Made of Stone
59 XLVI. De todos os recomeços do mundo
Notas iniciais
Fase 4
2020
De todos os recomeços do mundo, esse tem sido o mais doloroso.
É algo que se estende para além do emocional, diretamente para o físico. Eu passei quase as férias inteiras em posição fetal ou apenas horizontal, como fazem os adoecidos. Meu corpo doía facilmente, como se estivesse atrofiando aos poucos — e, apesar de isto provavelmente se dar ao fato de eu ter virado um sedentário completo, eu me sentia inclinado a acreditar que era uma extensão do psicológico torturado.
As horas, os dias, as semanas se arrastaram. E, ainda assim, eu ficava surpreso que as aulas estavam para começar novamente.
O que exatamente eu fiz por quase três meses?
Eu não saberia dizer, mas com certeza conseguiria apontar o que eu estava fazendo um ano atrás, nas férias com o Alex. Ele estava no fundo do poço por ter que repetir de ano, mas ele estava bem aqui, ao meu lado.
E agora ele não está mais.
Agora, ele não está aqui.
É o que importa.
— Caleb, querido — exclamou a tia, com um sorriso surpreso. — Você tá aqui de novo! Entra, entra — chamou, bem vestida, como se estivesse prestes a sair mesmo.
Agradeci e subi quase imediatamente para o quarto do Mason, pulando de dois em dois degraus. Bati na porta infinitas vezes, ouvindo-o resmungar do lado de lá, porque eu sabia que se tentasse abrir, estaria trancada.
Assim que ele abriu, suspirou pesadamente.
Mason havia deixado o cabelo crescer por alguns meses, os fios claros e finos estavam enroscados nas orelhas e no pescoço, e os óculos que ele havia mudado outra vez há umas duas semanas, tinha a armação azul como os seus olhos.
— De novo? — reclamou, sem muita vontade.
— Toda vez — resmunguei de volta, entrando sem muita paciência.
Como de costume pelas últimas semanas, peguei o puff pequeno do pé da cama do Mason e arrastei-o até um ponto específico do lado da cadeira gamer dele. Longe o suficiente para que não estivesse de frente para o computador e ainda assim pudesse ver a tela com nitidez.
— Caleb, esse não é o horário certo — reclamou Mason, embora se mexesse para fazer o que havíamos combinado. — Se você veio até aqui outra vez em um horário errado só pra isso, gastou tempo e fôlego à toa. Eu já disse várias vezes que era pra ser uma vez só, uma exceção só, porque eu não me sinto confortável com toda essa situação, mas agora você quer fazer isso toda semana? — perguntou, retoricamente, e eu revirei os olhos. Mas Mason não queria apenas resmungar, porque ele parou realmente de frente para mim, com as mãos na cintura, apenas para que eu ouvisse o que ele tinha a dizer. — Eu tô começando a ficar preocupado com você, e eu tô falando sério. Pelo amor de Odin, Caleb, até quando você vai...
— Mason, para — interrompi, coçando os meus próprios cabelos, irritadiço. — Você é ou não é meu amigo? — chantageei, engolindo em seco, e Mason estreitou os olhos. — Você me deve isso — apelei, com medo que ele começasse realmente a se negar a fazer isso por mim, mas a culpa veio logo que abri a boca. — Você mentiu pra mim e me omitiu coisas ano passado. Você me deve isso.
Engoli em seco, vendo que ele ficou extremamente sério com o que ouviu, pensou um pouco sem desviar os olhos dos meus, e assentiu com certa chateação.
— Eu não devo nada a você — retrucou, para a minha surpresa, muito sério e muito consciente. Engoli em seco, baixando os olhos para as minhas mãos retorcidas, com vergonha da chantagem. — E você sabe disso, Caleb, porque realmente sou seu amigo. Eu poderia ficar aqui e entrar em detalhes sobre todas as razões que eu tenho pra afirmar que sou seu amigo de verdade e de todos os motivos pra você estar errado em querer me chantagear com relação a algo que não me fez menos seu amigo... — Me olhou pelo canto do olho, empurrando os óculos para cima. — Mas não vou. Depois de me dizer esse absurdo, você não vale meu tempo.
Suspirei quietamente, porque ele tinha razão, e observei a maneira como ele sabia que tinha razão quando empinou o queixo e ajeitou-se na cadeira em frente ao computador. Mason mexeu rapidamente no computador e o som de chamada que veio a seguir fez meu coração acelerar em resposta, mas ele olhou para mim e fez um último comentário.
— É a última vez que faço isso por você.
Assenti, remexendo os dedos da mão.
— Mason?
Senti o coração parar, como sempre fazia, quando ouvi a voz dele sendo projetada pela caixa de som do computador de última geração do Mason. Desviei os olhos para a tela e meu coração voltou a bater com força, fazendo zumbir meus ouvidos, quando visualizei seu rosto em quadradinhos de imagem ruim.
Não importava que Mason tivesse um computador novo e que a webcam conectada em cima fosse top de linha, se o Alex tinha só uma câmera frontal de um celular capenga.
— Eu odeio videochamada — reclamou Alex, o cenho franzido em irritação —, por que tá me ligando assim de novo?!
Alex não estava muito diferente da última ligação, os cabelos bagunçados e o rosto aparentando cansaço, embora sempre parecesse lúcido. A videochamada era ruim, tanto em áudio quanto em imagem, os dois falhavam ou atrasavam, e dependendo do som de fundo, não dava pra distinguir quase nada do que ele dizia.
Desta vez, ele estava no bar novamente. Em outras, ele estava na rua ou no quarto alugado. Como hoje era domingo, fazia sentido que estivesse trabalhando no bar, afinal, era um dia movimentado.
Alex havia conseguido o emprego de ajudante no bar do León, irmão de um antigo amigo dele, Lorenzo, e que permitia que ele se apresentasse também algumas vezes, mas por enquanto sem pagá-lo por isso. Ele também alugou o quarto do amigo dele, que havia vagado porque o tal do Lorenzo estava basicamente morando na universidade em um quarto de estudante, em troca de trabalhar no bar do irmão dele.
E eu sabia os detalhes disso porque estava ouvindo no cantinho do quarto, sem dar um pio e sem aparecer na câmera, durante várias das chamadas que forcei o Mason a fazer. Isto foi depois que Mason me contou que o Alex havia ligado algumas vezes para ele.
Quero dizer, durante dezembro inteiro, eu achei que o Alex havia no máximo trocado algumas mensagens garantindo que estava bem com os amigos mais próximos, e o único com o qual ele se obrigou a manter contato por ligações, por exemplo, havia sido o Ian. Em janeiro, no entanto, enquanto eu reclamava que o Alex não havia entrado em contato comigo nem uma única vez, nenhum sinal de vida, Mason deixou escapar que o Alex sabia que eu sabia que ele estava bem.
Mason me informou que o Alex havia ligado para ele para perguntar como estavam as coisas e que depois disso, a mãe do Mason insistiu em uma videochamada para conversar com o Alex e ele aceitou. E assim se foram duas ligações, enquanto eu não havia recebido nem uma mísera mensagem de texto.
Alex havia me excluído das redes sociais, inclusive, depois de alguns dias longe.
Eu sei que ele não fez por mal, eu sei que ele deveria ter boas intenções, eu sei que ele disse que me ama de maneira genuína. Eu sei que ele só está tentando cumprir a parte dele do próprio pedido de que eu vivesse como se ele nunca houvesse existido. Eu sei que, de alguma forma, ele acha que está me ajudando ao me cortar da sua vida.
Isso tudo é porque ele não entende que o espaço que ele ocupa na minha vida é tão grande, tão cheio, tão fundo, que assim que ele me deixou para trás, aquele espaço se transformou em um rombo gigantesco na minha vida, no meu dia a dia, no meu coração. Ele não entende que eu não poderia simplesmente preencher aquilo com amizades, passatempos, distrações e amor dos demais. Mas isso não é de se admirar, porque o Alex nunca entendeu a extensão da importância que a existência dele carrega, que dirá entender a relevância da sua própria presença na vida alheia.
Não é culpa dele que ele pensasse ser possível viver minha vida sem ele, eu sei que não é culpa dele. Mas eu ainda assim sinto rancor, porque sou eu sofrendo com as decisões dele, e uma dor assim não pode simplesmente não ter um responsável.
— Você tá com uma cara horrível — comentou Mason, e eu estreitei meus olhos para ele, mas ele ignorou.
— Obrigado, Maze, um amigo é um amigo né — debochou, sem muita paciência. — Talvez seja porque eu tô cansado e porque você vive me ligando nos momentos mais inoportunos possíveis só pelo seu bel-prazer — provocou, arqueando uma das sobrancelhas.
— Talvez você não devesse atender então — disse Mason, simplesmente, enquanto eu me dividia em odiá-lo por dizer todas as coisas erradas e em admirar cada segundo do Alex que eu possuía. — O que anda acontecendo de novo aí?
— Muito obrigado, Mason, vou lembrar disso da próxima vez — ironizou de novo, realmente parecendo muito cansado ao dizer isso. Esfregou o rosto rapidamente. — Hã, o que tem de novo em menos de uma semana? Deixa eu ver... Nada! — informou, dando de ombros. — Absolutamente nada de novo! Eu sou pobre agora, logo, trabalho o dia todo só pra ter o básico como moradia e comida. Todo dia é a mesma coisa, o que mais eu posso dizer? — perguntou, rindo sem achar graça. — Eu tô cansado, não dormi direito, porque hoje vou me apresentar e ver se ganho umas míseras notas com isso. Treinei ao invés de dormir e só ando fazendo cover porque minhas músicas tão todas inacabadas. Bom — resmungou —, quase todas.
Senti meu coração acelerar ao ouvi-lo mencionar as músicas, porque eu sabia exatamente qual estava acabada. Eu sabia exatamente qual estava composta por completo, eu a tinha desenhada na minha memória, como se eu pudesse ouvi-la naquele momento. Eu conseguia pensar naquela melodia e ser arrastado de volta para aqueles nossos dias perfeitos, isolados do mundo, só nós dois em nosso pequeno universo. Eu conseguia ser teletransportado agora para a primeira vez que ouvi.
Senti os olhos marejarem e a garganta fechar, mas tentei não fazer nenhum movimento para não atrair a atenção do Mason.
Alex também fez uma pausa curta no que dizia, mas logo engoliu em seco, e continuou: — Eu nunca termino o que começo, o que parece ser um lema da minha vida agora. O que eu terminei de compôr, não coloquei letra. O que tem letra, não tem composição. Se tem os dois, eu fiz só uma parte. É assim que funciona minha vida agora.
Um som de risadas e cadeiras arrastando se fez ouvir de longe e a atenção do Alex foi desviada brevemente.
— Se o León ver que eu tô no celular de novo no horário do serviço, ele me mata — reclamou ele, olhando para os lados com uma careta. — Ô homem carrancudo da porra!
Mason ajeita os óculos novamente.— Eu só queria saber atualizações do seu estado atual, para tranquilizar minha mãe e os demais.
— Porra, mas toda semana?! — reclamou, suspirando em seguida, com uma careta. — Sou muito grato pela tia, mas diz pra ela se tranquilizar, tá bom? Eu não vou morrer de uma semana pra outra, a não ser que eu seja muito azarado — resmungou e então, parou para pensar um pouco, e a careta se aprofundou. — Talvez eu seja, mas gosto de pensar que as coisas melhoraram um pouco. Alegria, alegria — cantarolou meio resmungado, forçando um sorriso. — Positividade, alegria, namastê.
Mason ergueu uma das sobrancelhas, julgando. — O que é isso? O que você tá fazendo?
— Morgan tem dito para eu olhar as coisas de todas as perspectivas, o que é uma maneira bonita de dizer pra eu olhar pelo lado positivo e deixar de ser tão pessimista — explicou, nas próprias palavras.
Ouvir aquilo me deixava aliviado, apesar do próprio Ian já haver nos contado — aos que ainda não sabiam, já que todos eles conversavam pelo menos de vez em quando com o Alex, menos eu —, que o Alex seguia com a terapia via online. É claro que ele diria isso mesmo se não fosse verdade, para não preocupar ninguém, mas ouvi-lo mencionar algo assim a respeito da Morgan era genuíno demais para ser fingimento.
Me permiti sentir aliviado com isso também, era mais um ponto de preocupação com relação ao Alex que eu podia soltar. De pouco a pouco, eu soltava esses pontinhos que me impediam de deixar Alex ir, como as pontas de uma rede de pesca, porque não confiava nele sozinho no mundo e tinha medo dele se perder em mais de um sentido por aí.
Eu me perguntava quando é que eu soltaria o último.
E o que aconteceria quando eu soltasse.
— Sem falar que o León vive reclamando, porque é só o que ele faz o dia inteiro, que eu sou muito reclamão! Olha a hipocrisia! Aí eu tenho que atender cliente mal-educado com um sorriso no rosto, mas quando são filhos da puta com ele, ele pode ameaçar chutar a bunda deles para fora do bar só porque ele é o dono!
Quando ele terminou de falar, uma mão que pareceu pesada esbofeteou os cabelos já bagunçados do Alex e ele resmungou alto.
— Eu sou o dono, eu posso tudo — disse uma voz grossa e com sotaque pesado, mas eu não pude ver o rosto dele direito, porque apenas passou por trás do Alex ao esbofetear a cabeça dele e sumiu do outro lado. — Se tem tempo de falar merda do teu chefe, tem tempo pra limpar a porra das mesas. E se me incomodar demais, chuto você pra fora daqui!
— Otário! — reclamou Alex, alto o suficiente para ele ouvir.
— Agora! — ordenou o tal do León.
Mason e eu nos entreolhamos antes de voltar a olhar para a tela, a tempo de ver Alex revirar os olhos. Não me parecia uma relação muito saudável, mas também não me pareceu muito do contrário. Era mais como se eles estivessem confortáveis se xingando e que as ameaças do León soavam vazias de pretensão.
Alex voltou-se para a câmera com uma cara de “viu só?”.
— Vou ter que desligar, Mason — informou, de maneira óbvia, e eu me senti murchar pelo tempo curto dessa vez. — E pelamor — acrescentou, sem muita paciência —, para de me ligar tanto, não tenho tempo pra isso, e diz pra tia que eu tô bem. Se acontecer algo comigo, ela vai ficar sabendo logo. Notícia ruim sempre chega rápido — resmungou, e eu senti um calafrio me subir à espinha pela simples menção de algo acontecer com ele e essa notícia chegar a mim. E eu o odiei por sequer jogar isso no ar. — Ah, e...
— E o quê? — perguntou Mason, ajeitando-se na cadeira.
Alex encarou o celular por um tempo e suspirou.
— Tá tudo bem, por aí, né? Todos tão bem? — perguntou, de forma vaga, ao coçar o nariz.
— Sim, tá todo mundo vivo — especificou Mason, um tanto desconfortável, comigo ao lado.
— Certo. Que ótimo. Eu... — começou, mas se impediu, coçando os cabelos. — Eu não preciso saber os detalhes, eu só preciso que todos estejam bem.
Mason assentiu, quietamente. — Não sei qual teus parâmetros para “bem”, mas posso informar que ninguém adoeceu, morreu ou desapareceu.
Alex riu, mas o sorriso não chegou nos olhos. — Ótimo!
— Desliga essa merda e levanta a bunda daí antes que eu te demita, porra! — berrou León, muito próximo da ligação, desta vez irritado de verdade.
— Já vai, caralho! — gritou Alex, soltando o ar pela boca com irritação. — Tchau, Maze!
Alex mal havia terminado de dizer o nome do Mason quando a ligação foi interrompida em seguida. O rosto dele congelado e borrado antes de desligar se demorou poucos segundos na tela antes de sumir por completo, e eu me senti mais uma vez vazio.
Engoli em seco.
— Valeu, Maze — agradeci, olhando para os meus próprios pés.
Mason suspirou, ficou um tempo em silêncio também, e em seguida dirigiu-se a mim: — Eu acho que se ele cortou todo e qualquer contato com você, Caleb, era pra que ficasse mais fácil que você seguisse em frente — comentou ele, sem olhar para mim, com seriedade. — Como você vai fazer isso se toda semana tá acompanhando a vida dele por videochamada?
Fechei a cara, irritado, ao me levantar.
— E você acha mesmo que eu deveria simplesmente seguir em frente assim, sem mais nem menos? — reclamei, sentindo o sangue ferver. — Você só diz isso porque não foi a Cristina que te deixou pra trás e te cortou da vida dela. Se fosse, Mason, você seria capaz até de hackear o computador dela, se eu bem te conheço!
Não esperei por uma resposta, virei as costas, tremendo mais do que pinscher com raiva, e desci as escadas correndo antes de sair e marchar em direção à minha casa. No meio do caminho, aconteceu alguma coisa, porque a raiva resultou ser apenas uma máscara para outro sentimento, um que me fez chorar feito uma criança desamparada nas ruas até chegar em casa.
Ninguém entendia.
Mason não entendia.
Alex certamente não entendia.
Eles não entendiam o que eu havia perdido de verdade, o vazio que me atormentava, e Alex não entendia o que ele havia tirado de mim. Eu também não entendi, a princípio, durante os primeiros dias, mas logo bateu à porta a dimensão da merda na qual eu me encontrava. E eu não falo do Alex ir embora, porque por mais que odeie a ideia, eu ainda acredito que ele precisava disso. Eu falo dele haver se cortado por vontade própria da minha vida, e o pior: contra a minha vontade.
E nesses momentos de repassar tudo na minha cabeça e me perguntar o porquê de eu estar nessa situação de merda para começo de conversa, eu me questionava se aquilo era mesmo amor. Se realmente havia sido genuíno quando ele disse que me amava, sendo que no minuto seguinte ele estava indo embora para não mais voltar e nem sequer olhar para trás por tempo suficiente para me mandar a merda de uma mensagem.
Se ele me ama como eu amo ele, então não deveria doer nele tanto quanto doía em mim?
Não era isso o que eu via em todas as chamadas.
E havia algo que não passou desapercebido por mim em todas elas: ele nunca, em momento algum, mencionou o meu nome. Em momento algum perguntou de mim. Em momento algum quis saber se eu estava mais do que “vivo”, se eu não estava quem sabe desejando não estar. E não era porque ele não queria que eu ouvisse — ele não sabia que eu estava ali, ele simplesmente não quis saber de mim.
Mason disse que ele me mencionou na primeira ligação, convenientemente quando eu não estava junto, quando Mason perguntou por que ele não havia, pelo menos, me informado que havia chegado bem e estava à salvo. Alex respondeu que sabia que eu sabia que ele estava bem, porque pediu a todos com quem conversou para compartilhar a informação com todo o grupinho, para se certificar que eu soubesse.
E isso é tudo.
Eu mereço apenas isso.
E isso é amor?
Eu não deveria ficar surpreso, afinal, eu sempre soube que nada de bom vinha de amor romântico, de relacionamentos amorosos, de paixões em um geral. Enquanto os filmes retratam como algo lindo, inquebrável, puro, eu bem sabia que a realidade era o contrário.
Amor tem cheiro de cigarro e gosto de cachaça, tem a textura de sangue e faz sentir como a pulsação de uma ferida aberta.
Isso é amor.
*
No dia seguinte, as aulas começaram e eu inventei uma doença para não precisar sair de casa. O destino é tão cruel que, enquanto eu encarava o teto do meu quarto no primeiro dia de aula, abraçado no meu cachorro caramelo, eu me dei por conta que o Alex também não estava lá no primeiro dia letivo do ano passado. E agora eu entendia como ele devia se sentir.
Pudesse, eu também faltei a primeira semana inteira de aula, porque eu também preferia dormir.
Tudo havia mudado e eu estava completamente sozinho.
Ao menos, era assim que eu me sentia.
O ano começou com um segundo baque que eu ainda tentava digerir, não bastasse ter que lidar com a partida do Alex: a partida do Will. Meu irmão finalmente se formou na faculdade, passou para um mestrado na UFLY e acabou tomando a decisão que todos já esperávamos: mudar-se para Lydris, junto do professor. Não faz nem duas semanas que ele juntou as coisas e levou sua vida toda em uma viagem de ida apenas.
Algumas das suas coisas ficaram, e nós levamos uma semana depois em uma esquisita viagem em família. Eu, a mãe e o Theodore.
Não foi de todo ruim, afinal, foi bom ver que meu irmão está muito bem. O apartamento onde ele está vivendo é muito bonito, e parece um pouco caro demais para o que ele poderia pagar, mas estando com um coordenador de universidade agora, fazia sentido. Eles também adotaram um gatinho, o Smaug, e eu fiquei mesmo muito feliz pelo Will — se havia alguém nesse mundo que merecia uma vida estável, saudável e feliz, era o meu irmão.
Haviam certas coisas, certas dores, por assim dizer, que eu e meu irmão compartilhávamos. Quando vi o filhote arranhando o sofá novo deles, eu não pude deixar de trocar um olhar significativo com o Will, porque nós sabíamos que aquilo era um sonho de infância nunca conquistado, tanto o Magic quanto o Smaug, por conta de não termos permissão de ter animais quando crianças.
Acho que eu nunca vi meu irmão tão bem, e isso me deixava feliz, mas também me fazia sentir pesado. Dentre todos os momentos do mundo para que ele alavancasse no sucesso, felicidade, estudos, carreira e amor, tinha que ser quando eu estou no fundo do poço?
Eu não podia deixar de sentir que eu jamais teria aquele brilho nos olhos que ele tinha, os mesmos olhos que refletiam os meus apagados.
Quando minha mãe insistiu que eu ficasse lá por mais tempo que apenas um final de semana, eu só pude negar. Não conseguia imaginar passar uma semana inteira com o casal feliz — que, inclusive, estava semi noivo, como Will nos contou tão graciosamente. Eu preferia voltar para casa com o outro casal feliz, porque ao menos esse era mais conservado ao meu lado e não estavam de férias, então trabalhavam o suficiente para que eu não tivesse que ver sua felicidade o dia inteiro.
E agora eu estava fadado a ficar sozinho com eles.
A verdade é que eu sentiria mais falta do meu irmão do que poderia contabilizar, e ele também deixou um vazio. Em alguns aspectos, melhor do que o vazio do Alex, porque o Will sempre estaria presente na minha vida, ele jamais nos abandonaria. Inclusive, ele está presente demais, a julgar pelas mil mensagens que me manda diariamente. Mas em outros, como o fato de eu viver sozinho agora com minha mãe e Theodore, era um vazio ainda maior.
Era um buraco negro em meu peito, que apenas aumentava.
E, quando eu coloquei os pés no colégio pela primeira vez, no primeiro dia da segunda semana de aulas, eu senti que estava caminhando para um destino cruel. Durante três anos, eu entrava por aquele portão com a esperança de ver o Alex, e agora eu estava fadado a jamais encontrá-lo ali novamente.
Foda-se que escola é para estudar!
Era o nosso ponto principal de encontro.
Senti um desgosto profundo, uma amarguez na boca e no coração, enquanto dava os mesmos passos que havia dado ali antes, só que sozinho. Cada cantinho daquele colégio me lembrava dele, eu tinha memória em cada um deles, não tinha como fugir de nenhum.
Parecia que eu havia entrado em um mundo preto e branco, um cinza insuportável que manchava até mesmo minha pele. Nada seria o mesmo sem ele ali, absolutamente nada, mesmo em cenários exatamente iguais.
Eu cheguei atrasado de propósito, para não ter que perder tempo conversando com meus amigos no costumeiro chafariz, onde ele não estaria, revivendo memórias a respeito dele ou pior, conversando sobre suas vidas como se o Alex, de fato, nunca houvesse existido. Então, quando cheguei e o sinal tocou, eu caminhei diretamente para a aula, apenas acenando brevemente para os meus amigos ao longe quando me viram. Mason, Ian, Dan e Grace correram na minha direção, já que estudavam na mesma turma, e todos me dirigiam um olhar compassivo que odiei. Com exceção do Ian, cujo olhar era mais deprimente ainda, e talvez precisasse do meu olhar compassivo.
Ao menos, me senti grato que nenhum fez comentário algum que envolvesse o nome do Alex. Não que houvesse tempo também, visto que a aula já começava.
Já havia se passado, acredito eu, metade das aulas da manhã quando eu me dei por conta que não saberia dizer nem quais matérias estávamos tendo. Isso não podia ser normal, pensei mais tarde, mas o pensamento não durou muito, porque minha cabeça novamente voou para longe dali.
— Caleb, você vem? — chamou Grace, a mão em meu braço me despertando.
Pisquei, passando a mão na testa, ao ver todos se locomoverem para fora da sala.
Ah, é o intervalo.
— Não sei, podem ir na frente — falei, fazendo um gesto vago em direção à porta.
Grace hesitou, entreolhando-se com os demais, mas assentiu e seguiu para fora da sala junto deles. Eu suspirei pesadamente, esperei alguns segundos ao ver o restante da sala sair de manada e levantei também, pensando que eu devia tomar decisões diferentes na minha vida.
Se eu reclamava — para mim mesmo — sobre estar sozinho, eu devia evitar estar sozinho, e seguir meus amigos.
Quando saí da sala, meu coração foi apertando aos poucos como se estivesse sendo pressionado, porque eu sabia que não encontraria o Alex no intervalo. Haveria um espaço vazio no chafariz, e meus amigos comentariam que sentem a falta dele, e também ao menos um deles deixaria escapar o que anda rolando com o Alex porque eles mantém contato, e eu teria que me sentir como se...
— Caleb!
Pisquei, virando para deparar-me com um garoto que me analisava de cima à baixo, tentando identificar quem era. Em seguida, olhei para a sua mão no meu braço, tentando processar as informações.
Ele me soltou rapidamente.
— Desculpa — pediu, com um riso nervoso. — Eu te chamei algumas vezes e você não pareceu ouvir. Eu não tô louco, né? — questionou, os olhos castanhos alargando-se, como se algo recém cruzasse sua mente. — É mesmo você, não é, Caleb?
Arqueei as sobrancelhas, tentando reconhecer quem era aquele garoto aleatório, mas não conseguia desvendar de onde eu o conhecia. Seu rosto era estranhamente familiar.
Como se ele percebesse que eu o reconheci minimamente, uma possível confirmação de quem eu era — já que eu estava perdido demais para assentir -, ele sorriu e colocou a mão no próprio peito.
— Chris — indicou a si próprio, para me ajudar. — Christopher Forbes.
Levei poucos segundos antes de arregalar os olhos.
— Chris!
Ele abriu um sorriso largo ao passo que eu o percorria com os olhos, tentando unir a imagem que eu tinha dele com a que eu enxergava agora.
Eu reconhecia os olhos amendoados da cor do chocolate, assim como sua pele de cor parecida, e os cabelos pretos ainda eram usados da mesma forma que quando criança: ralos, os caracóis quase raspados por completo. Quando ele sorriu e inclinou o rosto para o lado direito, de uma maneira muito nostálgica, eu reconheci o que eu via.
No entanto, todo o demais era novo.
Ele havia crescido — obviamente, depois de uns sete ou oito anos sem vê-lo — e estava ainda mais alto que eu. As bochechas rechonchudas da infância haviam sumido por completo, bem como os óculos quadrados que tapavam — naquela época — metade delas. Eu também podia jurar que aquela covinha no queixo era inexistente na versão dele da minha memória, mas me alegrei ao perceber que os dentinhos da frente seguiam separados.
— Você tá... aqui — consegui murmurar, surpreso demais.
Chris assentiu, antes de fazer uma careta parecida.
— E você também — afirmou, com um tom questionador —, o que é bem curioso, porque eu já tinha me convencido que não te encontraria aqui de novo.
Franzi o cenho. — Por quê?
Chris deu de ombros, ainda com um olhar questionador.
— Porque eu não te vi aqui na semana passada — explicou, e eu finalmente entendi. — E olha que eu te procurei — riu, parecendo sem jeito.
Ah, certo.
Eu não estava aqui porque não queria estar aqui sem o Alex, e agora eu também me arrastava para fora da sala porque eu também não queria estar aqui sem o Alex.
Arqueei as sobrancelhas, quando finalmente prestei atenção no que ele disse, atrasado. — Procurou?
— Claro — afirmou, como se fosse óbvio. — Você era meu único vínculo com esse colégio. Eu vi que tem um pessoal aqui daquela época, mas eu só era próximo de você — relembrou. — Então quando você entrou na sala hoje, eu quase nem acreditei. Esperei o intervalo pra falar com você e aqui estou.
— Ah — murmurei, brilhantemente. — Eu não tinha te visto.
Se eu parasse para pensar, eu realmente não vi nem ele nem ninguém. Por um momento me questionei se haveriam alunos novos na sala, algo que eu sempre gostaria que acontecesse nos outros anos, como se alunos novos significassem mudanças. E mudanças eram desejáveis naquela época.
Não mais.
— Tudo bem — respondeu ele, um tanto sem jeito.
Sinceramente, me senti um pouco culpado. O menino chegou todo empolgado para falar comigo e relembrar memórias de infância, e a animação dele foi morrendo pouco a pouco ao provavelmente notar minha ausência de espírito.
Engoli em seco, inspirando fundo, e me forcei a não deixar morrer a conversa assim. Afinal, era mesmo curioso e interessante que ele houvesse voltado, e se eu estivesse em meu estado de espírito normal, eu iria querer saber mais sobre isso. Sem falar que era bom que eu mantivesse minha mente longe das perturbações diárias, e ele havia me distraído momentaneamente delas.
— Então seus pais voltaram? — perguntei, forçando um sorriso.
Chris sorriu de volta, e eu vi que a animação começou a retornar aos poucos.
— Acho que é a cidade — comentou, ao dar de ombros.
— O quê?
— Hybridfield — especificou, sorrindo. — Todo mundo que conheço que saiu daqui sempre acabou voltando. E agora chegou minha vez, eu acho.
Pisquei, sentindo um nódulo se formar na minha garganta com aquele comentário que nada tinha a ver com o Alex, mas como tudo, eu fazia girar em torno dele.
Nem eu me aguentava mais.
Pigarreei, sorrindo forçadamente, e parei para analisá-lo.
Chris era meu melhor amigo quando a gente era pequeno e lembro que eu tinha uns sete ou oito anos quando ele foi embora. A gente estava sempre grudado, mas eu não lembro tanto daquela época porque eu era muito novo, acho que passamos um ou dois anos juntos no colégio, desde os seis. Quando ele foi embora, eu fiquei um ano inteiro sem amigo nenhum, e no ano seguinte o Mason apareceu, e no próximo, o Ian.
Que estranho vê-lo de novo.
— Credo, eu não mudei tanto assim — disse ele, coçando os cabelos, sem jeito com a maneira que eu o analisava.
Desviei o olhar no mesmo instante, sentindo as orelhas arderem, quando me dei por conta.
— Desculpa — pedi, sem graça, mas ele riu —, é que eu realmente não te reconheci logo de cara. Mas eu tenho a memória ruim, então...
— E eu achando que nem memória ruim te faria esquecer do teu melhor amigo do mundo todo — desdenhou ele, com um indício de um sorriso, olhando-me de canto.
Acabei rindo sem entender, e ele também, e foi aí que lembrei.
— Ah. Ursinho Pooh — mencionei, assentindo ao me recordar.
— Não, esse é você — apontou ele, com um sorriso largo, antes de apontar para si próprio —, eu sou o Tigrão.
— Eu lembro.
Um silêncio constrangedor se instalou, mas ele não deixou que se estendesse. Apontou para mim vagamente, antes de colocar as mãos nos bolsos da calça, parecendo tão desajeitado socialmente quanto eu, que não tinha bolsos para enfiar as mãos.
— Creio eu que minha memória seja muito boa então, porque eu te reconheci logo que pus os olhos em você — comentou, os olhos castanhos percorrendo meu rosto. — Você não mudou nada, Caleb.
— É, ouvi dizer — murmurei, sem graça. — Mas, hã, você tá um pouco diferente.
Ele fez uma careta, apontando para o próprio rosto.
— É o óculos? — questionou, com graça. — Consegui me livrar dele dois anos atrás. Você lembra daquele troço? — falou, arregalando os olhos, e eu supus que ele se referia ao fundo de garrafa que usava como lente. — Minha miopia só piorou com o tempo, e eu consegui fazer cirurgia antes que tivesse que usar uma cratera como lente!
Acabei rindo.
— Então você não tá usando lentes de contato? — brinquei, dando uma olhada nas orbes de chocolate.
— Não — riu —, mas eu ainda preciso usar óculos para leitura.
Escondi os lábios antes de arriscar perguntar: — Removeu as bochechas cirurgicamente também?
Chris gargalhou, negando, mas tive a impressão que seu rosto corou um pouco.
— Não precisei — respondeu, inclinando o rosto para o lado outra vez, e eu percebi que era uma mania. — A puberdade me livrou delas. Aparentemente quando espichei, minhas bochechas também espicharam comigo.
Antes que eu respondesse, vi o Mason me chamar, próximo ao chafariz com os demais.
Apenas naquele instante percebi que era aquele momento que eu evitava tanto ao sumir durante toda a primeira semana de aula — e que a súbita aparição do meu amigo de infância amenizou um tanto a agonia no meu peito. Mas ela ainda estava ali, pulsando ainda mais quando meus olhos não encontraram o membro que faltava da nossa panelinha naquele cenário. Desviei o olhar de volta para o Chris e quando percebi minha mão já estava massageando meu próprio peito para amenizá-la.
— Você tá bem? — questionou ele, confuso, antes que eu deixasse minha mão cair. Assenti mecanicamente, forçando outro sorriso, como estava me habituando a fazer. — Bom, então vou te deixar voltar pros teus amigos, a gente pode botar o papo em dia depois. Não é?
Relanceei, mais uma vez, meu grupo de amigos. Mason dirigia um olhar desconfiado para o rapaz à minha frente, como era de se esperar, mesmo lá de longe.
Eu não queria ir até lá.
Eu não queria mesmo.
— Você... — comecei, pigarreando em seguida. — Você tem com quem passar o intervalo? — Chris arqueou as sobrancelhas. — Quero dizer, você estudava aqui, mas ainda assim você é aluno novo igual.
Ele coçou a cabeça, e eu jurei que as suas bochechas se coloriram outra vez.
— Na verdade, não exatamente — disse ele, parecendo desconfortável. — Naquela época, eu só andava com você. Ainda tem um pessoal aqui daquela época, né? — comentou, um tanto sem jeito. — Um deles me reconheceu, mas é estranho, a gente não se misturava com eles.
Assenti.
— Eu ainda não me misturo — admiti, dando de ombros, e ele sorriu. — Não tô afim de pegar sol hoje — menti, porque era a única desculpa que pensei em usar para não ir até o pátio descoberto. — A gente pode passar o intervalo ali na sala mesmo se você quiser, aí a gente coloca a conversa em dia. Pode ser?
Christopher abriu um sorriso genuíno e assentiu. — Pode, sim.
E foi assim que me reuni com meu amigo de infância.
Confesso que durante a conversa eu perdi metade das coisas que ele disse, um tanto distraído, mas a outra metade eu peguei porque estava me sentindo culpado de não prestar atenção e me forcei a isso.
O básico eu entendi: sua mãe era psicóloga infantil e não estava conseguindo muitos trabalhos na cidade de interior para a qual se mudaram, então demoraram mas conseguiram uma transferência de ambos o pai e a mãe de volta para cá. Ele ficou triste com a separação dos amigos lá, mas tinha muitos famíliares aqui na cidade, e não se importava com um pouco de mudança. Também comentou algo a respeito de gastar seu tempo lendo livros de romance e fazendo aula de teatro, que começou a fazer ainda mais novo para perder a timidez.
De resto, perdi os detalhes, mas não importou.
Minha cabeça se manteve ocupada, e amanhã seria um novo dia.
*
Eu não sei em que momento adormeci.
Me atirei no sofá, enquanto Magic dormia no outro, e em algum momento do filme no qual eu não prestava atenção, eu decidi fechar os olhos porque ficaria melhor de mergulhar nos meus pensamentos perturbados, sem as imagens desconexas do filme me atrapalhando.
Eu devo ter caído no sono, talvez fosse um misto do volume alto do filme de ação, semelhante às músicas altas que me faziam dormir, e o ronco do meu cachorro ao lado.
Mas eu cometi o erro de adormecer no sofá da sala.
Que trauma.
— Desculpa, desculpa — pediu Theodore, as sobrancelhas arqueadas em surpresa e um tanto de culpa. — Eu não quis te assustar, eu só ia te cobrir.
Eu podia ter infartado ali mesmo.
Acordar com a figura alta do meu padrasto na minha frente, em frente à televisão, inclinado na minha direção com uma manta, foi o suficiente para que eu levasse um susto épico. Eu dei um pulo tão grande para trás que o Magic acordou no desespero e começou a latir sem entender de onde vinha o perigo que eu anunciava.
Sem falar que o próprio Theodore também se assustou com o meu susto. O coitado só queria me cobrir com uma manta, um gesto de consideração, de carinho, algo que minha mãe faria. De alguma forma, ainda era estranho, mas eu sabia que a intenção era boa.
Eu me inclinei para frente para me acalmar, sentado no sofá, um braço cobrindo a barriga revirada, até que minha testa estivesse quase nos joelhos. Respirei fundo algumas vezes, o pedido de desculpas e explicação do Theodore ao fundo, e tentei fazer meu corpo parar de tremer — ao menos, tão evidentemente, para que pelo menos passasse desapercebido pelo meu padrasto.
— É só que um vento frio tá vindo de fora e eu não quis fechar a porta por causa do M — comentou, apelido que ele usava para o Magic. — Então decidi te cobrir. Não quis mesmo te assustar, Caleb, me desculpa.
Balancei a cabeça de um lado ao outro, mas continuei na mesma posição por um tempo, tentando acalmar as batidas do meu coração. — Não tem problema, tá tudo bem.
Minha mãe chegou uns minutos depois, com o restante das compras, já que eles haviam chegado do mercado e eu sequer vi. — O que houve? — perguntou, preocupada ao me ver na posição fetal na versão sentada.
O pobre do Theodore tinha uma expressão sofrida de quem havia acabado de tentar matar meu cachorro diante dos meus olhos ao invés de simplesmente ter me dado um susto involuntário ao fazer um gesto de carinho. Me senti mal por ele, e piorou quando eu vi o rosto preocupado da minha mãe, sabendo que os dois sempre pisavam em ovos comigo e com o Will, como se meu padrasto tivesse que seguir se provando o tempo todo.
Não era justo com ele, mas as coisas simplesmente eram assim.
— Ele tava dormindo, eu fui cobri-lo e ele se assustou — explicou, ainda com uma expressão sofrida.
— Não foi nada — defendi, ajeitando minha postura. — É só que eu tinha acabado de comer um monte antes de cair no sono e meu estômago revirou — menti, com uma careta. — Não foi nada.
Algo na expressão da minha mãe me alarmou, mas sumiu tão logo apareceu, quando ela forçou um sorriso e correu para amparar tanto eu quanto Theodore. Seus olhos esverdeados, no entanto, focaram algumas vezes nos meus punhos cerrados, que eu não ousei abrir para não demonstrar que estavam trêmulas feito galhos em dia de ventania.
— Já passou — disse ela, acariciando meu rosto. — Se acalme primeiro e depois venha nos ajudar com as comprar, tá bom?
Engoli em seco, mas assenti, um tanto agradecido mas um tanto receoso por ela ter me lido feito um livro. Esperei alguns instantes e quando voltei ao normal, fui ajudá-los.
— Seu irmão me disse que você não atendeu as ligações — comentou minha mãe, com uma sobrancelha arqueada, assim que Theodore se retirou para tomar banho. — É capaz dele aparecer aqui só pra checar se você tá bem.
Revirei os olhos.
— Ele anda fazendo check-up diário, dramático do jeito que ele é — resmunguei, guardando as coisas. — Eu não tenho culpa se não quero falar com ele todos os dias.
Minha mãe sorriu, balançando a cabeça de um lado ao outro, guardando as sacolas assim que as compras acabaram, e eu guardava o resto que sobrou.
— Ele só tá cuidando de você, meu bem — comentou ela, e eu suspirei.
— Eu não preciso ser cuidado.
Minha mãe soltou um som de escárnio, mas não comentou o que quer que havia passado por sua cabeça naquele instante. Aproximou-se, passando um braço pelos meus ombros ao me abraçar.
— Bom, precisando ou não, a gente sempre vai cuidar de você, quer você queira ou não — especificou, e eu olhei para ela de canto de olho, segurando o último item que faltava guardar, um pote de picles. — É o preço de ser o caçula da família. Aguenta! — riu-se ela, e eu me permiti sorrir um pouco antes de me desvencilhar e guardar o pote no armário. — E não é como se você tivesse nos dando motivos para baixar a guarda, não acha?
— Eu tô bem — defendi, apenas, antes de deixar a cozinha e caminhar até a sala, onde eu estava previamente.
Mamãe me seguiu, feito uma sombra, e eu entendi que seria mais uma tentativa de me encurralar e falar sobre sentimentos.
Ela passou as férias inteiras tentando me fazer conversar sobre o que havia de errado, junto do Will e até mesmo, do jeitinho pisando em ovos, do Theodore. Tentou me arrastar para fora de casa inúmeras vezes, inclusive sugeriu terapia por influência da Grace e, eu bem sei, do meu cunhado também.
Suspirei quando ela sentou do meu lado no sofá.
— Se essa é a carinha de quem tá bem, não quero nem ver quando você estiver mal — brincou ela, erguendo meu queixo para que os olhos encontrassem os meus. — Por que não conversa com a mãe?
Olhei para longe, desvencilhando-me de seus dedos com facilidade, e suspirei. — Não tenho nada pra falar, mãe.
Ela sorriu, levando os dedos aos meus cabelos, para fazer carinho nos fios com leveza.
— Que surpresa — brincou, com um sorrisinho de quem sabe mais do que eu poderia imaginar. — Então, quem sabe, tenha pra ouvir? Hum?
Fiquei em silêncio, sem saber como contestar, já que nada impediria que ela falasse coisa que fosse. Só que ela me surpreendeu quando foi direto ao ponto, sem qualquer rodeio de cortesia para a minha parte.
E eu quase morri ali mesmo.
— Esse menino é mesmo um tornado, não é? — comentou, chamando meus olhos questionadores para ela. — O Alex.
Desviei o olhar para longe imediatamente.
Ainda que eu devesse saber para onde essa conversa ia, ela ainda me pegou de surpresa por mencioná-lo tão diretamente. Esse devia ser o segundo susto do dia, em menos de meia hora entre eles.
Enquanto meu coração disparava no peito feito louco pela menção ao nome dele e também pela noção da conversa que teríamos, eu me perguntava como é que eu fui capaz de não me preparar para ela. Subitamente, me dei por conta que falar sobre o Alex era muito mais difícil do que pensar nele em pensamentos desconexos e abstratos, colocar em palavras era muito aterrador, e falar sobre ele com a minha mãe devia ser mil vezes pior.
Falar sobre qualquer coisa pessoal com a minha mãe era difícil demais, não só porque ela usava de palavras e tons específicos feitos especialmente para me desarmar, como ela também deixava claro que armadura que fosse era apenas ilusória quando se tratava dos olhos observadores de uma mãe.
— Conheci poucas pessoas assim — continuou, com cautela, enquanto eu lutava para manter minhas emoções sob controle —, que aparecem na nossa vida e, em pouco tempo, movem tudo de lugar. Por onde passam, deixam sua marca. Podem causar uma bagunça gostosa — ponderou, pensativa, antes que os olhos esverdeados esbarrassem nos meus — ou um estrago doloroso. Não é?
Antes que eu pudesse detê-los, senti meu lábio inferior tremer e meus olhos aguarem, como tem acontecido tantas vezes ultimamente. Will me chamava de insensível e de coração de gelo, mas agora eu me transformei no contrário. Talvez ande mais sensível e dramático do que ele.
Pisquei, olhando para longe, esperando que as lágrimas jamais caíssem na frente dela, mas elas não me obedeceram. Assim que a primeira escorregou, as outras a seguiram, humilhando-me por completo.
Eu sequer tinha como disfarçar algo tão óbvio assim, nem sequer tinha para onde fugir, e ainda que tivesse, de onde eu tiraria forças?
Senti seu polegar deslizar pela minha bochecha, arrastando as lágrimas para longe antes que eu me atrevesse a ver seu sorriso triste. Os olhos eram empáticos, no entanto, e foi com carinho que ela segurou meu queixo ao chamar meus olhos para os seus.
Foi só quando fizemos contato visual que ela perguntou, com ternura desmedida: — Você o ama?
Senti meu rosto contorcer-se sem minha vontade antes que qualquer resposta, levando qualquer resistência minha ao choro para longe. Senti seus dedos afagarem meus fios de cabelo e eu me senti uma criança novamente quando me deixei cair em seu colo antes que pudesse pensar sobre a dimensão do ridículo que eu passava. Ela deixou que eu o fizesse e continuou acariciando meus cabelos ao passo que eu me aninhava em seu colo, um suspiro deixando seus lábios ao me consolar.
— Eu imaginei — sussurrou ela, baixinho. — Reconheci os sinais de coração partido — brincou, enquanto eu tentava controlar o choro. Eu limpei o rosto algumas vezes, mas as lágrimas seguiram dando a vida para escorrer rosto abaixo, molhando a calça de uniforme da minha mãe. — Ah, meu bem, eu sei que não parece agora, mas isso vai passar com o tempo.
Um soluço escapou contra minha vontade e eu o engoli logo em seguida, relembrando as palavras do Alex, quando me dei por conta que ela estava errada. Não iria passar, mesmo que eu tentasse seguir em frente, porque eu nunca conseguiria viver como se ele não houvesse existido. E por mais que não fizesse sentido, chorei ainda mais por estar chorando no colo da minha mãe pela primeira vez em anos por causa de um coração partido. Logo no colo dela, que havia passado por tanta coisa pior, por tanto sofrimento, por tanta dor, por tanto trauma.
Chorei ainda por me dar conta disso e ainda não conseguir me fazer parar de chorar.
— Tá tudo bem — murmurou ela, em consolo. — A mãe te ama, a mãe tá aqui — sussurrou, repetidamente, e eu me senti ainda pior com isso.
Devia ser a forma mais pura de um amor raro mesmo, o amor de mãe, para consolar o filho de quase dezesseis anos por um sofrimento que deveria ser banal.
— Eu vou revirar a cidade toda, se for preciso, pra encontrar um rapaz lindo e inteligente pra você — comentou ela, me desviando do autodesprezo rapidamente, e minha reação genuína foi rir em meio às patéticas lágrimas, desacreditado que ela houvesse chegado à essa conclusão. Bom, como se fosse possível substituir o Alex. — Ou uma moça, quem sabe? — tentou ela, depois de uma pausa, com cautela. — Ou uma... Como fala? — perguntou, mas logo a resposta veio por conta própria quando finalizou: — Ou uma pessoa não-binária, pra você.
Engoli em seco, limpando o rosto, antes de balançar a cabeça, desacreditado com o que eu ouvia, mas também agradecido. Minha mãe sorriu junto, novamente levando os dedos calejados para limpar minhas lágrimas.
— Quem sabe, nenhuma? — sussurrou, como se fosse uma confissão ou um segredo. — É que você é muito novinho, meu bem, não tô preparada pra te entregar a ninguém. — Engoli em seco, permitindo momentaneamente me apossar da posição de filho consolado, porque me fazia sentir um pouco bem. — Quem sabe, fica aqui só com a mãezinha?
Acabei rindo, sem achar graça, mas assenti de forma mecânica antes de dolorosamente abandonar seu colo e me sentar. No entanto, ela não me soltou por completo, ainda com as mãos carinhosas por sobre mim.
Eu havia ocupado demais do seu tempo e seu consolo, da sua preocupação e do seu amparo. Um gostinho disso era o suficiente, já que ela conseguiu me ler tão bem e eu não consegui me manter sob controle, mas bastava.
Forcei um sorriso, e respondi, em nada mais que um murmúrio: — Perfeito.
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