Made of Stone
72 EXTRA - Sobre amizades efêmeras
Notas iniciais
Grace e Ian tinham um entendimento.
Desde que começaram a se debater na relação complicada que tentava, com muita dificuldade — tal qual um motor exercendo uma força não computada —, migrar da amizade para algo mais, eles desistiram da transição. Não foi algo discutido, estava nas entrelinhas, na maneira como eles fluíram de volta aos seus posicionamentos na antiga amizade iniciada em implicâncias afetuosas. E, bom, como não havia sido discutido — afinal, não é como se qualquer um dos dois apreciasse qualquer tipo de diálogo —, eles não entendiam exatamente o porquê desta mudança mútua.
Grace pensava que era apenas mais seguro serem amigos — mais fácil, mais confortável, menos dolorido — como um dia foram, do que viverem envolvidos em brigas magoadas que os afastavam muito mais do que deveria ser possível. Era mais seguro voltar à configuração original, de quando implicavam um com o outro o dia inteiro apenas para passar a noite toda conversando como se fossem melhores amigos.
Grace lembrava exatamente de quando viu um amigo em Ian, lá no início, quando entrou para a panelinha. Ela certamente o odiava, e o sentimento era mútuo, mas então ele a defendeu de um idiota junto dos demais amigos. Foi ali que ela entendeu que ele não estava apenas junto de seus amigos, ele era um dos seus amigos. E talvez ela pudesse ir um pouquinho mais longe, na primeira vez que percebeu que Ian não era um completo idiota apesar de não suportá-lo — quando ele perguntou por que ela alisava o cabelo porque ela obviamente estava desconfortável com os fios destruídos. Ele havia sido o primeiro a perceber e, de um jeito bem adoravelmente idiota, disse que os fios ficariam bonitos da forma natural. Na época, ela ainda ficava na defensiva com relação ao tópico sensível, então o xingou, mas depois que se acalmou, não conseguiu deixar de enxergar Ian por outra luz.
Em retrospecto, talvez tenha sido ali que começou toda a bagunça.
— Grace.
Uma mão pesada a sacudia de volta para a realidade, mas o sonho em que voava entre as nuvens como se pesasse uma pena era agradável demais para simplesmente sair dele assim. Ela se ouviu resmungar, mas então foi sacudida com ainda mais força antes de se localizar no próprio quarto, afundada na cama, com a voz do seu pai de despertador. Não ousou abrir os olhos, queria voltar para o sonho, e talvez tenha sido isto que verbalizou em um resmungo.
— Sabe, eu também queria dormir — reclamou seu pai, a voz rouca como se recém houvesse acordado. — É domingo, afinal.
Grace franziu o cenho, abrindo um dos olhos para ver uma careta azeda no rosto de seu pai, os fios curtos amassados de um do lados. Isso a fez abrir os dois olhos e resmungar: — Então...?
Se era domingo, por que ela estava sendo despertada desta forma?!
— O branquelo tá aí de novo — informou ele, arqueando uma das sobrancelhas, e Grace desgrudou o rosto do travesseiro em um instante.
— Ian? — perguntou, totalmente desperta.
— O próprio — resmungou ele, arrastando os pés para sair do quarto.
Finalmente ocorreu a ela que havia combinado de assistir anime com o Ian — e que havia esquecido totalmente. Levantou em um pulo, ponderando que horas eram e em que estado se encontrava. Correu até o espelho, com uma careta, vendo que, tal pai tal filha, seu cabelo estava completamente amassado de um dos lados. De todos, na verdade, mas o lado em que havia apoiado o rosto por último estava pior.
Ela dirigiu olhos estreitados para a porta, de onde veio um riso baixo, seus dedos que ajeitavam os cabelos parando por um instante. Ela arqueou uma sobrancelha, interrogativa, para onde seu pai ainda estava parado com a mão no batente, encarando-a por cima do outro.
— Quem te viu, quem te vê, princesa — comentou ele, os olhos ainda pequenos pelo sono. — Uns anos atrás umas desmilinguidas te fizeram acreditar que você era qualquer coisa que não extraordinária e hoje você tá aí, nem mulher feita ainda, e já disputada por dois idiotas — apontou, e Grace acabou rindo junto dele ao sentir o rosto esquentar. — O mundo dá voltas, não é?
Grace inclinou-se para pegar a primeira almofada que viu, em sua pequena poltrona, antes de jogá-la no pai. Ele foi mais rápido e fechou a porta antes que ela o acertasse, e Grace ainda pôde ouvir seu riso do lado de lá.
As coisas com Ian estavam... bem.
Se fosse sincera, Grace não saberia dizer exatamente o que havia acontecido com ele — alguma coisa mudou em algum momento do ano passado e ela não entendia do que se tratava. Depois que ela ficou publicamente com o Dan na formatura do Alex e da MJ, no final do ano retrasado, Ian mudou da noite para o dia.
Nas férias do ano passado, ali por janeiro ou fevereiro, em uma das saídas em grupo, Ian teve a conversa mais estranha do mundo com ela. Eles ficaram sozinhos em algum momento, na casa de Bex, e ele perguntou se ela estava namorando com o Dan. Grace disparou que não era da conta dele — afinal, naquela relação esquisita que se encontravam, ficar na defensiva e gritarem um com o outro era o novo normal deles —e Ian teve a reação mais estranha: ele não retrucou, nem implicou, nem se zangou.
— Eu só queria que soubesse que, mesmo que eu implique com o Dan, não tem nada de errado com ele. Inclusive, eu gosto muito dele, ele é um cara legal. E eu... gosto muito de você também, Grace, eu... e-eu te considero uma grande a-amiga. Então... eu queria que soubesse que eu desejo que sejam muito felizes, vocês dois, se estão juntos ou se... se um dia estiverem.
Grace, é claro, ficou chocada — ela ficou genuinamente sem reação. Ian era o mais péssimo exemplo existente de “comunicação”, para começo de conversa, principalmente se ele se colocava em posição vulnerável; e para fim de conversa, ela não esperava que este fosse o rumo que Ian iria tomar quando finalmente se comunicasse. Ian, desconfortável com o silêncio dela, deu alguma desculpa que ela não ouviu para levantar e deixá-la sozinha.
E não parava por aí, porque desde então, Ian parou completamente de ter aquelas crises de ciúmes que sempre tinha, de tentar elogiá-la desajeitadamente como sempre fazia, de iniciar brigas intensas quando se frustrava por não conseguir se expressar como sempre iniciava. Ele parou de tropeçar nas palavras, sempre querendo dizer mais do que conseguia, e parou de dar corda para as brigas que ela iniciava quando se frustrava com ele. Ele simplesmente parou. Ao mesmo tempo, pelo contrário, ele voltou a se reaproximar dela, conversando sobre tudo menos sobre sentimentos, menos sobre o Dan, menos sobre interesses amorosos.
Inicialmente, Grace ficou frustrada, chateada, decepcionada até. No fundo, ela sempre esperou que ele criasse coragem para fazer algo, dizer algo, ser algo a mais — por mais impaciente que ela ficasse com ele, Grace seguia esperando que um dia ele finalmente diria as coisas que ela esperava ouvir. Então, quando todos viram que ela ficou com Dan, ele simplesmente parou de sequer tentar. Grace pensou, então, que foda-se. Não era para ser, afinal, se ele não tinha coragem mesmo quando ela dava todos os sinais, então não havia por que esperar por ele. Dan estava ali e ele era absolutamente perfeito.
Passada a raiva inicial, então, com a constante presença neutra de Ian enroscando-se de volta em sua vida, Grace se deu por conta que realmente havia sentido falta dele. Foram meses de estranhamento entre os dois, pisando em ovos, brigando por qualquer coisa, com crises de raiva e ciúmes, cheio de palavras não ditas que intoxicavam a relação e estragavam a amizade que eles não construíram da noite para o dia — afinal, quando se conheceram, eles se detestavam. Eles finalmente puderam retomá-la, e ela honestamente havia sentido muito a falta disto, daquela áurea implicante e besta que eles tinham — uma saudável para variar, que começava com um empurrão e terminava com um sorriso. Era leve, morno e confortável. Com o tempo, sentiu-se até agradecida pela mudança de Ian, o suficiente para não lhe negar a amizade que ele tentava recuperar dela, porque agora as coisas estavam... bem.
Pouco mais de um ano havia se passado desde que a amizade deles se estabilizara — já estavam em março, as aulas haviam começado algumas semanas atrás, as aulas do seu último ano no colégio.
Grace chegou a se questionar se não havia imaginado tudo na cabeça — que Ian gostava dela da maneira que ela gostava dele — ou se ele apenas havia superado ao vê-la com seu amigo. Independentemente, ela percebeu que não valia a pena ficar presa nisto, então as coisas ficaram assim.
Em frente ao espelho, ela tenta arrumar os fios rebeldes, mas era essa a questão com os cabelos crespos que havia desacostumado depois de tanto tempo com eles raspados: davam um trabalho da porra para ficarem perfeitos. Depois de desistir quando percebeu que conseguiu, pelo menos, desamassá-los do travesseiro, ela correu até a porta de entrada.
Ian estava lá, parecendo desconfortável, tomando todo o espaço do limiar da casa — e havia um sorriso forçado em seu rosto, uma ruga entre as sobrancelhas.
— Pensei que a gente tinha combinado de...
— Eu sei, eu sei, eu esqueci — foi logo admitindo, puxando ele para dentro de casa pela camisa. — Entra aí. A gente foi dormir tarde ontem assistindo filme e eu tava dormindo até agora... — A voz diminuiu, os olhos presos no relógio da sala. — Credo, já é duas da tarde?!
— Seu pai também tava, pelo visto — murmurou Ian, depois de entrar, olhando em volta como se o pai dela fosse pular de algum canto da casa. — Agora ele me odeia um pouquinho mais.
Grace acabou rindo.
— Ele não te odeia, Ian, deixa de ser ridículo — falou, embora soubesse que havia uma implicância dele com o Ian. Bom, se até mesmo ela tinha implicância com Ian, então como poderia culpar o seu pai? Talvez fosse de família. — E meu pai sempre acorda cedo, só que no domingo ele costuma tirar uma séstia de tarde. Devia ter acabado de dormir.
Ian fez uma careta. — Ah, que ótimo, isto melhora tudo.
Grace gargalhou e o impediu quando ele foi sentar no sofá da sala. — Só... Vem cá, eu preciso arrumar meu cabelo.
Ian a seguiu, um tanto hesitante, até o quarto.
Não é como se nunca houvesse estado ali antes, mas era raro que fossem até lá quando não estavam em grupo — ao menos, desde que não tinham mais catorze anos.
Grace parou em frente ao espelho, pegando seus cremes com as mãos antes de começar a massagear os fios com os dedos lambuzados. Parou o que fazia e, com um gesto, resmungou: — Vai ficar parado aí feito um paspalho? — Ian fez uma careta, olhando da cama bagunçada para a poltrona que estava literalmente ao lado de Grace, perto o suficiente para que suas longas pernas encostassem nas dela se ele sentasse ali. — Senta logo, tá me deixando nervosa.
Ian cedeu, optando pela cama que era mais segura mas, ainda assim, pareceu deslocado ao repousar seu peso nela. Grace revirou os olhos e continuou o que fazia, de costas para ele, ponderando se devia raspar os cabelos outra vez para poupá-la do trabalho. Mas no fundo, ela gostava um pouco dessa parte também — se tivesse com tempo, era praticamente calmante arrumar os fios rebeldes. Seus movimentos eram ritmados, de uma rotina que vem acontecendo há anos, ágeis ao puxar os fios pouco crescidos com delicadeza — mas eles foram desacelerando quando ela olhou pelo espelho.
Ian estava observando-a com um brilho no olhar, quase como uma... admiração? Dan a olhava com admiração também, assim como seu pai, mas aquilo era diferente — era como se a estivesse venerando. Definitivamente era esta a palavra: veneração. Ele não a olhava assim há muito tempo, ao menos, que ela soubesse. Fazia coisas com ela.
Grace engoliu em seco antes de virar-se bruscamente, sobressaltando-o. Ian piscou, apressado, levando a cara de bobo que tinha um segundo atrás.
— Você chegou a assistir algum episódio sem mim?! — acusou, mas a voz saiu um pouco aguda pelo nervosismo, apenas querendo mudar o foco dele.
Ian ainda piscou, recompondo-se, antes de revirar os olhos. — Claro que não.
Grace torceu o nariz, estalando a língua em seguida. — Acho bom mesmo.
Eles haviam começado a assistir One Piece juntos, anos atrás — antes das coisas ficarem esquisitas entre os dois e antes delas voltarem a se acalmar outra vez. Tornou-se algo deles — e, em se tratando do anime, algo que parecia ser infinito. Às vezes eles passavam semanas, ou meses, sem assistir, mas logo um deles retornava com a ideia e eles voltavam em uma maratona que durava dias seguidos. Se não era na casa de um, era na casa do outro.
Foi engraçado como isto começou, porque Ian não assistia nenhum anime — neste sentido, ele nunca foi um nerd —, era Grace quem gostava. E ela o forçou a assistir o primeiro episódio, em parte como desculpa para fazerem algo juntos, só os dois — algo que ela só admitiu para si mesma muito tempo depois — e em parte para compartilhar as coisas que gostava com ele. Ian criticou muito no início, na época bem mais resmunguento do que agora, mas ele havia gostado — é claro que havia — e agora eles já haviam passado de oitocentos episódios.
Grace arrancou Ian de seu quarto o quanto antes, tentando arrancar a sensação morna que se espalhava em seu peito feito uma praga.
O sofá da sala era velho, gasto, e meio desconfortável, então eles sempre sentavam no tapete, com muitas almofadas, e apoiavam as costas no sofá. Assistiam os episódios no notebook, e sempre o colocavam em cima da pequena mesinha de madeira central.
Ian havia trazido besteiras para comer, é claro que havia — depois que começou a comer melhor por conta das recomendações médicas, ele descontava toda a sua frustração degustativa nas suas sessões de anime.
Eles relaxaram aos poucos, como sempre faziam, apenas depois do clima esquisito inicial. Era sempre assim. E logo estavam gargalhando ou tendo crises de raiva — dependia do enredo do episódio —, ou então emocionando-se silenciosamente sem que nenhum dos dois quisesse derramar lágrimas na frente do outro.
Passados alguns episódios, depois de devorarem quase todas as guloseimas, Grace virou-se para o Ian para compartilhar sua teoria do que viria a seguir. No entanto, assim que bateu os olhos nela, Ian os desviou para o outro lado da sala ao passo que as orelhas avermelhavam na velocidade da luz.
Grace franziu o cenho, estranhando, ao estreitar os olhos.
— O que foi? — foi logo exigindo, impaciente.
Era só o que faltava — depois de finalmente ficarem bem, Ian começar a agir desta forma, enviando-lhe sinais conflituosos, deixando-a frustradamente confusa outra vez. Preferia morrer do que ter que voltar a ficar esperando por Ian, feito uma idiota apaixonada, insegura sobre sentimentos que poderiam jamais serem recíprocos.
Se possível, Ian pareceu ainda mais embaraçado.
— Nada, é só que... — Grace viu que ele engoliu em seco e bufou impaciente para apressá-lo a desembuchar. Como resposta, Ian fez um gesto vago em direção a ela. — O seu... A sua...
Quando ele apontou outra vez, ainda sem olhar para ela, Grace abaixou o olhar apenas para ficar mortificada. Praticamente todo o lado esquerdo de seu sutiã preto estava à mostra, a manga curta da camiseta tendo caído sem que ela percebesse, quase encaixada na dobra do cotovelo. Se não o estivesse usando, estaria praticamente com um seio saltado para fora.
— Ah. Merda.
Era nisto que dava sentir-se confortável demais na própria casa, em um domingo qualquer, com um amigo de infância que deveria ser apenas um amigo. Sua camisa velha, de andar em casa, tinha um corte enorme como gola — um corte que esgaçava mais com o passar do tempo, desfiando-se, que permitia que um dos ombros sempre ficasse à mostra. Não havia a opção de ter os dois ombros cobertos e, se elas os encolhesse contra o pescoço, quando em pé, a camisa seria capaz de cair até a cintura. Este era o nível de “camisa velha de andar em casa”.
Pelo menos ela usava um sutiã decente e comportado, pensou depois, sentindo as orelhas arderem. Se este fosse qualquer outro amigo — Caleb, Mason, Alex, Topher, Korn e até mesmo Dan —, ela não se sentiria metade envergonhada do que se sentia agora. Diria um comentário sarcástico e deixaria para lá mas, por algum motivo, depois do comentário provocativo do seu pai a respeito de pretendentes, aquilo a constrangeu demais.
— Você não viu nada — murmurou, depois de puxar tanto a camisa para cima que sentiu o corte dela ir parar atrás, a julgar pelo frio súbito nas costas.
— Não, não vi nada — apressou-se em concordar ele, os olhos grudados na tela do notebook, sem piscar, o rosto feito um pimentão.
Aquilo a divertiu, pelo menos, e ela soltou um som pelo nariz. Ainda assim, ela ficou um tanto indignada com a capacidade nula dele de disfarçar o constrangimento.
— Então por que tá vermelho igual um tomate maduro?! — provocou, tentando soar irritada.
Ian abriu e fechou a boca algumas vezes, o cenho franzido. — Porque...
Ele até tentou, mas não pareceu encontrar nada, e Grace bufou.
— Não foi nada demais, relaxa — optou por tirá-lo do sofrimento.
O episódio acabou um minuto depois em uma nota engraçada mas Grace foi a única a soltar um risinho fraco, ainda desconfortável, enquanto Ian não parecia sequer prestar atenção. Outro episódio iniciou no automático mas Ian ainda tinha o cenho franzido e, passado uns dois minutos, ele suspirou, parecendo frustrado.
— O que foi agora, Ian? — reclamou, impaciente.
Ian inclinou-se para pausar o episódio no notebook antes de virar-se para ela. — Eu não tava olhando — defendeu-se, sério.
Grace sentiu o sangue novamente subir para o rosto mas, desta vez, começava a ficar irritada de verdade. Isso era assunto que se discutisse? — Ian — avisou, em um grunhido.
— É óbvio que eu vi, por isto que te avisei, mas eu realmente não fiquei olhando para você desta forma — insistiu ele, soando quase agoniado.
Grace estava prestes a dizer que era óbvio que sabia, afinal, viu que o garoto mal olhou na direção dela — que dirá dos seus seios — antes de virar o rosto à la Exorcista para o outro lado do cômodo. Algo na maneira como ele formulou aquilo, no entanto, mudou a direção dos seus pensamentos.
Era tudo o que ela precisava: descobrir, com todas as letras, que Ian não olharia para ela "desta forma". Que maravilha. Se não estava com raiva antes, estava agora.
— Ah, sim, muito obrigada por elaborar — retrucou, ácida, sem saber por que aquilo havia tocado em um nervo.
Ian piscou, confuso, feito o pateta que sempre foi, antes de suspirar.
— Não foi isso o que eu quis dizer — murmurou.
Grace queria ter dito, como em situações normais sempre dizia, que “deixa quieto, Ian” antes que ele acabasse estressando os dois. Mas o que saiu, ao invés disto, foi uma exigência mordaz: — E o que foi que quis dizer?
Não deveria ter insistido, sabia disto, estava caindo em velhos hábitos de quando absolutamente tudo tocava um nervo seu no que dizia respeito ao Ian. Nos mesmos hábitos que os faziam brigar o dia inteiro, não mais suportar a presença um do outro, viverem em meio a uma áurea esquisita onde sentiam muito e não falavam nada — bom, nada que não fossem provocações mútuas.
Ian bufou, remexendo-se no lugar.
— Eu só... Eu não quero que pense que eu sou um depravado que fica olhando desrespeitosamente para as mulheres desta forma — embolou-se, soando muito chateado —, muito menos para você. Eu vi sem querer, mas eu nunca olharia para o seu corpo desta forma sem sua permissão. — Grace piscou algumas vezes, e Ian se remexeu outra vez, desconfortável, sem conseguir olhar para ela. — Eu... sei que sou um idiota com você, às vezes, mas eu nunca te faltaria com respeito, Grace, nunca mesmo.
A maneira como ele falou aquilo, com gravidade, fez com que seu estômago retorcesse. Grace engoliu em seco, digerindo o que havia escutado, a irritação diluindo-se com rapidez. — Eu sei — murmurou, apenas.
Ian dirigiu-lhe o olhar, receoso, e os cabelos castanhos percorreram seu rosto em busca de algo antes que assentisse ao parecer encontrar. Seus ombros caíram, então, e ele pareceu aliviado com a resposta dela.
— Espera, o quê? — disparou Grace, um instante depois, quando repassou as palavras ditas.
— O quê? — perguntou Ian, de volta, franzindo o cenho.
— Você disse que não olharia para o meu corpo sem a minha permissão — apontou, sem pensar, sarcástica. — Então, o quê? Se tiver minha permissão, você vai olhar? — brincou.
Grace arrependeu-se instantaneamente, assim que as palavras saíram de sua boca. Aquele famoso segundo para pensar — que ela deveria ter usado antes, a propósito — e os próximos segundos de reação do Ian confirmaram que ela deveria sempre pensar antes de falar.
— Eu... Eu não... — gaguejou, e se ele havia avermelhado antes, agora parecia que toda a cor havia sumido de seu rosto.
Grace sequer processou o arrependimento antes que a curiosidade falasse mais rápido. Sem piscar, sem se mover, ela o observou gaguejar brevemente antes que sua boca abrisse em um “o” mudo.
Era um daqueles momentos, não era?
— Você não... o quê, Ian? — perguntou, mais firme do que pensou que a voz sairia, o coração batendo furiosamente no peito.
A atmosfera pareceu mudar, no silêncio da sala sem as vozes animadas, ao passo que eles se encaravam com intensidade. Ian havia parado de gaguejar mas seguia travado sem conseguir responder. O garoto sequer formulou mais uma palavra, a boca aberta em estática, os olhos arregalados como se visse a vida passar diante dos olhos. E a cor retornava com força ao seu rosto, seu pescoço, suas orelhas, até que ela parecer que iria explodir como em animes.
Grace não soube dizer quanto tempo ficaram assim, os dois, apenas se encarando sem ousar sequer se mexer — o ar entre eles tão denso que poderia ser cortado com uma faca, embora parecesse tão frágil que poderia diluir com uma única palavra.
E então um pigarreio desconfortável soou, quebrando o que quer que havia entre os dois ao mesmo tempo em que quebrava o contato visual. Foi tão brusco que os sobressaltou. Seu pai havia entrado na sala há sabe-se lá quanto tempo e não havia dado muitos passos porque estava parado na entrada da sala, olhando para os dois com uma sobrancelha arqueada.
— Atrapalho? — perguntou, debochado, ao passo que Ian negava com rapidez.
— N-não, senhor — respondeu, atrapalhado, a voz grave falha. Ele pigarreou logo em seguida, evitando o olhar tanto de Grace quanto de seu pai como se sua vida dependesse disto. — Eu já tava de saída — emendou, rapidamente, antes de erguer-se feito um vulto.
Grace, um pouco incomodada com a intromissão e mais um tanto anestesiada pelo ocorrido, ergueu a mão sem sequer perceber para segurar a mão do Ian com rapidez. Ele retesou no lugar, os olhos disparando para ela outra vez, arregalados em surpresa, confusão, incredulidade, e então desceram para a mão que segurava a sua.
Ainda sentada no chão, Grace falou, a voz soando estranha: — A gente não terminou o episódio.
Todos os seus nervos estavam incomodados que ele quisesse fugir daquela conversa, a primeira que tinham sobre o que havia entre eles. Aquilo que não deveria haver mais, porque eles eram amigos agora, não eram? Ian nunca sentiu por ela o que ela pensava, não era? E se ele sentiu algum dia, ele havia superado isto para manter sua amizade, não havia?
No momento, ele parecia estar tendo um curto-circuito diante de seus olhos. — O-outro dia — gaguejou, outra vez, a mão tremendo na sua.
Era como se ele não quisesse puxá-la mas também não soubesse o que fazer com ela. Seus olhos dispararam entre Grace e seu pai — que agora já estava na cozinha acoplada à sala e separada por um balcão, bebendo água ao encará-los descaradamente.
Grace hesitou, mas soltou sua mão, deixando-o ir. — Ok.
Ele foi, tropeçando nos próprios pés, sem olhar para trás uma única vez.
Seu pai esperou que Ian fechasse a porta da frente após sair por ela antes de soltar um riso pelo nariz.
— O que você fez com o rapaz? — questionou, e Grace disparou um olhar assassino para ele. — Ele parecia mais pateta que o normal.
— Você tava ouvindo?! — acusou, e o pai arqueou uma sobrancelha para o tom de voz.
— Tudo o que eu ouvi foi silêncio enquanto vocês olhavam na profundidade do olhar um do outro — debochou, e Grace sentiu suas orelhas arderem. — E algo me diz que eu deveria agradecer aos céus que ando meio surdo depois de velho — finalizou, com o nariz torcido.
— Pai... — resmungou Grace, mortificada, uma careta profunda no rosto.
Seu pai estalou a língua, terminando de beber água antes de começar a movimentar-se pela cozinha para fazer algo para comer. Grace seguiu em silêncio, abraçando os joelhos, encarando a tela pausada do notebook como se quisesse fazer um furo nela. Quando sua respiração finalmente começou a se acalmar, ouviu o pai perguntar, vazando julgamento:
— Mas tinha que ser um branco? — resmungou, estalando a língua.
Grace fechou os olhos, deixando a cabeça cair no sofá atrás, antes de resmungar alto como uma alma condenada. — Ele é só meu amigo, pai — finalmente disse.
Seu pai pareceu rir sozinho antes de dizer: — Sei.
As provocações começaram há muito tempo, quando Ian começou a aparecer com frequência em sua casa. No início, ela apenas se irritava com o pai, porque Ian não gostava dela dessa forma e ela jamais gostaria dele desta forma também. Mas o pai havia plantado sementes em sua cabeça e foi por causa dele que ela começou a se questionar se ele não tinha um pouquinho de razão.
Um tempo depois, quando Dan entrou para a panelinha e eles instantaneamente se conectaram, quem começou a frequentar sua casa mais vezes foi ele. Seu pai gostou do Dan de imediato — convenhamos, quem não gostava? Ele não havia pegado nenhum clima entre eles a princípio, mas ainda assim fazia comentários sobre como o Dan seria uma melhor opção do que o Ian. Ele dizia coisas como “eita, agora mesmo que esse branquelo não tem chances" ou “é de garotos assim que você deveria gostar, menos pateta que o outro” ou “se for o Dan, eu posso reconsiderar a idade que você tem permissão para namorar”. Grace não tinha certeza se eram mesmo brincadeiras, mas havia um limite do quanto seu pai era liberal, então é apenas óbvio que ele também implicava com o Dan — dizia que ele era tão bobo quanto o Ian. No fim, ele apenas ria às suas custas, parecendo muito divertido com a ideia de que havia dois garotos disputando pela atenção da filha.
Mas havia mesmo?, perguntou-se ela, repassando o que havia acabado de acontecer.
Depois disto, eles nunca mais conversaram sobre o ocorrido. Ian evitou contato visual prolongado por alguns dias e Grace teve tempo o suficiente para entender que nada de bom viria desta conversa. Era melhor que deixassem quieto mesmo, para evitar que houvesse uma ruptura da atual paz entre eles, e Ian pareceu chegar à mesma conclusão.
*
Duas semanas haviam se passado desde o tenso momento entre eles na sua sala de estar — e não era preciso nem mencionar que aquela foi a última sessão de anime — quando Caleb e Topher anunciaram o namoro.
Grace supôs que todos tiveram sentimentos conflitantes a respeito disto — ao mesmo tempo em que ficavam felizes pelos dois, ficavam sentidos pelo fim oficial de toda a saga Alex & Caleb. No entanto, ninguém sentia-se mais pessoalmente atacado por isto do que Ian — e apesar dele ter feito um trabalho bem maduro de entender e ficar feliz por eles, Grace sabia que ele estava muito incomodado com isto. Se ele ficou estranho depois do que aconteceu, então depois que os dois pombinhos começaram a namorar, aí sim é que Ian se fechou por completo.
Bom, fechou-se para Grace, pelo menos.
Aquela linha tênue que separava sua amizade restaurada de... todo o demais começou a enfraquecer. Grace decidiu que amava e odiava a sensação na mesma intensidade — porque ao mesmo tempo em que as dores de barriga retornavam, as borboletas vinham junto delas. A incerteza de que havia algo ali, entre os dois, voltava a deixá-la estressada mas os vislumbres de olhares trocados — tão carregados de sentimento — voltavam a deixá-la com frio na barriga. E eram poucos, os olhares, já que Ian havia se fechado agora como se não suportasse sequer manter as cordialidades — e, novamente, o que isto significava?
Fazia com que ela pensasse que eles nunca foram amigos de verdade, se a amizade era tão frágil para oscilar com qualquer coisinha. Ou que talvez a amizade houvesse mesmo sido efêmera — tão passageira quanto a vida curta de uma mosquinha. E que tipo de amizade é passageira desta forma? Não uma que pudesse considerar verdadeira, Grace pensava, certamente não uma que pudesse durar a vida toda. Então por que sentia que o que havia entre eles era forte o suficiente para isto?
É nisto que ela estava pensando quando chegou no colégio semanas depois — eles já estavam no final de maio, o frio já havia começado a dar uma exagerada na intensidade, apesar da crise climática dar um pane com alguns dias quentes como aquele.
Quando chegou no chafariz, apenas dois de seus amigos já haviam chegado.
— Ah, deixa? — insistia Dan, as mãos agarradas em um dos braços de Topher ao sacudi-lo. — Eu te convidei para me assistir também! — O coitado do Topher balançava para lá e para cá, segurando o riso. — Deixa eu ir.
— Não, eu tenho vergonha — murmurou ele, e Grace arqueou uma das sobrancelhas ao longe.
— Como assim “tem vergonha”? — reclamou Dan, indignado, mas Topher apenas riu. — Você quer ser ator mas tem vergonha de se apresentar?!
— Eu nunca disse que quero ser ator — explicou, um exemplo de paciência que Grace jamais poderia replicar. — E não é que eu tenha vergonha de encenar, é que eu tenho vergonha de encenar pra quem me conhece — enfatizou, com uma careta. — É diferente.
Dan revirou os olhos.
— Isso não faz o menor sentido!
Topher deu de ombros, com um sorrisinho. — Faz sentido para mim.
Grace chegou até eles e sentou ao lado de Dan, que finalmente soltou o braço maltratado de Topher para usar os dois ao abraçá-la com um sorriso largo no rosto. — Bom dia, minha rainha — cumprimentou, deixando um beijo em sua têmpora.
— Bom dia, meu rei — cumprimentou, no automático, ao devolver o beijo onde alcançou: em seu pescoço.
Eles tinham esta tradição ridícula que os fazia rir feito duas crianças no início, mas agora já haviam se acostumado. Todo dia o cumprimento era diferente: “bom dia, diva”, “bom dia, coração”, “bom dia, docinho” e Grace sempre replicava ao adaptar ao novo apelido — ou o contrário, quando ela era a primeira a vê-lo.
— E aí, Topher? — perguntou, inclinando-se para vê-lo do outro lado de Dan. Ele lhe dirigiu um sorriso. — Quando é a peça?
Dan soltou-a para virar na direção dele também, como se estivesse prestes a protestar, mas Topher apenas lhe dirigiu um olhar divertido.
— É amanhã, mas não convidei ninguém — apressou-se em enfatizar — e o Dan tá fazendo um escândalo.
Dan estalou a língua, fazendo cara feia antes de voltar-se para Grace, feito uma criança birrenta: — Mas eu quero ir!
Grace riu junto de Topher, mas arqueou uma sobrancelha para ele. — Nem o Caleb vai?
Topher arregalou os olhos, balançando o rosto de um lado ou outro, como se a ideia o apavorasse. — Claro que não!
Em seguida, ele explicou que Caleb entendeu muito melhor do que Dan os seus motivos de não querer enxergar nenhum rosto familiar na plateia. Grace tirou sarro de seu amigo, que apenas lamentou, dizendo que agora nunca mais convidaria Topher para assistir suas apresentações de dança, então Topher o pegou pelo braço de uma maneira parecida com a qual Dan fez com ele para pedir por perdão.
Grace revirou os olhos para os dois idiotas, mas sua atenção foi fisgada por ninguém menos que Ian. O motivo dele ter chegado mais cedo que todo mundo lhe escapou a compreensão no início, mas como Emma estava resmungando com ele sobre um teste de história que teria, a resposta veio junto.
Emma havia começado a estudar ali naquele ano. Ela estava em uma fase meio marrentinha, ainda não usava maquiagem mesmo que suas colegas usassem, e vivia com fones enfiados no ouvido. Os cabelos castanho-claros eram separados ao meio, sem nenhum penteado, e haviam sido cortados rentes pouca coisa abaixo dos ombros. Recém com onze anos e já havia passado da altura de Grace — não que ela fosse um parâmetro com seu metro e meio — então era de se supôr que seria alta como o irmão.
— Eu disse pra me devolver, Ian, que saco! — reclamava, pulando junto da mochila que quicava em suas costas, os braços esticados para cima.
Ian segurava um celular acima da própria cabeça, provavelmente a única pessoa que podia fazer isto com a irmã de modo que ela não alcançasse. — Então pede desculpas — resmungou, azedo, e ela deu um tapa tão forte no peito dele que ecoou onde os amigos estavam.
— Desculpas por não ser chata igual a você?! — grunhiu, fervendo de raiva. — Me devolve agora!
Caleb chegava quase ao mesmo tempo e, ao passar do lado deles, ficou na ponta dos pés para dar um peteleco na cabeça do Ian, que olhou para trás com indignação. — Devolve o celular da sua irmã, Ian.
Emma aproveitou a distração, já que Ian abaixou os braços no susto, arrancou o celular da mão dele com ódio e saiu correndo. Não antes de bradejar com uma raiva que só sairia de uma pré-adolescente irritada: — Você vai pagar por isto em casa!
Novamente, Grace ficava fascinada com relação entre irmãos, apesar dela ter que admitir que a relação desses dois era bem diferente da relação entre Cris e Cata ou até mesmo Caleb com Will.
Ian bufou antes de caminhar em sua direção e, ao alcançar Caleb com facilidade com suas passadas largas, devolveu o peteleco com um pouco mais de força. Caleb o empurrou e antes que ele o empurrasse de volta, Caleb correu até sentar ao lado de Topher. Ian revirou os olhos e, quando se aproximou, cumprimentou-os com um “oi” murcho antes de titubear no lugar até decidir sentar ao lado de Grace.
Ainda assim, dois palmos o separavam.
*
Durante a aula de educação física, Grace pensou que iria surtar.
Grace estava acostumada a vê-lo aos beijos com outras garotas — com outras mulheres, às vezes — nas saídas deles. Isso havia começado a acontecer com mais frequência depois que Dan e ela ficaram publicamente pela primeira vez, há mais de um ano. Então as mudanças com relação ao Ian voltar a se aproximar de Grace e dar sua aprovação para o suposto namoro dela com o Dan vieram acompanhadas disto: ele vivia ficando com outras pessoas. Ele era alguns meses mais velho que todos do mesmo ano, também, faria dezoito anos em outubro, então é óbvio que ele também havia passado por mudanças físicas.
Ian parecia mais velho agora, e não apenas mais alto como sempre foi, e não é como se ele nunca houvesse sido bonito, mas ultimamente, sua beleza tornou-se algo óbvio para os olhos alheios. Era em tal nível que agora ele havia se tornado foco da garota mais popular — lê-se: de beleza esteriotípica e extrovertimento social — da turma deles. E não é que Grace odiasse Cindy, mas que a desgostava profundamente. E não era apenas por conta das semelhanças dela com as garotas que costumavam fazer bullying com ela no colégio anterior, mas a própria Cindy não havia feito questão de ser qualquer coisa que não antipática com todos eles.
A garota jamais havia dedicado um segundo olhar na direção de Ian por todos esses anos e, pelo contrário, havia participado de algumas piadinhas direcionadas a ele na fase de crescimento onde ele foi fisicamente mais desjeitoso. Não eram piadas exclusivas, adolescentes não perdoavam ninguém, as piadas eram destinadas a todos da turma — inclusive à própria panelinha tóxica deles.
Assim que o ano letivo havia começado, no entanto, Ian tornou-se alvo da atenção nela, como se algumas engrenagens houvessem finalmente virado, e agora Ian fosse este cara alto e atraente. E não começou de forma sutil: Cindy aproximou-se para pedir emprestadas anotações da aula de física, porque Ian sempre tem anotações atualizadas das aulas — é assim que ele estuda, uma rotina que ele manteve por anos e que iniciou, curiosamente, com o objetivo de compartilhá-las com Grace. Desde então, Cindy vivia pedindo coisas emprestadas — lápis, borracha, livro didático, inclusive, um dia, havia pedido mordidas de uma maçã. Grace quase teve vomitou naquele dia.
E agora, ali estavam, no ginásio por conta da aula de educação física, e a garota novamente era inconveniente.
Depois de finalizado um jogo de vôlei, e faltando poucos minutos para o sinal, o professor deixou que eles descansassem enquanto alguns colegas jogavam bola apenas por querer. A panelinha estava atirada na arquibancada, julgando os garotos que estavam pingando suor por vontade própria, quando Cindy se aproximou.
Ela havia passado a aula inteira dizendo que estava com frio, apesar deles haverem estado se exercitando há pouco, então aproximou-se do Ian para pedir emprestado o casado que ele havia amarrado na cintura. Ian, sem jeito, apenas o entregou a ela sem pensar duas vezes. Pelo restante da aula, ela ficou perambulando para lá e para cá com o casaco que lhe chegava quase aos joelhos. Deu risadinhas, dizendo que era muito baixinha, e que era uma pena que ninguém além dele tivesse um casaco menor para emprestar — mas Grace viu que ela rejeitou o casaco de uma amiga de seu tamanho.
— Ian, como você é alto! — brincou, depois de passar na frente das arquibancadas pela terceira vez, com risinhos.
Grace revirava tanto os olhos na órbita que cogitou se não ficariam presos atrás da cabeça — e se isso sequer seria ruim, já que assim se livraria de ver a cena repugnante. Gostaria de poder arrancar os ouvidos também para se impedir de ouvir os sons nasalados e irritantes dela. Cogitou vomitar em cima dos dois.
— Ian, deixa de ser bocaberta, essa garota tá se atirando pra você — comentou Dan, gargalhando junto dos demais, ao passo que Ian ficava em três diferentes tons de vermelho.
— Tá nada, cala a boca — resmungou, relanceando para ver se as garotas de risinhos há poucos metros ouviam.
Caleb bufou, revirando os olhos. — Ian, pelo amor de deus.
— Claro que tá — emendou Topher, com um gesto vago —, faltou enfiar seu casaco no nariz e inspirar fundo.
— Parem com isso! — sussurrou alto, olhando ao redor, as orelhas vermelhas. — É da Cindy que vocês tão falando. Ela não tá afim de mim. Ela fica com caras tipo o Tim, quero dizer, é a Cindy! — retrucou, baixinho, como se isso dissesse o suficiente.
— Grande merda que ela é — atirou Grace, furiosa, e Ian hesitou.
— Não foi isso o que eu quis dizer — falou, os ombros caídos, com os olhos de cachorrinho abandonado nela. Grace bufou, olhando para longe.
— É, Ian, você tá um arraso — brincou Caleb, fazendo um gesto de “beijo do chef” —, oficialmente no mesmo nível do Patolino.
Topher franziu o nariz, batendo o ombro no dele, ao perguntar: — O que tem demais naquele imbecil?
Caleb sorriu, batendo o ombro de volta no dele. — Eu não saberia dizer, eu não gosto de imbecis.
Topher abriu um sorriso largo antes de fechar os braços em torno de Caleb e deixar beijos estalados em seu rosto. Os demais vaiaram, enquanto os outros seguiam zoando com o Ian.
— Um calor do diabo e essa garota de moletom — comentou Cristina, ao lado de Grace, julgando sem a menor discrição com os olhos fixos na garota.
Grace exageradamente concordou. — Exatamente, que nojo, desnecessária!
Topher tentou aliviar ao dizer: — Não é como se ele fosse casar com ela — defendeu o amigo, mas Ian ainda esgueirava olhares feridos para Grace.
Dan concordou com Topher e acrescentou para Ian, com um risinho: — Talvez ela só queira te dar uns beijos.
Grace dirigiu um olhar assassino ao Dan. — Ian consegue algo melhor do que isto — chiou, estreitando as orbes castanhas. — Capaz da língua dele cair se beijar essa garota, todo mundo sabe que ela passa o rodo no colégio!
Mason, que estava quieto até o momento, ajeitou os óculos e olhou para Grace reflexivamente: — Você costuma ser bem mais feminista normalmente.
Grace levantou do lugar, limpando a sujeira de seus quadris, com um bufo irritadiço. — Fiquem aí passando pano pra essa ridícula que não saberia o que é feminismo se fosse esfregado na cara dela — grunhiu, sem olhar na cara de ninguém — que eu vou me retirar enquanto vocês babam o ovo dela.
Ela marchou para longe, e Topher e Dan se entreolharam com algo que se assemelhava a um “eita” em suas expressões, enquanto um silêncio desconfortável caía entre eles.
— Eu não tava babando — comentou Mason, para Cristina, soando confuso.
Todos caíram na gargalhada outra vez, menos Ian, que coçava os cabelos suados com uma expressão perdida.
*
Grace não escapou muito dos comentários porque, na aula seguinte, Cristina a abordou quando sentaram juntas para uma tarefa entediante de linguagens. Todos já estavam de volta na sala de aula, e a professora abria as janelas com o nariz torcido para o cheiro fedido de suor enquanto alguns alunos mais calorentos se abanavam com cadernos.
Todos haviam sido pegos desprevenidos com o dia quente no meio do outono, mas eles se tornavam mais frequentes com o passar dos anos, fruto consequente das mudanças climáticas.
— Você podia ser um pouco mais discreta, sabe — comentou ela, pela primeira vez, enquanto escreviam nos cadernos.
Grace soube imediatamente do que ela estava falando. — Cala a boca, Cristina — resmungou, sem tirar os olhos do caderno.
Mas é óbvio que ela não iria calar a boca — quando é que Cristina a ouvia?
— Eu não sei como o Ian não percebe que você gosta dele — comentou, ignorando o grunhido alto de Grace ao continuar —, tem que ser muito burro, porque falta estar escrito no meio da sua testa de trouxa.
— Cristina! — grunhiu, entredentes, olhando dela para a professora para checar que não era ouvida.
Cris deu de ombros. — Só tô dizendo.
Grace suspirou, e elas caíram em silêncio por um instante antes que ela focasse os olhos na amiga. Cristina tinha colocado as mechas ruivas para detrás da orelha e o óculos havia escorregado um pouco para a ponta do nariz enquanto ela se curvava no caderno.
— Não é nada disso que você tá pensando — defendeu-se Grace, baixinho, olhando para ela.
Cristina não desviou o olhar do caderno ou sequer parou a caneta quando comentou, em um tom indiferente: — Você é muito iludida.
— Eu só não gosto daquela garota, tenho pavor dela — insistiu Grace, desviando-se para o seu caderno também mas movimentando o lápis nos dedos com ansiedade —, e não de é hoje.
Cristina finalmente olhou para ela, piscando algumas vezes como se isto a ajudasse a compreender. — Sim, nenhum de nós gosta dela, esse não é o ponto — disse, finalmente, no mesmo tom apático ritmado. — O ponto é que você é a única que reagiu assim e tá muito óbvio o porquê.
Grace soltou o lápis com raiva. — Não é isso, que saco!
Ignorando-a, Cris disparou: — O Dan sabe que você tá apaixonada por outro?
Grace dirigiu-lhe um olhar tão assassino que, se Cristina fosse uma pessoa normal, teria hesitado minimamente. No entanto, ela apenas piscou tediamente para as bochechas infladas de sua amiga.
— Eu juro que eu vou te matar, Cris — declarou, apenas, antes de ajeitar-se na cadeira para que ficasse meio de lado meio de costas para Cristina.
Pelo restante da aula, Cristina a ignorou de volta.
*
O carma não acabou por ali, mas Grace deveria saber que sua atitude frustrada acabaria chamando atenção e gerando consequências.
Apesar de se abster de opinar nas escolhas amorosas de Ian, desde que a colega de classe tomou interesse por ele, Grace tinha que admitir que estava agindo... fora do personagem. Tratava-se do timing, ela quis se convencer, porque o ano letivo havia começado há três meses junto da paixonite de Cindy mas há dois meses Ian havia cometido aquele deslize em sua amizade restaurada — o primeiro em mais de um ano.
Apesar do deslize, no entanto, Ian não estava agindo muito diferente de antes — no máximo, estava destinando-lhe mais olhares de cachorrinho chutado da mudança, mas nada além disto. Grace, no entanto, estava fora de si — ao menos isto podia admitir para si mesma. Com apenas um olhar venerado e algumas palavras sobre respeito consensual, e Grace estava de volta onde havia estado no ano retrasado: ansiando por algo que não tinha certeza se podia ter. E era pior, deu-se por conta, porque era o que sentia ano retrasado multiplicado pelo um ano e meio de repressão emocional.
Estava ferrada, era a verdade.
E então, assim que começaram a caminhar para a parada de ônibus, a primeira coisa que Dan disse foi: — Eita que a crise de ciúmes foi forte, hein?
Grace grunhiu algo para o universo, os olhos destinados ao céu antes de olhar para o amigo.
— Ah, não, você também não, Dan! — pediu em um choramingo quando começaram a colocar distância entre eles e o portão do colégio.
Dan apenas riu.
— Eu ficaria ofendido, na verdade, se não soubesse que isso aí tá se enrolando pra acontecer há anos — comentou, como se estivesse falando do tempo.
Grace deu um tapa em seu braço, reprimindo o riso. — Cala a boca, ridículo!
Dan sorriu e a abraçou com os dois braços, um por cima da mochila de Grace, apesar de isto dificultar a caminhada. Grace deixou-se ser envolvida pelo seu calor.
— Achei que você tivesse superado — falou, mais sério e mais baixo, um tempo depois. Grace desviou o olhar, desconfortável, uma ruga entre as sobrancelhas. — O que aconteceu? — murmurou, os olhos analisando-a com cuidado, mas Grace apertou os lábios. — Vamos lá, sou eu, fala comigo.
Grace suspirou, fechando os olhos, antes de resmungar: — Eu não quero falar, porque se eu falar vai se tornar algo real e eu não quero que seja.
— Coração, já é real, quer você queira ou não — brincou, afetuoso, usando uma das mãos para brincar com sua orelha.
Grace soltou o ar pelo nariz, abrindo os olhos. — Que saco.
Dan franziu o cenho, soltando-a do abraço para que andassem melhor, embora tenha escolhido manter um braço por cima de sua mochila.
— Isso tudo foi só por causa da loira azeda mesmo? — perguntou, um toque de diversão, mas curioso. — Foi só a menção dele seguir em frente com alguém do colégio? — insistiu, mais a fundo, porque já a conhecia o suficiente.
Grace bufou, impaciente.
— Não, eu só... Também, eu acho — admitiu, baixinho, ao chutar uma pedrinha. Se tinha alguém com quem conversar sobre isto, era o Dan, afinal de contas. Não tinha como escapar dele, tampouco queria. — Ele me disse umas coisas umas semanas atrás e eu fiquei com aquilo na cabeça.
Dan arqueou as sobrancelhas, surpreso. — Ah, é?
— Não foi nada demais, ele só... — apressou-se, mas não sabia como explicar a aura de “algo” que havia os cercado naquela tarde de domingo. — Como sempre, ele só deu a entender coisas sem nunca falar nada por completo.
Dan soltou um bufo desgostoso pelo nariz. — Ele não tinha parado de fazer isso?
Grace deu de ombros. — Sim, mas... ele fez outra vez. Foi diferente. Pareceu ter escapado sem querer — explicou, olhando para ele antes de desviar para a rua. — Eu insisti que ele elaborasse mas ele literalmente fugiu antes.
— O que ele disse? — perguntou, a curiosidade atiçada.
O rosto inteiro de Grace queimou no mesmo instante, de vergonha, ao relembrar o que Ian havia dito sobre jamais olhar para o seu corpo sem permissão. Se ela contasse isso, teria que revelar o porquê do comentário: que ela ficou quase seminua na frente dele sem querer. E que se ela houvesse usado um sutiã furado ou mal posicionado, podia ser que Ian tivesse visto mais do que uma simples sugestão de seus peitos.
Grace negou com a cabeça, pigarreando, desconfortável. Um sorriso matreiro surgiu no rosto de Dan e começou a se espalhar por seu rosto.
— Ah não, agora eu quero saber — insistiu, rindo em antecipação.
— Cala a boca — resmungou, tentando conter o sorriso. — Eu não vou te contar isso, é estranho.
Dan não desistiu facilmente, mas Grace o venceu no cansaço. Quando estavam quase chegando, caíram em um silêncio que, em seguida, foi quebrado por ele.
— Você tá apaixonada por ele?
Grace engoliu em seco, desviando o olhar, mas não respondeu.
Uma parte sua queria gritar que sim, mas a outra já havia se convencido de que isto era apenas apego ao seu crush inocente de quando tinha catorze anos. Ambas partes concordavam que paixão era uma palavra muito forte, mas nenhuma a negava por completo.
— Hum — murmurou ele, pensativo, quando a resposta não veio. — Vou ser sincero com você, rainha. Uma parte de mim ainda acha que a gente foi feito um para o outro — admitiu, e Grace arqueou uma das sobrancelhas. — E que a gente só tá no tempo errado por enquanto — ditou, os lábios tentando repuxar um sorriso apreciativo. — E que a gente ainda vai ficar junto daqui uns anos, sabe, e se apaixonar desesperançosamente — riu, e Grace acabou imitando-o.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes, até o sorriso desvanecer aos poucos, antes de admitir para ela:
— Essa parte de mim não quer abdicar de você. — Grace apenas piscou, mas sustentou o olhar límpido de brincadeiras. — Essa parte de mim quer se meter no meio da sua relação com o Ian, te convencer a largá-lo de mão e ficar só comigo. Essa parte não quer te ver nos braços daquele bobão.
Dan acabou rindo, por fim, e Grace se juntou a ele. Mas os dois sabiam que não era brincadeira, não de verdade, e Grace ficou pensativa por um tempo, sem saber o que dizer.
— E a outra? — perguntou, voltando os olhos para ele.
Dan abriu um sorriso largo que chegou até os olhos, que brilharam com um misto de alegria juvenil, divertimento e afeto ao pousar nela. — Ah, coração, a outra só quer fofocar com você até a madrugada sobre todas as besteiras que esse garoto fez que te fazem feliz.
Grace acabou rindo ao perceber que, com exceção do assunto Ian, já era isto o que viviam fazendo há quase dois anos. Dan pensou o mesmo e, com o clima voltando a ficar leviano entre os dois, ele puxou-a até que ela repousasse a cabeça em seu ombro.
— Sabe o que eu acho? — perguntou ela, desta vez, pensativa. Dan murmurou um “hum?” e ela continuou: — Eu acho que nós somos almas gêmeas, coisa de outra vida — divagou, e ele cantarolou em concordância. — Acho que a gente é tão certo junto que faz a gente acreditar que isso deveria ser mais do que é. Amizade não é coisa pouca, não, Dan — acrescentou, erguendo o rosto para olhá-lo com gravidade —, amizade como a nossa é coisa de outro mundo, é tão grandiosa que não tem por que tentar enfiá-la em uma caixinha romântica. — Grace olhou para frente novamente, e Dan deitou o rosto no topo de sua cabeça. — A gente não deveria pensar que ela seria “mais” assim, eu acho que seria o contrário: que ela seria “menos”. Acho que, se a gente fizesse isso, acabaria sufocando algo realmente bom.
Dan caiu em um silêncio pensativo por um momento antes que finalmente se desvencilhasse dela com um sorriso desistente. Ele suspirou, revirando os olhos, sob as sobrancelhas arqueadas de Grace.
— Eu odeio quando você tá certa — resmungou ele, e ela gargalhou.
Desta vez, foi Grace que o puxou para perto, abraçando-o de maneira parecida sem que deixassem de caminhar, passando um braço em torno de sua cintura. — Eu tô sempre certa — concluiu ela, convencida.
Dan arqueou as sobrancelhas antes de ceder ao abraço, tentando não sorrir quando disse: — Em minha defesa... é fácil querer algo além de amizade quando você beija tão bem.
Grace deu um tapa em seu peito, sem se desvencilhar, o rosto esquentando. — Idiota. Para com isso. Chega de beijos — declarou, e ocorreu a ela que devia ser a décima vez que ela dizia isto desde que se beijaram pela primeira vez. — Agora é sério.
Dan cantarolou, abraçando-a com os dois braços outra vez ao aconchegar-se nela.
— Tá bom, mas só porque eu sei que você tá se esforçando muito — comentou, e Grace ergueu o rosto com uma expressão interrogativa. Dan deu de ombros. — Quero dizer, precisa ter muito autocontrole pra estar me negando beijos há meses. — Grace estreitou os olhos. — Eu não sou fácil de resistir, eu sei, você tem todo o meu apoio, guerreira.
O som do beijo estalado em sua testa após o “guerreira” despertou-a do choque indignado e Grace deu um tapa nele assim que processou o que ouviu. Foi tão forte que ardeu em sua mão, Dan sibilou e desvencilhou-se nela em um pulo.
— Vem aqui!
Ele saiu correndo, gargalhando feito uma criança ao driblar dos golpes dela até chegarem na parada de ônibus.
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