Made of Stone
70 LV. De todos os namoros do mundo
2021
Dezembro passou tão lentamente quanto a primeira metade do ano havia passado.
Óbvio que foi só porque eu reclamei — o universo se emburrou.
Desta vez, no entanto, havia algo de diferente. Os dias não se arrastaram dolorosamenre, eles apenas se demoraram um pouquinho mais, como se estivessem me dando um respiro. Era como se estivessem me dando espaço e tempo para que eu me deleitasse um pouco mais no que me fazia bem — e o que poderia, potencialmente, me fazer bem. Foi como se o tempo desacelerasse, propositalmente, para me entregar mais tempo fluido, compensando o tempo travado que eu tive o restante do ano; um tempo para mim.
Um tempo para simplesmente sentir.
Meu irmão fazia muita falta, e tê-lo de volta fazia as coisas parecerem estar de volta no lugar. Ele era intrometido e invasivo, a maior parte do tempo, grudento e manhoso demais pela saudade, e eu também me sentia pequeno vendo a amplitude da felicidade atual dele e me sentia amuado ao presenciar as expressividades do amor que exalavam dele e do professor. Mas, acima de tudo, eu me sentia aliviado com ele aqui. Eu me sentia em paz, a ordem reestabelecida na casa, tudo em seu devido lugar.
Eu dormia melhor.
Eles chegaram na metade do mês e foram embora dia três de janeiro, um pouco mais de duas semanas, e Will não precisou contar para que a gente soubesse que isso foi uma necessidade própria, porque ele sentia tanta falta nossa quanto a gente sentia dele. Mas eu também entendia que não iria durar e que logo ele estaria de volta em seu novo lar e nós estaríamos de volta em nossa nova rotina a três. No fundo, por mais que tudo parecesse em seu devido lugar, as diferenças ainda estavam lá, porque a verdade é que Will não estava mais onde pertence quando estava aqui.
Meu irmão pertence a outro lugar.
Um ano se passou e eu recém começava a entender isso.
E então o natal chegou, dois dias depois do início do meu imperfeito clichê com o Chris e eu estava cercado da minha família, então não me pareceu tão lamentável quanto no ano anterior, que eu estava no auge de uma agonia em ascensão. E os dias que seguiram foram tão plenos e serenos que eu não quis questionar o porquê, eu não quis pensar mais a fundo, com medo de que a sensação se dissipasse.
Eu simplesmente aproveitei.
O universo estendeu aquele final de ano como um presente, um que eu precisava mais do que cogitaria pensar, e eu saboreei cada minuto.
Quando chegou a virada do ano, eu abracei minha família e desejei tudo de bom, como se faz em todo ano novo, e bebi a champagne — por dois anos tive permissão, ao menos nesta data — até que meus movimentos ficassem um pouco lentos. E então, na primeira oportunidade que eu tive, corri para o quarto e chorei feito um bebê até que eu me acalmasse, sem entender exatamente o porquê.
Eu acho que foi, em um geral, por alívio.
Aquele ano horrível finalmente havia acabado.
Eu sempre achei tola a concepção de datas comemorativas, não era exclusivo dos aniversários de nascimento, mas todas as demais. Ainda assim, eu me peguei compreendendo, irracionalmente, óbvio, o porquê de uma data exclusiva trazer a sensação de renovação espiritual. Quando aquele ano miserável acabou e um novo — desconhecido — iniciou, eu me senti aliviado, como se um peso saísse das minhas costas. Eu senti que eu podia respirar ar fresco novamente, ar renovado, pelos meus pulmões sufocados. Eu senti que havia sobrevivido ao pior ano da minha vida e que ele finalmente ficou lá atrás.
Uma vozinha no fundo da minha cabeça, uma gentil para variar, sussurrava que talvez, apenas talvez, eu não precisasse sobreviver ao próximo ano — talvez eu pudesse unicamente vivê-lo.
E eu pensei muito sobre isso, porque essa finaleira do ano com baques tão significativos — encerramentos de datas ruins que datavam um ano, despedidas agridoces de dois amigos de colégio, a súbita realização de que estava tudo bem que meu irmão tivesse outro lar — fizeram-me perceber que, acima de tudo, eu não quero passar por isto tudo mais uma vez.
Eu não vou passar por isto tudo mais uma vez.
Este vai ser o meu último ano no colégio, ele não pode ser ruim, então eu decidi que ele não seria ruim.
Ao menos, não começou ruim.
O ano mal havia começado e meu irmão teve que retornar a Lydris, passando para ficar uns dias em Mallow Coast com o Turner. As despedidas foram cheias de ternura, sorrisos, lágrimas, abraços e corações apertados, tratava-se do meu irmão, então deveriam ser dramáticas mesmo. E por mais que eu já sentisse sua falta antes mesmo dele ir embora novamente, eu não senti que morreria por dentro desta vez. Eu me senti apenas contente que ele tivesse para onde ir e que ele sempre teria para onde voltar.
Assim que eles se foram, eu passei a ter todo o tempo do mundo novamente — quero dizer, sem visitas, sem aulas, sem afazeres, sem nada. A ideia de não ter rotina nenhuma me aterrorizou, porque eu tive muito medo de que eu caísse no mesmo abismo ruim das férias do ano passado, então eu evitei ficar sozinho com os meus botões. Isto significou duas mudanças específicas: eu comecei a passar mais tempo com o Chris, não mais do que antes, só que a maneira que a gente passava junto, desta vez, era bem diferente; e o meu emprego de jovem aprendiz de verão, atendente de sorveteria, quatro horas diárias e uma grana decente para que eu pudesse ajudar em casa.
Referente ao Chris, nós não conversamos sobre o que aconteceu por praticamente duas semanas. Não é que as coisas tenham ficado estranhas, apenas que nenhum de nós parecia ter coragem ou desinibição o suficiente para continuar de onde paramos. Ele começou a mandar emojis de coração no final de frases, ou flertes rápidos antes de mudar de assunto drasticamente, e se demorar ao dar boa noite. Mas nunca chegou a comentar sobre o beijo ou sequer tentou me beijar outra vez.
Isto é, até o final da primeira quinzena de janeiro.
Nós estávamos, mais uma vez, sentados no sofá da minha sala ao assistir um filme qualquer — passamos horas tentando decidir qual seria o melhor, mas no fim, escolhemos um de terror bem mediano. Eu até que estava prestando atenção — e julgando o diretor do filme —, mas minha nuca estava formigando do tanto que Chris me encarava, então eu parei de prestar atenção, olhando-o pelo canto de olho até ficar impaciente.
— O que foi? — perguntei, arqueando uma das sobrancelhas.
Chris piscou, como se recém se desse por conta que estava me encarando, e virou o rosto para a televisão com um riso nervoso.
Muito sutil.
— Nada, eu só... — comentou, pigarreando, desconfortavelmente. Relanceou-me umas duas vezes antes de deixar os ombros caírem, desistindo antes mesmo de tentar. — Nada.
Arqueei as sobrancelhas, sendo eu a analisá-lo desta vez, enquanto ele tinha os olhos no filme, parecendo muito desconfortável e embaraçado, obviamente sem sequer prestar atenção. Eu não o julgava: o filme era péssimo. Ele pareceu sentir que eu o olhava, como eu havia sentido, e focou os olhos em mim rapidamente antes de repetir, novamente, que não era nada. Só que os olhos castanhos alternavam entre os meus olhos e minha boca, antes de desviarem para a tela outra vez.
— Você quer me beijar de novo? — disparei, antes de pensar.
O embaraço me atingiu mais tarde, atrasado, mas naquele momento tudo o que eu senti foi um tanto de divertimento. Era estranho me sentir assim, como se eu tivesse algum controle sobre o outro, como se eu soubesse o que ele estava sentindo sem que ele precisasse falar e, ainda por cima, pudesse me divertir com isso.
Esta definitivamente era uma sensação nova.
Chris girou o rosto para mim de supetão quando entendeu as palavras, os olhos arregalados feito o Bambi, a boca aberta em surpresa. Ele ficou envergonhado, o suficiente para que o embaraço finalmente me alcançasse também, e eu senti as bochechas começarem a arder ao mesmo tempo em que as dele coravam.
— Não! — exclamou, rapidamente, com um riso nervoso. — Não era isso o quê... — Impediu-se, engolindo em seco, ao olhar para mim sem subir os olhos aos meus, embaraçado. — Bom... — Abriu um sorriso hesitante, focando os olhos em meus lábios. — Um pouco — admitiu, coçando os cabelos de trás da cabeça antes de deixar as duas mãos caírem no colo, como em desistência. — Muito. Sim.
Senti todo o sangue subir para o meu rosto.
Tudo bem que eu imaginava que eu estava certo, devido à maneira que ele estava agindo e, bom, devido à sua declaração de duas semanas atrás. Por mais que eu pensasse que era exagero da parte dele e que ele não estava apaixonado coisa nenhuma, eu sabia que gostar de mim, ao menos, ele gostava. E eu começava a me questionar se eu não estava gostando dele também, ainda que fosse apenas um pouquinho. Mas era diferente ouvi-lo dizer, com todas as letras, que quer muito me beijar, e toda e qualquer confiança que eu tivesse com ele vacilava ao dar lugar à vergonha.
— É óbvio que eu quero beijar você de novo, Caleb — decidiu deixar ainda mais evidente, para piorar a situação, com um sorriso tímido.
Escondi os lábios, sentindo as orelhas queimarem, quando pensei em recuperar um pouco da minha autoconfiança passageira — sem sucesso. Acabei assentindo, assim, meus olhos nos olhos dele, e ponderei o que deveria dizer a seguir, mas Chris foi paciente.
— Tá bom — concordei, baixinho. — Então... Vá em frente.
A coragem que tive para dar o sinal verde não era abrangente o suficiente para que eu me aproximasse por conta própria, então esperei que ele fizesse isso para nos tirar do sofrimento.
Os olhos do Chris me analisaram cuidadosamente, ainda que brilhassem um pouco ao combinar com o sorriso leve de canto, como se buscasse sinais a mais. Ele hesitou, embora eu pudesse ver que seu corpo havia se inclinado em minha direção, mesmo que inconscientemente.
— Mas você quer também?
A pergunta saiu cautelosa, baixinha, insegura, e eu tive que me segurar para não responder um rápido: dã, claro que sim, por duas semanas inteiras. Eu não tive coragem, no entanto, então eu apenas acenei com a melhor expressão que pude que dissesse: me beija logo.
Bom, era verdade.
Eu não imaginei que eu pudesse me sentir assim, tão leve e tão fácil, mas tudo o que eu quis por duas semanas foi que ele me beijasse outra vez. Cheguei a sonhar com isso, que ele aparecia no meu quarto outra vez com aquele sorriso tímido e hesitante antes de tomar meus lábios para ele uma vez mais. Eu queria que ele me beijasse, óbvio que eu queria, por duas semanas inteiras isso foi tudo o que eu pensei.
E talvez isso fizesse de mim um adolescente hormonal e bastante mundano agora, mas que seja.
Chris não me pressionou para que eu dissesse com todas as letras, mas alguma coisa em meu rosto deve tê-lo informado que eu falava a verdade, porque seu rosto relaxou. Então ele sorriu, sem insegurança ou hesitação desta vez, e aproximou-se de mim no sofá, já tendo virado todo o corpo na minha direção. Sua mão encaixou na curvatura entre minha mandíbula e meu pescoço e então ele me beijou, mais confiante que da primeira vez.
Eu suspirei, com contentamento, ao beijá-lo de volta.
Um ano havia iniciado e eu pensei que...
Algo assim não deveria ser complicado e eu não deveria repensar tudo o que faço.
Podia ser que eu não estivesse apaixonado por Chris e que, bom, eu ainda não houvesse desapaixonado do Alex, mas se querer beijá-lo todo dia fosse qualquer indicação de que eu gostasse um pouco dele, eu não precisava de mais nenhuma. Eu queria ficar com ele tanto quanto ele parecia querer ficar comigo — e eu não havia me declarado, mas ele não parecia se importar com isso. Seus lábios eram macios e gentis e tinham gosto de doçura, e a maneira como a gente parecia se acomodar em uma sessão de pegação tinha gosto de destino. Suas mãos eram grandes e afáveis, sempre respeitosas ao encostar em mim, cheias de promessas de cuidado e afeto que eu nunca poderia compreender.
Passada curiosidade inicial, o beijo tornou-se mais profundo, mais ansioso, mais apressado. Eu arqueei as sobrancelhas no meio de tudo, os olhos fechados sem nada ver, seu braço circundando a minha cintura ao acomodar-se ainda mais próximo de mim, ainda mais quente, ao passo que meu braço direito estreitava no aperto entre seu ombro, o topo de suas costas e seu pescoço.
Meu cérebro começou a falhar, eu parei de sequer pensar, as vozes da minha cabeça gaguejaram sem nada conseguir dizer. Tudo o que me permiti foi sentir, sentir mais um pouco, sentir um pouco mais. Àquela altura do campeonato, eu sequer lembrava o porquê do bater angustiado do meu coração, bem lá no fundo, disfarçadamente.
Beijar, como eu havia chegado à conclusão, era sempre bom. Mas beijar com essa intensidade afoita também era algo relativamente novo e meu cérebro estava tendo dificuldade em processar a sensação. Isso talvez fosse um potencial problema, por tantos motivos diferentes, mas eu não estava conseguindo pensar o suficiente para interromper o beijo. Por sorte — ou azar, uma parte de mim insistia —, aquilo não precisou ser problema nenhum naquele momento, porque fui eletrocutado para fora do meu estado embriagado pela porta da frente se abrindo.
Em um instante, estávamos sentados no sofá, tão agarrados que podíamos ser uma pessoa só, e no outro, três palmos nos separava ao sentar-nos feito dois bons meninos virados para a televisão.
Mamãe fez questão de me arrancar do momento épico adolescente de exploração sensorial interpessoal.
Meus lábios formigavam, meu coração retumbava nos ouvidos, e minha barriga sentia cócegas. Eu mal relanceei Chris, mas pelo pouco que vi dele, ele tinha os olhos alargados como criança que aprontou, os lábios estavam inchados — senti uma pontada na base da barriga ao perceber que causei isto —, o peito subia e descia como se houvesse levado susto dos jump scares mais previsíveis do mundo que passavam na tela. Também não me passou desapercebido que ele tinha sorte de ter os cabelos curtos, porque os meus estavam uma bagunça, a evidência estava bloqueando um pouco minha visão do Chris.
Minha mãe nos cumprimentou da cozinha, largando bolsa, casaco e chaves em cima da mesa com um suspiro cansado. Eu não pude evitar relanceá-la, porque de que outra maneira eu saberia se ela suspeitava de alguma coisa? Mas apesar de não haver olhos esverdeados estreitos em nossa direção ou algum comentário sabido, ela ainda assim pareceu sorrir consigo mesma de uma piada interna.
A piada certamente era eu.
Nos dias que se seguiram, eu e Chris não precisamos de alguma desculpa para nos beijar, a gente simplesmente se beijava. Essa rotina nova começou na próxima vez que a gente se viu, quando eu fui até sua casa, e assim que ele fechou a porta do quarto atrás da gente e murmurou mais um “oi” que eu respondi prontamente, a gente simplesmente se beijou. Desde então, nossos encontros tem sido assim.
A entorpecência da descoberta nova de sensações intensas sobre beijos afoitos foi diminuindo à medida que a descoberta não era mais tão nova, então meu cérebro não fritava o suficiente que me impedisse de dar um fim ao beijo e impôr limites. Chris também pareceu se encontrar da mesma forma. Mas sempre que podíamos estávamos nos beijando, e isto era sempre que estávamos sozinhos, e nós sempre encontrávamos uma maneira de ficar sozinhos. Chris sempre pedia permissão para me beijar, feito um perfeito cavalheiro e eu sempre respondia que sim, que sim, e que sim outra vez.
Em pouco tempo, descobri que era muito fácil dizer que sim para o Chris.
Foi assim que eu passei as férias inteiras: em casa — na minha ou na dele — com o Chris, aos beijos, ou enfiado em uma sorveteria com uma chefe tagarela e exageradas amostras grátis. Quando nem um nem outro, eu ainda evitava ficar sozinho, então arrastava algum dos nossos amigos até a minha casa ou me arrastava até a casa deles.
Eu quase acreditei que virei um adolescente normal.
E então veio o dia que eu, novamente, espiei o celular de um amigo — desta vez, Bex, em um encontro grupal raro — quando o assunto de Alex retornou à boca do grupo e eles abriram seu perfil para falar e mostrar atualizações sobre ele. Não que isto fosse estranho, inclusive, depois de mais de um ano, pelo menos isto eu conquistei: o costume em ouvir falar, e mostrar, e ouvir, sobre o Alex sob a perspectiva dos meus amigos. Afinal, ainda que Alex não fizesse questão de ser nem ao menos meu amigo, ele ainda era amigo dos meus amigos. E ao menos eu soube acostumar-me com a falácia sobre ele — e participar, inclusive, de uma maneira distante e monossilábica — sem me sentir um limão azedo no sol.
O problema foi a atualização em questão.
Haviam algumas fotos novas em seu perfil, e Bex não se demorou mostrando algumas para todos, e alguns vídeos novos dele tocando e cantando. O perfil dele não tinha nenhuma foto sua desde um pouco antes dele ir para MC, apenas fotos de paisagens, lugares, objetos, memórias que remetiam a alguma coisa. Ele apenas aparecia nos vídeos publicados, por motivos de divulgação, e apenas depois que criou seu perfil profissional — antes, mesmo nos vídeos, ele apenas filmava o violão ainda que também cantasse. Essas informações eu fui juntando pouco a pouco, sempre pelo canto de olho ou diretamente quando algum da panelinha deliberadamente mostrava algo dele para todos verem.
Naquele dia, o que chamou minha atenção estava nas atualizações diárias, aquelas que duram apenas vinte e quatro horas. Elas continham um vídeo novo de um cover que remetia ao perfil profissional, algumas besteiras cômicas que ele compartilhou de outros perfis, uma vaquinha para ajudar algum pobre coitado a pagar pelas contas veterinárias de um doguinho, uma foto que ele tirou no bar onde aparecem ao fundo León e mais um colega de serviço, e a última foto, de alguém que eu não reconheci.
A foto em questão não focava em Alex, mas em outra pessoa, uma foto que Alex tirou. A pessoa que, à princípio pensei ser uma mulher devido aos cabelos longos e finos caídos nos ombros, segurava um milkshake nas mãos esguias e tinha o canudo envolto pela boca, o rosto de perfil virado para a janela de uma cafeteria. A foto não chegava a mostrar os olhos dele, iniciava no seu nariz e terminava em um segundo milkshake na mesa, mais próximo da câmera, obviamente pertencente ao Alex.
Eu espiei a foto que Bex segurou com o dedo para ler um pedaço de legenda — se eu conhecia Alex o suficiente, algum comentário besta sobre o momento —, e as letras eram pequenas o suficiente para eu não conseguisse ler pelo canto do olho. Mas eu pude ler a localização em letras maiores, Café e Bistrô Náutico, quando foquei os olhos no nome, também percebi que o pomo de adão não enganava que era provável que não fosse uma mulher, a suspeita confirmada pelo nome da marcação na foto, pouca coisa maior que a legenda, mas o suficiente para ficar legível para mim.
Durou uns cinco segundos, no máximo, enquanto eu bisbilhotava a foto pausada por Bex, mas o nome gritou.
Dean.
Dean?
Dean!
Meu coração bateu furiosa e dolorosamente, meu estômago embrulhou, minha cabeça girou e girou e girou. Nós estávamos sentados na grama frontal da casa da Grace, um piquenique improvisado proveniente de uma ideia súbita e divertida, e eu estava de estômago cheio. Eu juro que pude sentir tudo o que havia comido querendo voltar por onde entrou a ponto de que cheguei a salivar e suar frio. Meus olhos desfocaram sem nada ver por tanto tempo que eu tive que ser chacoalhado para fora da espiral em pânico.
E foi mesmo pânico o que eu senti?
Eu não sabia nomear o sentimento de ter alguém torcendo meu estômago como um pano sujo, querendo despejar o conteúdo no chão, um sentimento amargo que fez meu coração acelerar tanto que doía, ardia, latejava. O único motivo de eu não me entregar ao surto paranoico súbito foi a ânsia de vômito que me fez concentrar muito em impedir que o alimento voltasse, o que foi uma distração necessária.
Não era ciúmes, eu quis me fazer acreditar, mas sem conseguir me convencer disto, eu insisti: não é apenas ciúmes. Era muito mais do que isto, era um pensamento que gritava sussurrado: eu sei que não pode ser eu, mas por que ele?
Eu sei, eu entendo, eu aceito — não sou eu, nunca fui eu, nunca serei eu.
Mas por quê, dentre todas as pessoas do mundo, logo ele?
Aquele garoto, quero dizer, aquele homem usou o Alex de todas as maneiras possíveis, fez promessas que nunca sequer pensou em cumprir, jogou-o fora como se ele fosse um pedaço de lixo. Eu posso guardar muita mágoa e rancor do Alex, tendo sido chutado da sua vida, mas eu sempre soube que ele jamais me jogaria fora como lixo — eu não o perdoaria pelo que fez, mas eu conhecia suas motivações, eu sabia que isto era inteiramente diferente do que aquele cara fez com ele. E é exatamente por isto que doeu tanto ver que ele estava novamente saindo com aquele cara, dentre todas as pessoas, tomando milkshake ao contemplá-lo o suficiente para tirar um retrato seu e registrá-lo socialmente — marcá-lo em sua vida para o público.
E eu sei que eu estou fazendo suposições, porque minha mente rodopiou em julgamentos internos, sobre como aquele poderia ser outro Dean, afinal, não havia apenas um no mundo; sobre como eu não conhecia a história toda, já que Alex me contou apenas partes dela aqui e ali; sobre como aquilo não significava necessariamente que eles estavam juntos. Nada que minha paranoia considerasse repensar.
Sem falar que minha cabeça se voltava a me julgar de outros ângulos.
Não estávamos tentando seguir nossa vida, olhando para frente, sem esperar para viver? Não estávamos hoje mesmo, mais cedo, beijando Chris às escondidas no quarto, pensando que talvez estivéssemos finalmente superando-o? Não estávamos decididos a jamais perdoá-lo pelo que fez, ainda que ele voltasse para nós, ainda que implorasse por perdão, ainda que quiséssemos consertar apenas a amizade? Não estávamos entendidos que “jamais perdoá-lo” significa que jamais estaremos juntos, o que também significa que ele pode estar junto de quem ele quiser?
Ainda assim, naquele momento — e por vários e vários dias —, tudo o que eu conseguia responder era: qualquer um menos ele, não ele, ele não. E por mais que isto se explicasse, majoritariamente, porque este cara fez tanto mal ao Alex que isto era errado de todos os ângulos, eu também sabia que havia outro motivo. Eu não havia fechado totalmente a porta para o Alex, algo que comecei a pensar que era impossível, e ainda estava esperando por uma segunda chance para nós. Eu me odiava por isto — eu queria arrancar meus cabelos da cabeça por isto, mas eu ainda estava esperando por uma segunda chance. Aquele cara estragava essa chance, porque se havia alguém para quem eu pudesse perder o Alex para sempre, seria ele.
Eu não iria admitir isto para mim mesmo, afinal, até onde eu saiba, nunca houve chance alguma.
*
Quando o ano letivo iniciou, eu cheguei a pensar em fazer alguma mudança física para ter maior sensação de que aquilo era mais um recomeço. Cogitei, inclusive, cortar minhas madeixas escuras que começavam a fazer coçar minha nuca e meu pescoço no verão — mas eu havia me apegado estranhamente a elas. E, bom, se eu as cortasse é que eu estaria igual a antes, então pensei que talvez elas mesmas fossem a transmutação que eu esperava.
Ao menos me livrei um pouco das espinhas, pensei, torcendo o nariz para o espelho, embora algumas se mantivessem e outras que se foram tivessem deixado algumas marcas. Por sorte, as piores manchas de acne se concentravam nas minhas costas e não no meu rosto. Isto devia contar para alguma coisa.
Durante as primeiras semanas de aula, a gente sofreu o reajuste de ter menos dois amigos na panelinha. Havendo saído quatro em dois anos, com adição de apenas um, a coisa começou a se tornar um pouco triste, mesmo que fôssemos um número grande em comparação a outras panelinhas, que eram raras, a maioria dos alunos andava em trios ou duplas. Alguns sequer pareciam ter amigos no colégio, e as demais panelinhas pareciam mais colegas de amizades passageiras do que amizades reais. Fora nosso número diminuído e a sensação de estarmos órfãos de pais novamente — primeiro MJ e Alex, depois Korn e Bex -, não havia muita mudança entre nós.
Grace e Dan ainda eram um item que não se identificava desta forma, negando qualquer acusação nossa de estarem namorando às escondidas. Ian se reaproximou de Mason na ausência de Korn e seguia ficando com garotas aqui e ali; Grace e Cristina, na ausência de Bex, seguiam firmes e fortes ao excluir os demais de seus rolês das garotas; e Dan, também na ausência de Korn, aproximou-se mais do Chris. E, bom, havia Chris e eu, e é óbvio que isso não passaria desapercebido pelos demais por tanto tempo.
Eu gostaria de pensar que demorou o suficiente, já que estávamos nisto há dois meses antes dos comentários iniciarem, suponho que era devido ao costume de sermos mais próximos desde a chegada do Chris. Só que isto deixou de ser explicação o suficiente para o nosso comportamento mais aproximado, e eu não saberia apontar o que exatamente nos denunciava, até Dan acusar pela primeira vez:
— Desde quando a gente pode abraçar o Caleb?
No momento em questão, Chris tinha um braço ao meu entorno em um abraço lateral e desajeitado porque, em uma conversa paralela às demais, eu disse que ele não precisava trazer minha segunda escova de dentes já que eu estava sempre em sua casa mesmo. Tecnicamente, não seria a única casa onde haveria uma escova de dentes minha, havia uma na casa do Mason e do Ian também, mas, pelo visto, isso mereceu um abraço e um sorriso bobo da parte do Chris. Eu fiquei sem entender, mas aceitei o aperto, agora comum, que ele deu em meu corpo e, assim que ele relaxou os braços em meu entorno, não fez questão de retirá-los dali e eu tampouco fiz questão de pedir que retirasse. Engatamos outra conversa aleatória, baixinha, sobre o professor novo de geografia, quando Dan nos interrompeu com o comentário em uma sobrancelha arqueada.
Desde quando não podiam?, questionei-me rapidamente, mas logo lembrei de todas as vezes que afastei os toques dos meus amigos quando se demoravam demais em mim, nunca tendo gostado do grude.
Senti o braço do Chris tensificar um pouco ao meu lado, mas ele não retirou, hesitando com um sorriso nervoso.
— Esses dois aí, não sei, não — acrescentou Grace, olhando-nos de cima à baixo com falso julgamento.
— Não, porque quando é a gente — enfatizou Dan, com o tom acusador e divertido —, ele faz questão de se desencostar rapidinho. Eu acho engraçado...
Revirei os olhos quando Mason também comentou, neutro: — É que o Número Um pode fazer o que quiser, ele é o preferido do Caleb agora.
Todos gargalharam às nossas custas e Chris, cuidadosa e disfarçadamente, foi abaixando o braço até que ele o recuperasse de volta, entrando na conversa ao garantir que eu era todo do Maze, que não era para ele se preocupar. Mason revirou os olhos em resposta. E foi assim que os comentários sugestivos a respeito de nós começaram a se tornar diários, um novo tópico de zoeira entre todos, assim como Grace e Dan eram.
Umas três semanas depois, no mesmo cenário do chafariz em um intervalo qualquer, Grace perguntou: — Hein, o que tá rolando entre vocês dois, afinal?
Desta vez, no entanto, não era um abraço que havia chamado a atenção, era que eu havia discutido algo besta com o Chris e mostrei a língua, muito maduro, então ele meio que ficou me cutucando para fazer cócegas ou me dando pequenos e leves beliscões na barriga.
Chris estava de bom humor, o rosto ainda corado dos risos, quando gracejou: — Vocês não sabem? — Então, colocou um braço em torno da minha cintura, puxando-me para mais perto, e eu obviamente deixei, piscando um pouco demais com a intimidade exposta. — Caleb e eu estamos namorando.
Eu senti meu coração parar ali mesmo, ainda que por poucos segundos, porque a julgar pelo tom jocoso, estava mais do que na cara que ele estava brincando e todos souberam que ele estava brincando.
— E quem não sabe? — jogou Cristina, olhando por cima dos óculos com bastante tédio. Estreitei os olhos em sua direção.
— Há quanto tempo? — seguiu Grace, na brincadeira, depois de dar um tapa no ombro da ruiva. — Posso saber?
— Debaixo do meu nariz?! — arquejou Dan, paralelo a elas, estalando a língua ao balançar a cabeça de um lado ao outro em desaprovação. — Que decepção, Topher, sempre pensei que você me escolheria no final.
Chris revirou os olhos quase ao mesmo tempo que Grace. — Claro que eu te escolheria, mas a Grace fisgou você primeiro — optou por responder, em semelhante zoeira, ao passo que os demais riam. — E o Caleb foi mais rápido.
Dei de ombros quando os demais olharam para mim, indicando que eu concordava com ele. Eu não cheguei a falar nada, mas vi que alguma coisa no meu gesto fez Chris momentaneamente enrijecer ao meu lado e suas bochechas corarem, os olhos desviando-se, sem jeito, dos meus. Se mais alguém percebeu a reação fofa, ninguém disse nada.
— A gente também tá namorando há meses, não é, coração? — gracejou Dan, piscando um dos olhos para Grace, que riu e assentiu positivamente.
— Aham — concordou, com risinhos, embora o tom exalasse ironia. — A gente enrolou demais, mas tá na hora de todos saberem: Dan e eu fomos feitos um para o outro! — anunciou, e Dan empinou o queixo, muito orgulhoso, ao dar duas batidinhas no próprio peito.
Revirei os olhos, e alguns dos demais riram, apesar de eu ver que eu não era o único a achá-los ridículos.
— Caleb e eu também — acrescentou Chris, próximo do meu rosto, e eu pisquei. — Na verdade, a gente se prometeu desde os oito anos — inventou, embora uma parte de mim tenha hesitado ao me questionar se era verdade —, e agora ele é todo meu.
Senti minhas orelhas arderem, desta vez, e apenas relanceei seu sorriso confiante ao passo que seguia abraçado em mim.
— Não sei se eles tão brincando, não — comentou Cristina, para o namorado ao seu lado, que assentiu com o nariz torcido.
— Eu também não — concordou Grace, antes de me dirigir um olhar de cima à baixo, voltando-se ao Chris: — Mas só pode ser verdade — debochou —, porque o Topher não ia andar pra cima e pra baixo com o chato do Caleb se não tivesse apaixonado.
Estreitei os olhos, fazendo Grace soltar um risinho infantil em resposta, mas Chris, que ainda parecia um pouco embaraçado, acabou rindo alegremente ao me apertar ainda mais contra ele. — Ah, para — pediu a ela, a voz doce, ao olhar para mim com os olhos brilhando —, ele é um amorzinho.
Pisquei, começando a ficar um pouco envergonhado com a brincadeira, as orelhas ainda quentes, mas de alguma forma, isso fez um sorriso querer abrir-se em meu rosto e eu tentei contê-lo ao desviar o olhar.
— Se vocês tão namorando agora, isso significa que eu volto a ser o preferido? — questionou Maze, a expressão séria, embora eu pudesse identificar o tom jocoso.
Estreitei os olhos para ele, relembrando todas as vezes nas últimas semanas que ele ficou encarando silenciosamente minhas interações com o Chris como se pudesse lê-las.
— Pelo contrário — contrapôs Dan, de volta, achando engraçada a desgraça do Maze. — Agora ele é o Número Um duas vezes.
Revirei os olhos, optando por nada comentar, quando os demais caíram na gargalhada às nossas custas. Chris acabou desvencilhando-me de mim um tempo depois, fazendo um carinho rápido nos meus cabelos sem se afastar totalmente, o ombro ainda encostando no meu. Aquilo ficou martelando na minha cabeça, no entanto, mesmo que os demais se desviassem para outros assuntos e agora eu podia sentir o olhar de todos se demorarem um pouquinho mais na gente, uma dúvida persistente sobre até onde aquilo era brincadeira.
E eu também estava me perguntando o mesmo, mas de outro lado, eu fiquei pensando se era mesmo algo que Chris gostaria: namorar. E se eu gostaria também, mais para frente.
*
Depois de retornarmos à aula, eu pedi permissão para ir beber água. Eu estava inclinado no bebedouro quando ouvi uma porta sendo aberta e, em seguida, reconheci o par de tênis quando ele parou ao meu lado. Ele esperou sem dizer nada até que eu terminasse de beber e olhasse para ele.
— Ah, Ian, é você.
Fiquei um pouco surpreso de vê-lo tão sério, como se estivesse em uma missão, e logo entendi que ele não queria beber água. Não seria a primeira vez que alguns de nós usávamos pausas de beber água ou ir ao banheiro para conversar nos corredores mas, sinceramente, fazia muito tempo que eu não fazia isto com ninguém. Geralmente era com o...
Balancei a cabeça, afastando a lembrança.
Ian assentiu, como se precisasse confirmar que era ele, mas eu dei um desconto porque ele parecia concentrado no que quer que houvesse em sua mente. Então, ele verbalizou: — Você e o Topher — tentou, devagar —, é sério?
Pisquei, desconfortável, ao analisar a situação.
Dei-me por conta, então, que durante toda a brincadeira no chafariz, Ian não havia dado um pio o tempo inteiro. E eu também não prestei atenção nele naquele momento para saber o que estava se passando pela sua face — ou sua cabeça.
— É óbvio que a gente tava brincando, Ian — defendi, sem saber exatamente o porquê de ficar na defensiva quanto a isto.
Ian soltou um “ah” fraco, não muito convencido, antes de escorar-se no pilar ao lado do bebedouro com a faceta ainda em seriedade. Ele olhou para mim por um tempo, os olhos parecendo um pouco perdidos, antes de se tornarem analíticos.
— Mas não tem nada rolando mesmo?
Talvez tenham sido os olhos de cachorro abandonado que, quando sérios desta forma incomum, me lembravam tanto o Alex, ainda mais agora que Ian estava mais velho e seu rosto — e os olhos — não era mais infantis. Então, ainda na defensiva, eu disparei: — Não é da sua conta.
Ian piscou, parecendo desnorteado, e um sentimento amargo inundou minha boca. Percebi instantaneamente que havia exagerado no tom ríspido e cortante, e que aquilo não devia ser nada demais, então eu não entendia por que meu corpo agia como se eu estivesse em perigo com as perguntas pessoais do Cunningham mais novo.
— Desculpa — pedi, mais baixo, quando vi que ele continuou quieto.
Ian fez uma careta compassiva ao negar, como se descartasse meu pedido de desculpas, ao passo que a expressão tornava-se mais e mais enfadonha. Franzi o cenho, esperando por algo, porque aquilo parecia ser mais do que uma simples pergunta, a ponto dele haver saído do recinto para vir atrás de mim perguntar a sós ao invés de esperar para me mandar uma mensagem ou algo assim.
— Caleb... — tentou ele, soltando um suspiro frustrado antes de focar os olhos em mim. Então, baixinho, ele murmurou: — Você já conseguiu seguir em frente?
Siga a sua vida, ele havia dito.
Senti o coração apertar-se no meu peito, dolorosamente, enquanto eu tentava analisar a situação toda. A confirmação estava na ponta da minha língua, mas por algum motivo, eu não consegui colocar para fora. Se eu for sincero, aquilo havia me deixado apreensivo, porque pareceu para a minha mente paranoica que o Ian estava investigando algo para o primo dele. E então eu me perguntei se ele sabia das palavras exatas que Alex usou naquela noite em forma de pedido, siga a sua vida, mas rapidamente descartei a ideia. Era apenas natural pensar sobre "seguir em frente" ao pensar sobre minha situação com o Alex, ainda mais depois de um ano.
Para a minha surpresa, Ian parecia vulnerável demais para que aquilo partisse de qualquer pessoa que não ele mesmo, não pareceu que perguntava pelo primo. Era algo que ele queria mesmo saber.
— Eu tô tentando — murmurei, sincero, ao deixar os ombros caírem. Ian me analisou por um momento antes de assentir, desviando o olhar. Abri e fechei a boca mais algumas vezes antes de acrescentar, um pouco mais baixo devido ao receio: — Eu e o Chris — falei, pigarreando, sem acreditar que eu estava contando isso ao Ian dentre todas as pessoas, mas parecia o certo a se fazer: —, a gente tá meio que ficando.
Ian ergueu o olhar para mim, a postura mudando, as sobrancelhas lá em cima antes que se unissem, fazendo ruga entre elas na testa. Reprimi a vontade de me encolher quando vi as emoções passarem pelo rosto dele: surpresa, desapontamento, preocupação e, por último, pareceu apenas triste quando assentiu lentamente ao desviar os olhos para o chão.
— Eu sabia que não tava louco — comentou, por fim, em um resmungo. Mas quando olhou para mim novamente, parecia entender mais do que qualquer coisa, antes que resmungasse: — Por que sou sempre o último a saber das coisas?
Aquilo arrancou um riso de mim, embora houvesse sido tão fraco que mais soou como um bufo. Dei de ombros ao contradizer: — Nesse caso, acho que você é o primeiro.
Não era mentira, Ian era o primeiro a saber disto com todas as letras, ainda mais vindo de mim, mas também havia o Mason. Apesar de não havermos conversado sobre isto, eu tinha certeza que ele era observador o suficiente para haver percebido antes que eu sequer sonhasse em contar a ele.
Algumas semanas atrás, houve um momento em que Mason me perguntou: — Por que você tá passando tanto tempo com o Número Um? — de uma forma invasiva com duplo sentido. Eu travei, porque entendi a pergunta por trás, mas dei de ombros e respondi, debochado: — Talvez porque ele seja o Número Um? — e então a gente se encarou por um momento estranho onde ambos sabíamos o que ele havia perguntado de verdade e também sabíamos o que minha resposta evasiva significou.
Não achei que Ian quisesse ouvir isto, a julgar pelo leve contentamento que passou pelo seu rosto depois da surpresa, então fiquei quieto ao ver que ele apenas assentiu.
— Você não vai dizer nada? — incitei, receoso, ao estranhar o silêncio que se seguiu enquanto ele olhava para longe.
Ian deu de ombros, mas então suspirou, os olhos ainda do outro lado do corredor.
— Eu tô tentando não ser um cuzão sobre isso, aliás, sobre tudo — enfatizou, com um resmungo. — Eu só... — Bufou, quando eu menos esperava antes de olhar para mim, vulnerável outra vez: — Depois que eu fiquei sabendo sobre você e o Alex, eu achei que fez muito sentido — contou, e eu subitamente desejei fugir desta conversa. — Eu me senti tão burro porque era tão óbvio e fazia tanto sentido. Vocês juntos faziam sentido. E eu... Eu tava esperando, sabe, que um dia vocês pudessem ficar juntos outra vez.
Senti o nódulo na garganta se formar antes que eu pudesse perceber, um peso se formando nas minhas costas, como se quisesse me pressionar contra o solo.
— Ian... — comecei, em um fiapo de voz, e o restante do apelo não saiu por alguns instantes ao passo que eu o via engolir em seco. — Isso não vai acontecer. Faz mais de um ano — senti a necessidade de dizer e então: — Ele não vai voltar. — Mas, ainda assim, não pareceu suficiente e eu quis complementar com um “mesmo que ele volte, ainda assim, isso não vai acontecer” mas o nódulo tornou-se gordo demais.
Quando olhei para ele, fiquei em choque que os olhos amendoados estavam marejados. Ian percebeu que eu percebi, porque então ele desviou o olhar para longe e fungou rapidamente, esfregando o indicador no nariz como se aquilo fosse apenas alergia, embora ambos soubéssemos que não era. Ele assentiu repetidamente, diante dos meus olhos alarmados, e então forçou um sorriso que não chegou aos olhos úmidos.
— Tem razão, bobagem iludida minha mesmo — apressou-se em dizer e eu me senti muito mal por ele. Por um momento, eu imaginei que ele não estava referindo-se apenas a mim e ao Alex. — Eu sou um trouxa. Você tem mais é que seguir em frente mesmo.
— Talvez você devesse também — sussurrei, imaginando que ele havia feito os mesmos paralelos que imaginei entre eu e o Alex e ele e a Grace.
Ian olhou para mim com olhinhos de cordeiro degolado e eu me arrependi subitamente de haver sugerido isto para ele, como se eu houvesse sido o que acabou de oferecer a faca para degolá-lo. Ian fungou, disfarçando ao pigarrear e olhar para longe, piscando teimosamente sem deixar uma única lágrima cair.
— É, tem razão — murmurou ele, pela segunda vez. Então, ele apontou para o banheiro com o polegar antes de já começar a caminhar nessa direção. — Eu preciso ir no banheiro, quase que esqueço.
Ian deu as costas e não retornou por vinte minutos.
*
Minha conversa com o Ian me tirou do eixo por alguns dias, novamente caindo no abismo que envolvia o Alex, e meus dias leves e despreocupados começaram a ceder um pouco ao meu tormento mental. Ian me fez perceber que, por mais que eu enfeitasse a minha bolha com purpurina e arco-íris, a realidade sempre estaria bem visível do lado de fora dela, querendo estourá-la.
Desde que eu comecei a ficar com o Chris e nossa amizade entrou em uma área cinza inominável, eu estive sentindo muito o tempo todo. E não eram apenas coisas boas, porque em meio aos arrepios nos braços, borboletas no estômago e contentamento pessoal, eu ainda sentia muita culpa, muito receio e muita aflição. E eu sabia que eu não deveria me sentir assim, porque eu não estava fazendo nada de errado: eu não estava traindo ninguém e eu não estava mentindo para o Chris também. Eu estive solteiro a vida inteira, eu não estava — ou não deveria estar — preso a ninguém, e apesar de ficar com o Chris, ele sabia que eu não sentia o mesmo que ele. E ele não se importava.
Então por que eu sentia tanta culpa?
Não era fácil sair do espiral ruim, então eu tentei cavar minha saída dele o quanto antes, voltando para os sentimentos bons e dormentes, para a minha bolha iludida e enfeitada. Eu queria ser uma pessoa normal uma vez na minha vida, poder sonhar um pouco acordado e parar de me preocupar com coisas que estavam além do meu controle. Por mais que eu não seja perfeito, eu não consigo imaginar o que é que eu fiz de tão ruim na vida para merecer qualquer coisa menos que isso.
Então eu não aceitaria qualquer coisa menos que isso.
Eu posso não ter controle sobre muita coisa neste mundo, mas eu tenho total controle sobre as minhas próprias escolhas e ninguém poderia tirar isso de mim, as minhas escolhas, não.
Os pensamentos ainda rodopiavam pela minha cabeça quando eu apareci na casa do Chris para fazer um trabalho de filosofia que não faríamos naquele dia. Seus pais estavam trabalhando mas na hora que eu cheguei, seu pai recém estava saindo, então fez um cafuné nos meus cabelos e desejou um bom trabalho para nós.
Bons pais nunca deixariam de me impressionar.
No nosso círculo de amigos, havia o pai do Ian, o pai da Grace, o pai do Dan, o pai do Korn e o pai da Cristina. Eu cheguei a conhecer todos eles e estava certo que todos pareciam ser gente boa, em especial o pai da Grace, embora o pai da Cristina, por exemplo, não fosse muito presente — mas fosse um bom veterinário para o Magic, então uma pessoa ruim ele não poderia ser. Ainda assim, havia algo diferente e mais extraordinário no pai do Chris que era difícil de engolir, embora fosse tão genuíno: ele sabia que o Chris era gay e ele aceitava o filho do jeito que ele é. E, apesar de eu conhecer os pais dos meus demais amigos e ouvir falar bem sobre eles da boca dos filhos, eu ainda não poderia dizer com toda a certeza que eles seriam tolerantes caso os filhos não crescessem para ser o que esperavam que fossem. Uma pessoa que aparenta ser gente boa nem sempre é uma pessoa tolerante, afinal de contas.
Mas o senhor Forbes era e isto ainda era difícil de processar, então apesar de eu ficar noventa por cento confortável quando estava aos beijos com o filho dele dentro de sua casa, dez por cento ainda esperava, contra toda a lógica, que o pai surtasse se nos visse juntos.
Depois eu me dei por conta que isto era uma concepção bem triste.
Pisquei, enxergando uma ruga preocupada entre as sobrancelhas de Chris, que me olhava com o rosto inclinado.
— Hum? — perguntei, tendo perdido o que ele havia perguntado depois que eu o cumprimentei no seu quarto.
— Eu disse que eu não tive tempo de arrumar o cabelo — repetiu, com um meio sorriso tímido, embora os dedos ágeis movessem rapidamente ao apalpar os fios crespos.
Chris soltou um riso fraco, aproximando-se de mim para longe do espelho, onde estava arrumando seus cabelos molhados. Eu recém havia processado que ele estava com uma bermuda de andar em casa e uma regata solta, a abertura dos braços permitindo visão da lateral do seu corpo, onde ficavam as costelas. Ele recém havia saído do banho, então os cabelos pareciam menos crespos e um pouco mais compridos do que o normal, quando cheguei, ele estava passando algum creme em frente ao espelho.
— Ah — murmurei, sem saber o que dizer, antes de sorrir. Ele parou na minha frente, olhando-me de cima com carinho. — Tudo bem, tá bonito — falei, porque estava mesmo, e agora eu começava a ficar um pouco ciente demais que eu nunca arrumava meu cabelo mais do que passar uma escova nele ou ajeitá-lo em cerca de trinta segundos com os dedos. Será que ele pensava que eu era desleixado?
— Se você diz, eu acredito — brincou, com um riso.
Chris abriu um sorriso ainda maior, os dentinhos separados aparecendo, e eu sorri de volta, havendo descido os olhos para a sua boca. Esperei que acontecesse, porque imaginei que aconteceria, visto que seu corpo já estava inclinando-se na minha direção, e então ele fechou o espaço entre nós.
A porta do quarto ainda estava aberta às minhas costas, o que me fez ficar um pouco tenso, os pensamentos de antes ainda zunindo no meu crânio, mas ainda assim eu me deixei ser envolto por ele.
Chris ainda estava sorrindo quando me beijou, uma mão apoiando-se na lateral da minha cintura e a outra em minha nuca, sem haver colocado restrição alguma no beijo aprofundado. Quem visse diria que não havíamos nos beijado no banheiro do colégio ainda hoje, pela manhã. Eu também levei as duas mãos para as laterais de seu corpo, encontrando em uma delas a abertura da camisa quando a segurei entre meus dedos, raspando-os diretamente na sua pele ainda fresca do banho. Chris estremeceu um pouquinho, mas não separou nossos lábios.
Os beijos haviam se tornado um hábito tão repetitivo que não havia mais hesitação quando nos aproximávamos. Quando eu estava hesitante por algum motivo, Chris sempre percebia e perguntava antes de grudar-se em mim, e eu, como de costume, sempre dizia que sim, porque eu sempre queria. Eu queria que ele me beijasse, que ele me envolvesse, que ele dissesse todas as coisas certas e que ele sempre me fizesse sentir assim: calmo, leve e despreocupado.
Eu queria viver aquele romance clichê que passava pelos olhos castanhos brilhantes quando ele me olhava.
Desnorteado com a constatação e talvez um pouquinho impulsivo, eu fiquei tenso e interrompi o beijo, abrindo os olhos subitamente. Chris também parou imediatamente, uma ruga preocupada na testa, quando me olhou, trazendo a outra mão que jazia na minha cintura para o meu rosto.
— O que houve? — perguntou, receoso, ao perpassar os olhos por todo o meu rosto, meus olhos, meu nariz, minha boca. — Eu fiz alguma coisa de errado?
Alguma coisa esquentou no meu peito, um carinho desmedido por ele.
Chris era tão perfeitamente precioso.
Aquilo me atingiu de uma maneira diferente, devido ao estado dos meus últimos pensamentos, porque eu gostava tanto dele. E apesar de eu não querer me precipitar, porque eu podia estar me enganando, eu ainda sentia que eu gostava demais dele para que isto fosse apenas uma amizade colorida. Não era possível que eu sentisse todas essas coisas por alguém só porque eu gostava de beijá-lo de vez em quando, certo? Se eu tivesse que descrever de alguma maneira, eu diria que Chris faz com que eu me sinta nas nuvens — esta é uma expressão real, não é?
Eu já gostava do Chris antes dele haver se declarado para mim, e depois que a gente passou os últimos meses conhecendo-nos de uma maneira que eu nem sonhei que podia, eu sentia gostava dele ainda mais. Eu sentia muito carinho por ele, gostava de arrancar sorrisos seus e prezava ainda mais a maneira como ele me fazia sentir. E apesar de eu haver ficado confuso sobre onde acabava a linha da amizade dos meus sentimentos e iniciava algo a mais, também havia a maneira como eu amava beijá-lo. Havia algo orgulhoso dentro de mim — e ok, talvez isso não fosse muito saudável — que gostava da ideia de que eu fosse o único que recebia seus beijos ternos e seus olhares meigos.
— Caleb? — chamou, outra vez, afastando-se um pouco mais em um misto de preocupação e timidez. Não entendi a timidez até me autoanalisar e perceber que eu estava sorrindo um tanto alegre demais.
Neguei a pergunta anterior, mordendo o lábio inferior, sentindo-me agradavelmente inquieto, e Chris relaxou um pouco o semblante, apesar de ainda estar adoravelmente confuso.
— Ok — falou, hesitante —, então o que exatamente acon...?
— Você não quer namorar comigo, de verdade? — disparei em um impulso, antes que eu me acovardasse, tudo de uma vez só.
Observei, de primeira mão, a maneira como os olhos de chocolate alargaram-se em surpresa ao passo que a boca aberta, no meio de uma frase, caiu um pouquinho mais no meio do choque. Ele piscou as lindas orbes castanhas algumas vezes, de uma maneira fofa, ao processar a informação e eu me arrependi bem ali.
Fiz uma careta logo em seguida, ainda tentando um sorriso, ao passo que pensava que não era exatamente isto o que eu queria dizer. Ou talvez fosse, eu não tinha muita certeza, e agora havia saído de uma maneira muito brusca e pouco romântica, e eu comecei a repensar se eu não deveria ter planejado isto antes de jogar no coitado em um impulso adolescente. E eu não queria parecer um adolescente naquele momento, alguém inconsequente e imaturo, eu queria parecer firme e decidido, talvez atraente o suficiente para que ele considerasse querer namorar de verdade mesmo que, no fundo, não quisesse. E não é que eu houvesse planejado pedi-lo em namoro, porque no fundo, eu não tenho certeza se era isto que eu estava planejando, mas na verdade, o que eu havia pensado realmente constituía um namoro, apesar de eu não haver pensado na formalidade da palavra. Então, talvez, realmente fosse isto que eu quisesse dizer, mas agora eu havia dito de uma maneira tão ridícula e impensada que...
— O quê? — murmurou, interrompendo os gritos da minha cabeça, ao piscar mais algumas vezes. — Como? Agora? — balbuciou, mais algumas vezes. — Hoje? O quê?
Eu quase podia ver a tela azul na mente do coitado e reprimi a vontade de fechar os olhos e me enfiar no buraco que eu mesmo cavei. Chris parecia estar desnorteado demais para sequer conseguir sentir alguma coisa além de confusão ou receio ou qualquer coisa semelhante a um meme de equação matemática no fundo da sua mente.
Assenti, hesitante, ainda prendendo o lábio entre meus dentes com mais força do que planejei, sentindo-o latejar. Só então, Chris deixou escapar um riso incrédulo, parecendo destravar a tela azul da sua mente. Eu pude ver, em seguida, os olhinhos brilharem com alguma coisa que aqueceu um pouco mais meu coração receoso, deparando-me com o reflexo do carinho que eu também sentia por ele. Havia dúvida e incerteza ainda em sua expressão, embora também houvesse divertimento, a julgar pelo sorriso que começava a teimar em seu rosto.
— Caleb — tentou, com tanto cuidado que eu quis rir, lambendo os próprios lábios rapidamente —, você tá me pedindo em namoro?
Isso é constrangedor.
Eu pisquei, meu sistema operacional também falhando um pouquinho, enquanto eu pensava em uma maneira menos constrangedora de definir aquilo, mas não consegui chegar em nada. É, eu estava pedindo-o em namoro, era isso mesmo o que estava acontecendo, em algum momento da minha vida, eu havia me tornado nesta pessoa que pede o ficante — e amigo — em namoro.
Assenti, vendo que as sobrancelhas arquearam-se novamente com a confirmação, como se não esperasse por ela, apesar de haver perguntado. Ao observar a maneira como ele enrijeceu e pareceu congelar naquela posição — os olhos um tanto alargados com um brilho radiante, um meio sorriso incrédulo no rosto, as sobrancelhas lá em cima —, eu imaginei que deveria confirmar verbalmente.
— Sim — falei, a voz falhando antes de pigarrear, remexendo-me no lugar. — Você aceita?
A próxima reação do Chris foi rir, incrédulo, parecendo estar com os nervos à flor da pele, quem sabe ainda mais nervoso do que eu estava — e eu estava muito nervoso, subitamente percebi, as mãos trêmulas e tudo.
— Você tá falando sério?
A pergunta soou junto de um riso, e eu acabei franzindo o cenho, mas isso pareceu confirmar por conta própria e Chris piscou mais algumas vezes, o sorriso diminuindo e o brilho nos olhos aumentando. Desta vez, foi ele quem mordeu o lábio inferior, aparentando estar acanhado, um pouco de incredulidade ainda na sua expressão. Ele finalmente destravou o suficiente para fazer carinho nos meus cabelos com as mãos que estavam entre meu pescoço e meu rosto.
— Em que mundo eu seria capaz de negar um pedido desses vindo de você, Caleb Augustine? — perguntou, e eu acabei relaxando um pouco, sentindo o coração acelerar. Gostei da maneira como meus dois nomes soaram em sua voz e sorri ainda mais. — Não sou bobo nem nada.
Acabei rindo, sem jeito, e ele riu de volta antes de me beijar.
Desta vez, ele me beijou mais apaixonadamente, e eu tive dificuldade em acompanhar. Eu acho que eu o conhecia o suficiente para conseguir entender um pouquinho do que o beijo intenso, as carícias mais aprofundadas e a firmeza do seu aperto significava. Eu senti também, fechando os braços em seu entorno, me deixando ser engolido por toda a intensidade que Chris não conseguiu deter.
Era diferente beijar alguém que você sabe que é seu.
O friozinho na minha barriga ainda estava ali, junto dos arrepios na nuca ao passo que os dedos de Chris deslizavam pelos fios bem ali, e o coração batendo acelerado no peito. Ele cheirava a sabonete e o vapor da água, seus cabelos tinham aquele aroma de côco do seu creme preferido, e seu hálito era de menta — porque ele sempre escovava os dentes no banho, ao menos, quando eu vinha aqui.
Chris interrompeu o beijo com um riso — soou involuntário, como se algo em sua mente o tivesse feito rir no meio do beijo, e então ele me beijou outra vez como se pedisse desculpas, mas eu acabei rindo também. Chris balançou a cabeça, incrédulo, e foi deixando beijinhos pelo meu rosto, minha têmpora, até o topo da minha cabeça, acomodando-se abraçado em mim. Ele murmurou algumas vezes, em tom de zombaria: — Se eu aceito... — como se achasse uma piada a ideia de que a resposta teria sido não. Eu acabei rindo de volta, o coração quentinho, ao enfiar o nariz em seu pescoço.
Fechei os olhos, permitindo-me contemplar o resultado da minha decisão bem ali, dentro do abraço caloroso do Chris.
Tudo o que eu conseguia pensar é que o resultado era doce.
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