Made of Stone
68 LIII. De todos os clichês do mundo
Notas iniciais
Clichês são inevitáveis.
Algumas coisas me fizeram chegar à conclusão de que a nossa vida é inevitavelmente um clichê — há certas diferenças entre as pessoas, é óbvio, talvez realmente haja um pouquinho de originalidade resguardada em nosso âmago, mas ainda seguimos caindo repetidamente em buracos fundos de clichê. Há repetições em todas as histórias — de amor, de amizade, de irmandade, de superação, de luto. E apesar das pessoas garantirem com toda a certeza de que são diferentes das demais, que tiveram trajetórias diferentes, que aprenderam lições diferentes, que tiveram medos diferentes, que amaram mais apaixonadamente, não somos todos exageradamente parecidos?
A sensação de dejá-vu, que gera tantas teorias de multiversos e matrix e reencarnações... Ela não dá-se simplesmente ao fato de que vivemos em constantes repetições neste mesmo universo, nesta mesma vida, neste mesmo corpo?
Eu tive e ainda tenho a minha dose de clichês, alguns que talvez eu sequer reconheça, mas eu gostaria de pensar que a maioria se fez evidente o bastante para que eu possa identifícá-los. E eu estou falando de vários, de múltiplos, não apenas os que eu vivi como os que eu presenciei serem vividos diante dos meus olhos. Afinal, o que é mais clichê do que viver uma infância quebrada com um pai abusivo? Existem tantas histórias semelhantes que poderíamos estar falando do mesmo Hugh Williams em todas elas, exceto que foram vários caras diferentes de comportamentos iguais. Então, eram mesmo diferentes?
Eu tive mais de uma história clichê de amor, inclusive, ao longo da vida. Eu vivi momentos de clichê com os meus amigos, com a minha família, com o meu amor e, inclusive, comigo mesmo em trajetórias individuais que não foram nada originais.
Se eu aprendi alguma coisa nesta vida é que “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” é, aplicavelmente, muito literal. Neste contexto, todos somos o mais absoluto clichê.
Meu mais grandioso e significante clichê foi uma história de amor, é claro — acredito que, depois de velho, eu possa admitir com todas as letras que eu sou um romântico incorrigível.
*
Foi inevitável.
O bar Zeppelin tornou-se nosso ponto de encontro sempre que quiséssemos sair. Não mais entramos no bar, em si, mas ficávamos o mais próximo dele possível na rua lotada para que pudéssemos ouvir e ver vislumbres das boas apresentações de lá. Ficávamos ali até a madrugada, conversando e bebendo bebidas baratas, ora ou outra fazendo amizades aleatórias com outras pessoas, por vezes, reencontrando conhecidos no meio do povo.
Foi em uma dessas que eu tive uma epifania sobre meu estado de vida atual: nós não éramos mais apenas a panelinha do ensino médio, nós éramos a panelinha antiga. Estaríamos no último ano do ensino médio em alguns meses e não haveria nenhuma panelinha mais velha do que nós. Também não havia uma panelinha nova que pudesse nos substituir — ao menos, não uma a qual fôssemos apegados — no momento, mas a real é que estávamos no mesmo estágio de vida que a panelinha antiga havia estado quando eles eram vistos como maduros e descolados.
Eu definitivamente não nos enxergava desta forma, é óbvio, e a epifania logo se desfez como fumaça como se nunca houvesse existido.
Ah, bom, talvez eu esteja ficando bêbado.
O natal seria em três dias e eu finalmente havia conseguido um tempo para mim que não envolvesse todo o amor sufocante da família — amor dedicado a mim ou dedicado entre si, era muito amor, era amor demais. Eu aproveitei que estávamos só eu, mamãe e Theodore em casa — já que meu irmão e meu cunhado foram incomodar os amigos deles — e eu escapuli, pela porta da frente, é claro, e eles não reclamaram, então supus que também precisavam de um tempo sozinhos.
E minha mente definitivamente não deveria ter ido para este lugar, eca.
O ponto é que, tendo socializado tanto pelos últimos dias, quando me reuni com os meus amigos, eu fiquei deliberadamente quieto, recuperando minhas energias, enquanto bebia e observava todo mundo. Não era ruim, a bebida — uma mistura de vodka com algo verde que tinha gosto de maçã -, mas parecia mais leve do que era, ou seja, eu tinha que cuidar para não beber muito porque a sessão de vômitos nunca era agradável.
Não conseguimos reunir todo mundo desta vez, Mason e Cristina estavam juntos, aparentemente, no meio de algo que eu não quis saber, e não quiseram vir. MJ estava viajando com a família e, sinceramente, ela não estava mais tão próxima de nós quanto costumava ser, talvez tenha perdido o sentido estar junto quando a sua pessoa era o Alex. Os demais estávamos em um semi círculo, revezando entre quem buscaria a próxima bebida e quem queria fazer parte da fila do banheiro de um boteco há duas quadras daqui.
Zeppelin já havia fechado e eu estava literalmente atirado contra a grade do lugar deles, as luzes apagadas e o espaço ao ar livre vazio. Chris havia ido ao banheiro, Ian havia sumido ao buscar mais bebidas, então estava eu no meio dos dois casais do ano — quero dizer, Grace e Dan podiam contar como um casal, não é mesmo?
— Você quer mesmo saber o que eles tão fazendo? — insistiu Bex, com um riso bufado de canto.
Grace revirou os olhos, ainda relanceando o celular. — Ela não é de sumir assim, aconteceu alguma coisa.
Desta vez, fui eu que soltei um riso, olhando para a testa enrugada em preocupação. — Quem te viu, quem te vê — brinquei, piscando lento. — Melhores amigas para sempre.
Grace me lançou um olhar incômodo, tentando não sorrir para aquilo, ainda com a testa franzida. — Cala a boca, Caleb.
— Ela tá com o Maze, Grace, se aconteceu alguma coisa, acho que a gente não vai querer saber o quê — especificou Korn, arqueando uma das sobrancelhas por trás dos óculos.
Grace torceu a boca em uma cara de nojo, e eu acredito que eu tenha feito o mesmo, por que o que diabos? Ali estava outra imagem intrusa que eu me recusava a ter. Eu definitivamente não queria essa imagem na minha cabeça, não mesmo, de nenhuma forma, de jeito nenhum.
Korn gargalhou e Bex riu junto. — Ora, uns santinhos desses — brincou Bex, apertando a bochecha de Grace quando se inclinou para frente.
Dan estalou a língua. — Santinhos ou não, existem limites — defendeu ele, torcendo o nariz.
O casal gargalhou uma vez mais, às nossas custas, e eu acabei desviando o olhar dos demais, dando uma olhada ao redor. Havia bastante gente, é claro, mas isso não explicava que Ian buscasse a bebida em outra cidade pela demora.
— Onde diabos tá o Ian, hein, foi fabricar a vodka? — perguntou Dan, como se estivesse em sintonia com meus pensamentos, olhando ao redor.
— Ah! Ela respondeu! — exclamou Grace, os olhos por trás das lentes movendo-se de um lado ao outro ao passo que uma carranca se aprofundava em seu rosto. Todos a observamos em expectativa, até que ela ergueu os olhos com o nariz torcido, e resmungou: — É aniversário de namoro deles.
Foi o que bastou para todos caírem na gargalhada, Korn apoiou-se em Dan ou Dan apoiou-se em Korn, os dois em busca de equilíbrio ao passo que curvavam-se aos risos. Grace acabou sorrindo, ainda irritada, enquanto tentava controlar o riso, o nojo e a descrença. Bex apertou a bochecha dela outra vez, estalando a língua.
— Eu disse, não disse?
Grace revirou os olhos. — Parem de ter a mente poluída! — reclamou, estalando a língua. — Aniversário de namoro ou não, ainda é o Maze e a Cris, então acho muito difícil que eles... que isso... — As risadas, que haviam cessado um pouco, aumentaram de volume outra vez. Grace cruzou os braços no peito. — Esquece. Ridículos, todos vocês! Vão ir direto pro inferno!
Korn pigarreou depois de um tempo, entre os risos, com as sobrancelhas arqueadas ao encarar um ponto em específico. — Falando nisso...
Eu não soube a que exatamente ele se referiu com “isso”: o inferno, o casal, a maneira como estava implícito que Mason e Cristina estavam sendo íntimos — eu não consigo, eu não consigo nem em pensamento, usar outra palavra para isto — ou ao asco que parecíamos sentir ao falar sobre isto. De qualquer forma, acho que todas se aplicariam para o foco da atenção do Korn.
Era o Ian.
Ian estava sentado na calçada ao longe, conversando muito próximo do rosto de uma mulher morena e tatuada, um copo com líquido verde pela metade na mão. Ou seja, ele sequer havia ido buscar a bebida para todos, e o líquido em seu copo estava provavelmente choco.
Minha atenção foi desviada para o casal ao lado quando ouvi o estalo do tapa que Bex deu no braço de Korn, que resmungou e olhou para o seu amor com uma careta de quem diz “o que foi que eu fiz agora?” ao passo que Bex tentava comunicar alguma coisa muito raivosa a ele com os olhos. Foi então que desviei a atenção para o outro lado, mais em específico para a careta aprofundada de Grace — não era nojo, desta vez, talvez apenas irritação — e a poker face do Dan, que também olhava de um ao outro.
Um silêncio desconfortável instalou-se e, quando eu olhei novamente, Ian estava aos beijos com a mulher.
Aquilo não era exatamente incomum.
Alguma coisa estranha aconteceu lá por meados deste ano e havia se acentuado demais agora próximo ao fim do ano. Mulheres gostavam do Ian — e quando eu digo mulheres, eu quero dizer garotas da nossa idade e mulheres, aquelas que eram maior de idade também e simplesmente não se davam por conta que o Ian recém fez dezessete anos. Isso estava acontecendo bastante, para completo choque de todos nós, porque suponho que ninguém entendia em que momento Ian ficou o que poderíamos chamar de atraente.
Torci o nariz automaticamente.
Isso também é difícil de falar até mesmo em pensamento.
— Alguém pediu álcool por aqui?
A voz pertencia ao Chris, quando chegou equilibrando sete garrafas de meio litro de uma bebida famosa de uva nos dedos das mãos e debaixo dos braços. Não era nada como a bebida barata que a gente estava tomando mas há muito já havia dado para perceber que os pais do Chris tem mais dinheiro do que imaginávamos — e eles confiavam nele o suficiente para entregá-lo em suas mãos, o que não podíamos dizer sobre os pais do Ian, por exemplo.
O silêncio foi quebrado logo ali e apuramos em ajudá-lo, comemorando e agradecendo que, ao menos, algo de bom gosto entraria em nossos estômagos desta vez.
— Eu vi que o Ian não iria buscar nossas bebidas tão cedo, quando fui ao banheiro — explicou, quando Bex perguntou, com um riso.
Acabei sorrindo, abrindo a tampa de uma das garrafas e levando-a à boca, fechando os olhos em contentamento quando o líquido gelado e doce — gelado e não morno como a bebida no meu copo esquecido — encontrou minha garganta.
— Melhor? — perguntou Chris, ao meu lado, com um sorriso de satisfação.
— Mil vezes! — concordei, depois de tomar quase metade da garrafa de uma vez só.
— Valeu, Topher — agradeceu Grace, forçando um sorriso, antes de entreolhar-se com o Dan e se dirigir a nós em seguida: — A gente vai dar uma volta.
Dan aproximou-se com um sorriso, levando uma mão para pegar a segunda garrafa das mãos do Chris sem perguntar e ele deixou, arqueando as sobrancelhas em interrogação. Dan deu de ombros, com um sorriso meio apologético, meio matreiro.
— Eu vou ficar com esse aqui se você não se importar, vai ser um desperdício deixar a bebida esquentar enquanto o Ian tá com a boca ocupada — brincou, e eu acabei soltando um riso junto do Chris, que deu de ombros, permissivo. — Valeu, Topher, você é demais!
Dan fez um cafuné nos cabelos um pouco mais crescidos do Chris antes de dar uma corridinha até a Grace, que já tinha marchado para longe, sem dizer mais nada. Chris virou-se para mim, arqueando uma das sobrancelhas, ao dizer um interrogativo “ok” e eu ri.
Nós ainda ficamos alguns minutos em uma conversa com Korn e Bex, e nada do Ian, Grace ou Dan retornarem, até que Bex começou a reclamar por uns quinze minutos que precisava ir no banheiro mas estava com preguiça. Logo depois, eu fiquei sozinho com o Chris porque Korn acompanhou Bex quando foram ao banheiro, também apertado, dando uma piscadela para nós antes de se retirar.
Um silêncio um tanto desconfortável se instalou então, e eu nem soube o motivo, mas não consegui quebrá-lo antes que Chris o fizesse.
— Eu achei que, sendo nós os únicos solteiros do grupo, ficaríamos unidos, mas... — comentou, vagamente, depois de tomar o último gole da garrafa. Então, acenou com a cabeça em direção ao Ian aos beijos com a morena. — Pelo jeito, Ian se retirou da equação rapidinho.
Acabei rindo, dando de ombros. — Ele tá de coração partido.
Chris arqueou as sobrancelhas mas, como de costume, não perguntou além, imagino que era pela obviedade de que isto se tratava de Grace e Dan. Era meio que um entendimento em comum entre todos nós: todos sabíamos a respeito, mas ninguém falava sobre isso, ao menos, não diretamente. Acho que Ian começou a ficar com mais garotas ultimamente porque percebeu que podia e, bom, talvez isto realmente o fizesse sentir melhor com relação ao novo casal do grupo que jamais admitiria ser um casal.
— Bom... — Chris pareceu espreguiçar-se, mas levou o braço esquerdo para me dar um abraço de lado, apertando os dedos contra o meu ombro. Pisquei, um tanto desconfortável, um tanto curioso, ao olhar para ele. — Pelo menos, você ficou. — Um sorriso adorável formou-se em seu rosto ao passo que ele inclinava a cabeça para o lado direito. Então, com um riso, rapidamente acrescentou: — Até precisar usar o banheiro também, quero dizer.
Acabei soltando um riso, assentindo, mas não consegui segurar seu olhar castanho por muito tempo.
— É, bom, então aproveite porque eu não vou durar muito mais — comentei, com humor, mas saiu meio sem jeito.
Chris riu de volta e eu pude sentir ainda seus olhos em mim enquanto me analisava. Ele, então, moveu a mão esquerda do meu ombro para o meu cabelo e eu reprimi a vontade de me encolher com o arrepio quando seus dedos enroscaram ali e puxaram, sem querer, alguns dos fios da nuca. Ele foi delicado, pegando algumas das mechas com interesse.
— Eu acho que nunca vi você com o cabelo tão comprido...
Chris inclinou o rosto ainda mais à direita, como se para ver melhor meu rosto. Ergui os olhos para ele, piscando algumas vezes para me impedir de desviar o olhar, e senti que os dedos que moviam-se com meus fios entre eles pararam momentaneamente quando nosso olhar se encontrou. Ele hesitou um pouco, mas tentou um sorriso acanhado, os olhos percorrendo meu rosto como se tentasse decidir se gostava dos fios mais compridos emoldurando-o ou não.
Engoli em seco, mas não resisti a desviar o olhar rapidamente quando dei de ombros. — Acho que eu posso dizer o mesmo.
Chris sempre teve os cabelos raspados muito curtos, desde criança, ao menos nas vezes em que eu convivi com ele. E no início do ano já estavam um pouquinho mais crescidos, coisa pouca, mas agora no final do ano eu já podia ver a diferença um pouco maior. Estava ficando muito bonito, parecia que combinava com ele.
— Tá ok? — tentou Chris, soando um pouco inseguro, apesar da voz brincalhona, e eu assenti.
— Bastante.
Chris hesitou outra vez, os olhos incertos ao me analisar com algo que eu não consegui entender, e eu apenas pisquei de volta quando seu sorriso vacilou. Por um segundo, eu pensei ter visto o pomo de adão subir e descer e eu desci os olhos para seu pescoço para confirmar mas já havia acontecido, então quando os ergui para o seu rosto, os olhos castanhos pareciam ter focado na minha boca.
Um arrepio subiu pela minha espinha, mas logo sumiu quando fui praticamente arrancado do momento.
— Epa, epa! — alguém exclamou perto do meu outro ouvido, uma mão deslizando de um dos meus ombros para o outro por trás das costas até que eu estivesse desgrudado de Chris e grudado nele. Arqueei as sobrancelhas ao me deparar com o sorriso largo de Bruno. — Sentiu minha falta, não foi?
Pisquei para me localizar na situação, muito confuso.
Foi quase como se eu tivesse viajado no tempo por um segundo.
— Não exatamente — tentei formular, devagar, ainda orientando-me na situação, meus olhos disparando ao redor, como se para entender de onde havia surgido o membro da panelinha antiga.
— Ah, que isso, pirralho! — exclamou, alegre, antes de me puxar para mais perto, levando a outra mão para mexer com meus cabelos de uma maneira muito mais energética e menos delicada que o Chris. — Eita, que isso, é um look novo? — perguntou, referindo-se às madeixas. — Caiu bem em você, viu? Tá mais alto? — perguntou, tudo de uma vez, avaliando-me com curiosidade.
Pisquei, desorientado, ao franzir o cenho.
Alguma coisa na situação trouxe um aperto esquisito no meu peito e eu demorei um pouco para funcionar até que entendesse de onde o sentimento vinha. Bruno era muito parecido com o Alex em alguns aspectos, talvez daquele jeito de amizade em que duas pessoas começam a agir parecido com o tempo de convivência, no final, sem saber de qual das duas veio uma característica em comum, ampliada em ambas. Talvez fosse a familiaridade de me puxar para debaixo de seu braço e me tratar com carinho desmedido quando nem era tão próximo assim de mim — Alex fez isso até que ficássemos próximos de verdade mais tarde. Chris estava meio abraçado comigo um momento atrás, mas era uma maneira muito diferente de me puxar para debaixo do braço como Bruno havia feito — e como Alex fazia. E talvez também fosse um pouco da personalidade alegre, besta e brincalhona, aquela característica comum em um dos lados conflitantes da personalidade do Alex.
Engoli em seco.
— O que você tá fazendo aqui? — foi o que consegui falar, e ele arqueou uma das sobrancelhas preguiçosamente.
— Credo, nem um “tô tão feliz de te ver, Bruno”? Nada assim? — reclamou, antes de estalar a língua, tentando me enfiar para mais debaixo de seu braço ainda, o que era difícil porque eu já não era mais tão baixinho. Me remexi, meio curvado e desconfortável, sem saber como pedir que ele tirasse as mãos de mim. — Eu tô aqui com meu príncipe azul.
Bruno fez um gesto com o queixo para indicar Jake, um pouco mais distante, no meio de um grupo de pessoas que não reconheci, deviam ser amigos da faculdade. Logo que eu o enxerguei, a visão foi bloqueada quando Grace voltou com o Dan, abrindo um sorriso na nossa direção.
— Bruno! — exclamou Grace, com um sorriso, antes de se aproximar para um abraço.
Bruno desvencilhou-se de mim para dar um abraço de urso nela, erguendo-a do chão rapidamente ao girar com ela no mesmo eixo, ao passo que uma gargalhada saía de sua boca. Depois que soltou-a, elogiando seu visual, ele virou para mim com uma sobrancelha erguida e falou:
— Agora, era essa a reação que eu tava esperando — comentou, azedo, e eu acabei sorrindo.
— E aí, cara? — cumprimentou Dan, do outro lado, aproximando-se para dar um abraço de lado daquele jeito que caras hétero fazem. — Como você tá?
Dan, Bex e Korn entraram no colégio no primeiro ano em que a panelinha antiga deixou de existir por lá, então não chegaram a conviver muito com eles. Todos se conheciam ainda assim devido ao amigo em comum, o Alex, em reuniões ou rolês dos quais eles participavam, além das vezes, como hoje, em que esbarrávamos neles sem querer.
Bruno deu de ombros, um sorrisão. — Tô um pouco no brilho, nada demais. — Então, virou-se para mim novamente e desviou os olhos para o meu lado, um tanto curioso, outro tanto julgador. Só então lembrei-me de Chris, que observava tudo com os olhos interessados, embora calado, ao meu lado. — Vim dar uma olhada em vocês — falou, distraidamente, antes de acrescentar: — E esse, é o novo pestinha?
Chris pareceu divertido ao ouvir aquilo, olhando de um para o outro.
— Ele mesmo — confirmou Grace, com um sorriso de canto. — Topher, esse é o Bruno, ele estudou lá no colégio também.
— Prazer — cumprimentou ele, estendendo a mão, que Bruno pegou prontamente, com um sorriso curioso. — Da “panelinha antiga”, né? — perguntou, usando o termo que a gente usava. — Cheguei a conhecer a Faye e a Mia, elas mencionaram você.
Bruno arqueou as sobrancelhas assim que soltou a mão, então estreitou os olhos e, em seguida, estalou a língua, as mãos indo diretamente para a cintura. — O que essas loucas andam falando de mim por aí?
Soltei um riso pelo nariz, e contei por ele: — Que você fez aulas de teatro também.
Nós também havíamos encontrado as duas uns tempos atrás, na lanchonete que frequentávamos de vez em quando. Chris estava junto e ele ainda não conhecia pessoalmente ninguém da panelinha antiga, apenas Lucy uma vez que a vimos ao longe na rua, então foi apresentado ao casal. Sobre o Bruno, mais especificadamente, quando as duas descobriram que Chris fazia teatro, elas brincaram ao dizer que ele devia pedir dicas de atuação ao Bruno, já que ele era um especialista em obras dramáticas.
— Nunca vão esquecer o meu talento — dramatizou Bruno, com uma mão no peito, no máximo de atuação de quinta categoria. — Mas vocês tem que entender, meu coração tá em salvar bichinhos.
No meio do riso, Ian finalmente juntou-se à nós, os lábios avermelhados como se tivessem sido violados por um desentupidor de pia. Ele deu um riso muito faceiro quando se aproximou de Bruno, que correspondeu, e os dois colidiram em um abraço de urso. Sinceramente, deve ter sido por isso que ele se desvencilhou da mulher, porque viu o mexicano conversando com a gente.
Grace lhe dirigiu um olhar julgador da cabeça aos pés, mas nada disse — o que era preocupante, mas todos relevamos — ao passo que entrávamos em uma conversa que relembrava os velhos tempos. Korn e Bex chegaram um pouco depois e, todos juntos, eu segurei um pouco a vontade de esvaziar a bexiga pelo bem da reunião. Relanceei Chris ao meu lado, parecendo um tanto perdido mas também divertido e curioso, ouvindo tudo com muito interesse, relanceando-me com um sorriso também.
Era bom ver o pessoal da antiga panelinha, eu gostava muito de todos eles, alguns mais que outros, mas ver o Bruno ainda era agridoce, muito mais do que ver qualquer outro deles. Eu o observei interagir, naquela alegria contagiante de sempre, a sensação de nostalgia instalando-se no meu peito ao passo que eu mergulhava em memórias antigas. Ao mesmo tempo em que era muito bom vê-lo, também era muito ruim. Meu coração, apesar de aquecido com sua presença marcante, ainda assim apertava-se como se quisesse se esconder em algum canto do meu peito para não sentir tudo o que estava sentindo.
Ali, eu decidi que não beberia mais nenhuma gota naquela noite, eu definitivamente não deveria experienciar nostalgia bêbado.
*
Quando eu acordei na manhã seguinte, sem qualquer sinal de náuseas, apenas muita sede, eu senti aquele alívio e orgulho pessoal de quando você toma uma decisão excelente e colhe os frutos mais tarde. Não era um acontecimento muito comum, então eu tinha que aproveitar as vezes em que eu podia.
Eu havia tomado um banho quando cheguei de madrugada, mas estar no brilho ainda assim me deixou com muito sono, então eu deitei com os cabelos molhados mesmo e acordei com um ninho no lugar deles. Cocei a cabeça, torcendo o nariz para o espelho, e fui ao banheiro porque a higiene matinal estava implorando para acontecer.
Devia ser umas nove ou dez da manhã, eu supus, porque minha mãe e o Will já estavam na cozinha tomando café e conversando com muito entusiasmo, pausando brevemente apenas para me dar bom dia. E quando eu retornei para o quarto, minha mãe estava em pé, mexendo nas panelas enquanto o Will ainda tagarelava com uma xícara de café esquecida na mão. Eu soube, naquele momento, que eu teria um longo e exaustivo dia.
Sinceramente, minha mãe deveria saber melhor do que dar cafeína ao Will logo no início da manhã.
Eu recém havia sentado na minha mesa, ainda muito preguiçoso, encarando um dos meus cadernos de desenho sem muito entusiasmo. Ponderei se eu devia assistir algum filme ou série ao invés de desenhar, ou se eu devia só me atirar na cama e aproveitar os poucos minutos que eu teria de paz antes que o Will me arrastasse para alguma — ou várias — aventuras naquele dia. E então, eu ouvi uma voz familiar da cozinha, e levantei o rosto imediatamente da folha de caderno, onde minha testa estava grudada.
— Bom dia, senhora Jones — cumprimentou ele, com um toque alegre —, o Caleb tá em casa?
— Ele tá no quarto, meu bem, pode passar.
Eu cheguei a caminhar em direção à porta antes que me desse por conta que eu estava usando uma camiseta tão velha que tinha furos nela, então o mínimo que eu podia fazer era trocar com rapidez.
— Com licença — foi dizendo, educado, ainda da cozinha. — Ah, bom dia — cumprimentou, novamente, parecendo um tanto sem graça.
Reconheci a voz do meu irmão em seguida, analítica: — Bom dia, hã...?
Desta vez, me apressei em enfiar outra camiseta pela cabeça, bagunçando meus cabelos no processo, e arranquei as meias dos pés — também velhas, mas não tenho culpa se são as mais confortáveis -, ainda que eu ficasse descalço.
— Chris — respondeu, rapidamente. — Christopher Forbes.
— Chris Forbes — testou Will, alongando a última consoante, como se para comprar tempo ao pensar sobre o nome.
Apareci na cozinha um instante depois, vendo que eles apertaram as mãos. Ajeitei meu cabelo rapidamente, recém lembrando que ele estava uma bagunça horrível, quando vi que minha mãe encarou um fio que mirava o teto.
— Caleb — cumprimentou Chris, com um sorriso meigo, e eu vi que isso fez meu irmão estreitar os olhos.
— Forbes? — tentou Will novamente, relanceando nossa mãe com interrogação antes de voltar os olhos a ele. — Me soa familiar.
Minha mãe pareceu achar graça. — Ah, Will, o Chris é o amiguinho de infância do Caleb — relembrou, e eu fiz uma careta com o diminutivo que ela ainda insistia em usar com tudo relacionado a mim. Em seguida disse, e não foi uma pergunta: — Você lembra dele.
As sobrancelhas do Will arquearam-se ao passo que ele ligava os pontos, analisando Chris da cabeça aos pés com outros olhos, desta vez. — Ah — murmurou, assentindo. — Você tinha se mudado, né?
Chris assentiu, ao meu lado, e eu suspirei. — Sim, minha mãe tinha sido transferida — contou, sem jeito —, mas a gente voltou no início do ano pra cá, melhores oportunidades aqui pra eles.
Meu irmão assentiu, então olhou para mim. — Ele é de antes do Mason, não?
Ainda grudado na porta, desejando voltar para o quarto o quanto antes, acabei acenando que sim. Will também assentiu, parecendo impressionado pela informação, como se fosse algo grandioso, antes de voltar os olhos para a mãe. — A capacidade que as pessoas têm de reaparecer depois de décadas... — comentou com a mãe, como se subitamente estivessem só os dois ali, retornando para as fofocas do café da manhã.
Deixei o queixo cair, relanceando um Chris muito constrangido, antes de ouvir — mais do que ver — o tapão que minha mãe deu nos cabelos dele. — Will! — repreendeu, embora as comissuras da boca se elevassem.
— O quê? — perguntou Will, como se realmente não se desse por conta que aquilo havia sido rude. Então olhou para o Chris, acrescentando, apologético: — Eu não quis ser ofensivo, desculpa.
Chris balançou a cabeça negativamente, com um sorriso, como se dissesse que estava tudo bem. Eu aproveitei para pegar seu braço com rapidez para arrancá-lo do papo furado da minha família maluca.
— É só que isso estranhamente me lembra do Peter — explicou ele, para a nossa mãe, como se justificasse, ao mesmo tempo que eu dizia:
— A gente vai pro quarto — anunciei, lançando um olhar azedo para o Will, que arqueou as sobrancelhas.
Chris apenas sorriu educadamente para eles antes de se deixar ser arrastado por mim pela sala, em direção ao quarto, com um risinho.
No caminho, eu ainda ouvi parte da continuação da conversa: — Caleb se parece cada vez mais comigo mesmo, tô começando a ficar preocupado — comentou, divertido com algo, e eu ouvi o riso da minha mãe.
Relanceei Chris, que tinha as sobrancelhas arqueadas, também ouvindo os dois.
— Não seja bobo, Will, seu irmão tem muito mais juízo que você um dia teve — retrucou, apenas para provocá-lo, e ele soltou um arquejo exagerado.
— Para, mãe — resmungou feito uma criança, estalando a língua. Em seguida, sugeriu, matreiro: — Será que ele também tem um professor gato?
Entramos no quarto, ouvindo os risos e repreensões pouco convincentes da minha mãe, antes que eu fechasse a porta para abafá-los. Quando me virei para o Chris, ele tinha uma das sobrancelhas arqueadas, os olhos curiosos, quando perguntou: — Professor gato?
Dei de ombros.
— O namorado do meu irmão era professor dele na faculdade — contei, vendo que um sorriso animoso se formou em seus lábios, aparentando surpresa. — Eles foram morar juntos em Lydris, o Will meio que escolheu viver lá por causa dele, e agora tão até noivos.
No meio de tantas rodas de conversa, na verdade, me passa desapercebido o que exatamente cada um dos meus amigos sabe sobre mim ou sobre minha família. E o que eu sei a respeito deles também não lembro em que momento descobri ou se os demais sabem o mesmo que eu.
Eu (re)conhecia o Chris há quase um ano, sei que ele sabe sobre meu irmão estar com um homem, sobre estar morando do outro lado do Estado, e sobre estarem os dois agora na cidade — porque eu havia contado semana passada esta última parte. Mas pelo visto, ele nunca ficou sabendo nada além disso, pela maneira como parecia impressionado e admirado.
Como sempre, isso me lembrou do Alex, de quando ele descobriu sobre o meu irmão.
— Caraca, que história incrível — comentou, com um riso divertido, como se eu houvesse contado toda a história de amor deles em um simples resumo. Suponho que ele preencheu os espaços vazios com a criatividade da sua mente, e que isto foi o suficiente para ele.
Bom, um romance clichê de aluno e professor?, pensei, achando que fazia sentido, o quão mais complexo que isto poderia ser, mais a fundo?
Dei de ombros outra vez, com um riso, antes de sentar na minha cama. — É, meu irmão é um clichê ambulante.
Chris soltou um riso, mas logo em seguida morreu quando seus olhos se fixaram por tempo demasiado nos meus, com uma intensidade que não entendi realmente. Pisquei, vendo que ele fez o mesmo em resposta, soltando um riso que soou quase tímido.
— Você curte clichês?
Acabei soltando um riso, confuso e divertido, quando perguntei: — Que tipo de pergunta é essa?
— Sei lá.
Chris apenas soltou um riso como reflexo do meu, parecendo acanhado, antes de se locomover até que estivesse sentado ao meu lado esquerdo. Ele não olhou para mim novamente, dando de ombros, as mãos retorcidas em seu colo, os olhos em alguma parte entre o guarda-roupa e minha porta.
Franzi o cenho, me contendo para não me remexer no lugar.
Alguma coisa me alertava que havia algo de estranho acontecendo.
Se eu parasse para pensar, na verdade, eu sequer perguntei a ele o que estava fazendo aqui sem haver avisado, principalmente de manhã. Não que fosse algo realmente estranho, não era algo de outro mundo aparecer na casa do outro sem avisar, nós sempre fizemos isso uns com os outros no nosso círculo de amizade. Só não era muito do feitio do Chris, porque ele sempre foi do tipo de pessoa que não gosta de incomodar, então tem o costume de perguntar ou combinar antes de aparecer. Ele era tudo, menos invasivo, como Mason costuma ser.
Esta devia ser, realmente, a primeira vez que ele aparecia sem anunciar.
— Talvez eu só queira saber se você simpatizaria com a minha história — comentou, baixinho, e eu o observei, atento.
Hesitei um pouco antes de perguntar, porque algo que me dizia que eu deveria proceder com cautela, mas também estava curioso: — Sua história?
Chris assentiu, soltando um riso nervoso antes de hesitar pelo que pareceu uma eternidade. Eu pensei que eu deveria me preparar para o que estava por ouvir, e realmente Chris me deu um pouco de tempo ao reunir coragem, mas não consegui preparar nada.
— Sim — disse, com nada mais que um murmúrio, para em seguida pigarrear, remexendo-se no lugar. Ele sorriu, tentou olhar nos meus olhos, mas desviou as orbes castanhas para longe em menos de um segundo. — Eu tive um melhor amigo, sabe, e talvez eu tivesse um pequeno crush nele quando criança — contou, a voz trêmula, e eu senti minha respiração parar no mesmo instante. — Eu me mudei para longe, mas então eu pude voltar pra reencontrá-lo. — Ele engoliu em seco, um sorriso muito nervoso nos lábios, e eu senti meu coração acelerar e minhas mãos suarem frio. Chris pigarreou, desconfortável. — E no fim, resultou que me apaixonei por este melhor amigo de infância.
Chris não pareceu querer totalmente, talvez por vergonha, mas ele ergueu os olhos para mim e eu pude ver as orbes límpidas acastanhadas sustentar as minhas com genuinidade.
Engoli em seco, sentindo o coração bater acelerado e minha cabeça entrar em um espiral de nervosismo muito parecido com o do Chris, e estou certo que não deveriam haver tantas vozes gritando na minha cabeça. Eu pisquei quando percebi que tinha os olhos arregalados, como uma reação automática mais do que, de fato, uma reação surpresa.
Eu não estava totalmente surpreso, estava?
Apesar de eu não ousar admitir para mim mesmo, há um tempo eu já havia percebido que o Chris gostava gostava de mim. Era uma constatação no fundo da minha mente, silenciosa e barulhenta ao mesmo tempo, que não se deixava vir à superfície. Eu não tinha certeza absoluta, afinal, eu não sou lá muito experiente com coisas assim, mas eu desconfiava desde ali por metade do ano.
Acredito que era a maneira como ele se mantinha grudado em mim, mesmo em grupo, ainda que depois das primeiras semanas ele já conhecesse e enturmasse com todos os nossos amigos, já não se fazendo necessário que estivesse sempre comigo. Ele aparecia na minha casa mais vezes do que o Mason, e isso era dizer muito, ainda que fosse com desculpas de fazer trabalhos ou estudar. Às vezes, aparecia com jogos e filmes ou apenas me distraía com cadernos de desenho, tentando imitar os meus traços no grafite — e ele era péssimo nisto. Às vezes, a gente fazia brigadeiro de panela ou pipoca, e maratonava filmes a tarde inteira, na minha casa ou na dele.
E havia a maneira como ele me olhava, é claro, que fazia a minha nuca formigar, como se me informasse que havia algo ali. E a maneira como sempre encontrava maneiras de encostar em mim, mesmo que fossem apenas os joelhos, sentados lado a lado no chafariz, e a maneira como sempre me elogiava.
Chris, ao contrário do Alex, era muito transparente.
Chris, ao contrário do Alex, não era indecifrável e misterioso.
Isso não era uma concepção súbita, eu vinha ponderando a respeito, escondido no fundo da minha mente, por meses agora. E era justamente por compará-lo ao Alex o tempo todo desde que percebi que ele gostava de mim, que eu passei a considerar como seria se eu estivesse com o Chris.
Eu considerei, silenciosamente, em um canto obscuro da minha mente, como seria se eu decidisse ficar com ele.
Eu tenho dezesseis anos.
Mason é ainda mais novo do que eu e está namorando há praticamente três anos, se contar desde o início. Ian ainda não namora, mas ele anda saindo com garotas aqui e ali há muito tempo. Grace, que costumava ser minha versão feminina no quesito de inexperiência — e número, porque eu tenho um triste dois -, estava aos pegas com o Dan desde o ano passado. Até mesmo o Chris, que me encarava agora com muita insegurança, havia namorado alguém aos quinze. Foi algo inocente, ele havia contado uma vez, mas ainda foi algo.
E quanto a mim, bom, chegava a ser patético.
Então deveria ser normal que eu me questionasse sobre minhas opções e eu considerasse algo além de ficar de coração partido por um amor nunca vivido até que ele magicamente se curasse. Deveria ser normal que eu ponderasse se não vou morrer sozinho porque ninguém nunca vai me querer de verdade — e porque talvez eu nunca queira alguém como quero o Alex. Deveria, deveria mesmo, ser normal que eu ouvisse uma declaração de amor e sentisse o coração martelar no peito com isso, animado e lisonjeado, o suficiente para que eu quisesse dizer que sinto o mesmo.
Então por que eu me sentia culpado?
A verdade era que eu não esperava que Chris formulasse aquilo dessa forma. Em suas palavras, não é que ele gostasse de mim, ele estava apaixonado por mim. Isso era bem mais sério do que a minha mente ousou considerar; jogar-me nesse abismo desconhecido na ânsia por também ter algo deixou de parecer uma ideia inteligente.
Engoli em seco, antes de ouvir Chris finalizar:
— Você simpatizaria com a minha história? — perguntou, ainda com um sorriso nervoso, tomado de insegurança. A voz baixou para um fiapo, apenas, como se temesse perguntar: — Você gostaria de viver algo assim?
Abri a boca, sentindo-a seca, antes de piscar algumas vezes.
Eu não soube o que responder, partes de mim disputavam respostas contrárias, então eu acabei levando mais tempo do que a boa educação permitia. Eu não pude evitar, porque...
O que eu faço?
Sua pergunta era simples, que requeria uma resposta simples, mas nada a respeito disso era qualquer coisa que não complexa. Eu não sei se eu gostaria de viver algo assim, afinal, essa não era a minha história, era a história dele. Se eu vivesse isso com ele, se eu acabasse me apaixonando pelo amigo de infância que eu reencontrei, talvez eu realmente gostasse de viver isso. Mas neste exato momento, tudo o que eu conseguia pensar é que a história era estranha para mim, porque a história familiar era a de estar apaixonado desde sempre pela mesma pessoa, desde que a conheci, desde antes de saber o que é paixão.
E talvez seja justamente por isso que eu deveria dizer que sim, afinal, eu cheguei a um nível de coração partido que realmente ando desejando poder me desapaixonar do Alex. Então, no fundo, realmente, seria algo que eu gostaria de viver: seria recíproco ao invés de platônico e eu estaria feliz ao lado de uma pessoa meiga e estável. Eu cheguei a um ponto em que gostaria de poder esquecer as orbes escuras como carvão que me engoliam, os sorrisos travessos que atravessavam minha alma e toda a nossa história falha.
Ainda assim, eu não conseguiria olhar nos olhos terrosos e tão, tão meigos, e mentir para eles. Eu sorri, porque não havia como não sorrir para o sorriso do Chris, porque ele sempre foi tão querido, e pigarreei, sem jeito.
— Eu não sei — murmurei, sinceramente, vendo-o piscar em hesitação, como se não soubesse o que isso significa.
Chris murchou um pouco, apenas um pouco, mas foi o suficiente para que eu quisesse falar qualquer coisa que pudesse fazê-lo animar-se outra vez. Os olhos piscaram, tentando processar o que diria a seguir, como prosseguir depois daquilo, e ele acabou lambendo rapidamente os lábios secos com distração.
Eu desci os olhos para os lábios carnudos, piscando algumas vezes, considerando uma vez mais.
Só então eu percebi que ele estava mesmo muito próximo de mim na cama, eu podia sentir o calor que vinha da sua mão apoiada no colchão, bem ao lado da minha, e me perguntei se estávamos assim desde o início. Eu me perguntei se ele sempre era tão próximo de mim, desta forma, e que mesmo acreditando que ele sentisse algo por mim, ainda assim eu não havia olhado para a sua proximidade com outros olhos.
— Mas... — verbalizei, tomando uma decisão, e os olhos de corça voltaram-se para mim, ansiosos por algo. — Eu acho que eu só posso saber se eu tentar, não é?
Acabei sorrindo automaticamente quando os olhos dele brilharam e seus lábios esticaram em um sorriso largo que fez seus olhos quase sumirem.
— Sério? — perguntou, embora sua mente não parecesse considerar que não, visto que a alegria sequer vacilou. Ele estreitou os olhos em seguida, soltando um riso ao brincar: — Você sabe que eu tô falando de você, né?
Acabei soltando um riso nervoso, desviando o olhar para os meus pés, que se remexiam com inquietação, e assenti positivamente, mordendo os lábios. Pigarreei para me livrar um pouco do desconforto, e quando eu o relanceei brevemente, vi que seus olhos haviam descido para os meus lábios escondidos, então desviei o olhar uma vez mais.
Brinquei, dando de ombros: — Acho que você não deixou muito espaço pra dúvidas.
Chris soltou um riso fofo, inquieto no lugar de uma maneira muito parecida com a minha, e então um silêncio desconfortável — com pequenos bufos risonhos de ambas as partes — instalou-se.
E eu acho que, pela primeira vez em muito tempo, eu consegui desligar minha mente com uma facilidade nunca vista. Eu sequer percebi, inicialmente, e quando menos esperei, o silêncio se acomodou na minha mente, como se concordasse comigo que eu merecia mesmo uma pausa do tormento diário. Eu poderia dizer que, inclusive, minha mente torturada estava precisando disto muito mais do que eu, que agradecia pelo alívio da leveza do silêncio. E que agradecia diretamente ao Chris, como se o revenerasse por isso, apenas um pouquinho.
Isso fez sentir como se um peso saísse das minhas costas — não durou muito, mas durou o suficiente para fazer a diferença. Naqueles instantes em que tudo parecia cor de rosa e arco-íris, quando eu me permiti sentir como apenas a pessoa do outro lado da história do Chris, eu não senti nada além de contentamento.
Meu coração estava acelerado, descomposto como deveria estar — nenhum de nós, meu coração e eu, estávamos acostumados com a ideia de declarações de amor bonitinhas. Eu senti meu rosto quente, como se o sangue resolvesse circular por ali pelo embaraço de ter alguém olhando para mim com expectativa daquela forma. Meu corpo estava inquieto então seguia se contorcendo no lugar, mas pela primeira vez a inquietude não era nada incômoda, pelo contrário, trazia a sensação de frio na barriga.
Eu teria pensado que não conseguiria ir em frente com isso, que meu estômago se reviraria com culpa ou arrependimento antes mesmo de que eu concretizasse essa decisão, que eu ficaria de luto pelo meu amor por ele quando considerasse ficar com outro alguém.
Mas nada disso estava na minha mente e nada disso me incomodou naquele momento.
Então, quando o Chris demorou os olhos no meu rosto, seu sorriso vacilando ao descer os olhos para a minha boca — e por vergonha eu desviei o olhar algumas vezes com um riso nervoso -, foi natural que eu tomasse coragem de sustentá-lo em seguida. E, quando ele engoliu em seco ao aproximar-se com hesitação, alternando as orbes castanhas entre meus lábios e meus olhos, como se certificasse de que estava tudo bem se aproximar, eu fechei nosso espaço por ele.
Eu estranhei a sensação de lábios colados aos meus, porque fazia tanto tempo desde que eu havia sentido isso. Foi como reaprender a andar, mas veio mais naturalmente do que eu pensei, e logo eles se encaixaram como se dissessem que eu tomei a decisão certa.
Eu apertei a colcha entre os dedos por apoio.
A princípio, a gente selou um beijo casto, quase terno. Chris pareceu hesitar antes de tentar aprofundá-lo novamente, mas eu apenas me deixei sentir, os olhos fechados abandonando qualquer outro sentido. Quando ele encaixou nossos lábios, apertando-os em um beijo mais firme, eu senti o colchão ceder um pouco ao passo que ele se aproximava mais, sua coxa encostando na minha. Sua mão direita cobriu a minha agarrada à colcha, dando um leve aperto, e a sua outra mão encaixou contra minha bochecha direita.
Nossos lábios se afastaram por um microssegundo, o suficiente para que sua língua hesitante entreabrisse os meus lábios, como um pedido de consentimento. Soltei um suspiro quando permiti, deixando que minha língua encontrasse a dele na metade do caminho.
Foi bom.
Beijar, cheguei à conclusão, é sempre bom.
A gente se atrapalhou como se fosse o primeiro beijo da nossa vida, com o bater de dentes e línguas desordenadas e tudo, mas não levou muito tempo para que a gente encontrasse uma sintonia juntos. Foi um beijo hesitante, curioso e muito lento — trouxe borboletas à minha barriga, como se meu corpo aprovasse antes mesmo que minha mente.
Eu esqueci até mesmo de onde estávamos, e porquê estávamos, e logo o silêncio descomunal da minha mente foi cedendo às preocupações comuns.
Eu relembrei que estávamos no meu quarto e que a porta estava fechada, mas que não fosse isso, poderíamos ser pegos pela minha mãe ou meu irmão — os intrometidos da família. E meu coração também voltou a acelerar um pouquinho mais quando me dei por conta que eu estava beijando meu amigo, e amigo dos meus amigos, e colega de aula — e o quanto isso poderia se complicar. E por falar em complicação, isso também fazia martelar, baixinho, no fundo da minha mente alienada, que Chris havia se declarado para mim, aquilo não era um simples beijo.
E era um bom beijo, tudo bem, mas havia tanto mais.
A calmaria que ele exalava, até mesmo através dos lábios que resvalavam nos meus com tanta paciência e exploração, eram contagiantes a ponto de quase voltar a calar minha mente. E eu quase esquecia onde eu estava uma vez mais, na cama do meu quarto, sentados lado a lado, sua mão acariciando meu rosto, da mesma maneira que...
Abri os olhos, de súbito, o coração martelando nos ouvidos.
Aquela havia sido a mesma cama onde nos beijamos pela primeira vez, um pouco mais de dois anos atrás, Alex e eu. No mesmo quarto, na mesma cama — apesar dela estar grudada em outra parede -, da forma parecida.
Meu tremor, que começou nas mãos e logo se espalhou pelo restante do corpo, era uma sensação ruim e azeda. Eu havia travado, ainda que momentaneamente, o suficiente para que Chris se afastasse um pouco e abrisse os olhos também. Eu não me afastei dele, eu não queria me afastar — eu queria trazer de volta a sensação de calmaria e de leveza. Mas o silêncio havia encerrado, como se minha mente estivesse se dado como satisfeita pela pausa breve de tormento pessoal, e que agora havia acabado, ainda que eu implorasse por um pouco, só um pouco, mais.
Eu engoli em seco, piscando algumas vezes, antes de assentir — porque ele estava perguntando, baixinho, se eu estava bem. Mas eu já estava acostumado com a minha mente barulhenta, então não tomou nada de mim sorrir para ele e roçar meu nariz no seu, vendo a insegurança lavar do seu rosto imediatamente. Isso acalmou um pouco meu peito apertado, o que me fez perceber que havia sido mesmo uma decisão certa, apesar de todas as possíveis complicações à espreita.
Chris abriu a boca para falar algo, mas eu tomei seus lábios nos meus uma vez mais, levando minha mão direita ao seu rosto de uma forma parecia com a qual ele fazia. Ele sorriu contra minha boca bravemente e retribuiu, sem um segundo a mais de ponderamento, aprofundando ainda mais o beijo.
Eu joguei todas as dúvidas e receios para o alto, e junto delas todas as possíveis memórias invasivas do Alex — ainda que o silêncio houvesse acabado, eu não deixaria que isto acabasse tão cedo.
Ao menos, até o Chris ir embora e eu ficar sozinho com os meus botões doloridos.
Chris ficou mais de uma hora aqui em casa e a gente mal levantou da cama, de onde estávamos, nos mexemos nela apenas o suficiente para ficarmos mais confortáveis, virando de frente um para o outro ou nos apoiarmos na cabeceira juntos. Ele me abraçou, hesitantemente, à princípio, mas depois começou a se sentir mais à vontade para me tocar sem restrição, e eu não tive nenhuma objeção a isso. A gente passou o restante do tempo alternando entre nos beijarmos e olharmos, nervosamente, para a porta fechada e a janela aberta, com a adrenalina boba de sermos pegos. Ficamos de mãos dadas, soltando risos sem graça, trocando beijos ora castos ora aprofundados.
Nenhum de nós quis conversar muito a fundo sobre isso, acho que nós dois sabíamos que não era algo muito estável. E eu sei que Chris não deixou passar desapercebido que eu não retribuí sua declaração de amor. Eu me senti culpado por isto, mas eu não conseguiria mentir para ele, e ele tampouco parecia se importar.
Assim que ele foi embora e eu não me demorei perto do meu irmão quando passei por ele, para que não me lesse feito um livro, eu voltei correndo para o quarto.
Eu não consegui mais deixar a porta fechada — não a minha, mas a porta mental com o nome do Alex cravado nela com ternura.
Chris era um sonho.
Ele sempre foi um querido, sempre dizia as coisas certas nas horas certas, sempre respeitou meu espaço e ele sempre se mantinha presente, uma constante, sem nunca mudar. Ele era aquele cara certo, o personagem que todos acham tediosos por ser bom demais na televisão, mas que na vida real, sempre era aquele por quem a gente se apaixona, porque no fundo, ninguém quer o cara errado.
Chris tinha tudo para ser o meu clichê.
E eu queria que ele fosse, uma parte de mim queria se jogar desse abismo sem olhar duas vezes, o que era dizer muito sobre mim.
Mas quando eu fechei os olhos antes de dormir, depois de trocar mensagens fofas com ele, tudo o que eu consegui pensar era que eu não dava a mínima para clichês bonitinhos. Eu não dava a mínima para os contos de fadas e os finais felizes, ainda que me dilacerasse por dentro, desde que eu estivesse com o Alex. Ainda que ele fosse cheio de defeitos, tumultuoso, complicado, instável, problemático e inconveniente, eu ainda escolheria ele.
Eu passei o próximo dia inteiro culpando-me por esse pensamento.
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