Made of Stone
56 EXTRA - Sempre estivemos aqui - Pt. I
Notas iniciais
O encontro de amigos era inevitável em momentos especiais, aqueles para os quais todos abriam uma exceção e faziam questão de estar ali. Alguns pediram folga adiantado semanas antes, outros organizaram a rotina de estudos para comemorar, e os demais, que ainda dependiam dos pais, conseguiram autorização para festejar noite afora.
As duas panelinhas, em um momento raro, se reuniram em um mesmo espaço, na comemoração da formatura de ensino médio de dois dos seus amigos em comum.
O espaço para a festa, o ginásio escolar, havia sido limpo, organizado e enfeitado para os formandos daquele ano. Alex e Mary Jane tiveram que dividir os convites para conseguir colocar todos os amigos ali dentro, sendo que o número de convidados por formando era limitado. Mas tudo deu certo, organizado direitinho. Afinal de contas, os dois formandos eram a única e última ligação entre a panelinha nova com a antiga, e era bem possível que talvez fosse a última ocasião em anos onde as duas estariam completas e amontoadas em mesmo festerê.
Era o final de uma fase, de uma era, como bem entendiam.
— Você sabe que, com a MJ e o Alex fora do colégio, nós somos os novos pais desses terroristinhas, né?
Bex e Korn estavam sentados em uma das mesas improvisadas no canto do ginásio, de frente para o espaço vazio no meio dele onde vários adolescentes dançavam ao som de uma música eletrônica. Os amigos que deveriam estar sentados na mesma mesa estavam dançando na pista ou em pé, em grupinhos pequenos, conversando entre si ou com os outros amigos da panelinha antiga. Restou apenas o casal, sentados com as cadeiras grudadas uma na outra, os olhos atentos em cada um dos seus amigos mais novos.
O silêncio, enquanto acariciavam os cabelos um do outro, perdurou por tempo demais até que Bex o quebrasse. Korn piscou lentamente antes de gargalhar alto.
— Sabe que eu tava pensando exatamente a mesma coisa? — riu-se ele, e Bex riu junto. — Enquanto eu cuidava todos de longe, esse mesmo pensamento me cruzou à cabeça.
— Nossa conexão mental é de outro mundo, meu bem — comentou Bex, acariciando os cabelos finos do namorado. Ele assentiu, deixando um selinho nos lábios de Bex, e os dois voltaram a observar os demais. Um suspiro em conjunto veio em seguida, quando Bex acrescentou: — Nem começou ainda e eu já cansei.
Korn acaba concordando, os olhos nos demais.
Alex estava com Ian em um lado e Bruno no outro, gargalhando em uma conversa com os demais da antiga panelinha. Caleb estava em pé em um semi círculo com Mason e Cristina, o casal parecia entediado mas o garoto restante parecia o Bambi de frente ao caçador. Grace e Dan estavam dançando no meio dos demais estudantes, assim como o casal de garotas da antiga panelinha, Faye e Mia.
— Você acha que ele vai ficar bem? — perguntou Bex, bebericando o suco batizado pelos amigos.
Korn ajeita-se na cadeira, desvencilhando-se um tanto para que Bex pudesse beber. — O Alex?
— Uhum.
— Eu acho que agora vai — comentou o Korn, abrindo uma garrafinha pequena de refri para tomar no bico. — Acho que finalmente ele vai ficar bem, na verdade. — Então, fez uma careta. — Não posso dizer o mesmo daqueles dois.
Korn não precisou falar a quem ele se referia, porque Bex sabia tanto quanto os demais sabiam: Caleb e Ian.
— Nem me fala — reclamou Bex, com uma careta semelhante.
— Não falo — brincou Korn, com um sorrisinho besta, e Bex revirou os olhos, dando um peteleco em seus cabelos.
Bex apontou um dedo para ele: — Vou te dizer uma coisa — falou, com um sorriso de canto. — Quando a gente colocar as crianças pra dormir, hoje tem, viu?
Korn, que já tinha voltado os olhos para as "crianças", girou o rosto com rapidez para o seu amor. Arregalou os olhos, enquanto Bex assentia como quem diz "é, eu disse o que você ouviu", enquanto deixava um pouco do refri escorrer por sua boca. Bex gargalhou, vendo-o limpar rapidamente o queixo antes de passar o braço pela cintura de Bex com um olhar safado.
— Ah, tem mesmo — concordou, e Bex sorriu.
— É bom que tenha — acrescentou Bex, e Korn roçou o nariz no seu.
Ele se afastou rapidamente, atrapalhando-se para fazer um jogo de sedução mais engraçado do que sensual, tirando os óculos redondos do rosto ao recolocá-los na gola da camisa e soltando os cabelos finos do coque antes de balançá-los de um lado ao outro.
Bex segurou o riso, aprovando: — Ui, tirou os óculos e tudo, isso promete!
Korn roubou um beijo estalado antes de dizer: — Você sabe que quando eu tiro os óculos a coisa fica séria né, amor?
Bex gargalhou ainda mais, mas em seguida pegou os óculos da sua gola e recolocou-os no rosto do namorado. Fez um carinho no rosto dele, e murmurou, com ternura: — Eu sei.
Korn era mesmo um bobo atrapalhado, mas Bex agradecia por isso, não só porque fazia dele quem ele era, fazendo dele um imã para Bex, como isso também fazia dele um repelente para algumas pessoas. Korn, em sua opinião, era lindo demais para ser padrãozinho de comportamento, porque de aparência ele era padrão até mais. Em outras palavras, lindo de morrer. Tinha pretendentes demais, mesmo sendo um esquisito, que dirá se não fosse.
E ele era o seu esquisitinho, de mais ninguém.
Às vezes se policiava quanto à sua possessividade, essa que brotava na sua mente ves ou outra, mas em um geral, Bex achava impossível não se sentir assim quando Korn era um fofo desse jeito.
Ele aproximou-se de Bex e beijou-lhe os lábios, primeiramente de forma leve, com um tanto de carinho, e em seguida o aprofundou até que estivesse estabelecido que, brincadeiras à parte, ele realmente falava sério quanto à noite deles prometer.
Mais adiante deles, outro casal dançava como se a noite prometesse.
Já fazia alguns minutos que as duas moças curtiam-se na pista de dança, havendo tanto tempo que não curtiam uma balada, ocupadas demais com suas vidas. Faye andava gastando quase toda a sua energia com a faculdade e o emprego de meio período, enquanto Mia estagiava de dia, trabalhava de tarde e estudava à noite. Elas apenas não perdiam o costume de passar um tempo uma com a outra porque moravam juntas, caso contrário, seria difícil se encontrar durante a semana, que dirá sair para fazer algo diferente.
Elas já estavam suadas e aproveitaram a troca de música para irem atrás de algo para beber, recuperando o fôlego. Enquanto bebiam em duas garrafas d'água, direto do bico, Mia se pegou observando Faye tomar quase a garrafa inteira de uma vez só antes de pausar para respirar, os lábios molhados.
Quando ergueu os olhos verdes para ela, Faye viu que Mia se aproximava lentamente, erguendo uma das mãos para acariciar seu rosto.
— Você fica tão linda assim — comentou, com os olhos castanhos brilhando, percorrendo cada detalhe de Faye.
Faye tinha os cabelos curtos soltos e usava um terninho preto e branco, gostava dele porque não era extravagante demais ao mesmo tempo em que mantinha um nível de formalidade para ocasiões especiais. Mas nos pés usava uma bota que a fazia ficar mais alta que Mia. A namorada, no entanto, usava um vestido solto e leve da cor verde, e nos pés trazia consigo sapatilhas baixas e delicadas, assim como ela era.
Os olhos verdes de Faye brilharam de volta antes que um sorriso malicioso se formasse naturalmente. — Assim como? — provocou, orgulhosa. — Suada e sem fôlego?
Mia acaba sorrindo ainda mais, ponderando qual seria a palavra certa. As bochechas da pele alva de Faye estavam coradíssimas pelo calor, seus cabelos pretos estavam colados na testa e no rosto, e seus lábios molhados.
— Exausta — sugeriu ela, com os olhos esfomeados brilhando, e antes que Faye conseguisse largar um comentário pervertido, Mia fechou o espaço entre as duas e tomou seus lábios com intensidade. Ela usou as mãos para percorrer, disfarçadamente para os demais, as curvas do corpo da namorada, que estremeceu em resposta, enquanto comia seus lábios com vontade. — Esgotada, acabada, sem forças — continuou murmurando contra os lábios dela, antes de morder o lábio inferior e soltar em seguida, dirigindo-se para a mandíbula e descendo os beijos até o pescoço, onde se demorou.
A pele de Faye arrepiou-se toda, e ela recuperou um pouco do fôlego quando disse: — Misericórdia, sereia, assim você acaba comigo!
Mia acaba sorrindo sontra a sua pele, antes de comentar: — Queria estar acabando com você agora mesmo — ronronou, e um arrepio subiu à espinha dela, antes que Mia desse uma mordidinha de leve em seu pescoço.
Faye tinha o lábio inferior preso entre seus dentes quando Mia se afastou tão logo a provocou.
A dita sereia inspirou e soltou o ar rapidamente, antes de dizer: — Mas vai ter que esperar a noite acabar. Mais uma dança? — perguntou, colocando o próprio cabelo cacheado detrás da orelha, com um olhar fofo.
Faye a encarou, chocada e desacreditada, as pernas ainda bambas.
— Argh — acabou resmungando —, um dia vão acreditar em mim quando eu disser que o seu canto é diabólico, sereia, e que eu não te chamo assim por nada — defendeu, frustrada, ao ver que não havia nenhum amigo por perto para testemunhar a segunda cara da geminiana que ela amava.
Mia sorriu em resposta. — Ninguém vai acreditar — cantarolou, sob os olhos estreitos de Faye —, eu sou fofa demais pra isso.
Faye revirou os olhos, mas acabou rindo. — Eu é que sou fofa — disse, empinando o nariz de uma maneira que realmente não era nada além de fofa, e Mia novamente se aproximou feito uma predadora.
— Você é mesmo — falou, com certo carinho —, mas quanto menos pessoas souberem, melhor pra mim — comentou, roubando um beijo rápido. — Só eu posso ouvir teus gemidos fofos, fada, e só eu posso arrancar gemidos seus — finalizou, passando a língua por seus lábios.
Faye engoliu em seco, caindo a ficha aos poucos. — Ai, Mia... — resmungou, com ódio que ela estivesse fazendo isso justo quando elas não podiam simplesmente tirar a roupa.
Mia deu um risinho antes de se afastar, retornando à pista de dança sem olhar para trás.
— Você me paga — reclamou Faye, antes de terminar de beber o restante da água para recuperar-se e correr atrás da sereia na pista de dança.
Sem perceber, Faye passou na frente do campo de visão da sua amiga, que apenas riu ao observar as duas desaparecerem no meio dos adolescentes dançantes. Ela estava acompanhada, um pouco mais adiante delas, próximo às mesas, outro casal perdido em seu próprio mundo.
Emily havia levantado para pegar algo para beber quando viu o casal de amigas e quando retornou às mesas, Matt estava esperando-a em pé. Abraçou-a por trás enquanto ela bebia a água gaseificada de canudinho e balançou o corpo junto do dela no ritmo da música.
Ao passo que Matt ficava mexendo com o seu cabelo, colocando-o detrás de suas orelhas, deixando beijinhos em seu rosto, Emily acabou soltando um riso.
— Tá muito carinhoso comigo hoje — acabou comentando, atrás do riso —, o que foi?
Matt acabou abrindo um sorriso ainda maior. — Achei que eu fosse sempre.
Em balança a cabeça de um lado ao outro antes de se virar em seus braços até que estivesse de frente para ele. Como resposta, Matt deixou outro beijo em seu rosto. — Hoje tá demais.
Matt ri, mas dá de ombros. — Sei lá, acho que eu tô me sentindo nostálgico — apontou, com um sorriso. — Nos reunir com essa galera toda me lembra da época do colégio, e me lembra de você também.
Em arqueia as sobrancelhas, olhando bem para o namorado. Ela lembrava muito bem da época do colégio, afinal, enquanto para o Matt faziam-se dois anos, para ela fazia apenas um que havia deixado o colégio para trás. E obviamente que se lembrava, em especial, de dois anos atrás para mais adiante ainda, quando percorria os corredores do colégio buscando por ele.
Emily havia sonhado por tanto tempo em ser a namorada do Matt que mal deu-se por conta que havia realizado essa fantasia da adolescência. O homem bem vestido em uma roupa social descolada, com cabelos castanhos e barba ruiva bem aparada, gentis olhos verdes e um sorriso apaixonado era seu crush do colégio. E era seu, hoje.
— Eu era apaixonadinha por você desde sempre — comentou ela, em resposta, com um sorriso largo.
Matt sorriu, mas em seguida forçou uma seriedade ao arquear uma das sobrancelhas: — "Era"?
Emily mostrou a língua em resposta. — Sou — corrigiu, rindo. — Sou muito!
Matt encheu seu rosto de beijinhos, abraçando-a com força. — Você sempre foi tão fofa, Em. — Ela acaba rindo, aceitando o destino cheio de beijos. — Às vezes, eu achava que não iria resistir, que eu ia morrer de tão adorável que você é.
Emily dá um tapa em seu ombro. — Mentiroso — resmungou, estreitando os olhos.
Matt negou com a cabeça, de um lado ao outro.
— Eu não mentiria sobre isso — garantiu, olhando-a nos olhos. — Eu podia ser um idiota, um lerdo pra ter demorado pra perceber que eu tava apaixonado por você, mas eu sempre soube que eu sentia atração por você — admitiu, com um sorriso culposo. — Eu me sentia um monstro de pensar em você dessa forma, porque você era tão especial para mim, e você era minha melhor amiga, minha melhor companhia, e você era tão inocente...
Matt riu, sem graça, mas Emily revirou os olhos. — Eu não era tão inocente assim — defendeu-se, e Matt arqueou uma das sobrancelhas, como se não acreditasse.
— Não? — perguntou, mas alguma coisa dizia que era por cortesia.
— Não — respondeu ela, achando-o um bobo. — Eu também sentia atração por você — falou, um pouco envergonhada —, não eram só sentimentos puros de amor.
Matt acabou rindo e roubou outro beijo dela. — Ah, eu duvido que fossem tão impuros quanto os meus — falou, contra a bochecha dela, ao apertar seu corpo contra o dele.
Estava escuro dentro do ginásio, mas ele a conhecia o suficiente para saber que suas bochechas coraram. Querendo ou não, Em sempre foi envergonhada com relação a certos assuntos, e isso ainda não havia mudado, não importava que ela fosse uma mulher feita.
No fim, ela acabou sorrindo e ergueu o queixo com algum orgulho ao dizer: — Que bom. Pelo menos você se sentia um pouquinho torturado também — chegou à conclusão, e Matt riu, concordando.
— Sentia mesmo.
— Eu também — garantiu Emily, sentindo-se nostálgica também. — Toda vez que você olhava pra mim, eu ficava sem fôlego e sentia que meu coração ia sair do peito.
Matt olhou para ela, com carinho, sentindo-se ainda mais apaixonado, se é que era possível, ao ouvir sobre os primeiros sentimentos dela por ele.
Emily riu-se, relembrando. — Eu lembro que, nas primeiras vezes que isso aconteceu, eu achei que ia passar mal — divertiu-se —, mas depois me acostumei e entendi que eu tava apaixonada mesmo e que não ia morrer disso. Também aceitei que não ia passar e que toda vez que você olhasse pra mim isso seguiria acontecendo — contou, e Matt perdeu um pouco o sorriso, os olhos brilhando ao olhá-la.
O olhar de ternura foi complementado pelo carinho que Matt fez em seu rosto, sentindo-se tocado pela maneira que ela havia descrito o passado. — Desculpa ter feito você esperar, meu amor — pediu, baixinho.
Emily negou, com um sorriso. — Você valeu cada segundo — respondeu, devolvendo o carinho no rosto dele, com ternura. Matt deixou um beijo casto em seus lábios. — Mas, hum — disse ela, com bom humor, ao se afastar o suficiente para falar —, eu posso pensar em maneiras com as quais você pode compensar pelo tempo que esperei.
Matt arqueou as sobrancelhas, gostando instantaneamente da ideia. — Ora, é mesmo? — perguntou, interessado. — Eu posso fazer isso por você, eu posso fazer o que você quiser.
Emily riu contra os lábios dele antes de dizer: — Ah, eu bem sei que sim.
Matt a beijou com gosto em seguida, fechando os braços em torno de sua cintura, ao passo que ela usava os seus para abraçá-lo em torno do pescoço. O beijo durou menos de um minuto antes que fossem interrompidos.
— Que nojo, parem com isso! — exclamou Annelise, parando ao lado deles com o nariz torcido.
— Deixa os pombinhos, sua amargurada!
Faye, como se houvesse sido convocada apenas para contrariar a melhor amiga, apareceu logo depois dela apenas para virar um petelecoem sua testa. Finalmente havia abandonado a pista de dança com a Mia que, naquele momento, havia feito uma pausa para ir ao banheiro.
— Sua vaca! — reclamou Annelise, olhando para trás para deparar-se com ela, enquanto Emily soltava um riso. — Impressionante como você sempre brota do nada pra defender os fracos e os oprimidos!
Faye deu uma gargalhada de vilã, mas acabou dizendo o contrário, com ar de mistério: — Eu sou... — Inspirou fundo antes de declarar, com intensidade: — Uma vingadora!
Annelise revirou os olhos, e Matt riu em resposta.
— Muito obrigado, ó, grande heroína — agradeceu Matt, reverenciando-a, antes que ela o reverenciasse de volta.
— De nada, ó, meros mortais — devolveu ela, sorrindo abertamente.
Annelise cruzou os braços no peito, arqueando uma das sobrancelhas. — E eu sou quem? Thanos?
Faye acaba descartando com uma mão. — Você não é importante o suficiente pra ser Thanos.
Annelise sorriu abertamente. — E gostosa demais pra ser ele — concordou, e Faye revirou os olhos em resposta. — Eu sou a versão feminina do Loki.
Faye acaba rindo, apontando um dedo para ela, enquanto ela própria ria em resposta, porque conheciam-se o suficiente. — Ah, bem que você gostaria de ser gostosa assim!
— Eu sou gostosa assim, meu amor, olha isso tudo — esbanjou ela, com o nariz empinado, e Faye acabou mostrando-lhe a língua. Annelise dá de ombros, apontando para Faye: — Viu só? Ela ficou sem argumentos — defendeu, para o casal.
— Nunca vi se amarem tanto — comentou Matt, estalando a língua. — Nâo podem se ver que começam as picuinhas.
Emily riu. — Né? — concordou, abraçada no namorado. — Essas duas não perdem a oportunidade de se amar publicamente.
Annelise arqueou uma das sobrancelhas, olhando para eles de cima à baixo. — Hum? E vocês? — acabou perguntando, com um sorrisinho. — Não são vocês que andam se amando demais publicamente?
— Mal amada — reclamou Faye, literalmente puxando a orelha dela, que soltou um resmungão. — Não existe isso de amar demais.
— Claro que existe — defendeu Anne, desvencilhando-se de Faye, com um sorriso debochado ao apontar para ela. — A próxima etapa, se bem conheço, é morar junto. Foi o que aconteceu com a coitada da Mia depois que as duas passaram da fase de ficarem se agarrando publicamente — alfinetou, dando um pulinho para o lado ao escapar de uma bofetada de Faye. — E vocês, quando vai rolar?!
Matt e Emily apenas se entreolharam, mas Faye ignorou as provocações da Anne ao devolver na mesma moeda.
— Melhor coisa viver junto com o meu amor — cantarolou ela, girando em torno de Annelise pra incomodá-la. — Eu sou muito mais feliz desde que passei a morar com minha sereia, você devia tentar ser menos azeda — sugeriu, apertando rapidamente o nariz da Anne antes de escapulir de um chute — e abraçar um pouco mais a paixão.
Annelise riu, debochada, ao medir Faye de cima à baixo: — Só a coitada da Mia mesmo pra aguentar viver com essa insuportável todos os dias — humilhou, e Faye mostrou-lhe a língua.
— Insuportável é você, tá, querida? — retrucou, gesticulando com as mãos. — Porque a minha sereia ama viver comigo — declarou, empinando o nariz —, ela inclusive agradece minha presença maravilhosa todos os dias com muito chá.
Emily, que continuava a beber de canudinho, afogou-se com o comentário, enquanto Annelise não se aguentou e caiu na gargalhada. Ao mesmo tempo, uma terceira pessoa se juntava a elas, com uma sobrancelha arqueada e uma careta aprofundada no rosto.
— Taí algo que eu não precisava saber — comentou Jake, olhando de canto para Faye com o nariz torcido.
— Que baixaria! — comentou Alex, rindo-se, ao jogar um braço por cima de Jake. — Eu não posso dar as costas que vocês começam com a baixaria! — acusou, antes de fazer um beiço. — Por que não me esperaram?
Jake o empurrou para o lado, julgando-o, antes de se aproximar da única pessoa sensata entre eles, o Ben, que havia chegado junto dele. Achava impressionante como a energia do Bruno e do Alex se misturava feito uma só, as metades de uma laranja: quando Bruno não estava, Alex fazia os mesmos comentários que ele faria se estivesse ali.
— Ben — chamou Faye, brincando com o cabelo —, ignora o que ouviu. Não foi para os teus ouvidos, tá bom?
Ben acabou sorrindo antes de assentir, enquanto Jake torcia o nariz. — Eu não ouvi nada — defendeu ele, com a postura impecável, ao passo que Jake olhava de um para o outro com julgamento.
Alex arqueou uma das sobrancelhas, achando graça.
— "Não foi para os ouvidos dele", tá bom — debochou, apontando de um para o outro. — Então você não sabe que os ouvidos desse aí não são nada inocentes, Faye — brincou, já que sabia que todos estavam cientes disso. — Ele e a Lucy parecem dois coelhos no cio.
Jake aprofundou a careta de nojo, enquanto Faye soltava um arquejo e Annelise ainda gargalhava junto de Matt e Emily. Ben, no entanto, apenas piscou, inalcançável, ao dar de ombros.
— Shh — reclamou Faye, aproximando-se para tapar a boca do Alex, que apenas riu, tentando se desvencilhar. — Para de propagar mentiras, Alex, eu bem sei que meu príncipe é inocente!
Annelise olhou para ela, chocada, parando de rir. — Você não tem vergonha na cara?! — perguntou, com as mãos na cintura. — Você ainda tá dando em cima do Ben?
Faye deu de ombros, enquanto Alex desvencilhava-se dela, segurando-se na roupa do Jake ao puxá-lo de forma que ambos quase caíram — não sem resmungos do Jake.
— Olha só pra ele — defendeu-se Faye, apontando para a postura ereta, o terno impecável, e a beleza de deus. — Eu não entendo como eu sou a única — brincou, piscando um dos olhos para o Ben, que acabou rindo. — Ben, meu anjo, você tá um arraso hoje, hein?
Annelise aproximou-se o suficiente para puxar a orelha da Faye, que gritou, resmungando. — Para de ser piranha, piranha! — reclamou, enquanto Emily aproveitava para tentar separar as duas, ainda rindo. — Não tem vergonha na cara?!
Faye deu de ombros, ainda com a orelha puxada: — Caiu na minha rede, é peixe!
Alex piscou, com uma careta confusa, tentando mais uma vez apoiar-se em Jake, que desvencilhava-se todas as vezes. — Não entendi — apontou, desacreditado. — Por que tem gente babando no Ben e não em mim?!
Jake revirou os olhos, dando um peteleco nos cabelos do Alex de forma parecida com a qual fazia com o Bruno. — Cala a boca, Alex!
Alex gargalhou em resposta.
— Você também tá muito linda hoje, Faye — elogiou Ben, muito educado, prestando atenção na briga das duas. — Um arraso.
Faye, que já havia conseguido livrar-se das pauladas de Annelise, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Ain, não fala assim que eu me derreto todinha.
Annelise apontou o dedo, acusando, embora já risse, incrédula: — Vocês são dois sem-vergonhas!
— Jake, mantém seu siâmes sob controle — instruiu Alex, olhando-o de canto. — Ele tem namorada!
Jake cruzou os braços, com um sorriso de canto. — E eu com isso?
— Se você largar a Lucy, eu largo a Mia — sugeriu Faye, piscando um dos olhos.
Ben não se aguentou mais e riu-se, apoiando uma mão no ombro do Jake, que deixou, piscando com uma cara de tédio. Alex arquejou, ultrajado que Jake não deixasse que ele fizesse o mesmo.
— Eu juro pra vocês que não dá pra deixar essa vagabunda sem supervisão — brincou Annelise, com os braços cruzados ao desistir dela, antes de estalar a língua.
— Meninas, parem com isso — ralhou Emily, rindo.
Faye abriu um sorriso largo e aproximou-se o suficiente para esmagar o rosto de Annelise com as duas mãos antes de tascar um beijo na bochecha direita. Annelise lutou contra, mas não resistiu as investidas, gargalhando quando não conseguiu livrar-se dos beijos. Em seguida, Faye focou as orbes verdes no próximo alvo, que deu um gritinho e saiu correndo, mas nem Matt conseguiu protegê-la antes que ela fosse tomada por beijos também.
Emily acabou aceitando o destino e abraçou Faye de volta.
— Ah não, cadê o meu amor também? — perguntou Alex, com uma carinha de excluído, antes de rodopiar no próprio eixo procurando por Bruno.
— Solta, solta — reclamou Matt, separando Faye de Emily, enquanto Em quase tinha um treco de tanto rir. Matt puxou-a contra o peito. — Sai fora, Faye.
— Ui, ui, ui — reclamou ela, erguendo as mãos. — Tá com medo que ela prove a fruta e goste?
— Cadê o meu beijo? — interrompeu Alex, com os ombros caídos, encarando diretamente na alma da Faye.
Faye torceu o nariz, olhando-o de cima à baixo, antes de retornar os olhos verdes aos escuros dele. — Tá me estranhando?
Alex arquejou, ofendidíssimo, Matt acabou gargalhando e Emily continuou abraçada nele, protegida em seus braços. Faye voltou correndo para os braços da Annelise, que aceitou o abraço, soltando um riso ao observar Alex quase chorar pelo abandono das duas. Annelise e Faye se entreolharam em piedade antes de aproximar-se de um solitário Alex, que agora voltava a atenção para os siameses, deixando Matt e Emily para trás. Jake e Ben apenas se olharam como se fossem os únicos sãos do grupo e os demais fossem todos doidos.
Alex empurrou Jake imediatamente, que perdeu o equilíbrio e foi segurado por Ben. Alex segurou o riso, pensando que era muito divertido implicar com o Jake. — Eu vi isso, tá?
Jake cruzou os braços no peito outra vez, arqueando uma sobrancelha. — Viu o quê, palhaço?
— Eu vi essa comunicação silenciosa de vocês aí — apontou, enquanto os outros olhavam, antes de colocar as mãos na cintura. — Vocês acham que podem debochar da gente por telepatia?!
— É, vocês acham que são melhores que nós?! — Annelise foi na onda, em uma posição parecida, antes de se aproximar, abraçada com a Faye, do Alex.
— Somos — respondeu Jake, empinando o nariz. — Algum problema?!
— Olha a audácia desse menino — apontou Alex, virando para olhar para Annelise.
Annelise, no entanto, havia desvencilhado-se o suficiente de Faye para que abraçasse Alex de um lado e Faye o abraçasse de outro, que surpreendeu-se ao perceber. Fez uma careta de choro teatral e abraçou as duas como se fossem suas filhas, apesar de que Annelise era da sua altura com o salto, e Faye ficava pouca coisa abaixo dele, engajada em uma semi discussão com o Jake.
— Cadê teu macho, falando nisso? — perguntou Faye, olhando ao redor, teatralmente. — Você tá muito amostradinho.
— Eu não tenho macho nenhum, sua ridícula — defendeu-se Jake, julgando-a dos pés à cabeça.
— Ridícula é você, tá bom, querida? — devolveu Faye, aproximando-se de Jake como se fosse brigar sem desvencilhar-se dos outros dois. — Tá precisando de limites.
Ben apenas riu, puxando Jake pela roupa para ficar mais próximo ao defendê-lo. Jake estava parado e deixou-se ser puxado, novamente ficando da mesma maneira que antes, os olhos claros piscando lentamente para Faye.
— Limites? — debochou Jake, soltando um riso. — Do Bruno?
Faye, que estava convicta na seriedade, acabou quebrando o personagem ao fazer uma careta por ter que concordar. Bruno não colocava limites nem nele próprio, que dirá nos outros. Quando foi falar novamente, a atenção foi chamada por Annelise, que apertava a bochecha do Alex ao lado, um palhaço sorrindo por atenção.
Faye beliscou a barriga do Alex, que resmungou. — Cadê teu namorado?
Alex arqueou as sobrancelhas, o cérebro bugando por um instante ao tentar entender a quem ela se referia. Annelise novamente apertou a bochecha dele, aproveitando para provocar um pouquinho.
— Hum, de quem ele acha que você tá falando? — brincou, rindo, quando ele revirou os olhos, sem jeito. — Uma medalha pra quem acertar! — provocou, olhando para trás pra ver se o casal também ouvia.
— Ora, ora — gargalhou Faye, beliscando-o outra vez.
Matt aproximou-se, com a Emily debaixo do braço, ao levar o dedo indicativo para o queixo, em uma pose de pensativo. — Hum, deixa eu ver se eu consigo adivinhar. Seria alguém que a gente conhece?
Alex riu, embora sentisse as orelhas esquentarem. — Calem a boca, ridículos!
— Seria um dos pestinhas? — apontou Faye, com um sorriso de canto. — Será?!
Emily inclinou o corpo para a frente ao mesmo tempo que inclinava o rosto para o lado, para enxergar a carinha do Alex. — Hum, eu acho que começa com C. Será que tô errada?
Alex assentiu, mostrando a língua. — Você pulou uma letra, Em, meu amor começa com B. — Em seguida, levou uma mão ao peito antes de olhar ao redor mais uma vez. — Aliás, tô sentindo vibrações passionais que indicam que ele tá próximo de mim.
Annelise abriu um sorriso ainda mais largo quando percebeu que Alex colocou-se no meio de uma piada ainda melhor.
— Deve estar sentindo mesmo, bonitão — falou, sorrindo de lado. — Porque teu amor tá bem pertinho de nós com o teu outro amor mexicano. Opa — brincou ela, com um sorriso —, seria o contrário?!
Todos olharam para lá ao mesmo tempo, deparando-se com Bruno e Caleb lado a lado, voltados na direção deles, próximos à pista de dança. Bruno tagarelava alegremente nos ouvidos do pestinha menor, que estava debaixo do seu braço com uma careta confusa.
— Vish.
Tão logo avistaram os dois, iniciou-se uma onda de gargalhadas pela piada ter vindo pronta pelo próprio Alex, enquanto alguns vaiaram e mexeram com ele alegremente.
Alex teve que rir junto, em desistência, quando percebeu.
— Eu não sei por que convidei vocês pra minha formatura — resmungou, tentando desvencilhar-se das duas garotas que o seguraram com mais força.
— Ai, gente, ele ficou com vergonha — brincou Annelise, cutucando a barriga dele.
— Ai, que dó — brincou Faye, apertando sua bochecha, enquanto ele ria. — Quase fiquei com pena, mas aí eu lembro a quantidade de vezes que a piada sou eu.
Alex mostrou-lhe a língua, enquanto os outros faziam piada alegremente, mas os olhos seguiram voltando para a dupla inesperada. Ele estreitou os olhos, um tanto aflito quando viu que Bruno parecia estar seriamente falando besteiras para um Caleb surpreso, tagarelando no ouvido dele. Alex ignorou os demais quando encarou Bruno como se quisesse fazer um buraco nele até que chamasse sua atenção, mas quem o viu primeiro foi o Caleb, quando os olhares encontraram-se.
Em seguida, não demorou para o Bruno seguir o olhar do Caleb e deparar-se com a pancada que foi a encarada do Alex. Bruno riu, desvencilhando-se do Caleb bruscamente antes de erguer os braços em bandeira branca e, em seguida, levá-los atrás da cabeça em rendição.
— Eu vou matar esse mexicano — comentou Alex, entredentes, enquanto causava mais risos nos demais.
Não demorou muito para o Bruno correr saltitando na direção deles, passar reto pelo namorado e jogar-se no Alex sem dar tempo das duas largarem-no, o que aconteceu naturalmente depois.
— Meu amor! — gritou Bruno em seu ouvido, e Alex devolveu o abraço apenas para tentar quebrar as costelas dele disfarçadamente. — Eu ugh — reclamou, em uma voz esganiçada — espero que não tenha sentido tanto ugh a minha falta!
— Só vou sentir tua falta depois que eu te matar — resmungou Alex, baixinho para que os outros não ouvissem, apertando-o ainda mais. — Que merda você tava fazendo?
— Perdão, amor da minha vida — resmungou ele, com dificuldade —, vem cá que eu vou compensar com um beijo.
Em seguida, iniciou-se uma cena digna que filmes, enquanto Jake apenas suspirava, em que Bruno tentava beijar a boca do Alex em frente a todos e ele não o permitia.
Brincadeiras à parte, Alex estava achando graça da situação toda, porque apenas depois de pensar que era estranho o sumiço do Bruno, que fez sentido. Sentiu como se fosse um pai, sozinho com o filho pequeno, ao dar-se por conta que a casa ficou silenciosa por tempo demais e isso só podia significar uma coisa: ele estava aprontando. Era por isso que ele não estava ali, fazendo graça no meio dos amigos, porque estava ocupado tacando fogo na casa.
— A gente nem chama atenção, quase, com o bando de doidos que somos — comentou Annelise, analisando as próprias unhas, depois de haver dado uma olhada ao redor e sentir que todos paravam para olhar para eles.
— É por isso que a gente só se reune de vez em quando — deduziu Matt, concordando —, é uma maneira do universo equilibrar as coisas.
— É, imagina se a gente pudesse se reunir sempre depois do colégio — apontou Faye, rindo —, a gente acabaria no hospício ou na cadeia, todos juntinhos.
— Jake, coloca limites no teu namorado, por favor — apontou Annelise, para os dois que continuavam agarrados, abraçando-se, beliscando-se, na frente de todos.
Jake franziu o cenho, torcendo o nariz. — Eu, não — reclamou, com simplicidade.
Faye analisou a situação com exagerada atenção. — Hum, vemos que ele sabe que tem o poder de impôr limites, mas não quer usar.
— Muito responsável, de fato — concordou Emily, pensativa. — Grandes poderes vem com grandes responsabilidades — brincou, e Faye quase engasgou no riso.
Matt, ao lado, gargalhou. — Jake só não quer chamar a atenção do Bruno pra ele! Tá deixando que o Alex lide com ele!
— Eu nunca disse isso — falou Jake, com uma cara de paisagem, mas Ben o olhou de canto como se soubesse que era exatamente esse o caso.
— É que todo mundo sabe que as energias do Alex e do Bruno meio que se anulam juntas depois de um tempo — apontou Annelise, com um riso. — As baterias da hiperatividade vão lá embaixo, eles as esgotam juntos.
Em algum momento, os dois começaram a brincar de lutinha e sair correndo um atrás do outro, no meio da festa, como duas crianças hiperativas, de fato. E alguns minutos depois, eles voltaram, empurrando-se, como se não estivessem se abraçando e se beijando um minuto antes.
— Meu amor! — gritou Bruno, de forma parecida com antes, mas dessa vez lembrou do namorado. Jake suspirou, como quem diz "ah, não" antes de ser quase derrubado por ele. — Nem te vi aí, senão teria te enchido de beijos.
Em seguida, ele fez exatamente o que havia dito, enquanto Jake tentava driblar os beijos para longe, deixando escapar: — Eu sei.
Ben apenas olhou para o Bruno com os olhos entediados antes de ignorar os dois, voltando-se aos demais. — Isso vai levar um tempo — apontou, e os demais concordaram.
Annelise ia comentar algo sobre os pombinhos quando se deparou com os outros dois pombinhos diferentes e apontou para eles, dirigindo-se aos demais: — Você vê que o jogo virou quando a cena agora é essa.
A cena, em questão, era Emily entretida na conversa com os demais, embora agora olhasse com confusão para Annelise, enquanto Matt se perdia olhando para ela, debaixo dos seus braços.
— Né, agora é o Matt que não tira os olhinhos apaixonados da nossa indígena — concordou Faye, acenando em aprovação. — Quem te viu, quem te vê.
As bochecas de Emily avermelharam quando ela sorriu e ergueu os olhos para o Matt, deparando-se com as orbes nela. Recém processando o que acabava de ouvir, distraído com a namorada, Matt olhou para os demais, revirando os olhos na orbe.
— Novidade seria se eu não acabasse assim né — defendeu-se ele, orgulhoso, antes de deixar um beijo na têmpora dela.
— Em, você devia ter aproveitado e feito ele sofrer um pouquinho antes de aceitar namorar com esse bobão — brincou Annelise, dando um empurrãozinho no Matt.
— Para com isso — defendeu Em, sem jeito.
— Ah, vocês tão aí — comentou Mary Jane, ao aproximar-se com um sorriso, acabando debaixo do braço do Alex logo que chegou. — Alex, o pessoal quer tirar foto dos formandos todos juntos lá no mural.
— Agora? — perguntou ele, olhando para trás.
— Daqui a pouco — informou ela, olhando para o círculo que eles fizeram.
Bruno estava abraçado em Jake, embora recém saísse do seu mundinho para virar para os demais, Ben estava ao lado do Jake e também ao lado de MJ, que recém havia chegado. Os dois formandos, abraçados, estavam ao lado de Faye e Annelise que, por sua vez, estavam ao lado do casal do ano, Matt e Emily, que fechava o círculo ao estarem lado a lado com o outro casal, Bruno e Jake.
— Olha só pra vocês — brincou MJ, olhando para todos. — Eu achei que a gente não ia conseguir reunir todos, mas acabou dando certo!
Alex franziu o cenho, olhando para eles com cara de bravo. — Ai de quem ousasse não vir na nossa formatura!
— Você fica tão bonitinho com essa cara de bravo — comentou Bruno, atirando um beijo para ele.
Alex acabou perdendo a postura e sorriu, atirando outro beijo para ele, e os demais reviraram os olhos. — Pronto, começaram de novo!
Em algum momento da próxima discussão, Alex deu-se por conta que estavam praticamente só a panelinha antiga ali, um pouco antes da Mia chegar e logo após ela vir Lucy e Ahanu, presos em uma conversa. Naquele instante, involuntariamente eles fizeram um círculo apenas da panelinha antiga, e aquilo trazia uma sensação muito boa.
Alex sorriu, parando de prestar atenção no que os demais diziam para aproveitar o momento, sabendo que iria querer lembrar-se disso mais tarde. Pegou o celular para checar o relógio rapidamente, percebendo que tinha pouco mais de uma hora antes que tivesse que se organizar para sair dali e ir até a rodoviária. Quando guardou o celular novamente, viu que MJ tinha os olhinhos puxados erguidos para ele e que entendia onde estava sua cabeça.
Jane abraçou-o em apoio, apertando sua cintura com uma das mãos antes de tornar a olhar para os demais, comentando algo na nova discussão. Alex a abraçou de volta e deixou um beijo estalado no topo da cabeça dela, com carinho, agradecido por tudo. No meio da nostalgia da reunião, relembrou dos velhos tempos quando tinha nojo de beijar MJ e tê-la em seus braços de maneira parecida com aquela. O asco da situação era mais destinado a ele próprio por se colocar nela, se fosse sincero consigo mesmo, e só tinha a agradecer por tudo o que podia sentir naquele momento ser carinho e gratidão por aquilo ter mudado.
Gratidão, pensou ele, devia ser o sentimento mais abrangente daquele dia. Junto dela estava a nostalgia e a saudade que já sentia antes mesmo de partir.
*
Depois de ficar um tempo sentada com Korn, Bex, Dan, Ian e Caleb, Grace levantou-se para buscar bebidas para todos e Ian correu atrás para ajudá-la. Os dois esperaram os professores servirem as águas e os refrigerantes que foram pedidos em um silêncio que, depois de um minuto, tornou-se constrangedor.
— Você não parece tá aproveitando muito a festa, Ian — comentou Grace, para quebrar o silêncio gritante, antes de dar uma olhada nele. — Por que não dança um pouco?
Ian fez uma careta, colocando o peso de uma perna para a outra, desconfortável. — Você sabe que eu não sou muito bom nisso.
Grace suspirou, assentindo. — É, eu sei.
Ian abriu e fechou a boca algumas vezes, mas não conseguiu dizer nada, e então olhou para trás, vendo que Dan seguia na mesa com uma conversa com os demais. Sentia que toda vez que tirava os olhos da Grace por um instante, lá estava ela com o Dan novamente. E se ficava sozinho com ela por um minuto, logo estava Dan juntando-se a eles.
Naquele momento, no entanto, isso não aconteceu. E, ainda assim, ele não conseguia conversar direito com ela, sem saber quando é que as coisas tornaram-se tão estranhas.
— O seu vestido é... — acaba dizendo, com uma careta, e Grace ergue os olhos castanhos para ele — é bem bonito.
Grace desce os olhos para o vestido tomara que caia lilás, por um instante, e para os pés em um mocassim bege, antes de erguê-los novamente para um embaraçado Ian. Cada vez que olhava para ele, ao longo dos anos, tinha que inclinar o rosto um pouco mais atrás, já que o Ian havia passado dos um e oitenta fazia um tempo, quem sabe se já não tinha um e noventa, e ela havia ficado para trás, com seu pouco mais de um metro e meio.
Ian usava uma roupa semi social que tinha certeza haver sido escolha do Alex para ele, já que ele geralmente não sabia se vestir muito bem, e parecia muito mais elegante do que no uniforme do colégio. O problema sempre foi que ele encurvava os ombros, em uma tentativa inútil de ficar mais próximo da altura dos demais, e caminhava de forma desajeitada, com desconforto pelo espaço que ocupava, quase como se pedisse desculpas por ele. Os esportes ajudaram que já não fosse mais tão esguio e tão desequilibrado, batendo nas paredes por onde anda, mas algumas coisas não mudavam.
E outras só mudavam para o pior, ponderou ela, engolindo em seco.
— Obrigada — agradeceu, baixinho. — E eu gostei bastante desse blazer — comentou, puxando a extremidade dele com os dedos. — É novo?
Ian engoliu em seco, assentindo. — É, o Alex me ajudou a escolher — apontou o que ela já imaginava, e Grace sorriu.
— Você ficou muito bonito com ele — elogiou ela, erguendo os olhos para ele, com sinceridade.
Grace observou quando as orelhas avermelharam e ele ficou um pouco mais espalhafatoso que o normal, esbarrando no balcão sem querer ao mudar o peso de perna outra vez, e remexer as mãos. No meio disso tudo, ele havia soltado um "obrigado" atrapalhado. Grace esperou que passasse o surto envergonhado dele, sentindo as próprias orelhas esquentarem, mas ficou observando, na espera do que ele diria a seguir.
— Você... — resmungou ele, apontando para ela ao descer os olhos para a roupa e em seguida para o rosto dela algumas vezes. — Você também... Hã...
Grace inspirou fundo e manteve o contato visual. — Eu o quê?
— Você tá muito... Com seu vestido... — atrapalhou-se ele, apontando novamente para ela. — Escolheu bem.
Grace acabou suspirando e assentiu, olhando para longe. — Valeu, Ian.
Ian engoliu em seco, frustrado, ao deixar os ombros caírem.
— Eu quis dizer que você tá muito linda — explicou, antes que ele próprio percebesse. Grace olhou para ele, de súbito, as sobrancelhas arqueadas atrás dos óculos, e Ian atrapalhou-se outra vez. — Quero dizer... Hoje você... Com seu vestido...
Grace suspirou pesadamente, estendendo as mãos para pegar o restante das águas que o professor acabava de trazer, e depois disse: — Deixa quieto, Ian. Me ajuda a levar — indicou as bebidas e, antes de uma resposta, marchou para longe.
Ian abriu a boca, mas de nada adiantaria, ela já estava longe.
Sentiu o coração apertar, arrependido e frustrado, antes de engolir em seco. Olhou para as bebidas no balcão e as juntou sem muita vontade, torturando-se por dentro antes de caminhar até a mesa e deixá-las em cima, para que os demais pegassem mais tarde.
Mal deu tempo de sentar antes que Grace resmungasse algo para o Dan e ela o arrastasse para a pista de dança novamente. Ian desviou o olhar para longe, cabisbaixo, ao se afundar na cadeira, alheio à conversa dos demais.
— Vish, o que foi que aquele idiota fez agora? — perguntou Dan, assim que eles se instalaram no meio da pista de dança.
Grace parou de dançar subitamente, arqueando uma das sobrancelhas, mas logo tornou a movimentar-se junto dele. — Sabe, às vezes eu me pergunto se vocês são mesmo amigos.
Dan acabou rindo, e disse: — Então você sabe que quando eu digo "aquele idiota", eu só posso tá me referindo ao idiota do Ian, né?
Grace revirou os olhos em resposta, mas acabou sorrindo sem a própria permissão, do riso do Dan. Em seguida, analisou-o por um instante, sentindo-se uma idiota ela própria por sentir a necessidade de defendê-lo.
— Ele é um idiota, eu sei, mas ele não é só isso — murmurou, na defensiva, antes que pudesse pensar duas vezes.
Dan concordou com ela, assentindo no ritmo da dança, antes de erguer dedo por dedo: — Besta, chato, irritante, lerdo, pateta...
Grace riu sem querer e acaba dando um tapa no braço dele, incrédula, antes de analisá-lo com desconfiança. — Vocês realmente se odeiam? — decidiu perfuntar, finalmente, porque Dan nunca havia sido tão direto assim antes.
Dan deu de ombros. — Ódio é uma palavra muito forte — defendeu ele, parando um pouco. — Ele é legal. Quando ele não é um chato, ele é parceiro, eu admito — disse, apenas, sem muita enrolação. — É só que... Ele não gostar de mim deixa muito difícil a missão de eu gostar dele — escolheu dizer, dando de ombros novamente com um meio sorriso.
Graceu suspirou em resposta, assentindo, antes dos olhos desviarem-se por conta própria para a figura desanimada do Ian na mesa ao longe. Ele remexia um anel que sempre usava no dedo, um que havia sido do seu pai, os olhos presos na própria mão para não ousar olhar para a pista de dança. Grace, de alguma forma, sabia que era isso que ele fazia, com a cabeça cheia.
— Você devia estar aproveitando a festa e não suspirando pelos cantos por um idiota — apontou Dan, pegando a mão dela para chamar sua atenção, com carinho.
Grace desviou os olhos para ele, observando-o melhor.
Dan sempre tinha bom gosto para roupas, então estava perfeitamente vestido dos pés à cabeça. As costumeiras tranças nagô envolviam seus cabelos, agora um tanto mais compridos, passando um pouco do pescoço, porque ele gostava de refazê-las sempre. Estava impecável, um sorriso querido nos lábios volumosos, e o gingado de quem estudava dança desde a infância.
Grace inspirou e expirou fundo, assentindo, ao aceitar sua mão para que ele a guiasse na pista de dança. Afinal, ninguém melhor do que um dançarino profissional para acompanhá-la. E um querido, dentre todos eles.
— Tem razão — concordou, soltando um riso divertido quando ele a rodopiou rapidamente.
E, entre seus rodopios, uma pessoa não tão ao longe passava os olhos por eles rapidamente à procura de outro alguém. Ela bufou uma vez e outra, sem encontrar sua parceira de dança, desviando de um grupo de adolescentes que estavam na beirada da pista rebolando.
— Argh, aquela vagabunda!
Annelise bufou outra vez, estreitando os olhos.
— Que palavras mais delicadas saem dessa boquinha — comentou Ahanu, ao seu lado, com um meio sorriso.
Annelise sequer olhou para ele quando mandou: — Cala a boca.
Ahanu sorriu, passando uma mão pela cintura dela: — Vem calar.
Anne não afastou-se, mas analisou-o pelo canto de olho com rapidez antes de soltar um riso, e descartar: — Você é mesmo uma criança.
Ahanu inclinou o rosto para o lado, pensativo, antes de apontar: — Hum — resmungou —, não era isso que você disse de novo e de novo quando eu...
Annelise levou uma mão para a boca dele, literalmente calando-o, mas ainda assim sentiu necessidade de ordenar verbalmente: — Cala a boca. — Ahanu arqueou uma das sobrancelhas e Annelise suspirou, deixando a mão cair. — Agora me ajuda a encontrar aquela puta.
— Se você tá se referindo à sua melhor amiga de infância — apontou, já que achava desrespeitoso aceitar que a "puta" era a Faye assim, logo de cara —, ela provavelmente tá aproveitando a namorada. — Então, sorriu de canto. — Aposto que não tá mandando ela calar a boca, inclusive.
Annelise ignorou o último comentário, os olhos ainda percorrendo a pista de dança com o objetivo de encontrá-las: — Sim, provavelmente tão se pegando, aquelas duas vagabundas tem fogo no rabo — declarou, irritada, ao revirar os olhos. — E eu aqui esperando pra gente dançar. Eu devo ter atirado pedra na cruz pra...
— Eu danço com você.
Annelise olhou para ele, estendendo-lhe a mão com educação, um sorriso amável no rosto e uma postura ereta parecida com a que Ben e Jake sempre portavam. Ela não conseguiu não baixar a guarda quando o viu assim, todo galante, e o sorriso adorável que se estendia até os olhos puxadinhos.
Ahanu e Annelise não estavam oficialmente namorando, embora todos soubessem que isso acabaria acontecendo no final das contas. Há um ano estavam flertando um com o outro, desde a reunião passada da panelinha, e passavam mais tempo juntos do que Annelise passava com a Emily. Haviam se dado uns pegas vez ou outra, e eles às vezes dormiam nas casas um do outro, mas nunca haviam passado disso.
No entanto, apesar de Annelise ainda não dar-se por conta, era a primeira vez que se apaixonava de verdade. E, bom, todos sabiam que Ahanu estava apaixonado desde o início.
Ela acabou descartando sem muita rudeza: — Você não é minha amiga, não tem graça — apontou, antes de explicar: — Era pra gente, sabe, largar as paixonites de lado e dançar um pouco juntas.
Ahanu assentiu, ainda com a mão estendida.
— É, mas não vai rolar nesse exato momento, então você vai ter que se contentar comigo agora — chegou à conclusão, seriamente, sem deixar espaço para que ela negasse. — Depois você dança com ela.
Annelise deu um indício de sorriso, mas arqueou uma das sobrancelhas, debochada: — Você? Na pista de dança?
Ahanu arqueou as sobrancelhas de volta, com uma cara de julgamento.
— Eu danço muito — defendeu-se, ofendido, levando a outra mão à cintura. Annelise riu e ele estendeu as duas mãos para ela, pegando as mãos dela antes que ela aceitasse por conta. — Vem. Pensa rápido.
— Tá bom — concordou, embora já estivesse sendo arrastada para a pista de dança. — Me mostra teus passos, garoto dançarino.
— Com muito prazer, minha rainha — devolveu ele, quando pararam entre os adolescentes dançantes, ao reverenciá-la de uma maneira fofa.
Ahanu, realmente, sabia o que estava fazendo. Ele deu um show, apesar da maneira atrapalhada, ele dançou mesmo. Dançou sozinho e dançou com Annelise, rodopiando-a na pista de dança, sem deixá-la esbarrar nos demais. As músicas eram, em sua maioria, individuais, não tinha muitas maneiras de dançar música pop ou eletrônica a dois. Então ele dançou umas três sozinho, estimulando-a a dançar também, até que ela se soltasse e começasse a se divertir como faria com a Faye.
Han era um besta, às vezes, e Annelise teve que observá-lo rebolar a bunda direcionada para ela algumas vezes. Ela gargalhou e, em algumas delas, não resistiu e deu tapinhas na traseira dele no ritmo da música.
Em uma dessas vezes, Ahanu virou-se subitamente e a puxou pela cintura até que estivesse grudada nele. Eles ficavam na mesma altura com o salto da Annelise, e ele desviou os olhos para os lábios cheios dela com um sorriso, ao passo que ela arqueava uma das sobrancelhas.
— Vamos fazer um acordo? — sugeriu, inclinando um pouco o rosto. —Eu deixo você bater na minha bunda quantas vezes você quiser, aqui, agora... — declarou, e Annelise estreitou os olhos — se você deixar eu fazer o mesmo com você na sua cama, assim que a gente chegar em casa.
Annelise tentou desvencilhar-se na mesma hora, mas ele sorriu ao prendê-la ali com mais força, antes que ela desse uma olhada ao redor para ver se ninguém tinha ouvido. Quando voltou a atenção para ele, sorriu, maldosa, e deu de ombros.
— Mesmo que eu não deixe, você vai me deixar fazer o que eu quiser igual — declarou, tranquilamente, observando-o sorrir ainda mais, antes de dar um beliscão em sua bunda.
Annelise tinha razão, afinal.
Se ela quisesse fazer tranças nos fiapos de cabelo dele, ele deixava. Se ela quisesse testar suas maquiagens nele, ele deixava. Se pedisse que ele massageasse seus pés, ele fazia sua vontade. Às vezes, ele também gostava de propôr acordos para que ela terminasse fazendo o que ele queria também, mas ela nunca aceitava e ele sempre fazia o que ela queria de qualquer forma também.
Ahanu abriu um sorriso largo e a rodopiou na pista antes de puxá-la para si outra vez. — É verdade — respondeu Han, com carinho. — Eu sempre acabo fazendo o que você quer. Mas você também faz o mesmo. — Annelise franziu o cenho em resposta, desconfiada, e ele continuou: — Você nem percebe, mas sempre faz o que eu quero também.
— Não fa...
— Sabe por quê? — continuou ele, antes que ela finalizasse, ao roçar o nariz no nariz dela. — Porque é o que você quer também — murmurou, contra os seus lábios, antes de selá-los em um beijo rápido.
Annelise beliscou seu braço rapidamente e ele resmungou, feliz, antes que ela se defendesse: — Mentira, mentiroso!
Ahanu, muito orgulhoso, deu de ombros e sugeriu: — Pensa um pouco e me diz se eu tô mentindo. — Ele observou-a, dançando junto dela mais lentamente do que a batida agitada permitia, para que pudessem conversar.
Anne pensou e todos os pedidos dele haviam sido atendidos, de fato, mas não no momento em que ele pediu, em outros momentos mais tarde. Ela negava, teimosa, mas sempre os cumpria no final das contas, assim como se negou a sair com ele a primeira vez e terminou em seus braços toda noite.
Annelise acabou fazendo um beiço emburrado, e ele riu, ainda a rodopiando em seus braços. — Pois a partir de agora eu não vou fazer nenhuma vontade sua — declarou, o cenho franzido.
— Mas e se o que eu quiser for algo que você goste também? — tentou ele, com um beijo, antes de prendê-la em seus braços de novo. — E se o que eu quiser seja algo que você queira tanto também? — murmurou, contra o ouvido dela, deslizando as mãos de baixo para cima nas costas dela. — Hum?
Annelise engoliu em seco, incomodada com a maneira que ela a fazia sentir, e afastou-se minimamente para ver os olhinhos pidões, como uma criança pedindo doce. Ela segurou o rosto dele com uma mão, fazendo os lábios formarem um biquinho, e resmungou: — Deixa de ser pervertido.
Ahanu, no mesmo instante, perdeu a carinha pidona para uma maliciosa, antes de beliscar a bunda dela rapidamente, da mesma forma como ela fez com ele, e Annelise soltou um arquejo surpreso.
— Você...
— Eu só quero fazer algumas perversidades com você, coisa pouca, e daí eu prometo que paro — barganhou, com um sorriso nada inocente. Quando Annelise estreitou os olhos para a possível mentira, ele acrescentou: — Por um dia. — Riu-se, mas Annelise não achou graça, sentindo as orelhas esquentarem. — Vai, por favor, deixa eu te levar pra casa hoje e fazer amor com você.
Annelise desviou o olhar para as pessoas ao redor, vendo se alguém ouvia, enquanto sentia o rosto pegar fogo pela sugestão pervertida.
— Para de falar essas coisas em público! — reclamou, sem jeito, de uma maneira grossa, mas Ahanu continuou ronronando ao abraçá-la, contra seu ouvido.
Ahanu insistiu, no ouvido dela, enquanto Annelise sentia a coluna inteira arrepiar instantaneamente. — Por favor, rainha, deixa eu te fo...
— Ahanu! — chamou, puxando o cabelo dele ao fechar sua mão nos fios para desgrudá-lo de seu pescoço. Ahanu não teve escolha com a cabeça sendo puxada para trás, a não ser olhar para o rosto envergonhado de Annelise, como gostava de ver, e sorriu largamente com satisfação. — Se você não parar com isso agora mesmo, eu vou embora sem você.
Ahanu sabia que era um privilégio ver a Annelise envergonhada, visto que ela raramente ficava envergonhada na vida, e para todos vivia falando palavrões e não tinha nada de papas na língua.
Ele assentiu, obediente, antes de dizer: — Mensagem recebida com sucesso.
Em seguida, roubou-lhe um beijo rápido quando ela soltou seu cabelo, aprofundando-o antes que ela protestasse. Ele cedeu e ela, em seguida, cedeu também, como sempre faziam. E a mensagem compreendida era justamente a ausência de uma negativa na fala dela, o que só podia significar o que ele já sabia: os dois teriam o que queriam um do outro.
Funcionava perfeitamente bem assim.
*
Depois que eles se demoraram na sessão de fotos em frente ao mural, todos os formandos juntos, eles comemoraram em um abraço em grupo.
No meio do abraço, MJ e Alex se entreolharam com uma careta, visto que eles não ligavam para nenhum dos outros formandos além deles próprios. Assim que puderam desfazer do abraço, eles afastaram-se um pouco e tiraram algumas fotos só dos dois, juntinhos, em frente ao mural.
Alex já ia se afastar, conversando com ela, quando MJ o puxou de volta e pediu que ele esperasse porque ela tinha algumas coisas para dizer. Alex fez uma careta de pavor e resmungou:
— Ah, porra, não vai me fazer chorar aqui — pediu, quando viu para onde aquilo iria, e MJ apenas empinou o queixo.
— Deixa eu falar — resmungou, dando um tapa no braço dele, irritadiça. — Eu preciso dizer isso hoje, não é? — insistiu, quando ele revirou os olhos. — Não vou ter outra oportunidade.
Alex hesitou, entendendo a que ela se referia, então suspirou e assentiu. — Hum? — resmungou, à contragosto, e Jane riu.
Ela fez um carinho rápido no rosto dele e Alex engoliu em seco.
— Tô muito orgulhosa de você — começou e ele mordeu os lábios, limitando-se a escutar. Jane sorriu. — Tô orgulhosa de nós, mas principalmente, tô orgulhosa de você. Eu acho que nunca torci tanto por alguém na minha vida.
Alex já começou a se emocionar bem ali, observando o sorriso alegre dela, os olhos começando a pinicar. Ele acabou rindo de nervoso, e ela também, os olhos marejando. Mary Jane segurou as duas mãos dele, em apoio, e eles apertaram as mãos um do outro.
— Pra mim e, bom, pra muita gente, se formar no colégio não é lá grande coisa — descartou, sincera. — Não é marcante ou, pelo menos, a gente não espera que seja. Mas eu te vi batalhar tanto pra conseguir esse diploma — disse ela, e a visão do Alex começou a ficar turva. — Eu te vi ficar tantas noites sem dormir, se esforçando com cada mínimo detalhe de cada trabalho, cada prova de cada matéria, como se sua vida dependesse disso. Hoje, Alex, eu tô comemorando mais por você do que por mim — admitiu, e ele riu, com ódio dela pelo discurso bonito, antes de soltar uma das mãos dela para limpar o rosto com rapidez.
— Eu te odeio — resmungou ele, limpando o rosto rapidamente, e ela riu também, limpando o próprio.
— Eu também te odeio, mas eu tô muito orgulhosa de você — defendeu ela, e Alex riu. — E me trouxe muita alegria fazer parte da sua jornada, te ver evoluir em tantos aspectos, te ver mais feliz, mais confortável na sua própria pele, mais livre. Me trouxe muita alegria poder ter sido tua amiga esse ano, como a gente nunca foi antes — apontou, pensando no mesmo que ele havia refletido naquele mesmo dia. Alex assentiu. — Eu desejo que você conquiste tudo o que você queira, Alex, não conheço ninguém que mereça mais. Você foi o melhor amigo que já tive até hoje, acho que o primeiro amigo de verdade, se ouso dizer — admitiu, com um dar de ombros. Alex já conhecia em detalhes sua jornada com algumas amizades tóxicas do passado e as más escolhas dela com relação ao único grupo de amigos que não foi tóxico, a panelinha, e que ela acabou abandonando. — Eu não esperava por isso, mas resulta que eu te amo muito e vou sempre estar aqui quando você precisar.
Alex limpou o rosto mais uma vez, ainda assentindo, porque concordava com tudo e desejava o melhor para ela também. Puxou-a para um abraço instantaneamente, que ela retribuiu, fungando. — Obrigado, Jane — agradeceu, de coração. — Eu te amo muito também, nem sei o que eu teria feito esse ano sem você do meu lado. Nem sei se eu teria me formado.
Durante os altos e baixos daquele ano, quando não tinha perspectiva do que faria no futuro e quando não queria estudar, bem quando, mais tarde, teve suas crises e ficou de coração partido com relação ao Caleb, com relação ao seu passado, com os pais, Jane esteve lá o tempo todo. Era ela que ajudava com os trabalhos, com as provas, com seus estudos em um geral. Era ela que mandava mensagem todo dia garantindo que ele estivesse bem e que estivesse estudando quando precisava, ela que puxava sua orelha para pausar o sofrimento para estudar e passar de ano. Nos dias em que ele faltava, era ela que mantinha um rascunho das aulas para ele, e era ela que estudava com ele, principalmente na reta finais dos exames.
MJ deu um tapa em seu ombro. — Teria, sim, bobão.
— Não sei e não quero saber — admitiu ele, sinceramente. — E eu te desejo em dobro, sempre. Você nem sabe o quanto... — Suspirou, apertando-a ainda mais. — Você não tem ideia do quanto me ajudou e me fez bem. — Afastou-se para olhar os olhos puxados e amáveis, colocando um fio dos longos cabelos para trás da sua orelha. — Você, MJ, foi o melhor imprevisto aleatório que podia ter me acontecido — resumiu, soltando um riso pela precisão do que falou, e encheu os olhos d'água novamente. — Eu nunca teria imaginado... — Impediu-se, quando ela começou a rir também, os olhos marejando como um reflexo dos seus. — Agora, para. Chega. Você conseguiu, me fez chorar, que ódio!
MJ acabou rindo e eles se afastaram, os dois tentando controlar as lágrimas enquanto Jane tentava limpar o rosto sem esfregar os olhos maquiados.
— Você não ia escapar da minha despedida, otário — resmungou, enquanto limpava o rosto, com um estalar de língua. — Tava pensando o quê?
Alex suspirou, balançando a cabeça de um lado ao outro. — Eu não sei o que eu tava pensando.
Os dois viraram em direção às meses e à pista de dança, abraçados um no outro, apenas observando ao redor enquanto se acalmavam. Alex pegou-se com os olhos presos no Caleb, que se encontrava na mesa com os amigos, conversando com a panelinha nova.
— Você ainda não contou pra ele? — perguntou MJ, abraçada nele, ao perceber onde estava sua atenção.
Alex negou, frustrado. — Não consegui.
— Alex...
Alex sabia o que ela diria, então antecipou-se: — É por isso que eu decidi ir embora hoje, sem ninguém saber, porque eu não consigo — defendeu-se, sem olhar para ela. — Eu... Eu não consigo, Jane. — Suspirou, pesadamente. — Passei anos pensando em como me despedir dele, em como me despedir do Ian também, mas eu simplesmente não consigo. Eu... — Engoliu em seco, voltando a olhar para o rosto preocupado do Caleb ao longe, como se ele não conseguisse tirar aquela ruga entre as sobrancelhas nos últimos tempos, temendo o inevitável. E, ainda assim, não conseguia contar. — Não é como se eu fosse viajar por um par de semanas e voltar logo. Mudar de cidade é algo grandioso, sim, eu perdi contato com todo mundo em MC quando eu vim pra cá. Mesmo com a internet, mesmo em pleno século vinte e um e com toda essa tecnologia. As pessoas mudam, e elas se afastam, e elas perdem contato. Elas seguem em frente. E....
MJ beliscou-o rapidamente, com uma careta de zangada. — Ai de você.
Alex riu, fracamente, abraçando-a com mais força. — Eu sei, mas...
— Todo mundo em MC não é o mesmo todo mundo de HF, Alex — defendeu Jane, franzindo o cenho. — O todo mundo daqui é o seu todo mundo.
Alex assentiu.
— Eu sei — admitiu. — Eu sei que é diferente e sei que eu não vou conseguir sumir da vida de vocês porque não suporto a ideia de vocês sumindo da minha. Mas... — Ele ousou olhar para ela, e ela devolveu o olhar preocupado. — E depois de um ano? E depois de três anos? — perguntou, sem esperar uma resposta, e Jane não deu sinal de que daria, de qualquer forma. — Quando eu vim pra cá, a minha decisão de voltar pra MC quando eu me formasse não era um plano sem volta, mesmo que eu dissesse que sim. Eu tinha planos de ir mas de voltar correndo quando meus pais me chamassem porque, nessa ideia fantasiosa, eles me chamavam — resmungou, com vergonha por haver sequer cogitado isso. — E agora... Agora, eu não tenho um lar pra onde voltar, então eu vou encontrar um lar próprio. É um plano sem volta. Eu... Eu não me vejo voltando, MJ, sabe? — admitiu, e ela franziu o cenho. — Eu ainda não consigo ver isso, e eu não vejo ele... Eles...
— Você não vê o Caleb indo com você também? — deduziu ela, diretamente na ferida, tanto que Alex ficou sem palavras por um tempo.
Ele desviou o olhar para longe, para onde Caleb estava, e suspirou.
— Ele não tem que ir a lugar algum — murmurou, baixinho. — Especialmente não atrás de um merda como eu.
— Ei! — reclamou MJ, desvencilhando-se dele para dar outro tapa em seu braço, chateada.
Alex ignorou-a ao continuar: — Caleb não tem que me seguir a lugar algum. Ele tem que ser feliz onde ele quiser, tem que estudar e se encontrar, e ir atrás da liberdade dele. E... — Suspirou, abrindo os braços. — Sinceramente, eu acho que a liberdade dele tá aqui, nessa cidade ou em uma cidade parecida com essa, onde ele tenha conforto. Eu não consigo imaginar o Caleb solto no mundo, a liberdade dele é diferente da minha — defendeu, porque realmente passou muito tempo pensando nisso. — Eu... Eu não vou fazer com ele o que o Dean fez comigo, MJ, eu não vou prendê-lo a mim. Eu não vou mesmo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Jane estalou a língua, mas uma faceta piedosa tomou conta dela, e ela levou uma mão ao braço dele. — Eu admiro isso, Alex, mas... — Negou, como se não houvesse volta atrás. — Eu acho que ele já tá preso a você, quer você queira ou não.
Alex negou, teimosamente, de um lado ao outro.
— Você tá errada — afirmou, duro. — Ele ainda tem uma chance.
Jane arqueou as sobrancelhas, piscando.
— Uma chance de quê? De não fazer parte da sua vida? — deduziu, e Alex olhou para longe. — Você tem que parar de pensar esse tipo de coisa, que de alguma forma você não é o suficiente pra...
— Não é só isso, MJ — interrompeu ele, suspirando. — É que... Eu quero que ele seja livre também.
Jane resmunga, levando as duas mãos para a cintura. — Fazer parte da sua vida não impede que ele seja livre também, Alex.
Alex estalou a língua, teimoso. — Você tá errada.
— Você é que tá — reclamou ela, em resposta, observando a maneira como ele o observava de longe. Suspirou, sabendo que teimosia dessas era difícil de quebrar, e também olhou para o Caleb, analisando a situação. — E mesmo que não esteja... — decidiu acrescentar, depois de uns minutos, chamando atenção dele. — Se você for embora sem se despedir, ele não vai te perdoar nunca.
Os olhos do Alex tornaram-se melancólicos instantaneamente, e ele fez uma careta de choro e de negação parecida a de uma criança prestes a tomar uma injeção.
— Eu não consigo, Jane...
Jane firmou o olhar no dele, fazendo o papel em questão de uma mãe, porque a injeção, no caso, era necessária. Com seriedade e um tanto de carinho, olhou bem para ele e aconselhou.
— Você tá perdendo muito tempo pensando no tempo que vai perder com ele — murmurou, apontando para o Caleb. — Aproveita o tempo que tem. Vai lá — incentivou. — Despedidas nem sempre são palavras de adeus, sabia?
Alex, por um tempo, relutou para aceitar o que ela dizia. Então os dois ficaram abraçados, lado a lado, apenas observando os mais novos ao longe.
Caleb estava sentado na mesa com os demais, prestando atenção em algo que Bex dizia, Dan e Grace faziam o mesmo, os três ouvindo alguma história de Bex, em uma pausa das danças. Korn e Ian conversavam ao lado, embora Alex tenha percebido que Ian ficava desviando a atenção para a Grace o tempo todo.
Mason e Cristina estavam em pé um pouco longe deles, em uma conversa que parecia particular demais para uma festa.
— Eu não entendi.
Cristina olhou bem para ele, olhos verdes nos azuis, antes de insistir: — Maze, eu já repeti cinquenta vezes: eu preciso de um tempo.
Mason ergueu os óculos com a ponta do dedo indicador, balançando a cabeça de um lado ao outro, piscando sem parar. — Eu ainda não entendi.
Cristina suspirou, tentando outra vez:
— Eu preciso de um...
— Isso eu entendi — garantiu Mason, começando a ficar nervoso, as mãos começando a suar. Então ele engatou: — Eu só não tô compreendendo o que isso quer dizer, porque não faz sentido nenhum na minha cabeça. Você tem todo o tempo do mundo, todo mundo tem, então como é que pode que você precise de um tempo de mim? Termos todo o tempo do mundo significa que temos todo o tempo do mundo para passarmos juntos, então como é possível que você queira um tempo contrário disso, sendo que seria menos tempo ao invés de mais tempo? — Fez uma pequena pausa para respirar, em pânico, antes de finalizar, um tanto desesperado: — Eu simplesmente não consigo entender, o meu processador interno está em pane, Cris, por favor.
No entanto, quando percebeu que ele havia mencionado exatamente o que ela queria, Cristina assentiu positivamente. Inclusive, acrescentou, com a voz tranquila: — É exatamente isso: eu preciso de menos tempo com você.
Mason abriu e fechou a boca algumas vezes, um tanto chocado, quando uma ideia aterradora tomou conta da sua mente. Tentou não deixar a voz tremer quando perguntou, em um murmúrio assombrado: — Você tá terminando comigo?
Cristina franziu o cenho e, novamente com calmaria, negou. — Não — disse, apenas, dando de ombros. — Eu tô pedindo um tempo, como já repeti cinquenta e uma vezes.
— Um tempo? — perguntou ele, debilmente.
— Um tempo, Mason! — exclamou Cris, começando a perder a paciência.
Mason observou, o processador ainda em pane, embora agora se permitisse o mínimo de alívio quando ela havia negado, sua namorada. Suas sardas não estavam tão visíveis com a maquiagem da noite, apesar de ser leve no rosto, apenas um tanto pesadas nos olhos. O nariz empinadinho era um charme no rosto de coração, e os lindos cabelos de fogo, uma vez curtos, agora se estendiam soltos até as costas dela. A franja, de quando a conheceu, havia crescido tanto que emoldurava o rosto dela abaixo da mandíbula.
Naquela noite, Cris havia optado pelas lentes de contato que usava vez ou outra em ocasiões especiais, e elas ofuscavam um pouco a cor verde límpida, quase azul, de seus olhos.
Mason engoliu em seco, pensando que ele não poderia perder o que de mais precioso havia aparecido em sua vida.
— Mas um tempo é quando as pessoas terminam por um tempo — apontou, cabisbaixo, antes que ela negasse mais uma vez.
— Eu não tô pedindo esse tipo de tempo — apontou Cris, franzindo o cenho — e mesmo que fosse, não significa um término "por um tempo", isso tá errado.
Mason suspirou, frustrado, ainda sem entender.
— Que tipo de tempo você tá pedindo, Cris?
Cristina suspirou, colocando as mãos na cintura larga, em frustração também. Ela pensou por um tempo, enquanto Mason se distraía do que ela falava para o vestido preto que emoldurava cada curva perfeita do corpo dela, uma visão rara para quem geralmente usava roupas largas e estampadas de jogos.
— Um tempo pra mim, Mason, um tempo sem você — optou por dizer, pensativa, sem realmente saber como explicar. — Não tô falando de semanas ou meses sem te ver ou falar com você, eu tô falando de uma redução diária, semanal, do nosso tempo juntos.
Mason continuou com o cenho franzido. — Eu acho que eu entendi, mas eu não entendi.
Cristina bufou, impaciente.
— Como é que você pode entender mas não entender, Mason?!
— Eu... Eu...
Mason suspirou, deixando os ombros caírem, desanimado.
— Eu entendi o que você quis dizer mas eu não entendi o motivo — explicou, simplesmente, e Cristina demorou o olhar no dele.
Uma música lenta começou a tocar de fundo e ela acabou olhando ao redor antes de voltar os olhos para o namorado amuado à sua frente. Os fios agora longos de Mason haviam ficado um charme nele, os óculos velhos por serem trocados ainda pareciam fazer parte de seu rosto, e os olhos lindamente azuis eram como janelas da sua alma.
Cristina estendeu a mão a ele. — Mason, você me concede essa dança?
Mason arqueou as sobrancelhas, os olhos azuis alargando-se por detrás dos óculos. — Tá brincando?
Cristina franziu o cenho, sem entender. — Não. — Em seguida, pegou sua mão e o guiou até a pista de dança. — Vem logo.
— Tá bom — resmungou ele, sem entender, empurrando os óculos para cima.
Em seguida, ela o pegou firmemente pelos ombros e guiou as mãos trêmulas de Mason para a sua cintura, e começaram a mover-se no ritmo lento da dança, sem ligar para os demais à sua volta. Mason levou um tempo para tentar não pisar nos pés dela, concentradíssimo naquela dança como se a música fosse um inimigo capaz de matá-lo ali mesmo, e Cristina apenas o observou, calculando as palavras de uma maneira que o cérebro avançado do seu namorado entendesse.
— Eu entendo o que fez seu processador falhar, Maze, mas você não precisa se preocupar — garantiu, a voz baixa, enquanto o guiava. — Isso não tem a nada a ver com nós, tem a ver comigo. Eu percebi que eu não preciso estar sempre com você ou com alguém, eu posso estar sozinha e ter amigos.
Mason piscou, finalmente tirando os olhos dos próprios pés e erguendo-os para a Cris, e uniu as sobrancelhas. — Você tá falando da Grace?
Cristina torceu o nariz, estalando a língua.
— Não sei por que tá mencionando essa chata.
Mason piscou, sem entender. — Mas que outro amigo você tem?
Cristina piscou, desconfortável, porque na verdade sua única amiga próxima realmente era a Grace. Todos os demais da panelinha também, é claro, mas nunca havia sido próxima de ninguém além do Mason e, agora, da Grace também. Mas tinha um pouco de dignidade ainda para não admitir isso em voz alta.
— Esse não é o ponto — divergiu, pigarreando. — O ponto é que eu preciso... — Suspirou, irritada com a situação desconfortável. — Eu vou gostar de ficar um pouco sozinha ou com meus amigos.
Mason ainda parecia confuso.
— Quando você diz "amigos", você...
— Sim, Maze, deixa passar — resmungou ela, olhando para longe.
Não só Grace era sua única amiga, como também havia sido ela, com todo aquele papo feminista e de empoderamento feminino, e de que elas não precisavam de homem nenhum, que fez Cristina perceber que ela mal se conhecia. O mundo inteiro dela se resumia à tela do seu computador, ao seu namorado, e à imagem da filha e irmã perfeita que havia criado para os pais.
No fundo, a maior parte do tempo, sentia-se um robô. Fazia o precisava sem pensar e repensar nada, tentava chamar um pouco a atenção dos pais, mas também não ia muito longe com isso porque precisava ser responsável para a sua irmãzinha. No fim, acabou tornando-se um robô: cuidava da irmã como podia, como uma segunda mãe distante, arrumava ela para a escola, cobrava o horário de dormir, xingava Catalina quando ela ficava manhosa. No pessoal, ia para o colégio e o resto do tempo, quando não estava com Maze, ficava enfiada no computador com ditos "amigos" online que não eram amigos de verdade, e antes costumava a sair com alguns deles para fumarem e beberem como bem entendiam, como uma fuga da realidade que não mais funcionava.
No fim, tudo o que Cristina fazia no automático, começava a falhar ultimamente, a começar com seus estudos. Viver no automático já não era o suficiente, havia tapado tanto buraco com a peneira que uma hora tudo começou a transbordar. E agora nem sabia mais qual o propósito do que fazia, se alguma coisa fazia sentido ou se valia a pena sequer tentar. Sair com a Grace um pouco fez com que Cristina percebesse que todos esses escapes de realidade envolviam estar tudo, menos sozinha, porque ainda que estivesse fechada em um quarto no computador, estava conversando com várias pessoas ao redor do mundo. E talvez fosse disso mesmo que ela precisava, estar sozinha, ainda que isso a assustasse.
— Mas eu... Esse tempo... Eu... Você...
Cristina levou uma mão ao rosto de Mason e fez carinho, de tal forma que o calou instantaneamente, e pensou que deveria deixar algumas coisas elucidadas.
— Você é minha alma gêmea, Mason, você foi feito pra mim e eu, pra você — declarou, séria e sincera, observando os olhos azuis expandirem um tanto com o que ouvia ao passo que as bochecas começavam a corar. — Eu te escolhi a dedo logo no início e vou seguir escolhendo você sempre, porque não existe ninguém mais perfeito nesse mundo pra mim.
Não queria pensar muito nisso, porque odiava pensar em coisas que a deixavam emotiva, mas Mason havia salvado sua vida em alguns aspectos e havia sido, sim, sua melhor escolha da vida.
— Você não precisa se preocupar — continuou, pigarreando, porque não sabia como dizer algo a mais que não tornasse o momento constrangedor. — Eu sei que não sou romântica, nenhum de nós é, mas você foi e segue sendo minha escolha a dedo. É você e eu, pra toda vida, eu sei que é.
Mason, em choque durante todo o tempo, apenas assentiu no automático e não conseguiu falar muita coisa por um tempo. Cristina piscou e franziu o cenho, não gostando do sentimentalismo que pairava entre os dois, e olhou para longe enquanto Maze se recuperava. O rosto inteiro estava queimando, feito um pimentão, e suas mãos suavam mais do que nunca.
— Muito bem então — conseguiu dizer, depois de um tempo, ainda assentindo sem parar. — Não vou atrapalhar seu tempo sozinha de jeito nenhum, mesmo que... Eu... — No entanto, ele mordeu o lábio inferior, a cabeça ainda pairando e retornando à tudo o que ela havia dito, focando em algo específico que havia deixado-o tocado: — Você me escolheu a dedo?
Cristina assentiu, voltando os olhos para ele, com uma cara de paisagem. — Sim.
Mason assentiu, tentando não deixar transparecer que aquilo havia sido a declaração mais linda do mundo, e apenas murmurou: — Você nunca me disse nada assim antes.
Cristina franziu o cenho, novamente olhando para longe, ao resmungar: — Não houve necessidade.
Mason engoliu em seco, levando uma das mãos trêmulas para empurrar novamente o óculos, nervoso, antes de assentir. Decidiu que deveria, no mínimo, devolver a declaração da melhor forma que podia, ainda que sentisse que Cristina o interromperia na metade dela para dizer que não era necessário, mas já que haviam ultrapassado essa linha, ela a ultrapassaria com gosto.
— Você é perfeição em sua mais pura forma — declarou, e Cristina voltou os olhos para ele, as sobrancelhas arqueadas, ao piscar. — Eu não escolhi você a dedo, Cristina, porque nunca houve outra escolha sequer. Eu nunca fui opção de ninguém e ainda não consigo acreditar que você tenha me escolhido, mas vou passar o resto dos meus dias fazendo de tudo para ter sido a escolha certa — prometeu, sem hesitar, enquanto via as faces dela colorirem-se levemente. — E mesmo que você quisesse outro tipo de tempo, eu te esperaria sempre. Eu esperaria por você minha vida inteira. Sou completamente seu.
Cristina também tinha os olhos levemente alargados, embora ainda se mantivesse em seriedade, piscando algumas vezes para digerir a informação. Ao contrário do que Mason pensou, ela não o interrompeu e ouviu atentamente até o final, então quando o silêncio perdurou, Mason decidiu que valia uma explicação.
— Achei que... — Pigarreou, desconfortável. — Já que estamos falando coisas que nunca houve necessidade de falar antes... Bom.
Cristina assentiu, saindo do transe, ainda olhando-o com hesitação.
— Muito bem... então — murmurou, envergonhada, olhando para longe.
Mason assentiu, olhando para o outro lado, enquanto apertava ainda mais a cintura dela. — Muito bem.
Os dois acabaram abraçando-se ao mover-se lenta e desajeitadamente no ritmo da música lenta, colando-se um pouco mais um no outro, dançando de uma maneira quase íntima, sem dizer mais nenhuma palavra.
De fato, palavra alguma foi necessária depois da espontânea e aleatória declaração de amor mútua.
A festa de formatura havia sido minada de músicas festivas de fato, dançantes e alegres, e aquela havia sido a primeira música lenta que ousaram tocar. Vários casais abraçaram-se na pista de dança, Mason e Cristina provavelmente haviam sido os mais improváveis de dançar uma música lenta em uma festa, mas eles não foram o único casal a surpreender.
A música que os dois dançaram enquanto entravam em um acordo sobre privacidade e tempo próprio, ao mesmo tempo em que apreciavam o próprio amor, foi a mesma música que seus amigos dançaram.
Alex havia enrolado para ir até o Caleb, depois da insistência de Mary Jane, e quando a melodia tomou conta do ginásio, ele não pôde esperar um minuto mais. Deslocou-se, sem perceber, entre a multidão. Parou em frente ao seu melhor amigo, seu porto seguro, seu amor, e ajoelhou-se sobre uma perna de frente para ele, estendendo a mão.
Caleb piscou, olhando ao redor, antes de voltar os olhos ao Alex. Ele estava sentado na mesa com os demais amigos, que pararam a conversa ao ver que Alex aproximou-se com seriedade — algo incomum, ainda mais naquele dia — e havia parado com um sorriso afável para o Caleb, praticamente atirado aos seus pés.
— Dança comigo? — pediu, vendo Caleb piscar em confusão.
Caleb pareceu conflitado ao encarar as orbes escuras, as próprias bolas de gude verdes alargando-se em contrareidade, piscando sem parar. Em seguida, ele olhou para os demais, que apenas desviaram os olhos uns para os outros na tentativa de respeitar, mas as caras que faziam eram dificilmente disfarces do que estavam pensando.
O único que manteve a atenção neles foi o outro Cunningham, aquele que recém parecia vê-los com outros olhos, e ele os parecia ler com precisão naquele momento.
Caleb voltou os olhos para o Alex, que seguia esperando, as sobrancelhas arqueadas.
— Eu não sei dançar, Alex — murmurou Caleb, franzindo o cenho.
Alex piscou, como se nada houvesse ouvido, e sorriu ainda mais.
— Dança comigo? — repetiu, e Caleb franziu ainda mais o cenho.
— Não. Eu não danço. — Em seguida, piscou, vendo que a expressão do Alex seguia a mesma, e aquilo estava desconcertando-o. — Eu não sei...
Alex desviou os olhos apenas para as mãos retorcidas em nervosismo do Caleb e usou sua mão estendida para pegar uma das mãos dele. Ele as entrelaçou rapidamente e usou a outra mão para fazer carinho em cima dela. Em seguida, ergueu os olhos negros outra vez, e repetiu, com ainda mais ternura: — Caleb, dança comigo?
Caleb engoliu em seco, sentindo que estava sendo engolido pelas orbes escuras e que não havia nada no mundo que pudesse fazer a não ser entregar tudo o que ele queria.
Ele baixou os olhos para as mãos unidas e assentiu, murmurando baixinho: — Tá bom.
Alex sorriu, conquistado, e ergueu-se sem soltar a mão do Caleb, antes de puxá-lo levemente para que levantasse. Em seguida, com as mãos entrelaçadas, no silêncio gritante dos amigos — que não ousaram dizer uma única palavra para não atrapalhar, apenas observando -, Alex guiou Caleb até o meio da pista, tão alheios ao redor que sequer perceberam que dois dos seus amigos também dançavam juntinhos.
Caleb ficou todo errado com a situação, o corpo retesado e duro, sem sequer saber como mover-se direito. Não era mentira quando dizia que não sabia dançar, era algo que simplesmente não vinha naturalmente para ele, ainda mais se estavam referindo-se a uma música lenta.
Alex passou a mão em torno de sua cintura e chegou mais próximo dele, guiando-o para que movesse o corpo de um lado para outro, devagar, sem precisarem sequer sair do lugar.
— É uma música lenta — apontou, baixinho, próximo ao seu ouvido, com calmaria —, ninguém realmente sabe dançar. A gente só se mexe de um lado pro outro assim.
Apesar da voz tranquilizante, no entanto, Caleb conseguia perceber que as mãos que tocavam sua cintura e a outra que seguia entrelaçada na sua estavam trêmulas. Caleb tentou concentrar-se em apenas mover o corpo de um lado ao outro, mas não conseguiu, distraído com todo o restante que envolvia o Alex, especialmente a mão entrelaçada a sua que a apertava mas ainda assim tremia.
— Você tá tremendo — apontou Caleb, quando as mãos unidas vacilaram pelo nervosismo do Alex.
Alex soltou um riso nervoso, desconfortável, sem afastar-se, sua bochecha esquerda encostando na bochecha esquerda do Caleb, dançando devagar.
— Eu nunca dancei música lenta antes — admitiu ele, sem jeito. Caleb fez menção de afastar o rosto para conseguir olhar para ele, mas a mão que estava em torno dele o apertou para mantê-lo bem ali. — Mas essa música começou a tocar e me fez pensar que eu tenho pouco tempo para "nós" — murmurou, baixinho, e Caleb engoliu em seco —, pouco tempo pra estar sozinho com você, pouco tempo pra deixar algumas memórias boas antes de partir.
Caleb sentiu o coração encolher em algum lugar do peito, odiando a escolha de palavras do Alex, querendo sacudi-lo para que algo mais animador saísse de seus lábios. Limitou-se a unir as sobrancelhas em desaprovação e resmungar algo.
— Não diga coisas...
— Até que eu volte — interrompeu, ainda com a voz em calmaria —, eu quero que você lembre de momentos assim.
Em seguida, Alex afastou-se o suficiente apenas para fazer Caleb girar no próprio eixo, desajeitadamente, sem questionar, para logo voltar aos seus braços novamente. A execução havia sido estabanada, mas ainda assim Alex pensou que havia sido perfeito pelo simples fato do Caleb sequer ter tido tempo de reagir com algo além de mover-se do jeito que ele queria.
Alex sorriu alegremente quando o trouxe de volta para os seus braços, vendo que Caleb piscava atordoadamente, segurando-se firme em seu braço. Caleb sequer ousou olhar para ele e, quando a respiração começou a ficar descompassada e sua visão enturvar, ele prendeu a respiração. Havia sido uma boa ideia porque o riso baixo de júbilo do Alex, perto do seu ouvido, podia ser capaz de fazê-lo desmaiar ali mesmo caso não houvesse prendido a respiração.
Caleb segurou-se nele, tentando manter o coração no lugar, enquanto era movido de um lado para o outro com o Alex, de tal maneira que a dança começou a parecer natural.
Quando voltou a respirar descompassadamente, apertou-o um pouco mais. — Alex...
Alex apertou a mão na sua instantaneamente e Caleb calou-se. Alex roçou o rosto no dele, soltando um suspiro baixinho e, tão baixo quanto, murmurou próximo ao seu ouvido: — Eu ouvi essa música e pensei que quero dançar lento com você.
Caleb sentiu o coração reacender como se inflamasse em fogo, de uma vida inimaginável, e algo cruzou pela sua cabeça: nunca pensei que algo pudesse ser tão bom e tão dolorido ao mesmo tempo. Sentiu os olhos marejarem, como se pressentisse que algo estava por vir, e se deixou ser guiado nos braços dele pelos segundos restantes da canção.
Caleb, no fundo, queria perguntar ao Alex o que aquilo queria dizer — se era uma declaração de amor tanto quanto pareceu, se era tão puro quanto faz sentir em seu peito. Queria perguntar o porquê dele escolher aquele momento, naquele dia, para criar um momento destes de despedida — se ele iria embora naquela semana mesmo ou até o final do mês, e sequer passaria as férias ali, ou se era apenas porque aquela era uma reunião de despedida com as duas panelinhas. Queria saber o que ele quis dizer com “até que eu volte” — se ele estava implicando que não o visitaria mesmo que houvesse prometido e que a despedida seria por um longo tempo, como era o plano inicial. Queria perguntar se ele quis dizer que, por mais que passasse tanto tempo longe, ainda retornaria — e não apenas para a cidade, mas para os seus braços.
Queria saber se aquilo era uma promessa ou uma possibilidade de uma promessa futura.
Seus pensamentos também divergiam dali, em um limbo de projeções pessoais aterradoras, sua criatividade voando sem sua permissão. Caleb queria perguntar, também, se aquilo tinha um sentido contrário à todas as possibilidades bonitas. Queria entender se era apenas uma despedida de promessas não cumpridas: se dançar lento com ele e dizer coisas que faziam seu coração vibrar para logo abrir uma possibilidade de retorno fosse apenas uma maneira de presenteá-lo uma lembrança agradável antes de ir embora com pedaço do seu coração já apagado.
Ele ponderou muito, mas não conseguiu nem quis verbalizar nada.
Caleb apenas dançou lento com Alex, tão envolto com ele que sequer percebeu, em momento algum durante toda a canção, que não existiam apenas os dois e aquela música no mundo. Ele apenas aproveitou o momento como pôde, porque independentemente da resposta para as suas perguntas, havia algo que não precisava questionar, pois já sabia: aquele momento era único em um espaço-tempo e jamais se repetiria outra vez, e ele iria querer lembrar disso assim, com todos os detalhes, sem o caos mental atrapalhando o que via, sentia e vivia.
Eles dançaram lento, como se não houvesse nada mais importante no mundo do que seu pequeno e localizado universo. Alex segurou-o em seus braços como se ele fosse a coisa mais preciosa do mundo e, naquele momento, sem perceber, Caleb acreditou.
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