Made of Stone

69 LIV. O melhor de mim - Pt. IV


Notas iniciais
Gente linda, gente boa, gente bela! :3 Hã, duas coisas: 1) Não lembro e tô com preguiça de checar, mas acredito que inicialmente eu falei que seriam apenas 4 capítulos no POV do Alex e vou me desmentir agora mesmo porque este não é o último. Só pra avisar. 2) Ali pro fim vocês vão ver que eu tô sinalizando que começou 2021, então tecnicamente os últimos capítulos também foram os últimos de 2020. Agora eu também não lembro e tô com preguiça de checar, mas acredito que eu já tenha dito que a separação de fases por ANO é consistente em todas as fases, menos nesta, que vai abranger mais do que apenas um ano. Então apesar da virada, a gente segue na mesma fase, acredito eu, até o final. Beijos e boa leitura! <3

Eu sempre soube que o melhor de mim viria apenas com a minha liberdade — eu estava contando com isto, na verdade. O que eu não esperava era me encontrar perdido sobre como performar uma liberdade que eu desconheço.

O que é liberdade, para começo de conversa, e onde diabos eu a encontro?

Honestamente, fui tolo quando pensei que eu soubesse.

Eu imaginei infinitas definições diferentes, algumas muito bonitas, outras mais realistas, mas a verdade é que eu não a sentia de nenhuma forma. Pelo contrário. Quando passei a trabalhar até a exaustão por um salário mínimo, enquanto mal encontrava tempo para batalhar nos meus sonhos pessoais, sem tempo sequer para os meus amigos, foi difícil me sentir livre. Eu me sentia preso a um sistema da mesma forma que eu já me sentia preso desde criança a uma sociedade. Parecia que eu não podia me livrar dos aprisionamentos e das amarras, e quando conseguia soltar-me de uma, acabava enroscado em outra.

Eu fazia as minhas próprias escolhas, convenci a mim mesmo, e a sensação de alívio por poder fazer isto deveria ser a própria liberdade que eu buscava, não é? Mas não parecia ser. Eu ainda não fazia o que eu queria, apenas em partes falhas, e me perguntei se algum dia seria capaz de encontrar a sensação do que é possuir a liberdade que almejo.

Eu ponderei se a liberdade era sequer possível — se ela ao menos existia ou era apenas uma ilusão em massa.

Eu acordei desiludido naquele dia.

Havia levantado cedo, apesar de haver dormido tarde, para poder ter tempo de gravar algum vídeo para as redes e trabalhar na minha música. Isto significava, ultimamente, que eu trabalhava por horas a fio sem fazer muito progresso. Um acorde ou outro em uma música nova, uma palavra ou outra trocadas na letra de uma música, um ensaio repetitivo de um repertório pronto onde eu seguia errando as mesmas partes de novo e de novo. Eram horas de trabalho e havia progresso, eu sei que havia, mas ainda assim era lento demais para colher resultado. E então era hora de eu ir trabalhar no bar mais uma vez.

Trabalhar no bar também era um progresso em andamento.

León passou a cobrar couvert artístico dos clientes nos dias em que eu me apresentava e passou a me pagar dignamente pelas apresentações por fora do meu serviço de atendente. Ele estava me ajudando muito, mas isto apertou um pouco as coisas para ele porque, apesar de eu ainda trabalhar a mesma quantidade de horas, agora o meu serviço estava dividido entre o pequeno palco e o atendimento. Isto queria dizer que ele tinha uma pessoa a menos, ou pela metade do tempo, no serviço que era realmente necessário para o funcionamento do bar. Mais uma pessoa a menos, querendo dizer, depois da Mandy.

Isso significou uma leva de pessoas treinando no bar — nove vieram entre agosto e outubro, e ninguém quis ficar.

Sabíamos que Mandy seria insubstituível, mas não estávamos esperando que todos que entrassem por aquela porta fossem tão pouco toleráveis com as condições de trabalho. León não pagava mal mas digamos que a convivência com ele não era exatamente agradável, o que fazia com que muita gente desistisse na primeira semana. E aqueles que eram tolerantes com León não tinham disponibilidade de horário, o que tornou tudo mais difícil, acrescentando uma leva de três funcionários freelance na equipe porque juntando os três, quem sabe assim unificava a carga horária de um inteiro.

Quase dois meses se passaram até que o León cedesse, por fim, final de outubro.

Quando Dean colocou os pés no bar, ele veio apresentável, como eu havia pedido. Seus cabelos estavam erguidos em um semi coque e ele estava vestindo sua melhor roupa — uns três números acima do que pesava atualmente e com furos remendados, inclusive, mas havia dedicação — para se apresentar ao serviço. Como ele era minha recomendação, León me incubiu de treiná-lo logo no primeiro dia, e eu desconfiava que era apenas para colocar o problema nas minhas mãos, digamos assim, para evitar incômodo próprio. E ele escolheu um dia em que chegaria apenas no final do turno do Dean para não ter que vê-lo, o que eu achei que foi uma decisão sábia.

León estava tão desesperado — e isto se devia ao final do ano se aproximando e o aumento de serviço — que não quis entrevistá-lo, ficou com medo de expulsá-lo dali logo na entrevista, antes de ver se ele trabalhava bem.

Esta resultou ser, novamente, uma sábia decisão. Isso permitiu com que não apenas León tivesse a oportunidade de ver que precisava do Dean trabalhando ali, como também que o Dean tivesse a oportunidade de perceber que ele precisava deste emprego. E eu digo isso porque, a partir do primeiro dia que trabalharam juntos — não a primeira semana, o primeiro dia -, eles começaram a se desentender. E eu tenho certeza que, se houvesse uma entrevista de emprego, teria acontecido na entrevista, e nenhum dos dois orgulhosos teriam querido descobrir se precisavam um do outro.

Mas, como haviam descoberto durante o serviço, os dois jumentos se esforçavam para trabalhar juntos todo dia, e já estávamos em dezembro, então isso era dizer o suficiente.

Quero dizer, esforçar é uma palavra muito forte.

— Você é burro, porra?! — gritava León, às quatro horas da tarde, quando entrei no bar para começar o meu turno. — Você faz isso todo dia, caralho! Eu já disse que se acontece alguma merda, você avisa na hora, e não no dia seguinte! E aí o que caralhos você faz?! — perguntou, retoricamente. — Você avisa agora! Agora, cacete!

Suspirei com a música para os meus ouvidos.

— Você devia é agradecer que eu avisei, é trabalho seu checar se tá tudo funcionando — retrucou Dean, em um tom monótono, ao analisar as próprias unhas.

— E eu te contratei pra quê, então, cacete?! — rosnou León, gesticulando muito. — Se não vai trabalhar, então vaza daqui! Vai ser incompetente na puta que te pariu!

Dean revirou os olhos, analisando León com o nariz torcido.

— Eu já disse isso mas você é muito estressado — descartou, como se não fosse nada. — Um dia desses você vai ter um AVC e vai aparecer naquele programa das mortes mais bestas do mundo — garantiu, em um tom entediado. — Você viu que a chopeira tava desligada hoje e agora ela tá ligada, problema resolvido. Pra que esse estresse todo, grandão? O mundo tá acabando?

A julgar pela maneira como o rosto do León avermelhou de ódio, eu tive certeza de duas coisas: Dean tinha razão e Dean não tinha bom senso. Se ele não fosse tão desajuizado, por que mais insistiria em provocar o réu primário do León tantas vezes por dia?

Era quatro da tarde, então o bar estava vazio com exceção do Tony, um alcóolatra manso e do seu Giuseppe, um vizinho idoso que gosta de pedir uma cerveja e enrola para beber o mesmo copo por horas, apenas para sair de casa, ler um livro e bater papo com quem parasse para ouvir suas histórias. Eles sempre estavam ali, no máximo sumiam um dia sim, outro não, então estavam acostumados com a gritaria.

— Bom dia — debochei, passando para trás do balcão, onde eles estavam. — Qual o problema de hoje?

León bufou, olhando para mim com incredulidade.

— O problema é o tapado do seu amigo — cuspiu, enojado —, esse é o problema! E você! — acusou, de tal forma que eu arqueei as sobrancelhas ao olhar para ele. — Por que caralhos você não supervisiona esse imbecil no fechamento?! Eu te coloquei pra treiná-lo, então por que você não treina porra nenhuma?! Você tá aqui tem um ano já e não sabe que tem que checar a porra dos equipamentos antes de fechar?!

Suspirei pesadamente, deixando minha mochila embaixo do balcão, no espaço em que a gente colocava nossas coisas pessoais.

— Sei lá, eu tava cansado ontem — defendi, precariamente, eu sei, mas era verdade. A pálpebra direita de León tremeu. — Depois que a gente desligou tudo, foi o Dean que ficou pra trás pra fazer a checagem. Eu queria ir embora logo — contei, descartando como se não fosse nada, mas a julgar pela expressão assassina do León, era tudo. — Foi a chopeira, de novo?

— É, tá com mal contato do fio — explicou Dean, dando de ombros, ainda soando como se tivesse algo melhor que fazer do que estar ali. — Eu mexi algumas vezes na tomada até religar, mas esqueci que tinha que reajustar a temperatura quando religa.

— Ah, você esqueceu? — debochou León, o tom baixo e perigoso, os olhos estreitados. — Você esqueceu! No dia do pagamento, quem sabe aconteça de eu esquecer de te pagar também, o que acha?

Dean soltou um riso sarcástico, os olhos melados vazando zombaria quando falou: — Eu paro de vir na mesma hora, aí quero ver quem você consegue contratar em pleno dezembro que aguente seu mau humor de mula velha.

Antes que León respondesse, Dean virou as costas, o movimento propositalmente brusco para que as pontas dos fios soltos roçassem a cara rabugenta de León antes que ele rebolasse para longe. Soltei um riso automático, mas quando as orbes furiosas do León voltaram-se para mim, eu disfarcei ao tossir.

Dean só havia mentido na ameaça de parar de vir trabalhar. Eu sei disto porque ele já havia se demitido umas seis vezes, saindo porta afora ao som dos gritos do León, mas voltou em todas elas. E o León aceitou-o de volta também, afinal, Dean tinha razão, novamente, embora lhe faltasse juízo: não era qualquer um que aguentava o humor de “mula velha” dele.

E a verdade era que ele não era nada ruim no bar.

Dean sabia trabalhar, não tinha preguiça nem frescura para nada, tinha raciocínio rápido, atendia duas vezes a quantidade de clientes que eu, sempre lembrava dos pedidos, era rápido nos pés e eficiente com as bandejas. Ele conseguia ser carismático e envolvente — quando tinha humor para isto — com a maioria dos clientes. Ele não era perfeito, é claro, e vez ou outra eu o pegava piscando lento em tédio descarado para os clientes ou impaciente ao balançar a caneta do pedido e mascar chiclete com uma cara de saturado.

Dean foi recebido duramente por uma clientela em específico mais de uma vez desde que começou a trabalhar aqui. Alguns se recusavam a ser atendidos por ele, outros torciam o nariz e cuspiam comentários maldosos — os quais ele retribuía alegremente -, e alguns iam além para o bem do drama: escandalosamente saíam ao vê-lo ali.

Semana passada, houve a pior comoção até agora, na qual León foi obrigado a intrometer-se para defendê-lo. Um dos clientes se recusou a ser atendido por Dean em meio a um movimento desgraçado do sábado, quando estávamos nos desdobrando para conseguir atender todo mundo. Segundo o cliente, tinha medo de pegar alguma “doença”se fosse atendido ou tivesse seu pedido manuseado por Dean que, por sua vez, apenas retrucou de volta e se recusou a baixar a cabeça. León fez um escândalo que chamou a atenção de todos ao berrar que, se eles não quisessem ser atendidos por Dean, então a porta para a rua era a serventia da casa, que ali dentro não era tolerado nenhum tipo de preconceito e que não precisava da porra do dinheiro deles. Por orgulho de não aceitar rebaixarem-se ao Dean, eles realmente se retiraram do bar — não sem alguns resmungos.

Ninguém pensava que Dean se adaptaria, ninguém além de mim. Eu ouvi por semanas seguidas dos meus colegas que aquilo não daria certo porque Dean traria má fama para o bar, já que todos conheciam a reputação dele, e que os clientes iriam deixar de aparecer e toda essa bobagem. A falação foi diminuindo aos poucos, muitas apostas foram perdidas entre eles e eu ganhei quase todas, apostando alto em quanto tempo ele duraria ali — sim, eu participei, eu sou uma pessoa horrível mas aquilo era dinheiro fácil.

Apesar dos pesares, ele se adaptou rapidamente e eu estava feliz com isto, porque Dean oficialmente havia parado de se prostituir. Eu não podia dizer que ele havia largado as drogas, mas eu considerava progresso que ele tivesse um emprego estável — tão estável quanto pode ser com o chefe sendo o León — e que houvesse se livrado de todas as vendas ilícitas uns meses atrás.

Mas também havia um limite do quanto eu podia ajudar, o resto era com ele.

*

Os dias voaram enquanto eu tentava me ajustar aos poucos à minha nova vida e minha nova rotina, buscando opções e alternativas diferentes de alavancar minha carreira. Mas haviam coisas que não podiam ser forçadas — aliás, a maioria delas não podia.

Por vezes, eu me pegava escrevendo textões para o Caleb que eu nunca enviava. Ao invés disto, eu os transformava em canções, em melodias, em sons que eu pudesse pôr na voz e no violão, na minha maior linguagem do amor. Transformou-se em algo terapêutico, quase, externar um pouco dos meus sentimentos mofados no peito em forma de música. Eu estava ficando bom nisto, compôr e escrever canções tornou-se algo natural com o costume.

Conforme eu cometia erros ou acertos, dormia com um sorriso ou lágrimas no rosto, seja em meio a multidões ou na solidão do silêncio, eu fui gradativamente escrevendo e reescrevendo a minha própria história.

Eu sonhava em poder unir Mallow Coast com Hybridfield como se fossem uma única cidade, um único universo, o melhor dos dois mundos, onde eu poderia ter minha liberdade e minha família em um mesmo espaço-tempo e a promessa de um futuro agradável. A conta nunca fechava, no entanto, e eu ia dormir apenas depois de colocar na balança tudo o que eu havia perdido e tudo o que eu havia conquistado até que o cansaço me vencesse.

Alguma coisa aconteceu comigo durante a conversa que tive com a minha mãe, as engrenagens moveram-se de forma que eu podia sentir algo mudar de direção. Isto se materializava, principalmente, na incerteza que inundou minha mente e na culpa que vinha com ela.

Observar tudo o que eu acreditei por uma década ruir na face da verdade e entender que eu não causei a morte da pessoa que eu mais amei no mundo trouxe a necessidade de repensar todo o demais. Ouvir a minha mãe delinear em palavras a profundidade do amor dela por mim mereceu uma pausa para reflexão e reavaliação de todas as escolhas que me trouxeram até aqui. Não havia maneira de passar por isto sem entender que havia algo em comum com as duas sentenças: eu estava errado em ambas. Eu me fiz acreditar que tive maior participação na morte da minha irmã do que era possível — ainda era muito difícil me livrar da culpa, ainda assim, mas eu me sentia mais aliviado — e eu me fiz acreditar que minha mãe não me amava tanto assim. Eram duas mentiras que guiaram muitas das minhas ações durante anos. Que garantias haviam de que as mentiras que eu acredito serem verdades acabavam ali?

E havia algo sobre descobrir que o princípio da fé inabalável da minha mãe havia sido o amor por mim, algo em sua narrativa particular do curso de eventos traumáticos pelos quais nós dois passamos. Algo sobre seu ponto de vista confidenciado a mim, uma visão singular do mesmo acontecimento, me fez perceber que a existência de diferentes perspectivas implica em experiências diferentes. Nós não compartilhamos o mesmo trauma e não possuímos a mesma dor, sequer amávamos a mesma pessoa na mesma intensidade. Foram experiências individuais, intimamente entrelaçadas para que compreendêssemos um ao outro, mas suficientemente distantes para que não vivenciássemos o mesmo.

Isso gerou uma epifania, é claro, e eu fiquei preso nela.

Eu não apenas estava questionando todas as minhas crenças enraizadas e, por consequência, todas as minhas escolhas de vida, como eu também questionava as vezes em que estive certo — por que quantas verdades haviam, sob perspectivas diferentes, de uma mesma experiência? Ainda que eu acreditasse em algo que era verdadeiro para mim, podia ser algo equivocado quando diz respeito a outra pessoa envolvida na mesma vivência.

Isso se tornou um problema porque agora eu começava a duvidar do caminho que escolhi, me sentir impotente sobre meus possíveis erros e sentir apenas culpa por haver me equivocado para começo de conversa.

Eu comecei a pensar que eu não deveria ter esperado tanto tempo para conversar com a minha mãe, não apenas no que diz respeito aos anos que passei ao lado dela, como também aos últimos meses nos quais recusei suas ligações. Eu poderia ter poupado muito tempo e muita dor — não apenas para mim, como para ela também, já que ela não merecia isto. Eu ainda tinha minhas ressalvas com a Katya, sobre os erros que cometeu comigo, porque ela não havia sido a melhor mãe do mundo, mas agora eu entendia que nunca havia faltado amor.

Isto, é claro, me fez pensar no Caleb.

A sensação de que eu havia cometido um erro tremendo tornou-se constante no meu dia a dia. Eu ponderava como é que eu pude escolher a liberdade acima da minha família de coração, como é que eu pude não apenas perdoar mas me reaproximar do cara que me magoou tanto e, em contrapartida, eu não me permitia voltar para casa, para os meus amigos, para o amor da minha vida. Quanto mais o tempo se passava, mais a liberdade que eu buscava parecia tomar uma forma cinzenta e indistinguível — inalcançável. E se eu não podia mais dar uma forma para a minha liberdade, então eu sequer a conhecia e a entendia o suficiente para tomar decisões importantes baseadas nela.

A possibilidade de haver cometido mais erros do que eu imaginava tornava evidente que eu podia ter agido de uma maneira diferente. Eu remoía isto até não poder mais, e o redemoinho sempre acabava quando recaía sobre uma pergunta: eu me arrependia de ter vindo?

A resposta nunca mudava: não.

Isto me acalmava por um tempo, o suficiente para que eu conseguisse fechar os olhos e dormir, mas não durava muito. Outra noite inquietante chegava e o ciclo se repetia uma vez mais.

E assim eu fui indo.

Quando eu sentia muita saudade dos meus amigos e da minha família, eu sempre podia recorrer às ligações, exceto quando se tratava do Caleb. No caso dele, eu me permitia futricar o perfil dos nossos amigos atrás dele, já que eu não tinha mais acesso, e então eu o via em fotos e publicações que me apertavam mas aqueciam o coração. Eu podia perceber a evolução nas fotos ao longo do tempo: as diferenças sutis em seu rosto, no jeito como se vestia, na maneira como voltava aos poucos a sorrir mais genuinamente ao olhar para a câmera.

Eu sentia tanta falta dele que eu sentia que iria sufocar. Depois de me perder em uma foto nova por um tempo, eu conseguia passar alguns dias sem futricar novamente, até eu sentir que iria morrer de saudade outra vez. Este era outro ciclo vicioso que eu não conseguia quebrar.

Ultimamente tinha sido mais difícil sair da minha própria cabeça por tempo o suficiente para aproveitar minha vida. Eu sabia que era porque estávamos em dezembro e dezembro é um mês tão pesado, de tudo: de significado, de trabalho, de sentimento. Era um marco de uma data também, porque faria um ano que eu estava aqui, um ano que eu perseguia uma liberdade que não tinha certeza se havia abraçado por completo. Um ano desde que perdi muito mais do que poderia contar. E era natal de novo, e ano novo, e havia tanto movimento e trabalho, e havia tanta nostalgia e dor e afeto.

O mês do natal era época de sentimentos assim.

E, bom, digamos que não havia muito estímulo externo para que eu não me sentisse sugado pelo peso dessa época também.

A verdade é que eu estava pagando meus pecados neste bar depois que o Dean começou a trabalhar aqui. Essa era a maneira mais resumida que eu poderia definir meu tempo trabalhando com Dean e León no mesmo espaço: aparentemente atirei pedra na cruz e agora as pedras voltavam para mim.

Eu amo o León, de coração, mas trabalhar com ele é realmente muito difícil — no início, eu pensei que era minha culpa, que eu era muito folgado, que eu não trabalhei o suficiente para saber lidar com chefes resmungões. Mas, quando a gente passou por longas semanas tentando encontrar alguém para preencher a vaga da Mandy, sem sucesso, e quando ficou óbvio que o motivo era o León, eu entendi que eu sou bem mais tolerante do que eu pensava. Isto me fez pensar que talvez seja este o motivo do León ter passado a gostar de mim no final das contas. E quanto ao Dean, bom, não é preciso explicar que passar mais do que meia hora com ele fica insuportável rapidinho. E eu já estava passando mais tempo com ele quando decidi ajudá-lo — decisão que eu constantemente repensava também -, mas trabalhar com ele resultou ser muito pior do que eu pensava.

Unia os dois juntos, León e Dean, em constantes brigas e picuinhas, e eu descobria rapidamente que este é meu inferno pessoal na Terra. Se servia de algo era de motivação para que eu alavancasse minha carreira logo para poder sair daqui.

A única maneira com a qual eu me mantive são este tempo todo foi pela música, pela praia e, bom, pelos beijos clandestinos.

A música estava envolta em tudo o que eu fazia, e no que eu trabalhava, mas eu havia feito um acordo comigo mesmo de não deixá-la azedar por conta disto. Então, eu apenas tocava e cantarolava às vezes sem qualquer pretensão de trabalho, e tornei isto uma rotina, sob sugestão da Morgan. A ideia de reservar um momento para a praia também foi ideia dela, já que sabe que eu amo o mar e que eu mal passo tempo lá, preso em casa ou no bar. Então eu comecei a acordar cedo para ver o pôr do sol na praia ou apenas no cais, o que já me ajudava, mas ultimamente eu tenho preferido fazer isto de madrugada, depois do expediente, o silêncio e a calmaria do mar eram terapêuticos. E quanto aos beijos clandestinos, bom, estes eram apenas um bônus que eu senti que merecia. Apesar de eu haver sonhado em ser músico a vida inteira, por incrível que pareça, eu não havia sequer considerado que tocar em um bar da zona sul renderia tantos potenciais pretendentes — se é que posso chamá-los disto. Então eu passei a me render a momentos assim, em que eu poderia simplesmente seguir algum rapaz atraente para fora do bar e dar uns amassos merecidos.

Eu não conseguia passar disto, no entanto, dos amassos.

Não era porque eu sentia que devia estar de amassos com outra pessoa específica — tá, talvez fosse isto também — mas porque eu também não queria passar de beijos clandestinos com ninguém. E eu dediquei tempo — tempo demais para ser considerado saudável — para refletir sobre isto, porque comecei a questionar se havia algo de errado comigo quando recaiu sobre mim que eu havia passado meio ano sem sequer beijar na boca. Mas a conclusão a qual cheguei era besta, quase, simples demais: eu apenas não quis. Eu mudei; não sou mais a mesma pessoa e eu não quero mais as mesmas coisas e eu não tenho mais as mesmas necessidades.

Morgan me disse que alguns dos meus remédios podem fazer diminuir a libido, mas eu sabia que era mais do que isto.

Eu fui sexualizado cedo demais — e, às vezes, eu me permitia sentir rancor do Dean sobre isto, mas no fundo, eu também sabia que se não fosse Dean, teria sido outra pessoa. Perder-me em alguém era um objetivo que eu tinha na época, uma necessidade maior do que eu, e ocorreu que Dean me entregou isto de bandeja. Ele tinha sua parcela de culpa, porque não deveria haver entregado nada, desta forma, quem sabe, minhas experiências houvessem sido com alguém da minha idade. Mas eu sabia, de certeza, que elas teriam acontecido independentemente. Perder-me em outra pessoa, alguém que me tratasse como se eu fosse importante, ao menos, por alguns minutos, ajudava a manter minha mente vazia de toda a dor, culpa e autodesprezo que eu carregava. Foi o que eu fiz por anos, mesmo após o Dean, mesmo quando eu morava em Hybridfield — foi o que eu fiz com caras da minha idade, com caras mais velhos, com caras que conheci na rua, com caras que conheci no colégio, com caras que me encontrei no escuro uma vez ou com caras nos quais me perdi algumas vezes a mais. Sexo, para mim, nunca foi apenas uma fonte de prazer, mas sim um meio de escapismo e anestesia. Foi uma maneira de me desligar da minha própria identidade e de amortecer toda a dor, toda a opressão, todo o aperto e até mesmo todo o deleite envolvido.

Sexo tinha apenas um propósito, então quando esse propósito não tornou-se mais uma necessidade, sexo também deixou de ter alguma relevância. Isso não era algo bom nem ruim, apenas era. Embora eu me pegasse pensando que, se sexo tivesse um propósito normal para mim, por exemplo, apenas sentir prazer, eu ainda gostaria de transar. Mas isto também me fazia pensar que, se não havia um propósito, então por que eu deveria me forçar a transar apenas para desvendar algum?

Sexo, então, tornou-se um tópico estranho, pairando no ar, como se eu ainda tivesse que desvendá-lo de alguma forma. Eu não o entendia por completo, se eu for sincero, e isto ainda me mantinha acordado algumas vezes às noites. Sexo tornou-se algo intrigante, quase, o suficiente para eu repensar vez ou outra quando estava sendo prensado contra uma parede, mas não o suficiente para querer, de fato, me despir diante de alguém.

Era o que acontecia neste momento.

O nome dele era Andrew e ele tinha vinte e oito anos, foi o que me disse, apesar de parecer mais velho que isto, e trabalhava como corretor de imóveis. Foi tudo o que eu precisei saber, depois que ele me deu gorjeta depois do show e falou baixinho no meu ouvido, para que ele se esfregasse contra mim no muro de casa. Na verdade, o convite havia sido de tomar uma cerveja do lado de fora, mas nenhum de nós se incomodou em fingir que era este o propósito. Como a rua do bar ainda estava lotada e eu ainda me sentia inseguro de ficar aos pegas com um cara em público — vá que eu acabasse no noticiário -, eu o guiei até em casa e a gente ficou se beijando no jardim.

Em momentos assim que eu repensava se deveria me entregar ao prazer feito uma pessoa normal, mas isto talvez fosse devido ao tesão acumulado. E, quero dizer, o cara era bom no que fazia. Há muito tempo que eu não sentia minha mente nublar desta forma, então eu acabei me deixando levar até o ponto em que estávamos praticamente nos esfregando um com o outro ali mesmo. Para fins de conforto, acabei trocando a posição e grudei-o contra o muro, encaixando-me entre suas pernas, sugando seu pescoço ao sentir bem ali o ressoar grave da sua voz em gemidos inteligíveis.

Suas mãos estavam por toda a parte, no meu traseiro, nas minhas costas, na minha garganta, nos meus cabelos ao puxá-los de uma maneira sensual. E eu acabei me perdendo no momento, entorpecido demais pela própria excitação. Ficamos ali por um tempo, na sombra da única árvore do jardim minúsculo do León, que geralmente protegia o carro do sol durante o dia, até que ele começasse a perguntar se eu não o convidaria para entrar.

Ah, Andrew, é uma ideia tentadora.

Fazia muito tempo que eu não me sentia assim, então eu estava muito tentado, muito mesmo, porque uma parte de mim queria sentir prazer, apenas sentir prazer, pela primeira vez em... Talvez pela primeira vez na vida. Eram as calças apertadas em uma fricção, me convenci, que deixaram-me tentado a ir fundo, as mãos firmes em minha bunda e as pernas grossas e torneadas que abriam-se para que eu me encaixasse no meio delas.

Tentador, mas não.

Andrew choramingou em resposta e o som foi direto para a minha virilha e, por deus, eu realmente estava com tesão acumulado. E então, as seguintes palavras saíram da boca dele: — Pelo menos, me deixa te chupar.

Meu cérebro reiniciou naquele momento e minhas pernas chegaram a oscilar quando eu literalmente segurei-o no lugar como se minha vida dependesse disto, visto que o cara estava prestes a se abaixar. Porra, foi tudo o que eu pensei, o cérebro trabalhando em encontrar uma alternativa, meu corpo havendo travado no lugar. E então, salvo pelo gongo, um barulho no portão chamou a atenção.

León havia aberto o portão distraidamente ao entrar e levou dois passos para dentro de casa para que identificasse as duas figuras no escuro da sombra da árvore ao lado do carro estacionado. Ele estancou quando nos viu, em surpresa, e levou menos de um segundo para sair disto e voltar a caminhar para dentro de casa sem dizer nada.

— Caralho, você mora com o León?

Arqueei uma das sobrancelhas, desconfortável, ainda sentindo as ereções pressionadas, cobertas de tecidos jeans.

— Vocês se conhecem? — perguntei, receoso que este fosse um amigo próximo do León que eu havia agarrado no pátio da casa dele.

Andrew me olhou com estranhamento, já havendo parado de rolar os quadris contra os meus à esta altura, dizendo: — Sim, ele é o dono do Del Rey, todo mundo conhece o cara — falou, como se fosse óbvio, e eu franzi o cenho. — Espera. Você mora com o seu chefe?

Cuidadosamente desencostei-me dele aos poucos, o tesão começando a despencar com rapidez. — Ele é meu amigo — defendi, apenas, torcendo o nariz.

— Então ele não vai se importar que a gente entre — ronronou novamente, assim que me afastei, ao puxar-me o suficiente para grudar-se em mim outra vez.

O pulsar em minha virilha confundiu-me outra vez e eu pisquei, engolindo em seco, antes de tentar afastá-lo quando ele deslizou uma mão entre nós e literalmente apertou o volume da minha calça. — N-na verdade — gaguejei, tragicamente —, a gente tem uma regra de “não fornicação” na casa.

Andrew revirou os olhos, mas puxou meu lábio inferior entre os dentes em um movimento certeiro. — Então deixa eu te levar lá pra casa, bebê — ronronou, e isto despertou algo no mais profundo do meu inconsciente, de forma que meu corpo inteiro enrijeceu. — Você não vai se arrepender.

Afastei-me subitamente.

O apelido carinhoso, dos confins da minha mente, resguardado para uma pessoa e uma pessoa apenas, acabou rompendo qualquer clima que houvesse sido criado. Além do mais, desde que este cara começou a falar qualquer coisa que não remetesse a propostas indecentes, ele deixou de ser interessante. Na verdade, correção: desde que ele abriu a boca para falar qualquer coisa mesmo, meu tesão morreu aos poucos. Andrew era muito mais atraente quando estava calado me beijando ou esfregando-se contra mim.

— Não vai rolar — descartei, rapidamente, afastando quando sua mão prendeu na minha camisa outra vez. — Tenho que dormir, eu trabalho amanhã.

Andrew me olhou com estranheza depois de tentar mais algumas vezes e eu me desvencilhar dele em todas elas, e só então acabou indo embora. Eu sabia que, em alguns dias, eu nem lembraria o nome dele e estaria grato por isto. Eu torci o nariz mais uma vez quando ele se despediu com um “até a próxima, bebê” e entrei em casa muito aliviado.

León estava esquentando algo no microondas quando eu entrei, e ele não disse nada por alguns instantes. Eu fui no banheiro, descobrindo que havia uma marca no meu pescoço e torci o nariz uma vez mais antes de voltar à sala e me dirigir ao meu quarto. León estava sentado na mesa, comendo o almoço requentado como janta, quando pigarreou e me chamou de volta, decidindo começar uma conversa bem desconfortável.

— Garoto — chamou, e eu virei, piscando. — Você sabe que, se eu não tiver em casa, você até pode...

León remexeu-se no lugar, pigarreando outra vez, e eu acabei arqueando uma das sobrancelhas, divertido, quando terminei por ele: — Fornicar em casa?

Ele me dirigiu uma carranca mas, em seguida, na ausência de outra coisa — afinal, fornicação havia sido uma escolha de palavra dele -, coçou a própria barba. — É, porra...

Revirei os olhos, apoiando-me no batente da minha porta.

— Não se preocupe com isso, León, não tenho intenção nenhuma de trazer alguém aqui pra casa.

Quando eu pensava a respeito disto, de trazer alguém para conhecer a pequena casa cubana que havia se tornado um lar para mim, era o Caleb. E isto não era exatamente possível, então nem fazia sentido mencionar.

León franziu o cenho outra vez.

— Melhor trazer pro seu quarto do que transar ali fora, contra a porra do meu carro — resmungou, antes de bufar.

Me remexi, com uma careta. — Eu não tava contra o seu...

— Se você confia no cara — interrompeu, reconhecendo que ele era um estranho para mim — pra entrar na minha casa, se eu não tiver que ver nem ouvir nada, e se não usarem meu banheiro, minha sala ou minha cozinha — adicionou mais uma regra ao pensar — ou a porra do meu pátio, então você pode ter exceções à regra. E se planejar com antecedência, melhor ainda, que então eu não venho pra casa e não tenho que testemunhar nada que faça meus olhos e ouvidos sangrarem.

Analisei-o por um momento antes de sorrir.

Se ele chegou ao ponto de fazer exceções à regra, aquilo havia incomodado muito o homem, e eu tentei não rir da maneira como ele parecia não querer atrapalhar minha vida sexual. E, apesar de toda a bobagem sobre transar contra o seu carro, eu sabia que não tinha nada a ver com isto. Achei engraçado, principalmente considerando o fato de que, se o León transava alguma vez na vida, certamente não era em casa, porque eu nunca vi nada nem ninguém.

Apesar do León nunca haver mencionado isto, Lorenzo havia me contado uns meses atrás que o irmão mais velho raramente saía com alguém porque jamais superou a falecida esposa. Lorenzo disse que eles chegaram a se casar no papel quando León ainda era muito novo, e ele foi muito apaixonado por ela, então desde que ela morreu em um acidente na rodovia alguns anos atrás, ele nunca seguiu em frente.

— Bom saber — decidi dizer, antes de retribuir, brincalhão, como se ele precisasse da minha permissão: — Digo o mesmo. — León estreitou os olhos e eu revirei os meus. — Mas, é sério, eu não vou trazer ninguém aqui pra dentro, não quero mesmo.

León deixou o assunto quieto, voltando a comer, e eu também, mas digamos que isto voltou para chutar León na bunda uns dias depois.

Apesar de eu não trazer ninguém aqui para casa, Dean era uma exceção, exceto que não era por motivos de fornicação. Ele teve permissão de entrar aqui apenas duas vezes pelo anfitrião — e porque León não teve escolha, a não ser que quisesse ser um carrasco — em dois churrascos e bebedeira após o turno onde todos os funcionários foram convidados. Nas duas ocasiões, León arrependeu-se amargamente da permissão concedida, a julgar pela maneira como Dean futricava na casa e “olhava” tudo com os dedos enquanto León ia atrás dele quando notava seu sumiço dentro da casa.

Mas essas não foram as únicas duas vezes em que Dean esteve aqui. Eu o trouxe comigo algumas vezes nos intervalos e em outras durante os finais de semana, tudo sem que León soubesse, é claro. E digamos que haviam vezes em que eu simplesmente deixava que ele entrasse para alimentá-lo, porque eu sabia que ele andava pulando refeições — e também havia o fato de que, quanto mais tempo eu passava longe do trailer, mais tempo eu queria passar longe do trailer. Era mais fácil, mais rápido e mais eficiente fazê-lo comer algo aqui antes de ir para o serviço.

Acontece que eu não tinha permissão para trazê-lo aqui, dentre todas as pessoas, afinal, era o Dean. Se eu trouxesse qualquer amigo, e eu digo qualquer amigo no mundo, León não teria o menor problema com isto, mas trazer o Dean era demais. E talvez eu tenha jogado sujo, mas ele realmente havia me dado luz verde quanto a trazer caras aqui para casa quando quisesse.

Dean era um cara, não era?

León havia preparado todo o almoço daquele sábado quando apareci com o Dean ao meu lado pela terceira vez naquela semana e, pela terceira vez, eu vi o arrependimento estampado em seu rosto por suas próprias palavras.

— Porra, de novo?! — foi a reação dele, o brilho sumindo quando pôs os olhos em Dean.

Dean não havia ganhado muito peso ainda, e eu sabia que era porque, quando eu não o forçava a comer direito, ele simplesmente não comia. Ele até podia usar a desculpa de não saber cozinhar — porque ele era mesmo péssimo — mas eu também sabia que era porque ele seguia usando heroína, ainda que mentisse que havia parado por completo.

— O que eu posso dizer? — perguntou, dissimulado, colocando uma mecha atrás da orelha. — Eu tô apaixonado.

León bufou e eu acabei sorrindo de canto, arrumando a pequena mesa assim que León, muito irritado, dispensou minha ajuda com as panelas. Ele ficou murmurando resmungões e reclamações descontentes consigo mesmo ao passo que Dean fazia um lindo trabalho fingindo que não ouvia, conversando diretamente comigo o tempo todo.

Depois de um tempo, desligando a maioria das bocas do fogão, León virou-se para a postura bem relaxada de Dean de quem está perfeitamente em casa, enquanto eu me servia de suco.

— Você não tem comida em casa, não?! — reclamou, e Dean apenas piscou lento em resposta. — Porra, usa o salário pra quê?

Dean deu de ombros e não olhou para mim nem para ele, mas eu sabia exatamente para onde ia o seu salário. E León provavelmente também havia adivinhado.

— Quer mesmo saber? — provocou, com um sorriso malicioso enquanto León retrucava de pronto com um “porra, não!”. Dean acrescentou, depois: — Além do mais, o único que nunca falta na minha casa pra ser comido sou eu — apontou, e eu me engasguei com o suco. Assim que voltei a respirar normal, ergui os olhos a tempo de ver os melados de Dean pousarem acima com malícia, onde León estava em pé com o nariz torcido em desgosto. — Fique à vontade pra aparecer lá e saciar sua fome, grandão, porque esse mau humor me diz que é você quem não anda comendo bem.

— Dean... — avisei, vendo que os dedos de León esbranquiçaram ao apertar a colher de pau, dentre todas, ironicamente.

— O que foi agora? — reclamou, pra mim, estalando a língua. — Todos sabem que esse homem precisa foder, sabe, pra aliviar um pouco da tensão. Ninguém fica estressado dessa forma quando tá se lambuzando em...

— Dean, pelo amor de deus, cala a boca — pedi, arregalando os olhos, e ele calou por apenas um segundo.

Dean fechou a boca, com uma careta. — Ai, moreno, não fala assim comigo — choramingou, falsamente, e eu suspirei.

— Porra, você tá vendo?! — explodiu León, depois de que seu sistema operacional reiniciou na base do ódio, ao desligar as panelas e virar-se para nós. — Você tá vendo o que eu tenho que passar todo dia, cacete, e ainda me traz esse miserável pra comer a porra da minha comida, na porra da minha casa, na porra do único tempo livre que tenho dele?!

Dean fez um movimento torto da boca que indicava que ele entendia que havia passado dos limites e eu me senti agradecido que ele finalmente fechou a boca.

Milagrosamente, Dean até que aguentou algum tempo calado, os olhos cuidadosos disparando entre mim e o León, embora ainda estivessem vazando sarcasmo. Enquanto isto, eu lhe dirigia olhares repreensivos que ele prontamente ignorava, tal qual uma criança birrenta. Nós finalmente nos servimos e León sentou à mesa, o começo tranquilo de um almoço que estava fadado a se alvoroçar.

Dean quebrou o silêncio uns instantes depois, quando beliscou a comida, parecendo escolher as palavras para não atiçar a fera: — Se eu venho comer aqui é porque você faz um almoço muito melhor que o meu — decidiu elogiar, e León o recebeu com uma carranca nada impressionada.

Arqueei as sobrancelhas, suspirando, o clima tenso. — É verdade — decidi colaborar, ao León. — Ele não sabe cozinhar.

León bufou. — Ninguém é pior que você.

Estreitei os olhos antes de apontar para o Dean.

— Ele é — afirmei, com toda a certeza, ao soltar um riso. — Se eu não levo comida pro Dean, ele vive de macarrão instantâneo. E até isto ele tem preguiça de fazer.

Dean sorriu, piscando lentamente os olhos felinos. — Meu herói — elogiou, malicioso, e León faltou revirar os olhos.

Nosso chefe acabou voltando os olhos julgadores para o Dean para analisá-lo de cima à baixo, o que Dean recebeu com uma sobrancelha arqueada, e então ele fez um gesto vago para mim.

— Você ao menos agradece o trouxa esse por tudo o que ele anda desmerecidamente — enfatiza — fazendo por você?

Pisquei, surpreso por León sequer reconhecer aquilo em voz alta mas também por haver se envolvido ao fazê-lo, embora não surpreso por estar dando bronca em Dean. Dean lhe deu um olhar lento, antes de sorrir de canto, e acho que León percebeu ao mesmo tempo que eu que ele se arrependeria da pergunta.

— Eu me ofereço como agradecimento o tempo todo — contou, e eu inspirei fundo —, de quatro, deitado, em pé, de ponta cabeça. — Então, estalou a língua, um pouco chateado, ao me indicar com a mesma mão que segurava o garfo. — Ele continua me negando.

— Porra, esquece — descartou León, antes mesmo dele terminar de falar. Empurrou o prato ainda cheio para longe, pegando o copo para engolir metade do suco de uma vez. — Caralho, não é possível que esse desgraçado não saiba ter uma conversa normal — reclamou, para ninguém em específico e, então, diretamente para ele: — Qual é a porra do seu problema?!

Dean deu outro sorrisinho, depois de dar de ombros, antes de se inclinar na direção de León. Silenciosamente, pedi ajuda aos céus. — Meu problema, neste momento, é que eu sou a fome e você é a vontade de comer, mas nenhum de nós tá saciado, grandão.

Arregalei os olhos, temendo o pior, porque se o León partisse para cima do Dean, eu não teria nem força suficiente para tirá-lo de cima. No entanto, depois de longos minutos de veia saltada em sua testa, a reação do León não foi de ódio, mas pura descrença. Ele bufou, balançando a cabeça de um lado ao outro, antes de puxar o prato novamente para perto.

— Eu não sei como você conseguia clientes, sinceramente — jogou no ar, antes de enfiar comida na boca e, bem, quem ficou ofendido foi o Dean.

— Claro que não — resmungou, o tom forçadamente entediado —, você não tem bom gosto. Meus clientes não eram brutamontes como você.

León revirou os olhos, soltando um bufo descrente.

— Sim, os zé droguinhas e os velhos casados — debochou León, bem entendido, enquanto eu olhava de um para o outro. — Bom gosto do caralho. E, por falar nisso, você já largou as drogas ou sua única sugestão de agradecimento ao Alex segue sendo suas pernas abertas?

Dean largou o garfo, torcendo o nariz ao olhá-lo friamente. Não me passou desapercebido que ele mal havia tocado na comida e seguia pausando o grande evento de mastigação. Era comum que isto acontecesse também, ele apenas revirava a comida no prato, comia pouco e então dizia que estava cheio.

— Não é da sua conta — resmungou, ácido, em um tom monótono. — Se quiser me fazer mais perguntas, vai ter que me pagar um boquete antes.

Tive certeza que um olho de León tremeu, mas ele seguiu firme com a voz provocativa, porque viu que irritou Dean: — Ou seja, não — resumiu ele, e eu resmunguei:

— León...

Dean estalou a língua, deu de ombros, e mentiu, docemente: —Pelo meu chuchu, eu largo qualquer coisa. — Revirei os olhos ao mesmo tempo que León fazia. Então, Dean cantarolou: — Sem falar que minha droga favorita sempre foi a comestível — soltou, com um sorriso de canto, antes de piscar um dos olhos.

— Eu não quero saber das suas nojeiras — disparou León, voltando a se irritar. Então, quando olhou para Dean com desaprovação extrema, a voz não saiu gritada como era geralmente, saiu como um bufo incrédulo mesmo: — Será que você pode agir como uma pessoa decente ao menos uma vez na sua vida?

Dean estreitou os olhos e eu suspirei, desistindo de comer.

Você não saberia o que ser decente significa — acusou, o nariz torcido. — E não teria nojeira nenhuma pra contar se não houvesse quem financiasse — disse, uma acidez por trás do tom entediado. — Além do mais, foder era meu trabalho. Por que não posso falar sobre meu antigo emprego?

— Não me venha com essa merda — retrucou, prontamente, León, ao também largar os talheres. — Você sabe que não é dessa porra que eu tô falando.

— De qual tipo de porra você tá falando?

Suspirei, vendo que as mãos de León chegaram a tremular.

Ele não respondeu, obviamente, porque eu sabia que ele não queria cair no mesmo tema que resultou em uma briga aos berros no bar e a demissão temporária — a primeira de muitas — de Dean antes que ele voltasse com o rabo entre as pernas. Daquela vez, León pegou pesado e conseguiu entrar na pele dele, dizendo que ele não tinha o menor respeito pelos outros e nem por ele mesmo, dizendo que ele não tem a menor consideração por quem se dispõe a ajudá-lo, a oferecer um emprego, a limpar a bagunça dele.

Na ausência de uma resposta de León, Dean deu de ombros: —E se quer saber, grandão, existem indecências muito maiores do que foder por dinheiro — acrescentou, azedo —, tipo pagar pra foder.

— Porra, eu já disse que...

— Chega — pedi, quando Dean abriu a boca para interromper, porque era assim todo santo dia. — León, não é possível que você não tenha aprendido que não dá pra dar corda para o Dean — resmunguei, e León me dirigiu um olhar assassino que eu ignorei, voltando-me ao outro. — E você — acusei, sob os olhos melados —, continue assim que eu nunca mais faço questão de te trazer aqui pra casa.

Os dois ficaram quietos, emburrados, mastigando com força, embora Dean tenha apenas comido metade do prato e cutucado com desinteresse a outra metade. Eu apenas observei calado, voltando a comer rapidamente, servindo-me uma segunda vez porque morar com León se tratava disto: repetir refeições. Eu amo a minha mãe, mas nem mesmo ela sabe cozinhar desta forma.

Depois de alguns minutos em silêncio, León havendo praticamente engolido a comida para fugir logo dali, Dean não o esperou antes de quebrá-lo outra vez. — A sugestão ainda tá em pé e a porta do meu trailer tá sempre aberta pra você, grandão.

— Dean... — rosnei, mas nem saberia o que dizer.

León arrastou a cadeira para trás bruscamente, jogou o prato na pia e marchou até o próprio quarto antes de bater a porta com fúria. Eu me limitei a encarar o rapaz magricela à minha frente com intenção assassina, mas ele nem ergueu os olhos para mim depois de haver encarado a porta fechada do León.

Dean comeu uma ervilha perdida do prato sem muita vontade antes de dar de ombros e dizer: — Não sei por que ele ficou tão ofendido.

Com um suspiro, eu abandonei toda e qualquer esperança de paz, analisando Dean com certo cuidado. Ele tinha o nariz franzido em irritação e um vinco incômodo entre as sobrancelhas naturalmente arqueadas, apesar de haver deixado uma máscara de tédio tomar conta de sua face. Eu o conhecia melhor do que isto, ele estava realmente incomodado, perdido em pensamentos, e isto tornou mais fácil o processo de observá-lo.

Eu não tinha muita oportunidade de observar o Dean, porque se ele me pegava olhando para ele, sempre me fazia arrepender com propostas indecentes e dedos frios que inflitravam-se sob minha camisa e voz ronronada próxima ao meu ouvido.

Eu discuti a respeito dele algumas vezes com a Morgan e ela parecia genuinamente surpresa que ele não me afetasse metade do que nós dois esperávamos. Depois de um tempo, eu percebi que era porque eu o via como uma pessoa patética — e não era no sentido de querer ofendê-lo, eu nunca diria isto em voz alta, era apenas a verdade. Eu tinha pena dele, em poucas palavras, e era muito difícil guardar rancor de uma pessoa tão lastimável, toda a construção que eu tinha dele na cabeça de treze ou catorze anos se esvaiu como uma ilusão de ótica que eu não consigo rever novamente. Por outro lado, eu também nutria certa afeição por quem ele era agora, algo que passou a existir depois que eu me reaproximei dele este ano.

Esta reaproximação foi curiosa, porque eu era mais próximo do Dean quando ele era apenas uma ilusão feita de memórias na minha cabeça do que quando eu passei a conviver com a versão de carne e osso dele. Quando eu me aproximei dele depois de perdoá-lo, depois da ilusão se esvair, ironicamente foi a primeira vez que me distanciei dele de verdade. Foi assim que consegui conviver com ele sem me deixar afetar, porque estávamos mais distantes agora do que quando estávamos distantes fisicamente. Dean não mais me afetava porque eu já não mais me importava com o que ele sentia ou pensava sobre mim. Ao mesmo tempo, era muito difícil odiar alguém tão estupidamente ridículo — eu passava a maior parte do tempo rindo das barbaridades absurdas que escapavam da boca dele. Eram coisas que inicialmente me incomodavam e me tiravam do sério, mas, com o tempo, o único que me resta fazer é me divertir com elas para não me chatear.

León ainda não havia aprendido isto. Você simplesmente não discute com o Dean, se ignorá-lo não funcionar, você sorri e acena e finge que concorda com todos os disparates ilógicos que ele diz.

Mas se eu fosse completamente sincero — e eu cheguei a falar sobre isto com a Morgan porque a ideia me apavorou -, eu entendia quase tudo o que ele falava, por mais absurdo que fosse, e haviam vezes que eu, inclusive, concordava.

Uma parte de mim deveria ser tão desvairadamente insana quanto todas as partes de Dean eram.

Mais tarde, quando consegui enxotá-lo daqui para não piorar o humor do León e ficar sozinho com os meus botões, eu me peguei querendo ligar para o Caleb.

Eu queria dividir com ele meus devaneios sobre o assunto, sobre minhas similaridades horrendas com o Dean, esperando ouvir de sua voz terna que “não há nada de insano sobre você, Alex”, a simples ideia fez meus olhos arderem e meu nariz pinicar. Eu encarei o celular por um longo tempo, o número dele, mas acabei discando outro número ao invés disto.

— Oi, mãe — cumprimentei, baixinho, quando a ligação foi atendida. — Você tá bem?

Eu não havia conseguido conversar com ela desde a última vez em que me disse as coisas mais lindas que eu havia ouvido dela na vida. Foi demais para mim e eu precisei de um tempo de processamento para que pudesse ouvir a voz dela novamente sem que eu desmoronasse com todo o amor.

Ouve um misto de riso e suspiro aliviado do outro lado antes que ela fungasse uma vez e respondesse: — Eu tô ótima agora, meu bem, e você?

Sorri.

Agora eu estou ótimo também.


2021


Algumas semanas se passaram e estávamos às vésperas do natal, uma vez mais, e eu me peguei ansioso por isto, o que me pegou de surpresa. Eu costumava odiar essas celebrações excessivamente familiares e, após o último ano, eu realmente me peguei ansiando por elas com muita afeição. Para mim, natal agora significava um churrasco no pitoresco jardim da casa dos Hernández e uma tarde inteira de filmes criteriosamente selecionados. Era ridículo e perfeito, e eu amava a ideia de passar o natal em família outra vez.

Em um piscar de olhos, veio mais uma virada de ano tumultuosa, e mais um ano iniciava com promessas sussurradas.

Janeiro mal havia começado quando uma voz amiga me fez encarar os sentimentos amargos que vinham com a finaleira do ano e o recomeço iminente do próximo ano, aqueles que eu pretendia evitar à todo custo. A voz que atravessava a linha telefônica pelo meu celular era masculina, envolta em energia hiperativa, zombeteira e espalhafatosa. Porém, ao contrário do que acontecia em todas as chamadas com o Bruno, desta vez, também havia um toque de seriedade e preocupação em sua voz.

Meu príncipe mexicano tentou disfarçar à princípio, certificando-se de que estava tudo bem por aqui ao puxar assuntos banais que iniciavam toda conversa, mas logo ele partiu para o motivo de haver me ligado para começo de conversa. Não que precisássemos de motivos, ocupando o segundo lugar depois do Ian, Bruno era a pessoa com quem eu mais conversava por chamadas.

Naquele dia, no entanto, ele estava em uma missão.

— Escuta, príncipe, eu te amo, mas a gente vai ter que conversar sobre o Caleb.

Pisquei, sendo pego desprevenido, e meu sorriso morreu.

Não seria a primeira vez que ele tentaria conversar sobre isto, mas desta vez, não havia cautela em sua voz, como quem está testando as águas, não, havia apenas determinação obstinada.

— Bruno...

— Não — interrompeu, firme —, eu tô falando sério desta vez, e se você desligar na minha cara, eu juro que não atendo mais suas ligações.

Eu sabia que não era uma ameaça realmente séria, ele não iria cortar nossa amizade pela raiz por um motivo besta destes, mas eu sabia que ele realmente me ignoraria por semanas a fio na base da teimosia.

Suspirei, inclinando-me na cadeira do quarto, o notebook aberto em edições de vídeo na minha frente e a luz para as gravações ainda acena em um tripé, que começava a cegar meus olhos.

— Por que isso agora? — perguntei, receoso.

Bruno também suspirou do outro lado.

— Olha, eu não sei o que tá acontecendo na sua cabeça desmiolada, meu irmão — insultou, com muita naturalidade —, mas você vai ter que sair dessa. Eu nem acredito que faz um ano que vocês não conversam, você tem noção de como isso é ridículo?!

Encolhi um pouco os ombros. Quando dito desta forma, em um tom de bronca familiar, meu primeiro instinto era concordar e dizer: tem razão, pai, é ridículo mesmo. Mas eu abafei o instinto rapidamente e foquei nos fatos.

— Bruno, o que quer que você queira me falar, tenha certeza — enfatizei, devagar —, eu já pensei sobre isso infinitas vezes.

Inclusive, as infinitas vezes me mantinham acordado à noite com mais frequência ultimamente, quis acrescentar, mas franzi os lábios um no outro.

— Ora, é mesmo? — debochou, e eu arqueei as sobrancelhas com o tom sério por trás. Bruno era zombeteiro, de costume, mas o deboche escarrado e um tanto maldoso era incomum vindo dele. — E será que já pensou em ver o seu menino abraçadinho com outro marmanjo na rua? — perguntou, e eu me senti gelar. — Porque é neste tipo de coisa que você deveria começar a pensar agora.

Meu coração acelerou dolorosamente com a simples ideia e eu apertei o telefone ainda mais contra o ouvido, me sentindo petrificar no lugar, com medo até de respirar.

— Por quê?

Bruno suspirou, entendendo que eu havia entendido a seriedade da situação, como se assim pudesse relaxar e deixar de lado o deboche tenso. Eu ouvi um barulho abafado e imaginei que ele havia sentado em algum lugar.

— Eu encontrei a panelinha uns dias atrás no tumulto — contou, referindo-se ao mais novo ponto de encontro para bebedeiras. Era notável que ele ficou um tempo pensando sobre isto antes de me contar e eu entendi o porquê instantaneamente. — E não é que ele tivesse agarrado com alguém, é só que... — Impediu-se, mas eu não consegui relaxar por completo, franzindo o cenho. — Bom, eu acho que tá na hora de você pensar nessa possibilidade — resumiu, e eu não gostei nada da evitação do tópico do assunto. — Você nasceu pro mundo, cara, você não vai ficar preso em MC pelo resto da vida. Eu sei disso e você deveria saber também. E quando você voltar — continuou, sério —, o mínimo que pode fazer é se preparar pra encontrar o seu garoto com outra pessoa.

De jeito nenhum, uma voz gritou, mas eu a calei rapidamente.

Tentei colocar os pensamentos em ordem, recuperando um pouco do bom senso ao relembrar de todas as infinitas possibilidades que sondavam à minha mente tarde da noite. Eu sabia que, se eu quisesse libertar Caleb de mim, isto significava que ele iria acabar com outra pessoa em algum momento.

Engoli em seco, desgostoso, antes de me inclinar e desligar a luz forte, inquieto, a imagem do Caleb agarrado com outra pessoa estava cravada na minha cabeça e eu estava certo de que iria me assombrar. — Tá, mas o que exatamente você viu?

Bruno suspirou e eu quase podia vê-lo coçar os cabelos.

— A mais nova adição à sua panelinha — contou, devagar, como se estivesse incerto sobre me contar ou não —, Topher, ele já tá com eles há um tempo, eu vejo nas publicações. Você não?

Arqueei as sobrancelhas, surpreso, ao piscar.

Obviamente que eu havia visto o tal de Topher nas publicações e, não apenas isto, mas todos na panelinha já haviam mencionado aquele menino uma vez ou outra. O próprio Ian já havia me contado a respeito dele logo que eles se tornaram amigos, mas há um tempo ele não o mencionava. Eu sabia quem era, eu o reconhecia nas fotos, e não havia me passado desapercebido que ele estava sempre ao lado do Caleb.

Diante do meu silêncio pensativo, Bruno continuou: — Olha, eu não tô dizendo que tem algo rolando ali, mas eu também não sou besta e sei o que vi. O rapaz tava todo olhinhos pro seu garoto — contou, e eu torci o nariz em uma careta — e mesmo que isto não dê em nada, Alex, pelo amor de deus, acorda pra vida. — Eu o ouvi estalar os dedos, nervoso e inquieto, e engoli em seco. — Se não for ele, vai ser mais alguém. O menino é humano, provavelmente ainda tá de coração partido por conta da merda — enfatizou — que você fez, e sim, eu vou dizer mais uma vez que você fez uma merda terrível em deixá-lo pra trás só porque foi pra outra cidade...

Fechei os olhos, apertando a ponte do nariz.

— Bruno...

— ... e é questão de tempo até que ele acabe com alguém.

Engoli em seco.

Não é como se isto não houvesse me passado pela cabeça antes, mas eu nunca me permiti entrar nessa área horrenda que era pessoalmente assombrada por muito dos meus demônios. Era um tópico sensível e eu não havia me permitido desvendá-lo a fundo porque não havia necessidade, afinal, eu recém havia me mudado para cá. Exceto que, bom, um ano já havia se passado em um piscar de olhos. E eu estava tão preocupado com nós, Caleb e eu, ainda como uma unidade só, sobre as maneiras como eu havia partido seu coração, como descrito por Bruno, e sobre as maneiras como eu poderia possivelmente consertar isto, que eu não cheguei na parte de me preocupar com ele separadamente de mim.

Porra, que ridículo, eu nem havia deixado-o ir ainda.

Mas era lógico que, caso eu deixasse as coisas como estão — e eu não tinha certeza se escolher não fazer nada por medo era uma escolha por si só de deixar as coisas como estão -, isto era um futuro iminente.

Quero dizer, olhe só para ele.

Caleb era perfeito, com todas as imperfeições, não havia ninguém mais perfeito no mundo todo. Nas poucas fotos que ele aparecia, a maneira como ele apenas se aperfeiçoava com o tempo parecia zombar da minha cara por havê-lo deixado para trás. Ele ficava mais deslumbrante a cada minuto que passava, eu tinha certeza disto, e era difícil me contentar com apenas pixels ridículos de uma tela de celular.

— Ele tá lindo, né? — comentei, sem me aguentar, com um sorriso bobo. Uma inveja tomou conta de mim por Bruno haver tido o prazer de vê-lo pelas lentes dos próprios olhos. Em seguida, eu soube que ele havia revirado os mesmos olhos a julgar pelo tom impacientemente zombeteiro de sua voz:

— Sim, tá lindo, um gostoso — descartou, um pouco incrédulo e um pouco divertido. — Agora será que podemos falar sério? — chamou-me novamente, e parece que se esforçou para ficar sério outra vez depois do pequeno riso que saiu dos seus lábios, mas ele realmente ficou. — O que você tá fazendo, cara? Por que você tá deixando isto acontecer? Quanto mais tempo você ficar aí, na sua bolha, menores as suas chances de recuperá-lo.

Engoli em seco, o sorriso morrendo, quando me encolhi na cadeira, impulsionando com os pés a ponto de fazê-la girar no próprio eixo de forma que acabei encarando a porta do quarto.

— Era essa a intenção, Bruno, era isso o que eu queria — e, no momento que aquilo saiu dos meus lábios, eu soube que era mentira.

Bruno soube também, é claro.

— Puta que pariu, Alex, é claro que não é — reclamou, incrédulo e irritado. — Não é isso o que você quer, de jeito nenhum, você tá esquecendo com quem tá falando? — perguntou, e ainda fez uma pausa para eu responder, mas eu apenas resmunguei em resposta. — Agora deixa de ser idiota e comece a bolar um plano de recuperar seu menino antes que ele não seja mais seu, porque se isto acontecer, meu amigo, aí sim é que a vaca vai pro brejo.

Soltei um riso automático, talvez pelo nervosismo, mas não consegui ficar sério depois de ouvir aquilo. Bruno era tão obsoleto e cafona, às vezes, e céus, eu sinto tanta falta do desgraçado.

— Bruno, quem é que ainda usa essa expressão? — ri, incrédulo, pensando que a resposta viria com um dar de ombros: ué, a abuelita. — Pelo amor de deus.

Ele soltou um riso também, mas tentou disfarçar com um bufo. — Não muda de assunto — ordenou, sem muita firmeza. — O que cê tá pensando, cara?

Deixei meu sorriso morrer aos poucos, ponderando o que responder, mas a verdade é que meus pensamentos eram tantos que eu não poderia responder sem precisar de um par de horas.

Mordi o lábio inferior. — Eu tô pensando que eu sou uma bagunça, Bruno, uma bagunça que eu tô tentando arrumar — especifiquei, tentando resumir ao máximo. — Eu tô pensando que o Caleb merece o melhor, e isto não significa eu.

Bruno bufou tão exasperadamente que eu soube que ele não compartilhava da mesma opinião. — Pelo amor de deus...

— Eu já pensei sobre isto, sabe — apressei-me em explicar —, e eu não vou mentir pra você que uma parte de mim pensa em voltar e em recuperá-lo todo puto dia, mas o mínimo dos requisitos pra eu fazer isto é que... — Suspirei, esfregando a cara em frustração. — Cara, se eu não sou perfeito, então o mínimo que eu tenho que ser é minha melhor versão, sabe? — expus, recém me dando por conta disto. — E eu não... Eu não consegui alcançar isto.

Bruno ficou um minuto em silêncio exasperado e inspirou profundamente antes de engatar em um discurso bem incrédulo:

— Mas meu príncipe, que merda é essa que você tá falando? — começou bem, foco na humilhação. — Não existe isso. Nossa melhor versão vai rolar quando a gente tiver uns setenta e oito anos, a idade da minha abuelita, você não consegue alcançar a perfeição de pessoa que ela é com vinte anos de idade — declarou, com muita certeza, e eu quase sorri, não fosse a frustração de que ele não havia entendido o que eu queria dizer. — Não existe isso.

— Bruno, você não entende que...

— E outra coisa que quero saber — interrompeu — é que tipo de terapia é essa que você anda fazendo por um ano, Alex, se ainda não aprendeu a cuidar de si mesmo e do seu próprio coração?! — E eu pisquei em resposta, surpreso com a bronca. — Eu quero agora mesmo o número dessa Morgan, tenho uma coisinhas pra falar pra ela.

Soltei um bufo, revirando os olhos, mas meu coração havia aquecido um pouco com a preocupação.

— Como é que ela ainda não te convenceu de que você é muito mais valioso do que pensa? E que merece estar com alguém mesmo com todas essas tuas chatices e burrices? — especificou e, novamente, eu via que o foco estava na humilhação. — Alex, escuta o que eu tô te dizendo porque eu sou o amor da sua vida e você tem que me ouvir. — Soltei um bufo fraco, mas meus lábios já haviam se curvado um pouco para cima. — Você merece ser feliz e ter tudo o que você deseja. Você é um chato de galochas — declarou e, novamente, quem é que usava essas expressões? —, sim, senhor, mas você não é esse merda que você pensa que é e você é perfeitamente capaz de fazer outra pessoa feliz, sim, senhor.

Engoli em seco, apertando o celular um pouquinho mais, sem saber o que dizer.

No fundo, eu quis falar que estas eram coisas que a Morgan, quem ele havia julgado menos de um minuto atrás, vivia me falando — de uma maneira bem mais profissional e menos humilhante. Eu quis dizer a ele que não funcionava com ela e não funcionaria com ele, que era bem mais complexo do que apenas ouvir palavras de encorajamento. Mas, ainda assim, a parte de mim aquecida estava convencida de que a solução era apenas ouvir mesmo.

— Alex, escuta o que eu tô falando — continuou, como se eu já não estivesse escutando. — Eu tô te acompanhando de longe e é óbvio pra qualquer um com olhos que você tá muito melhor do que tava antes, que você tá feliz, que tá fazendo o que ama, que tá começando uma carreira muito mais foda do que eu imaginava, vou ser sincero com você, cara. — Arqueei as sobrancelhas, com um sorriso besta no rosto, no fundo ponderando onde ele estava querendo chegar. — Você tá indo muito bem, eu sinto que tô vendo um irmãozinho crescer — declarou, dramático, e eu revirei os olhos. — Isso é ótimo. Mas eu não posso mais ficar calado com relação a esta parte da sua vida, não posso mesmo. No início, eu pensei que te entendia, que você tinha um pouco de razão, mas porra, Alex, um ano, cara! — exclamou, indignado, e eu o imaginei pulando para cima e para baixo como um personagem animado. — Um ano e nem falar com ele, você fala. Você pode estar evoluindo em todas as áreas da sua vida, mas nesta, não, Alex. Nesta, você tá se afundando — resumiu, para não restar dúvidas. — Escuta o que o que eu tô te falando.

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— Bruno...

— Você sabe que eu tenho razão, não sabe? — disparou, com um bufo irritado e um pouco esnobe.

Suspirei, desta vez, girando para encarar a janela atrás da mesa. Admiti, quietamente: — Uma parte de mim acredita que sim.

— A parte sensata — apontou, resoluto —, que ótimo, então agora vamos calar a outra parte burra, sim?

Eu não consegui soltar nem um riso fraco, porque a concepção estava fazendo meus olhos arderem e eu estava piscando para afastar as lágrimas. Meus órgãos pareciam apertarem-se como se esprimidos dentro do corpo quando eu me colocava a pensar sobre isto, e eu subitamente entendi o porquê de evitar o assunto e acabar não fazendo nada a respeito.

Era doloroso demais.

— Mas se você tiver razão, isso significa que... — Suspirei, deixando os ombros caírem. — Você tem razão sobre tudo.

Madre de diós, seu cérebro tá meio frito mesmo, hein?

Revirei os olhos, mas não podia culpá-lo por não entender. — Eu quero dizer que você tem razão sobre eu ter fodido tudo e o pior é isto, você tem razão, um ano se passou — admiti, sentindo o peito apertar-se e o estômago revirar-se com o simples pensamento. Acrescentei, baixinho, como se admitir isto fora da minha mente perturbada fosse menos dilacerante se eu mantivesse a voz baixa: — Isto não tem conserto, Bruno, olha o que eu fiz.

Bruno fez uma breve pausa, com um suspiro mais baixo e aquietado, antes de dar o conselho mais centenário que poderia: — Meu querido príncipe das trevas, a única coisa que não tem conserto é a morte.

— Bruno, eu tô falando sério — falei, firme, tentando não me desesperar ao considerar que ele estivesse certo. — Um ano, Bruno. Se ele tá seguindo em frente, que bem vai fazer que eu tente voltar pra ele agora?

Bruno pareceu exasperado e eu o imaginei abrindo os braços ao gesticular esbaforidamente. — Alex, será que você pode parar de pensar nos outros por um minuto e pensar em você mesmo?!

— Mas eu ainda tô fodido, Bruno! — exclamei, levantando da cadeira com impaciência. — E eu preciso pensar nele, cara, como é que eu posso amar alguém e querer bagunçar a vida dele ao mesmo tempo? Se eu voltar agora e, principalmente, se não der certo, eu vou ter causado mais sofrimento nele pra nada, você entende?

Bruno bufou, confirmando que não entendia coisa nenhuma.

— Cara, você não pode ter qualquer tipo de relacionamento baseado no que você pensa que ele quer, que ele sente, que ele fala — ensinou, como uma versão masculina da Morgan. — Você tem que perguntar. Você tem que pedir desculpas. Você tem que pedir uma chance. E então, quando ele responder, só quando ele responder — enfatizou, devagar, como se eu fosse burro —, aí sim é que você vai saber. E outra, o garoto já é bem grandinho, tá bom? Ele cresceu, inclusive, tá enorme — exagerou, para provar um ponto, e eu neguei. — Eu tenho certeza que ele pode tomar as próprias decisões pra vida dele. O que você é, pai dele? — zombou, irritadiço.

Neguei com a cabeça, de um lado para o outro, como se ele pudesse me ver, até que eu conseguisse verbalizar coisa que fosse.

— Eu não posso voltar pra ele, Bruno, eu não posso — insisti, pensando em todos os possíveis resultados desastrosos disto. — Vai ser muito egoísta e vai ser em vão, ele nunca vai me perdoar.

— Você não sabe disso — pronunciou, grave e forte, como se estivesse por um fio de estourar comigo. — Você nunca vai seguir em frente totalmente, Alex, então você vai acabar voltando de alguma forma — declarou e eu fechei a boca, considerando. — O único que você tá fazendo agora é adiar o inevitável, o que vai tornar o inevitável ainda pior, você entende? Você vai acabar voltando, mas você vai voltar tarde demais porque você pensa que tarde demais já é agora.

Pisquei algumas vezes, mas fiquei sem palavras.

Caralho, ele está certo, não está?

Eu nunca deixaria o Caleb em paz de qualquer forma, eu nunca conseguiria superá-lo ou seguir em frente, e voltar correndo para ele sempre seria uma possibilidade que eu cogitaria até meu leito de morte, se chegasse a tanto. Mas não chegaria a tanto, não é? Porque Bruno tinha razão, eu não iria aguentar e nem levaria tanto tempo, talvez mais um par de anos, no máximo, e eu voltaria correndo para ele.

Eu sempre fui egoísta, neste nível, eu estava apenas me enganando ao pensar que eu conseguiria não ser. E eu me enganaria por tempo o suficiente para estragar tudo de vez.

Apenas percebi que entrei em uma cacofonia de pensamentos muito desesperados quando Bruno quebrou o silêncio existente apenas fora da minha cabeça: — Eu tô dizendo isso porque eu te amo.

Engoli em seco, assentindo, e consegui sorrir.

— Eu sei, Bruno, eu sei.

Também percebi, apenas então, que ele seguia sério, sem nem mesmo um tom de zombaria em sua voz, apesar da irritação haver sumido. Ele murmurou, então: — Você já sofreu o suficiente, Alex, você merece ser feliz.

Suspirei, afundando-me na cadeira, incerto sobre suas últimas palavras — meus demônios ainda me convenciam de que “merecer ser feliz” era uma expressão muito forte.

Quanto ao Caleb, eu finalmente entendi que Bruno tinha razão, ao menos, uma parte de mim entendia isto, mas seguia sendo difícil mover-me em qualquer direção. Eu ainda me sentia impotente, porque ainda que eu queira pedir desculpas na cara lavada, como é que eu posso implorar por perdão à distância? Eu havia o magoado profundamente, isto não era consertável com ligações ou mensagens de texto, era o tipo de coisa que requereria olho no olho, no mínimo. E ainda que eu viaje até Hybridfield, não era o suficiente, eu precisaria viajar toda semana para lá, no mínimo, para tentar resolver as coisas — e isto tampouco garantiria que eu teria uma chance de resolvê-las.

Um ano era muito tempo, e eu não conseguia pensar em nada que eu pudesse dizer ao Caleb que justificasse havê-lo deixado para trás. Não haviam justificativas, não haviam explicações, e certamente não haviam desculpas. Ele não iria me perdoar e eu não poderia tirar a razão dele, porque eu não merecia perdão.

Era aí que as vozes da minha cabeça entravam.

Ao mesmo tempo em que eu considerava que Bruno tivesse razão, outra parte de mim estava me convencendo de que, se eu não houvesse deixado Caleb para trás, se eu tivesse mantido contato com ele, eu estaria aprisionando-o a mim. Essa mesma parte, materializada por vozes — já não tão maldosas, mas ainda ferozes -, se questionava se Caleb não estava evoluindo mais na minha ausência, se ele não havia encontrado um pouco de paz longe de todo o meu caos e se eu realmente era tão egoísta ao ponto de me arrepender de dar a ele esta oportunidade.

Essas mesmas vozes perguntavam-me: como ousa almejar a liberdade, negando-a a quem mais ama?

Notas finais
Meus capítulos andam tão longos que eu sinto que nem tenho o que dizer aqui nas notas, porque é autoexplicatório KKKKKKKKKKKKK. Postei e saí correndo outra vez, mas desta, não sei quando volto porque por enquanto não tem mais nenhum capítulo pronto. Eu tô de férias (forçadas kkkk), no entanto, então acho que não demoro pra voltar. No próximo, entraremos em 2021 com o Caleb. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! <3