Made of Stone

71 LVI. O melhor de mim - Pt. V


Notas iniciais
Panditores, oilá :3 Talvez vocês já tenham percebido que, como um computador velho que destravou, vieram vários capítulos de uma vez só. Se não perceberam, bom, vocês terão algumas horas de leitura em frente. O negócio é que, bom, eu decidi compensar o tempo de espera e cheguei à conclusão que nada seria mais aceitável do que, ao menos, um capítulo por mês que atrasei. Então é isto. Talvez seja muito, talvez seja demais pra vocês, talvez fique pesado, mas vocês não precisam ler tudo de uma vez. Eu VOU terminar esta história, não importa quão longa fique, nem que seja a última coisa que eu faça - vish, será que agourei falando isto? Obs.: eu sei que alguns de vocês tão cansadinhos dos capítulos do Alex mas eu PROMETO pra vocês que as coisas vão ANDAR, meus queridos, nessa leva de capítulos aí. Se preparem, porque olha, uma montanha-russa de emoções - e nem todas boas não, mas pelo menos, não serão monótonas...? Eu acho. Bom, boa sorte kkkkkk. Beijos. Boa leitura! <3

A liberdade que você busca nunca é a que você encontra.

Mas ela é sempre, sempre, sempre tão libertadora.

Fechei os olhos, o vento frio abraçando meu corpo tão amplamente que, ao invés de fazer-me tremer devido à temperatura, fez cessar o tremor. Haviam muitas árvores por aqui e o vento fazia dançar os galhos e as folhas, o som quase terapêutico, e era loucura que mesmo aqui eu ainda sentisse o gosto de maresia. Além disto, não havia muito som — se eu me esforçasse o suficiente, podia ouvir os carros na rua e, mais abafado ainda, o som das ondas e os apitos dos barcos mais ao longe.

Eu tive a sensação de que, de olhos fechados, não parecia um lugar tão ruim de se estar.

Então, eu os abri, fixando o olhar na lápide de pedra.


AGATHA AUDREY CUNNINGHAM YOUNG

11/04/2004 — 08/10/2010

Amada filha e irmã — pequeno anjo que emana luz pela eternidade.


Eu devia estar satisfeito comigo mesmo, orgulhoso até, e mesmo um pouco aliviado — eu havia feito as pernas que tremiam mais do que vara verde forçarem o caminho trôpego da entrada do Mallow Coast’s Memorial Cemetery até a lápide da minha irmã. E eu havia feito depois de poucas tentativas que duraram uma semana apenas, e eu o fiz sem cair ou vomitar ou desmaiar.

Era a primeira vez que eu via a lápide dela e talvez eu devesse ficar surpreso por sequer haver pensado no que estaria escrito aqui — talvez eu devesse ficar ainda mais surpreso que eu achei apropriado o epitáfio dedicado a ela, considerando quem era responsável por ele.

Eu não senti surpresa porque não senti nada.

Tudo o que eu conseguia sentir era dormência.

Talvez isto fosse bom, pensei, ou talvez isto significasse que eu desabaria assim que saísse daqui, que eu estava apenas em choque e que a reação viria depois com toda a força com o impacto da dor. Ainda assim, eu esperei por ele — o impacto, digo —, sentado com as pernas cruzadas na grama, em frente à lápide, remexendo-me no lugar.

Eu havia trazido o violão, a garrafa, tinta gouache e flores.

Era ridículo, zombei, trazer coisas como se ela estivesse realmente aqui. E ainda que estivesse, não é como se ela fosse apreciar os presentes depois que levei dez anos para aparecer. Se Agatha estava aqui, ela não estaria exatamente feliz comigo.

O pensamento me trouxe de volta à realidade, ponderando há quanto tempo eu estava parado aqui, esperando pelo sentimento que me faria desmoronar feito um castelo de areia. Na verdade, o que eu devia estar fazendo é pensando no que falar, afinal, eu vim aqui para isto — e eu devia isto a ela. Eu devia muito mais, inclusive, isto era o mínimo. Uma explicação, um porquê, um pedido de desculpas, uma declaração de amor, uma permissão para que ela me odiasse o quanto quisesse.

Retorci as mãos, uma na outra, mas não conseguia pensar em nada que fosse bom o suficiente para falar. Em meio à ansiedade, eu puxei a mochila das costas para posicioná-la entre minhas pernas. Tirei dali de dentro a garrafa envelhecida e a caixinha de tinta gouache de uma marca antiga que encontrei em uma loja, encarando-os por tempo suficiente para relutar. Ainda assim, eu me inclinei para deixar a caixinha encostada na lápide fria, em cima da grama — no topo da lápide já jaziam as flores coloridas que eu larguei antes de sentar.

Quanto à garrafa, bom, eu a girei em mãos, observando o papel enrolado dentro dela oscilar com o movimento. Eu já havia decidido que eu não iria abri-la e nem lê-lo, mas também havia decidido que eu deveria enterrá-lo com ela de qualquer maneira — eu devia isto tanto ao menino que eu fui quanto a ela.

Então, com isto em mente, eu me ajoelhei e cavei um buraco raso ao lado da lápide com minhas próprias mãos — arranquei a grama primeiro e então cavei a terra úmida até que sentisse o granulado debaixo das unhas e imaginasse que estava fundo o suficiente para caber a garrafa. Eu a posicionei bem no centro, tomando um instante para observá-la ali com o senso de dever cumprido antes de cobri-la com a terra e com o pedaço de grama arrancado novamente. Agradeci, mentalmente, que não houvessem pessoas suficientes no cemitério para que eu as alarmasse cavando um buraco tão próximo a uma lápide.

O pensamento me fez rir.

Depois do primeiro bufo risonho, eu me peguei gargalhando tanto que lágrimas escaparam dos meus olhos e eu tive que limpar com as costas da mão. Isto era patético e extremamente desrespeitoso, recaiu sobre mim, mas isto me fez rir ainda mais, tanto que eu joguei minha cabeça para trás e então me inclinei para frente porque minha barriga doía.

Que porra eu estou fazendo?

O riso parou tão subitamente quanto começou e eu me senti patético — os olhos começando a arder por um motivo diferente da risada histérica.

— Isto é ridículo — verbalizei, baixinho, trincando a mandíbula.

Balancei a cabeça de um lado ao outro, sorrindo com amargura, os olhos marejados ao encarar a lápide turva — aquele pedaço de pedra frio, inerte e silencioso. Era apenas a ponta do iceberg, a porta de entrada de sua nova casa — acolhedora, não?, pensei, sentindo a boca azedar —, onde debaixo da terra estava apenas o que restou dela.

Além de mim.

Eu também fazia parte do que havia restado dela, não? Eu a carregava comigo, no coração, para lá e para cá, como se fôssemos um só. Talvez eu fosse o pedaço mais patético que havia sobrado da minha irmã — o lugar mais imprevisível onde sua luz poderia ecoar.

Mordi o lábio com força, fechando os olhos.

— Desculpa — sussurrei, para o vazio, e alguma parte pateticamente ingênua dentro de mim esperou uma resposta. — Eu fui covarde — declarei, o óbvio, sabendo que eu devia começar por aí. — Eu sei que você esteve esperando por mim, mas eu fui covarde demais para aparecer. Talvez eu ainda seja — talvez aparecer tão atrasado assim seja uma covardia maior do que não ter aparecido nunca. E são dez anos atrasado, isto não é pouca coisa. Eu tive medo, anjinha...

Minha voz tremeu e eu tive que parar, inspirando fundo e expirando em um bufo trêmulo. Abri os olhos, balançando a cabeça de um lado ao outro, tentando me controlar e continuar o que comecei.

Caralho, isto é difícil demais.

Inspirei e expirei mais algumas vezes.

— Eu tive medo do que eu sentiria ao ver você assim, só uma ideia de você descrita em um pedaço de pedra fria. E eu tive vergonha de encarar você depois de tudo o que aconteceu, sabe? É ridículo — eu sou ridículo. Eu quis morrer com você e, ironicamente, eu tive medo que a dor que eu sentisse quando viesse aqui fosse me matar.

Ri, seco, sem achar a menor graça.

Fiquei um tempo em silêncio, alternando o olhar entre minhas mãos retorcendo-se em ansiedade e a lápide que não respondia.

— Acho que dez anos pensando sobre o que eu diria não é o suficiente, talvez eu deva esperar mais dez pra dizer as coisas certas — zombei, mas minha tentativa de riso foi patética.

Inspirei e expirei outra vez, soltando o ar trêmulo e gelado.

— Eu sinto sua falta — sussurrei, sentindo os olhos arderem. — O espaço vazio que você deixou é frio e fundo e dolorido. E o vazio da sua perda, irmãzinha, é tão grande e tão profundo que, por anos, eu me fiz enxergá-la arrancando o coração do meu peito em pesadelos obscuros, porque... — Respirei fundo outra vez. — Vê-la desta maneira tão horrível ainda era melhor do que não vê-la de forma alguma. É este o tipo de vazio que você deixou. Mas não é sua culpa — apressei-me em garantir, erguendo uma mão na defensiva —, não se preocupe. Algo assim não é do seu feitio. É só um produto da morte, do luto e da dor. Você representa o contrário disto e é por isto que a ferida é tão funda, Agatha, porque você era luz — murmurei, meus olhos se demorando na palavra do epitáfio — e a sua morte é a ausência de luz. Faz sentido?

Eu hesitei, baixando o olhar novamente, puxando um pedaço de grama com os dedos trêmulos.

Soltei um riso novamente, fraco, pelo nariz. — Eu não sei por que ainda estou esperando respostas — murmurei, estalando a língua. — Acho que meu cérebro não consegue compreender o que é conversar com você sem que você converse de volta. Me dê um desconto, é a primeira vez que isto acontece — pedi, sorrindo tristemente. Suspirei, o silêncio como resposta parecendo gritar novamente a ponto de fazer meu queixo tremer. Engoli em seco. — Eu sinto sua falta todo dia, em todos os momentos, em todas as etapas da minha vida. Este é um dos motivos que me trouxeram aqui; um dos motivos pelos quais sempre seria inevitável que eu acabasse aparecendo, sabe?

Engoli em seco, sentindo um tremor percorrer meu corpo outra vez com a lufada de vento que balançou meus cabelos.

— O outro motivo é óbvio, você deve saber disto melhor do que ninguém: eu vim pedir desculpas. Implorar por perdão, na verdade — corrigi, com um sorriso fraco, antes de limpar o rosto. Funguei, sem coragem de encarar a lápide, da mesma forma que eu evitaria os grandes olhos azuis dela. — Eu ainda acho que não mereço o perdão e eu sei, Agatha, eu tô trabalhando nisto, mas ao mesmo tempo, eu preciso que você me perdoe. É egoísta, eu sei, eu sou egoísta.

Mordi o lábio com tanta força que senti o gosto de sangue e, em seguida, limpei o rosto dos dois lados, fungando.

— Eu acho que, no fundo, você me perdoaria mesmo que eu não merecesse — murmurei, com uma tentativa de sorriso ao relancear a lápide e logo desviar outra vez. — Mas eu queria pedir desculpas pessoalmente, pra que você saiba o quanto eu me arrependo. Eu preciso que você saiba que a maneira como eu te tratei naquele dia é o maior arrependimento de toda a minha vida. E, principalmente, que...

Bufei, trêmulo, quando a voz não quis sair.

Tive que contar algumas vezes até dez para manejo da ansiedade, inspirando e expirando fundo algumas vezes. Levou algumas tentativas falhas de tentar voltar a falar mas eu acabei conseguindo.

— ... que não ter retribuído o seu último “eu te amo” me assombra de maneiras que fariam filmes de terror parecerem comédias. Você merecia um irmão melhor, mas tudo o que recebeu foi eu, e eu sinto muito. Eu também queria pedir perdão por isto, sabe, por ser tão egoísta que eu sequer me arrependo de ter tido você como minha irmã, porque foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Você salvou a minha vida — sussurrei, limpando o rosto mais uma vez. — Você se foi há tanto tempo, maninha, mas você ainda salva a minha vida diariamente. Você emana sua luz por todas as partes da minha vida. Se existe algo de bom em mim, tenha certeza, Agatha, que é produto seu. Eu não posso te agradecer o suficiente, anjinha, eu não posso...

Eu não consegui continuar por um tempo, chorando não tão baixinho quanto gostaria, permitindo-me me perder um pouquinho na dor. Cansei de tentar limpar o rosto, as lágrimas escorrendo livremente agora, a sensação de dormência não se aplicava ao meu coração, apenas para o meu corpo.

Demorei um pouco para conseguir me acalmar.

— Por fim, eu acho que eu devia pedir desculpas por sentir tanto a sua falta, também, por não deixá-la descansar em paz — murmurei, a voz tremendo no final, e eu funguei. — Desculpa se eu prendi seu espírito por aqui com o meu sofrimento, eu juro que não foi a minha intenção, e se...

Um soluço escapou e eu precisei de mais alguns instantes.

— Se a mamãe tem razão e existe um deus...

Esfreguei o rosto algumas vezes, tentando respirar direito, mas outros soluços seguiram e eu demorei mais um pouco. Inspirei e expirei com tanta força que saiu como um bufo. Funguei, esfregando o rosto uma vez mais.

— Agatha, se existe um deus e um paraíso, por favor, não fica pra trás por minha causa — pedi, fechando os olhos e expulsando o ar tremidamente. — Vá com ele — sussurrei, abrindo-os. — Segue a luz e descansa, maninha, não fique presa aqui. Nós ficaremos bem... Não se preocupe, não se detenha, não se perca. Você pode ir. O mano tá dizendo que você pode ir, tá bom? — falei, encarando seu nome encrustrado na pedra. — Estou deixando você ir.

Forcei um sorriso carinhoso e levantei a mão como se eu pudesse...

Eu a deixei cair um instante depois, da mesma forma como desistia de receber uma resposta, eu não esperei poder encostar em seu rostinho de verdade.

— Eu vou visitar algumas vezes agora, mas vai ser só para conversar — garanti, implorando que ela entendesse. — Você só precisa ouvir, onde quer que esteja, se puder ouvir — acrescentei, mais fraco. — Eu vou cuidar de mim e você cuida de você, tá bom? Não se preocupa com estes problemas de adulto, deixa comigo, com a mamãe e com o papai. Nós ficaremos bem. Você se preocupe apenas com você, tá bom?

Dei duas batidinhas no chão em minha frente, instintivamente, como se chamasse sua atenção para um tópico importante. Quando dei-me por conta, outra vez, eu recolhi a mão pra o meu colo.

— Você se preocupe em fazer arte aí onde está, tá bom? — continuei, sorrindo fracamente. — Eu sei que está fazendo arte por aí, sempre soube que seria uma pequena grande artista. Eu também tô fazendo arte por aqui, sabia? — perguntei, inclinando um pouco o rosto para o lado. — Você tem acompanhado? Eu fiz algumas, sabe, pra você. Quer ouvir?

Eu limpei o rosto mais uma vez antes de pegar o violão ao lado, tirando-o da case e acomodando-o no meu colo. Funguei mais algumas vezes, para não deixar o nariz entupido atrapalhar a melodia que eu cantarolei.

As músicas dedicadas a Agatha também não tinham letra, era difícil demais pôr em palavras o que eu sentia, o mesmo que havia acontecido com a minha música com o Caleb. Era dificultoso o suficiente compôr as notas, por si só, então eu deixava as letras como função do meu eu do futuro. Eu não podia dizer que não estava satisfeito com a composição, no entanto, porque acabava saindo exatamente do jeito que eu planejava.

Dedilhei o violão por todas as músicas, inclusive as inacabadas, que foram compostas pensando nela. Cantarolei as notas de algumas delas, sem as letras, apenas vocalizando as melodias que um dia se transformariam em palavras.

Não sei quanto tempo fiquei ali.

Em algum momento, eu relaxei o suficiente para poder desfrutar da companhia dela — ou o que eu imaginava que seria a companhia dela. Eu podia imaginá-la sentada em minha frente, as pernas cruzadas, as mãos entrelaçadas entre as pernas, o corpo movendo-se junto da música, um sorriso no rosto. Seus olhos azuis estariam estreitos com a luz do sol, seu rosto amarelado por ela e os cabelos louros tão finos estariam movimentando-se com o vento.

Eu quase podia ouvir seu riso.

Por incrível que pareça, ao enfrentar meu pior pesadelo, no final do caminho tudo o que eu sentia era paz.

*

Morgan ficou orgulhosa de mim.

Porra, eu fiquei orgulhoso de mim!

Era uma sensação tão estranha, tão anormal, tão desconhecida, sentir que eu havia conquistado alguma coisa na minha vida miserável. Pela primeira vez, no entanto, eu senti que realmente havia conquistado algo, a ponto disto trazer um sorriso alegre para o meu rosto. Que coisa mais esquisita, eu pensei, depois de uma semana conseguindo sorrir por minha causa. Eu nunca sorria por minha causa — era sempre por interferência externa. Os únicos aspectos aos quais eu me permitia ser presunçoso eram naqueles que eu não podia controlar: já me gabei muito da minha beleza, da minha lábia e, bom, da minha performance sexual. Eram coisas que estavam enroscadas em contextos horríveis da minha vida, então não eram realmente conquistas, e não eram coisas das quais eu realmente podia me orgulhar.

Mas disto, eu podia.

Eu me senti horrível, péssimo, no fundo do poço, quando eu visitei a Agatha, como se minhas tripas estivessem esroscadas no meu pescoço — mas ainda assim a sensação de renovação foi coisa de outro mundo. Eu nunca pensei que eu poderia me sentir tão bem com algo que me fizesse sentir tão mal.

E eu sei que eu já havia melhorado em vários aspectos da minha vida — as parassonias, a insônia, até mesmo os ataques de ansiedade, tudo havia amenizado com o tempo, com a terapia e com a medicação. Eu tinha noção disto, é claro que eu tinha, mas as diferenças que vieram não foram bruscas e gritantes, eram suaves — honestamente, se não fosse Morgan relembrando onde eu comecei e onde eu estava agora, talvez eu nem houvesse parado para pensar o quanto as coisas mudaram. Todos os sintomas do meu transtorno estavam bem controlados e já não me atormentavam da maneira como acontecia antes, e isto era impressionante demais se eu parasse para pensar. E tudo isto só aconteceu depois de muito enfrentamento na terapia, passando por muito perrengue que dilacerava meu coração, então é claro que eu sabia, na teoria, o quão alto eu podia subir no poço quando enfrentasse o quão fundo eu estava.

Só que, com a Agatha, era como se eu aprendesse isto na prática, porque foi brusco e gritante, quase um alívio instantâneo, como colocar um ombro deslocado de volta para o lugar. É ridículo e maravilhoso e lindo para cacete!

E talvez fosse por esta mudança drástica que eu finalmente podia sentir que eu havia conquistado algo por conta própria. Morgan disse que eu já havia conquistado muita coisa, que eu deveria parar de usar a metáfora do poço porque eu já não estava em um, mas eu sentia isto pela primeira vez.

E que alegria esquisita do caralho!

A ideia de que eu pudesse me fazer feliz era quase ridícula — meu eu do passado teria gargalhado amargamente na minha cara. A ideia de que eu pudesse fazer algo digno de orgulho era ainda pior, que minha mãe tenha retornado para a minha vida não havia simplesmente apagado todas as minhas dores familiares. Eu nunca havia feito nada para orgulhar meu pai, minha mãe ou qualquer pessoa da família. Nem mesmo que eu estivesse conseguindo construir uma carreira do zero, que estivesse me libertando de amarras apertadas feito um ninja, que eu não precisasse de nenhum tipo de ajuda financeira dos meus pais, seria motivo de orgulho para eles. Bom, minha mãe certamente dizia estar orgulhosa agora, mas nós ainda tínhamos muito caminho para trilhar, eu e ela, porque eu ainda não conseguia acreditar totalmente. Então era ridículo — e talvez eu estivesse usando muito esta palavra, mas era por conta do quão absurdamente as coisas pareciam estar se desenrolando para mim — pensar que eu, Alex Cunningham, estaria fazendo algo digno de orgulho. Era absurdo que a criança amaldiçoada da família, o demônio reencarnado que estava fadado a sofrer a vida inteira colhendo os frutos de seu mal, estivesse acordando com um sorriso todas as manhãs. Um sorriso satisfeito, ainda por cima, que coisa mais ridícula.

E que esplêndido!

Será que era assim que pessoas felizes se sentiam sempre?

Eu não ousava acreditar.

É óbvio que eu também não deveria ter comemorado por muito tempo, porque quando eu acordei suado depois de um pesadelo horrível, com algo que nada se assemelhava a um sorriso satisfeito no rosto, eu tive uma crise existencial. Discuti isto na próxima sessão com a Morgan, é claro, sobre como eu fiquei tão fodidamente frustrado que eu houvesse chegado a pensar que eu poderia ser normal e autossuficiente e feliz apenas para ter um lembrete de que eu continuo sendo eu. Foi uma daquelas discussões de ensinamentos que eu odiava na hora porque queria sacudir Morgan para fora de sua bolha ilusória, mas mais tarde eu percebia que ela era quem havia feito isto comigo.

A moral da história, resumidamente, que Morgan fez questão de relembrar, é que eu seguia sendo humano e que não existe coisa mais humana do que a nossa inconstância. Ninguém é feliz o tempo inteiro e ninguém está bem o tempo inteiro, são coisas óbvias, mas havia algo na maneira como ela falou que fez parecer que isto era algo a ser celebrado ao invés de menosprezado.

Eu levei um tempo para entender por completo, e foi apenas quando eu percebi que mesmo os meus dias ruins não apagavam minhas conquistas.

Torci o nariz com um sorriso irônico.

Ainda soa ridículo que eu tenha conquistas.

— Que cara é esta?

Noah tinha acabado de chegar, atrasado como sempre, e estava jogando sua mochila embaixo do balcão ao meu lado. Eu o observei com o nariz torcido, vendo-o colocar o uniforme ao olhar em volta em busca do León antes de voltar os olhos para mim.

Balancei as sobrancelhas sugestivamente.

— Por quê? Gostou do que viu?

— Tá repreendido — riu ele, amarrando o avental. — Você tá passando muito tempo com o Dean.

Revirei os olhos, mas dei de ombros. — É, talvez eu esteja mesmo. Ele ainda não parou de dar em cima de você?

Noah bufou. — Ele não parou de dar em cima de ninguém. Tudo que se move, basicamente, e que não seja mulher — acrescentou, depois, com a sobrancelha arqueada.

Gargalhei, mas dei de ombros.

— Ah, mas você tem que saber que na maior parte do tempo é inofensivo. É só o jeito dele. Quase como respirar — debochei.

Noah me dirigiu um olhar cético, mas depois de pensar um tempo, acabou concordando. — A não ser com o León.

Arqueei uma das sobrancelhas.

— Ele é bem óbvio, né? — Acabei rindo.

— Demais. Falta esperar o cara na cama a là garotas francesas.

Isto me rendeu uma gargalhada sincera.

Por que eu conseguia imaginar isto como se fosse uma pintura renascentista de tão possível que era?

Eu ainda estava gargalhando quando ele entrou no bar.

Era uma terça-feira, na temporada mais parada do ano, então o bar estava praticamente vazio às seis da tarde. Ano passado foi a mesma coisa, nesta época León acaba dispensando as ajudas de freelancers e fica só com a equipe fixa. E, se fôssemos sinceros aqui, ele sequer precisava do Dean a não ser em finais de semana, mas ele o manteve contra todas as possibilidades.

E, apesar de hoje ser seu dia de folga, ali estava ele.

O cabelo estava em um coque frouxo que eu tinha certeza que ele deixava assim como charme, usava um cropped preto e solto que boiava no corpo, e uma jardineira jeans azul clara, quase branca, que ele havia comprado mês passado e usava para todas as partes agora. Mesmo com o serviço, Dean ainda não havia conseguido juntar muito dinheiro para roupas novas e ele foi obrigado a comprar algumas depois que eu literalmente joguei algumas no lixo — sinceramente, seria ofensivo tentar doar aqueles trapos para moradores de rua, que vestiam-se melhor do que Dean. Eu fiz com que ele comprasse algumas, até para que sobrasse menos dinheiro para a heroína que eu sei que ele não havia largado totalmente, dei algumas e fiz León e Lorenzo darem outras roupas que não usavam para ele. Ainda assim, havia pouca coisa nova, a jardineira era uma delas e ele não a tirava do corpo.

Dean acenou com um movimento dos dedos finos, um sorriso de canto, antes de chamar Noah para atendê-lo. Nós trocamos um olhar antes que ele soltasse um riso e fosse até Dean, retornando com um pedido de drink de morango.

— Nem a pau que eu apareceria no meu serviço no meu dia de folga — comentou ele comigo, e eu tive que concordar.

Eu estava ocupado com a limpeza hoje, já que aproveitávamos os dias vazios e parados para isto, então não pude ir lá conversar com ele, mas ele ficou ali. Pediu drink após drink, mexendo no celular enquanto isto, e apesar de não entender, eu me senti um pouco aliviado que ele estivesse gastando o dinheiro com álcool ao invés de algo mais pesado. E ele estava ali, então podíamos ficar de olho nele e...

Porra, quando é que eu me tornei uma mãe?

Eu fiz uma pequena pausa para ir ao banheiro, tirando o avental e deixando no balcão e, quando saí de lá, dei de cara com ele. Arqueei a sobrancelha, observando seus olhosavermelhados pelo álcool e as bochechas coradas, com o sorriso indecente. Soltei um bufo, levando uma mão para seu cotovelo para firmá-lo no lugar, visto que ele estava oscilando.

— Você gosta tanto daqui que vem até no seu dia de folga?

Dean deu de ombros, desviando o olhar.

— Não tenho mais para onde ir.

Franzi o cenho, sentindo-me um pouco piedoso dele, e dei dois tapinhas em seu braço na ausência do que mais falar. Dean fez uma careta mas eu sorri, sem graça, antes de circundá-lo para voltar para o serviço.

— O que você tem feito nos dias de folga? — perguntou, e eu virei para trás, observando o brilho sugestivo em seu olhar. — León diz que você não leva ninguém pra casa e que nunca sai.

Acabei dando um riso, dando de ombros.

— Eu descanso — resumi, achando engraçada a ideia de que eu poderia fazer qualquer outra coisa além disto. — Não é isto o que se faz?

— Hum — respondeu, olhando-me de cima à baixo.

— Hum o quê? — perguntei, diretamente, mas eu tinha uma ideia de onde isto daria.

Dean puxou uma mecha no cabelo para brincar entre os dedos finos, olhando para o outro lado do bar, feito desentendido. — Não vou falar e levar um fora outra vez — cantarolou, mas me dirigiu um olhar divertido de canto de olho.

Revirei os olhos e dei as costas. Desta vez, ele não tentou impedir, mas apressou-se para que pudesse parar na minha frente antes que eu chegasse na entrada para detrás do balcão. Dean tinha um sorrisinho travesso no rosto e os olhos não brilhavam com apenas insinuação, era produto do álcool mesmo.

— Já que você insiste... — cantarolou, o sorriso aumentando, e eu quase tive vontade de rir. — Eu só achei que agora que estamos de bem, eu e você, você tentaria continuar nossa história.

Estreitei os olhos para a maneira como ele pronunciou “história”, com certa ternura, como se falasse das crenças infantis de histórias de amor de contos de fadas, para uma criança. Ele conseguia ser desdenhoso do nosso histórico ao mesmo tempo que conseguia ser afetuoso com ele.

Como é que ele conseguia fazer isto?

Estalei a língua antes de dizer: — Nunca foi uma história de amor, a nossa, você sabe disso.

Dean hesitou mas deu de ombros logo em seguida, dando um passo na minha direção de tal forma que me encurralou entre ele e a parede onde ficava o quadro bucólico que todos odiávamos, menos o León.

— Não — concordou, lambendo os lábios de tal forma que eu baixei o olhar para eles —, foi outro tipo de história mesmo, moreno, um tipo que eu pensei que você tentaria reviver...

Eu abri a boca para negar mas, subitamente, o dedo indicador dele brincou com a gola da minha camisa e eu desviei o olhar para baixo, soltando um suspiro cansado. Quando ergui os olhos para as suas orbes meladas, ele soltou um riso baixo e doce, tentador de uma maneira que só ele conseguia ser. Eu hesitei porque fiquei pensando o que diabos se passava pela cabeça dele, e o porquê dele agir assim, e o como dele conseguir soar contraditório em tudo o que faz, mas foi o suficiente.

Dean me prensou contra a parede e eu franzi o cenho para isto, mas ele roçou o nariz no meu feito um felino, e eu pisquei repetidamente ao pensar sobre como agir.

Eu gostava de pensar que sim, mas eu não era imune ao charme dele, e eu sou apenas humano. Tenho rejeitado o Dean de todas as maneiras possíveis desde que eu o reencontrei, por meses agora, tanto que ele parou de fazer coisas como esta: invadir meu espaço pessoal desta maneira. Foi definitivamente o álcool, agindo em seu sistema ao desativar inibições, eu sabia que sim, mas ainda assim eu hesitei o suficiente para que isto o incentivasse. E não é que eu tenha hesitado porque eu queria deixá-lo fazer o que ele quisesse, eu hesitei por cansaço mesmo — não apenas cansaço físico e mental, que era o caso de hoje, mas cansaço de rejeitá-lo o tempo inteiro porque ele nunca parava de tentar —, minha mente meio que ficou em branco por um momento.

Foi tempo o suficiente para que eu sentisse o cheiro de sabonete comum sendo dominado pelo cheiro de suor e de ervas, e o óbvio bafo doce de morango com álcool. Depois dos meses de recuperação, Dean havia conseguido a proeza de voltar a ser esta persona sensual por completo, com as bochechas saudáveis não mais coladas nas maçãs do rosto e o brilho que havia voltado aos olhos antes opacos.

Eu prendi a respiração quando ele deslizou a língua embriagada pelos meus lábios, tão súbito que meu cérebro fritou, e eu ergui as mãos para afastá-lo. A verdade que é que o tempo que eu estava na abstinência de sexo não ajudou muito e, muito menos, que meu corpo reconhecesse aquele que o prensava com familiaridade. Então eu acabei deixando rolar por mais tempo que me permitiria admitir e que havia beijado de volta quando os lábios deslizaram pelos meus em uma dança, por tempo o suficiente para que pesasse na minha consciência.

Beijar o Dean não era o mesmo que beijar um cara aleatório qualquer, nós tínhamos um histórico ruim que eu não queria reviver por nada nesse mundo — e agora eu finalmente conseguia digerir o que Dean havia dito sobre isto. Sem falar que, por mais irracional que fosse, isto me fazia sentir como se eu estivesse traindo o Caleb.

Apesar de eu haver demorado com as mãos em seu ombro antes de afastá-lo, eu finalmente o empurrei delicadamente para trás com uma careta.

— Eu não consigo, eu...

Soltei um suspiro, vendo que Dean ainda se demorou antes de perceber que eu queria que ele se afastasse. Ele piscou lentamente, embriagado, parecendo um pouco mais fora de si do que eu gostaria antes que os olhos semicerrados se abrissem por completo. Ele deu um passo para trás e eu finalmente pude baixar as mãos, seu olhar sobre mim.

— Eu não consigo fazer isso, especialmente não com você.

Dean fez um beicinho, mas a testa estava franzida com intriga.

— Por quê?

Suspirei, dando de ombros, ainda encostado na parede.

— Não existe mais história, Dean — falei apenas, cansado —, faz muito tempo que ela acabou, seja lá o que ela fosse. Isto tudo ficou no passado. Eu não quero reviver nada com você, sinceramente — acrescentei, com uma careta.

— Ai, chuchu — resmungou, manhoso, torcendo os dedos na minha camisa e apenas então percebi que ele ainda me tocava ali.

Arqueei uma sobrancelha para ele, mas ele deu um sorrisinho brincalhão antes de subir a mão para o meu rosto e fazer um carinho estranhamente afetuoso.

— Quando é que você ficou tão...?

— Que porra vocês tão fazendo?!

O grito do León foi grave o suficiente para fazer nós dois nos afastarmos em meio segundo, um para cada lado, como duas crianças pegas no flagra por uma autoridade. Eu bati minha cabeça no quadro horrendo e sibilei em resposta, enquanto Dean já estava há uns quatro passos de distância de mim. Quando olhei para o León, que seguia gritando, eu podia jurar que uma veia estava prestes a explodir na testa dele.

— Se você não tem nada pra fazer na porra da sua folga, folgado de merda — berrou para Dean —, pelo menos deixa meus empregados fazer o trabalho deles, caralho!

Recuperado do susto e de um franzir do nariz manhoso, Dean resmungou de forma parecida com antes: — Ai, grandão, não precisa ficar com ciúmes. Tem pra você também — provocou, puxando a manga da blusa pra revelar o ombro, mas acabou caindo mais abaixo por ser delgado, até que o mamilo ficasse exposto.

Alarguei os olhos, esperando que a cabeça de León explodisse diante da gente. Mas tudo o que ele fez foi encarar Dean com tanta incredulidade que o que restou foi bufar e marchar pra longe, fazendo barulho.

Dean fez uma careta, deixando os ombros caírem e os lábios unirem-se em um beicinho muxoxo. Ele acompanhou León com os olhos brilhantes de álcool, estalando a língua, chateado. Eu observei a reação dele com interesse — era como se realmente o incomodasse que aquela fosse a resposta do León.

— Brutamontes — resmungou, puxando a manga da camisa de volta, com dificuldade de manter o equilíbrio. — Não queria mesmo.

— Sei — deixei escapar antes de pensar.

Dean me dirigiu um olhar azedo, mas eu acabei apenas sorrindo e corri para trás do balcão quando vi que León olhou para trás outra vez com fúria.

No fundo, eu estava feliz que havia escapado desta. Preferiria mil vezes trabalhar igual a um condenado, esfregando os banheiros do bar, do que passar mais um minuto perto de um Dean embriagado. Mas a vida tinha outros planos para mim, percebi, ou o próprio Dean tinha outros planos — porque ele ficou. E ele continuou bebendo, o que era preocupante, porque eu bem sabia que não se pode largar uma droga sem largar todas junto — foi só assim que eu consegui parar de fumar: parando de beber também.

Isto não deveria ser meu problema, mas era, inclusive, de todos nós, quando Dean esbarrou na primeira pessoa ao se arrastar para o banheiro, borracho.

Ainda faltava mais de uma hora para a gente fechar, e só porque fechávamos mais cedo nesta época, e ele havia passado da fase de bêbado com tesão para a fase de bêbado com depressão, uma linha muito fina. Logo, ele começou a balbuciar coisas depressivas para quem parava para ouvir — nós, que o conhecíamos, é claro, e o seu Giuseppe.

Quando fui buscar o pedido de outro cliente, León marchou até mim com uma caneca enorme com água e a deixou na bandeja ao lado do outro pedido sem dizer nada. Ele fez isto tão bruscamente que eu tive que firmar os braços para não derrubar a bandeja com tudo no chão e eu silenciosamente acatei. Entreguei o pedido do casal e depois caminhei até o outro lado do local e deixei na mesa do Dean, que olhou para mim com os olhos marejados e agradecidos.

Bom, a água não funcionou para deixá-lo sóbrio mas talvez houvesse aliviado um pouco a tormenta do seu pobre estômago.

No final do expediente, eu me deixei sentar ao lado dele e Dean deixou a cabeça cair no meu ombro com um suspiro pesaroso. Não sei se o suspiro foi meu ou dele, mas ele pareceu ecoar no ambiente. Dean soltou alguns sons frustrados e miseráveis, resmungando coisas que não ouvi, até que eu o sacudisse com mais força que necessário para beber a outra caneca com água.

— Eu sou mesmo uma puta — exclamou, lamentável, e eu me forcei para não rir —, me atirando pra você depois de tudo o que eu te fiz. — Apertou uma das minhas bochechas enquanto eu arqueava uma das sobrancelhas. — Você só tem dezoito aninhos.

Soltei um som pelo nariz, cansado demais para discutir, e dei de ombros. Sinceramente, era um alívio perceber que nada que o Dean fizesse ou falasse me atingia de qualquer forma, eu havia desenvolvido uma imunidade emocional para ele. Tudo o que batia em mim apenas retornava.

— Dezenove — corrigi. — E se eu só tenho dezenove aninhos, Dean, então, bom, você também só tinha dezoito aninhos — ponderei, referindo-me a quando nos conhecemos. — Deixa pra trás. Tá lá no passado.

— Eu tinha dezoito?

Suspirei, dando de ombros, relanceando o pessoal terminar de limpar a cozinha. — Quando a gente se conheceu, sim, e quando eu fui embora, você tinha vinte.

— Eu tinha dezoito — murmurou ele, perdido em lembranças, em transe, provavelmente no estado que estava sua vida na época que a gente se conheceu. — Que merda. Que lixo de vida.

Seus olhos haviam marejado o suficiente para transbordar e agora, com o rosto molhado, ele parecia ainda mais lamentável que antes, quando pensei que nem era possível. Passei um braço em torno de seus ombros, fazendo-o encostar o corpo oscilante em mim e apertei seu ombro onde minha mão havia repousado, no que eu esperava ser um reconforto.

— Bom, a gente tá reciclando — brinquei, rindo, e Dean me deu um tapa, ativamente chorando agora. — Que idade você tem agora mesmo?

Ele limpou o rosto. — Vinte e quatro.

— Vish, que velho — brinquei, usando a outra mão para puxar um fio solto de seu coque. — Isso é um cabelo branco?

Dean revirou os olhos molhados.

— Cala a boca, moreno, não me magoa — choramingou, os olhos pousando em algo ao longe. — Velho é aquele seu chefe brutamontes.

Segui seu olhar, vendo que León checava os aparelhos com uma carranca profunda, e eu reconheci que ele realmente estava furioso. Sequer dirigiu um olhar na nossa direção, inclusive, e me ignorou durante o turno inteiro desde que me viu com o Dean.

Fiquei em silêncio por um tempo, ouvindo Dean resmungar bobagens bêbadas na voz arrastada, antes de quebrar o barulho.

— Você gosta dele?

Dean levou um tempo para entender de quem eu estava falando, mas bastou que eu olhasse para o León de novo para que ele entendesse. Ele franziu o nariz.

— Credo, que nojo — resmungou, e eu apenas ri.

— Sério? — perguntei, interessado. — Pois eu acho ele um cara muito charmoso. — Dean me olhou com maior estranheza agora, a careta aprofundando enquanto tentava ler se eu realmente estava dizendo que eu tinha interesse nele. — Ele é bem novo pra alguém que tem seu próprio negócio há anos. E ele é um homem bonito, ranzinza — acrescentei —, mas um homem bom e justo.

Dean desviou as orbes meladas para o foco da conversa, que deliberadamente ignorava a nossa existência naquele instante. Eu fiquei observando Dean e, tão de perto, pude ver que ele engoliu em seco quando o pomo-de-adão se moveu.

Geralmente, eu gostava de agradecer aos céus por não ter nenhum vislumbre do que se passava pela cabeça perturbada de Dean, mas naquele momento, eu desejei poder entender. Alguns instantes se passaram quando percebi que ele estava divagando no meio de sua nuvem embriagada. No estado no qual ele se encontrava, podia muito bem estar pensando na morte da bezerra, mas como seus olhos seguiam fixos em León, eu chutei que sua mente também ainda estava ali.

— Dean? — chamei, e Dean piscou lentamente antes de olhar pra cima, meio jogado ainda em mim sem parecer perceber que eu existia.

Sorri, um pouco tenso, ponderando se eu não estaria sendo precipitado em presumir, mas achei que não havia espaço para isto.

— Às vezes, pode ser que a gente se sinta inclinado a encontrar pessoas problemáticas pra estar com a gente... porque são um reflexo do caos que a gente leva dentro — pronunciei, devagar, imaginando se escolhi as palavras certas. Dean franziu o cenho, piscando rapidamente ao processar o que eu havia dito, e então eu acrescentei: — Às vezes, a gente acaba buscando o que nos faz mal porque a gente acha que é o que merece.

Engoli em seco ao mesmo tempo que via Dean fazer o mesmo, e ele desciou o olhar para longe, ajeitando-se na cadeira como se recém se desse por conta de que estava sentado em uma. Ele acabou se desencostando do meu peito ao endireitar o corpo, mas não saiu debaixo do meu abraço.

Forçou um riso, me olhando de canto de olho. — Que bad, bonitão, que isso?

Era como se estivéssemos outra vez no trailer, quando ele estava chorando em silêncio por horas, sem nada dizer, a vulnerabilidade se esgueirando entre as bordas duras. Era estranho, e parecia errado também, vê-lo vulnerável, como se não encaixasse na persona que ele é. Ainda assim, supus que era algo bom, e que pelo menos para isto o álcool serviu.

Suspirei, decidindo não voltar atrás, ainda escrutinando-o com os olhos. — Às vezes — continuei, em um murmúrio baixo —, pra gente mudar isso, a gente precisa escolher o que nos faz bem, mesmo que seja difícil aceitar que a gente merece algo bom.

Dean limpou o rosto algumas vezes, sem olhar para mim, e ficou quieto por um tempo, uma ruga aprofundada entre as sobrancelhas. Era como se ele se desse por conta que a sobriedade estava retornando e odiasse a sensação. Enfim, ele ergueu os olhos avermelhados para mim como se algo houvesse passado pela sua cabeça, encarando-me como se enxergasse minha alma.

— Então é por isso — murmurou, e eu franzi o cenho, sem entender. Ele soltou um riso doloroso, limpando o nariz com as costas da mão. — Você não quer fazer as mesmas escolhas...

Eu finalmente entendi, arqueando as sobrancelhas. Era verdade, eu estava falando por experiência própria, porque um dia a minha escolha ruim havia sido ele — uma escolha que eu não faria novamente. E ele soube que era isto o que eu queria dizer, claro que soube — por mais que quisesse se fazer de desentendido, ele sabia o quanto havia me feito mal.

— E conseguiu? Escolher diferente — especificou, antes que eu pudesse responder. — Você conseguiu?

Sinceramente, eu não soube como responder.

Em parte porque foi só quando ele nos conectou na linha de raciocínio que eu percebi que estávamos conectados nela, que eu próprio havia usado “a gente” como se meu inconsciente soubesse que éramos iguais em alguns sentidos. E em parte porque eu realmente não podia dizer que havia conseguido por completo, não ainda, escolher diferente.

— Eu tô trabalhando nisso — respondi, enfim, depois de muito pensar. Sorri com carinho. — Você devia também.

Dean tentou imitar o sorriso fraco, mas ele saiu muito forçado, e ele engoliu em seco mais uma vez. Sua testa franziu ao pensar sobre isto e a expressão tornou-se mais e mais lamentável, os olhos desfocados e aquele sorriso duro e fraco no rosto. Quando ele focou as orbes de mel em mim outra vez, sua expressão já havia se desfeito por completo, e havia uma tristeza e um vazio ali que eu me senti mal de identificar como se eu olhasse em um espelho do passado.

Sua voz soou miúda, feito uma criança desamparada, quando murmurou: — E se eu escolher diferente, quem escolheria a mim?

Senti meu próprio rosto despencar quando percebi que não podia dar a ele uma resposta encorajadora se fosse sincero.

Meus olhos arderam pela primeira vez, meu coração apertando ao encarar o vazio refletido nos olhos de Dean, um brilho apagado em sua alma manchada. Era como se o vazio me encarasse de volta, me reconhecendo, porque já havia pertencido a mim por boa parte da minha vida também — era quase como se flertasse comigo da mesma maneira que Dean fazia, como se me chamasse para reviver aqueles anos miseráveis mais uma vez. Eu e ele, eu e o vazio no meu peito, os dois juntos mas sempre tão solitários quanto se podia estar. Percebi, então, que era a mesma coisa que eu estivesse encarando a mim mesmo — talvez usar “a gente” ao me incluir em meu discurso não tenha sido tão inconsciente assim.

E era como se não houvesse um único resquício de autoestima nele também, o que eu também conseguia reconhecer. Eu sabia que Dean tinha perfeita noção de que podia ser uma pessoa sensual, atraente, desejável, mas agora que eu encarava a opacidade no castanho-claro de seus olhos, eu percebia que Dean provavelmente pensava que seu corpo era a única coisa de valor que ele carregava.

Agora recaía a mim o que Dean realmente quis dizer com aquilo: que eu não podia ficar com ele de novo porque eu estava tentando buscar o que era melhor para mim, que ele não me fazia bem. Ele havia identificado isto, o que provavelmente não ajudava em sua falta de autoestima, mas eu não podia dizer que ele estava errado. Eu havia buscado Dean por ser um reflexo meu, foi assim que a gente se encontrou da primeira vez, e foi por isto que eu havia grudado nele feito chiclete. Não era apenas que Dean era obviamente problemático e que provavelmente nunca teria me feito bem para começo de conversa, era que éramos semelhantes. Eu me sentia visto pela primeira vez na vida, quando eu o conheci, porque pela primeira vez na vida, alguém entendia o que era sentir que não se tem valor algum e o que era sentir que não pertencia a lugar algum no mundo.

Eu podia ver os paralelos com mais nitidez agora, alguns que eu já sabia e outros que pareciam complementá-los. E então eu finalmente entendi, sentindo a súbita vontade de chorar.

Fiquei muito tempo me perguntando o porquê da Morgan deixar que eu continuasse interagindo com o Dean como se ela pudesse ver algo de bom nisto, no final das contas, depois de avaliar como eu realmente me sentia. E agora eu entendia, eu podia ver o que ela também via: aquilo que ela havia me perguntado logo que eu o trouxe de volta para a minha vida e que ela própria havia descoberto antes de mim — o porquê de eu estar fazendo isto.

Conviver com o Dean era o mesmo que conviver com os piores lados de quem eu fui e um pouco de quem eu sou também. Eu não passei todos estes meses aprendendo a lidar com ele, eu estava aprendendo a lidar comigo mesmo. Bom, não éramos tão parecidos assim, mas os pontos que tínhamos em comum — estes eu tive que enfrentar dentro da minha ideia ilusória de ajudá-lo. Mas agora eu via que, quando eu estendi a mão ao Dean porque é o que eu gostaria que houvessem feito isto por mim, eu estava fazendo isto por mim também. Ao menos, para as partes de mim que ainda precisavam ser amparadas desta forma.

Minha vontade foi a de sair correndo dali para fazer uma videochamada com Morgan e contar tudo o que eu estava pensando para logo perguntar se eu estava no caminho certo. Às vezes, ela respondia, às vezes, não; então eu não sabia o que esperar. Uma vez ela me perguntou se eu diria às pessoas que eu amo todas as coisas maldosas que eu dizia a mim mesmo, caso estivéssemos em posições trocadas. Ela provou um ponto quando disse que eu os acolheria ao invés de afastá-los, e pediu que eu acolhesse a mim mesmo também.

E agora, encarando a alma quebrada refletida no olhar de Dean, tudo o que eu conseguia pensar é que eu basicamente havia colocado esta teoria à prova na prática bem aqui. Eu acolhi Dean de uma maneira que eu nunca teria me acolhido e, pela primeira vez desde que isto começou, eu soube que havia feito a escolha certa.

De alguma maneira, eu havia acolhido a mim mesmo no caminho e eu sequer percebi.

Isto me fez sentir um misto de coisas, alívio e orgulho — outra vez, e seguia sendo esquisito sentir orgulho de mim mesmo — por mim, mas também senti uma tristeza e uma impotência por Dean. Afinal, nós éramos pessoas muito diferentes, apesar de termos alguns demônios em comum, e não havia muito o que eu pudesse fazer para o olhar quebrado em seu rosto. Não havia acolhimento suficiente que eu pudesse dar a ele, porque eu já dei tudo o que estava ao meu alcance, mais do que isto viria apenas de alguém que o amasse. E ainda mais só viria dele mesmo, se um dia ele conseguisse se amar também, como eu aprendi a me amar.

Eu podia ver que ele pensava que não tinha valor algum, que não tinha qualidade redentora alguma, que não tinha importância para nada nem para ninguém — nem mesmo para mim. E, se ele não tinha valor, ele não merecia nada de bom, e talvez ninguém se aproximaria o suficiente para querê-lo de verdade. Aquilo soava dolorosamente familiar, mesmo no eco da minha cabeça. E no caso de Dean, talvez isto fosse em uma proporção ainda maior do que eu havia sentido, porque a vida dele havia sido diferente, com dificuldades e dores diferentes, em camadas mais enraizadas do que eu poderia entender apenas no vilumbre que tive.

Meu coração apertou por ele, porque por mais que eu pudesse limpar seu trailer, levar comida para ele, arrumar-lhe um emprego e levá-lo pela mão até um NA, haviam coisas que eu não podia consertar. Haviam coisas que dependiam da trajetória dele, do contexto e das circunstâncias nas quais ele vivia, das escolhas que ele faria, nos tipos de amor que ele encontraria no caminho — se encontrasse. Meu coração doeu por ele, porque eu tinha sorte e sabia que não era o mesmo para todos, que talvez houvessem caminhos que nunca se endireitassem.

Eu suspirei tremidamente e olhei para longe, engolindo em seco, e puxei-o outra vez para que se apoiasse em mim, afagando suas costas.

— Você tem mais valor do que pensa, Dean, você vale muito — murmurei, contra os seus cabelos, mas eu sabia que ele não iria acreditar. Eu também não acreditei quando estava em uma posição parecida. — Espero que um dia você consiga se encontrar e possa entender que eu falo a verdade.

Dean soltou um som que pareceu choramingo baixinho, e depois de muito tempo em um silêncio doloroso, ele passou o outro braço em torno da minha cintura e abraçou de volta, tal qual uma criança desamparada. Sorri tristemente e continuei afagando suas costas, para cima e para baixo, como se eu pudesse aquecê-lo com mais do que calor físico.

Dean estava sempre gelado, sempre, de todas as maneiras.

Um sussurro quebrou o silêncio quando algumas das luzes começaram a ser apagadas lá no fundo: — Obrigado.

Eu pisquei, perguntando-me se havia ouvido mesmo, de tão baixo que foi, mas então Dean desvencilhou-se o suficiente para olhar para mim com os olhos avermelhados. Havia uma emoção ali, uma que eu não identifiquei à princípio, tão estranha no rosto do Dean que parecia fora de personagem. Parecia um misto de gratidão e admiração, e eu me senti subitamente desconfortável.

— Muito obrigado — repetiu, mais firme, e eu engoli em seco.

Assenti, sem saber como reagir, porque não me preparei para a estranha sobriedade em meio a toda a sua embriaguez. Eu soube o que ele estava agradecendo realmente, então acabei abrindo um sorriso fraco.

— De nada, Dean.

Ele desviou o olhar, parecendo embaraçado, antes de acomodar-se em mim novamente, e eu voltei a esfregar suas costas, recém me dando por conta que havia parado.

Dean literalmente dormiu, meio atirado, todo torto, no meu abraço, e eu tive que ficar ali, acenando para o pessoal que ia embora aos poucos, esperando até que León viesse gritar com a gente. Achei que isto acordaria o Dean, visto que ele não apenas resmungou quando eu o sacudi um pouco, desejando me trocar para ir embora.

Eu estava certo.

Dean deu um pulo quando León bateu na mesa para acordá-lo, e foi com um resmungo que ele levantou da cadeira atrás de mim. Mas, quando deu alguns passos, foi o suficiente para vomitar tudo o que tinha no bucho, ao som de xingamentos gregorianos de León. Nem quando eu garanti que eu limparia a bagunça ele se acalmou, e Dean acabou meio jogado em outra cadeira mais próxima da porta enquanto isto.

Como nenhum de nós queria arrastá-lo até o trailer, há quadras daqui, visto que ele tinha o equilíbrio de um recém-nascido, acabamos arrastando-o até nossa casa. Dean acabou jogado no sofá, com um balde ao lado, mas não antes de León forrar o móvel com toalhas e com maldições.

Não é preciso dizer que ele reclamou e reclamou e reclamou sobre o que sua vida havia se tornado, sobre como sua casa e seu bar tornaram-se um lar dos desabrigados. Mas, depois que eu fui para o quarto, ouvi León levantar várias vezes durante a madrugada para cuidar do bêbado desamparado em sua sala de estar. E, pela manhã, antes que eu levantasse, também ouvi León resmungar com um Dean de ressaca enquanto empurrava garrafas e mais garrafas de água para ele, guela abaixo.

Pé por pé, eu espiei pelo vão da porta.

Eu podia ver que León ainda estava usando a roupa de dormir ao bater as panelas no fogão, carrancudo, reclamando mais e mais com o Dean sobre o quanto ele era uma pedra em seu sapato. Ironicamente, ele fazia isto enquanto fazia comida para nós três e esquentava um chá para a ressaca do Dean depois de empurrar remédio para dor de cabeça e água para ele.

Inclinei a cabeça um pouco para a direita para desviar a visão da cozinha para a sala, separadas pelo balcão, parando no sofá. E ali estava ele, sentado com os ombros encolhidos, como se fosse mesmo um pequeno menino levando bronca, os olhos piscando lentamente ao observar León mover-se pela cozinha. E León preenchia todo o silêncio com suas reclamações, porque Dean não dizia absolutamente nada, quase como se evitasse fazer um som errado e estragasse o que estava acontecendo ali. Ele parecia bem atordoado, se eu fosse sincero, e talvez fosse apenas o desnorteio de quando acordamos de ressaca onde não sabemos como chegamos lá, mas eu achava que era por outro motivo. Vi que ele desceu os olhos para a manta que havia sido posta por sobre ele de noite e mexia no tecido dela com a ponta dos dedos, parecendo contemplativo.

Fechei a porta em um clique mudo, torcendo para que nada que eu havia visto nos últimos tempos entre os dois fosse fruto da minha imaginação.

Mais tarde, depois que León me tirou do quarto aos berros, eu comi e me arrumei com rapidez, saindo um pouco mais cedo ao inventar um compromisso para deixá-los mais tempo sozinhos.

*

No final de semana, inesperadamente, o bar lotou.

Era raro que isto acontecesse em temporada ruim, mas ali estávamos nós, correndo de um lado para o outro para atender todos os pedidos e manter tudo em ordem. Assim que eu nove horas, eu comecei a puxar os fios eletrônicos para o palco improvisado, em uma rotina agradável que eu havia aprendido a gostar.

Eu acordei de bom humor, apesar de haver passado a noite toda discutindo com Bruno e com Maze — era quase como se eles houvessem combinado de me atacar ao mesmo tempo. A janela estava batendo, de novo e de novo, com a ventania do lado de fora. O vento, em junção ao clima agradável — nem frio nem quente —, trazia uma sensação de renovação. Uma aura esquisita de que tudo era possível, de alinhamento de universo, de mudanças boas que vinham em nossa direção. Eu havia dormido com a cara grudada no celular, encarando a foto mais preciosamente íntima que eu tinha com o Caleb.

Ele não sabia da existência dela.

Eu tirei a foto durante nosso pequeno espaço-tempo mágico, quando estávamos em uma bolha que não durou muito tempo, não antes que tudo desabasse.

Estávamos em seu quarto, e eu estava deitado com as costas apoiadas no urso de pelúcia que eu o presenteei, com Caleb aos meus braços. Ele havia adormecido com o rosto apoiado no meu peito, ressonando baixinho, no meio da tarde. Estávamos em cima das cobertas, ainda nas roupas do colégio, e a casa estava silenciosa — só nós dois. A foto enquadrava apenas o rosto adormecido do Caleb — um tanto encoberto por seus cabelos e pela minha camiseta —, apenas parte do meu peito que não estava escondido por Caleb, uma pata do Waltney e um pedaço da escrivainha ao fundo. A foto começava meu sorriso — apenas metade da minha boca visível — e terminava onde o ombro do Caleb começava.

Era perfeita — um lembrete do que era estar em paz.

Talvez uma última recordação do que era estar ao seu lado quando tudo era perfeito, antes que eu estragasse tudo pouco a pouco, até que não restasse muito para salvar. Se Caleb jamais me perdoasse, ao menos ele seria meu em minhas lembranças e no retrato de um pedacinho de nosso mundo perfeito.

Apesar da melancolia que a foto trazia, haver dormido e acordado ao vê-la, diante da ventania de acabar o mundo do lado de fora, eu me senti tão em paz quanto havia me sentido nos braços dele.

E talvez eu estivesse atraindo um redemoinho de mudanças só com o meu humor intocável, mas assim que abri as janelas para a fúria do vento abraçar meu corpo arrepiado, meu celular tocou.

— Oi, mãe — cumprimentei, fechando os olhos ao sentir o vento balançar minha camisa frouxa e fazer uma bagunça dos meus cabelos.

— Oi, meu bem — cumprimentou ela, do outro lado, a voz um pouco mais aguda que o normal. Havia um toque de nervosismo ou de agitação nela. — Eu preciso falar com você sobre uma coisa, filho. Você tem um tempinho?

Decidi que, apesar do nervosismo, a sua voz soava animada o suficiente para não me alarmar.

Abri um sorriso sincero.

— Todo o tempo do mundo.

E talvez fosse disso que se tratava, eu pensei mais tarde, sobre ter todo o tempo do mundo.

De cima do palco, sentado no banquinho alto de madeira que parecia se tornar parte de mim, eu imaginei que este deveria ser o objetivo. As luzes que ajudei León a instalar refletiam no meu rosto em tons de azul, roxo e verde antes de retornar para os rostos desconhecidos espalhados pelo bar. As vozes diminuíram de volume quando testei o som do microfone, tocando algumas notas para testar o equipamento e o volume do violão. Eu sei que havia mais de um tipo de lar — e eu ainda estava em busca de um — mas naquele cenário, naquele contexto, naquela posição de músico, eu me sentia em casa.

Eu encontrei um lugar onde pertenço — ainda que fosse muito abstrato — quando encontrei a mim mesmo, e não era este o objetivo?

Havia algo de muito certo sobre encontrar pedacinhos de mim mesmo, ainda que estejam feridos, para que eu possa me construir e reconstruir com tanto esmero quanto não recebi ao ser despedaçado pelas circunstâncias da vida.

E este tinha que ser o objetivo, não é?

Foi apenas ao me conhecer melhor que eu passei a entender do que eu precisava e do que não acrescentava — uma visão meio borrada vai se formando de uma espécie futuro onde eu desejo viver. Uma imagem distorcida que se molda aos poucos com cada coisinha nova que eu aprendo sobre mim, sobre a vida, sobre o mundo lá fora, mas uma imagem concreta e real de algo que me espera.

Eu ainda estava perdido, incertezas ainda beiravam as minhas decisões, mas Bruno devia ter razão quanto a isto — talvez elas durassem a minha vida inteira. Eu não deveria esperar perfeição a não ser que eu já tivesse cabelos brancos e ossos porosos — e talvez nem mesmo assim. De toda forma, ainda que não soubesse para onde ir, eu sentia que eu estava encontrando o meu caminho, ainda que aos tropeços — ainda que eu fizesse curvas erradas que me forçavam a fazer retornos. A maior descoberta era que eu sentia que não morreria por isto. Meu caminho já estava bem iluminado — certamente um produto da terapia, das medicações, da busca por melhorar —, ao contrário do túnel escuro e sem saída que eu havia percorrido a vida toda. Porque agora, ao menos, eu conseguia enxergar o que me esperava do outro lado, ainda que a imagem não estivesse completa.

Havia algo lá na frente, apesar de ser tão abstrato que eu não pudesse dar nome — algo pelo que ansiar.

E isto era outra coisa que eu custei a entender: para algumas coisas não haviam respostas. Elas não viriam de Morgan, de minha família, de meus amigos, de minha música, de meus traumas passados, do reflexo no espelho. Eu não encontraria uma resposta sobre qual caminho é o certo a se seguir — ninguém encontra. E, ainda que eu estivesse seguindo o caminho errado, eu havia escolhido o caminho que eu estava a percorrer.

E não é isto o que é liberdade?

Foi então que percebi que minha melhor versão teria que vir da liberdade de escolher os caminhos que trilho — com todas as incertezas que os permeiam.

Ao soltar a voz, dedilhando o violão como se fosse uma segunda pele, um sorriso brincando em meus lábios ao ouvir a resposta do público, eu entendi que esta era realmente a liberdade que eu buscava.

O melhor de mim sempre foi o meu eu livre.

Notas finais
Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! s2