Made of Stone
58 EXTRA - Sempre estivemos aqui - Pt. II
Notas iniciais
Enquanto os dois ficavam presos em um próprio mundinho, como se nada nem ninguém fosse capaz de invadir, eles eram observados por vários pares de olhos diferentes. Ainda que em um universo próprio, os demais amigos, em universos diferentes, ainda estavam ali para observar.
— E aí, ele contou?
Mary Jane ergueu os olhos para deparar-se com Bruno.
Assim que o Alex simplesmente a abandonou naquele cantinho do ginásio para seguir seu conselho, sequer lembrando de despedir-se, MJ deslocou-se devagar pela lateral do ginásio até as mesas destinadas aos convidados dela e do Alex. Sentou-se de frente para a pista de dança, vendo de camarote o que havia observado discretamente de longe o tempo todo, e ali ficou até Bruno aparecer, apertando um dos seus ombros com a mão.
Jane suspirou e apontou para os dois dançando apaixonadamente.
— Eu acho que ele decidiu contar de outra maneira — apontou, e Bruno seguiu seu olhar antes de suspirar também, puxando a cadeira para sentar ao seu lado.
Uma terceira amiga se juntou a eles, vagarosamente, distraída. — Que que vocês tão olhando? — perguntou Faye, tentando enxergar para quem exatamente eles destinavam tão cuidadosa atenção.
Jane apenas apontou com a cabeça, de forma parecida com a qual apontou para o Bruno, e Faye acabou enxergando, quase engasgando na própria saliva. Segurou o gritinho, para não chamar a atenção, e começou a dar pulinhos animados.
— Meu deus, que amor, olha aqueles dois! — exclamou, sacudindo tanto MJ e Bruno por trás, sem controlar-se. Em seguida, olhou para trás de onde a melhor amiga a julgava. — Anne, olha! — chamou, correndo até ela e puxando-a para perto dos dois amigos.
— Credo, que que foi? — resmungou Annelise, ainda de cara com ela por haver sumido e deixado-a dançando com o pervertido do irmão da Em. — Precisa me chacoalhar assim?!
— Preciso, olha aquilo! Olha!
Annelise demorou para enxergar, enquanto Faye a chacoalhou um pouco mais, até que a melhor amiga enxergasse o mesmo que ela. Annelise arqueou as sobrancelhas quando enxergou os dois, realmente surpresa.
— Credo, finalmente! — resmungou Annelise, estalando a língua. — Vejo isso aí se enrolar pra acontecer tem anos já. — Faye deu um tapa nela, e Anne resmungou. — Será que pode parar de me agredir, sua vadia?!
Bruno acabou gargalhando, entreolhando-se com uma divertida MJ, sentados em frente às duas amigas. Mas então comentou algo que chamou atenção de todas: — Eu acho que vocês não deviam comemorar tão cedo — apontou, uma sobrancelha arqueada. — Vocês tão ligadas que o Alex vai dar no pé, né?
Faye revirou os olhos, puxando a orelha do Bruno, que reclamou.
— E daí? — protestou, apontando para os dois. — Aquilo é amor verdadeiro, nem que o Alex se mude para a Groelância isso vai acabar, e ele vai se mudar aqui pro lado — apontou, literalmente, para o lado, como se a cidade ficasse no bairro vizinho.
Bruno deu de ombros, como se não tivesse tanta certeza sobre isso.
— Aquele é o Caleb? — perguntou Em, juntando-se a eles, também em pé ao lado dos demais. — Que amor! — exclamou, com um beicinho.
— E ele cresceu, né? — comentou MJ, para ela, com um sorriso feliz. — Daqui a pouco, ele passa o Alex — brincou, com um riso, e Em concordou.
Emily colocou a mão no coração, um tanto tocada com a cena, antes de olhar para os demais. — Ah, gente, que amor! — repetiu, inclinando a cabeça para o lado. — Eu acho que nunca vi o Alex tão apaixonado, olha só pra ele!
Jane concordou, fazendo um beicinho ao observar, e acrescentou: — Eu também, que dó!
Faye acabou bufando ao seu lado, levando as mãos à cintura instantaneamente. — "Que dó" por quê?! — protestou, mais uma vez, sobre a negatividade dos demais. E olha que ela era a única gótica dali. — Para com isso, gente, eles tão ali se amando e vocês prevendo tragédia, cruz credo! Bando de pessimista do caralho! — reclamou, dando um peteleco na cabeça de todos, mesmo quem não havia dito nada.
Bruno olhou para cima e levantou-se em seguida, deixando o assento vazio. — Me parece agridoce, só não vê quem não quer — apontou, para a Faye, antes de dar um peteleco na testa dela.
— Cala a boca! — reclamou Faye, fazendo-o rir quando tentou bater nele.
Bruno correu para longe, deixando as meninas sozinhas.
— Sereia, vem cá! — chamou Faye, manhosa, quando Mia passou perto delas. — Bando de gente negativa! — reclamou, para Anne, Emily e MJ, que riram, antes de voltar-se para Mia. — Vem aqui neutralizar minha energia, vem! — pediu, com um beiço enorme.
Mia acabou rindo quando se aproximou, abraçando-a logo que chegou. Deixou um beijo carinhoso em seu rosto e disse: — Pronto, neutralizando energias negativas da minha marinheira — falou, deixando outros beijinhos pelo ombro e pescoço dela.
Faye riu, aceitando de bom grado. — Hum, bem melhor, minha sereia!
Annelise olhou para as duas com uma cara azeda, dos pês à cabeça, e comentou: — Vou vomitar em vocês duas.
Faye mostrou-lhe a língua em resposta, muito madura, enquanto Mia ria, beliscando a barriga dela.
— Pobre Alex — comentou Emily, ainda entretida pela dança emotiva dos dois, com a mão no coração. Não conseguia tirar da cabeça o que Jane havia dito, sequer prestando atenção na briga das demais. — Pobrezinhos — murmura, com um beiço.
Annelise movimenta-se para abraçar a amiga, dando tapinhas encorajadores em seu ombro. — Calma, Em, eles vão ficar bem — garantiu, sem a menor certeza. — Eles vão se resolver e acabar ainda namorando à distância, escreve o que eu tô dizendo! — Em seguida, acrescentou, com o nariz empinado: — Eu tô sempre certa.
Emily acabou rindo, observando-a com curiosidade e diversão, o sentimento agridoce ao ver o amigo dançar esvaindo-se aos poucos. Em mexeu com os cabelos de Anne, fazendo carinho, ao observá-la com atenção.
— Não sabia que minha cunhada era tão romântica — comentou, sem aguentar, com um sorriso de canto.
— Argh, já passou! — resmungou Annelise, soltando Emily quase imediatamente, e as outras gargalharam.
— Você vai ter que se acostumar — retrucou Em, ainda de bom humor, ao apontar um dedo para ela. — Se decidir namorar meu irmão, então vai ter que entrar em contato com o seu eu romântico, senão vai quebrar o coraçãozinho dele.
— Que nojo, vocês — reclamou Anne, torcendo o nariz, mas Faye sabia que as orelhas da melhor amiga queimavam. — E ele nem é tão romântico assim. — Estalou a língua, arqueando uma das sobrancelhas. — Ah, se vocês soubessem...
Emily fez uma careta automática, e Faye arqueou as sobrancelhas, quase soltando um comentário ainda mais maldoso, mas Mia adiantou-se: — É melhor pararem por aí antes que traumatize a nossa Em.
Faye concordou, resistindo ao impulso de comentar algo ácido, antes de se aproximar de Emily e tapar os ouvidos dela automaticamente para protegê-la de tudo que pudesse escapar da boca das outras.
— Quem vai traumatizar a Em? — questionou Lucy, aproximando-se delas com uma garrafa de refrigerante nas mãos.
Annelise comemorou, aproximando-se de Lucy para abraçá-la. — Agora sim! — celebrou, alegremente. — Agora sim a nossa turma do poder tá completa!
As garotas riram e Annelise cutucou MJ para que ela levantasse e se unisse a elas para que se abraçassem em comemoração. Jane olhou para cima, surpresa, antes de apontar para si mesma. — Eu também? — perguntou, um tanto divertida. — Acho que eu perdi minha vaga nessa panelinha há muito tempo.
Faye deu um peteleco nela, irritadiça, ao estalar a língua. — Cala a boca, ridícula!
— Você tem um passe livre aqui com a gente, MJ — garantiu Emily, com carinho, quando ela levantou-se para se juntar a elas.
— Ah, que amor — comentou Lucy, quase ao mesmo tempo, achando graça. — Vocês falam "panelinha" também, é?
As garotas riram, e MJ apontou: — Isso é coisa do Alex, viu?
— Sempre é — concordou Annelise, revirando os olhos, ao rir, antes que Faye concordasse:
— Sempre!
Elas gargalharam em uníssono, graciosas, antes de se abraçar em grupo, aproveitando que nenhum dos amigos se uniam a elas naquele momento. Então, começaram a ajeitar as cadeiras para virar na direção da pista de dança, ainda que a música houvesse finalizado e os meninos se separado, para conversar sobre bobagens.
Entre risos e brincadeiras, colocaram o papo em dia o quanto podiam, enquanto os meninos ao longe também faziam um meio círculo de conversa entretida. No entanto, um deles aproveitou a primeira brecha para se separar dos demais e correr na direção da pista de dança.
O motivo era que a primeira música lenta havia acabado, logo, Caleb e Alex haviam se separado e ido para lados diferentes, sob atenção de vários dos amigos. Bruno aproveitou a oportunidade — não iria perdê-la de jeito nenhum — para puxar seu melhor amigo e conversar com ele à sós justo naquele momento em que ele parecia perdido, andando em nuverns.
Alex estava tão avoado que sequer viu quando Bruno aproximou-se, jogando um braço por cima dos ombros dele, que levou um susto.
— Parece que meu príncipe das trevas tá com a cabeça trevosa nas nuvens de algodão — comentou, baixinho, perto do ouvido dele.
Alex, em resposta, acabou empurrando-o sem conseguir evitar rir. — Cala a boca, Bruno!
Bruno riu preguiçosamente antes de posicionar-se de frente para ele. — Quem te viu, quem te vê — continuou, cruzando os braços na frente do peito ao analisar tudo com bom humor. — "Ain, Caleb é só um garoto, você tá imaginando coisas" — imitou ele, em um recorte de memória, uma impressão muito mal ao afeminizar a voz erroneamente. — E aqui tá você dançando uma música lenta coladinho nele! Sei — desdenhou, antes de gargalhar.
Alex tentou não rir, falhando, mas empurrou o amigo, um tanto frustrado. — Sai — reclamou, quando Bruno o cutucou como resposta.
— Eu acho engraçado — continuou o mexicano —, porque não é como se a gente tivesse ficado um ano sem se falar. Toda semana a gente conversa, nada mudou, e ainda assim você simplesmente esqueceu de mencionar que o seu menino é seu menino agora. Engraçado, né?
Alex estalou a língua, beliscando Bruno de volta, ao desviar o olhar rapidamente. — Ele não é "meu" nesse sentido, foi só uma dança.
— Tá brincando? — perguntou Bruno, sem saber se ria ou se chorava. — Aquilo ali não é só amizade nem aqui nem no México.
Alex acabou rindo da comparação dele. — Eu sei que não — admitiu, olhando ao redor, certificando-se de que ninguém ouvia a conversa, ao passo que Bruno arqueava as sobrancelhas como quem diz: agora sim estamos chegando em algum lugar.
Bruno o observou por alguns instantes, esperando uma continuação, mas nada veio. Então preocupou-se, franzindo o cenho. — Vocês não tão juntos, então? — perguntou, mais sério, desta vez. Alex também perdeu o sorriso e negou, quietamente. Bruno estreitou os olhos. — Mas ficaram juntos em algum momento? — deduziu, e Alex hesitou antes de dar de ombros.
Suspirou.
— É, mas rolou aquilo com meus pais, então eu surtei e meio que espantei o Caleb — comentou, dando de ombros, com um sorriso triste.
Bruno franziu o cenho antes de arquear apenas uma das sobrancelhas.
— Um minuto atrás, esse menino parecia tudo, menos espantado, nos teus braços — comentou, acabando por rir.
Alex sorriu tristemente e caminhou para mais longe para que pudesse conversar melhor, e Bruno o seguiu de pronto. Alex apoiou as costas na parede do ginásio, próximo de onde estavam as bebidas, e Bruno parou em frente a ele, esperando.
— Eu conheço o Caleb — continuou Alex, baixinho. — Talvez ele nem perceba, mas acho que o motivo real da gente ter se afastado de novo é que ele ficou com medo de se machucar. E eu deixei porque, no fundo, eu também fiquei com medo de machucá-lo, porque eu bem sei que é possível — contou, soltando um som pelo nariz, olhando para longe. — Fazer terapia é só um começo, sabe? — comentou, voltando a olhar para os olhos castanhos do Bruno. Finalizou, com um riso fraco: — Eu ainda sou bem fodido da cabeça.
Alex esperou que Bruno risse ou soltasse alguma piada, como sempre fazia, mas ele ficou sério. Alex engoliu em seco.
— Ele pode até querer estar comigo — continuou, quando Bruno deu abertura —, mas ele tem um instinto bom e o instinto dele diz para ele ficar longe de mim, e com razão. Acho que foi assim desde que ele me conheceu, mas só agora que eu fui perceber e, inclusive, concordar — riu, tristemente, pensativo.
Bruno não falou nada por alguns instantes, ponderando sobre o que Alex havia falado, e repassando tudo o que sabia sobre o Caleb e sobre ele em sua cabeça, pensativo.
— Nem tudo é sobre você — acabou falando, uns instantes depois, e Alex franziu o cenho. — Se ele tem tanto medo assim, quer dizer que você não é o único que precisa de terapia. — Deu de ombros. — No fundo, todo mundo é meio fodido da cabeça, Alex, acho que o que importa de verdade é o quanto a gente tenta se endireitar pelo nosso bem e pelo bem dos demais.
Alex arqueou tanto as sobrancelhas que sentiu a própria testa enrugar.
— Nossa, Bruno...
Na verdade, apesar da surpresa, Alex sabia que havia um fundo de experiência própria no que o Bruno dizia. Uns tempos atrás, quando ele havia contado para a própria família sobre ele e o Jake, a reação não foi bonitinha como a de filmes motivacionais. A família do Bruno era bem mexicana raíz mesmo, conservadora e religiosa, apesar de serem todos tão amorosos. Levou muito tempo, muitas conversas, muitas brigas e muitas mágoas para que eles recém começassem a aceitá-lo — e só a parcela da família que o amava de verdade mesmo, como sua avó, seus pais, seus dois irmãos.
Umas semanas atrás, Alex havia recebido um vídeo do Bruno que não dizia nada, mas que não precisava, porque significava tudo. Era aniversário da abuelita, havia muita música tradicional mexicana de fundo e muita conversa alta, mas o foco da câmera estava em Jake, dançando com a abuelita, fazendo-a girar no próprio eixo com delicadeza enquanto ela ria, e um dos irmãos do Bruno tirava fotos atrás deles com um sorriso no rosto.
Bruno perdeu a faceta séria no mesmo instante do comentário do Alex, e logo fez uma careta abobalhada. — Eu sei, né? — provocou, rindo. — Eu sei falar bem.
Alex acabou rindo junto, embora estivesse um pouco pensativo sobre o que ele havia dito a respeito do Caleb.
Bruno acabou, novamente, analisando Alex de cima à baixo antes de dizer: — Eu sei que essa noite tem uma vibe meio triste, já que é a última vez que a gente se reúne em grupo antes que você siga seu caminho em direção ao pote do arco-íris — brincou, e Alex revirou os olhos —, mas eu devo dizer... Mesmo que você diga que ainda é bem fodido da cabeça, eu acho que nunca te vi tão "não trevoso" antes.
Alex arqueou as sobrancelhas, um tanto surpreso.
— Parece que as trevas do meu príncipe nunca estiveram tão iluminadas quanto hoje — acrescentou, gracioso, embora estivesse sendo sincero.
Alex franziu o cenho.
Para ele, as coisas andavam bem trevosas nessa noite, por tantos motivos diferentes. Estava triste e pesaroso sobre o que poderia perder ao ir embora e nas condições nas quais iria embora. Estava angustiado por não haver conseguido despedir-se ainda, em palavras, do Caleb ou do Ian, e no quanto isso poderia arruinar a relação deles. Estava aliviado pela liberdade, é claro, orgulhoso pela conquista e feliz com a presença de todos — inclusive, com a presença inesperada da sua mãe naquela tarde, que havia enchido seu coração vazio, ainda que a sensação agridoce prosperasse. Ainda assim, continuava bem fodido da cabeça, e não sentia que muita coisa havia mudado, especialmente naquela noite.
— Acho que não — murmurou, perdido em pensamentos, mas Bruno apenas sorriu.
— Eu tenho certeza que sim — defendeu ele, chamando atenção de Alex. — Realmente, eu nunca te vi tão bem quanto agora!
— Sério? — continuou, um pouco chocado, e Bruno assentiu.
— Fico feliz, porque se não fosse por isso... — Bruno contorceu o rosto em uma cara de choro e puxou bruscamente o Alex para o seu abraço ao fazer voz de choro: — Eu nunca te deixaria me abandonar dessa forma, meu amor, minha vida, meu príncipe trevoso! — choramingou, ao passo que Alex ria. — O que eu vou fazer da minha vida sem minha alma gêmea?! — gritou, dramático, ao abraçá-lo forte a ponto de esmagá-lo.
Alex deu um tapa nele, vendo que ele atraiu a atenção até de alguns professores ao lado, que riram com diversão.
— Shh, Bruno! — reclamou, vendo que alguns familiares de outros formandos os olhavam com estranheza, dando tapinhas no ombro dele para que o soltasse. — A gente não tá em casa!
— Deixa que ouçam meu lamúrio de amor! — berrou, e Alex acabou gargalhando sem conseguir evitar.
— Eu não quero ouvir, senão eu vou chorar! — chorou Alex, de volta, ao entrar na encenação que adorava, ligando o foda-se para os velhos chatos que os olhavam torto. — Minha vida, como eu posso ouvir teu lamúrio sem me desmanchar em amor também?!
E assim ficaram, dramáticos, abraçados por um tempo ao encenar mais uma peça de teatro gratuita ao público que sequer pediu por ingressos.
Os demais rapazes, da panelinha antiga, apenas observaram de longe os dois amigos escandalosos amarem-se publicamente. Estavam ainda separados das amigas, unidas em grupo, conforme eles próprios estavam no meio de uma conversa.
— Era isso — concluiu Ahanu, fracamente.
Matt estalou a língua, enquanto Jake imitou, achando engraçadinho: — "Era isso".
— Ah, por favor! — reclamou Matt, dando um peteleco nos cabelos de Ahanu.
Ahanu estava sentado ao lado esquerdo do Matt, enquanto mais à frente na mesa estavam Jake e Ben, lado a lado, os únicos não presentes eram Bruno e Alex, perdidos em uma cena de amor ao fundo, que os demais preferiram ignorar.
— O que vocês querem que eu fale?! — riu Ahanu, dando de ombros, antes de enfatizar uma vez mais: — Ela realmente não é muito acessível, fazer o quê, eu sabia disso desde o início e pra mim não tem problema. — Abriu um sorriso largo. — Ela é perfeita pra mim.
— Gado — apontou Jake, achando graça, ao mesmo tempo em que Matt deixava escapar:
— Mas é um gado mesmo!
Ahanu arqueou uma das sobrancelhas.
— Olha quem falando, né? — riu-se, debochado, ao medi-lo dos pés à cabeça. — O maior gado de todos.
No silêncio dos siameses que, apesar de não verbalizar, obviamente concordavam com aquela afirmação, Matt apenas deu de ombros. Riu-se, como se não importasse: — Eu sou mesmo.
Jake arqueou uma das sobrancelhas, bebericando um suco batizado. — Também não poderia dizer outra coisa na frente do cunhado, né?
— Vocês se passam — descartou Matt, estalando a língua, quando eles riram. — Todos sabem como eu sou com a Em.
— Olha ele, olha ele — debochou Ahanu, divertido, mas Matt deu de ombros.
— Ah, sei lá, eu gosto muito da Anne — apontou, na defensiva —, mas ela parece ser o tipo de pessoa que não se abre muito e não admite o que sente. — Ahanu parou de rir, prestando atenção nele. — Acho difícil se relacionar com alguém assim.
Ahanu largou o refrigerante em cima da mesa, voltando-se para ele ao assentir, conforme os outros dois apenas observavam.
— Eu entendo o que você quer dizer, mas ela não é tão fechada quanto parece, não, e quando estamos juntos ela é bem carinhosa — defendeu a possível futura namorada, cruzando as pernas. — Por exemplo, a gente tá sempre dormindo junto. — Os três se entreolharam em resposta, e Matt começou a assoviar, mas Ahanu revirou os olhos. — Não, não é isso, parem — reclamou, embora sorrisse, quando Jake começou a rir com o Matt. — A gente dorme muito juntos, sabe, e ela acostumou tanto de dormir abraçada comigo que mesmo quando a gente não se vê o dia todo, ela ainda quer ir lá em casa ou que eu vá até ela pra gente dormir abraçadinho. Não vou dar mais detalhes — adiantou, com um riso de canto —, depois vocês falam pra ela que eu contei e ela me mata.
Eles riram, sabendo que era verdade, e Matt assentiu, impressionado. — Ah, mas quem não gosta de dormir juntinho com seu amor tá morto por dentro.
— Eu não acho isso dela — acrescentou Jake, interrompendo-os, pensativo. — Acho que a Anne parece ser o tipo de pessoa que só demora pra se abrir, mas que se entrega por inteiro quando passa a confiar.
Ahanu abriu um sorriso largo, inclinando-se por cima da mesa para dar dois tapinhas no ombro dele. — Obrigado, meu rei, você é um amigo.
Ben, ao lado, apenas riu, balançando a cabeça de um lado ao outro.
— Abestados — apontou Matt, rindo, antes de comentar: — A Em sempre foi muito carinhosa, ela sempre dorme abraçadinha comigo.
Ahanu assentiu, voltando a tomar o refri. — Ela é mesmo — apontou, e então o olhou com seriedade por um instante, estreitando os olhos puxados: — É bom que cuide dela.
— Óbvio — resmungou Matt, em resposta, e então riu. — Mas tem algo que é engraçadinho que ela faz: mesmo que a gente durma abraçado, no meio da noite Em termina lá do outro lado da cama. E se eu tento abraçar ela de novo, ela resmunga porque não quer contato.
Ahanu o olhou com julgamento.
— Também — desdenhou. — Um peso desses em cima dela.
Matt apressou-se em chutar a cadeira do cunhado.
— Não enche, nanico! — incomodou, e Ahanu quase o matou com o olhar. Ignorando-o, Matt voltou às duas múmias que os acompanhavam, percebendo naquele instante que às vezes Bruno e Alex faziam falta em uma rodinha de conversa: — E vocês, siameses? Tão muito silenciosos.
— Eu, não! — resmungou Jake, devido às suas micro participações na conversa.
Matt revirou os olhos, apontando para o parceiro de formatura: — Ben — especificou —, você tá muito silencioso.
Ahanu gargalhou ao dizer: — Ele tá repensando se larga a Lucy pra ficar com a Faye até agora.
Benhur acaba sorrindo ao comentar, genuinamente, com carinho: — A Faye é maravilhosa.
Matt apontou, rindo com eles: — Vish, entre nós, esse aí é o maior especialista sobre dormir com a namorada.
Ben estalou a língua. — Cala a boca — retrucou, embora em um tom calmo. — E na verdade, não. Lucy e eu não dormimos muito juntos. — Quando os demais se entreolharam, pensando no óbvio a respeito da relação fogosa dela com a Lucy, ele revirou os olhos. — Nós quase nunca passamos a noite na casa um do outro, a gente passa mais tempo juntos durante o dia, e depois cada um em sua casa.
Ahanu torceu o nariz, antes de apontar: — Nossa, que frios!
Jake negou, defendendo: — Eu não acho, deve ser bem melhor assim — comentou, fazendo uma careta ao lembrar do Bruno babando em seu rosto. — É um alívio quando eu consigo dormir sozinho.
— Eita, vou contar pro Bruno! — brincou Matt, rindo.
Jake deu de ombros. — Pode contar, ele sabe bem do que eu tô falando.
Ahanu riu, olhando diretamente para o Jake quando ponderou, em voz alta: — Bruno parece o tipo de pessoa que baba dormindo.
Todos riram ao mesmo tempo, inclusive Jake, que arqueou as sobrancelhas porque havia acabado de pensar nisso e então suspirou.
— Sim — concordou Jake, com uma cara de desolado. — Eu não gosto de dormir abraçado com ninguém — especificou —, só que eu resolvi namorar praticamente um golden retriever, então é impossível desgrudar dele durante a noite — brincou, e os demais caíram na gargalhada, concordando que não havia melhor descrição para o Bruno. — Às vezes, não consigo nem respirar direito com o sufoco.
Ben estalou a língua, assim que as risadas cessaram. — É um pamonha mesmo — reclamou —, roubando seu oxigênio.
— Pronto, começou o defensor — riu-se Matt, revirando os olhos.
— É verdade — defendeu Ben, dando de ombros. — Jake finalmente teve uma boa noite de sono quando a gente dormiu junto, sem ninguém jogado em cima dele como se ele fosse travesseiro — comentou, como se não fosse nada, e eles arquearam as sobrancelhas. — Ele tava precisando tanto disso que quase nem acordou.
— Espera aí — riu Ahanu, entreolhando-se com o Matt.
— Como assim, "quando a gente dormiu junto"? — contemplou Matt, achando graça ao mesmo tempo que estreitava os olhos.
— Vish, primeiro a Faye e agora o Jake — riu Ahanu, apontando para Ben. — Lucy que fique de olho.
Matt riu, mas nenhum dos siameses riu também, Jake revirando os olhos. Matt brincou, apenas para encher o saco deles, porque sabia que não gostavam: — Às vezes eu acho que vocês são próximos demais.
— Né, não? — concordou Ahanu, alheio à brincadeira antiga.
Jake acabou irritando-se com os dois idiotas, e Ben apenas piscou.
— Calem a boca, bando de degenerados! — reclamou Jake, revirando os olhos, antes de chutar a cadeira do Matt em específico. — Que merda tão pensando? — resmungou, estalando a língua. — Eu, hein.
Ben deu de ombros, inabalado com a discussão deles, antes de soltar o seguinte comentário:
— Eu não tenho que me policiar com o Jake — falou, muito calmamente —, ele é meu muito antes do pateta do Bruno aparecer pra roubar ele de mim.
Ahanu e Matt entreolharam-se antes de cair na gargalhada, soltando comentários inapropriados que Jake preferiu ignorar. Jake, por sua vez, apenas fechou os olhos com o comentário do Ben, abriu e fechou a boca, mas desistiu, os outros dois apenas rindo.
Assim que os dois pararam de fazer gracinha, parecendo compartilhar o mesmo neurônio, Jake virou-se para o Ben com a maior calma do mundo: — Eu entendo o que você quer dizer, mas a gente já conversou sobre que palavras usar quando você diz isso.
Ben, novamente, apenas olhou para o melhor amigo e deu de ombros.
— Foda-se — apontou, tranquilo, antes de desdenhar: — Vou eu me importar com o que os outros pensam.
Jake suspirou, virando-se para os outros dois. — Eu desisto.
— Peraí, peraí — interrompeu Matt, assim que parou com as gracinhas, embora ainda sorrisse feito um imbecil. — Vocês enrolaram e não disseram nada com nada. Quando é que dormiram juntos?
Ben e Jake se entreolharam, e Jake suspirou, optando por explicar no lugar do Ben: — A gente foi pra colônia em um final de semana. Era uma viagem de um dia só e era pra ir nós quatro — falou, sem necessidade de explicar quem eram os quatro em questão —, só que primeiro o Bruno cancelou e depois a Lucy, por causa da faculdade e do serviço. Como a gente reservou, tivemos que ir só os dois.
Ben brincou: — Jake passou mal.
— Você é que passou mal — riu ele, apontando para o Ben, e ele sorriu de volta, bem-humorado. Jake voltou-se aos demais: — Digamos que a gente comeu tudo o que tinha lá, ficamos estufados e com sono, então tivemos que improvisar e dormir algumas horas no carro mesmo antes de viajar de volta.
Matt e Ahanu assentiram, divertidos e entretidos: — E eles? — perguntou Matt pelos dois, referindo-se ao Bruno e a Lucy.
Ben fez questão de responder por Jake: — Bruno quase teve um piripaque, mas a Lucy é normal.
Jake revirou os olhos, não passando desapercebido a ênfase de que "Lucy é normal" apenas por ser tão inabalável quanto Ben, desapegada e tranquila, e que isso era considerado normal por Ben. Enquanto Bruno sentir ciúmes e não ter uma autoestima tão inabalável assim ser considerado anormal, e sua reação ao exagero do Ben quando contou aquela história ser considerado um "piripaque".
— Ele só tem um pouquinho de ciúmes — defendeu Jake, olhando para os outros dois.
— Um pouquinho — debochou Matt, já conhecendo a figura.
— Sem necessidade — eluciou Ben. — Deus me livre de passar uma noite junto com o meu melhor amigo de infância — debochou Ben, estalando a língua.
— Você também não se ajuda e nem me ajuda, né? — reclamou Jake, revirando os olhos, antes de virar para os dois dois, apontando para Ben, que de inocente tinha nada: — Esse aqui fez questão de provocar o Bruno de propósito, inventando que a gente dormiu em um hotel e que só tinha uma cama.
Jake torceu o nariz, recordando-se ao passo que relatava.
Bruno havia gargalhado feito um histérico, como se achasse muita graça da brincadeira deles, quando na verdade era muito óbvio que ele estava quase tendo uma síncope nervosa em forma de riso. Ele quase perdeu as estribeiras, mas Jake conseguiu controlar a situação — bom, mais ou menos.
— Adoro fanfics assim! — riu Ahanu, perdendo-se na história.
Matt gargalhou, empurrando Ahanu de leve.
— Pois é, bom, o Bruno não é fã — contradisse Jake, olhando torto para Ben, que olhou torto de volta.
— Você também provocou ele — apontou Ben, arqueando uma das sobrancelhas.
Jake abriu e fechou a boca, mas acabou escondendo os lábios ao lembrar da sua pequena provocação. Não era apenas que fosse engraçado provocar Bruno, mas que era bonitinho que ele ainda tivesse ciúmes dele e mais do que isso, gostava das maneiras com as quais poderia compensar mais tarde pela provocação.
— É, tá bom — admitiu, com um mínimo de sorriso. — Foi um pouco engraçado, então nós três meio que tiramos onda em cima, Lucy também. — Jake soltou um riso, mas forçou-se a ficar sério. — Bruno quase morreu e depois eu é que tive que pagar o preço da gracinha deles.
— Da gracinha nossa — corrigiu Ben, piscando lento.
— Que colônia era? — perguntou Matt, franzindo o cenho ao tentar recordar. — Eu acho que vi uma publicação de vocês lá, mas não era só vocês dois.
Jake assentiu, explicando: — É que a gente conseguiu reunir os quatro outro final de semana e fomos todos, mas aí a gente ficou todo o final de semana e realmente dormimos em um hotel.
Havia sido divertido, uma pequena exceção boa, uma fuga da realidade dura da vida adulta. Puderam perder-se por um final de semana inteiro em um local desconhecido, com as pessoas mais próximas que amavam, e entre amigos, até que fossem forçados a retornar.
— Bruno foi o primeiro a confimar presença — contou Ben, os olhos brilhando em divertimento, e Jake escondeu os lábios para não rir do namorado junto dele.
Todos gargalharam em resposta, tirando sarro do amigo que sequer ali estava para defender-se. Um instante depois, como se fosse convocado lá de longe, Bruno brotou perto deles ao dar um susto em Jake, e sentou-se na mesa junto dos demais.
Bruno sentou ao lado esquerdo do namorado, sendo que Ben estava ao lado direito dele, e automaticamente levou um braço para os ombros de Jake, puxando-o mais para perto de si — desencostando-o de Ben.
— Do que estamos falando? — perguntou, olhando de um para o outro, mas as gargalhadas apenas aumentaram de volume.
*
A outra metade da laranja, ao invés de juntar-se ao Bruno para sentar com os rapazes da antiga panelinha, dirigou-se à mesa contrária, deslocando-se até a mais nova panelinha. Ao menos, uma pequena parte da nova panelinha, composta por Bex e Korn apenas.
Alex juntou-se a eles, sentando-se à esquerda de Bex, que estava à esquerda de Korn, e abriu um sorriso largo.
— E aí, como estamos? — perguntou, olhando para os dois. — Aproveitando?
Bex analisou-o minuciosamente, com um sorriso mínimo, antes de assentir. Entreolhou-se com o namorado, os dois bastante divertidos com o que estavam discutindo antes da chegada do Alex, e voltou-se a ele: — Bastante, a gente só bebeu e comeu — apontou, um dos únicos motivos que levavam aquele casal para festas. — Ah, e o Korn rebolou um pouco com o Dan e a Grace na pista de dança.
Korn assentiu, levantando-se e ficando de frente para os dois ao espreguiçar-se espaçosamente.
— Na verdade, a gente tava mesmo pensando em dançar só nós dois — relembrou, os olhos puxados brilhando em divertimento, cutucando Bex. — Que que cê acha, amor?
Bex sorriu abertamente, assentindo. — Acho que é uma boa — concordou, antes de voltar-se ao Alex e enfatizar, palavra por palavra: — A pista de dança tá bem requisitada hoje mesmo.
Alex estreitou os olhos em resposta mas entendeu na mesma hora.
— Cuidem da própria vida — resmungou, dando um empurrãozinho em Bex ao mesmo tempo que sentia as orelhas queimarem.
Korn e Bex gargalharam em resposta, e Bex aproximou-se de Alex o suficiente para puxá-lo para um abraço que ele ficou recusando, com um beiço emburrado.
— Não precisa ficar envergonhado — descartou Bex, com um sorriso, antes de apertar a bochecha do Alex. — O amor tem que ser celebrado mesmo.
Alex mostrou a língua para Bex, bem maduro. — Bocó!
Korn continou alongando os braços, rindo junto de Bex, que continuou observando Alex com um sorriso ao ponto dele sentir-se desconfortável no próprio lugar, remexendo-se na cadeira.
Bex levou uma mão ao rosto do Alex e virou-o na sua direção, percebendo que ele parecia saudável.
As bochechas dele estavam coradas, mas também estavam cheias comparadas à semanas antes, porque havia voltado ao peso normal, debaixo dos olhos haviam pequenas olheiras mas devia ser devido à ansiedade dos últimos dias e organização da formatura. De resto, os olhos estavam límpidos, lúcidos, havendo estado limpo de qualquer tipo de álcool, nicotina ou cannabis há semanas.
— Olha só pra você — murmurou Bex, com carinho, ao acariciar o rosto dele. — Tá feliz?
Alex franziu o cenho, hesitando por um instante. — Feliz? — ponderou, percebendo que ninguém havia perguntado isso para ele até aquele momento. E então pensou que não era o momento. — Nossa, Bex, você pesou, hein? — brincou, rindo de nervoso. — Uma pergunta dessas.
Bex riu, mas descartou. — Eu tô falando de hoje, de agora, do que conquistou, do seu trajeto até aqui — especificou, porque havia mesmo observado o sorriso largo no rosto do Alex durante toda a cerimônia. — Você tá feliz?
Alex inclinou o rosto, apoiando-o na mão de Bex como um gesto de aceitar mesmo o carinho, antes de sorrir lentamente.
Assentiu, mas acabou dizendo algo contradiório: — Eu tô feliz e eu tô triste ao mesmo tempo. — Soltou um som pelo nariz, dando de ombros. — Faz sentido?
Bex assentiu, como Alex pensou que faria. — Faz, sim.
Alex sempre teve um entendimento maior com Bex pela trajetória da descoberta de identidade e sexualidade que compartilhavam, apesar de um tanto diferentes. Quando foi expulso de casa, esse entendimento se aprofundou um tanto mais, porque apesar da história ser diferente, o resultado era o mesmo: o de abandono parental — e maternal.
No caso de Bex, quando tinha recém completado os dezesseis anos é que acabou na rua, um ano atrás, um pouco antes de entrar para o colégio. Bex acabou indo morar com sua avó paterna, única pessoa que lhe prestou apoio e amor, e vivia sentindo culpa porque os pais também acabaram abandonando a avó quando ela abriu as portas para Bex, já que nem a visitavam mais. Só que Bex também havia enfatizado que a saída do ambiente tóxico de casa foi a melhor coisa que aconteceu, porque antes disso passou um ano e meio vivendo um relacionamento abusivo com os pais desde que havia saído do armário, quando começou a namorar com o Korn. Bex diz que nem se deu ao trabalho de explicar que era uma pessoa não-binária, porque não lhes foi relevante de qualquer maneira, tudo o que viam é que Bex estava namorando um cara e isso era inadmissível.
E, assim como Alex, Bex também tinha um pouco de esperança de se reconectar com o pai — no caso do Alex, a mãe -, porque via que o próprio pai deixava-se levar pela mãe narcisista e mesmo quando parecia querer apoiar Bex, não apoiava. Sua avó havia contado que, toda vez que ele ligava para ela, perguntava sobre Bex, e que a avó estava aos poucos colocando bom senso na cabeça do filho. Alex, inclusive, havia conhecido a avozinha de Bex, e ela era mesmo a melhor figura materna que se poderia ter.
Era impossível não haverem se aproximado com a similaridade de suas trajetórias, então as conversas e os conselhos de Bex haviam sido uma das melhores coisas que havia acontecido com o Alex nos últimos tempos.
Alex deixou-se cair no colo de Bex, que acabou soltando um riso fraco e acolhendo-o, acariciando os fios escuros de cabelo do Alex.
— Obrigado por tudo, Bex — agradeceu Alex, em um ímpeto, sentindo que era outra despedida que deveria apressar naquele dia.
Bex sorriu. — Por nada, meu bem.
Korn pigarreou, em cima deles, ao arquear uma sobrancelha. Tanto Bex quanto Alex ergueram os olhos para o rapaz, que estalava a língua ao balançar a cabeça de um lado ao outro com desaprovação.
— Sai de cima do meu amor — resmungou ele, para o Alex.
Alex olhou-o por um instante antes de dar de ombros e mostrar-lhe a língua. — Sai daqui, você, tá nos atrapalhando.
Korn soltou um arquejo, falsamente ofendido. — A cara de pau.
Bex apenas revirou os olhos, continuando a acariciar os cabelos do Alex, enquanto os dois riram. Não deu tempo de mais um deles fazer algum comentário antes que os demais acabassem unindo-se a eles. Haviam encontrado-se em manada, avistado que o Alex finalmente havia juntado-se à panelinha atual na mesa, e apressaram-se até lá.
Grace foi a primeira que chegou, havendo corrido antes de jogar-se no corpo de Alex, debruçado em Bex.
— Ai, deixa eu me juntar a vocês — pediu ela, causando um abraço em sequência com os dois.
— Sempre tem espaço pra mais um — garantiu Bex, abrindo o braço para que alcançasse as costas de Grace também ao acolher os dois.
Em seguida, chegaram Grace, Ian, Dan, Maze e Cristina, um atrás do outro, puxando cadeiras para sentarem-se em conjunto, todos de alguma forma virados para os quatro.
— O que tá rolando? — perguntou Ian, observando-os com desconfiança.
— Eu não sei — admitiu Grace, com um beiço triste. — Mas vocês tem é que parar com isso que eu vou ficar triste.
— Parar com o quê? — riu Bex, dando um tapinha nela. — Você é que tá abraçada na gente.
— Só parem — resmungou ela, em resposta, apertando ainda mais o Alex. — Vocês que começaram com os abraços, eu tive que me juntar, mas parece despedida — lamentou, e Alex virou o rosto para olhá-la pelo canto do olho. — Alex, a gente vai ter que se reunir mais vezes antes de você ir pra Mallow Coast — pediu —, vou ter que me preparar antes de você ir pra lá.
Alex sorriu tristemente, sentindo um nódulo na garganta ao pensar que ela não teria essa chance de preparação antes que ele partisse. Acabou fazendo um malabarismo para virar-se para Grace, erguer um pouco o corpo ainda que continuasse apoiado em Bex, para abraçá-la.
— Ah, pirralinha — murmurou, acariciando o braço dela —, se preparar pra quê? — Apontou para si próprio. — Eu tô bem aqui.
Grace torceu o nariz.
— Sei lá — resmungou, abraçando-o mais ainda, afundando no peito dele. — Agora é você e a MJ — refletiu —, depois quem vai embora são esses dois — apontou, para Bex e Korn — e eu vou ficar sozinha no meio desses nerds chatos.
Dan arqueou uma sobrancelhas. — Eu não sou nerd e nem chato — defendeu-se ele, com um sorriso de canto.
— Até por ali né — argumentou, e ele soltou um riso incrédulo ao resmungar "como assim?".
— Você também é nerd e chata — apontou Cristina, dando de ombros, e Grace apenas olhou para ela com olhos de peixe morto.
— Não vou nem responder — resmungou para sua nova amiga, ainda que nenhuma das duas admitisse, voltando-se ao Alex: — Mas Alex, é sério, vai desmoronar tudo sem você.
Alex sorriu tristemente, apertando a pequena contra seu peito, fazendo carinho no braço dela, sem saber o que dizer. Mary Jane, de repente, surgiu às costas das cadeiras deles, rindo.
— Ai, meu deus — brincou MJ, apertando a bochecha do Alex —, eles vão perder o líder deles, que pecado.
Alex riu e Jane circulou as cadeiras para sentar ao lado de Grace.
— É bem isso — concordou Bex, com um riso, olhando para os dois abraçados ao lado.
— Para com isso, abobada — pediu Alex, e MJ atirou um beijo para ele. — E não vai desmoronar nada, não, Grace — garantiu, com um sorriso. — Vocês vão ver que eu sou só uma parte, só um pedacinho, da nossa panelinha.
— Até parece — resmungou Grace, nos braços dele.
— É verdade — defendeu ele, fazendo carinho nos cabelos dela. — Vocês vão ver que nada vai desmoronar sem mim, não, não sou eu nem ninguém que mantém isso aqui inteiro — explicou, olhando para os demais. — É a nossa amizade. E não tem lugar no mundo onde eu me enfie que faça isso acabar. — Em seguida, estalou um beijo na testa de Grace. —Eu prometo.
De alguma forma, os olhos de Alex foram puxados pelas orbes verdes à sua frente, como se fossem ímãs. Engoliu em seco, ainda forçando um sorriso para eles, mas sentindo que aquilo não era uma verdade que se entenderia ao Caleb. E, por algum motivo, sentia que Caleb podia ler isso nele, como havia podido ler nos últimos tempos que ele queria despedir-se.
— Ai, que amor, gente — elogiou Jane, achando graça. — Olha ele.
Alex estalou a língua, voltando-se para ela. — Não estraga nosso momento.
Ao mesmo tempo, Korn comentava, cutucando Bex: — Não sei nem por que a gente foi mencionado, eles tem um ano com a gente ainda. — Bex concordou, rindo, dando um tapinha na perna do namorado.
— É — concordou Bex, virando-se para eles —, eu acho que ao invés de ficar lamentando a saída do Alex e da Jane, e depois a nossa do colégio — acrescentou, como se isso fosse a coisa mais boba do mundo sendo que estava longe de acontecer e já lamentavam —, vocês deviam começar a planejar o que vai acontecer depois que todo mundo sair. Porque olha só, a vida é um sopro, meus queridos, a gente vai piscar e daqui um pouco é a formatura de vocês — refletiu, apontando para os mais novos. — Logo tá todo mundo jogado no mundo, e aí? — perguntou, jogando a interrogativa no ar. — Pensem nisso.
— Isso mesmo — concordou Jane, ajeitando-se na cadeira. — E vocês deviam agradecer que ainda tão no colégio. Pensem em mim e no Alex, que agora não temos mais essa desculpa, estamos aqui os dois perdidos sem saber o que fazer com o resto das nossas vidas. — Em seguida, apontou para a própria cabeça. — Olha a responsa.
Uma careta aprofundou-se no rosto do Alex, que chegou a desvencilhar-se de Grace para poder olhar melhor para Jane, desejando que pudesse sacudi-la apenas com os olhos.
— Tá, MJ, não precisa pesar também, ninguém quer pensar nisso — resmungou, pensando que com "ninguém", ele quis dizer ele próprio. — Valeu por entrar nesse assunto — debochou, com uma careta sofrida, quase atacado dos nervos só em mencionar o "resto de sua vida". — Isso é outra história.
Alex sentia suas mãos começarem a adormecer só de pensar em como colocar os planos falhos em prática em Mallow Coast, e em como todos esses planos pela metade tinham tudo para dar completamente errado. E em como poderia acabar vivendo debaixo da ponte, onde jurou que era melhor do que viver com os pais em uma mansão, mas que se fosse sua realidade, não seria nem um pouco agradável.
Jane gargalhou, cutucando-o para incomodá-lo. — Tá apavorado, né?
— Não mais do que você — reclamou ele, dando um tapa nela, franzindo o cenho. — Que que você vai fazer o restante da sua vida, hein? Vamos entrar nesse assunto?
Jane fez uma careta sofrida também. — Não, por favor, não!
— Ah, pois é — cortou ele, ácido, antes de virar-se para os demais. — Mas o que Bex disse é verdade mesmo — concordou, voltando ao que importava, querendo sacudir o calafrio daquele assunto pesado para longe. — Vocês não vão ficar muito tempo sem mim no colégio, porque logo tá todo mundo saindo também. — Apontou para os demais, na outra mesa. — Igual nossa panelinha antiga ali, vai tá todo mundo vivendo a própria vida, e momentos assim em que todos se reúnem em um único espaço vão ser raros.
Mason torceu o nariz, empurrando o óculos. — É um futuro inevitável, mas por que estamos falando disso?
— Também não estou entendendo — concordou Cristina, olhando de Mason para Alex.
— É, gente, parem com isso — choramingou Grace —, não me façam chorar.
Ian concordou, franzindo o cenho, ao resmungar: — É, que bad. Parem com isso.
— A gente não pode deixar isso acontecer — sugeriu Dan, subitamente, enquanto os mais velhos apenas sorriam feito sábios idosos. — Vamos fazer um pacto, aqui e agora, de que a gente vai sempre dar um jeito de seguir se vendo mesmo depois que todo mundo tiver se formado.
Todos viraram-se para ele no mesmo instante, interessados e surpresos, e Alex acabou sorrindo largamente para a ideia.
— Boa ideia! — concordou Grace, sentando-se completamente ao desencostar-se do Alex, voltando à vida. — A gente tem que seguir se encontrando, mesmo que não dê pra ser todos ao mesmo tempo, mesmo que seja em partes. — Em seguida, exemplificou: — Se eu marcar um dia e só o Maze e a Cristina possam ir, tudo bem. Em outro dia, vou me encontrar com o Korn e Bex, no outro com o Alex e o Caleb — especificou, propositalmente —, e assim por diante. E todos vão fazer isso, todos — enfatizou, com firmeza.
Os olhares de Alex e Caleb encontraram-se imediatamente, no mesmo instante, e os dois piscaram, desviando-os logo em seguida com desconforto. Não é como se a dança lenta em público fosse o motivo que o grupinho todo soubesse que havia um "Alex e Caleb" para começo de conversa, mas era explícito que ninguém mais achava necessário esconder que sabiam, alguns há muito tempo, que havia um "Alex e Caleb".
E a mente dos dois, automaticamente, voltou-se para a ideia de um futuro onde iriam encontrar os amigos feito um casal, como Mason e Cristina e como Bex e Korn. Não havia como não parar aí, visto que era assim que Grace parecia enxergar o futuro, e explicitou diante de todos, talvez de uma maneira ingênua e espontânea, mas explicitou.
E o sentimento, mais uma vez, era agridoce, acima de tudo.
Jane gargalhou, batendo palmas em animação. — Adorei, adorei! — expressou ela, e Alex soube no mesmo instnte que ela não se referia a ideia, mas a ênfase no "Alex e Caleb".
Alex dirigiu-lhe um olhar cortante.
— É uma promessa? — perguntou Ian, diretamente para Grace, como se fosse ela que comandasse essa ordem.
Grace assentiu, animada, e bateu com a mão em cima da mesa.
— Sim, a gente vai fazer uma promessa coletiva, aqui e agora.
Dan gargalhou, entrando na onda, e acrescentou: — Isso, a gente vai fazer um esforço pra nos mantermos um na vida do outro, daqui para frente, do colégio para o mundo.
Alex entreolhou-se com os mais velhos e deu de ombros. — Pelo jeito é uma promessa, minha gente, vamos lá.
Mason comentou, baixinho, para Ian e Caleb: — Depois ainda riram do nosso pacto de sangue.
Ian estalou a língua por ele mencionar mais uma vez o pacto de amizade dos três e Caleb deu um tapa em Mason, mas não evitou rir.
Korn instruiu, já que estava em pé, ao inclinar em cima da mesa onde todos podiam alcançar e espalmou sua mão no ar: — Coloquem as mãos juntas, é uma promessa coletiva. Bora lá!
Todos fizeram o mesmo, alguns levantando para que pudessem alcançar nas mãos unidas, e assim formou-se um bolo de dez pares de mãos, em uma pilha bem organizada. Em seguida, todos impulsionaram para baixo e levaram as mãos para o alto, em uma comemoração não exatamente baixa sobre seu pacto de amizade.
— Aê!
*
Um pouco mais distante das risadas e comemorações de uma promessa viva na mesa da panelinha atual, estavam três rapazes na mesa da panelinha antiga.
Matt e Ahanu estavam em uma conversa acirrada, enquanto Jake e Bruno haviam sumido de vista, então ficou apenas o Ben em um lado na mesa. Aos poucos, parou de prestar atenção no assunto dos dois, e acabou viajando para longe dali, presente só em corpo. Às vezes, sequer sabia dizer onde sua cabeça estava, e se sequer estava pensando em coisa que fosse, porque parecia que a cabeça ficava apenas em branco.
Quem quebrou essa viagem abstrata de absoluto nada foi uma mão ao seu ombro.
— O que você faz aí, sozinho, no mundo da lua? — perguntou sua namorada, com um sorriso, ao sentar ao lado dele. — No que tá pensando?
Ben olhou para ela, com um sorriso, analisando os detalhes de seu rosto ao voltar pouco a pouco para o planeta Terra, e virou-se para ela. Não estava pensando em nada, mas no momento em que a viu, começou a pensar em algo.
— Que não dormimos muito juntos — apontou ele, pensativo, com um sorriso.
Lucy arqueou as sobrancelhas, com um olhar desacreditado. — Minha cistite recorrente diz o contrário.
Ben não aguentou-se e acabou rindo. — Não foi isso o que eu quis dizer — defendeu mas, em seguida, dedicou-lhe um olhar curioso, a mente voltando-se para o que ela havia dito. — Não podemos transar hoje?
Lucy fez uma careta, torcendo o nariz, antes de negar com a cabeça de um lado ao outro. — Tô tomando o remédio que a gineco prescreveu. Tá funcinonando em um geral mas é, hoje não.
Ben acabou sorrindo, mas brincou ao resmungar: — Droga.
Lucy riu, mas levou uma mão para fazer carinho nos cabelos dele.
— Droga mesmo — concordou, pensando que ele estava um gostoso demais naquela noite para que não pudessem transar. — Mas o que você quis dizer com aquilo? — perguntou, voltando aos pensamentos dele.
Ben aproveitou o carinho, inclinando a cabeça na mão dela, que usava os dedos para fazer um cafuné. — Hum, eu quis dizer que você devia dormir lá em casa hoje.
Lucy uniu as sobrancelhas, estreitando os olhos. — Mas eu acabei de dizer que...
— Pra dormir, cabeçuda, pra dormir — interrompeu ele, dando um tapinha na testa dela.
— Ah, você quis dizer dormir dormir — apontou ela, compreendendo, com um riso. Então, inclinou o rosto um pouco para o lado, pensando a respeito por um instante. — É, acho que a gente não tem o costume de dormir muito juntos, mas é que não tem muita necessidade — acrescentou, pensando sobre isso, e Ben assentiu. — Eu tenho minha cama, você tem a sua.
Ben concordou, bem-humorado, ao observar os detalhes do rosto dela. Ela havia trocado o piercing da boca para uma pedrinha menor, e estava levemente manchado com o batom vermelho, os olhos azuis estavam com um preto pesado de maquiagem e a franja já não tão nova quase os tapava. Ben aproveitou para empurrar um pouco os fios para o lado, para que pudesse melhor ver os olhos azuis.
— Eu sei, mas talvez a gente precise de algumas exceções — contrapôs, com um sorriso, antes de roçar o nariz no dela carinhosamente e pedir: — Dorme comigo hoje.
Lucy sorriu, mas franziu o cenho em estranheza, analisando melhor o namorado. — É importante pra você? — perguntou, porque estava planejando ir direto para casa e terminar uns trabalhos da faculdade antes de dormir.
Ben hesitou por um instante, sentindo-se exposto, mas acabou assentindo. Lucy sorriu, continuando a fazer carinho nos cabelos dele, achando engraçadinho que aquilo fosse algo que fizesse falta para ele. Às vezes, pensava que Ben nem devia saber o que queria, estava acostumado demais a estar sozinho para sequer cogitar algo além disso.
— Então eu durmo com você hoje. Abraçadinhos — acrescentou, sorrindo, e Ben circundou sua cintura com o braço com facilidade. — E faço cafuné até você dormir feito um nenê.
Ben deixou um selinho nos lábios dela. — Bem como eu imaginava — brincou, mas com um fundo de verdade.
Na sua imaginação, os dois faziam cafuné um no outro, porque foi assim que os dois adormeceram as poucas vezes que dormiram juntos, depois de conversar até de madrugada, os corpos suados e grudentos depois de haver transado a noite toda. Seria bom ter algo diferente, para variar, e agora que parava para pensar, sequer sabia se Lucy dormia de pijamas ou não, porque algumas vezes havia aparecido em sua casa à noite e ela os usava como roupa de andar em casa.
— Às vezes eu acho que você é mesmo uma criança grande, Benhur — comentou ela, com um sorriso. Ben franziu o cenho, sem entender, mas ela riu ainda mais, abraçando-o e deixando beijinhos em seu pescoço. — Vai ser um prazer passar a noite com você.
Ben acabou sorrindo, abraçando-a de volta e depois deixou um beijo em sua testa assim que ela foi engolida pelos seus braços.
*
Grace e Dan iam voltar a dançar mas acabaram perambulando pelo ginásio até encontrar as bebidas novamente, ficando na fila que apavorava os professores detrás da bancadinha. Enquanto isso, à medida que o assunto morria, eles apenas se movimentavam levemente no ritmo da música sem sair da fila.
Grace perdeu-se em pensamentos, movimentando-se no automático ao observar o fervo no meio do salão. Quando voltou à realidade, deparou-se com os olhos do Dan observando-a minuciosamente, com um sorriso de canto.
— Para com isso! — reclamou ela, sem jeito, porque não era a primeira vez naquela noite que Dan olhava para ela como se pudesse ver sua alma. E também sabia o motivo disso.
Dan acabou rindo, dando de ombros, sem deixar de observá-la.
— Você tá muito linda hoje, é mais forte do que eu — defendeu-se, erguendo as mãos, mas em seguida as baixou. — Mas eu vou parar, eu vou.
Grace parou aos poucos de mover-se, um tanto receosa, ao ver que os olhos cor de mel ainda não haviam desviado de seu rosto. Em especial, da sua boca.
— Daniel...
— Vish — interrompeu ele, fazendo graça —, quando fala meu nome assim é coisa séria.
Grace sorriu, de nervoso, tentando manter-se séria ao continuar: — A gente tem um acordo — relembrou, sustentando o olhar dele, e Dan assentiu. — Fizemos esse acordo já tem um tempo — apontou, e novamente Dan assentiu, tentando manter-se sério e falhando. — Existe um motivo para esse acordo.
Desta vez, Dan não assentiu, inclinando o rosto para o lado com uma careta pensativa. — Existe? — perguntou, fazendo-se. — Qual era o motivo mesmo?
Grace soltou um riso nervoso. — Dan...
Dan revirou os olhos e assentiu. — Eu sei, eu já sei.
Em seguida, Dan acabou parando de dançar também ao colocar-se perfeitamente de frente para ela, levando ambas as mãos para os ombros dela, olhando diretamente para os olhos castanhos.
— Olha só, eu te ouço e eu te entendo — garantiu, com um riso —, mas me ouve um pouquinho também, só um pouquinho mesmo. — Sorriu e Grace escondeu os lábios, observando-o de baixo. — Nosso acordo não precisa ser quebrado não, coração, mas um beijo que outro não quebraria acordo nenhum. — Grace riu, desviando o olhar para longe, sem jeito. Dan deu de ombros. — Um beijo é só um beijo.
Grace hesitou, enquanto Dan abria um sorriso ainda mais largo, inclinando o rosto para olhá-la melhor com a melhor pose de encanto que conseguiu.
Era tentador o suficiente, mas Grace ainda assim resistiu, franzindo o cenho. — Não é uma boa ideia.
— Por que não? — ronronou ele, aproximando-se um pouco dela, mas Grace apenas negou. — Se você achar que é um perigo se apaixonar por mim com meus beijos poderosos — explicitou, gracioso, ao passo que Grace revirava os olhos —, então a gente pode ficar só de vez em quando. Se "de vez em quando" ainda for muito perigoso pra você — brincou, e ela arqueou uma das sobrancelhas —, podemos ficar só em raras exceções, sabe, como hoje: a formatura de dois amigos. Quero dizer, a próxima vez que isso vai acontecer vai ser daqui um ano — barganhou, divertido. — É raro o suficiente pra um beijinho inocente, você não acha?
Grace soltou um riso, sem evitar, pensando que não poderia chamar um beijo do Dan de "beijinho inocente", mas a proposta perversa era tentadora demais para que pudesse olhar para Dan e negá-lo assim, sem mais nem menos.
Dan era cheio de qualidades, desde a aparência até o coração, e até agora desconhecia defeito que fosse. Talvez ele tivesse a autoestima elevada demais, esse era o máximo que Grace conseguiria pensar próximo a um defeito. Ele era maravilhoso, de todos os ângulos e em todos os sentidos, e ele sabia que ele era maravilhoso.
Isso só podia ser um defeito, não podia?
Percebendo que Grace havia hesitado, por tempo demais, ao passo que relanceava ao redor como se ponderasse todas as implicações públicas de beijá-lo na festa de formatura de Alex e MJ, Dan moveu-se. Ele segurou Grace e girou-a até que houvessem trocado de lugar e fosse ele, naquele instante, quem tivesse as costas para a área onde haviam as mesas dos amigos deles, e Grace quem estava escondida dos demais pelo corpo do Dan.
— Eu fico de costas na sua frente — sugeriu, com um sorriso amável —, ninguém vai ver.
Grace deu um tapa em seu braço, soltando um riso incrédulo, antes de dar uma olhada por cima do ombro do Dan e ver que, mesmo que Grace não estivesse visível, os dois estavam bem no campo de visão das mesas. No máximo, um pouco tapados pela multidão de gente que dançava na pista, mas eles eram escassos na beirada próxima às bancadas de bebida.
— É claro que vão — riu ela, nervosa, ao franzir o ceno.
Dan abriu um sorriso quase predador. — Então você tá considerando o perigo?
Grace hesitou, engolindo em seco, ao sentir as bochechas queimarem de vergonha pela situação, os olhos melados de Dan sobre ela não ajudavam-na a ficar mais confortável.
— Não tem perigo nenhum, diga-se de passagem — decidiu retrucar, baixinho, ao olhar para longe.
Dan colocou uma mão no peito, com um sorriso. — Ai, doeu, como assim?
Grace deu um tapa nele, rindo, e Dan sorriu de volta, ainda esperando por uma resposta, sem dar espaço para que ela fugisse de seus olhos atentos. Grace engoliu em seco ao morder os lábios, observando-o de volta, pensando que ele estava especialmente charmoso naquela noite.
— É só um beijo — acabou dizendo, depois de pigarrear, ao ceder.
Dan abriu um sorriso vitorioso, os olhos brilhando ao descer para os lábios cheios dela, que pareciam chamar pelos dele.
— Só um beijo com a garota mais gata dessa noite — bajulou, sincero —, mas tudo bem, é, só um beijo de nada — descartou, fingindo que não era nada demais.
Grace desviou o olhar para longe, envergonhada e desconfortável, antes de resmungar: — Para com isso, eu já aceitei, não tem por que ficar...
Dan calou-a rapidamente ao puxá-la pela cintura e grudá-la em seu corpo com tanta agilidade que Grace teve que segurar a respiração, o coração batendo forte em resposta. Dan aproximou-se dela, nariz com nariz, como se pedisse um último consentimento, e Grace respondeu fechando o espaço entre eles antes que ele dissesse mais alguma besteira vergonhosa.
Ou, talvez, antes que ela mesma mudasse de ideia.
Ao longe, um par de olhos de cachorro abandonado focou neles.
Não foi instantâneo para os amigos, demorou alguns minutos até que ao menos metade deles acabasse localizando o mais novo casalzinho do grupo beijando-se apaixonadamente ao lado de uma fila de bebidas. E, como eles ficaram lá por um tempo, era impossível que não houvesse chamado atenção de alguns de seus conhecidos.
O único que os havia visto desde o início, infelizmente, era o único que talvez não devesse ver. Instantes depois, quem seguiu seu olhar é o amigo ao lado, já que Ian estava em uma conversa com ele quando deixou-a morrer pela metade, o corpo inteiro retesado com os olhos ao longe.
— Merda — foi tudo o que Caleb conseguiu dizer, assim que seguiu os olhos do Ian e deparou-se com Dan e Grace.
Caleb, na verdade, havia demorado para perceber que Ian havia ficado em silêncio porque, sinceramente, não estava prestando atenção no que ele dizia. Eles estavam em pé próximos à pista de dança, onde conversavam com algumas das meninas da panelinha antiga, os demais da panelinha atual ainda na mesa. Mas tudo o que Caleb conseguia pensar eram confusões mentais atrapalhadas pelo olhar do Alex, que parecia segui-lo para onde ia.
Quando Caleb olhou para cima, para o amigo de infância, percebeu que Ian não só havia parado com a frase pela metade, também havia parado com o copo de suco batizado pela metade do caminho até a boca. E não moveu-se por um tempo, ainda olhando para aquele ponto, como se fosse um acidente de rodovia horrível e sangrento que se arrependeria de ver mas que não conseguia desviar o olhar mesmo assim.
E com Caleb foi parecido, porque ele não conseguiu parar de olhar para o Ian e para o desastre que estava por acontecer, mas também não conseguia ter uma reação além de repetir mentalmente "merda, merda, merda".
Uma mão em seu ombro fez com que finalmente conseguisse desviar a atenção do coração partido do Ian, vislumbrado em seu olhar.
— Deixa comigo, nenê — murmurou Alex, perto do seu ouvido, e ele sentiu a nuca arrepiar em resposta.
Caleb virou-se para ele, vendo que Alex tinha um sorriso triste no rosto e uma ruga de preocupação entre as sobrancelhas, e soube que realmente era melhor deixar com ele. Assentiu, os olhos verdes presos nos olhos escuros do Alex uma vez mais, tão de perto, antes que finalmente desviasse, caminhando para longe.
Ian também percebeu a presença do Alex e também finalmente desviou seu olhar da cena ao longe para o primo.
— Acho que vou precisar de algo mais forte — brincou Ian, descendo os olhos ardidos para o copo meio vazio e mantendo-os ali, sem querer olhar para o Alex novamente ao ver compaixão neles.
Alex sentiu um aperto no peito ao vê-lo tão desolado, e sentiu um pouco de frutração por ter acontecido isso logo antes dele ir embora, sabendo que Ian estaria desamparado pelos próximos dias e que ele não poderia ampará-lo muito bem de longe.
— Ian... — começou, com dó, mas Ian forçou um riso, balançando a cabeça de um lado ao outro, sem tirar os olhos do copo. — Não chora — instruiu, vendo que os olhos castanhos brilhavam mesmo que ele não os erguesse.
Em seguida, Alex olhou ao redor, desde Grace e Dan aos beijos ao longe e as mesas às suas costas, onde os amigos ainda não percebiam a mais nova fofoca do grupo. Alex, então, pegou os ombros do Ian para girar ele de forma que estivesse de costas para os dois pombinhos e de costas para o grupo de amigos que estava nas mesas logo atrás. Inclusive, puxou-o, caminhando de costas até que estivesse ainda mais longe do campo de visão de todos.
— Vira pra mim, fica assim — instruía, enquanto protegia Ian da visão dos demais. Ian ainda olhava para baixo, derrotado. — Respira — pediu, vendo que a mão de Ian fazia o copo tremular entre seus dedos. — Se acalma — instruiu —, tá tudo bem.
Ian engoliu em seco algumas vezes, soltando sons parecidos com riso ou engasgo, Alex não teve certeza, enquanto balançava a cabeça de um lado ao outro, ainda olhando para o copo. Ele perdeu o sorriso depois de uns instantes e ficou sério, mordendo o lábio inferior, colocando todo o esforço do mundo para segurar as próprias lágrimas.
Alex fez carinho em seu braço, de cima para baixo, de baixo para cima, olhando ao redor.
— Bobão — falou, com carinho, e Ian soltou um som pelo nariz, ainda aquietado.
— Eu sou — concorda, baixinho.
— Eu sei que é — retrucou Alex, preocupado —, e tá tudo bem.
Ian engole em seco e, em seguida, pergunta, baixinho: — Todos sabem?
Alex franziu o cenho, mas logo entendeu o que ele quis dizer, e acabou dando de ombros, sentindo dó. — Você é bem transparente — acabou dizendo, apenas.
— Ela sabe? — insistiu Ian, e Alex hesitou.
— Acho que ela desconfia — tentou Alex, sincero, mas sem ter certeza. — Não sei, ela nunca me falou nada. Mas eu acho que ela não tem como saber de certeza se você não contar por conta própria, sabe? — sugeriu, mais uma vez. — A gente já conversou sobre isso, Ian, você não quis me ouvir.
Ian finalmente ergueu os olhos avermelhados para o Alex, e ele sentiu o coração apertar um pouquinho mais ao vê-lo tão amuado, e forçou um sorriso triste, dando de ombros.
— Eu não tenho por que falar nada, Alex, ela obviamente gosta do Dan — acabou dizendo, enfim, sentindo-se derrotado. — E agora eles... Eles... — Impediu-se, franzindo o cenho ao olhar para longe. — É óbvio que ela gosta dele. Quem não gostaria? — falou, soltando um som pelo nariz. — Se eu gostasse de caras, como você, talvez até mesmo eu gostasse do Dan. — Alex suspirou, e Ian continuou, os ombros baixos: — Ele é tudo o que eu não sou, ele tem tudo o que eu não tenho.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Alex suspirou em resposta, olhando ao redor ao pensar que não havia pior momento ou pior situação para isso acontecer, justo quando estava a um par de horas de partir para longe. Ao mesmo tempo, dava uma angústia ouvir esse tipo de coisa do Ian.
Seu primo geralmente mascarava o que sentia ou simplesmente ocultava com falas bestas e piadas mais bestas ainda, era raro vê-lo ser tão sincero e, honestamente, era deprimente também.
— Não diz isso, Ian, você é um partidão — falou, com um riso fraco, antes de levar uma mão ao rosto dele e dar duas batidinhas fracas em seu rosto. — Quero dizer, olha esses nossos genes, cara. Algo de bom tinha que vir nessa família, né? Fomos abençoados — brincou, fazendo um gesto entre ele e Ian. — Você é um bobão, mas você também é bonitão e tem um dos corações mais puros que conheço — falou, sinceramente, e viu que os olhos castanhos encheram-se d'água novamente. Suspirou, descendo a mão para o ombro dele novamente, instruindo: — Não chora.
Ian baixa o olhar, e as lágrimas acumuladas acabam escapando, então ele balança a cabeça de um lado para o outro.
— Não é suficiente — murmurou, negando. — Isso não é suficiente. Eu não sou...
— Não termina — interrompeu Alex, unindo as sobrancelhas, sério demais para o normal. — Não diz isso.
— ... suficiente.
Alex suspirou, sério, com o cenho franzido.
Ele pensou que devia ignorar os gatilhos, já que as coisas negativas que saíam da boca do seu irmão mais novo era um reflexo do que se passava pela sua cabeça até hoje, mesmo com tanta terapia. Às vezes pensava que Ian era parecido demais consigo, ele apenas mascarava de uma maneira diferente da sua.
Mas Alex sabia o peso desses pensamentos doentios e amava tanto o Ian que desejava que ele tivesse uma história diferente da sua. O mínimo que podia fazer é dizer as coisas que talvez deveriam ter sido ditas para si quando essas crenças disfuncionais iniciaram.
— Nunca mais diga isso — ordenou, firmemente. — Tá me ouvindo? — perguntou, mas Ian apenas limpou o rosto rapidamente e nada disse. — Nunca diga isso, Ian — repetiu. — Você é mais do que o suficiente. Você é perfeito. Nada nem ninguém devia ser capaz de te fazer sentir dessa forma.
Em seguida, observou-o minimamente, decidindo que talvez devesse dar conselhos mais específicos para o primo e a realidade ele.
— A única coisa que tem de errado com você, Ian, é que você pensa que tem algo de errado com você — especificou, sincero, fazendo-o erguer os olhos avermelhados para si. — E isso é muito gritante em você. Isso dita tudo o que você faz e tudo o que você pensa. E não deveria — enfatizou, firme. — Não tem nada de errado com você, cara, você tem que parar de repensar tudo como se houvesse. Você tem que parar de agir feito um bobão só porque você acha que não consegue ser melhor do que isso, tem que parar de esconder como se sente porque acha que não tem chance de sentirem o mesmo por você.
Ian piscou, franzindo o cenho, ao olhá-lo como se fosse um filhote de cachorro levando bronca da mãe.
— Você desiste antes de tentar, Ian — apontou, pensando que talvez ouvir um pouco de verdades pudesse doer nele mas que talvez fosse exatamente o que ele precisava —, e supõe que não daria certo de qualquer forma, acha que foi derrotado e age como um derrotado. Eu não sei o que ou quem fez você sentir como se não fosse bom o suficiente pra nada, mas você tem que parar de viver como se isso fosse verdade. Se você vive como isso fosse verdade, isso se torna verdade. — Ian desviou o olhar para longe, sentido, e Alex levou uma mão para o rosto dele novamente. — Olha pra mim.
Ian hesitou, mas olhou para ele, e Alex arqueou as sobrancelhas seriamente, engolindo em seco.
— Eu te amo, irmão, mas você tem que se amar também — pediu, sentindo os próprios olhos marejarem, e isso piorou as coisas para o Ian, que voltou a sentir a visão embaçar. — Ninguém vai querer amar alguém que não se ama. Alguém que não sabe se cuidar não vai saber cuidar de outra pessoa — explicou, de outro ponto de vista. — Não sei, talvez... — |lex suspirou. — Talvez isso seja bom. Talvez agora você pegue esse tempo pra cuidar de você mesmo, pra aprender a se cuidar, a se amar. Talvez seja isso o que você precise até estar pronto pra amar outra pessoa. Eu bem sei — comentou Alex, desviando o olhar para longe, com um suspiro. — Mas eu não vou estar sempre aqui. Você vai ter que se virar sozinho também e depender um pouco de você mesmo.
Ian tentou limpar o rosto, fungando, e Alex olhou para as costas dele para ver se haviam chamado atenção de alguém. Parecia que não. Então, Alex mesmo limpou o rosto do Ian, arrastando as lágrimas para o lado, cuidando dele.
— Você podia ficar pra sempre aqui — acabou dizendo Ian, apenas, desviando de tudo o que havia sido dito.
Alex estreitou os olhos. — Você ouviu o que eu disse? — perguntou, frustrado, antes de soltar um suspiro. — Não seja um bebê chorão — falou, limpando o rosto dele outra vez. — Eu nunca vou sumir da sua vida.
— Você tá indo embora por isso? — perguntou Ian, pegando-o de surpresa, os olhos brilhando pelo choro. — Você quer aprender a se amar antes que possa amar outra pessoa?
Alex arqueou as sobrancelhas, piscando algumas vezes em desorientação, tendo sido pego de surpresa. Franziu o cenho, um tanto pensativo, pesando o que responder.
— Eu... — começou, tendo que pigarrear. — Não, mas talvez isso seja um bônus que eu gostaria de conquistar — acabou admitindo, quando pensou a fundo, dando de ombros.
— É o Caleb?
Alex ergueu os olhos para o Ian, sendo pego ainda mais de surpresa, os olhos alargando-se ao digerir a pergunta do Ian. Encarou o primo por tempo até demais, percebendo que seu rosto estava limpo de brincadeiras ou ironias, e que aquela havia sido uma pergunta muito real e muito direta.
Ficou em choque, ponderando há quanto tempo ele sabia sobre aquilo, e como poderia que não houvesse percebido que a ficha atrasada do Ian já havia caído.
— Eu vi vocês dois dançando — explicou Ian, apesar de já saber há algum tempo antes disso, porque imaginou que ele precisava de uma explicação.
Alex desviou o olhar, subitamente desconfortável.
Nunca pensou em conversar com o Ian sobre isso, então sentiu-se exposto, por incrível que pareça. Apesar do Bruno e da Jane souberem sobre ele e o Caleb, à sua maneira, e apesar dele sentir-se confortável de conversar sobre os dois sobre isso — porque realmente eram os melhores amigos que ele tinha com exceção do Caleb -, conversar com o Ian era demais.
Ian era seu irmãozinho e aquilo era pessoal demais, e tornava-se real demais também. Era como se oficializasse Caleb e ele, como se unisse dois mundos, já que o Ian, em sua concepção pessoal, fazia mais parte do mundo do Caleb do que do seu. Tinha a idade mais próxima do Caleb, conhecia o Caleb há mais tempo, fazia parte do grupo de amigos iniciais do Caleb, eram colegas e foram crianças que um dia fizeram um pacto de sangue entre si.
— Desde quando? — perguntou Ian, no silêncio do Alex. — Desde quando você é apaixonado por ele?
De todas as reações que Ian pensou que Alex teria, ficar sem graça com a pergunta teria sido a última delas. E foi isso o que aconteceu, já que o rosto avermelhou e ele franziu o cenho, desconfortável, ao olhar para longe.
— Não sei, Ian, acho que desde sempre — admitiu, sem olhar para ele, desconfortável.
— Você podia ter me contado, sabe? — murmurou Ian, magoado, e Alex ergueu os olhos para ele. — Eu não ia contar pra ninguém, e eu não ia te julgar.
Alex assentiu, sabendo que era verdade, antes de verbalizar: — Eu sei. — Em seguida, pesou as palavras antes de dizer, simplesmente: — Eu só não tava preparado pra falar sobre isso com você.
Ian engoliu em seco, também desviando o olhar para longe, ponderando se, atrás dele, Grace e Dan ainda estavam grudados um no outro. Ponderou se Grace ainda tinha os braços erguidos, circulando o pescoço do Dan, e se as mãos dele ainda estavam fechadas em torno do corpo dela, uma delas perigosamente próxima de seu traseiro.
A imagem estava queimada em sua mente.
— Eu acho que entendo a sensação — conseguiu responder Ian, sentindo um nódulo naa garganta.
Alex sorriu, com carinho, ao acariciar o rosto do primo. Ian acabou fungando, soltando um riso sem graça, limpando o rosto de novo ao passo que uma careta aprofundava em seu rosto.
— Eu acho que... — começou, parecendo engasgado com as palavras. Suspirou, os olhos encharcando outra vez. — Eu acho que eu sou apaixonado por ela desde sempre também, Alex.
Em seguida, Ian pôs-se a chorar de verdade, deixando escapar um soluço. Alex não soube se ria ou se chorava, mas acabou rindo com o coração na mão, puxando o primo para um abraço forte. Por trás dele, observou que alguns dos amigos olhavam para lá, mas o que importava é que nem Grace nem Dan percebiam que haviam feito seu priminho chorar feito uma criança desamparada.
— Que bom que você finalmente admitiu — murmurou, afagando as costas dele, agradecendo que houvesse algumas pessoas acumuladas ao redor dele ao ponto de que nem os amigos que olhavam na direção deles pudessem perceber o surto localizado do Ian. — Isso é bom. É bom colocar pra fora, não é? — perguntou, e Ian soluçou de novo. — Shh, calma, pronto, pronto — murmurou, em um tom calmo, para acalmá-lo também. Chorão — chamou, com carinho, e Ian resmungou como resposta. Alex riu, dando tapinhas em suas costas. — Ouve meus conselhos, tá bom?
Enquanto Alex contemplava as dificuldades futuras do Ian e sua ausência aqui para ajudá-lo, ele ficava cada vez mais angustiado. Principalmente, ao dar-se por conta que era oficial: ele não conseguiria olhar no rosto choroso do primo e informar-lhe que daria no pé ainda hoje.
Na ausência da resposta do Ian, ele apertou-o ainda mais para chamar-lhe a atenção, ansioso por uma resposta: — Promete pra mim, Ian.
Ian finalmente assentiu, ainda fungando, com a cabeça.
— Eu prometo, irmão.
*
Assim que Dan e Grace se separaram, Dan voltou à fila para as bebidas já esquecida e quase vazia, e Grace retornou correndo para a mesa dos amigos quando percebeu que nenhum deles olhava na direção deles. Korn levantou-se e foi atrás do Dan para pegar bebidas para Bex e ele também, e aproveitar para conversar sobre o que haviam testemunhado.
Grace sentou, como se nada houvesse acontecido, ao lado do Caleb, e no instante que o fez os demais desviaram os olhares para nada comentar, enquanto Caleb foi o único que olhou para ela.
Grace estreitou os olhos, ponderando se haviam visto mesmo ou só estavam distraídos em uma conversa entre si: Bex, Cris e Mason.
— O que foi? — perguntou, desconfortável, quando Caleb continuou a encará-la.
Caleb chegou a pensar em dizer algo, mas não sabia exatamente o que dizer para não denunciar tão publicamente o que Ian sentia por ela, e também não estava em posição de exigir nada.
— Nada — respondeu, apenas, ao desviar o olhar.
Grace observou que Bex tinha um sorrisinho no rosto enquanto evitava olhar para ela, e acabou suspirando, virando para o Caleb.
— Você viu? — questionou, baixinho, para que eles não ouvissem.
Caleb deu de ombros, com a feição que dizia "sinto muito, mas..." — Acho que todos vimos.
Grace atirou-se para trás na cadeira, evitando bufar. — Saco.
Enquanto isso, ela escaneou o local com os olhos à procura do Ian, ponderando se com "todos", Caleb o incluiu ou apenas referiu-se a todos os presentes naquela mesa. Caleb percebeu que ela estava procurando por alguém, mas ficou quieto por um momento, pesando as palavras.
— Vocês tão juntos? — foi o que conseguiu perguntar, baixinho.
Grace virou-se para ele com os olhos estreitados, um tanto sem paciência, e não escondeu o julgamento no olhar.
— Caleb — chamou, séria. — Você não me parece ser do tipo que se intromete na vida dos outros. O que houve? — debochou, amarga, e Caleb apenas arqueou as sobrancelhas. Grace desviou o olhar, suspirando. — Desculpa — pediu, a contragosto, antes de explicar: — Mas foi só um beijo, não precisa um alvoroço todo.
Caleb assentiu, indagando-se se poderia fazer mais alguma pergunta sem que ela o esganasse. — Vocês já tinham ficado antes?
Grace suspirou, remexendo-se na cadeira com desconforto antes de dar uma olhada nos demais para ver se não ouviam, e dirigir um olhar para onde Dan e Korn conversavam — ainda não havendo encontrado Ian em lugar algum.
— Uma vez — admitiu, um tanto acanhada, ao mexer no próprio vestido. Caleb arqueou as sobrancelhas, mais surpreso do que planejou. — Uns meses atrás — explicou, dando de ombros. — Mas eu não quis estragar nossa amizade, então a gente fez um acordo de nunca mais ficar.
Caleb piscou, assentindo.
Infelizmente, entendia o medo de estragar a amizade com beijos clandestinos — entendia até demais. Ficou pensativo sobre isso, porque apesar de todos brincarem que Grace e Dan estavam de rolo um com o outro sem que ninguém soubesse — e inclusive alguns apostarem que eles ficavam às escondidas -, de alguma forma, Caleb sempre pensou que não.
— E o que mudou? — perguntou, devido ao óbvio fato de que esse acordo havia sido quebrado. — Você gosta dele?
— Eu...
Grace sentiu-se estranhamente envergonhada, pensando que o maior motivo de haver quebrado o acordo é que Dan havia pedido mais de uma vez em uma única noite, quando estava lindo daquele jeito, e ela simplesmente não conseguiu dizer que não.
— Foi só um beijo — defendeu-se, sentindo invadida. — Por que eu tenho que me explicar?!
Caleb negou, de um lado ao outro, aquiescido. — Você não tem.
Grace suspirou, observando-o pelo canto do olho.
Sinceramente, se havia alguém com quem pudesse conversar sobre isso, deveria ser o Caleb. Ele havia sido seu primeiro vínculo afetuoso com a panelinha, ao contrário de todos dizerem que Alex era quem os recrutava para o círculo de amizade — inclusive, apostava que ele também havia sido o primeiro vínculo quando diz respeito ao Mason e o Ian, porque não existiria Mason e Ian sem o Caleb, ele era o intermediador. E havia um motivo para isso: Caleb era calmo, compreensivo, gentil e livre de preconceitos.
— Ele me entende — contou, apenas, chamando os olhos verdes para ela. — Dan me entende de uma maneira que vocês não poderiam, sabe? — perguntou, sentindo-se estranha por verbalizar aquilo pela primeira vez e recém dar-se por conta que era verdade. — Nenhum de vocês, porque...
Caleb não precisou pensar muito para compreender, então assentiu.
— Eu sei.
Grace assentiu também, desviando o olhar para o vestido, puxando um pedaço da bainha. — Eu gosto disso nele, desse conforto que ele me traz — falou, baixinho, antes de dar de ombros. — Sem falar que o Dan é uma pessoa incrível, você sabe disso.
— Eu sei — concordou Caleb, assentindo, embora um ruga se aprofundasse entre as sobrancelhas. Sabia que era verdade, e ponderava se Grace não tinha razão e que Dan pudesse até mesmo ser a pessoa perfeita para ela. Ele só sempre imaginou que ela fosse acabar com o Ian — e sempre torceu por isso porque, bem, ele é amigo do Ian. — Eu só...
Grace hesitou, mas ousou olhar para ele, receosa sobre o que ele diria, imaginando o que seria. Remexeu as mãos no próprio colo e, talvez, tenha pronunciado com mais firmeza que gostaria pelo medo do que iria ouvir: — O quê?
Caleb recuou e balançou a cabeça, deixando os ombros caírem.
— Nada, deixa — descartou, e Grace soltou o ar que nem sabia que segurava. Caleb sorriu-lhe minimamente e disse, com sinceridade, ainda que isso ferisse sua amizade com o Ian: — Fico feliz quando você fica feliz.
Grace relaxou e sorriu para ele de volta, embora sentisse o coração apertar no peito. E, quando agradeceu, supôs que ambos sabiam que era pelo silêncio do Caleb a respeito do Ian: — Obrigada.
*
Do lado de fora do ginásio, uma meia hora antes, dois rapazes perdiam-se na escuridão do colégio antigo, de mãos dadas. Eles haviam circundado o ginásio pela parte de dentro do colégio, já que a porta do local que permitia a circulação entre o pátio do colégio e o ginásio estava trancada para que a festa se limitasse ao local.
Essa porta trancada que intercalava o pátio do colégio com o ginásio ficava na lateral esquerda dele, e era basicamente onde o coleginho de bairro acabava. A lateral direita, por onde todos entraram, era exatamente onde o quarteirão tinha um fim, com um pequeno canteiro que dava para a rua. Os carros circulavam por ali e era ali onde deixavam os convidados para entrassem para o local de festa.
A única outra maneira para entrarem para dentro do pátio do colégio — que era o objetivo de um deles -, era se circundassem todo o ginásio e entrassem pelo arame de onde não havia muro alto, por não haver investimento em infraestrutura, entre um pequeno matinho.
— Aonde você tá me levando? — perguntou Jake, desconfiado, embora apenas seguisse os comandos do Bruno, abaixando-se para passar pela cerca, quase dando de cara com um galho.
Assim que entraram para o pátio, Bruno puxou Jake pela mão até que caminhassem ao lado da lateral esquerda do ginásio, do início até o fim — as costas do ginásio. Estava escuro e vazio, o coleginho à direita deles estava apagado, não havia circulação de ninguém, já que haviam entrado sem permissão. De onde estavam também não conseguiam ver os corredores direito, nem mesmo o chafariz onde costumavam sentar.
— Ora — brincou Bruno, com um sorriso —, em comemoração ao nosso antigo coleginho, pensei que a gente deveria usar o ponto de fumo pra se pegar ao menos uma vez na vida.
Jake estancou no lugar, puxando o braço para si, com um olhar incrédulo. — Você tá doido?
Bruno voltou para pegá-lo pelo braço outra vez e soltar um riso engraçadinho. — Sou — concordou —, sempre sou. — Roubou um selinho dos lábios de Jake, que apenas piscou, atordoado. — Especialmente por você.
Jake suspirou, olhando para os lados.
Imaginou que Bruno quisesse dar uma olhada no colégio, algo assim, para reviver memórias, ou que quisesse sentar um pouco no chafariz outra vez para conversarem e talvez darem uns beijos, mas não imaginou que queria levá-lo para o matinho aos fundos do ginásio, conhecido como o ponto de fumo.
Ele apontou para o local em frente. — Já deve ter alguns adolescentes ali — sugeriu, com uma sobrancelha arqueada.
Bruno estalou a língua, descartando a ideia. — Vamos checar por conta própria — levantou, puxando-o outra vez.
Jake continuou sendo arrastado, porque impulsionava seu corpo para trás, para que voltassem. Ainda assim, olhou para o namorado com diversão, achando engraçada a súbita jovialidade que as memórias do colégio traziam. Afinal, a ideia de fugir de uma festa para darem uns pegas no ponto de fumo do colégio não era tão absurda na cabeça de um pré-adolescente hormonal, mas para eles, em plena vida adulta, parecia apenas bizarramente hilário.
— A gente nunca precisou disso Bruno — disse, com carinho, ainda puxando-o para trás, enquanto caminhava para frente, visto que Bruno era mais forte.
Bruno olhou para trás, com um sorriso bonitinho. — Eu sei — garantiu —, mas eu sempre quis te dar uns pegas ali pelo menos uma vez — contou, dando de ombros. — Não tive a chance porque logo que a gente começou a ficar, a gente se formou — riu-se, achando graça, antes de parar em frente ao arame farpado e virar-se para ele com olhos pidões. — Vem, por favor, uma vez só. É rapidinho.
Jake ponderou por um instante, pensando que nem mesmo no auge dos seus quinze-dezesseis anos, ele tinha pique para estar aos beijos com alguém na clandestinidade da área do colégio, que dirá com seus quase dezenove anos de idade, já completando um ano de faculdade.
Mas a carinha sapeca do Bruno era apenas irresistível, como uma criança implorando por um brinquedo besta ao qual não vai dar atenção nem por um dia antes de largar e pedir outro. Jake soltou um som pelo nariz e acabou assentindo ao ceder.
Eles atravessaram o arame, sem soltar a mão um do outro, para o ponto onde algumas vezes — no caso do Jake, e muitas vezes, no caso do Bruno — seguiram o Alex para fumar e jogar conversa fora. Assim que atravessaram e Jake torceu o nariz para a grama alta e mal cuidada, Bruno grudou-o na parede das costas do ginásio.
Jake arqueou, pego de surpresa, e um calafrio subiu sua espinha.
— Bruno, tá frio aqui fora — reclamou, feito um velho, mas Bruno garantiu:
— Vai ficar calor rapidinho.
Antes que ele respondesse, Bruno tomou sua boca em um beijo intenso, aprofundando-o mais assim que Jake retribuiu, e grudou seu corpo mais nele do que na parede ao circundar sua cintura com o braço. As línguas brincaram com um pouco mais de intensidade que Jake esperava, e uma das pernas do Bruno enfiou-se entre as suas de tal forma que Jake quase pudesse apoiar o peso todo nela. Estava mesmo encurralado, entre o corpo quente do Bruno e a parede gelada às suas costas.
O lado de movimento do ginásio estava à direita deles, embora só passado um pouco de mto, onde ficava a entrada e saída de pessoas, que dava diretamente para a rua. Então não era como se ninguém fosse pegá-los ali, a não ser talvez adolescentes fujões que houvessem tido a mesma ideia.
Quando Bruno enfia as mãos para dentro da camisa do Jake e desce os lábios para o pescoço dele, deslizando a língua próximo à sua orelha, Jake resmunga, segurando-se nos ombros dele.
Não imaginava que Bruno estaria com tanto tesão assim, pegou-o desprevenido, e já começava a perder a lucidez com a língua dele. — A gente devia voltar — disse, sôfrego, quando Bruno resmungou e uniu ainda mais o corpo no dele.
— Devia? — ronronou Bruno, mordicando o lóbulo de sua orelha.
Jake acabou assentindo, perdendo um pouco da sanidade, visto que a ereção do Bruno começava a pressionar a sua, e as mãos dele haviam descido para o seu traseiro, agarrando-o como se sua vida dependesse disso.
— Bruno — chamou, a voz já rouca, quando ele suspirou em seu ouvido mais uma vez —, para com isso. Daqui um pouco aparecem uns adolescentes com a mesma ideia que sua cabeça hormonal.
Bruno afastou o rosto o suficiente para olhar para o namorado, os ouvidos atentos ao redor pela primeira vez desde que jogou-o contra a parede.
— A gente vai ouvir — defendeu, deslizando os lábios nos dele —, tá silencioso.
Jake piscou, um pouco embriagado, um pouco consciente que aquilo era maluquice. — Mas...
— Jake — interrompeu Bruno, parando o que fazia apenas para contar, com a voz rouca: —, você não tem ideia a quantidade de sonhos molhados que eu tive com você bem aqui.
Jake piscou, parando de prestar atenção nos carros lá fora, e voltando os olhos azuis para ele. Arqueou as sobrancelhas, analisando-o com um pouco mais de lucidez. — Sério?
Bruno acabou abrindo um sorriso mínimo, como se isso o deixasse envergonhado, apesar de estar se esfregando em Jake alguns segundos antes, e mordeu os lábios ao assentir.
Jake piscou, pensando naquilo por um instante. Bruno, de fato, havia mencionado que havia ficado caidinho por ele desde o primeiro beijo desastroso deles, naquela festa onde Jake teve o coração partido. E que, desde então, mesmo que eles houvessem se aproximado só na amizade, Bruno sentia coisas por ele que não pôde pôr em palavras até praticamente um ano depois, naquela festa. O mesmo havia acontecido com Jake, embora tenha demorado um pouco mais para entender o que sentia e em como desapegar do que havia sentido antes por Ben, até que não misturasse mais os dois sentimentos. De toda forma, Jake nunca havia parado para pensar muito em como havia sido essa ciência do Bruno a respeito do que ele próprio sentia durante todo um ano.
E, apesar de achar aquilo extremamente fofo, também havia feito seu sangue circular um pouco mais rápido em corpo — bom, em todo o seu corpo. Sentindo que deveria — e que queria muito, naquele instante — dar ao Bruno exatamente o que ele desejava, Jake engoliu em seco, cedendo por compleot à fantasia adolescente dele.
— Então... — murmurou, a boca seca. — Então faz o que gostaria de ter feito comigo.
Bruno arqueou minimamente as sobrancelhas, os lábios entreabrindo levemente, antes que os olhos percorressem cada pedaço do Jake ali jogado naquela parede, tão entregue a ele, muito melhor do que qualquer fantasia adolescente. Afinal, ele já o tinha de corpo e alma. E ele sabia exatamente o que fazer.
Bruno o tinha todos os dias.
Não era uma decisão brusca de beijar seu amigo no ponto de fumo do colégio, e tê-lo retribuindo por uma decisão brusca de ceder, aquilo era apenas uma fantasia. O que eles tinham era uma decisão diária de estarem juntos, de compartilharem uma vida muito mais do que compartilhar saliva, uma decisão que se tornava bem pensada depois da hesitação inicial e insegura de estarem juntos, e que também se tornava rotineira. Era tão fácil quanto respirar, escolher um ao outro, todos os dias. Ele conhecia cada detalhe daquele corpo, dos seus trejeitos, do que cada olhar e cada expressão significava, e como reagir a elas. Eles tinham algo melhor do que qualquer fantasia que Bruno poderia ter imaginado da história de amor entre amigos.
Sem esperar um segundo mais, Bruno tomou seus lábios com uma fome extasiada, um sonho molhado de adolescente misturado com seus desejos de adulto, e Jake o retribuiu com igual intensidade. Depois que o beijou até o calor que havia prometido chegar a ambos, Bruno o virou de costas e pensou haver ter feito isso de maneira brusca demais, mas antes que pudesse pedir desculpas percebeu que Jake apenas se preocupou em empinar o traseiro contra o seu quadril, respirando com dificuldade.
Bruno sorriu, deixando um beijo terno em sua nuca antes de agachar-se e baixar com um só movimento a calça de Jake a ponto de arrancar um arquejo surpreso dele. Assim que o fez, afundou o rosto exatamente onde queria, arrancando mais arquejos do namorado.
— Bruno — arfou, em choque, ao segurar-se na parede em desnorteio. — Bruno — suspirou, a voz trêmula —, acho que isso já é de... — Um gemido sôfrego escapou da sua boca quando uma língua invadiu-o de surpresa. — ...mais.
Jake perdeu por completo a linha de raciocínio, esquecendo onde estava e quem era, sequer compreendendo as palavras desconexas que murmurou em seguida, ao passo que Bruno se demorava no que fazia. Ele usou as duas mãos de suporte na parede, gemendo baixinho para não chamar atenção ainda que sequer lembrasse o motivo, a testa apoiada no próprio antebraço.
Quando Bruno ergueu-se novamente, ele beijou o pescoço de Jake devagar, ao passo que o corpo do namorado tremia, ainda que quente. Baixou as calças e roçou-se contra ele, restringindo-se por um instante ao chamar atenção de Jake.
— Jake — gemeu, com dificuldade —, não tem como te lubrificar direito aqui — admite, também se apoiando na parede com uma das mãos ao roçar o nariz contra o lóbulo da orelha dele. — Eu não vou te penetrar, tá? — informou, preocupado, ao usar a outra mão para tentar virar o corpo do Jake na direção dele.
Como se despertasse de um transe, Jake inclinou o rosto para o lado, olhando-o pela penumbra dos ombros com um sorriso mínimo, empacando no lugar quando Bruno tentou virá-lo. Jake negou, um sorriso moldando os lábios.
— O que foi, desistiu tão fácil da fantasia? — brincou, empinando a bunda contra o Bruno de uma maneira nada sutil.
Bruno soltou um riso, observando bem a cena à sua frente, deliciado, apesar da pouca luminosidade do local. Ainda assim, assentiu, inclinando-se para estalar um beijo no rosto quente do namroado.
— Desisti mesmo, não vou te machucar.
Jake sorriu também, empinando ainda mais contra ele, e disse: — É por isso que eu tenho certeza que não vai me machucar. — Sem falar que os dois já estavam planejando dormir juntos naquela noite, então Jake estava preparado. — Não é o ideal, mas tô lubrificado o suficiente pra você ir devagar.
Em seguida, ele levou uma mão para trás, usando-a para posicionar Bruno na direção certa.
— Jake... — murmurou Bruno, hesitante. — Não é uma boa ideia.
Jake estalou a língua, impaciente. — Eu confio em você, vai devagar. Começou — resmungou —, agora termina.
Bruno deixou a testa cair no topo das costas dele, assentindo ao respirar com dificuldade, sentindo-se ainda mais atiçado pela maneira como Jake estava impacientemente rebolando contra ele.
— Ok — murmurou, afundando-se nele pouco a pouco, ao passo que Jake soltava gemidos baixos.
Bruno acariciou-o para aliviar um pouco a dor, levando uma mão para a região frontal do quadril de Jake, usando a mão para aliviá-lo. Enquanto isso, deixou beijijnhos em sua boca, em sua mandíbula, em sua orelha, até que estivesse fundido por completo com o namorado. Apenas então começou a mover-se devagar, com os gemidos de aprovação do Jake, e da maneira como ele também movia-se para frente ou para trás.
Não era assim que a fantasia de Bruno seguia, era muito mais bruta e cruel, porque na época não tinha muita noção de como as coisas funcionavam, sem falar que era movido pelos próprios hormônios desordenados. Mas nenhuma fantasia no mundo superava aquilo: os gemidos de aprovação do Jake, enquanto ele próprio movia-se para que Bruno estivesse ainda mais aprofundado nele, ao passo que o corpo trêmulo cedia por vezes e ele choramingava com lascívia.
— Jake... — começa Bruno, em um tom interrogativo, segurando-se firme nele e na parede.
Jake resmungou, apressado: — Sim, mais forte.
Bruno segurou sua cintura com firmeza antes de começar a mover-se com mais força e mais rapidez, e Jake teve que apoiar os dois antebraços na parede para impedir que sua cabeça ali batesse, apoiando-a neles ao gemer mais alto que planejava. No êxtase do momento, sequer lembrou que não deveria fazer barulhos, muito menos eróticos, onde estavam.
Não demorou, talvez pelo tesão hormonal reminiscente da adolescência, para que ambos se exaurissem um com o outro. As pernas de Jake quase cederam e Bruno firmou-o contra o seu corpo, ao passo que arfavam com dificuldade, e desmanchavam-se um no outro.
Ficaram um tempo abraçados, as mentes em branco, ao tentar regularizar a respiração. Assim que a lucidez voltou aos poucos, os dois desencostaram-se levemente, os corpos doloridos, e limparam-se como puderam nas condições as quais se encontraram.
— Isso foi muito anti-higiênico — reclamou Jake, com o nariz torcido, quando voltou a si. Já estava virado de frente para Bruno, havendo dado passos para o lado para encostar-se na parede outra vez.
Bruno riu, deslizando os dedos levemente pela pele eriçada de Jake, que arrepiou-se, as pernas ainda bambas, enquanto Bruno o segurava. No entanto, Bruno também havia contorcido o rosto em uma careta ao ver o resultado do que haviam feito.
Dirigiu-lhe um olhar piedoso. — Desculpa — pediu, baixinho, como uma criança que aprontou. — Mas foi uma vez só — garantiu, limpando o suor da testa do Jake, que resmungava. — A gente tem o resto da vida pra usar a cama — prometeu, deixando um beijo estalado em sua bochecha.
Jake acabou sorrindo, mas olhou torto para ele quando garantiu: — Eu vou cobrar.
Bruno riu, dando um tapinha na traseira do Jake assim que ele estava completamente vestido. — Ah, eu tô contando com isso!
Os dois ainda gastaram mais alguns minutos ajeitando-se para que estivessem o máximo de apresentáveis possível para retornar ao local, combinando entre si de passar no banheiro antes.
Enquanto caminhavam de volta para o ginásio de mãos dadas, feito dois adolescentes na clandestinidade, Jake fez Bruno jurar que iriam correr para o banheiro mesmo que algum amigo os avistasse antes disso. Bruno assentiu, mas pegou o celular do bolso para checar o horário e também ver se não havia mensagem nova do Alex.
— A gente se limpa rapidinho e volta lá, não podemos demorar muito — enfatizou Bruno, apesar da ausência de mensagens do Alex, não pôde evitar perceber que estava quase no horário.
Jake o olhou pelo canto de olho, estreitando-os. — Por quê? — perguntou, arqueando uma das sobrancelhas antes de olhar para longe. — Alex já vai embora?
Bruno virou o rosto para ele com brusquidão, as sobrancelhas arqueadas em surpresa, desacreditado.
— Como você sabe disso?!
Jake deu de ombros, estalando a língua. — Eu te conheço — respondeu, simplesmente.
Brunou gemeu em resposta, com uma careta. — Ai, não era pra ninguém saber — resmungou, feito uma criança, ao levar uma mão para a testa.
Jake revirou os olhos, dando um peteleco nele, que se afastou dois passos sem soltar a mão dele.
— Eu não vou contar pra ninguém, né — resmungou, ofendido. — Mas você é muito transparente, não sei como os outros não deduziram ainda. Você já se despediu vinte vezes do Alex só hoje — debochou, com um meio sorriso.
Bruno acabou rindo, feito um palhaço, antes de dar de ombros e leva a mão livre para apertar a bochecha de Jake. — Ninguém me lê como você — defendeu, porque era verdade.
Jake pensou um pouco, soltou um riso, e contradisse: — Talvez a abuelita.
Bruno fechou os olhos, em desistência, ao lembrar da abuelita. Foi obrigado a concordar, puxando Jake para abraçá-lo enquanto caminhavam até a cerca.
— Com certeza, a abuelita!
Jake riu, mordendo o lábio inferior ao ponderar mais uma vez sobre o que andava pensando naqiela semana. — Será que é muito cedo pra eu visitar sua abuelita de novo?
Bruno parou de caminhar, olhando para ele com os olhos brilhando em empolgação, faltando pular no lugar.
— Não é, não! — exclamou, e Jake riu. — Vamos lá amanhã? Vamos? — pediu, os olhos castanhos brilhando. — Eu vou precisar de um pouquinho de você e um pouquinho da abuelita pra me consolar sobre a partida do amor da minha vida! — exclamou, dramático.
O sorriso de Jake vacilou e ele inspirou tão fundo que podia ter inspirado o ar do Bruno também, antes de soltar com uma sobrancelha erguida em irritação.
— A próxima vez que você chamar o Alex de amor da sua vida, eu juro que eu te mato.
Bruno ficou sério por um instante antes de rir, sapeca, ao passo que Jake estreitava os olhos.
— Eu sabia que você tinha ciúmes também — anunciou, orgulhoso, antes de inclinar-se para passar pela cerca que saía do colégio e dava retorno para o lado movimentado do ginásio. Olhou para o namorado com um sorriso de canto, um tanto mais presunçoso do que Jake esperava. — É bom, né?
Jake deixou a boca cair, os olhos ainda incrédulos. — Você...
Bruno deu de ombros e passou pela cerca, esperando que Jake o seguisse voluntariamente pelo caminho contrário ao que entraram no colégio.
— Você fez isso de propósito?! — exclamou Jake, indignado, passando pela cerca com a agilidade de um gato, tão rápido para ter o Bruno em mãos. Bruno escapou delas com um pulinho e um riso, retornando para a entrada e saída de pessoas. — Rancoroso, Bruno, rancoroso!
Bruno gargalhou, seguido por Jake, mas enfim acabou apenas dando de ombros.
— Como ele ousa dormir com o amor da minha vida? — resmungou, de volta, ao desenterrar aquela vez da colônia.
Jake ficou de boca aberta, dando tapas em Bruno, desacreditado que ele não esquecesse jamais do episódio, mesmo sabendo que Ben havia mentido sobre dividirem a cama.
— Bruno... — murmurou Jake, na ausência de palavras, assim que ficou lado a lado com ele, já visíveis para os demais que estavam na frente.
— Hum?
— Você precisa de limites — chegou à conclusão, balançando a cabeça de um lado ao outro.
Bruno sorriu largamente, pegando sua mão para entrelaçá-las outra vez e trazê-las para a sua boca para deixasse um beijo estalado na mão de Jake.
— Eu só preciso de você.
*
Minutos depois, quando todos estavam dentro do ginásio aproveitando as últimas horas de festa, tendo alguns indo embora com antecedência, Ian finalmente criou coragem para retornar ao grupo de amigos.
Depois de se separar do Alex, Ian perambulou pelo ginásio, foi lá para fora pegar um ar, retornou para perambular mais um pouco, foi até o banheiro para lavar o rosto e encontrou Bruno e Jake com cara de quem aprontaram — e obviamente não era doido de querer saber -, e então retornou para os amigos.
Grace o observou atentamente quando ele sentou na mesa, ao lado de Mason e de Korn, que ofereceu-lhe outra bebida batizada. Ele havia se certificado quando foi ao banheiro que não estava com cara de choro, mas não podia fazer nada com relação a cara de desilusão amoroso, porque estava estampada. Então não ousou olhar na direção da Grace, embora ela tivesse os olhos estreitados nele, ponderando se ele havia mesmo chorado como parecia ou se era coisa da sua cabeça.
Sentiu-se culpada, e então culpada por se sentir culpada, já que não tinha nada com isso.
Todos estavam rindo de alguma coisa que Mason tagarelava, muito seriamente, ao passo que Bex inclinava-se por sobre a mesa para apertar a bochecha dele, dizendo que era um fofo. Dan gargalhou, debochando de Mason, que apenas franzia o cenho sem compreender, olhando para Cristina por confirmação e ela deu de ombros, confirmando que ele era mesmo um fofo. Então todos caíram na risada, achando-os um amor juntos, não deixando de comentar sobre a dança bonitinha deles.
Ian engoliu todo um copo de uma vez só, embora estivesse tentando demorar-se com o copo na boca para não ter que falar nada.
— Alguém busca um suco pra mim? — pediu Dan, inclinando rosto na direção de Bex, com os olhos pisões. — Hein, Bex?
Bex riu, dando de ombros. — Boa tentativa, bonitão.
Ian terminou o copo e largou em cima da mesa.
— Eu busco — anunciou, levantando-se.
Dan arqueou as sobrancelhas lá em cima, analisando-o com atenção, as bochechas levemente avermelhadas pelo álcool clandestino e os olhos denunciando que estava no brilho. Dan relanceou Grace, que também aparentava surpresa, e Ian logo deu as costas.
Quando voltou, equilibrava bebida para todos, que batizaram às escondidas, e ele mesmo deslocou-se até Dan para dividir com ele o mesmo copo. Dan, sendo o Dan, apesar de estranhar, aceitou de primeira com um sorriso largo. Em seguida, Ian olhou para Grace pelo canto de olho e disse que ela podia beber também se quisesse.
Aquilo havia sido basicamente um pedido de trégua, porque as palavras de Alex ressoavam em sua cabeça, e ele se segurava nelas porque não podia contar com suas próprias palavras maldosas que ressoavam junto. Decidiu que ergueria o queixo e que tentaria elevar-se um pouquinho, ao menos, e que melhoraria um pouco.
Ao menos, o máximo que conseguisse, hoje.
Amanhã era outro dia.
Olhou para longe a fim de procurar pelo Alex ao pensar nele e encontrou-o logo em seguida, com o Caleb. Ian inclinou o rosto, observando a maneira como eles tinham as mãos entrelaçadas conforme Alex ia puxando Caleb lentamente em direção à porta do ginásio.
Suspirou, sentindo-se de fato um bobão por haver demorado tanto tempo para perceber o fenômeno chamado "Alex e Caleb". E, quanto mais observava, mais percebia que aquilo fazia o maior sentido do mundo e que eles perfeitos um para o outro.
Antes de tomar o próximo gole, Ian ergueu o copo para o ar, dedicando-o para a felicidade do Alex.
Fale com o autor