Made of Fire
9 VIII - Estudos indicam que Will causa arritmia cardíaca
Notas iniciais
Acompanhei Will com o olhar até que ele alcançasse os amigos. Gabriel e Louis conversavam descontraidamente, enquanto que Laurel me olhava com desconfiança. Uma garota japonesa que não reconheci me encarava com curiosidade. Trocaram algumas palavras entre si rapidamente antes de se retirarem do local.
Quando Will já não estava mais à vista, virei o rosto para meu amigo, que me encarava com uma sobrancelha arqueada.
— O quê? — perguntei, subitamente nervoso.
Jay havia reclamado pelo o que pareceu horas sobre precisar de ar fresco. Incomodou-me tanto que me vi obrigado a sair com ele pela cidade às oito horas da noite em um dia de semana. Caminhamos por um tempo conversando até que o cartaz de sorvetes iluminou-se no campo de visão do meu amigo. Não teve jeito a não ser entrar na lanchonete. A última coisa que eu esperava é que Will estaria ali também.
O cheiro de comida do local já estava me deixando enjoado, e o burburinho de conversas fazia minha cabeça latejar. Porém, era o olhar de Jay que me deixava desconfortável. Após me encarar por mais uns segundos, ele simplesmente balançou a cabeça com um muxoxo.
— Você está seriamente encrencado, cara — disse ele, dando-me as costas para caminhar até uma das mesas da lanchonete.
— Do que você está falando? — perguntei ao ir atrás, sentando na cadeira ao seu lado.
Não sabia por que estávamos sentando no local, já que o único motivo de havermos parado ali estava na mão de Jay. O maldito milkshake misto. Porém, a única coisa que me importava no momento era o que Jay diria. Me limitei a encará-lo com as sobrancelhas erguidas.
Eu sabia exatamente do que ele estava falando, afinal, o Will não é a pessoa mais discreta do mundo. E hoje particularmente, sutileza não era algo com o qual ele estava se importando. Mas talvez eu não estivesse pronto para ouvir isto de alguém, principalmente de Jay.
Franzi o cenho, mesmo assim, esperando uma resposta.
— Rich — começou ele, me olhando nos olhos —, você não pode ser tão ingênuo! Dava para ver de longe seu aluno te comer com os olhos — continuou —, e você deixar! — acrescentou, meio incrédulo.
Arregalei os olhos, sentindo o sangue subir para o meu rosto.
Tudo bem que o Will fora muito óbvio, mas "me comer com os olhos" é um exagero! Sem falar que eu não estava deixando ele fazer nada. Que tipo de profissional ele acha que eu sou? Eu não seria capaz de me aproveitar de alunos desta forma, nem aqui nem na China!
— É claro que não! — exclamei, na defensiva. — Eu não estava deixando nada. E o Will não estava... — Parei para olhar ao redor e falar mais baixo em seguida: — Ele não estava me comendo com os olhos! Tá maluco? — perguntei, vendo seu olhar descrente. — Esse é apenas o jeito dele, ele já pegou mania de ser assim...
Mesmo que Jay estivesse certo, o que eu deveria fazer, brigar com Will? Tratá-lo de forma cruel? Isto certamente estava fora de cogitação, já que eu sou incapaz de tratá-lo de tal maneira. E eu tampouco sou responsável pelo garoto para estar julgando suas ações.
— Ah, claro, Rich! E eu sou o Papai Noel! — falou com deboche, soltando uma risada. — Richard, se liga! — Deu-me um peteleco na cabeça, fazendo-me matá-lo com o olhar. — O cara te chamou de Turner! Você é tão rabugento que eu duvido que os seus alunos te chamem de qualquer coisa fora da formalidade! Eu sei que você não é acostumado com alunos gostando de você — disse ele, com uma careta —, seja da maneira que for. Mas não é possível que você não perceba...
Sua voz foi baixando no final da frase, Jay tinha o semblante contemplativo ao me encarar com concentração. Analisou-me um pouco até o momento em que seus olhos castanhos quase saíram das órbitas e sua boca abriu, exalando surpresa.
O que diabos acabou de passar pela mente transtornada agora?
— Você... — começou, cauteloso, ao inclinar-se em minha direção. — Rich, você está gostando desse rapaz? — perguntou, os olhos castanhos fixos em mim.
— O quê? — exclamei, alto demais, rápido demais. — Se eu estou... — Bufei, perdendo o que restava da paciência. — Jay, você está ficando maluco de vez? Will não está dando em cima de mim e eu não gosto dele! De onde você está tirando essas ideias? Foi só uma conversa, pelo amor de deus! Deixa de ser paranoico — falei com irritação, olhando para tudo que era lado, menos para ele.
Jay devia parar de fumar maconha, estava infestando o cérebro dele com a fumaça.
Quando o silêncio se tornou incômodo, voltei os olhos ao rapaz que tinha na pele resquícios de tinta ao meu lado. Jay, com os olhos estreitos, me analisava com tamanha precisão quanto analisava seus quadros após pintá-los: procurando erros. Como se fosse possível, fiquei ainda mais furioso e lhe devolvi o olhar com uma cara assassina.
— Rich... — começou ele, mas logo fechou a boca.
Fez algo, então, que me deixou com muita vontade de socá-lo na cara. Riu. Alto.
— Do que diabos você está rindo? — perguntei, lhe lançando o que esperava ser um olhar mortal. — Isso é muito sério, Jay — avisei, irritado. — Qual é a graça?
— A graça? — perguntou ele, com a mão na barriga. — Meu deus, Rich! A graça é que sim, isso realmente é sério, e é tudo verdade! Acredite se quiser, a sua reação me confirmou completamente. — Riu mais um pouco. — Cara, eu ia dar o braço a torcer se você não tivesse ficado tão irritado e da cor de um tomate! — Fez uma pausa, dando mais uma gargalhada. — E não adianta me olhar com essa cara, eu não sou seu aluno e você não me assusta — disse, sorrindo largamente.
Me limitei a revirar os olhos e encarar o outro lado da lanchonete, ignorando os olhares curiosos dos fregueses para meu amigo escandaloso. Eu não sei como eu conseguia conviver tanto tempo com essa criatura, sinceramente.
— Rich — chamou ele, a voz subitamente carinhosa —, você gosta desse rapaz.
— É claro que gosto do Will, assim como gosto de todos os meus alunos — elucidei, acrescentando um "quase todos" mentalmente. — Eu vou embora, Jay. Fala comigo quando recobrar a consciência! — Levantei-me.
— Eu digo o mesmo — respondeu, tomando mais um gole do milkshake enquanto cruzava as pernas devagar. Em seguida, estalou um beijo no ar para mim.
Virei as costas furioso e saí pela porta pisando duro em direção à rua. Caminhei com velocidade pelas quadras movimentadas, em direção ao meu apartamento.
Se o William realmente está flertando comigo por motivos puramente hormonais, isso não quer dizer que eu vá retribuir suas intenções. Muito menos que ele esteja esperando por isso. Eu sou seu professor, afinal. É muito provável que ele só esteja brincando com o fogo. O desafio e o perigo de certas situações são coisas que atraem algumas pessoas como um ímã, deixando-as inconscientes de seus atos. Eu mesmo já passei por algo assim.
Posso desencorajá-lo como já fiz com algumas alunas, mas não cabe à mim dizer-lhe o que é certo ou errado. Will pode ser jovem, mas tem idade o suficiente para saber se virar sozinho e fazer as próprias escolhas.
Virei a última quadra, avistando o prédio branco com detalhes em negro. Deixei o ar entrar e sair de meus pulmões devagar, antes de chegar na portaria já tão familiar aos meus olhos. Entrei rapidamente, acenando para o senhor de meia idade que passava o dia inteiro atrás de um balcão. Caminhei em direção aos elevadores, apertando o botão do quarto andar.
Não pude evitar bufar mais uma vez.
Não, o Jay só pode ter cheirado alguma coisa para achar que eu poderia me envolver com um aluno. Ou que eu quisesse!
*
Pelos próximos dias, evitei ao máximo ficar perto de Will. Ou de Jay. Não que tenha adiantado de alguma coisa, afinal, Jay praticamente mora no meu apartamento e Will praticamente mora no meu local de trabalho.
Levantei alguns minutos depois de ouvir o despertador tocar. Tomei um banho rápido, me vesti e dirigi-me para a sala mal iluminada do apartamento, de onde Jay me olhava com olhos inchados e os cabelos em uma confusão. Deu de ombros ao encarar minha expressão interrogativa.
— Hoje tem uma exibição de fotografias na galeria — disse ele, a voz rouca. — Meu chefe pediu que eu chegasse bem cedo — completou, revirando os olhos.
Se havia alguém no mundo que não nasceu para acordar cedo, esse alguém era o Jay. Ri ao me dirigir à cozinha para preparar alguma coisa para comermos. Jay me observou em silêncio. Em parte por causa do sono, em parte porque me observar em silêncio têm sido algo constante para ele nos últimos dias. A princípio, ele quis saber mais sobre o Will e há quanto tempo estava ocorrendo "a situação", como ele dizia. Logo percebeu que isso só me deixaria mais irritado e passou à observação contínua.
Eu não entendia o porquê de ele achar tão impressionante que um aluno tenha resolvido dar em cima de mim. Ele sabia que isso já havia acontecido antes, porque eu o havia contado. Se era normal ocorrer isso com alunas, era normal com alunos também. Mas o que Jay estava pensando, que eu gostava de Will simplesmente por não haver brigado com ele em público por me olhar daquele jeito?
Olhei-o de relance, apoiado na arquibancada da cozinha, já arrumado para o trabalho. Devia estar com tanto sono que não percebeu que vestiu a camiseta do avesso. Voltei os olhos para a torradeira.
Era incrível a teimosia de Jay. Ele queria conversar sobre isso, mas não se atrevia a abrir a boca. Parecia querer me dar um tempo para pensar, como se eu estivesse em negação ou algo assim. Eu que me permiti revirar os olhos desta vez. Uma hora o silêncio dele acabaria. Jay, transparente da forma como é, não iria conseguir deixar o assunto passar por tanto tempo.
Depois de tomarmos o café da manhã, saímos do prédio, um para cada lado. Desci até a garagem do prédio, peguei o carro e dirigi-me à universidade.
Will estava mantendo-se em silêncio também. Parecia conhecer exatamente as peças do jogo e os momentos em que podia, ou não, avançar. Mas o silêncio dele se tornou tão perturbador quanto suas palavras. Mais ainda. Porque apesar de não falar, seu flerte não havia cessado. Havia passado para um estágio ainda mais perverso, se isso sequer é possível.
Meu aluno ainda aparecia em minha sala toda semana com suas perguntas, embora suas palavras já não evidenciavam seus ataques. Mas os olhos se tornavam mais desafiadores com o tempo e o sorriso, mais malicioso. Ao entregar-me seu caderno com anotações, roçava sua mão na minha. Mordia o lábio, reprimindo a vergonha que eu tenho certeza que ele tinha por dentro, mesmo sem deixar transparecer. Me interrompia nas aulas, fazendo perguntas atrevidas ao me observar com olhos atentos e divertidos.
Estacionei o carro, peguei minha pasta e caminhei em direção ao prédio da Administração. Subi as escadas devagar, passando por alguns alunos, com a mente à mil. Checava meu relógio quando esbarrei em algo macio, derrubando minha pasta. Bastou baixar o olhar para a fonte do meu desequilíbrio para perceber que eu não havia esbarrado em algo, este algo é que havia esbarrado em mim.
— Will — falei, nem um pouco surpreso ao ver os olhos verdes me encararem com diversão.
— Professor! — falou com falsa surpresa, sorrindo. — Desculpa. Não tinha te visto aí.
Ao ver que suas mãos se mantinham em ambos os meus braços e que o sorriso travesso mantinha-se em seu rosto, entendi o motivo do encontrão que havíamos dado. Encarei-o com um suspiro.
Estava claro que ele havia me visto, sim.
— Will — falei, em tom de aviso —, mais cuidado ao descer as escadas, sim? Pode acabar se machucando ou machucando alguém — completei, irritado.
Ele deixou os braços caírem enquanto que escondia o sorriso com os lábios, não parecendo nem um pouco afetado pelas minhas palavras.
— Sim, senhor — disse ele, um segundo depois.
Abaixei-me para pegar minha pasta e terminei de subir as escadas, mais rápido desta vez, caminhando em direção à sala de aula. Não olhei ao redor nem respondi o "bom dia" de alguns alunos, estressado demais para raciocinar direito.
Depois de abrir a porta, larguei minha pasta na mesa e arrumei os slides da aula do dia. Enquanto isso, os alunos iam enchendo a sala aos poucos. Esperei na porta os últimos a entrarem para poder fechá-la, mas desejei não tê-lo feito.
Will foi um dos últimos e ao passar por mim, com um sorriso, deslizou sua mão pela minha com leveza. Durou apenas um segundo e ninguém podia ter percebido, mas o arrepio que me subiu pela coluna deixou-me extremamente consciente do ato. A surpresa me impediu de dizer alguma coisa sem pensar, mas eu podia sentir o sangue subir ao meu rosto sem minha permissão. Fechei a mão, indignado.
A energia que parecia haver fluído do meu aluno para mim me manteve em alerta pelo resto da aula, assim como os olhos verdes que se mantinham em mim.
Eu não sei mais o que fazer com esse garoto!
— Então — falei quando a aula chegou ao fim —, semana que vem é a primeira prova de vocês, certo? — perguntei, já que ultimamente andava perdido nas aulas. — O conteúdo que passei hoje vai cair assim como os outros. O de sexta, porém, vai ficar para a próxima — avisei, depois de assentirem. — Estudem bastante e qualquer coisa é só me procurarem.
Observei-os começar a guardar o material e levantarem-se aos poucos, alguns já saindo pela porta com rapidez.
— Só para relembrá-los, meu plantão começa depois das treze horas, de segunda à sexta, exceto pela quarta-feira — falei mais alto, já que o burburinho de conversas e arrastar de classes já havia começado.
Suspirei, terminando de guardar minhas coisas.
Quando levantei o olhar, vi Will parado perto da porta me olhando, parecendo indeciso se viria ou não em minha direção. Alguns alunos passavam por ele, encarando-o com curiosidade. Will apenas manteve os olhos em mim, parecendo finalmente tomar uma decisão, enquanto eu mantinha o cenho franzido. Suspirou, dando um sorriso amarelo, e virou as costas, seguindo o fluxo de alunos para fora da sala.
Fechei os olhos, subitamente cansado.
Eu sabia que apareceria em minha sala à tarde, mas teria um tempo para respirar normalmente sem ele. Então esperei pelo garoto depois do almoço, até ver seu rosto espreitar-se pela porta, com um sorriso.
Acho que o sorriso de Will era o que mais me desarmava. Era muito difícil, se não impossível, repreendê-lo quando tudo o que ele fazia era sorrir para mim. Ainda mais porque eu não lhe dava motivo algum para isso.
Ao concluir o raciocínio, esta reflexão me atingiu com tamanha força que me deixou absorto em pensamentos durante mais do que apenas alguns segundos. Estava perplexo comigo mesmo durante as últimas semanas.
— Turner? — A voz de Will trouxe-me de volta à realidade. O dedo indicador estava em cima de uma frase no livro aberto em minha mesa. — Se você estiver divagando enquanto tiro minhas dúvidas, semana que vem estou ferrado — continuou ele, divertido.
Não pude evitar sorrir. Até parece!
— Will, se você for mal nessa prova — falei com diversão, erguendo uma das sobrancelhas —, eu provavelmente vou me transformar em alguma criatura mística ou algo assim — completei, rindo.
A risada de meu aluno inundou a sala, fazendo-me sorrir de volta. Não era muito comum vê-lo gargalhar e, por mais que eu me oprimisse, havia gostado da cena. Will largou a lapiseira na mesa, sorrindo apenas, ao inclinar-se sobre a mesa. Por seus olhos passava alguma coisa além de diversão enquanto ele me encarava. Franzi o cenho com a mudança súbita.
— Como um dragão? — perguntou ele, os olhos verdes profundos.
Deixei minha boca cair em surpresa ao mesmo tempo que minhas sobrancelhas arquearam-se. Será possível que ele saiba sobre o apelido?
Eu já o havia ouvido algumas vezes pela universidade, mas sempre achei que fosse coisa da minha cabeça. Aquele imbecil do Jared! Se eu pudesse, colocava aquele garoto no seu devido lugar na base de pancadas.
Inclinei a cabeça levemente, analisando Will. Ele não mencionaria algo assim se não soubesse a respeito, certo? Mas talvez ele não soubesse de tudo. As fofocas que passam pela universidade correm como um tipo de telefone sem fio. Ninguém sabe da história verdadeira, a não ser a fonte do boato.
— Suponho que sim — falei devagar, observando sua reação. Parecia confuso com minha resposta, encarando com interesse.
Não, Will não podia saber de nada a respeito.
Suspirei, voltando à realidade.
— Bom — falei —, a probabilidade de você acertar a prova inteira é grande, Will. Pelo menos é o que tenho observado aqui — completei, fechando um dos livros.
Seu sorriso alargou-se preguiçosamente, a covinha afundando do lado esquerdo de seu rosto.
— Não coloque este tipo de pressão em mim, professor — disse ele, levando a mão ao peito. — Se eu for mal, a culpa vai ser sua por me deixar nervoso!
Will usava uma camiseta xadrez debaixo de um casaco preto simples. Os cabelos claros já haviam crescido mais um pouco, desordenadamente. As sardas de seu rosto, por causa do dia nublado, não estavam muito visíveis, embora eu soubesse que permaneciam ali, discretas.
— Claro — falei, falsamente indignado. — A culpa é sempre do professor, não?
Will ponderou por um instante.
— Talvez o professor não perceba o que ele é capaz de causar nos alunos — falou, me pegando de surpresa. Mexia na folha de seu caderno, sem desviar os olhos dos meus.
Ah, os flertes verbais voltaram então? Não sei como isso ainda me surpreendia.
— E talvez os alunos não percebam que estão vendo as coisas de uma perspectiva errônea — retruquei, sustentando seu olhar cismado.
— Acha que eu estou me equivocando? — perguntou, direto. Seu sorriso havia diminuído à um leve levantar dos cantos de sua boca, enquanto que sua mão finalmente largava o caderno.
É, definitivamente não falávamos mais sobre a prova de Administração Financeira I.
— Acho que você não está analisando todas as consequências de seus atos — respondi devagar, sem mover um músculo, sério.
Will estreitou os olhos antes de baixá-los, franzindo o cenho. Parecia raciocinar a respeito, a procura de uma resposta. Quando finalmente ergueu o olhar, a determinação transbordava deste.
— E quais são as consequências?
Por tudo que é mais sagrado...
Will já não se divertia tanto. Me desafiava a pará-lo, decidido, com teimosia. Franzi o cenho, encarando-o com repreensão. Eu não iria responder. Ele sabia exatamente as consequências, só não se importava.
Quando percebeu que eu não responderia, sorriu novamente, como se acabasse de ganhar uma partida.
— Não tenho mais dúvidas, professor — falou subitamente, satisfeito. Em seguida, me olhou de forma matreira. — Será que você pode me ajudar a guardar as coisas?
Reprimi a vontade de revirar os olhos. Will devia ganhar um prêmio por persistência.
— Acho que você consegue guardá-las sozinho, Will — falei, enfadado.
Meu aluno tinha um dos livros na metade do caminho em direção à sua mochila, quando me ouviu e me encarou. Mordia o lábio inferior e tinha os olhos pidões, falsamente chateado. Se eu não o conhecesse, pensaria que o havia magoado profundamente.
Com um suspiro, querendo esganar meu aluno com minhas mãos, levantei rapidamente, separando seus livros dos meus e seus marca-textos. Ele também passou a fazer o mesmo, esbarrando seus dedos nos meus no processo.
Minha consciência está tranquila, pensei. Ou deveria, pelo menos. Já havia explicitado como me sentia a respeito de suas intenções. Se ele continuava, mesmo sabendo disto, era por vontade própria.
Circulei a mesa, entregando o resto de suas coisas. Eram várias folhas amassadas, dois livros, um caderno e vários tipos de marca-textos e lapiseiras. Observei que as folhas e os livros eram só a respeito de minha matéria. Will era mesmo determinado quando queria alguma coisa, percebi com receio. O que me preocupava era a possibilidade de que sua determinação, de maneira terrível, não se desse apenas com relação a passar em minha matéria.
Que deus me ajudasse!
Will fechou a mochila, jogando-a no ombro antes de me encarar, ainda sorrindo. Me escorei em minha mesa, rezando para que ele saísse logo do cômodo e eu pudesse ficar à sós com o embaralho de pensamentos que passavam pela minha cabeça. Mas ele não o fez.
Deu um passo em minha direção, encarando meu pescoço. Apertei, com força, a mesa de madeira. Não queria chegar ao ponto de ter que recorrer a medidas extremas para colocá-lo em seu lugar. Encarei-o completamente sério, com advertência.
Will apenas sorriu levando as mãos em direção ao meu pescoço.
— Sua gravata está torta, Turner — disse ele, a voz falha. — Não vai querer sair assim pela universidade, não é? — perguntou, arrumando-a sem minha permissão.
Tinha os olhos verdes concentrados, enquanto escondia seus dentes com os lábios. A parte interna de sua íris, próxima à pupila, continha traços amarelados, como se alguém os tivesse desenhado à mão. Roçou seus dedos frios em meu pescoço de leve antes terminar, fazendo-me arrepiar de maneira involuntária.
— Prontinho — disse, calmamente.
Mas ele não havia acabado.
Ajeitou o nó da gravata cinza, passando sua mão abaixo do mesmo, como se quisesse desamarrotá-la. E então, para meu desespero, foi descendo os dedos finos pela extensão inteira da gravata, até um pouco abaixo de meu umbigo. Não pude desviar os olhos, assustado, de sua mão esbelta até que ele a retirasse, soltando a ponta da gravata com uma lentidão memorável.
Ergui finalmente os olhos para seu rosto, chocado demais para dizer alguma coisa. O sorriso, aos poucos, voltou ao rosto concentrado de Will, alargando-se em grande escala. Os olhos maliciosos tinham as pupilas dilatadas e brilhavam com algo que não pude reconhecer imediatamente.
Ou não quis reconhecer, acrescentei mentalmente.
Will foi dando passos para trás, sem tirar os olhos dos meus, até se virar completamente em direção à porta. Apenas então afrouxei minhas mãos que seguravam a mesa com força, e soltei minha respiração, percebendo que a estava prendendo.
Will abriu a porta e saiu, sem dizer mais nada, mas antes que a fechasse, pude ver que o familiar rubor — que eu não via em seu rosto há dias — havia retornado com intensidade.
Suspirei profundamente, sentindo o sangue pulsar pelo meu corpo com tanta velocidade que não me atrevi a mover um músculo. Reprimi todos os pensamentos que fluíam com a velocidade da luz em minha cabeça. Não queria pensar agora. Não podia pensar.
Fiquei ali parado, ouvindo minha respiração voltar ao normal aos poucos, só então ousando a ficar em pé inteiramente para logo desabar com tudo em minha cadeira.
Eu estou completamente...
Fodido!
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