkkk Sobre o capítulo a seguir, o próprio nome diz, é narrado pelo Alex. Teremos algumas partes mas elas NÃO virão todas juntas, elas virão intercaladas com os capítulos do Caleb, até para respeitar a linha do tempo e não fazer confusão. A gente vê o que tá rolando por aqui e o que tá rolando por lá, ao mesmo tempo, nos mesmos períodos de tempo, ao intercalar os capítulos. Boa leitura! ♥

2019-2020

Apesar do objetivo da minha mudança para Mallow Coast ser a promessa de um futuro melhor, uma luz no fim do túnel, a possibilidade de ser feliz, ironicamente, eu senti todo o contrário enquanto me deslocava para lá. Apesar de haver esperado e planejado esta mudança por anos da minha vida, eu chorei durante a viagem toda.

Que otário.

No fundo, não era tudo isso de absurdo, porque eu tinha vários motivos para chorar, mas ainda assim me fez sentir um trouxa. Eu chorei de tristeza pelo que eu estava perdendo, de alívio por deixar tanta bagagem para trás, de melancolia pelas mudanças de plano. Haviam motivos, pilhas deles, para que eu não pudesse simplesmente passar o percurso inteiro sorrindo ao encarar minhas escolhas.

Eu também não consegui dormir no ônibus, em parte por causa do choro, em parte porque minha cabeça estava tendo um curto circuito de tanta atividade — e ela não estava sendo muito produtiva, pelo contrário, era punitiva. Ao passo que eu reprisava toda a minha vida na cabeça, eu simplesmente não conseguia aceitar por completo que eu havia tomado as decisões certas — principalmente porque as mais relevantes das decisões foram improvisadas contra a minha vontade.

A ideia inicial, que se estendeu por anos, era que eu retornasse a Mallow Coast para voltar para os braços do Dean, conseguir investir em uma carreira de músico em uma cidade grande e chacoalhar o amor que meus pais sentem por mim a ponto de me puxarem de volta para eles ao perceberem que não conseguem viver sem mim. Algumas coisas mudaram e, bom, eu tive que improvisar, a começar com o fato de não haver um amor da minha vida me esperando em MC para vivermos um filme de romance, pelo contrário, eu deixei o amor da minha vida para trás, em HF. A cidade era grande até certo ponto — e continuava sendo uma praia, então ainda era um lugar que eu amava -, mas tinha a sua bagagem por si só. Eu não havia pensado muito nisso mas, no minuto em que adentramos em MC, eu percebi que era fisicamente doloroso estar ali, depois do tanto de dor que essa cidade me trouxe. E, por último, os meus pais: sem comentários.

Esse também era um dos maiores motivos do choro, enquanto eu ouvia meus próprios pensamentos perturbados na ausência de qualquer outro som: os meus pensamentos seriam os únicos a me acompanhar nessa jornada. Afinal, eu nunca estive tão completamente sozinho antes.

— Você é o Alex?

Eu me arrastava pela rodoviária com a mala, a mochila e a case de violão quando ouvi a voz grave chamar meu nome. Não a reconheci, para ser sincero, mas virei na sua direção da mesma forma, imaginando quem deveria ser.

O homem alto e robusto estava escorado em um carro que, sinceramente, parecia pequeno demais para ele. Era um Chevrolet antigo e surrado, da costumeira cor cinza, que me fez franzir o cenho, como se eu subitamente estivesse em um filme dos anos noventa.

Eu soube que era o León, mesmo sem lembrar dele.

— Eu mesmo — identifiquei, com um indício de sorriso, esperando que disfarçasse as olheiras e não deformasse meu rosto inchado do choro.

Girei nos calcanhares e caminhei em sua direção, analisando os traços parecidos com o Lorenzo: a pele cor de oliva, os cabelos castanhos de muitos fios, as sobrancelhas grossas e o nariz levemente adunco. Fora isso, a maior diferença entre eles era que León era um cara grande e forte, de presença impressionante, com bastante barba na cara e também parecia ser mais velho que os trinta anos. Na verdade, eu não estava certo que ele tinha exatamente trinta, Lorenzo usou a palavra “velho” para se referir ao irmão e em outro momento disse que ele estava na casa dos trinta, então vá saber.

— Enzo pediu pra eu te buscar — anunciou ele, com um sotaque forte cubano, em um tom que dizia que ele não estava feliz com aquilo. Mas logo eu perceberia que León nunca parecia feliz com nada. — Ele disse que você não tem onde cair morto, então não queria que pagasse um táxi. Aparentemente agora eu sou motorista de playboy — reclamou, desencostando-se do carro. — Enfia suas tralhas aí e entra.

— Valeu.

Soltei um som pelo nariz, fazendo exatamente o que era ordenado — não ousei pedir para ele abrir o porta-malas, então enfiei minhas tralhas no banco de trás e sentei ao lado delas, ao passo que ele retornava ao banco de motorista.

— Acho que não ter onde cair morto me desqualifica como “playboy” — limitei-me a dizer, com um riso. León iniciou o carro, soltando um “hum” mal-humorado. — E onde tá o Enzo?

— Encheu a cara e perdeu o ônibus de volta pra cá feito o imbecil que é — reclamou, torcendo o nariz. — Ele chega pela manhã ou eu o busco pelas bolas.

Um homem muito agradável, graças a deus.

Em pensar que eu não conviveria com ele apenas em casa, já que eu seria seu inquilino, mas o cara também seria meu chefe, então eu o veria todos os dias, o tempo todo. Muito agradável, de fato.

E lá surgiu aquele pensamento novamente:

Que merda eu tô fazendo com a minha vida?

Ao mesmo tempo em que eu gostaria de arrancar meus cabelos da cabeça e surtar um pouquinho — só um pouquinho, o suficiente para quebrar alguma coisa -, eu deveria reconhecer que eu tive muita sorte e que teria uma dívida com os irmãos Hernandez pelo resto da minha vida.

Eu fiz um acordo com o Lorenzo alguns meses atrás, quando pedi o favor de conseguir um emprego no bar do irmão dele. Como ele estuda na faculdade em Cave Coast e mora no campus, o quarto dele em Mallow Coast estava desocupado. É claro que foi necessário conversar com o León a respeito disso, afinal, a casa era dele, e foi só depois de muita conversa para que ele aceitasse. Ambos, na verdade: emprego e moradia. Eu começaria o serviço logo que chegasse, então quando fizesse um mês, eu também teria meu salário e pagaria o aluguel que, por misericórdia de León, era um valor simbólico praticamente. Eu não tinha do que reclamar, ainda que algumas coisas saíssem diferente do planejado. Por exemplo, minha ideia original era ser músico no bar dele, mas acontece que vida real é um pouco mais bruta que a vida dos meus sonhos, então eu consegui a vaga de garçom.

O único que eu teria que pagar no primeiro mês seria minha comida, mas isso foi tranquilo, porque ao menos para alguma coisa serviu meu trabalho naquele bar nojento em HF. Eu havia gastado parte do que juntei quando morei com o Mason e a tia, com a minha formatura e com a passagem para cá, mas havia restado o suficiente.

Olhei para o motorista.

Lorenzo havia me informado que o irmão mais velho podia ser um pouco carrancudo. Um pouco, havia dito, mas eu fiquei observando o cara durante o caminho todo até a casa dele e a ruga entre as sobrancelhas ainda não havia se desfeito.

A casa do León, que seria o meu lar durante os próximos meses, era muito simples e relativamente pequena, localizada na zona oeste de Mallow Coast, perto da zona sul. Ficava basicamente nos fundos do bar do León, que era muito popular naquela vila, mas também não era muito grande, muito menos sofisticado.

Era uma casa de pintura esvaída pelo tempo, entre as cores roxas e avermelhadas, a entrada dela era atrás do bar, por um portão enferrujado que um dia foi pintado de vermelho também, então a cor da ferrugem se misturava com a tinta anterior. Havia espaço para apenas um carro, dois se estivessem espremidos, em um jardim triste, de grama amarelada. Apesar disso, nas janelas haviam vasos de plantas bem cuidadas, um contraste curioso. A parte de dentro dividia-se em uma cozinha acoplada à sala de estar, dois quartos separados — o do Lorenzo aparentando ser o menor deles -, um banheiro e uma lavanderia muito pequena. Apesar de pequena, havia muita coisa ali dentro, de uma maneira muito parecida com a casa do Bruno: muitos móveis espremidos juntos, muitos detalhes de decoração, muitos panos pela casa: tapetes, toalhas de mesa, panos de prato no fogão e na mesa e pendurados nas paredes. Eu pensava que era algo a respeito da família mexicana no Bruno, mas sendo os irmãos cubanos, cheguei à conclusão que haviam coisas muito semelhantes em famílias latinas em um geral.

E, apesar de toda a poluição visual do ambiente, sendo a decoração o oposto de minimalista, era tudo muito organizado e limpo, algo que eu honestamente não esperava de uma casa onde moravam apenas dois homens. E também gostei que havia o mesmo aconchego da casa da família do Bruno, era uma vibe, não era algo ao qual eu pudesse apontar o dedo.

— Fica a vontade — disse León, de um jeito que me dizia que ele não estava nada a vontade. — O quarto do Enzo é aquele ali, pode se acomodar como quiser. Se tiver com fome, tem resto da janta na geladeira. Se não te agrada a comida dos outros — acrescentou, torcendo o nariz —, então se vira fazendo a tua. Tô certo de que sabe usar a cozinha.

Eu não era louco de não obedecer, então assenti com gravidade.

A verdade é que eu comeria o resto da janta dele tranquilamente, mas meu estômago estava revirado e eu duvidava que a sensação passaria tão cedo.

Quando a casa caiu no silêncio assim que León foi dormir, afinal, já havia passado da meia-noite, eu organizei minhas coisas no meu mais novo quarto. O quarto era do Lorenzo, em todos os sentidos da palavra, porque as coisas dele ainda estavam ali, esperando que ele voltasse em um par de anos para casa. Os pôsteres, os quadros, coleção de carrinhos nas prateleiras, travesseiros com fronhas de Star Wars que eu bem conhecia por causa da Grace, as roupas e calçados dentro do roupeiro, basicamente tudo. Era bom, porque enquanto eu tirava minhas coisas das malas, eu percebia que eu não tinha quase nada.

Era apenas eu, meu violão, uma mala e uma mochila.

Na mochila eu trazia o notebook que ganhei da minha mãe uns anos atrás, meus documentos e aparelhagem com carregadores e fones de ouvidos, e no restante do espaço havia apenas o pobre do Axlose esmagado. Minhas roupas e dois pares de calçado além do que eu estava usando estavam na mala. Parecia bastante coisa, até o momento em que coloquei tudo na cama, então agradeci mentalmente que as coisas do Lorenzo estivessem ali — não só porque eu poderia usar as roupas que coubessem em mim, como também não teria que viver em um quarto completamente vazio.

Eu coloquei todas as roupas dele — que, inclusive, estavam bem dobradas e eu tinha a leve impressão de que isso não era do feitio do Lorenzo mas do irmão dele -, em um lado apenas do roupeiro, separando o outro lado para as minhas misérias. Fiz o mesmo com o restante do quarto, separei uma prateleira da estante para mim, limpei a mesa de estudos, deixando apenas algumas coisas dele que eu poderia usar e coloquei o restante em outro compartimento do guarda-roupa. Foi nessa parte do processo que percebi que eu não tinha o suficiente nem para ocupar esses pequenos espaços.

Com tudo pronto, passada uma hora da manhã, eu sentei na cama e observei o quarto no qual dormiria por um bom tempo, caso nada desse errado.

Pronto.

É isso.

Está feito.

Minhas mãos começaram a tremer e eu as observei, sentindo o pânico começar a tomar conta do meu corpo e, ainda que eu estivesse esperando que isso acontecesse, eu nunca conseguia me preparar. Eu usei as técnicas para controlar a respiração e acalmar a ansiedade, mas não funcionou tão bem quanto eu esperava, visto que comecei a chorar sem previsão de parar tão cedo.

Deslizei para o chão e coloquei a cabeça entre os joelhos, tentando o máximo que eu podia para ter um ataque de ansiedade silencioso — o último que eu gostaria era que essa fosse a primeira impressão do León sobre mim.

E assim fiquei, contemplando o resultado das minhas escolhas.

Algumas horas atrás eu estava me formando, cercado da única família que importa, na cidade que se tornou meu lar. E agora aqui estou, completamente sozinho e sem perspectiva de futuro, de volta na cidade que deixou de ser meu lar há tanto tempo, que me traz tantas memórias ruins de uma época em que eu era outra pessoa, alguém que eu sequer reconheço.

O que eu tô fazendo com a minha vida?

Tentei me acalmar, relembrando que eu havia pensado nisso por muito tempo e que se tomei essa decisão, havia algum motivo para isto.

Olhei para o lado, para a mesinha onde jazia meu celular esquecido, deixado no silencioso desde que entrei no táxi ao abandonar minha vida em HF, em todos os sentidos da palavra. Eu sabia que, assim que eu estivesse longe o suficiente, Bruno e MJ teriam contado a todos que eu havia ido embora. Eu receberia mensagens, talvez ligações, de alguns deles, e eu não teria cabeça para ler ou ouvir nada que qualquer um deles diga. Eu não estava preparado para ler ou ouvir nenhum dos tipos de despedida, nem as raivosas nem as melancólicas nem as esperançosas.

Eu sequer consegui me despedir ainda.

A despedida estava entalada na minha garganta.

A verdade é que, por mais que eu estivesse sido firme na minha decisão de mudar para cá, essa firmeza não era um reflexo do que repercutia diariamente na minha cabeça. Era um reflexo de uma decisão tomada há muito tempo, da sensação de sentir um lufo de liberdade na cara quando pensava em voltar para cá atrás de uma carreira na música. Era uma sensação antiga, mesclada com sensações atuais, que não chegavam a ser um pensamento ou uma reflexão, eram apenas sensações abstratas. Era o cheiro da cidade praiana que me chamava de volta, o som das ondas do mar, o salgado na boca, o barulho dos bares, a música que ressoava por cada canto dessa cidade. Era a nostalgia e mesmo a dor, era a saudade e o desejo de voltar no tempo que, às vezes, me pegava de surpresa, era um gosto de infância misturado com o gosto de senti-la escapar por minhas mãos em um piscar de olhos. Essa cidade era, principalmente, de onde ressoava vibrações que eu podia chamar de liberdade. Eram apenas sensações, não eram pensamentos racionais.

Dito isso, é óbvio que não havia firmeza na minha decisão, mas eu insisti nela porque se eu parasse para considerar as infinitas opções que eu tinha, eu ficaria parado sem me decidir. E não existe liberdade quando se está estancado no lugar.

Mas é óbvio que eu também não tenho a menor ideia do que estou fazendo com a minha vida.

Minha cabeça estava um completo caos e apesar da minha crise haver passado, a ansiedade ainda circulava pelo meu corpo como um lembrete de que poderia explodir outra crise a qualquer segundo. Eu pensei em dedilhar o violão mas imaginei que acordaria León, então pensei que se eu tomasse um banho, talvez conseguisse relaxar os músculos o suficiente para dormir. Obviamente não funcionou, mas ao menos eu conheci o banheiro pequeno e simplório, mas perfeitamente organizado e cheirando a lavanda, do León.

Eu já desconfiava, mas isso me fez ter certeza que o León era o completo oposto do irmão dele e se a casa estava limpa e organizada, certamente era porque Lorenzo não mais mora aqui. Enzo, pelo que lembro da convivência com ele, era preguiçoso e desorganizado, também era atrapalhado e esquecido, sem o menor instinto de sobrevivência. Fiquei momentaneamente feliz por isso, por estar dividindo a casa com o irmão certo.

Assim que eu estava banhado, revirando-me na cama, eu fiz o esperado: chorei mais um pouco. Virei para a parede, pensando em pegar o celular e ligar para a única pessoa que conseguiria me acalmar nesse momento.

Suspirei, fechando os olhos.

Essa havia sido outra decisão improvisada, ainda que eu houvesse pensado e repensado nela por algumas semanas, a decisão de cortar o Caleb da minha vida.

Eu posso tê-lo perdido para sempre agora.

Eu devo tê-lo perdido para sempre agora.

Ao menos, eu sei que o resquício de confiança que ele tinha em mim havia acabado de morrer naquela mesma noite. Mesmo que eu quisesse voltar para a vida dele depois disso, as chances dele confiar em mim de novo o suficiente para que eu sequer me aproximasse eram mínimas, quase nulas, o que significa o mesmo que eu houvesse perdido o Caleb para sempre.

Eu só espero que tenha sido a decisão certa, para mim e para ele.

Eu havia cometido o tremendo erro de olhar para trás quando estava no táxi, apenas para ver a figura do Caleb plantada no chão com uma faceta miserável, observando-me partir. A imagem estava queimada na minha cabeça, cravada nos meus olhos como se eu estivesse lá naquele momento, vendo e revendo a cena como um disco arranhado.

Cortá-lo da minha vida deve ter sido uma das decisões mais difíceis que já tomei, mas era algo que eu não podia fazer pela metade. Então apertei o celular contra os dedos trêmulos quando pensei em mandar mensagem, ligar ou voltar correndo, implorando por perdão, ao invés disso, acabei oficializando minha decisão para eu pudesse chamá-la de “decisão”. Eu tive que cortá-lo da minha vida em todos os aspectos possíveis para que pudesse ser eficiente, ainda que eu tivesse que impedir que ele seguisse e me acompanhasse por meio da internet ou das redes sociais. Mais do que isso, eu tinha que cortar minhas opções de fazer o mesmo com ele, de observar sua vida de longe, porque quanto mais eu visse dele, mais eu iria querer voltar atrás. Se o visse seguir em frente, eu iria querer voltar correndo e se eu o visse se recusar a seguir em frente, eu também iria querer voltar correndo. E eu tinha medo de fazer pior do que isso: não querer voltar e ainda assim chamá-lo de volta para mim, mantê-lo conectado a mim, mantê-lo me esperando.

Isso não seria justo com ele.

E se eu o cortasse da minha vida pela metade, bom, eu teria machucado a nós dois por nada, já que não conquistaria nada além de ferimentos mútuos. Eu precisava cortar tudo de uma vez, pela raiz, como arrancar um band-aid, para cerrar qualquer laço entre nós e libertá-lo de mim.

Talvez se eu fizesse isso com confiança o suficiente, talvez eu passasse a ficar certo de que tomei a decisão correta.

Eu hesitei antes de pressionar o botão, perguntando-me se eu já não deveria saber que era decisão certa antes de tomá-la, mas as dúvidas se acabaram quando percebi que eu deveria mesmo saber o que estava fazendo. Ainda que eu estivesse machucando-o, eu não posso me dar ao luxo de mantê-lo na minha vida se eu sequer sei o que estou fazendo com ela. Minha cabeça ainda é um caos, a terapia não acabou com a bagunça entre minhas orelhas, apenas tornou-a uma bagunça um pouco organizada e etiquetada. E eu estava com o pressentimento de que, mesmo que eu achasse que minha vida entraria nos trilhos aqui, ela iria torcer-se e virar de ponta cabeça antes de sequer encontrar os trilhos.

Tudo o que sempre tentei evitar, desde que conheci o Caleb, foi machucá-lo, e acabou acontecendo uma centena de vezes mesmo assim. Eu estaria um caos completo e desamparado, longe dele, e surtando diariamente nesse lugar, tentando refazer minha vida e construir algum resquício de futuro e de estabilidade, e eu acabaria machucando-o mais uma centena de vezes. Eu cometeria erros e eu não poderia bater em sua janela ao tentar consertá-los, porque eu estaria aqui, então era melhor que eu o machucasse de uma vez só e evitasse que minha bagunça chegasse a ele.

É o certo a se fazer, tem que ser.

Mas dói para um caralho.

Assim que deletei até mesmo seu número, eu chorei mais um pouco até dormir. E, quando dormi, como esperado, eu tive pesadelos.

*

Quando a luz do dia entrou no meu mais novo quarto, eu fiquei um longo período de tempodeitado, bocejando por haver dormido mal, apenas observando os detalhes apagados na madrugada. As marcas nas paredes, o chão de madeira surrado, algumas lascas faltando no guarda-roupas, o rangido da janela com o vento da manhã.

Levantei quando ouvi o portão ser aberto por alguém.

Eu ouvi o León levantar, usar o banheiro, caminhar pela casa, movimentar-se pela cozinha ao provavelmente preparar o café da manhã, tudo enquanto contemplava o quarto na luz do dia. Assim que o Lorenzo chegou, me pus em pé, troquei de roupa e usei um chinelo de casa que devia ser dele, antes de sair e dar de cara com os dois.

Lorenzo me abraçou, espalhafatoso, e eu o abracei de volta, principalmente por gratidão pela minha situação atual.

Ele parecia uma versão mais jovem do irmão dele, o rosto livre de barba — apenas com um bigodinho muito feio que ele deixou crescer, a propósito -, os cabelos um tanto mais curtos que os de León, espetados para cima. Também estava mais mirradinho do que eu me lembrava, poucos centímetros mais alto que eu.

Observei que ele deixou uma trilha de coisas enquanto entrava: sua mochila atirada no chão, os tênis surrados ao lado da porta de entrada, o celular jogado no sofá, a carteira e chaves em cima da mesa da sala. E eu percebi isto porque León, com uma cara azeda, foi juntando e organizando cada coisinha que seu irmão tirou do lugar, como se já estivesse acostumado. Só então confirmei minhas suspeitas que o primogênito era o único organizado da família.

— Cara, o que rolou em Hybridfield?

Nós estávamos, os três, sentados na mesinha da cozinha, tomando café da manhã com torradas. Em algum momento, no meio das conversas aleatórias, Lorenzo parou para olhar para mim e jogou essa pergunta no ar.

— Como assim? — perguntei, dando uma mordiscada na torrada para que não fizesse desfeita, mas o estômago ainda estava embrulhado.

— Sem ofensas, mas você tá destruído — riu-se, mas ainda tinha uma sobrancelha arqueada em curiosidade. Valeu, Enzo. — E você perdeu bastante peso desde a última vez que te vi, tá quase sumido.

O curioso do comentário do Lorenzo era que eu fui elogiado ao contrário pelos meus amigos nas últimas semanas: diziam que eu parecia bem melhor e que não estava mais virado em um esqueleto ambulante. Isso só trazia à tona que, por melhor que eu me parecesse em relação a este último ano, ano passado eu ainda estava melhor — esteticamente falando.

Arqueei uma das sobrancelhas em resposta. — Você também tá mirradinho, diga-se de passagem.

Lorenzo riu feito um idiota, apontando um dedo para mim como se dissesse “ei, cuida as palavras”. — Peraí, peraí — reclamou ele, embora risse. — Tudo bem que eu tinha mais músculo antes, mas não é pra tanto. E vá você fazer academia enquanto estuda pra ver se dá certo!

— Até parece que é porque estuda — resmungou León, desgostoso. Era notável que o sotaque do León era muito mais forte e difícil de passar desapercebido que o de Lorenzo. — Passa todas as manhãs cagado de ressaca porque tem tempo pra festejar mas não acha tempo pra treinar.

Acabei rindo, mas Lorenzo apenas revirou os olhos.

— Não dê ouvidos a esse velho rabugento — declarou Lorenzo, enquanto o irmão o ignorava, mas eu apenas sorri. — Eu não saio tanto quanto saía na nossa época. Você lembra das merdas que a gente fazia? — perguntou, memórias sendo subitamente relembradas, e eu assenti. — Caralho, bons tempos! — riu-se, embora eu não pudesse concordar totalmente. — Eu não pensei nisso, mas te ver realmente traz muita nostalgia daquela época. Sabe que eu não falo com mais ninguém tem quase um ano?

Arqueei as sobrancelhas. — Sério? — perguntei, e Lorenzo assentiu ao enfiar um amontoado de amendoim na boca. — Mas quando eu visitei vocês nas férias, você parecia bem enturmado com o pessoal.

Lorenzo deu de ombros. — Ah, só com a Carol e com o Bill — respondeu, sem muito entusiasmo —, porque a gente seguiu junto até o final do ensino médio, ano passado, enquanto o resto se dispersou, sabe?

— É, você tinha dito mesmo — lembrei, assentindo, porque parecia ter sido séculos atrás, ainda que não fizesse nem um ano.

— Você se mudou pra outra cidade, Dora foi parar em outro colégio, o Ed e o Bean reprovaram no colégio, tipo, no mesmo ano que você deu no pé — explicou, levando a caneca à boca. — Então ficou só nós três, mas a gente também só se fala de vez em quando agora que cada um seguiu o próprio caminho.

— A turma dos marginais sem causa? — perguntou León, sarcástico.

Lorenzo revirou os olhos. — A gente tinha o quê, uns treze, catorze anos? — perguntou, diretamente para mim, e eu dei de ombros. — León nunca vai me perdoar pelas enrascadas que a gente se meteu na zona sul — confidencializou, rindo, como se o irmão não estivesse ao lado. — Mas porra, a gente era criança, não dava pra esperar muito de pré-adolescentes.

— Fácil falar, não foi você que criou um — resmungou León, levantando-se para pegar mais café.

Acabei rindo com o Lorenzo, que seguia desenterrando memórias antigas com entusiasmo: — Lembra aquela vez que ele apareceu do nada quando a gente tava enfiado naquele boteco ruim do segundo distrito? — Gargalhou, balançando a cabeça. — Que vergonha que eu passei, fui zoado por meses depois daquilo. León fez uma cena e praticamente me arrastou pelos cabelos de volta pra casa.

Acabei franzindo o cenho, as memórias do que ele relatava voltando para mim ao mesmo tempo. Então desviei os olhos para o León, recém ligando-o à imagem antiga que eu tinha dele, de irmão mais velho caricato.

— Você lembra disso, León? — perguntou Enzo, ao fundo.

León soltou um resmungo, olhando do Enzo para mim, e então de volta ao irmão: — Infelizmente.

Se eu parasse para pensar, Lorenzo sempre foi o mais pé no chão do nosso grupo, e isso só podia se dar à criação dele. Se faltava algum de nós nas travessuras, era sempre o Lorenzo. Ele era basicamente o café com leite das nossas enrascadas: ele era sempre o primeiro a ir embora — porque o León o buscava, e o primeiro a dar no pé quando a gente sugeria algo arriscado e potencialmente perigoso. A gente falava mal dele pelas costas, algo que não me orgulho ao relembrar, porque dizíamos que ele era muito crianção, medroso e nos delatava com qualquer pressão.

Eu também lembrava vagamente da figura do León, principalmente aquela retratada pelo Lorenzo: tinha que pedir permissão a ele para fazer as coisas, tinha que avisar onde estava e com quem estava, tinha que estar em casa em tal horário, procurava por ele pelos cantos das ruelas que a gente se metia porque tinha medo de deparar-se com ele por lá. Uma figura amedrontadora, e mais do que isso: era praticamente um pai.

— Então você era mesmo uma das más influências — acusou León, quando voltou a se sentar, comprovando exatamente o que eu pensava sobre sua figura paterna ao Lorenzo.

Acabei sorrindo, dando de ombros.

Quem sabe se eu não era a pior das más influências daquele grupinho?

— Não só isso — riu-se Lorenzo —, como o Alex também passou a andar com aquela galera mais velha que a gente conheceu nesses rolês aleatórios. — Estalou a língua. — Depois largou a gente de lado, nossa turminha do colégio, pra andar com aquele bando de zé ninguém!

Senti um calafrio na coluna ao ouvir aquilo.

Lorenzo referia-se a ninguém mais ninguém menos que ao Dean & companhia: Stephen, Trish e Rizzo, além daqueles que iam e vinham. Agora que eu tomava meu tempo pela Terra das Memórias, eu deveria saber que foi nessa mesma época que eu o conheci, perdido nas ruelas da zona sul como se soubesse o que estava fazendo.

Eu tinha uns treze anos quando eu o conheci, em um tempo em que fugia do colégio com os amigos para me enfiar no meio da zona sul. Dean & companhia estavam em um rolê em frente a uma boate empobrecida, e a gente se aproximou — obviamente foi ideia minha — para pedir um baseado dos que eles estavam fumando. E foi ali o começo de uma história de amor, ao menos, na minha cabeça era. Eu tinha catorze anos, uns meses depois, e Dean tinha seus dezoito, quando perdi a virgindade com ele. Eu só queria que aquele cara mais velho, que deveria ser um protetor, me fodesse até curar todas as minhas feridas, e então ele me levaria para o trailer dele, salvando-me de uma família infeliz, e viajaríamos nas ondas das músicas pela eternidade. Muito poético.

Deixei de tentar comer, limitando-me à caneca com café.

Havia algo de muito perturbador ao revisitar aquelas memórias, porque apesar de saber que eu não era nada como o Dean, a relação que eu tinha com ele não era tão diferente assim da relação que o Caleb tem comigo — ou tinha, agora no passado. Quando a gente se conheceu, eu soube que havia chamado atenção do Dean tanto quanto ele chamou a minha. Ele tomou interesse por mim e começou com esse comportamento brincalhão de que era meu “protetor”, meu “irmão mais velho”, muito parecido com o jeito que eu comportei com o Caleb no início. Ele iria me mostrar tudo o que eu gostaria de conhecer, era como um guia turístico da vida, só que dentro do cenário deplorável da zona sul. Então ele começou a me tocar, a me beijar, e umas semanas depois, estávamos transando em seu trailer. Eu comecei a segui-lo por aí feito um cachorrinho e, pelo visto, aos olhos do Lorenzo, eu havia abandonado o grupinho de adolescentes pelo grupo dos adultos. Mas eu nunca tive interesse em fazer parte de grupo algum, eu só queria estar com o Dean.

Por vezes, eu ia embora mais cedo com ele, abandonávamos o grupo para voltar ao trailer e foder a madrugada toda. Bastava Dean cheirar um pouco de pó ou tomar alguma bala, e ele era apenas meu por horas incansáveis.

Eu sei que era errado da parte dele mas, sinceramente, Dean demorou muito tempo para me prometer coisa que fosse. Desde o início, ele era brutalmente honesto sobre o que queria, ou melhor, sobre o que não queria: compromisso. Às vezes, quando ele queria foder alguém diferente, pedia para os amigos me distraírem antes que sumisse de vista — porque se eu soubesse, eu o convenceria a ficar comigo ao invés de qualquer outro. E em outras vezes, ele fugia com um dos amigos para foder, o enjoado do Stephen, cujo qual eu consegui, mais tarde, separar do Dean ao criar uma desavença entre os dois.

Nossa relação, se é que dá para chamar disto, durou até a transferência do meu pai, que eu causei sem compreender a dimensão das consequências, e enfim, deixei MC para trás junto do Dean e os sonhos fantasiosos que eu tinha com ele.

— Sabia que todo mundo pensava que você tinha algo com o viado aquele? — jogou Lorenzo, tirando-me dos pensamentos, depois de metralhar mais memórias de travessuras da época. — Aliás, às vezes eu ainda o vejo por essas áreas, os outros do grupo dele acho que nunca mais vi.

Pisquei, voltando os olhos para ele, ao digerir a informação.

Eu andei tão avoado das ideias que sequer me passou pela cabeça se eu devia ou não me assumir para os irmãos que me acolhiam — na verdade, como sequer pensei nisto, nem me dei por conta que em MC minha sexualidade não era muito conhecida. Mas ora se isso não é o que precisava para que eu pensasse a respeito.

Remexi-me na própria cadeira e decidi que não devia pensar muito nesta altura do campeonato. — Eu tinha — falei, simplesmente, desconfortável.

Os dois irmãos, ao mesmo tempo, pararam o que faziam — no caso do Lorenzo, parou de mastigar e no caso do León, parou com a caneca na metade do percurso até a boca — para me olhar. Teria sido cômico se não fosse trágico.

— O quê? — murmurou Lorenzo, com um riso nervoso, para se certificar que havia ouvido direito.

— Eu tinha um caso com o “viado aquele” — falei, mais sarcasticamente que planejei, arqueando uma das sobrancelhas.

Os dois irmãos se entreolharam, León deu uma levantada das sobrancelhas e voltou a tomar café.

— Porra, desculpa — exclamou Enzo, arregalando os olhos quando percebeu que eu não estava brincando. De novo, tornou a olhar para o irmão, em busca de ajuda, mas León não deu assistência alguma. Lorenzo coçou os cabelos. — Caralho, desculpa — repetiu, e eu acabei rindo. — Eu não sabia. Eu tava só... Eu não quis dizer...

— Relaxa — falei, imaginando que eu também podia relaxar, a julgar pela reação deles.

— Que viado? — pergunta León, sem importar-se de repetir a palavra.

Enzo pigarreou, desconfortável, antes de dizer: — Aquele que mora naquele trailer velho, não muito longe daqui — fala, devagar, como se medisse as palavras.

León franziu o cenho e torceu o nariz, e naquele momento eu soube que ele o conhecia.

— Vocês ainda se falam? — perguntou a mim, com suspeita, quase como se ficasse com um pé atrás pela primeira vez desde que coloquei os pés aqui. Não quando descobriu sobre minha sexualidade, mas quando descobriu minha “afiliação” com Dean. Neguei quietamente, curioso com a reação dele. León estalou a língua, resmungando feito um velho: — Pois eu não quero aquele cara na minha casa nem no meu bar. Aonde ele vai, só atrai problemas.

Remexi-me no lugar outra vez, um tanto curioso sobre a história por detrás, mas não tive coragem de perguntar nada além.

— Não vou trazer ninguém pra cá — decidi tranquilizar —, e também não conheço ninguém que eu fosse querer trazer pra cá. — Dei de ombros, e então brinquei, até mesmo para não deixar espaço para dúvidas e ver se eles estavam tranquilos com isso mesmo: — O único viado que vai colocar os pés aqui sou eu.

Lorenzo e León trocaram um olhar rápido e, de alguma forma, meu comentário fez o rosto de Enzo avermelhar feito um pimentão, e eu soube que era de vergonha pelo próprio comentário. Afinal, não estaríamos falando sobre “viados”, não fosse o Enzo.

— Desculpa, de novo, pelo que eu falei. Eu realmente... — começou Lorenzo, sem jeito, como eu esperava, mas León o interrompeu:

— Ninguém é homofóbico aqui — declarou, rudemente. — Antes que o Lorenzo pensasse em carregar algum tipo de preconceito com ele, eu já cortava o mal pela raíz — falou, seco, olhando para ele como se fosse uma criança, e Lorenzo baixou o olhar feito uma —, da mesma forma que cortei pela raiz essa rebeldia adolescente de vocês uns anos atrás e toda e qualquer má influência que esse imbecil pensou em seguir. — Pisquei, olhando de um para o outro, felizmente surpreso. — O que você faz na sua intimidade não interessa a ninguém além de você mesmo. Eu só não quero fornicação na minha casa — finalizou, torcendo o nariz.

Acabei rindo, relanceando o indício de sorriso no rosto do Lorenzo ao ouvir aquilo também.

— Justo o suficiente pra mim — concordei, terminando meu café.

*

Mais tarde naquele dia e, durante os próximos dias, eu comecei a trabalhar no bar do León, o Taberna del Rey. Era um trocadilho, fiquei sabendo pelo Lorenzo, já que León significa leão em espanhol, ou seja, aquela era taverna do Rei Leão.

O próprio León me treinou a princípio, e eu logo decorei os nomes do pessoal que ali trabalhava, já que eram poucos: dona Rosa era a cozinheira e o Jose Luis era o auxiliar, seu filho, inclusive, eles também eram cubanos. Quem servia, limpava e fazia os drinks quando León não estava eram o Kyle, o Noah e a Mandy, e agora eu também. Alguns artistas apresentavam-se também, às vezes, apareciam como freelancers e León os pagava separadamente, além de cobrar couvert dos clientes. Eu tentei barganhar minha função de artista quando fiquei sabendo disso, mais algumas vezes, mas seria só mais para frente que o León cederia.

A equipe era bem tranquila.

A dona Rosa trabalhava ali desde a abertura do bar, León me contou, e o Luis aparecia uns anos atrás para auxiliar a mãe de vez em quando, mas agora estava sempre ali. Noah era recorrente, como a maioria de nós, então ele estava sempre ali, geralmente balanceando o horário dele com o meu. Ele ficava na abertura e eu ficava no fechamento, mas durante boa parte da tarde a gente trabalhava junto. Já Kyle e Mandy eram intermitentes, eles não trabalhavam todo dia e tinham horários aleatórios, quando a gente mais precisava de ajuda. Mandy costumava ser recorrente antes, então eu acabei aparecendo em boa hora para tomar o lugar dela, já que as coisas apertaram desde que ela parou de ter disponibilidade para o bar. Com exceção da dona Rosa, Mandy era a funcionária mais antiga.

Jose Luis era só um ano mais velho que eu e Kyle era dois anos mais velho, enquanto Noah e Mandy regulavam de idade com o León, sendo Mandy a mais velha entre eles, apesar dela definitivamente não parecer ter trinta e quatro anos.

Todos eles foram muito necessários para a minha experiência inicial com o León — sim, não com o serviço, com o bar, com a clientela, mas com o chefe mesmo. As primeiras vezes que me desentendi com ele — porque ele é um brutamontes — e que ele me mandou para a casa do caralho, basicamente, eu cogitei pegar minhas coisas e ir embora.

Ainda que não houvesse para onde ir, eu realmente quis ir embora, tomado de orgulho ferido.

— Pense no León como um bulldogue — aconselhou Mandy, gesticulando com as unhas curtas pintadas de preto —, ele tem cara de bravo, mas ele não é perigo algum. Ou melhor — acrescentou, relanceando um Noah risonho —, pense nele como um vira-lata caramelo. Eles latem bastante, aqueles de rua, mas bulldogues são muito quietinhos. León é um caramelinho, ele late mas não morde.

Bufei com a explicação.

— Ele late muito pro meu gosto — reclamei, desacostumado com os palavrões constantes e a grosseria gratuita.

Noah gargalhou, apertando meus ombros com suas mãos, como se quisesse ajudar a aliviar a tensão. — Relaxa, garoto — tranquilizou —, se você realmente abandonar o navio, León vai atrás de você pra te trazer de volta. Eu não recomendo — acrescentou —, porque ele vai latir mais alto ainda na sua cara.

Olhei para ele com estranheza antes de relancear Mandy, que assentiu com um sorriso, confirmando que era verdade. Mas eu tive dificuldade em acreditar que León realmente iria atrás de mim se eu fosse embora, como faria se Lorenzo fizesse o mesmo, afinal, ele mal me conhecia.

Mais tarde, eu entendi que era verdade.

As duas últimas semanas de dezembro voaram, parecia que eu havia chegado em MC de malas prontas e quando eu pisquei, estávamos às vésperas de 2020.

Eu passei o natal com os Hernández, sentindo-me deslocado, mas de certa forma, pela primeira vez em muito tempo, sentindo-me em paz. O bar não abria no natal e eu quase surtei quando fiquei sabendo disso, afinal, que porra eu faria o dia inteiro na data mais família que existe no ano? Com que caralhos eu ocuparia a minha mente ansiosa e assombrada? Aconteceu que eu não precisei ficar tanto tempo perdido na obscuridade dos meus pensamentos perturbados, porque eu fui sugado para a rotina natalina dos irmãos Hernández como se fizesse parte de mais uma família que não a de sangue.

Acordamos cedo — Lorenzo nem tanto, apagado até tarde em um “colchão” feito de cobertas no chão do quarto — para começar a fazer o churrasco e o restante da comida em conjunto. E quando eu uso a primeira pessoa do plural, eu quero dizer o León apenas em sua singularidade, porque eu não sou de muita ajuda na cozinha e o Lorenzo, muito menos. O almoço durou mais de duas horas, nunca vi nada igual, porque entre fazer o churrasco no pequeno pátio de gramas amareladas, comer e beber por si só, ficamos conversando e trocando histórias de vida.

O natal foi o primeiro dia que eu mais passei tempo socializando com os irmãos e foi nessas que descobri que eles realmente eram sozinhos. A família tentou emigrar de Cuba algumas vezes desde o início dos anos noventa, os pais e León junto de duas tias e um primo, ilegalmente, por conta da crise econômica. Depois de muita reviravolta, de haverem perdido parentes na cruzada, eles finalmente conseguiram o visto por conta da formalização do trabalho de carpinteiro do pai, já no início dos anos 2000. Sua mãe acabou ficando para trás por estar severamente doente, e o pai trouxe as irmãs de sua esposa, o sobrinho e os dois filhos sozinho, um deles recém nascido. Pouco tempo depois, a mãe veio a falecer e ficaram sabendo por meio de correspondência. Eles me contaram que, alguns anos depois a família aumentou, o primo casou-se cedo, as tias tiveram mais filhos e todos eram muito próximos, até o pai falecer. Ninguém quis aceitar o fardo de cuidar de um adolescente e uma criança pequena, tendo tantas bocas para alimentar, e isso acabou afastando-os. León disse que não deixou que Lorenzo fosse parar no sistema, ele próprio já tinha quase dezesseis anos e conseguiu emancipação quando os completou para que pudesse criar o irmão que, na época, tinha apenas três anos.

— Não os odiamos — defendeu Lorenzo, intrometendo-se na história, ao dar de ombros. — Eles até nos visitam de vez em quando, principalmente a tita Lola, e nós visitamos também. É só que...

— Eles são parentes e natal é dia de família — interrompeu León, virando os espetos. — Sem falar que eles não fazem a porra da questão de fazer parte da família, mas eles que se fodam.

— Mas não os odiamos — insistiu Lorenzo, acabando por rir da ironia da situação. — Sempre que tô perto dos trilhos do Parque das Amêndoas eu faço questão de passar lá na tita e tomar café com ela. Ela é engraçada e eu adoro ouvir as histórias de Cuba, da minha mãe e dos que ficaram pra trás — conta, o volume da voz diminuindo ao mencioná-los, mas logo continua: — É só que né, não podemos contar com eles nos momentos que a gente tá na merda. Tipo, quando o León fez empréstimo pra abrir o bar.

Apesar do comentário triste, Lorenzo pareceu achar graça, porque gargalhou, já acostumado com a toxicidade da família, intocado por ela.

León estalou a língua.

— Porra, nem me lembra disso — reclamou León, desgostoso. — Hijos de puta.

Àquela altura do campeonato, eu já começava a me acostumar com a boca suja do León e, em menos intensidade, do Enzo também. Era curioso vê-los interagir porque, ao mesmo tempo em que León literalmente criou Lorenzo — eu sempre soube disso, mas a perspectiva mudou quando fiquei sabendo que o Lorenzo tinha só três anos quando ficou órfão e León tomou custódia -, eles se tratavam normalmente como irmãos. Havia um detalhe ou outro que era puramente parental, mas a interação era a esperada entre irmãos.

León, então, contou como foi difícil abrir o próprio bar e que ainda que fosse meramente uma espelunca quando comprou a propriedade, era mais cara do que se podia imaginar. Endividou-se por mais de uma década e só conseguiu cessar a dívida há uns dois anos atrás, além de precisar trabalhar dobrado por não ter dinheiro para contratar alguém para ajudá-lo no início, além do Lorenzo, que alegremente brincou que era forçado ao trabalho infantil sem remuneração.

— A remuneração era a porra de um teto sobre a cabeça desmiolada, a pança cheia e os estudos pagos — reclamou León, o nariz torcido, enquanto Lorenzo gargalhava. — Cabrón.

Acabei sorrindo.

Foi naquele momento, bebericando meu refrigerante enquanto os irmãos bebiam cerveja ao rir e compartilhar histórias, que eu percebi que estava onde deveria estar. Ao menos, naquele momento, era ali o meu lugar, ainda que não durasse, ainda que eu mudasse de ideia, ainda que eu voltasse atrás. Minhas decisões não eram supérfluas e eu não estava completamente perdido, pelo contrário, eu começava a me encontrar.

Aquele jardim pequeno, apertados ao lado do Chevrolet de León, com a pequena churrasqueira exalando aroma de carne com temperos, os banquinhos de madeira acomodados em torno de uma mesa improvisada com as demais comidas, resumia o que talvez fosse meu melhor natal em muito tempo.

Porra, aquele realmente havia sido meu melhor natal em anos.

Mais tarde, a gente assistiria os filmes de natal que eram como um ritual para os Hernández e assistiam todo ano, e durante à noite, voltaríamos para o pátio para apreciar os shows de luzes enquanto bebíamos — bom, eu bebia meu suquinho, mas estava valendo.

Eu mal tive tempo para pensar nos tristes natais em família que eu era obrigado a passar com os meus pais naquela casa vazia. Ou nas escapadas que eu fazia para ir para qualquer outro lugar que não remetesse minha família quebrada. Logo, veio o dia vinte e seis e tudo havia passado mais rápido e indolor do que eu imaginei. Em um piscar de olhos, era o último dia do ano e logo depois, o primeiro dia do ano.

Descobri, também, que apesar do natal carregar um significado especial para os Hernández, o mesmo não acontecia no ano novo. O bar era aberto na finaleira do ano e era uma das maiores clientelas do ano, então eu trabalhei feito um condenado na virada, assim como os demais — com exceção de Mandy, que abandonou o barco cedo. E com as faltas dela que, em janeiro, tornaram-se diárias, logo veio a leva de funcionários que trabalhavam um pouco e abandonavam o cargo.

Eu só pude agradecer por haver trabalhado tanto na virada a ponto de não ter tempo de sequer checar minhas mensagens, minhas redes sociais ou stalkear quem eu não deveria. Nem ao menos tempo tive para desejar um “feliz 2020” para quem eu amo, mas cheguei à conclusão de que era o melhor.

Quanto a isto, bom, tudo funcionou da maneira que eu esperava — talvez até demais.

No dia seguinte à minha formatura, depois do meu primeiro dia de serviço, eu respondi a todos durante a noite. Eu ouvi os áudios chorosos do Ian, os xingamentos de Grace, as reclamações dos demais e a preocupação de MJ e Bruno quanto à minha chegada. Eu certifiquei a todos que eu estava bem, a todos que houveram perguntado por mim.

Caleb não foi um deles.

Em algum momento de janeiro, enquanto eu tomava café da manhã, eu respondi as últimas mensagens ofensivas do Mason e, quando vi que ele me respondeu de volta, eu decidi ligar.

— Achei que o Ian era o único privilegiado a receber ligações tuas — foi logo dizendo, e eu suspirei em resposta.

Não é como se eu tivesse escolhas, quando se tratava do Ian, porque aceitar suas ligações era o único que eu podia fazer que o impedisse de pegar um ônibus para me visitar junto dos pais e da pequena Emma. Sem falar que alguém tinha que ouvir os lamentos do Ian a respeito da Grace e do Dan que, à esta altura do campeonato, eram “ficantes” oficialmente, segundo o Ian.

— Quando foi que você deixou de ser tagarela e se tornou debochado? — resmunguei, torcendo o nariz, antes de levar a caneca à boca.

— Quando você começou a acampar na minha casa — alfinetou, e eu acabei sorrindo de canto, orgulhoso por isso. — Por que tá ligando pra mim e não pro Caleb?

Meu sorriso instantaneamente morreu.

Esse tem sido o teor das mensagens ofensivas do Mason, porque ele defendia o melhor amigo com unhas e dentes do vilão, que obviamente sou eu. E ele não está errado, na verdade, nunca esteve.

Engoli em seco.

— Eu já disse, Maze — murmurei, apertando o celular contra o ouvido, ouvindo a porta do banheiro se abrir com um León recém banhado. — Você sabe o motivo.

— E eu ainda não entendo — insistiu ele, bufando. — Você sabe que isso...

— Mason — interrompi, frustrado —, eu já tomei minha decisão.

— É claro que tomou — reclamou ele, outra vez. — Sempre que toma decisões, Caleb acaba machucado, então é óbvio que você tomou uma decisão, senão ele não estaria atirado pelos cantos como se você tivesse morrido.

Meu coração apertou-se ao imaginar a cena.

Fechei os olhos, engolindo em seco, e abaixei a cabeça até encostar a testa na mesa.

— O que você quer que eu faça? — perguntei, tentando manter a calma. — Eu não sei quanto tempo vou ficar aqui. Sinceramente, Maze, você acha mesmo que o melhor pro Caleb é que eu volte atrás?

Por um milagre, percebi que algo nesse mundo era capaz de silenciar Mason, porque ele não disse uma palavra por alguns segundos.

— Eu não sei o que é o melhor pro Caleb — decidiu ele, enfim, e eu ergui a cabeça quando vi que León entrou na cozinha, olhando-me com estranheza. — O que eu sei é que você foi embora, e sabe quem mais vai ir embora em algumas semanas? O Will — contou, e eu congelei no mesmo instante. — O que eu sei é que o Caleb não merece nada disso, muito menos que você nem sequer se dê ao trabalho de avisar pra ele que você tá bem ou perguntar se ele tá bem também. Você não era amigo dele? Você não me disse que era o “melhor amigo” dele também? Então qual é o seu problema?

Senti um nó na minha garganta e no meu coração.

Eu devia ter imaginado que o Will iria embora e nem precisei perguntar para saber para onde, só que depois de dois anos que o namorado dele mora lá, não pensei que dentre todos os momentos do mundo, ele se mudaria para Lydris justo agora.

Senti minhas mãos começarem a tremer e minha visão turvar quando mais uma crise começava a enroscar-se em meu pescoço feito uma cobra.

León serviu-se de café na pequena cozinha e, como se isso fosse o suficiente para me dar espaço e não ouvir minha conversa, ele ficou de costas para mim, apoiado no balcão, enquanto a torradeira esquentava. Me senti grato ainda assim, relanceando minhas próprias mãos trêmulas, e tentando controlar minha respiração.

Pigarreei, tentando fazer descer o nódulo.

— Tem razão — murmurei, pigarreando novamente. — Eu sou um péssimo amigo, eu devo ser mesmo. A verdade é que eu acho que eu acho que sei o que eu tô fazendo e um tempo depois eu descubro que não sei porra nenhuma — admiti, para ele, relanceando as costas do León. — E, se eu for sincero comigo e com você agora, Mason, esse é o motivo de eu estar aqui, longe de vocês. Eu não sei o que eu tô fazendo, eu nunca soube — acrescentei, encarando o líquido preto avermelhado na caneca sem enxergar, de fato. — E essa vida de tentativa e erro, de tomar uma decisão pra depois descobrir se foi a certa ou não, não é algo que eu gostaria de viver perto de quem eu amo porque eu acabo machucando a todos mesmo sem querer. — Engoli em seco. — E eu pensei que aqui, longe de tudo e de todos, eu posso tentar descobrir um pouco mais sobre quais caminhos são certos ou não, e errar no processo de descobrir não vai machucar ninguém porque vocês não estarão aqui. Entende, Maze? — perguntei, mas não esperei uma resposta. — Eu preciso dessa liberdade de me encontrar longe de vocês justamente porque eu vou me perder mais ainda antes que isso aconteça. Eu não sei o que eu tô fazendo e eu não sei se um dia eu vou descobrir, mas o Caleb deveria estar perto de quem sabe. Ele deveria estar com alguém que sabe — dei-me por conta, baixinho. — Ele deveria estar com alguém que não esteja tão perdido. E se isso for pedir muito, então ele deveria estar com alguém que, no mínimo, não o faça se perder junto. Ele devia estar com alguém que não o arraste para o fundo do poço porque, subitamente, o fundo do poço pareceu aconchegante o suficiente. Sabe?

Empurrei a caneca para longe e, de canto de olho, vi que León pegou a xícara de café e a torrada e foi sentar-se no sofá da sala para me dar mais privacidade. Ainda que, bom, a sala fosse separada da cozinha por uma única bancada e não houvesse nada de privacidade nisto.

— Me diga, Mason, eu deveria perguntar ao Caleb se ele tá bem? — perguntei, baixinho, e Mason suspirou do outro lado da linha. — Eu deveria seguir conversando com ele? Deveria mantê-lo na minha vida, sabendo que se eu fizer isso, eu não vou conseguir deixá-lo em paz nunca mais? — insisti, percebendo que minha voz embargou na última frase e eu trinquei a mandíbula. — Mason, cortar o Caleb da minha vida tomou tanto de mim que eu nunca mais vou ter coragem de fazer isso de novo. Se eu ir atrás dele uma única vez, eu não vou conseguir deixá-lo em paz nunca mais. Eu sei que não.

Depois de um tempo, Mason não respondeu, apenas comentou algo que terminou de espremer meu coração:

— Eu sabia que você iria quebrar o coração dele.

Pisquei algumas vezes, olhando para cima, para não chorar na frente do León que, à esta altura, havia ligado a televisão e colocado em alto volume para evitar ouvir a conversa.

— Então eu suponho que tenha sido melhor que fizesse isso de uma vez mesmo — admitiu Maze, depois de tanto pensar, e eu assenti, ainda que ele não pudesse me ver. — Mas você ainda podia ter mandado uma mensagem pra avisar que tá bem.

Suspirei. — Eu não precisei — murmurei, dando de ombros. — Caleb sabe que eu tô bem, que eu tô vivo, que eu tô à salvo. Eu me certifiquei de que ele soubesse — insisti, porque havia me certificado mesmo. — Eu pedi a todos que o avisassem e eu avisei você, porque eu sabia que falar para você era o mesmo que falar pro Caleb. Tô errado?

Mason estalou a língua.

— E a minha mãe? — insistiu ele, e agora eu chegava à conclusão que ele só queria brigar independentemente do motivo.

Pelamor, o que tem a tia?

Depois que eu resmunguei, Mason começou a metralhar palavras e reclamações a respeito do tanto que a tia o incomodou por certificados de vida da minha parte.

Em seguida, a ligação estendeu-se apenas com reclamações do Mason a respeito de uma videochamada que teria que acontecer amanhã para que a tia se certificasse com seus próprios olhos de que eu estava bem. Eu neguei, obviamente, tenho pavor de videochamadas e apenas as uso com a Morgan porque não tenho escolha, mas no fim, com relação a isto, eu também não tive.

As videochamadas com o Mason seriam estranhas e esquisitas e durariam meses, infelizmente, porque ele não parecia querer me deixar em paz. Eu sei que talvez fosse só uma maneira de cuidar de mim pelo Caleb, uma maneira esquisita de cuidar do próprio Caleb em si, da mesma forma que ele fez isso quando me aceitou na casa dele por meses para que eu não largasse o colégio. Ainda assim, era demais para mim. E eu particularmente odiava essas ligações com o Mason por outros motivos mais enraizados.

Mason, em si, era basicamente uma conexão direta ao Caleb. Era isso o que ele representava, como melhor amigo de infância, uma ligação direta ao Caleb. E era por Mason representar isto que, toda vez que ele ligava, eu lembrava do Caleb e eu tinha que lutar contra tudo em mim para não perguntar sobre ele, não saber nada sobre ele e, consequentemente, não correr até ele por querer voltar atrás.

Tomava tudo de mim começar e encerrar uma ligação com o Mason sem perguntar do Caleb em nenhum momento, sem saber se ele estava melhor, sem entender qual era a dimensão da falta que eu fazia, se é que eu ainda fazia falta alguma. Tomava tanto de mim que eu sempre pedia para que ele parasse de ligar, para que a tia parasse de pedir videochamadas, para que eu nunca mais tivesse que passar por essa tentação de voltar atrás. Às vezes, eu me perguntava se ele já havia seguido em frente e se estava mesmo achando impossível viver como se eu nunca tivesse existido. Quando eu pensava sobre isso, me subia uma angústia que me fazia querer chamá-lo correndo para me certificar de que ainda lembrasse de mim.

E o único motivo para que eu precisasse recorrer a isto era uma consequência da minha decisão: o silêncio do Caleb. Eu havia tomado uma decisão, o que, segundo o Mason, era praticamente uma declaração de que havia machucado o Caleb, mas o Caleb havia simplesmente aceitado a decisão que eu tomei.

Ao menos, era isso o que eu podia interpretar do seu silêncio.

Eu imaginei que o Caleb ficaria chateado, quem sabe irado, quando percebesse que eu o excluí de todas as redes sociais, inclusive até mesmo seu número de celular. O que eu não esperei foi que ele simplesmente aceitasse sem qualquer reclamação, sem qualquer mensagem, sem qualquer ligação, nem mesmo por meio dos demais. Era quase como se sequer houvesse percebido que eu o excluí de tudo e, se eu não o conhecesse bem, diria que realmente não havia percebido. Até cheguei a me questionar se eu havia restrito tanto as mídias que eu não receberia mensagens caso ele houvesse enviado, mas logo dei-me por conta que ele ainda tinha meu número. Não havia como bloquear seu número — e eu tampouco faria isso -, eu apenas o deletei, mas eu o conhecia de cor e salteado, e ainda que este não fosse o caso, ele ainda tinha o meu. Ele podia ter mandado mensagem ou ligado e, em último caso, mandado mensagem ou ligado por meio dos demais. Havê-lo excluído de tudo era bem diferente de havê-lo bloqueado de tudo.

Ele sequer tentou.

Eu havia feito uma escolha e o Caleb quietamente acatou.

Eu deveria ficar feliz com isso, aliviado até, mas não foi essa a sensação que tomou conta do meu peito apertado. E eu me debati por noites adentro ponderando o que estava se passando com ele, lá longe, e o que estaria ele pensando de mim. Toda vez que alguém me mandava mensagem, eu ponderava se era ele e, caso não fosse, eu ponderava se carregavam uma mensagem que ele mandou entregar.

Mas nenhuma mensagem veio, direta ou indireta.

Eu o cortei da minha vida e ele simplesmente aceitou.

Com o passar do tempo, eu tive que aceitar que isso era o melhor que podia ter acontecido, e esperar que ele também se encontrasse por conta própria. No entanto, eu também percebi que seria um problema maior para mim do que eu havia inicialmente imaginado. E quanto mais eu percebia isto, mais tornava-se impossível deparar-me com o Mason sem que eu terminasse a ligação prestes a ligar para o Caleb em desespero.

Caleb era extremamente essencial na minha vida, e não era apenas por ser o amor dela, e eu demorei a entender isso. Eu senti que deixei um pedaço meu para trás, uma parte vital, um órgão responsável pelo meu bem estar. E, assim que comecei a me estabilizar em Mallow Coast, cerca de um mês depois que cheguei, eu percebi que foi isso mesmo que aconteceu: eu perdi algo extremamente necessário para o meu bem estar, porque o Caleb era basicamente meu chaveirinho da sorte. Ele esteve ali durante cada passo do caminho, enquanto eu caminhava por brasas de fogo, pelo escuro de um túnel sem saída, pelas nuvens de algodão que pensei sentir nos pés nos momentos em que estive bem com ele. Durante cada trajetória boa ou ruim, Caleb segurava minha mão e dizia coisas em um tom calmo que curavam cada pedacinho da minha alma. Era como se fosse ele quem mantinha minha sanidade, ou o que restava dela, pelos últimos três anos.

Eu já não sabia quem eu era sem o Caleb e, sinceramente, isso nunca fez parte do meu plano, porque eu definitivamente, em todos os sentidos possíveis, não queria descobrir.

Então eu surtava, um pouquinho mais, cada dia.

E toda vez que eu surtava, eu pegava meu celular e pensava em ligar para ele, em implorar por perdão, e pedir que esperasse por mim pelo resto da vida, se assim necessário. Algum resquício de sanidade me impedia, logo em seguida, e assim os dias foram passando. E então as semanas, e então os meses.

A princípio, eu me recusei a falar sobre o Caleb nas sessões com a Morgan, mas como era um tópico delicado, ela retornou a ele algumas vezes e eu fui obrigado a conversar a respeito. Morgan foi neutra, e era essa a parte da terapia que eu odiava: ela não me dava respostas porque não haviam respostas para dar. Ela havia me estimulado a tomar minhas próprias decisões, desde que eu não estivesse tomando decisões disfuncionais, e ela me deixava livre para descobrir se eu concordava com minhas próprias escolhas ou não. Era essa área cinza que eu mais odiava e que me fazia querer, por vezes, não aparecer nas nossas sessões, mas eu sempre voltava.

Eu sempre aparecia.

Nós havíamos começado um novo ciclo de terapia, porque eu não quis — e ela também sugeriu que eu não parasse — abandonar a terapia. E a Morgan, na verdade, teve um dedo em todos os aspectos desse meu reajuste em Mallow Coast. Conversar com ela limpava minha mente e me guiava por uma realidade assustadora: uma realidade feita completamente das minhas próprias decisões.

Sinceramente, ser adulto é uma grande merda.

Quem foi que, em sã consciência, permitiu que eu tomasse minhas próprias decisões?

Eu gostava de pensar, às vezes, que tinha seu mérito.

Por exemplo, minha conquista ao barganhar com o León sobre meu papel de artista em seu bar. Aconteceu uns dois meses atrás, em março, quando ele finalmente cedeu. Ele tinha suas próprias condições, entretanto: eu iria me apresentar de graça, visto que sou inexperiente, no máximo poderia aceitar gorjeta de quem quisesse dar, e apenas me apresentaria em dias que não tivesse movimento e por pouco tempo. Acredito que ele estava com medo que eu espantasse os clientes com minha música inexperiente, e eu tentei muito não me ofender. Seria apenas algumas semanas depois que ele me diria que, assim que eu me aperfeiçoasse o suficiente e ele julgasse que estivesse bom para o público, que pensaria em me pagar por isso e cobrar couvert artístico dos clientes nas noites em que eu me apresentasse. Inclusive, prometeu que montaria uma escala de trabalho específica para isto caso eu me saísse bem.

León não precisou dizer mais nada, isso já era o suficiente para que eu me empolgasse com qualquer perspectiva de vitória.

Veio, então, naquela mesma semana, minha primeira apresentação — e ela não poderia ter sido pior se eu tentasse. Foi um desastre em todos os sentidos. Minha voz craquelou sob pressão dos olhares julgadores — dos clientes também, é óbvio, mas principalmente do meu chefe e dos meus colegas -, eu derramei uma garrafa d’água, no nervosismo, e espirrou nas roupas de um cliente, e as aparelhagens velhas do bar eram tão ruins que eu tive mais problemas técnicos do que imaginei que fossem possíveis. É óbvio que isto me frustrou, mas também foi necessário para que eu me desse por conta que preciso me esforçar mais, e também investir mais, na minha carreira.

Não durou umas duas semanas para que eu começasse a planejar melhores maneiras de manejar o meu tempo.

É por isso que digo que tem dedo da Morgan em tudo.

Era apenas quando eu conversava com ela, nas nossas sessões, que eu conseguia colocar os meus pensamentos em ordem. Quando eu conversava com ela, toda a gritaria da minha mente parecia silenciar ao passo que ela me guiava em uma tour dentro da minha própria mente, ajudando-me a colocar tudo em seu lugar, de volta aos cômodos internos de onde saíram. Apesar de toda a confusão mental, todas as dúvidas que eu tinha sobre minhas próprias decisões, ela sempre reforçava que o mais importante era que eu estava tomando decisões para começo de conversa. E quando eu externalizava minhas angústias para ela, subitamente eu compreendia que a situação não era tão ruim quanto meus demônios me faziam acreditar. Subitamente, eu começava a criar confiança em mim mesmo, nas minhas próprias escolhas, e entender que, se eu quis tanto estar aqui, desta forma, é porque haviam motivos para isto. E que minhas decisões precipitadas não eram tão precipitadas assim.

Bom, não todas.

Havia duas decisões muito específicas que martelavam na minha cabeça porque eu não conseguia concretizá-las e porque, principalmente, eu ponderava se devia concretizá-las para começo de conversa. Elas se encontravam em um mesmo caminho, literalmente.

Tudo começou quando eu comecei a me estabilizar com minha nova vida, ali por março também, quando comecei a me apresentar.

Nos meus dias de folga, quando eu me sentia um pouco enlouquecido, trancado em casa, eu perambulava pela cidade. Acontece que eu tinha pouco tempo para treinar, então as minhas folgas eram destinadas para isso, para tocar violão, escrever e compôr músicas, treinar covers, planejar projetos inacabados. O problema era que isso me limitava a ficar em casa, e quando eu não estava em casa, estava no bar. Às vezes, eu me sentia um pouco maluco, preso, oprimido e tão pouco livre quanto poderia ser, então eu caminhava rua afora.

Eu acabava passando pelo terreno baldio onde ficava o trailer do Dean, mas passava reto, em uma missão, à caminho de um dos meus objetivos ao retornar à minha cidade natal: visitar Agatha. Então eu perambulava, feito um lunático, em torno do Mallow Coast’s Memorial Cemetery, mas nunca conseguia entrar. Atormentado pela minha própria covardia, eu caminhava até o cais que ficava perto dali, e ficava observando o mar enquanto organizava meus pensamentos. Eu havia trazido a garrafa comigo — a coitada viajou de MC para HF, e depois de HF para MC novamente -, e a minha negação era tão grande com relação a essa dor que deixei enfiada na minha mala, sem ousar tirá-la de lá e torná-la real, por meses. E o objetivo era enterrá-la ao lado da minha irmã quando finalmente eu a enfrentasse depois de tantos anos.

Eu sou um adulto, eu devia ser capaz de fazer isto.

Ainda assim, eu fraquejava no último instante e não conseguia colocar os pés para dentro do cemitério.

Essa era uma das minhas decisões duvidáveis e eu tentava concretizá-la toda semana, em todas as folgas, sem nunca conseguir seguir em frente com meu plano. E era aí que surgia a segunda decisão duvidável, porque quando eu retornava para casa, eu novamente passava pelo trailer miserável e, desta vez, voltando derrotado do cemitério — eu sempre voltava derrotado -, eu parava em frente ao terreno e passava alguns minutos apenas encarando-o antes de dar as costas.

Era um ritual estranho, cheio de decisões não concretizadas, mas acabou tornando-se um hábito incomum.

As semanas voaram, os meses passaram, e a gente estava no final de abril quando eu finalmente concretizei uma das minhas decisões duvidáveis. Cada ida ao cemitério gerava uma onda de frustração que eu não conseguia aliviar. Em uma dessas vezes, frustrado por sentir que eu não tinha controle sobre o que eu sentia, a necessidade de culpar alguém pela minha inabilidade de enfrentar meus medos veio à tona, e eu acabei de volta ao terreno baldio.

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Eu marchei em direção ao trailer envelhecido, e nada me preparou pelo que viria a seguir.

É óbvio que enfrentar o Dean não era uma decisão súbita, porque eu a remoía há tempos com tanta coisa entalada na garganta, eu apenas tinha medo que enfrentá-lo não me trouxesse nada de bom, justamente pelo contrário.

A última vez que eu havia visto o Dean na vida foi há pouco mais de um ano, depois que eu reprovei no colégio e fiquei umas semanas em MC com a família. Eu fui atrás dele algumas vezes, mas eu não o encontrei até nos depararmos por acaso em um boteco, onde eu estava com meus antigos amigos. Dean havia posto os olhos em mim e o rosto se iluminou em um brilho estranho, então aproximou-se devagar, analisando-me de cima a baixo e puxou papo furado. Ele perguntou se eu havia retornado para ficar, se eu sentia falta dele e elogiou minha aparência. A interação toda não durou nem três minutos e como eu fui compelido a querer que durasse mais, apesar do amargor na boca, eu cheguei a perguntar se ele estava com tempo. Ele piscou lentamente e disse que era uma pena mas estava de saída, mas que outro dia podíamos “conversar”. Dean, de fato, usou as aspas com as mãos. Então eu vi que um homem do dobro de sua idade o esperava na penumbra da esquina e quando ele o alcançou, eles caminharam para longe há uma distância considerável um do outro na calçada.

Nunca mais tive a chance de vê-lo novamente, até agora.

Talvez fosse porque eu resolvi aparecer aqui na luz do dia desta vez, mas menos de um ano atrás o trailer não aparentava estar tão deplorável quanto agora. A tinta branca estava descascada e havia barro de terra vermelha da chuva por toda a parte inferior do veículo. Haviam marcas de amassado na lataria do trailer, bem como arranhões e sujeira. O próprio terreno descampado era lastimável, com a grama alta e sacos de lixo próximo ao trailer — o mau cheiro chegava até ali e eu podia ouvir as moscas dentro dos sacos mesmo sem vê-las.

Torci o nariz e bati na porta duas vezes.

Quando não obtive resposta, usei um pouco mais de força na batida e ela acabou se abrindo por si só, sinal que sequer estava trancada, então eu a empurrei. Memórias desbloquearam com sucesso e eu descobri que me lembrava do interior do trailer com mais nitidez do que julguei necessário. Chamei pelo seu nome e ninguém respondeu, então acabei entrando por conta própria, apenas para dar uma espiada o suficiente para descobrir se ele estava ali.

E, bem, ele estava.

Por um minuto, eu cheguei a pensar que o homem estava morto de tão imóvel que jazia na cama bagunçada, mas logo entendi que estava apenas drogado. Relanceei os braços furados e a bancada próxima à cama com uma bagunça de pílulas, seringas, pó e erva, além de resto de biscoitos e doces. Aproximei-me o suficiente para cutucar seu pé com o meu. Apesar de estar deitado, suas duas pernas estavam para fora da cama, como se ele houvesse sentado nela primeiro e depois se jogado para trás.

Dean abriu os olhos avermelhados com lentidão e relanceou-me com estranheza, inclinando o rosto um pouco para o lado, erguendo a cabeça do colchão apenas o suficiente para me enxergar um pouco melhor sem que colocasse muito esforço nisso.

— Lembra de mim?

Dean piscou mais algumas vezes e levou tempo em demasia para sequer ter alguma reação, que foi pouca, a propósito: um leve e alterado sorriso no rosto. — Chuchu...

Engoli em seco, sentindo um nó na garganta, um que não deveria estar ali, porque eu devia estar com raiva.

Veja bem, eu estava com raiva.

Eu acabava de voltar do cemitério mais uma vez, engasgado em palavras que eu nunca conseguia colocar para fora, tomado de raiva e frustração e dor. Esse era o motivo de eu ir até ali, na necessidade de vomitar outros sentimentos amargos, ainda que não fossem relacionados com a Agatha. A raiva atrasou minha compreensão dos detalhes que estavam à minha volta: a louça para lavar que atraiu muitas moscas, um saco de lixo que já estava mofado e cheio de larvas, a comida embolorada na panela e a sujeira generalizada daquele trailer. O problema estava longe de ser as roupas sujas atiradas por todo canto, e tampouco a mesa com seringas, pó e prensados de maconha que nada me surpreenderam. Uma coisa é bagunça e outra bem diferente é sujeira, então o gritante era a deploração do local.

E agora eu não apenas enxergava a miséria que envolvia o ambiente, como também a miséria que envolvia o Dean.

Os fios castanho-claros, sempre longos, estavam opacos, oleosos e sem vida. As olheiras não eram tão visíveis porque havia um hematoma de um soco em seu olho direito e seus lábios, ressecados e feridos, também continham um corte com um hematoma multicor. Os braços não estavam apenas furados de agulhas, estavam tão furados de agulhas que os hematomas eram de embrulhar o estômago. E ele estava magro, tão magro que eu podia enxergar sua clavícula na abertura da camisa larga e desgastada. Nesta região também haviam marcas de sucção e eu podia jurar que haviam marcas de dentes também.

Porra, como é que vou sentir raiva de um miserável desses?

— Dean — sussurrei, antes que percebesse —, o que houve com você?

Dean piscou lentamente, mais uma vez, e levantou-se o suficiente para apoiar o peso nos cotovelos e me olhar com olhos pesados. Isso deixou mais evidente a clavícula exposta.

— Alex? — murmurou, a voz rouca e falha, como se estivesse encarando um fantasma. Suspeitei que eu o encarava da mesma forma. — Meu deus, é você mesmo, chuchu.

Pisquei, levemente horrorizado.

— Sim, sou eu — murmurei, distraidamente. — O que houve?

— Como assim? — perguntou, soando realmente confuso. Eu fiquei sem saber como explicar que tudo o que meus olhos tocavam exigia um “o que houve?”. — Ah, isto? — perguntou ele, ao apontar levemente para o olho machucado. Deu de ombros. — Isso não é nada — descartou, distraidamente, como se fosse a coisa mais comum do mundo.

— Quem fez isto com você?

Dean piscou lentamente e deu de ombros outra vez, com um riso fraco. — Quem não?

Senti que a simples energia daquele trailer estava me pesando contra o chão.

— Dean...

Dean colocou muito — muito — esforço para se sentar na cama e, mesmo sentado, o peso do corpo pareceu cambalear um pouco antes que ele ficasse parado, piscando muito. Então analisou-me minuciosamente e levou uma mão para brincar com a bainha da minha camisa.

— Você tá um gato, chuchu — murmurou ele, a voz arrastada, quando me olhou melhor. — Mais afeminado do que eu me lembrava, mas muito mais gostoso — adicionou, a voz craquelada em um sorriso de canto. — Eu não sabia que você podia ficar gostoso desse jeito, senão te manteria por perto.

Engoli em seco, analisando seu comportamento, o cenho franzido em preocupação. Soava como algo que ele diria, mas de forma bem mais arrastada e passiva, e eu tentei identificar qual das drogas ele estava usando no momento. Ele estava lento demais para ser cocaína ou metanfetamina, então talvez fosse heroína ou alguma outra droga opióide — se eu fosse otimista talvez fosse maconha ou só álcool mesmo. Quando desci os olhos para os braços arranhados, no entanto, como se ele houvesse se coçado, supus que era heroína.

— Vem cá, deixa eu te ver mais de perto — sugeriu maliciosamente, as orbes castanhas avermelhadas mal visíveis ao piscar com lentidão.

— Eu não vim aqui pra isto, Dean.

— Não?

Como se recém se lembrasse que sua mão estava enroscada na bainha da minha camisa, ele a puxou e enfiou a mão por debaixo dela, deslizando os finos e gelados dedos pela minha barriga. Estremeci pela intromissão súbita e isso revirou ainda mais o meu estômago, mas eu não fui bruto quando segurei seu braço, com medo de quebrá-lo só de encostar.

— Você não sente mais tesão em mim, bonitão? — perguntou, duvidosamente, com um beicinho. — Perdi meu encanto?

— Nunca — murmurei, forçando um sorriso quando meu estômago embrulhou. — Você é sempre encantador.

— Que isso... — brincou, usando as unhas para arranhar levemente meu peito, já que eu o impedi de movê-la para cima ou para baixo. — Fala mais perto do meu ouvido.

Acabei retirando sua mão dali sem usar muita força, mas ele não pareceu dar muita bola, voltando a usar aquela mão para apoiar o próprio peso cambaleante na cama.

— Sabe, Alex, por você eu faço sem cobrar nada — sugeriu, um meio sorriso, ao apoiar-se mais para trás com as mãos. — Hum?

Acabei negando, tão enjoado que não consegui dizer nada, apenas movi o rosto de um lado para o outro. Eu não queria chorar na frente dele, mas o nódulo na garganta começou a incomodar, e eu tive que desviar o olhar para o trailer deplorável, porque a visão da sujeira conseguia ser melhor que a visão dele em si.

— Eu acho que vou embora — murmurei, mais para mim mesmo do que para o Dean.

Desviei os olhos para ele quando ouvi o barulho de seu corpo caindo de volta no colchão, quase como se estivesse agradecido, porque assim poderia continuar atirado sem mover-se. Ele sorriu, os olhos opacos, ao piscar lentamente outra vez.

— Uma pena — murmurou, parecendo sonolento. — Uma pena mesmo, chuchu.

Assenti, forçando um sorriso de volta, ao passo que eu tentava digerir o que estava acontecendo. Forcei tanto o choro a continuar entalado na garganta que eu senti minha cabeça latejar, pensando em como as coisas tornaram-se assim.

Repassei todos os momentos com aquele homem miserável na minha cabeça, procurando por sinais de que ele estava se encaminhando para este futuro. E eu me odiei um pouquinho por perceber que os sinais estavam lá. Quando comecei a me envolver com o Dean, eu estava tão iludido de paixão que eu sequer ponderei sobre a vida dele, então se eu cheguei a perguntar ou se ele chegou a me falar, eu não devo ter prestado atenção. Durante o tempo todo eu só queria me afundar e me perder nele ao esquecer de toda a minha dor, nunca ponderei se ele tinha alguma dor própria.

Fechei os olhos, balançando a cabeça, porque aquilo não era minha culpa. Eu era uma criança, e ele era o adulto. Eu não tinha culpa nem responsabilidade por isto, era todo o contrário.

Mas, ainda assim...

Eu tenho dezoito anos agora, como ele um dia teve, e não me sinto nada como um adulto. No máximo, uma criança brincando de ser adulta.

Quando voltei a olhar para ele, seus olhos estavam fechados, adormecido como se estivesse morto mais uma vez. Agradeci por isto, porque minha visão havia começado a turvar.

Eu sei que ele vendia drogas naquela época, e que o único que ele gostava de usar era maconha e ocasionalmente cocaína, o resto ele apenas vendia. Também lembro que ele não parava em empregos comuns, que era demitido sempre. E também sei que ele não era uma pessoa reservada, ele conhecia muito gente e ele transava com muita gente também. Ele nunca escondeu isso de mim, mas eu não consigo lembrar de algo que indicasse que ele se prostituísse naquela época. Certamente ele tinha um gosto estranho, porque apesar dele transar comigo, que era mais novo, e com o Stephen, que devia ter a idade dele, todos os outros homens que ele levava para o trailer eram bem mais velhos do que ele.

Será?, pensei, enojado. Será que ele já fazia isso desde então?

Em um instante eu corri para fora do trailer, sentindo-me sufocado com o cheiro de mofo, comida podre e suor, e cambaleei para longe, tentando ao menos chegar na rua antes de colocar para fora todo o meu almoço.

A náusea aliviou assim que vomitei e minha cabeça latejou menos ao passo que eu limpava a boca com as costas da mão. Fechei os olhos, inspirando o ar puro de fora e sentindo o sol aquecer um pouco da friagem do meu coração o suficiente para fazê-lo bater menos dolorosamente.

Quando abri os olhos, não ousei olhar para o trailer uma segunda vez antes de cambalear até em casa.

Notas finais
Não me matem. Falando sobre decisões de caráter duvidoso, aposto que alguns de vocês vão pensar o mesmo sobre as minhas a respeito do rumo de MOS kkkkkkkk. Mas gente, eu juro que eu tô bem lúcida e que algumas coisas, mesmo no improviso, tem funções muito boas para a história KKKKKKKKK. É tipo aqueles nutrientes que a gente precisa comer, é difícil de engolir mas o resultado é bom, tá? O capítulo ficou longo, beeem longo, eu sei, mas é porque é tempo de reajuste para o Alex e tem bastante narrativa, não muito acontecendo. Essa cena final com o Dean ia ficar para o próximo também, mas achei que encaixava melhor aqui, um pouco de adrenalina pra vocês além de apenas narrativa do que anda se passando ahahhaha. Os próximos serão um pouco menores - serão longos, igual, na verdade KKKKK - mas vai ter mais coisa acontecendo. Ok? Eu perguntei sobre o que acharam do Chris antes e agora vou perguntar o que acharam dos irmãos Hernández para distrair hahahaha. Fora isso, sou toda olhos para críticas, sugestões, elogios e xingamentos, não vou guardar rancor de nenhum deles, eu juro. Mas lembrem que amo vocês e que ando atualizando com uma maior frequência KKKKKKKKKKK, beijinhos! Ah, e lembrem que se eu não aparecer até dezembro, ainda assim devo um capítulo de presente em dezembro pra vocês porque sempre presenteio capítulos no meu aniversário! s2 Obs.: tô me sentindo impulsiva, então que tal se a gente tiver um capítulo pro meu aniversário, um de natal e um de ano novo? Como soa pra