Made of Stone
73 LVII. De todas as surpresas do mundo
Notas iniciais
Era meu aniversário.
Meu aniversário de dezessete anos marcou fundo, e eu duvidava que o meu aniversário de dezoito — que costuma ser o marcante na vida das pessoas — chegaria aos pés disto. Acho que, majoritariamente, foi porque eu fui surpreendido.
Eu havia tomado uma decisão uns meses atrás, quando eu comecei a namorar com o Chris, mas ela já havia começado a tomar forma ainda antes, logo que o ano começou com a promessa de renovação — deixar aquele ano infeliz para trás. Eu havia decidido que eu ia começar a pensar no melhor para mim, no que me faria feliz, no que eu gostaria de fazer ou no que eu gostaria de deixar no passado.
E uma dessas coisas envolvia o meu aniversário, porque o meu aniversário envolvia tanta coisa por conta própria.
Eu não queria me sentir da mesma maneira que senti ano passado, o dia inteiro remoendo se receberia ou não um contato dele, se eu sequer tinha motivos para estar comemorando ao invés de estar enfiado em uma cama, se haviam maneiras de que eu pudesse simplesmente apagar toda a dor. Eu decidi que eu não faria isto de novo, mas que eu também não ia me forçar a me enfiar em uma festa — algo que também remetia a ele, tradição que iniciou com as vontades dele — ao invés de ficar descansado em casa como eu queria.
Então eu decidi que não haveria comemoração nenhuma, eu não queria nada marcante, eu não queria nada especial, eu só queria ficar despreocupado em casa.
Talvez eu devesse ter explicado meus motivos pessoais aos meus amigos, pensei depois, mas bom, até parece que eu iria.
O dia havia começado como sempre: confetes e buzinas na cara — e essa talvez fosse a única tradição de aniversário que eu jamais ressentiria. E então eu fui para o colégio, era uma quarta-feira, e eu recebi mais alguns parabéns na minha cara que poderiam facilmente terem sido buzinas e confetes, a julgar por toda a gritaria e elogios coloridos dos meus amigos.
Chris me abraçou e, embora fosse uma raridade em público, me beijou diante de todos, que metade comemorou e metade vaiou só para incomodar.
Ainda era estranho, mas havia isto: eu estava namorando agora. E eu sentia que jamais conseguiria me acostumar com a ideia, mas apesar de todas as inseguranças, sentia que minha vida finalmente havia entrado nos trilhos certos. E isto era o suficiente para que eu me sentisse confiante na minha decisão e que, mesmo que ainda parecesse estranha a ideia de que eu tenha um namorado — eu, Caleb, dentre todas as pessoas do mundo —, ainda sentisse que era tão fácil seguir o fluxo.
Essa era a verdade.
Eu ainda tinha vontade de me enfiar em um buraco quando lembrava que fui eu que pedi o Chris em namoro, mas eu realmente fiz isto, quase três meses atrás.
Eu ainda enrolei por umas duas semanas antes de contar para a minha mãe, que recebeu a notícia com uma surpresa desmedida em sua cara, o que também me surpreendeu, afinal, ela parecia saber do nosso envolvimento antes mesmo que eu soubesse. Eu demorei uns dias, analisando-a atentamente, para entender que a surpresa era por eu haver decidido namorar sério com o Chris — e tão rápido, ela comentou. Em um geral, no entanto, eu sou muito privilegiado, então é óbvio que minha mãe aceitou que eu namorasse — apesar da regra ser que só podíamos namorar depois dos dezoito — e recebeu Chris de braços abertos como genro. Eu não gostava de pensar na palavra, por algum motivo, genro, mas eu não me importei muito quando os pais do Chris me chamaram assim.
Chris esperou que eu contasse aos meus pais para que então contasse aos seus, e isto fez com que eu sentisse um aperto culpado no peito, porque eu sabia o motivo. Chris ainda exalava uma hesitação e uma insegurança, como se esperasse que, a qualquer momento, eu mudasse de ideia. Eu sabia que tinha a ver com a ausência de uma declaração de amor da minha parte, mas também entendia que provavelmente tinha a ver com seu último relacionamento e a maneira como acabou. Isto me fazia querer garantir a ele, com todas as minhas forças, que não era possível que eu voltasse atrás na minha decisão — de jeito nenhum! — e que eu jamais seria igual ao seu ex que não teve coragem de sair do armário para ficar com ele. Até porque, minha família tampouco era como a família deste menino, e eu tinha sorte por isto.
Apesar da minha mãe ter a mente aberta e ser receptiva, entretanto, ainda assim houveram algumas mudanças na dinâmica de casa, porque ela seguia sendo minha mãe, afinal de contas. Se Chris estivesse lá em casa quando nem ela nem Theodore estavam, então deveríamos ficar na sala; se eles estivessem em casa, podíamos ficar no quarto mas com a porta aberta. Eu também tive que ouvir uma conversa inteira sobre prevenção de infecções sexualmente transmitíveis, um anúncio muito animado sobre preservativos, e muita informação atualizada sobre relações homoafetivas que minha mãe aperfeiçoou depois de passados anos em que teve esta mesma conversa com o Will. Eu quis morrer, só um pouquinho, para poder haver estado enterrado no chão enquanto essa conversa acontecia.
E por falar no Will, eu me sentia um pouco culpado.
Eu andava sentindo muita culpa ultimamente, então talvez fosse só meu estado de espírito, mas eu odiava que ele houvesse passado pelo pior. Talvez fosse inevitável, como irmão mais velho, sempre passar pelo pior de forma que amansasse quando chegasse a minha vez, mas o pior, no nosso caso, era muito ruim. Eu ainda lembro do surto que minha mãe teve quando o Will contou a ela que tinha uma relação com o professor, porque tentei muito acalmá-la e fazê-la ver que não havia nada demais nisto. E agora que eu recebia abraços, aceitação, faltando apenas purpurina na minha cara, eu sentia muita culpa que, com ele, não havia sido assim de primeira.
Will sempre recebeu todos os golpes. Ele recebeu toda a rejeição, toda a agressividade, todo o abandono, do nosso pai; e ele ainda recebeu todas as falhas, ainda que não intencionais, da nossa mãe. Eu recebi tudo isto pela metade — e apenas quando recebi coisa alguma, porque outras nem chegaram a respingar em mim.
Às vezes eu penso que doeria menos em mim se eu houvesse recebido tudo por ele, porque a sensação de culpa parecia pior.
No entanto, enquanto eu parecia preso a isto, Will parecia haver seguido em frente — o que era bom, é claro, mas eu tinha dificuldade em entender. E é óbvio que, quando ele ficou sabendo que eu estava namorando — pela minha mãe, porque eu honestamente não tive coragem de contar a ele —, eu ouvi os gritos pelo celular lá do meu quarto. Ele desligou a ligação com a minha mãe para me ligar de novo e de novo, até que eu atendesse e contasse a ele, com todas as letras, que era verdade. Honestamente, pareceu mais sério e mais invasivo do que contar a minha mãe, mas Will sempre foi a figura paterna de casa, então eu achava que isto fazia sentido. Eu reconhecia a seriedade do interrogatório, mas Will também era o Will, então ele estava meio que rindo o tempo todo, falando alto demais com algum tipo de entusiasmo e incredulidade mútuos, parecendo muito animado o tempo inteiro, apesar da nota de preocupação de fundo.
Will também pareceu entretido, encantado e fascinado com a história toda, querendo saber mais sobre o Chris mas também querendo saber mais sobre mim, como se mal me reconhecesse, havendo soltado um arquejo quando eu contei que fui eu que o pedi em namoro. Então começou a fazer planos de visitar o quanto antes para conhecer o menino e ver com seus próprios olhos o que tirar da situação, desligando a chamada antes que eu respondesse e ligando — porque eu ouvi — logo em seguida para a minha mãe para fofocar mais sobre a minha vida.
Ao menos, bom, esta foi a reação inicial.
Depois de passado o choque inicial, entraram as preocupações mais aprofundadas. Eu comecei a evitar conversar com ele ou com a minha mãe sobre o meu namoro com o Chris, fugindo das conversas intensas sobre sentimentos como o diabo foge da cruz. E eu sabia que estas conversas me esperavam, eu conhecia a minha família.
Minha mãe, tanto quanto o Will, havia perguntado logo no primeiro dia se eu estava apaixonado. A minha resposta para eles — porque ao menos da primeira vez eu tinha a obrigação de dar alguma — foi a mesma: acho que sim. E quando eles tentavam investigar mais a fundo o que eu queria dizer com isto e o porquê de eu querer namorar alguém só com um “acho”, eu disse a mesma coisa: eu gosto muito dele e não existe uma definição específica para “estar apaixonado por alguém”, por isto eu digo que não sei de certeza.
E para ser sincero, tecnicamente, era verdade.
Ao mesmo tempo, eu tinha noção que era muito ruim que eu estivesse preso ao “tecnicamente” em uma situação dessas. Especialmente quando o próprio Chris deixava escapar, vez ou outra, que estava muito apaixonado por mim. Eu travava, querendo dizer alguma coisa de volta mas sem ter descaramento o suficiente para responder um “eu também” se eu não tinha certeza disto, então o silêncio respondia por mim.
Chris nem reclamava, nem resmungava, nem suspirava — ele não dizia nada depois, apenas me abraçava em silêncio, como se quisesse garantir que estava tudo bem que eu não retribuísse ainda. É de se supôr que houvesse um “ainda” no final desta frase porque, afinal, por que mais eu estaria namorando com ele se esperava jamais retribuir o sentimento algum dia?
Umas duas semanas atrás, eu consegui dizer um “eu te amo”, porque era o mais sincero que eu poderia ser. Eu passei a amar o Chris antes mesmo de começar a namorar com ele, ele é meu amigo, afinal de contas. E eu tenho certeza que eu o amo um pouquinho mais a cada dia que passa que estamos juntos, então era inteiramente verdade. O fato de que isto trouxe um risinho faceiro nele antes que me enchesse de beijos também me fez repetir mais vezes.
Isto estava mesmo acontecendo, inclusive: eu estava gostando cada vez mais dele.
Ao longo das semanas, eu ficava cada vez mais à vontade com o Chris e, consequentemente, mais à vontade com o nosso namoro — embora eu ainda achasse inacreditável que eu estivesse namorando. Andar de mãos dadas no colégio ou na rua foi estranho no início, mas eu logo me acostumei e passei a gostar demais da sensação. Cada vez mais eu sentia que era mesmo disto que eu precisava, de uma mudança como esta na minha vida — de uma pessoa como o Chris —, de dar um passo em frente ao invés de seguir caminhando para trás.
E eu me sentia tão bem.
— Vocês tão falando de mim?
Eu recém havia saído da sala para ir ao banheiro quando o sinal do intervalo tocou, então quando saí, encontrei todos sentados no chafariz ou no chão em frente a ele. Estavam conversando alto quando eu estava longe, mas quanto mais perto eu chegava, mais baixo as vozes se tornavam, até que parecesse que estavam cochichando sobre mim — e sem nenhum disfarce, porque olhavam direto na minha cara.
— O mundo não gira ao seu redor, Caleb, sabia disto? — brincou Grace, cruzando os braços em frente ao peito.
Estreitei os olhos, parando em pé em frente a eles. Chris, que estava sentado no chafariz, pegou minha mão na sua ao dizer que eu devia sentar ao seu lado, mas eu fiquei encarando Grace, que me mostrou a língua.
— A gente tá reclamando de você — contou Dan, por ela, atirado no chão de uma maneira que parecia descolado quando ninguém mais conseguia —, do quanto você é chato com aniversários e egoísta por não pensar na gente e no quanto gostamos de festas!
Revirei os olhos, mas ele riu em seguida, depois da reclamação, quando um coro se seguiu concordando com ele. Acabei sentando ao lado do Chris, olhando para todos que jogavam reclamações na minha cara.
— O aniversário é meu — retruquei, julgando-os sem muita seriedade —, então vocês é que são egoístas por não pensar em mim e no que eu quero.
— Aí você quer demais — riu o Ian, sentado ao lado do Dan, ao mesmo tempo em que Mason perguntava, confuso:
— Desde quando a gente faz o que quer no nosso aniversário?
E isto fazia sentido por conta de uma conversa que tivemos, eu e ele, a respeito dos aniversários de infância serem feitos pelos e para os pais — sobre sermos obrigados a dar abraços em parentes que a gente não gosta ao invés de ficar jogando videogame no quarto. Em especial, no caso do Mason, a mãe dele o vestia em roupas engomadinhas que ele detestava em todos os aniversários, as coisas só mudando um pouco depois da pré-adolescência.
— Vocês só sabem reclamar — resmunguei, roubando um salgadinho da Cristina, que estava do meu outro lado. — Eu tô fazendo dezessete anos, não dezoito, e não tem nada de especial nisto — garanti, torcendo o nariz. — Menos, bem menos.
Chris, ao meu lado, riu e então apertou meu nariz entre o polegar e o indicador antes de soltar, quando dirigi uma careta a ele. — Você é muito chato.
Estalei a língua, quando os demais concordaram, e dei de ombros.
— Se quer outro namorado — provoquei, estreitando um pouco os olhos —, existem opções menos chatas por aí.
— O drama — anunciou Grace, rindo.
Chris acabou rindo, aproximando-se de mim o suficiente para me prender em seus braços, um em torno do meu pescoço para me puxar e o outro segurando meu rosto para que eu olhasse para ele com as sobrancelhas arqueadas, nada impressionado. Os demais começaram a fazer sons de vibração enquanto Chris, sorrindo mais com as coisas depravadas que os demais falaram, quase encostou o nariz no meu.
— Ora — falou, fazendo carinho na minha orelha —, com isto não se preocupe. Por que eu iria querer alguém menos resmunguento que você?
Eu tentei não sorrir, mas não consegui, então soltei um bufo risonho ao tentar me desvencilhar dele, mas Chris roubou um selinho rapidamente antes de deixar, o braço deslizando para a minha cintura para que ainda estivesse próximo de mim. Sem graça, olhei para os meus amigos, testemunhas da demonstração pública de afeto, cujas expressões variavam de “awn” para “eca” facilmente entre si.
— Maze, você tá sentindo? — perguntou Ian, exageradamente, com uma careta.
Mason assentiu, enfiando outro salgadinho na boca, embora perguntasse: — O melado?
Ian concordou, enquanto os demais riam, esticando os dois braços em frente como se estivesse infectado com alguma coisa. — Sim, tá impregnando na minha pele.
Revirei os olhos, ao passo que Chris ria ao meu lado, mas me abraçava ainda mais. — Vocês são uns idiotas.
Grace inclinou-se para conseguir chegar ao Ian, dando um peteleco nos seus cabelos, em seguida seu riso diminuiu, olhos agora presos nela, e ele ergueu os braços em rendição. Grace seguia encarando-o com irritação mas Ian ficou quieto sem questionar, embora o olhar se demorasse nela antes que ela desviasse o olhar para o Mason também: — Calem a boca, eles são muito amorzinhos — defendeu, referindo-se a nós.
Ian não pareceu concordar, demorando-se ao olhar para ela, mas soltou um riso quando parou os olhos em nós dois, assentindo com relutância. De todos eles, Ian foi o que pareceu menos surpreso quando contamos que estávamos namorando de verdade desta vez, provavelmente já esperando isto depois que contei a ele que eu e o Chris estávamos ficando. E ele continuou parecendo um pouco atormentado por isto por alguns dias, mas ele pareceu aceitar depois de um tempo.
Eu contei ao Mason antes de contar para todo mundo — antes de contar para a minha família — e eu também vi um pouco de preocupação no rosto dele, concentrados em uma ruga entre as sobrancelhas que persistiu, mas logo depois ele ficou até animado com isto. Ajeitou os óculos, com um pequeno sorriso, e anunciou para si mesmo, mais do que para mim, que ele seguia sendo o melhor amigo. Eu pensei que era porque eu havia contado para ele antes de contar aos demais, mas depois entendi que era porque o Chris não era mais um amigo, mas um namorado, ou seja, o primeiro lugar seguia sendo dele.
Eu só tenho amigos estranhos e é culpa deste colégio, que só atrai esquisitos.
Como Grace estava sentada à nossa frente, Chris desvencilhou-se de mim o suficiente para inclinar na direção dela e conseguir apertar sua bochecha enquanto ela ainda defendia nossa “fofura” aos demais. Eu entendi o que Chris quis dizer com o gesto: ela é que era fofa. Grace não gostou nada disto, no entanto, e dirigiu-lhe um olhar assassino ao passo que nós dois gargalhávamos.
Os risos foram interrompidos quando uma figura loira passou por nós e puxou o capuz do Ian rapidamente, para que cobrisse o cabelo escuro, soltando um risinho com as demais garotas que estavam com ela. Ian automaticamente olhou para trás, levando uma mão para o capuz ao tirá-lo outra vez, bom, todos nós olhamos para as suas costas. Arqueei as sobrancelhas, vendo que Cindy soltava um riso ao virar-se em nossa direção sem parar de caminhar, e acenou para ele.
Nossa panelinha, no entanto, não perdoava nada nem ninguém, então as vaias começaram antes mesmo do Ian acenar de volta, desajeitadamente, em seguida virando-se para nós com uma careta. Dan, que estava do seu lado, inclinou-se para apertar a bochecha dele de uma maneira parecida com a que Chris fez com a Grace, mas desta vez era porque suas bochechas estavam vermelhas, Dan verbalizou isto antes que Ian desse um safanão na mão dele. Cristina, ao meu lado, comentou com Mason que, do jeito que o Ian é, nem se a garota se atirasse nele ele saberia reagir. Eu concordei, comigo mesmo, mas não comentei nada, porque meus olhos estavam ocupados observando Ian e Grace. E a julgar pelo silêncio do Chris ao meu lado, supus que ele estava fazendo o mesmo.
Apesar das vaias e brincadeiras, a vermelhidão em seu rosto e as reclamações de que seus amigos eram uns imbecis, Ian ficou relanceando uma furiosa Grace que, tamanha fúria, sequer disse uma palavra além de haver bufado com irritação. Ian parecia realmente um cachorro abandonado, os olhos receosos observando cada movimento de Grace como se, se ele a encarasse o suficiente, conseguiria ler seus pensamentos. Era quase como se ele duvidasse que o ódio dela por aquela menina fosse puramente ciúmes, e acho difícil acreditar que qualquer um de nós, além do Ian — e talvez Dan, visto que não parecia se importar —, duvidasse disto, porque era óbvio demais.
Eu até entenderia que havia certo desprezo por tudo o que a garota representa — eu mesmo não gosto dela, age o tempo inteiro como se tivesse o rei na barriga —, visto que mais de uma vez ao longo dos anos, Grace comentou que Cindy lembrava muito aquelas meninas do seu antigo colégio que fizeram bullying com ela. Mas eu também conhecia Grace o suficiente para ver que o desprezo pela Cindy aumentou bastante neste ano, quando ela começou a dar em cima do Ian descaradamente.
Suspirei, sendo arrancado dos meus pensamentos, quando o sinal tocou.
Eu não gostava de pensar sobre eles, porque amo todos os meus amigos igualmente e quero a felicidade de todos eles. Mas haviam coisas que eram mais complicadas de se entender e, enquanto eu torcia pelo melhor para eles, eu não sabia dizer exatamente o que seria o melhor para eles. Ian e Grace pareciam se gostar há muito tempo, mas o melhor para eles era mesmo que estivessem juntos? Grace e Dan, apesar do quão estranho era que não admitissem estar juntos, também pareciam se dar muito melhor do Grace e Ian, então talvez isto fosse o melhor para eles. Ian parecia miserável a maior parte do tempo vendo os dois juntos, então o melhor para ele não seria seguir em frente de uma vez? E se Grace não estava totalmente feliz com o Dan, não seria o melhor para tanto o Dan quanto a Grace, que eles também seguissem em frente?
Eu sequer me arriscava apostar em uma resposta — ela simplesmente não existia. Se eles me pedissem por conselho, qualquer um deles, eu só poderia dizer que teriam que escolher o que consideravam ser o melhor para si mesmos. Quero dizer, se eu não sei nem o que eu estou fazendo da minha vida, que dirá da vida dos outros? E, bom, quem é que gostaria de se meter no meio de um triângulo amoroso? Afinal, existe coisa mais dramática e desnecessária que um triângulo amoroso?
*
Eu acordei um pouco antes do Chris chegar — talvez até tenha acordado porque ele chegou, com o barulho do portão ou algo assim.
Ele disse que viria à tarde, mas acabei dormindo, tomado de preguiça, enquanto esperava a hora chegar. Eu não tinha nenhum plano com a panelinha, por mais que quisessem celebrar, eu apenas queria deixar passar batido a data, principalmente porque a ideia de receber uma mensagem do passado estava me dando nos nervos. Minha mãe disse que compraria uma pizza para a gente de noite e que ia comprar um bolinho, e eu só pude aceitar, isto bastava.
Talvez Chris ainda estivesse aqui de noite, então não seria tão ruim.
Eu acordei com beijos no meu rosto e apesar de estar acostumado com os lambeijos do meu caramelo, não foi nojento, desta vez. E talvez seja por conta do costume de acordar com Magic cheirando e lambendo minha cara que eu não tenha me sobressaltado, como de costume, mas imagino que fosse porque eu já estava meio desperto. Acabei sorrindo, reconhecendo o cheiro e o toque carinhoso antes mesmo de abrir os olhos e deparar-me com o sorriso de dentinhos separados.
— Feliz aniversário, de novo — murmurou, contra minha bochecha, e eu resmunguei em resposta. Ele riu, outra vez, inclinando-se para deixar um selinho na minha boca. — Desculpa te acordar. Eu trouxe um presente.
Forcei-me a levantar, ainda preguiçoso, e sentei na cama com ele ao lado, um sorriso carinhoso no rosto e um pequeno pacotinho de presente nas mãos. Arqueei as sobrancelhas, olhando dele para o presente, sentindo-me esquisito sobre isto. Era uma mistura de me sentir agradecido, amado e cuidado, mas também um sentimento culposo de receber tudo isso do Chris quando tudo o que eu conseguia dar a ele era um “eu te amo” nada romântico de volta.
Nenhuma declaração de amor, de arrebatamento, como ele merecia.
— Não é bem um presente, já que você disse que não queria nenhum — foi logo dizendo, com um riso nervoso, remexendo o plástico nas mãos. — É mais uma lembrancinha, eu acho? — perguntou-se, com uma careta, antes de abrir um sorriso tímido: — Algo pra não deixar a data passar em branco e também pra não deixar passar em branco, bom, o que eu sinto por você.
Pisquei, um nódulo se formando instantaneamente na garganta, ao passo que a culpa acendia e afundava mais fundo no meu estômago. — Chris... — comecei, mas ele logo foi negando.
— Deixa disso, Caleb — cortou, rapidamente, ao pegar minha mão na sua. — É meu gesto, meu sentimento, meu presente. Você não precisa me dar nada em troca — enfatizou, colocando a outra mão no peito —, eu é que estou te dando algo de livre e espontânea vontade. Então só aceite, por favor.
Observei os olhos limpos de qualquer coisa que não genuinidade, sentindo no fundo do peito o que aquilo queria dizer. Era óbvio que ele estava se referindo a algo mais profundo que um presente de aniversário, ele referia-se a todo o resto, e eu não pude deixar de me sentir abalado com isto.
Assenti, ainda me sentindo estranho, mas consegui sorrir.
— Quero dizer — acrescentou ele, rapidamente, com uma careta —, só aceite se for usar, se você gostar. Eu posso trocar também — apressou-se em dizer, entregando o pacote nas minhas mãos.
Pisquei, pegando-o nas mãos trêmulas e abri prontamente, arqueando a sobrancelha enquanto o virava nas mãos, observando-o de todos os lados com um sorriso hesitante.
Quero dizer, aquilo era dificilmente uma lembrancinha.
Era um pingente, e eu gostava de pingentes — neste momento, eu usava um de adaga simples, porque parecia um pouco com o outro guardado no fundo da gaveta. Depois que comecei a namorar com o Chris, eu comecei a sentir que era errado demais usar o pingente de bala escondido atrás da camiseta, principalmente porque Chris havia elogiado uma vez sem saber a quem costumava pertencer, então eu o substituí por este de adaga. Só que eu paguei trinta conto no meu — o que constituía uma lembrancinha — enquanto o que eu encarava nas mãos parecia prata pura, assim como aquele de bala.
Girei-o em mãos e até a corrente macia, fria e flexível dizia que aquilo não era um colar barato. Haviam dois pêndulos juntos, mas eu apenas percebi isto quando mexi nele, puxando-o para o lado, porque parecia um só. O pêndulo em si era igual ao de um pingente militar, exceto que era menor e mais delicado, e ao invés de conter mais informação, a única coisa que havia era a letra C encravada em um cantinho inferior dele — o outro era igual, só que o outro C estava do lado inferior contrário.
Eu soube instantaneamente o que aquilo significava, confirmei ao erguer os olhos para a insegurança estampada no olhar amendoado. Senti um aperto no coração, a culpa remoendo-o pelas beiradas, ao passo que também sentia aquela onda de carinho desmedido por Chris — eram sentimentos tão conflitantes que senti minha cabeça rodopiar.
Aquilo era uma aliança — não exatamente, mas era — e era perfeita.
Eu, honestamente, achava aquilo perfeito. Mas eu não pude deixar de perceber que o Chris havia se limitado às iniciais apenas e isto não era por conta de um gosto por algo simplista ou porque não tinha dinheiro suficiente para escrever mais. Era uma garantia, uma segurança, uma porta de saída. Era a insegurança de pensar que talvez fosse cedo demais, ou que fosse brega demais, ou que fosse apenas precipitado demais, qualquer coisa que antecipasse uma negativa da minha parte. Ele não teve coragem de colocar os nomes inteiros porque assim me dava abertura para usar o pingente como se não significasse nada além de algo individual, algo que remetesse somente a mim, nada além do meu próprio nome. Mas o propósito era óbvio, a duplicata do pingente, as letras iniciais C em lados contrários, que aquilo era um enlace de duas pessoas e de dois nomes. Era tudo, menos individual.
Desci os olhos para o pescoço dele, não encontrando nada ali, antes de voltar para os olhos castanhos inseguros.
— Você não precisa usar se não qui...
— Eu quero — interrompi, abrindo-o com os dedos e levando a abertura para a minha nuca, prendendo-o com facilidade. Então puxei para ajeitá-lo em torno do pescoço, gostando também da altura na qual ficou no peito e puxei-o para olhar desta perspectiva. Sorri para isto, pensando que por mais piegas — alguns diriam romântico —que aquilo fosse, eu realmente havia gostado. — Eu adorei.
Chris arqueou as sobrancelhas, um tanto acanhado: — Sério?
Assenti, puxando o segundo pêndulo para indicar ao Chris, arqueando uma das sobrancelhas ao olhar para ele. — Eu espero que pelo menos uma das iniciais seja de Christopher.
Chris coçou os cabelos atrás da nuca, sem jeito, e mesmo com a melanina, eu conseguia notar o quanto seu rosto havia corado. Sorri para isto também, observando-o com maior atenção.
— É — admitiu, com um riso nervoso. — Um deles, sim. Tudo bem pra você?
Soltei um riso triste, pensando que eu é que deveria estar perguntando a ele se estava tudo bem que eu usasse sua inicial no pescoço quando não havia feito nada para merecê-lo. E isto era bem curioso de se pensar, em como as coisas tomaram um giro de cento e oitenta graus neste quesito, porque tudo começou com o pensamento persistente de que eu merecia seguir em frente e ser feliz e ter uma vida normal. E por mais que eu ainda queira isto, quanto mais eu me envolvia com o Chris, mais eu repensava se ele é merecia alguém melhor do que eu.
Eu evitava pensar sobre isto e me sentir assim, empurrando qualquer culpa que eu sentia tão longe que eu fingia que ela não estava lá, mas algumas vezes isto vinha à tona.
Acabei assentindo, sem conseguir responder verbalmente, e indiquei o pescoço dele. — Você não comprou um pra você também?
Chris piscou, confuso, e eu apenas o encarei. — Você quer que eu compre? — perguntou, hesitante, os olhos incertos.
Dei de ombros, com um sorriso, vendo que outro se espalhou ainda mais em seu rosto quando eu confirmei: — Eu compraria um pra você, mas algo me diz que nem todo o meu salário de verão seria capaz de pagar por isto.
Eu pude ver o exato momento em que seu rosto iluminou, eu sentia que era tanta luz e tanto calor que Chris emanava que era ele quem fazia meu coração aquecer desta forma. E então, animado, ele acabou rindo, aproximando-se o suficiente para pegar meu rosto com as duas mãos.
— Você não precisa fazer isso, benzinho, vem cá — murmurou, a última sílaba já pressionada contra os meus lábios antes de me beijar apaixonadamente. E assim, tão logo quanto apareceu, as dúvidas e as culpas foram engolidas completamente pela sensação boa que era estar nos braços dele.
Eu comecei a gostar muito mesmo do Chris e isto tornava tudo tão fácil.
Eu gostava que ele fosse tão diferente de mim, e talvez fosse por conta de gostar das nossas diferenças que eu gostava de absolutamente tudo o que o envolvia. Em um geral, ele era muito romântico e talvez um pouco piegas demais, mas eu gostava de tudo. Eu gostava que, quando fizemos um mês de namoro — uma data que eu havia esquecido, inclusive —, ele havia aparecido na minha porta com um buquê de flores e chocolates. Eu gostava que ele fizesse planos para o futuro nos quais me incluía, apesar de eu ter dificuldade em fazer plano sequer que me incluísse, que dirá mais pessoas. Eu gostava quando ele fazia coisas bobas como beijar a minha mão como se estivéssemos em um século dezenove do multiverso ou como gostava de correr para abrir portas e portões para mim como um perfeito cavalheiro. Eu gostava, também, quando ele deixava bilhetinhos no meu estojo em momentos que eu nunca via e eu sempre sorria ao ler pequenas declarações, ou partes de poemas ou músicas, ou apenas desenhos mal feitos nos quais ele colocava muito esforço por eu gostar de arte.
Tudo o que ele fazia era perfeito, apaixonado e bonitinho.
Bom, quase tudo.
Ofeguei quando as minhas costas bateram contra o guarda-roupas, mas eu mal havia deixado escapar ar que fosse quando ele voltou a me beijar com mais afinco. Eu senti meus olhos revirarem quando sua língua deslizou pela minha com movimentos lentos demais para a maneira como eu estava sem fôlego, alguma coisa parecendo não encaixar. Meu corpo começou a esquentar, como sempre fazia, quanto mais seu corpo pressionava o meu, e a linha de raciocínio começou a se perder rapidamente.
Em momentos assim, antes que minha mente parasse completamente de funcionar, das duas, uma: ou eu entrava em pânico, muitas vozes gritando em alerta na minha mente, ou eu me sentia confiante e curioso o suficiente para querer arrancar reações dele tanto quanto ele as arrancava de mim. Quando meu cérebro começava a falhar ao esquentar, no entanto, o que acontecia era quase um mistério hormonal e instintivo para mim. Talvez por isto que eu havia segurado sua nuca para aprofundar ainda mais o beijo, meus dedos brincando com os fios crespos da sua nuca o suficiente para senti-lo estremecer contra mim.
Eu suspirei contra sua boca quando seus dedos encontraram a barra da minha camiseta e infiltraram-se em direto contato com a minha pele, subindo pelas minhas costas ao passo que eu sentia meus pelos arrepiarem. Chris aproveitou a oportunidade para descer os lábios macios para a minha mandíbula e então para o meu pescoço, passando a língua na área sensível de uma maneira que não deveria ser tão sensual. Frisei os lábios um no outro, os olhos fechados, as mãos trêmulas enquanto me segurava com uma no próprio guarda-roupa e a outra envolvia sua cintura ao puxar seu quadril mais para perto do meu.
Quando eu senti o que exatamente havia se chocado entre nós, eu ofeguei, meus olhos abrindo-se no mesmo instante em que um chiado baixo saía dos lábios dele próximo ao meu ouvido, e eu estremeci com o arrepio.
Chris havia paralisado praticamente ao mesmo tempo em que eu paralisei, a respiração ofegante contra o meu pescoço, o corpo retesado contra o meu, o coração batendo furiosamente contra as costelas — ou talvez fosse o meu que eu estivesse sentindo. Pisquei, tentando colocar a mente em funcionamento mais rápido e controlar a respiração, e acabei fechando os olhos de novo em mortificação.
Não é como se isto nunca houvesse acontecido. Quero dizer, isto nunca aconteceu antes, na verdade. Mas houveram vezes em que as coisas haviam se aprofundado um pouquinho demais, com ofegos e suspiros — e, bom, teve uma vez em que eu vergonhosamente gemi, mas em minha defesa, meu pescoço é área sensível e eu nunca mais deixei que algo assim escapasse da minha boca novamente. No entanto, esta era a primeira vez em que eu sentia, bom, outras partes do Chris pressionadas contras as minhas desta forma, e esta forma era diferente da usual.
Não havia forma menos vergonhosa de dizer que eu estava excitado — e ele também. E cacete, isso não deveria ser tão constrangedor!
Por que outro motivo nenhum de nós teve coragem de se mexer?
Chris pareceu ouvir meus pensamentos — e eles realmente pareciam altos o suficiente para a vizinhança inteira ouvir — porque ele me tirou do sofrimento ao suspirar e deixar beijinhos muito menos indecentes contra meu pescoço e meu ombro. Só percebi que estava prendendo a respiração quando a soltei em seguida e escondi os lábios ao pressioná-los juntos com força quando ele se moveu o suficiente para que não estivéssemos tão grudados mas também foi o suficiente para que fizesse sentir bem onde ainda estávamos encostados. Chris pareceu sentir o mesmo, porque paralisou outra vez, por poucos segundos, antes de desencostar totalmente o quadril do meu, o rosto ainda enfiado na curva do meu pescoço.
Ele soltou um riso nervoso quando finalmente me atentei de me mexer, movendo meus dedos, que ainda estavam cravados em sua nuca, para fazer carinho nos fios. — Desculpa — murmurou, a voz meio rouca, mas meio miúda pelo volume baixo.
A mortificação ficou ainda maior, se possível, com seu pedido de desculpas. — Você não... — comecei, a minha própria voz também alterada. — Não precisa pedir desculpas — apressei, as orelhas começando a arder tanto que eu quis coçá-las. — Você não fez nada de errado.
Chris soltou mais um riso contra o meu pescoço, soando nervoso.
— Eu vou ficar um pouco assim se você não se importar — falou, mortificado, e a sua voz fez parecer como se ele quisesse se enfiar em um buraco na terra.
Acabei rindo de nervoso também, desencostando a cabeça do guarda-roupa para me apoiar nele e enfiar o nariz em seu pescoço. — Isso... — Pigarreei, envergonhado. — Isso parece uma boa ideia.
Chris riu mais um pouco, desta vez, parecendo realmente achar graça, e seu corpo chacoalhou contra o meu onde estava encostado, seus braços em meu entorno.
Depois de alguns minutos de conversa desajeitada, ele deixou um beijo no meu ombro e se afastou de uma vez só, como se quisesse arrancar o band-aid, virando-se de costas quase ao mesmo tempo, até chegar ao limite do outro lado do quarto quando seus joelhos pareceram encontrar a cama. Firmei sobre meus pés, vendo que ele coçava os cabelos com certa vergonha antes de tomar coragem para me olhar com uma faceta constrangida.
Eu não devia estar muito diferente.
Chris pigarreou. — Mas, falando sério, eu não quis, sabe, te jogar contra a parede. — Arqueei as sobrancelhas e ele fechou os olhos, uma careta se aprofundando. — Não foi isso que eu quis dizer — apressou-se, abrindo apenas um dos olhos conforme eu me deixava rir. — Quero dizer, eu quis te jogar contra a pare... contra o guarda-roupa — corrigiu, com um riso também. — Mas eu não quis te pressionar.
Chris mal terminou de falar quando percebeu como aquilo soou novamente — e eu relembrei de quando partes do nosso corpo definitivamente foram pressionadas por querer — e uma careta retornou ao seu rosto.
Eu acabei rindo, talvez fosse de nervosismo também, mas eu tive que me segurar para não gargalhar, a vergonha se dissipando aos poucos. — Eu entendi o que você quis dizer — salvei, e ele murmurou um “obrigado” muito agradecido, a careta ainda no rosto. — E eu sei disso.
Chris relaxou um pouco, os olhos castanhos nos meus. — Sabe?
Assenti, com um sorriso mínimo, e Chris suspirou, finalmente fechando algum espaço entre nós outra vez, parando há um passo de distância.
— Quando eu namorei com o Scott — murmurou, baixinho e incerto, como sempre ficava ao falar do ex —, eu era muito novo. E não foi um namoro real, não como é o nosso. Então eu não sei bem... — hesitou, movendo as mãos como se quisesse explicar com elas — como fazer isto. O que eu quero dizer é que, sei lá, eu não acho que minha experiência conte como uma experiência de verdade quando se trata de namorar. E quando eu tô com você, eu só sigo o fluxo — explicou, e era exatamente como eu me sentia, então eu pisquei, desconcertado — e me deixo levar. Mas eu não quero você pense que eu tô te pressionando a algo mais. E eu também — apressou-se, rapidamente, quando algo passou por sua cabeça — não quero fazer nada que você não queira fazer. Então, Caleb, por favor, se eu passar dos limites em algum momento, você me diz na hora e eu paro tudo.
Pisquei, absorvendo as palavras vomitadas na minha direção com cautela, sentindo-me subitamente nervoso outra vez. Ao mesmo tempo, ali estava: o retumbar de um carinho imenso por ele, que parecia crescer cada vez mais no meu peito.
— Eu... — comecei, incerto, ao me remexer no lugar. — Eu não tenho a tendência de fazer coisas que eu não quero fazer. — Chris piscou, inclinando um pouco o rosto para o lado. — Tipo, nunca — enfatizei —, a não ser que eu não tenha escolha. E isso não é nem uma possibilidade aqui — falei, mencionando o espaço entre nós. — Então... você não precisa se preocupar com isso. Eu definitivamente te diria se eu não gosto ou não quero algo, se você passou ou não dos limites. Eu não ficaria quieto.
Chris abriu um sorriso hesitante, os olhos me analisando com alguma admiração, e eu sorri de volta. Pigarreei, observando-o também, antes de dizer: — Mas você também deveria me dizer se não gostar ou não quiser algo. Eu também vou ouvir — garanti, sob olhos atentos.
Chris assentiu, trazendo uma das minhas mãos para o seu rosto a fim de beijá-la e eu sorri para o costume cavalheiresco. Então ele desceu os olhos para o pingente em meu pescoço, puxou-o entre seus dedos ao analisar com um sorriso bobo.
— Gostou mesmo?
Sorri, pegando-o de suas mãos ao olhar uma vez mais.
— Gostei — admiti, porque havia gostado tanto do pingente piegas quanto do gesto piegas por trás, os dois me deixavam muito contente. — Gostei ainda mais porque é seu.
Chris assentiu, o sorriso aumentando, antes de me puxar para um abraço que eu devolvi prontamente. — Céus, eu te amo — murmurou, contra meu ouvido, deixando outro beijo no pescoço.
Fechei os olhos, chutando o sentimento ruim o mais longe possível, quando retribuí: — Eu também te amo.
E então, ainda nos braços do Chris, como as engrenagens do meu curso de vida funcionando para me direcionar aos meus próprios caminhos trilhados, meu telefone tocou.
Eu repassei aquele dia inteiro na minha cabeça mais tarde, perguntando-me em que momento havia dado errado, e mais vezes do que o necessário, meus pensamentos voltaram-se para este momento quando o telefone toca. Mas a única conclusão a qual eu havia chegado era que tudo acontecia do jeito que tinha que acontecer. E não havia sido alguma coisa errada naquele dia em específico, ou mesmo naquela semana, as coisas — vindas de todas as direções — se moviam constantemente para que a gente chegasse em um ponto específico necessário. E talvez isso devesse ter feito com que eu me sentisse melhor, mas só me fez sentir como se eu não tivesse nenhum controle sobre nada, nem sobre a minha própria vida.
Reconheci o nome na chamada, ignorando o pulo dentro do peito antes de reconhecer, impulsionado por algo tão fundo na minha mente que eu não queria reconhecer, e deslizei a tela para cima.
— Chora, Maze — atendi, curioso, e Chris sorriu.
Mason suspirou do outro lado da linha.
— Cara, se você não vai fazer nada no seu aniversário, pelo menos vem pra cá passar com a gente — foi logo dizendo, e eu arqueei as sobrancelhas. Conseguia ouvir o barulho de videogame atrás. — As garotas ainda não vieram e eu não aguento mais o Ian!
— Como é que é? — resmungou o Ian, do outro lado. — Você tem a cara de pau de reclamar de mim na minha própria casa?!
Soltei um riso pelo nariz, afastando-me até que eu estivesse sentado na minha cadeira, Chris seguindo meus passos até que estivesse em pé na minha frente, o rosto inclinado como se quisesse ouvir a conversa.
— Fazer o que aí? — perguntei, frustrado que eles não desistissem.
— Passar um tempo com nós? — sugeriu Mason, soando irônico e ofendido ao mesmo tempo.
Suspirei, olhando para o Chris, que tinha uma sobrancelha erguida. — Maze...
— Nem vem — cortou ele, estalando a língua. — A gente já marcou de todo mundo se encontrar aqui, pelo menos pra assistir algo juntos e jogar umas partidas de videogame. Eu tive que vir, Caleb — insistiu, soando um tanto desesperado —, foi ideia da Grace e você sabe como ela é quando teima. É só nós e, por enquanto, tá só eu e o Ian, e você não sabe como ele anda chato ultimamente. — Ian gritou novamente, e desta vez, eu ouvi o xingamento. — Sim, é muito horrível que agora ele tenha a atenção de garotas populares do colégio, que destino cruel! — debochou, e eu podia vê-lo revirar os olhos. — Olha, pelo amor de Odin, se eu tiver que ouvir mais uma vez que...
— Mason — interrompi, porque ele engatou outra vez. — É sério isso?
— Sim — respondeu, exasperado, mas de alguma maneira ele soava esquisito, e eu não sabia apontar o que era. — Não é porque você tá namorando agora que pode nos excluir o tempo todo — resmungou, por fim, como se recém tivesse a ideia de jogar isto em mim.
Deixei o queixo cair, relanceando Chris, que parecia um pouco impaciente ao brincar com um lápis na mão, os olhos em mim. — Quando é que eu ex...?
— Só vem — interrompeu antes que eu finalizasse, estalando a língua, parecendo um tanto agitado. — E traga o Número Um com você — instruiu, antes de finalizar: — A gente tá na casa do Ian.
— Mas...
Mason desligou antes mesmo que eu finalizasse o que ia dizer e eu tirei o celular do ouvido, encarando a tela com incredulidade para me certificar que ele havia mesmo desligado na minha cara.
Franzi o cenho, pensando sobre o que fazer enquanto Chris me perguntava o que havia acontecido, calculando na minha mente se valeria a pena sacrificar meu aniversário despreocupado para ir na casa do Ian ou se valeria mais a pena arriscar que todos ficassem chateados que eu preferisse passar a data apenas com minha família e meu namorado.
Estalei a língua, contando ao Chris sobre a “noite de videogame”, como se não fizéssemos isto sempre. Chris apenas riu e acabou dizendo que achava uma ótima ideia e que deveríamos ir, e eu franzi o cenho em uma carranca. Acabei aceitando, então, com um pé atrás, mandando mensagem para a minha mãe ao informá-la que nossos planos de noite da pizza não iriam rolar hoje, esperando que ela reclamasse o suficiente para que eu tivesse que ficar, mas ela aceitou de primeira também.
Eu deveria ter desconfiado.
Depois que eu vesti uma roupa simples para sair, Chris estendeu a mão para mim e eu pensei que talvez não fosse tão ruim assim. Ele emanava uma boa energia o tempo inteiro e ela tinha o costume de matar as minhas energias ruins na maior parte do tempo, como um antibiótico que amenizava carrancas em meu rosto.
Isto me deixou pensativo, quando entramos no táxi, e ele não soltou a minha mão em momento algum.
Se eu fosse completamente honesto comigo mesmo, eu saberia que meu namoro com o Chris foi apressado para tapar um buraco no meu peito, porque ele era tão bom nisto. Não é que eu não quisesse namorar com o Chris, é que eu queria muito namorar com o Chris, mesmo antes de saber se eu estava apaixonado por ele ou não, e isto não era um sinal bom. Também não significava que eu não gostasse dele, eu o amava, e eu havia começado a gostar tanto dele que isto me confundia. Mas eu sei que, no fundo, as minhas motivações por ter me enroscado em Chris como um polvo eram movidas por egoísmo e falta de consideração para com ele. No fundo, eu me perguntava se eu não estava usando-o da pior maneira que alguém pode ser usado.
Afinal, Chris não merecia nada disto, ele merecia o melhor.
Mas era tão fácil!
Quando assistimos namoros de fachada em filmes, parecem ser tão doloridos, como se a personagem quisesse estar em qualquer lugar do mundo que não fosse nos braços daquela pessoa. Dá para ver o esforço da personagem em estar ali, fingindo e enganando, sentindo-se terrível o tempo inteiro, enjoada pelos mimos e abraços e beijos de quem não ama. E isto não era nada como eu me sentia.
O que eu tinha com o Chris não era um namoro de fachada: era real. E ainda que eu houvesse começado a ficar com ele em dezembro por um misto de curiosidade, afeição e desespero para fugir do que doía, desde lá as coisas começaram a transmutar para algo mais, algo além do que eu imaginava ou esperava com isto. E quando eu o pedi em namoro, por mais precipitado que houvesse sido, por mais impulsivo e desesperado da minha parte para sentir como era estar em uma relação saudável e para não deixar que alguém como Chris escapasse entre meus dedos, não havia sido forçado.
Chris tornava tudo tão fácil.
Eu queria tanto escapar do limbo no qual fiquei depois da partida dele que sequer me importei com a sensação de culpa que latejava no fundo, bem no fundo, pelo que eu estava fazendo com o Chris. Eu não me sentia enojado comigo ou com ele: seus mimos eram refrescantes, seus abraços eram confortáveis e seus beijos eram doces. Eu o fazia sorrir muito, e eu amava vê-lo com os olhos pequenos e a boca esticada, os dentinhos da frente separados, porque seus sorrisos eram a coisa mais adorável do mundo.
Eu gostava da ideia de ter alguém me mandando mensagem de boa noite, dando-me a sua mão para andar na rua, encostando a cabeça na minha enquanto ouvimos nossos amigos, agradando a minha mãe com elogios tímidos. Mesmo quando estávamos sozinhos, eu apreciava cada momento com ele, cada coisa nova que envolvia namoros das quais eu não tinha ideia que existia e que ele me ensinava. E eu gostava de gostar disso.
A culpa tornava-se tão pequena que sequer me atingia.
E quanto mais eu ficava confortável nos seus braços, mais eu me perguntava se não estava me apaixonando de verdade por ele.
*
Se era óbvio para qualquer pessoa que uma festa surpresa me esperava, não era para mim.
Primeiro, porque meus amigos resultaram ser bons atores — o que era de se esperar do Chris, por exemplo, mas não do Mason — ou eu apenas era burro demais. Segundo, porque isto nunca me passaria pela cabeça, já que meus amigos sabem desde sempre que eu não dou a mínima para aniversários e que eu, em especial, não gosto de surpresas de nenhum tipo. Terceiro, porque eu nunca tinha namorado antes, ainda mais alguém como o Chris, então nunca me encontrei na situação em que um namorado — que não me conhece há tanto tempo quanto meus amigos — organizaria uma festa surpresa para mim e movimentaria meus amigos sedentos por algazarra para participar de algo assim.
Por um lado, foi bom que eles não fizeram aquela coisa de ficarem todos em silêncio no escuro, para então pularem na minha cara com balões. Quando eu cheguei, a casa estava barulhenta e eu até estranhei, perguntando-me se, do nada, a ideia de noite do videogame havia virado uma festa bombada — o que, conhecendo os meus amigos, não era nada impressionante. Mas eu não tive tempo de raciocinar antes que Chris me puxasse até a porta de entrada e abrisse, os que estavam por perto gritando o meu nome ao dar parabéns — Grace tinha um chapéu de festa na cabeça e um apito infantil na boca, que não se acanhou em usar.
Quando eu entendi, eu fiquei realmente surpreso — acho que isto deve ser algo novo no mundo das festas surpresas, porque geralmente as pessoas não se surpreendem, apesar do nome. Em segundo plano, estreitando os olhos ao receber abraços e explicações de que eles planejaram isto por uma semana às escondidas — o que explicava os cochichos e evasões —, eu fiquei um pouco incomodado.
Eu não queria uma festa de aniversário e comemorações, apesar de que, depois que eu processei o que estava sentindo, decidi que uma festa enquanto estou presente de alma e coração era melhor do que uma reunião pequena na qual estive ausente noventa e nove por cento do tempo, como aconteceu no ano passado. Decidi, então, que eu já havia feito mudanças o suficiente na minha vida para que eu aceitasse essa pequena coisinha não indo de acordo com os meus planos.
Sem falar que eu descobri, então, que foi tudo ideia do Chris, então a festa teve outro significado diferente. Ele não sabia que eu não gostava de surpresas, supus que ninguém teve coragem de contar, e aquilo havia sido um gesto para não deixar a data passar em branco, como ele havia dito a respeito do pingente. Foi um gesto, e foda-se, porque foi um gesto bonitinho, ele havia feito aquilo por mim.
Ele recebeu um beijo público por isto, a propósito, que fez todos à volta gritarem.
Quanto mais eu entrava na casa, mais eu percebia que aquilo não era uma festa, era A festa. Eu notei isto quando comecei a enxergar pessoas que eu não conhecia mais próximo da sala e do pátio dos fundos, arqueando uma sobrancelha para isto quando reconheci alguns rostos conhecidos do colégio. E então eu percebi que não havia apenas nossa panelinha de agora, mas MJ, Korn e Bex também estavam ali, apesar do Mason haver inventado que eles não viriam.
— Ok, eu sei que a ideia foi minha — disse Chris, ao meu lado, um pouco mais alto por conta da música —, mas quero que não restem dúvidas de que a minha ideia não envolvia desconhecidos.
Acabei soltando um som pelo nariz. — Que bom — falei, sincero, e ele riu, me abraçando. — Não achei que fosse mesmo. Isto — falei, torcendo o nariz para um casal aleatório se beijando contra uma parede — é mais a cara dos nossos amigos desmiolados.
Chris riu, assentindo, antes de me olhar com uma expressão culpada: — Desculpa por estragar a noite da pizza — pediu, os olhinhos amendoados em mim.
Acabei sorrindo e estalei a língua. — Vou pensar no seu caso.
Chris relaxou ao meu lado, o sorriso abrindo-se mais, quando apoiou o lado da cabeça na minha, antes de chegarmos ao lado de fora. — Pensa com carinho.
— Caleb! Uma ceva! — ofereceu Korn, muito alegre, erguendo o litrão de cerveja na mão. Eu acabei rindo e sentei ao lado dele, aceitando-a antes de levar à boca.
Por que diabos não?, pensei, a festa é minha.
Assim que eu me sentei e me permiti analisar a situação toda, o ambiente e as pessoas, eu comecei a relaxar ao aceitar meu destino.
E foi aí que as coisas começaram a desandar rapidamente.
Tudo começou com algum bêbado que escorregou no piso e caiu na piscina, despertando uma memória profunda que fez meu peito se apertar e minha garganta arder em recordação. Eu me perdi na primeira conversa da noite, esforçando-me para voltar a prestar atenção na história que Dan contava, alheios ao que aconteceu porque, bom, o garoto sabia nadar, mesmo bêbado. Eu o observei quando dois amigos o puxaram para cima bem na área onde eu havia caído, e eu tive flashes de um balde d’água, uma lixeira com fogo e vozes que gritavam sentimentos doloridos em uma briga.
Desviei o olhar rapidamente, mas naquele momento, a noite azedou.
Mais tarde, o retumbar da música começou a me dar dor de cabeça e eu comecei a escapar para o banheiro algumas vezes apenas porque lá o som era abafado. Um pensamento ocorreu a mim: eu sou oficialmente um velho idoso de dezessete anos. E então comecei realmente a beber, porque decidi que eu tinha um passe para ficar bêbado, afinal, eu era o aniversariante e até mesmo meus pais sabiam de uma festa surpresa organizada para mim — bom, minha mãe e Theodore. Às vezes, “meus pais” apenas escapava da minha mente, por entre meus dedos metáforicos mentais e eu sequer percebia, quando me referia a eles.
Mas eu definitivamente não deveria filosofar sobre isto quando começava a ficar no brilho, não mesmo.
As coisas pareceram melhorar um pouquinho quando, em um canto do pátio, Chris me puxou para um beijo molhado e apaixonado e tudo pareceu flutuar. Eu ainda não estava bêbado, mas o álcool estava fazendo o suficiente para que minha pele formigasse e eu me impedisse de pedir ao Chris para que abandonássemos a festa que ele planejou para ficarmos sozinhos. Mas a ideia havia me cruzado à cabeça tentadoramente: entrar na casa, puxar Chris comigo e me enfiar no quarto do Ian com ele, abandonando os demais para continuarmos nossa sessão de amasso de hoje mais cedo.
Enquanto eu listava mentalmente os motivos de não ceder à esta vontade, um deles sendo que eu estou quase bêbado e não deveria tomar decisões precipitadas, começou uma briga entre a Grace e o Ian, literalmente, quando a língua do Chris estava na minha boca.
A gente se afastou na mesma hora, aproximando-nos mais dos nossos amigos quando Ian estava em uma posição encolhida de quem havia feito merda e estava prestes a apanhar e Grace, bom, Grace estava em uma posição altiva de quem havia sido irritada e estava prestes a bater. Isto não aconteceu, no entanto, e a briga foi grunhida o suficiente para que não desse para ouvir o que eles estavam falando depois dos gritos agudos de “vai se foder, Ian”. Nós nos entreolhamos e então Dan levantou de onde estava no meio de uma conversa com Korn para seguir Grace para dentro da casa.
Ninguém quis falar sobre isto na saída deles, retomando a conversa na qual estavam antes.
— Benzinho — chamou Chris, ao meu lado —, você lembra quando é que dizia que a banda sueca ia se apresentar no Zeppelin?
Pisquei, confuso, por haver divagado da conversa outra vez, olhando dele para a ruiva. — Hã, acho que era no final do mês, dia trinta, não?
— Isso! — exclamou, animado, e deixou um beijo estalado no meu rosto antes de voltar ao que contava para a sua chará.
Alguns minutos depois, talvez já houvesse passado da meia-noite, mas eu não tinha certeza, porque a festa começou realmente cedo, o telefone começou a tocar bem no meio de uma troca de música. Era o telefone da casa, grudado na parede como aqueles antigos, e o Ian correu para atender, ainda parecendo desnorteado com a briga. Ele apertou o telefone contra o ouvido, parecendo tentar ouvir, e os olhos avermelhados pela bebida piscaram em confusão por algum tempo enquanto ele falava rapidamente com alguém.
Na hora, eu pensei que puta merda, seus pais deviam estar voltando.
E quando novamente meus pensamentos recaíram sobre “que horas são”, eu lembrei dele. Eu havia me saído tão bem o dia inteiro, empurrando e chutando o pensamento para tão longe, e agora retornava com tudo, então quando minhas mãos começaram a coçar para que eu pegasse meu celular e checasse se haviam mensagens novas, eu realmente fiz.
Apenas para não encontrar nada no meu bolso.
Franzi o cenho, olhando ao redor, ao passo que Chris murmurava ao lado: — O que houve?
— Meu celular — expliquei, apenas, levantando e vendo se não havia sentado em cima, olhando para as outras cadeiras, talvez um pouco nervoso demais.
Talvez fosse o álcool que estava tirando a trava dos meus pensamentos intencionalmente travados, mas a mente estava fluindo para lugares onde eu não queria estar. Então quando pensei que havia perdido o celular, o desespero inicial não foi sobre perder o celular — perder meus dados, minhas fotos e o próprio aparelho, que custa caro —, foi sobre uma ideia de trama ridícula de filme dramático onde eu perdia o celular justo quando haveria uma mensagem importante nele que eu jamais teria a chance de ler.
Intrigado, praticamente girei no próprio eixo, tentando ficar calmo.
— Quer que eu te ajude a procurar? — perguntou Chris, segurando a minha mão para chamar atenção.
— Não — murmurei, distraído, antes de olhar para dentro —, acho que eu deixei no balcão lá na frente.
Quando eu entrei na casa, afinal, eu fui recebido por abraços e parabéns, e tenho certeza que eu estava com o celular na mão, então devo ter deixado na bancadinha onde ficavam as chaves. E foi para lá que eu me dirigi, rapidamente, passando pelo telefone que havia tocado próximo da cozinha, sem sinal do Ian por perto, e esbarrei em algumas pessoas — o casal agarrado havia voltado a se agarrar lá, a propósito.
Adentrei no corredor que dava para a porta principal e tudo parou.
Eu diria que é até irônico relembrar de como me senti naquele dia inteiro. Na verdade, de forma mais profunda, de como tenho me sentido todos os dias desde o início do ano, desde que comecei a transformar minha vida, desde que iniciei meu relacionamento com Chris. Porque tudo, absolutamente tudo o que experimentei ou acreditei sentir, dissipou-se no instante em que escutei o riso.
Eu fiquei paralisado.
Era aquele riso divertido, insolente, cara de pau e absurdamente lindo.
A sua voz era linda.
Talvez eu pudesse culpabilizar o álcool, dizer que havia envenenado o meu sangue o suficiente para que fosse normal sentir que o tempo havia parado para logo em seguida correr em câmera lenta. Talvez eu pudesse dizer que a bebida havia fritado minhas funções neurológicas, por isto que eu me movia mesmo sem querer, como se meus pés tivessem vida própria e tudo o que eles quisessem era me levar em direção à voz que me atormentava até em sonhos. Talvez eu pudesse dizer que eu estava alucinando como em um surto psicótico, não apenas fabricando um fantasma do passado como também a minha reação de ir até ele como se eu não pudesse fazer qualquer coisa que não segui-lo até o além.
Meus pés só pararam, estancando no chão, quando eu o vi.
Lá estava ele, exatamente do jeito que eu me lembrava, e a realidade me arrebatou de tal maneira que eu senti as mesmas pernas que me levaram até lá oscilarem, como se gaguejassem ao vê-lo. Salvo uma mudança ou outra, os cabelos na régua em um estilo moderno, o indício de barba pelo rosto e a pele mais bronzeada, era inconfudivelmente ele. E, ao contrário do que minha mente eventualmente me forçava a pensar, ele estava vivíssimo.
Os olhos negros pousaram mim, tamanho poder que me frouxaram as pernas, e eu não pude fazer nada além de sustentar o olhar. Tamanho poder, do maldito, que minha pele arrepiou até que eu sentisse eriçados os pelos da nuca, que minha respiração entrecortou em desespero afobado, que meu coração disparou contra as costelas com tanta força que parecia querer se entregar ao dele.
Esqueça o drama do celular perdido e as mensagens nunca recebidas — ele havia aparecido no meu aniversário, vindo de longe, depois de um ano e meio privado de sua presença, de seu cheiro, de sua voz. Esqueça os gestos piegas, mas bonitinhos, do meu namorado — eu estava fodidamente fodido apenas com a porra de um olhar.
Eu me odiaria pelo pensamento intrusivo um minuto depois, assim que eu começasse a racionalizar a merda que estava acontecendo ao invés de simplesmente sentir, mas naquele instante, o olhar escuro que arrebatava a minha alma era o único que importava.
Pode-se afirmar, ao menos, que eu fui a única pessoa na história das festas surpresas que foi surpreendido em seu aniversário.
Duas vezes seguidas.
— Alex?
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