Made of Stone

57 XLV. De todos os adeus do mundo


Notas iniciais
Decidi trazer o CAPÍTULO FINAL da Fase 3 antes dos dois extras, achei que cairia melhor assim, apesar de que os extras se passam em algum momento desse capítulo aqui. Inclusive, tem spoiler dos extras - de quando pensei em publicar os extras antes - mas acabei deixando aqui mesmo pra atiçar curiosidade. Não me odeiem, é uma passagem rápida. Boa leitura! ♥

Ninguém sabe dizer “adeus”.

Ninguém jamais estará preparado para dizer adeus a alguém que ama, alguém que te faz bem, alguém que te faz sentir em casa. Ainda que seja uma despedida temporária, ninguém jamais estará preparado para isto.

Despedir-me do Alex foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida.

Naquela época, eu não entendia por completo o porquê, mas hoje, de um ponto de vista mais distante, eu consigo enxergar o que fazia daquela despedida excepcionalmente dolorosa: a incerteza de que haveria um encontro novamente. Havia tanto em Alex que me apavorava, mas a inconstância ganhava em primeiro lugar.

Eu não sabia se ele visitaria, se ele retornaria, se ele esperaria por mim, se ele seguiria em frente, se eu jamais ouviria sua voz outra vez, se ele desapareceria da vida todos além da minha, se ele mudaria de ideia. Nem ao menos podia saber se ele iria sobreviver ou se ficaria bem. Dizer “adeus” para alguém inconstante, uma pessoa que você ama de todo o coração, é cruel.

Porém, às vezes, é uma necessidade.

E necessidades não podem ser evitadas.

*

O dia da formatura do Alex e da Mary Jane foi bem corrido, e eu mal tive tempo de ficar perto deles. Eu também, assim como os demais, precisava me organizar para o dia, a roupa que eu vestiria, se iria a pé, se encontraria meus amigos na casa deles para ir junto.

A coleção de grau do ensino médio geralmente acontecia no centro de eventos no mesmo bairro, que existia há décadas, onde aconteciam aqueles bailes de idosos de vez em quando. Basicamente, eles alugavam por um valor barato para o colégio, e desde então toda colação dos terceirões acontecia ali, o único lugar que o colégio e os alunos conseguiam pagar.

A festa que vinha depois, e que nem sempre acontecia porque dependia da turma, geralmente acontecia no ginásio do colégio. Obviamente, não era permitido álcool nem drogas, nem a entrada de pessoas externas. Os professores e monitores se responsabilizavam de ficar ali até tarde — eles consideravam meia-noite tarde — para supervisionar os alunos e os convidados, repôr as bebidas não-alcoólicas e organizar o salão após a festa.

Minha mãe decidiu que iria comprar uma roupa social para mim ao invés de alugar, porque no final de janeiro também haveria a formatura do meu irmão, que já havia oficialmente finalizado o curso de Administração. Na verdade, era apenas uma desculpa para comprar um terno, já que ela tinha gostado tanto daquele terno alugado que eu usei em seu casamento que se arrependeu de não haver comprado para mim.

De qualquer forma, eu achei muito exagerado para uma formatura de ensino médio, então decidi usar só a calça e o paletó, todos em variação de azul marinho — para a minha mãe não me xingar, porque também achei demais. Deixei a camisa e o colete de lado, preferia usar uma camiseta normal por baixo e o meu all star. Não sou entendedor de moda, mas o resultado final não me parecia tão ruim.

Analisei a roupa montada em cima da cama, com dúvidas, visto que eu não entendia nada sobre moda.

Tirei a camiseta que eu estava usando para vestir a que eu encarava na cama, suspeitei que apenas vendo por inteiro no espelho eu saberia se estava ok. No entanto, assim que joguei a camiseta no chão, uma sombra se fez na janela ao meu lado esquerdo, chamando minha atenção.

Dei um pulo quando enxerguei-o atrás da janela.

— Alex! — exclamei, a mão instintivamente no coração.

Como a minha janela ainda estava aberta, já que estávamos em plena luz do dia, eu o vi assim que ele chegou. Ainda assim, ele fez a formalidade de dar duas batidinhas no vidro para que eu abrisse, com um meio sorriso no rosto.

Assim que o susto passou, eu me adiantei para abrir o vidro.

Sinceramente, meu coração ainda estava em disparada, mas eu suspeitei que tivesse só a ver com o Alex mesmo, então não tinha como esperar passar para que eu reagisse.

As batidas na minha janela haviam desaparecido por completo desde a noite da tempestade. A terapia e a rotina de sono que o Alex seguia acabavam impedindo-o de perambular com insônia pelas madrugadas e acabar aqui comigo. Isso era bom para ele, o que significava que era bom para mim, mas não queria dizer que ele não podia aparecer na minha janela pelas manhãs, tardes ou noites. Então eu sabia, e ele também sabia, que mesmo que a gente houvesse se aproximado outra vez, não era como antes, e que era esse o motivo real dele nunca haver aparecido outra vez.

Mas ali estava ele.

Alex tinha as sobrancelhas arqueadas e um meio sorriso, e os olhos escuros desceram para o meu torso antes de subirem novamente para o meu rosto. E apenas então, com o rosto queimando involuntariamente, eu lembrei que estava nu da cintura para cima.

Corri para vestir a mesma camiseta que eu havia jogado no chão enquanto, pelo canto do olho, via o Alex pular para dentro do quarto tão rápido quanto um gato.

— Não precisava se vestir por minha causa — disse ele, jocoso, ao se aproximar de mim.

Pisquei, sem saber o que dizer, quando ele desceu os olhos novamente para o meu peito, já vestido, e levou uma mão até o topo do meu torso. Arqueei as sobrancelhas, um tanto surpreso, mas apenas quando ele deslizou os dedos pela minha clavícula e puxou algo, eu percebi o que ele estava fazendo.

Os dedos puxaram o pingente que, agora que eu havia enfiado a camiseta no corpo, estava escondido atrás do tecido dela.

Se possível, eu fiquei ainda mais envergonhado quando percebi que ele havia visto o pingente em toda a sua glória, já que era o único que eu vestia da cintura para cima quando ele chegou. Engoli em seco, vendo que os olhos escuros se demoraram no pingente de bala que ele segurava nos dedos.

— O quê? — perguntei, na defensiva. — Você disse que eu podia ficar com ele.

Alex subiu os olhos para os meus, e eu quis me encolher pela intensidade, e pareceu demorar uma eternidade antes que ele abrisse um sorriso adorável.

— Eu sei — acabou falando, antes de soltá-lo e observá-lo em mim —, fica mesmo melhor em você.

Meu coração aqueceu e apertou ao mesmo tempo com a menção ao que ele havia dito quando me deu o boné e o pingente. E, como o besta que eu sou, lembrava exatamente do que ele havia dito no primeiro aniversário que passei com ele.

— Eu gosto quando você fica com algo que era meu — acrescentou, terminando de mexer com meu emocional, com um sorriso leve. — Sempre fica melhor em você. E eu sei que você sempre vai cuidar melhor do que eu cuidaria.

Pisquei, sentindo o coração disparar apertado com as coisas bonitas que saíam dele, justo no dia em que apareceu novamente pela minha janela. Parecia um recomeço de algo profundo, mas também parecia trazer de uma nota melancólica e nostálgica, quase como uma despedida.

Engoli em seco.

— É porque era seu, Alex.

Alex deu mais um passo na minha direção, levou uma mão ao meu rosto e, tão nostalgicamente, acariciou-me da maneira como tanto fez no passado.

— É? — perguntou, me olhando com ternura.

Prendi a respiração, sem saber mais sobre o que estávamos falando, perdido nas orbes escuras. No entanto, quando o silêncio perdurou com nós dois olhando um ao outro, eu pisquei e olhei para longe. Alex deixou a mão cair, dando o mesmo passo para trás desta vez.

Pigarreei, os olhos dando uma revisada no quarto para ver se estava tudo em ordem diante da presença inesperada do Alex, enquanto vi que os olhos dele se demoraram nas peças de roupa na cama.

Alex soltou um riso.

— Você vai assim? — perguntou, e eu fiz uma careta, já esperando um julgamento parecido com o "esta é sua melhor roupa?" que ele um dia me falou. — Não vale — reclamou, com um beiço. — Você vai chamar mais atenção que eu, que injusto.

Revirei os olhos, enfim, achando sua fala pior do que a fala que eu imaginava.

— Bobagem — descartei, sem jeito, ao torcer o nariz.

Alex me olhou com divertimento. — Bom, desde que eu chame a sua atenção, por mim não tem problema.

Congelei por um instante, sentindo a barriga coçar com as malditas borboletas ressuscitadas, como se eu fosse um idiota de onze anos novamente. Dirigi a ele um olhar questionador, me perguntando se era intencional que ele voltasse a dar em cima de mim do absoluto nada.

Alex apenas sorriu e deu de ombros, como se isso fosse uma resposta para a minha pergunta inaudível.

Tentei disfarçar o óbvio fato de que ele me tinha em suas mãos com um simples par de palavras, e decidi dizer, baixinho: — Faz tempo que você não aparece.

O sorriso dele vacilou e ele passou a língua nos lábios rapidamente, como se ganhasse tempo para pensar no que falar.

— Achei que você estaria bem ocupado hoje — acrescentei, em um murmúrio. — Você não devia tá se preparando pra formatura?

Alex assentiu, talvez vezes demais, antes de falar coisa que fosse.

— Eu tô — disse, finalmente, ainda balançando a cabeça de cima para baixo. — Eu tô — repetiu, na ausência de algo mais elaborado.

Abri a boca, mas não soube o que responder, então fechei-a outra vez. Ele fez o mesmo, hesitando, antes de soltar um suspiro e pensar, como se pesasse as palavras em antecedência.

— Eu queria te ver, sabe, antes — falou, sem muita explicação. — E realmente, faz tempo que não apareço aqui. Eu queria...

Alex mordeu o lábio inferior ao mesmo tempo em que uma careta se formava em seu rosto, as sobrancelhas unindo-se, e os manteve assim por um tempo.

— Caleb, eu queria...

Suspirou outra vez.

Havia algo muito estranho em tudo aquilo, mas nada que eu pudesse apontar e dizer: é isto! Era apenas uma vibe esquisita e, novamente, eu senti que ele queria se despedir de alguma forma e não sabia como. Não era a primeira vez, nas últimas semanas, mas talvez fosse a mais desesperada — quero dizer, ele literalmente apareceu na minha casa.

Meu estômago revirou e me xinguei por haver reclamado das borboletas, elas eram preferíveis a estômagos incômodos.

Alex suspirou, frustrado, e pareceu desistir de tentar formular uma frase.

— Você não precisa de um motivo pra aparecer aqui — acabei dizendo, para a minha própria surpresa. — Você pode aparecer sempre que quiser — declarei, ousadamente, mas sabendo que era verdade. — Mesmo que a gente esteja em uma briga, ou em uma trégua estranha, ou só... distantes. Eu sempre vou abrir minha janela pra você.

Alex ficou um tempo parado, apenas me olhando, antes que eu me remexesse no lugar, desconfortável com o clima estranho.

— Promete? — perguntou, enfim, e eu pisquei, surpreso.

Demorei um pouco mas assenti firmemente. — Eu prometo.

Alex inspirou fundo e expirou ruidosamente, e então sorriu. Não me deu tempo de sorrir de volta, porque ele fechou o espaço entre nós e me abraçou com força desmedida, pegando-me desprevenido. Acabei devolvendo o abraço mais rápido do que cogitei, talvez porque sempre sentia falta de estar nos braços dele e tê-lo nos meus, mas era apenas uma escolha instantânea.

Ele circundou minha cintura com os dois braços e os manteve ali, assim pousados, para então suspirar e não dar sinal de que me soltaria. Eu acariciei suas costas porque pareceu que ele precisava e enfiei o nariz em seu pescoço, quase uma necessidade, para sentir seu cheiro.

— Obrigado — murmurou, baixinho, contra meu cangote. — Eu precisava de um pouco de você para recarregar minhas energias para hoje.

Sorri e continuei acariciando suas costas. — De nada. — No entanto, me atrevi a perguntar baixinho: — Foi por isso que veio?

Alex demorou para negou com a cabeça. — Não — verbalizou, a voz frustrada —, mas não importa. É por isso agora.

Eu tinha um pressentimento ruim sobre isso, mas não quis insistir. E, ainda que quisesse, seu celular começou a vibrar com uma mensagem após a outra e ele suspirou pesadamente antes de se desvencilhar de mim sem muita vontade. E eu deixei, sem muita vontade também.

Ele pegou o celular em um ângulo que eu pudesse ver, e era mensagens no grupo dos formandos. Havia outras conversas piscando com mensagens novas de minutos atrás, como da mãe do Ian, do Mason, do Bruno, da MJ.

Alex fez uma careta antes de erguer os olhos para mim.

— Eu tô mesmo bem ocupado hoje — falou, com um riso cansado. — Eu vou ter que voltar e terminar de ajeitar as coisas pra formatura, senão a MJ me mata.

Soltei um riso triste também, assentindo. — Não queremos isso.

— Não — concordou, mas não se moveu para ir embora. — Caleb...

Mordi o lábio inferior. — Hum?

Novamente, ele abriu a boca para dizer algo, mas nada saiu. Ele soltou o ar pela boca, em um riso frustrado, e abriu um sorriso desacreditado, como se não pudesse acreditar que não conseguia falar nada. Ele fechou os olhos, escondendo as orbes de mim, e engoliu em seco.

Levei uma mão ao seu rosto, instintivamente, me compadecendo da frustração dele, e a escuridão melancólica dos seus olhos me encarou novamente.

— Se você não consegue dizer nada, talvez não seja necessário dizer nada — sugeri, compadecido, mas eu vi a negativa em sua expressão. Ele não concordava. — E se você quer me contar algo, eu não me importo que espere o último minuto pra contar. Eu não quero saber antes.

Alex fechou os olhos de novo e deixou o rosto cair para frente devagar, até que sua testa encostasse na minha.

Eu posso até ser um idiota apaixonado, mas não sou tão burro assim. E, ainda que eu esteja um pouco errado, acho que é uma boa chutar que ele queria me contar algo a respeito da sua partida para Mallow Coast. Ele provavelmente já sabia quando exatamente iria embora e queria me contar, e talvez também quisesse se despedir — e tem tentado fazer isso por alguns dias já -, o que eu honestamente não sabia se queria que acontecesse.

A bem da verdade, eu preferi não pensar muito nisso.

— Por que você é tão assombrosamente maravilhoso, Caleb?

— Não sou — retruquei.

— Você é extraordinário — ignorou-me. — Não há ninguém como você neste mundo. — Alex afastou-se o suficiente para abrir os olhos e me admirar com carinho. — Eu não sei se isso é bom ou ruim.

Se você não sabe, eu muito menos.

— Não há ninguém como ninguém no mundo — retruquei novamente.

Alex abriu um sorriso largo que amoleceu minhas pernas. — Você não entenderia.

Engoli em seco e ele inclinou-se para deixar um beijo rápido na minha bochecha antes de se afastar por completo, deixando uma sensação de vazio tão rápido quanto. Pisquei, vendo que ele suspirou pesadamente e dirigiu-se para a janela, o celular ainda vibrando com novas mensagens.

Alex pulou para fora com habilidade e olhou para mim uma última vez, inclinando-se na janela, antes de sorrir e piscar um dos olhos.

— Te vejo mais tarde, tá bom?

Assenti, porque não havia outra possibilidade.

— Tá bom.

*

Nós, de fato, nos vimos mais tarde.

Aconteceu tudo muito rápido.

A colação do ensino médio aconteceu ainda de dia, antes do pôr do sol, no centro de eventos do bairro. Eu acabei indo sozinho, porque a mãe trabalhava naquele dia, embora tenha sido convidada para a colação. Quando entrei, de cara encontrei meus amigos, porque fui o último a chegar. Cheguei antes apenas de metade da panelinha antiga, que foi entrando aos poucos, mas o Bruno já estava lá com o Jake, a Annelise, o Ahanu e a Emily.

Eu esvaziei meu celular um dia antes para tirar muitas fotos da formatura e tinha ele prensado contra meus dedos em nervosismo. Não consegui me juntar muito às conversas além das iniciais, com os cumprimentos e abraços de todos, abraços demais para o meu gosto.

Meu alarme de espaço pessoal estava gritando.

As únicas pessoas que estavam ali que não faziam parte das nossas panelinhas eram os tios e prima do Alex — os pais do Ian e a irmã, Emma -, bem como a mãe do Mason, que havia abrigado o Alex nos últimos dois meses.

Sinceramente, era muita gente até, e estávamos todos sentados nas mesmas fileiras que o restante dos convidados da Mary Jane, eram cerca de uns dez parentes e amigos dela. Como eles dividiram os convites, parte da panelinha eram convidados dela e a maior parte era do Alex, para que todos fossem.

No entanto, no meio desse tanto de gente, era bem óbvio o espaço vazio gritante: os pais do formando. Nem sinal deles. E, sinceramente, eu não perguntei e ninguém também perguntou ao Alex se ele havia, de fato, convidado os próprios pais. Mas conhecendo os pais do Ian, era meio óbvio que os pais do Alex estavam cientes da formatura do filho, com ou sem convite.

Era nisto que eu pensava quando vi Alex com sua beca de formatura pela primeira vez e minha mente calou-se momentaneamente. A diretora deu um discurso rápido no palco antes que todos os formandos subissem e sentassem lá em cima, de frente para nós, e lá estava ele.

Eu estive em transe durante toda a formatura, se parasse para pensar, eu estava sentindo tanto que parecia uma experiência fora do corpo, e o tempo passou tão rápido. Eu comemorei com todos, gritei quando eles entraram, senti o peito aquecer de tanto orgulho e tanta felicidade que nunca pensei que fosse sentir por outra pessoa. Eu tirei foto atrás de foto, parando apenas para ver tudo com meus próprios olhos ao invés da tela do celular.

Mary Jane foi a oradora da turma e deu um discurso tão lindo — nos momentos em que prestei atenção — mas meus olhos mais estavam admirando as expressões do Alex ao ouvir o discurso ao qual meus ouvidos apreciavam. Ele tinha um sorriso largo no rosto o tempo todo, rindo das partes que eram engraçadas, erguendo o queixo com orgulho das partes que mencionavam o trabalho duro de todos, e os olhos permaneciam pequenos o tempo todo porque o sorriso não saía do rosto. Eu não podia dizer, ao longe, se ele chegou a tê-los marejados, mas o que batia mesmo era a alegria contagiante de estar ali.

Logo depois, de um a um, eles começaram a ser chamados para receber o diploma simbólico e apertarem as mãos dos poucos três professores que estavam ali, bem como a diretora. Alex, obviamente, foi o primeiro a ser chamado e não ouve uma sequer comemoração seguida da dele que nos vencesse em questão de número, barulho e força. Com exceção, é claro, da comemoração da MJ, mas a do Alex ganhava em entusiasmo.

Na vez dos outros, percebi que apesar do sorriso não vacilar, seus olhos buscavam incansavelmente alguém na multidão que formávamos, sem muito sucesso. Ele fez isso por todo o restante da formatura, passando pelo último discurso da diretora, até a liberação para que atirassem os capelos de formatura ao alto e, em seguida, fossem até suas respectivas famílias.

Como eu disse, era muita gente, tanta que o único momento que tive com o Alex foi na minha vez de abraçá-lo e eu ainda tive que ser rápido, porque tinha mais gente para fazer isso. A primeira foi a Emma, que não esperou que ele chegasse até a gente e correu até ele, pulando em seu colo para abraçá-lo.

Quando foi a minha vez, tudo o que consegui dizer foi: — Eu sabia que você conseguiria.

Alex me abraçou com força, agradeceu e resmungou para o Bruno esperar, já que ele estava incomodando para abraçar o Alex, mas eu não podia monopolizá-lo daquela forma, então recuei e deixei que Bruno tomasse meu lugar. Em seguida, ele foi engolido pela multidão do restante de nós, sendo abraçado e paparicado por todos.

Eu queria poder aproveitar o Alex um pouco mais antes da festa, mas o fato dele estar simplesmente engolido pelo amor da grande família que ele conquistou era significativo demais para que eu reclamasse disto. O fato de eu não conseguir conversar direito com ele porque ele tem muita gente que o ama conversando com ele era de uma importância que transcendia.

Foi tudo rápido demais, mas também foi lindo demais da conta.

Depois de abraçar todos, Alex e MJ se abraçaram e ficaram conversando rapidamente no meio da multidão dos dois, combinando por cima sobre a festa. Eu fiquei observando o tempo todo, então eu vi o momento em que o sorriso do Alex desapareceu quando viu um ponto específico no fundo do local, próximo à porta.

Segui seu olhar e, por um instante, entendi que ele encontrou a pessoa pela qual buscava durante toda a formatura. Era provável que ela estivesse ali durante todo o tempo, longe das fileiras dos convidados e um tanto escondida pela decoração improvisada do local.

Katya estava mais arrumada do que eu havia visto desde que a conheci, um vestido social verde e um salto — pequeno, mas já era algo, os cabelos louros erguidos em um penteado simples, mas bonito. A maquiagem leve estava borrada por inteiro porque o rosto estava encharcado de lágrimas, seus lábios pressionados um ao outro como se tentasse ao máximo segurar o choro ao mesmo tempo em que estavam levemente curvados em um sorriso. A mão miúda estava por cima do próprio coração.

Desviei os olhos para o Alex, vendo que ele perdeu qualquer compostura quando os próprios olhos marejaram.

Eu não fui o único que percebi o que estava acontecendo, porque todos deram espaço para ele passar pela multidão em direção à sua mãe, que o encontrou na metade do caminho. Longe demais para que qualquer um ouvisse a conversa, mas acredito que não havia necessidade.

Alex parecia muito alto perto da mãe dele, mas a postura era de uma criança indefesa em busca de aprovação. Sua mãe parou de chorar por tempo suficiente para falar algumas coisas para ele, ao passo que ele baixava os olhos para os próprios pés, feito um menino. Ela sorria e chorava ao mesmo tempo, e se atreveu a levar uma mão ao rosto dele, limpando uma lágrima que caía de seu rosto. Alex fechou os olhos, inclinando o rosto para a mãozinha dela, antes que a mãe o puxasse para um abraço apertado.

Os braços esguios dela não pareciam ser o suficiente para abraçar o Alex por inteiro, mas ainda assim ela o fez. Katya acariciou os cabelos dele, e ele a abraçou de volta, fazendo o corpo da mãe sumir de onde eu observava. Alex chorou silenciosamente, sem sinal de soluçar, os lábios escondidos como se segurasse ao máximo, tentando manter qualquer resquício de uma pose de inabalável.

Quando se afastaram, a mãe falou algumas coisas, ele assentiu algumas vezes e disse uma ou outra coisa nas pausas do que ela dizia, antes que ele próprio falasse. Assim que ele começou a falar, a postura enrijecendo ao se tornar mais convicto, a expressão no rosto da mãe mudou. Ela desestabilizou por um instante, com medo e tristeza no olhar, parecendo tentar entender, mas Alex pareceu ser curto no que respondia, até ela chorar ainda mais. Os olhos azuis brilhavam de lá com tanto sentimento que eu não consegui distinguir daqui, mas parecia arrependida, e aparentou fazer uma pergunta. Alex firmou o que dizia, e eu soube que ele estava apenas tentando aparentar forte. Em seguida, ela deixou os ombros caírem, assentindo.

Não era preciso um gênio para saber o teor do que conversavam. Pricipalmente tendo em vista que eles não tinham uma conversa concreta desde o dia da tempestade, já que o Alex descartou qualquer tentativa da mãe de conversar, junto ao fato de que ele estava se formando no ensino médio e esta era única condição que ele se deu antes de ir embora.

Eu soube, mesmo sem ouvir, que ele havia contado que paritiria em breve, quem sabe ainda agora em dezembro ou talvez em janeiro. Sua mãe assentiu porque não tinha muito o que pudesse fazer, de fato, e então ela tirou algo da bolsa que carregava e entregou na mão dele. Alex ergueu o presente, que não havia sido embrulhado, e era um pingente muito parecido com o que ela usava no pescoço, daqueles em que se colocam fotos.

Alex abriu o aparato de foto e uma emoção passou por seu rosto, ele franziu os lábios para controlar o choro mas o rosto molhou outra vez e ele assentiu vez atrás de outra, como se reconhecesse o valor do presente. A mãe sorriu para disfarçar a dor e assentiu também, como se entrassem em uma espécie de trégua, reconhecendo as dores um do outro. Eles não eram nem um pouco parecidos mas, tal qual mãe e filho, os dois ergueram os queixos de forma similar ao tentar fingir força igualmente.

Katya acariciou o rosto dele uma última vez antes de se retirar, e Alex a observou sumir diante dos olhos antes de baixá-los para o pingente na mão.

Alex fungou algumas vezes e ergueu os olhos para o teto, como para se recompôr. Em seguida, ele analisou o colar com alguma análise e ousou passá-lo pela cabeça sem abrir a presilha. Dando certo, ele apenas escondeu o pingente para dentro da beca.

Logo depois, como se nada houvesse acontecido, ele marchou de volta para a multidão, vacilando quando viu que não só eu, como todos estávamos observando a cena. Quanto mais perto ele chegava da gente, melhor eu percebia os olhos e rosto avermelhados, mas a mandíbula cerrada em opressão.

Fiquei me perguntando os detalhes da conversa, se eles haviam cortado laços totalmente ou se apenas despediram-se momentaneamente. Se acaso ela apenas pediu perdão sem deixar em aberto a possibilidade de mudar ou fazer diferente, ou se havia feito promessas de mudança também. E se acaso houvesse feito, se Alex havia as recusado por conta própria ou se a dureza no olhar queria dizer que ela apenas não ofereceu mudança alguma.

Ao menos, pareceu como uma trégua, ainda que uma triste.

Eu esperava do fundo do coração que isto houvesse feito mais bem do que mal a ele, que a aparição da mãe em sua formatura fosse algo bom, fosse indício de mudança, fosse fruto do amor.

Mas a dureza em seu olhar dali não sumiu pelo restante da noite.

*

Tão logo a cerimônia e a comemoração entre os formandos acabaram, todos começaram a se dirigir — a pé mesmo, em sua maioria — para o ginásio do colégio, para a comemoração final em forma de festa.

O céu estava daquela cor fortemente azul quando começa a escurecer, a luz começando a ficar precária, a cor vibrante azul o único que banhava nossos corpos debaixo do céu. Em pouco menos de meia hora, ele estaria tão escuro que o azul pareceria dar lugar ao preto.

Eu gostaria de poder ter aproveitado melhor cada momento daquele dia, porém, eu estava dormente durante boa parte do tempo. Eu estava satisfeito de certa forma, feliz por ele, orgulhoso dele, aliviado por ele. Mas havia um sentimento estranho que me fez estar um tanto desconectado do tempo, porque ele parecia esvair-se entre meus dedos e eu sequer o via passar.

Em pouco tempo, já estávamos no meio de uma semi balada apropriada para as idades, cercados de adolescentes e monitores que zanzavam o ginásio com os olhos fixos nas bebidas, para ver se estavam batizadas.

Alex estava cercado de pessoas que o amavam, e eram tantas que ele sequer conseguia dividir a atenção apropriadamente. Eu fiquei mais próximo do Mason e da Cristina o tempo todo, um tanto quieto, apenas observando ao redor. Era bom vê-lo tão momentaneamente alegre, tão amado, tão protegido — eu não sabia quanto tempo fazia que eu não o via sorrir tanto. Parecia, para mim, que observava de longe, que era um daqueles momentos em que a gente sorri tanto que as bochechas começam a doer.

Imaginei como ele devia se sentir.

E talvez fosse por isso que eu estivesse tão dormente, perdido em meus próprios pensamentos: porque naquele momento ele era o protagonista, e tudo o que eu queria fazer era assisti-lo, muito mais do que estar na telinha com ele.

Eu cheguei a aproveitar, bebi um pouco e fiquei tão longe da pista de dança quanto pude, conversei precariamente com os meus amigos, além de ter sido paparicado um pouco pelos demais integrantes da antiga panelinha. Bruno, por exemplo, fez questão de ficar abraçado comigo como se fôssemos velhos amigos, por longos cinco minutos, perguntando o que havia acontecido de bom enquanto ele esteve longe ao passo que eu tentava responder sem ser monossilábico da melhor forma que pude.

— Hã, Caleb... — Bruno pigarreou, afastando-se um pouco sem me tirar do abraço para focar os olhos em mim. Devolvi o olhar, estranhando. — Não é meu lugar agradecer, mas eu tenho que dizer "muito obrigado".

Pisquei, arqueando as sobrancelhas, sem entender. — Pelo quê?

Bruno sorriu, apontando com a cabeça para um risonho Alex abraçado de um lado por Annelise e do outro por Faye, fazendo graça.

— Por ter convencido o Alex a buscar ajuda — explicou, e eu fiquei desconcertado. — Você não foi o primeiro a implorar que o príncipe das trevas fizesse uma terapiazinha básica — riu-se ele, mas os olhos castanhos estavam sérios —, mas por algum motivo, foi o seu pedido que ele atendeu.

Desviei o olhar para o Alex, engolindo em seco.

— Pode ser — resmunguei em concordância, contrariado —, mas ele só fez porque realmente quis.

— Não importa — descartou Bruno —, a iniciativa que importou. E já faz uns dias que eu tô vendo os resultados, mas acho que hoje tá mais óbvio ainda. Sou muito grato — admitiu, com um sorriso sincero.

Engoli em seco, assentindo. — Hum — resmunguei, os olhos em Alex.

No entanto, senti os olhos do Bruno me queimarem por um tempo, ao passo que os longos minutos em que se recusara a me soltar do abraço pareciam longos demais.

— Não se preocupe — resolveu dizer ele, e eu fui obrigado a olhá-lo. — Entre nós dois — confidenciou —, eu não acho que isso vá durar. Mallow Coast, quero dizer — especificou. — Ele precisa disto agora, mas eu acho que não vai levar muito tempo pra ele perceber onde pertence de verdade. Posso estar errado — apressou-se em dizer, antes de abrir um sorriso largo —, mas eu raramente tô. — Arquei uma sobrancelha, e ele deu de ombros, uma cara de pateta. — Alex vai voltar correndo pros meus braços, onde sempre deveria haver estado.

Acabei rindo com a última fala, tão besta, que resumia o porquê dos dois idiotas serem melhores amigos. Mas no fundo, eu senti o que ele quis dizer com aquilo, e fiquei um pouco embaraçado.

Quando tornei a olhar para o Alex, ele estava olhando na nossa direção com os olhos estreitados, obviamente com suspeita do que o Bruno estaria conversando comigo. Um segundo depois, Bruno me soltou bruscamente e ergueu os braços para colocar as mãos detrás da cabeça, como se se declarasse culpado. Uma gargalhada a seguir, ele correu na direção do Alex e se jogou nos braços dele com um exagero dramático, tentando beijar a boca dele.

Revirei os olhos, vendo que Alex dava a vida para evitar o beijo, rindo.

Depois disso, a festa voou novamente, e eu fiquei preso em pensamentos outra vez, nenhum exatamente conexo, visto que na verdade eu estava tentando não pensar em nada e tendo o efeito oposto. Tive alguns descansos do meu próprio barulho interno, como quando Grace e Dan simplesmente decidiram se beijar na frente de todos — bom, na verdade, demorou o suficiente — e tive que tentar consolar Ian e conversar um pouco com ela.

E quando aconteceu a dança com o Alex.

Bom, mais ou menos.

O barulho ainda estava ali mas, de alguma forma, quando ele pegou minha mão e dançou lento comigo, o volume diminuiu tanto quanto poderia ser possível. O som que mais gritou durante aquele pequeno espaço-tempo eterno foi um misto da respiração do Alex próxima ao meu ouvido junto das batidas aceleradas do meu coração.

Nem parecia haver sido real, pareceu ser fruto da minha imaginação.

Se eu parasse para pensar, foi o único momento em que estivemos "à sós" de verdade, um com o outro, em meio a tanta gente. Um momento em que não fomos interrompidos ou ouvidos pelos demais e, apesar do Alex parecer engasgado com algo que queria dizer pelos últimos dias, durante esse único momento em que tivemos a oportunidade de conversar hoje, nenhum de nós ousou.

Quando a música acabou e os barulhos, tanto internos quanto externos, voltaram a retumbar na minha cabeça, eu ainda tive dificuldade em sair daquele espaço-tempo. Alex caminhou para longe em lentidão, e as pessoas moveram-se à minha volta de maneira semelhante, e eu fiquei plantado ali, esperando as borboletas morrerem.

Durante o restante da festa, eu senti os olhos dele em mim.

Quando estava sozinho, quando estava com os amigos, quando estava sendo abraçado, quando estava falando ou apenas ouvindo. Eu checava e lá estavam os dois buracos negros me sugando em sua direção. E eu me perguntei se ele se sentia da mesma forma, se ele ainda estava preso no nosso pequeno espaço-tempo, se ele ainda voltava diariamente para o nosso universo a dois, intocado pelo restante do mundo. E se ele fazia isso o tempo todo também, ainda que estivesse cercado de pessoas, assim como eu.

Em algum momento, senti que o pingente no meu pescoço queimava minha pele e o segurei entre os dedos, sentindo-me sufocado, desejando poder respirar ar puro. Quando pensei em ir lá fora e ponderei se o céu estava tão preto quanto as orbes do Alex, uma pergunta aterradora se passou pela minha cabeça.

O tempo voou mas parecíamos estar aqui pela eternidade, então que horas são?

Tic-toc, tic-toc, tic-toc.

Estaria o dia no fim?

Eu fui interrompido quando uma mão quente pousou na minha.

Era o Alex, com um olhar enigmático que eu não gostei nada.

— Vem — murmurou ele, em um tom baixo e triste, quase como se despedisse pela milésima vez dentro das últimas duas semanas.

Eu não respondi, engolido pela escuridão em seu olhar, e deixei que ele me puxasse lentamente em direção à saída do local, enlaçando os dedos nos meus. Ainda que houvesse dito "vem", a lentidão parecia indicar que ele não quisesse que eu viesse de verdade, como se protelasse o quanto poderia. Passamos pelos colegas e nos esprememos entre as pessoas até que estivéssemos do lado de fora, as mãos entrelaçadas.

O céu estava mesmo enegrecido, como previsto, e fomos abraçados por um ventinho frio da noite e pelo abafamento do som alto do lado de dentro.

Tive um mau pressentimento novamente quando ele virou-se na minha direção, sem soltar minha mão, e me dirigiu um olhar impenetrável. Tentei soltar sua mão, mas Alex a firmou na dele, quase machucando-a sem perceber.

— O que foi? — murmurei, tão baixo quanto Alex havia dito "vem".

Alex ergueu a outra mão trêmula para fazer carinho em meu rosto, os olhos nostálgicos e melancólicos, e meu coração começou a acelerar de nervosismo. Mas eu não consegui dizer nada, nem perguntar nada, porque a verdade era que eu também queria protelar o que estava por vir.

— Você é tão lindo — disse ele, um sorriso terno que não chegou aos olhos tristes. — Queria ter o teu talento para te desenhar hoje, aqui, agora. — Pisquei, sentindo um nódulo na garganta. — Queria que você visse o que eu vejo.

Engoli em seco, decidindo fazer o mesmo que ele.

A beca havia sido deixada de lado e ele estava, como sempre, usando uma roupa escura que abraçava seu corpo como se a ele pertencesse. Usava uma roupa semi social como a minha, os cabelos haviam sido aparados para a formatura, e os olhos estavam límpidos, como possível. Não haviam olheiras debaixo das orbes atraentes, as bochechas estavam levemente avermelhadas, talvez pelo choque térmico, e os lábios estavam molhados.

Como sempre, ele parecia uma obra de arte, e como sempre, ele parecia ser engolido pelas cores escuras da noite, da roupa, da ocasião.

— Eu já vejo — declarei, sincero.

Alex levou uns segundos para reagir, sorrindo minimamente, antes de inclinar o rosto para um lado. — Será? — pergunta, sorrindo mais, os olhos banhados de ternura, ao acariciar-me o rosto.

Eu já estava pressentindo o que aconteceria, mas ainda assim tentei fugir, como sempre faço. — Tá frio — murmurei, e a voz quase não saiu. — Vamos voltar pra dentro, Alex.

De repente, sua expressão mudou drasticamente e ele engoliu em seco, negando com lentidão.

— Eu não vou voltar, Caleb — declarou, e eu senti o chão desvanecer debaixo dos meus pés, pouco a pouco.

— É a sua festa — sussurrei, uma resposta fraca, sentindo minhas forças desvanecerem junto ao chão.

Alex piscou algumas vezes, sentido, e então assentiu com um sussurro: — Eu sei.

— Alex? — consegui murmurar, em tom interrogativo, com medo do que viria.

— Alex?

O som de outra voz quebrou a conversa antes que Alex pudesse me responder a pergunta não verbalizada, junto do som de rodinhas deslizando no chão de pedra, indicando que ele ainda existia apesar da instabilidade do que deveria ser meu equilíbrio corporal.

Bruno apareceu rapidamente ao nosso lado, um sorriso desconfortável congelado no rosto, e eu desci os olhos para a mala que ele carregavaa, com um travesseiro embutido em cima. Eu não reconhecia a mala, mas reconhecia o travesseiro e a fronha dele como se fossem meus, instantaneamente.

Meu coração acelerou como se eu houvesse acabado de me deparar com o assassino da serra elétrica neste momento, tanto que a pulsação retumbava nos meus ouvidos tão fortemente que ponderei se eu poderia mesmo morrer de ataque cardíaco. Eu entendi perfeitamente o que estava acontecendo, inclusive estava esperando por isso — embora não agora e certamente não desta forma -, mas não estava preparado para isto.

Alex não soltou minha mão durante o tempo todo, apertando com tanta força quanto eu apertava, percebi naquele instante. Ainda assim, ele usou a outra mão para aceitar a mala que o Bruno empurrava até ele.

— Desculpa interromper — pediu Bruno, a expressão pesarosa desviando com cautela entre mim e o Alex. — Só vim te trazer isso.

Alex assentiu firmemente. — Valeu, Bruno.

Bruno assentiu em resposta e nos olhou rapidamente, os olhos descendo para as mãos apertadas uma na outra e suspirou, aproximando-se do Alex para abraçá-lo. Percebi que havia sido um abraço forte, seguido de um beijo estalado na bochecha do Alex, antes que afagasse seus cabelos com carinho.

— Boa sorte, príncipe — desejou, com um sorriso confiante. — Mais tarde eu te ligo.

Alex assentiu novamente, de forma dura, o sorriso vacilando.

— Mais tarde eu atendo — retrucou, e Bruno riu, dando as costas depois de dirigir um sorriso piedoso para mim.

MJ, que estava atrás do Bruno e eu sequer percebi até aquele momento, ainda estático ao observar tudo, um zumbido alto nos ouvidos, aproximou-se também. Ela deslizou a case de violão de seu ombro para o ombro livre do Alex, e em seguida deixou a alça do mochilão que ela arrastou até ali na mão livre do Alex também, quando ele soltou a alça da mala ao seu lado.

— Ninguém viu vocês? — perguntou Alex, o cenho franzido em preocupação, e MJ negou. — Ian, não? — insistiu, relanceando a porta do ginásio.

— Não — verbalizou ela. — Não se preocupe. Bruno e eu vamos contar para eles mais tarde.

Alex assentiu, duramente de novo, e MJ se aproximou com um sorriso para dar um abraço rápido nele também, de forma semelhante ao Bruno.

— Não suma — ordenou, apontando um dedo para ele, séria.

— Você também não — retrucou, com um sorriso, antes de dizer: — E obrigado.

MJ apenas dá um tapinha no rosto dele, sorrindo, antes de se retirar.

Durante esse tempo todo, senti que a mão do Alex era o único que me impedia de desmoronar, sem força alguma, e deveria pelo tanto que eu estava apertando a pobre da mão talentosa. Eu apenas observei, como havia feito durante o dia todo, as coisas desenrolarem-se na minha frente, com muita dificuldade de digerir a informação.

Nenhum de nós disse nada por um tempo, e eu percebi que o Alex engoliu em seco algumas vezes, tanto sentimento passando por seus olhos que eu não conseguia distinguir nenhum.

Quando consegui sair do modo "estátua", tudo o que consegui falar em um fiapo de voz, foi: — Agora?

Os olhos escuros brilharam e eu percebi que não era um efeito natural, era porque haviam marejado mesmo. — Agora — confirmou, a voz falha, embora tenha tentado que soasse firme.

Pisquei, sentindo meu coração apertar.

Eu sabia que ele estava tentando me contar quando iria embora, eu tive essa impressão e ficaria surpreso se não fosse isso o que estava entalado na garganta dele esse tempo todo. No entanto, eu imaginei que seria em algum momento do "amanhã". Cheguei a cogitar que pudesse ser final de dezembro ou ainda janeiro, feito o tonto que sou, porque era possível reservar um assento no ônibus tantas semanas antes.

Eu sabia que ele estava apenas esperando a formatura para ir embora, mas não imaginei que ele iria embora literalmente um instante depois de se formar. Quero dizer, a festa nem havia terminado ainda.

É cedo demais.

— É cedo — tentei, mas soei apenas derrotado, um sentimento de pesar começando a literalmente pesar meu corpo.

— Desculpa — pediu Alex, em tom igualmente derrotado.

Inspirei fundo dolorosamente, tentando me recompôr, e expirei trêmulo. Tentei recuperar algum resquício de força dentro de mim e fazer o melhor da situação, o que definitivamente não era o Alex se desculpando pela milésima vez por algo que não tinha culpa.

Isto não é sobre mim, me convenci, apesar do coração quebrar-se um pouquinho mais, pouco a pouco.

— Tudo bem — murmurei, tentando convencer nós dois, ao passo que tudo gritava o contrário. — Tudo b-bem — repeti, mas falhei. — Não precisa pedir desculpas, Alex, eu só não esperava por isso agora.

Alex suspirou. — Ninguém espera — murmurou. — Eu não consegui contar pra eles. Eu fui covarde — declarou, o que dizia em tantos papéis rasgados, cheios de numerações. Senti o coração apertar ainda mais. — Eu tive que contar ao Bruno e a MJ porque precisava de ajuda pra pegar minhas coisas e sair sem que ninguém percebesse, mas... — Engoliu em seco. — Eu não saberia como contar a ninguém mais, especialmente ao Ian — admitiu, a voz tremendo ao mencionar o primo.

Acabei assentindo, tentando imaginar qual seria a reação do Ian quando descobrisse e cheguei à conclusão de que eu sinceramente não queria estar aqui para ver.

— Mas tá contando pra mim — falei, e não foi uma pergunta.

Alex firmou o olhar no meu, sem piscar e sem desviar por um tempo, e eu devolvi com igual exposição.

— É claro — murmurou, os olhos enchendo d'água com mais rapidez. — Como eu poderia ir sem me despedir de você? — falou, retoricamente, com a voz falha.

Subitamente senti os olhos e o nariz arderem em resposta, e desviei o olhar, sentindo minha própria garganta entalar minha voz. Era praticamente a mesma coisa que ele havia me dito naquela noite da tempestade, em que o cenário e as circunstâncias eram outras, mas a ocasião era semelhante.

Eu devia agradecer que os olhos dele não estivessem vazios e perdidos, que ele não estivesse machucado e que as bochechas indicassem que está bem saudável, ao contrário da outra vez.

— Por quê? — perguntei o que não havia tido a chance da última vez.

Alex soltou um som pelo nariz, segurando minha outra mão — a mochila esquecida no chão -, e esperou até que eu erguesse os olhos ardidos para ele. Ele sorriu e os olhos escuros sorriram junto.

— Pelo mesmo motivo que convidei você pra fugir comigo — acabou brincando, mas a brincadeira não chegou aos olhos de nenhum de nós dois. Ele manteve o olhar, o sorriso vacilano, enfim. — Caleb, você é... — Engoliu em seco. — Você significa tanto pra mim. Você é meu melhor amigo — anunciou, e eu senti meu queixo tremer em resposta, o nariz ardendo. — Você é meu porto seguro — continuou, a voz tomada de carinho. — Você é ainda mais. Você é tanto mais — enfatiza, parecendo perdido nas palavras. — Você...

Alex mordeu o lábio inferior, parecendo estar em uma batalha interna de vocabulário, quando algo em sua expressão mudou. O cenho franzido relaxou e os olhos brilharam, e eu senti minha respiração falhar.

— Eu te amo, Caleb — declarou, roubando um pouco do meu ar. — Eu amo você.

Meu choque durou até o choro iniciar. Eu franzi os lábios para os soluços continuarem ali sufocados, mas senti meu peito vacilar, algumas lágrimas desistirem da luta e caírem ao passo que eu desabava pouco a pouco.

Como ele pode dizer isso assim? Agora?

Alex continuava a me olhar da mesma forma, como se havia sido fácil simplesmente declarar aquilo, do nada, como se não fosse a primeira vez. Ele soltou minhas mãos apenas para deslizar as duas até meus cotovelos, como se me segurasse para que eu não caísse, aproximando-se mais.

Eu senti como se algo se remendasse e se quebrasse ao mesmo tempo.

— Você não pode me dizer isso agora, logo antes de ir embora pra talvez nunca mais voltar — resmunguei, quando finalmente consegui falar alguma coisa.

Meu peito ardia e batia forte, como se sangrasse a cada batida acelerada, como se não houvesse conserto e também não houvesse como se destruir por completo. Limpei o rosto rapidamente com o dorso da minha mão trêmula.

— Eu sei — murmurou ele, a voz um tanto culpada. — Eu sei, me desculpa.

Quando voltei a olhar para ele, vi que seu rosto também estava molhado, mas a franqueza ainda estava nos olhos brilhantes.

— Você não pode pedir desculpas depois de me dizer isso — declarei outra vez e, por algum motivo, aquilo o fez sorrir. E, novamente, o sorriso não chegou aos olhos.

— Me desculpa por não ter dito antes que te amava — pediu uma vez mais, e eu não consegui reagir por alguns segundos.

Neguei, fungando. — Você não precisa pedir desculpas por isso — defendi, sentindo-me miúdo.

— Me desculpa por quebrar minha promessa — pediu também, e eu tentei engolir em seco, mas não consegui.

— Você não quebrou — admiti, limpando o rosto mais uma vez.

— Quebrei da maneira que importava — repetiu o que eu havia dito semanas antes, e eu senti meu queixo tremer.

Fechei os olhos, sentindo literalmente dor física com as lembranças.

— Eu também quebrei da maneira que importava, Alex.

Senti ele levar as mãos para o meu rosto novamente, acariciando de cima à baixo, deslizando os dedos pelas bochechas para secar as lágrimas sorrateiras, e eu apenas deixei. Não consegui abrir os olhos por um tempo, e senti que ele encostou a testa na minha, deslizando o nariz gelado pelo meu ardido, em seguida beijou cada uma das minhas pálpebras molhadas.

— Me desculpa por ir embora — pediu também, baixinho.

Desta vez, eu abri os olhos, deparando-me com as orbes escuras culpadas, e não consegui deixar que ele se sentisse dessa forma.

— Não — neguei, a voz falha, ao me afastar um pouco do rosto dele. Engoli em seco. — Não me peça desculpas por isso. Não peça mais desculpas, Alex — pedi, e ele não assentiu. — Eu entendo os seus motivos. Eu entendo você — falei, sentindo o choro querer voltar. — Não peça desculpas por finalmente se libertar, por finalmente fazer o que quer de verdade, por finalmente cuidar de você mesmo. Não peça desculpas por pensar em você mesmo, não só nos outros — falei, e as orbes negras encheram-se d'água outra vez ao passo que ele franzia os lábios. — Você me prometeu que cuidaria melhor de si mesmo e indo embora você tá cumprindo.

A respiração dele ficou falha e as lágrimas escorreram pelo seu rosto incansavelmente, ao passo que ele segurava os soluços também ao franzir um lábios um no outro. A dureza nos olhos ainda estava ali, mas a vulnerabilidade também, como um nervo de dente exposto.

— Eu não sou tão egoísta — continuei, defendendo-me baixinho. — Eu não quero nada além de que você seja feliz como deveria. Você merece ser...

Alex não esperou que eu terminasse e o restante da minha frase foi engolida pelo silêncio da fria noite. Ele me puxou para um abraço tão forte que parecia que nós dois quebraríamos.

— Obrigado — conseguiu dizer, a voz embargada, ao me apertar ainda mais contra ele.

Devolvi o abraço, ainda que esbarrasse as mãos na case das suas costas, onde pertencia de verdade, e desejei que o abraço durasse mais do que humanamente possível.

— Não agradeça — pedi, contra o seu pescoço, antes de enfiar meu nariz ali. Lutei contra toda a vontade do mundo de me esconder, de fugir, de evadir do que sentia, de fingir que não sentia coisa alguma. — Eu... — Engoli em seco, apertando-o um tanto mais. Achei que quebraria aqui e agora, mas ainda assim consegui disparar, genuinamente: — Eu te amo também.

O corpo do Alex tremeu nos meus braços e ele me apertou ainda mais, como se tentasse nos fundir ali mesmo. Soltou um som parecido com um riso, ou um engasgo, e deixou um beijo estalado no meu pescoço.

— Eu sei — admitiu, e eu fechei os olhos.

É claro que sabia.

— Você também merece ser feliz, Caleb, não esqueça disso. Por favor, não esqueça de você — suplicou, a seguir, com certa urgência na voz ao passo que quase me quebrava. — Você tem que cuidar de si mesmo também. Você tem que ser feliz.

Eu apenas assenti, sem ter certeza, sem saber exatamente a que eu estava assentindo, sem saber o que é ser feliz de fato. Ainda assim, eu assenti, como se soubesse.

Mas não passou desapercebido o que aquilo queria dizer.

— Você não vai visitar, né? — perguntei, meu coração encolhido dentro do peito, amuado.

Senti o abraço dele endurecer e ele engoliu em seco contra meu ombro antes de negar mínima e roboticamente com a cabeça, e então confirmou a negativa: — Não, Caleb, eu não vou.

Assenti involuntariamente, mais para que eu mesmo conseguisse assentir a essa informação absurda e dolorida, mais para que eu mesmo conseguisse me convencer de que "ok", "faz sentido", "tá tudo bem", do que convencer a ele. Mas eu me sentia cada vez mais minúsculo e espremido em seus braços, sentindo que estava prestes a desaparecer junto dele e do que havia entre nós.

— Por quê? — sussurrei, derrotado, ainda que assentisse.

— Acredite, Caleb, eu não faço isso por mim. Eu também não sou tão egoísta — declarou, e eu consegui imaginar que ele tivesse um sorriso triste no rosto, da maneira como sua voz bonita soava. Quis me afastar para ver se era isso mesmo, mas ele não deixou, voltando a me apertar com força. Sua voz soou estranha, firme e engasgada ao mesmo tempo, quando disse: — Não espere por mim.

Pisquei, sem reação, odiando o rumo dessa conversa. Tentei me afastar mas, novamente, ele não deixou.

— Não espere — repetiu, firme, e eu quis gritar para que ele não continuasse o que estava prestes a dizer, mas não tive força. — Siga a sua vida. Viva como nunca tivesse me conhecido. Não olhe pra trás — ordenou, duramente, cada frase, como se precisasse de muito esforço para dizê-las, mas não hesitou em nenhuma. — Vai ser melhor assim — garantiu, sem qualquer certeza.

Eu senti que cada pedido era uma facada no meu peito, terminando de estilhaçar meu coração, e quando ele finalmente terminou, dizendo que seria melhor assim, pareceu uma piada de mau gosto.

Não esperar por ele?

Seguir minha vida, assim, sem mais nem menos?

Viver como se nunca o tivesse conhecido?

Não olhar para trás?

Até parece.

Eu não sei se ele realmente acreditou que aquilo era possível ou se pediu apenas para descargo de consciência para não me prender a ele, mas acho que nós dois sabíamos que isso não aconteceria.

Eu estava desnorteado demais para discutir.

Dessa vez, ele permitiu que eu me afastasse e por um segundo pensei que ele apenas não queria me olhar nos olhos quando fizesse os pedidos absurdos que saíram da sua boca. Dessa vez, no entanto, fui eu que relutei para me afastar quando percebi que ele deixaria.

O rosto do Alex estava molhado, assim como os olhos brilhantes, quando deparei-me com eles. Suas mãos ainda estavam em mim, havendo deslizado das minhas costas pra minha cintura, e eu percebi que as minhas também amassavam as mangas de sua camisa, porque não quis soltar. Seu olhar estava pesaroso, mas duro, de forma parecida como havia estado quando viu a própria mãe.

Eu o olhei por um tempo antes de descartar, forçando um sorriso: — Impossível — retruquei apenas, com sinceridade.

Alex piscou, tentou um sorriso estranho também, mas havia uma ruga preocupada entre os olhos enegrecidos. Ele abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada, e eu tampouco consegui emendar algo mais.

Alex aproximou-se o suficiente para deixar a testa encostar na minha outra vez, as pontas dos nossos narizes encostadas, sem fechar os olhos. Eu também não consegui desviar das orbes pretas, com medo de fechar os olhos e ele desaparecer ali mesmo, na minha frente. Havia tanto para falar mas tudo parecia desnecessário naquele momento, porque o único que eu precisava...

Era ele.

Não sei quanto tempo ficamos assim, apenas encostados, testa na testa, nos encarando em uma despedida silenciosa. Nenhum dos dois ousou falar nada, não sei se algum de nós sequer quis falar coisa que fosse. E então, o momento esfumaçou para longe com um piscar de olhos.

Uma buzina soou do lado da rua, à minha direita, e eu estremeci. Desvencilhei dele rapidamente e olhei para o lado a tempo de ver que o motorista do táxi olhava na nossa direção, em especial para o Alex, e senti um pequeno desespero começar a efervescer dentro de mim.

Quando olhei para o Alex, vi que ele percebeu o mesmo que eu e ao direcionar os olhos para mim, vi que eles estavam aflitos. Alex estancou no lugar, os olhos feito bolas de gude escuras e inseguras, como se estivesse cogitando mudar de ideia, como se estivesse duvidando das próprias escolhas, como se pudesse querer voltar atrás.

— Caleb... — sussurrou, os olhos marejando outra vez, como se estivesse em agonia.

E eu entendi.

O táxi para levá-lo ao destino pelo qual ele tem sonhado por três anos, quem sabe bem mais do que três anos, finalmente estava ali. Tornou-se real para ele, assim como tornou-se real para mim.

E eu também entendi minha função aqui.

Eu o amo, não amo?

Então eu inspirei fundo e engoli todo o meu orgulho, toda a minha dor, todo o meu medo do futuro e toda a minha vontade de implorar para que ele ficasse. Quando expirei, ergui o queixo, abri os dedos para soltar sua camisa amassada e deslizei a mão até a sua mão trêmula e a apertei com força.

Sorri, não sei como, mas eu sorri.

— Vá — sussurrei, assentindo. Engoli em seco para que na próxima fala a voz saísse mais nítida: — Tá tudo bem, Alex, você pode ir.

Eu acenei como se tivesse certeza absoluta que esse era o rumo correto dessa história, muito firmemente, com uma força que não sei de onde tirei. Alex hesitou, e eu tentei esboçar a melhor expressão de incentivo que poderia, acenando uma vez mais.

— Vá e seja livre.

Pareceu que uma eternidade havia se passado enquanto ele pesava as próprias opções uma vez mais, embora ambos soubéssemos que havia apenas uma alternativa final. A aflição em seu olhar desvaneceu aos poucos quando a expressão relaxou, e eu soube o que isso queria dizer. Eu ficaria feliz por isso mais tarde, eu teria orgulho dele por isso, mas não agora.

Agora não.

Alex assentiu, fazendo um sinal rápido e desajeitado para o motorista, antes de se aproximar o suficiente para deixar um beijo casto na minha testa. Fechei os olhos, mordendo o lábio inferior, antes que um soluço escapasse.

E então, ele se afastou.

Alex, novamente, não soltou minha mão enquanto usava a outra para colocar a mochila do lado contrário da case. E então, deu alguns passos para trás sem querer soltar minha mão, mas era inevitável, e por incrível que pareça, eu soltei também.

Ele juntou a mochila e deu as costas, marchou em direção ao carro, quase correndo, e entrou no banco de trás com toda a bagagem junto. Achei ter ouvido o taxista perguntar se ele não queria usar o porta-malas mas não ouvi a resposta dele.

Alex não olhou para trás uma única vez.

E eu não me movi do lugar em que estava.

O carro deu partida e ele se foi, levando com ele uma parte de mim. Pensei ter visto, antes de virar a esquina, que ele olhou para trás, mas era mais provável que fosse coisa da minha cabeça.

Alex finalmente voou com o vento para a própria liberdade.

Com isso, ele partiu para longe de mim.

O frio da noite me abraçou, o ventinho pareceu diminuir de temperatura e aumentar a velocidade, fazendo um arrepio desagradável subir pela minha espinha. Eu não sei quanto tempo fiquei ali, sentindo-me dormente, vazio e perdido, e não sei por quanto tempo chorei, mas o meu rosto estava mais congelado que o restante do corpo, por estar molhado. As lágrimas escorriam livremente sem qualquer indício de que chegariam a um fim.

Um barulho de porta batendo, quando alguns adolescentes saíram do ginásio, me despertou em algum momento. Meu corpo dolorosamente virou para trás, e eu lembrei que tinha uma festa acontecendo ali dentro. Me senti mais vazio do que nunca ao me imaginar voltando para lá, cercado de gente que não conseguiria me fazer sentir completo novamente.

Então eu fiz o mais sensato, para não estragar a festa de ninguém, e para não exigir de mim mesmo qualquer resquício de bateria social, emocional ou psicológica: eu fui embora.

Vaguei até em casa tentando segurar as pontas para não desabar — como ele fazia -, então entrei pelo portão que resmungou um som tristemente enferrujado — como ele fazia — e caminhei até minha janela — como ele fazia — para não alarmar minha mãe.

Pulei para dentro, sem qualquer habilidade, e escorreguei até o chão, a borracha do meu tênis fazendo um barulho agudo, e esperei por algum sinal de que minha mãe ou meu padrasto me ouviram. Quando o silêncio confirmou que eu não havia sido notado, os soluços começaram, e me arrastei rapidamente para a cama para tentar abafá-los.

Não consegui ver ou ouvir mais nada, afogado em tanto sentimento, e puxei o Waltney para tentar sufocar o choro contra ele e ninguém me ouvir.

E eu jamais estaria preparado para isso.

Mas eu finalmente disse "adeus".

Notas finais
A música desse capítulo é Lost Without You, da Freya Ridings. Por falar nisso, eu tenho algumas playlists que crio para as minhas histórias no Spotify, nome do meu perfil eu mudei para "littlefatpanda" agr que vou compartilhar com vocês kkkkkk e a playlist de MOS se chama "MOStone". Ignorem as minhas playlists pessoais se aparecerem KKKKKKKKK, e se eu colocar músicas erradas nas playlists, ignorem também. As músicas NÃO tão em ordem de acontecimentos tb, eu jogo lá quando lembro ou quando encontro alguma que me lembra mt MOS. Além de MOS, tem de outras histórias, também disponíveis, como MOF. Beijinhos e agora vamos ao que interessa! Gente, eu sei que este é um péssimo momento pra anunciar isto, mas: ACABOU. ESTE FOI O CAPÍTULO FINAL. NÃO HAVERÃO MAIS FASES. Vamos entrar em hiato, na melhor das hipóteses, e na pior dela vamos encerrar aqui mesmo. Já se passou tanto tempo e tô achando que não vale a pena pôr em prática tudo o que eu havia inicialmente planejado para uma Fase 4 em MOS. Eu cheguei à essa conclusão já faz um tempo, e eu não podia contar antes porque tinha que surpreender vocês, nem todo final é feliz, e eu quis trazer isso pra Made of Stone, pra variar um pouco, e deixar o final alternativo, aberto para as interpretações de vocês. Sem falar que demorei muito e é melhor acabar aqui mesmo, nos poupa tempo. Obviamente eu tô brincando HAHAHAHHAHAHAHAH. Sorry. Eu precisava dessa risada. Trarei os extras a seguir, que estão semi prontos, e em seguida partiu Fase 4, ok? KKKKKKKKKKKK. Desculpa a brincadeira infeliz, e desculpa a demora também, mas eu não andei só procrastinando, tá? Eu tenho escrito bastante agora com meu querido, amado e caro notebook kkkkkkk, mas confesso que acabei focando mais em outros projetos do que aqui. Revisitei até mesmo MOA e MOC, que quis publicar uma vez, mas publicar estes meus esboços também é um investimento de tempo e acho que não vai rolar com os outros projetos pessoais que ando escrevendo. Eu obviamente não sei administrar meu tempo, como vocês já devem saber. Às vezes a gente tem que parar de se mentir e aceitar alguns dos nossos defeitos pessoais kkkkkk. Sobre o capítulo, aí está, o adeus tão esperado por todos, finalmente rolou. Vocês tem alguma ideia do que vai acontecer a seguir? Quanto tempo o Alex vai ficar longe? O que vai rolar na ausência dele? O que vai rolar na PRESENÇA dele, em Mallow Coast, enquanto ele voa com o vento? Kkkkkkkkkkk. Quero teorias na minha mesa agora! E vamo de abraço coletivo! s2 Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! ♥