Made of Fire
10 IX - Não sou gay, sou Turner
Notas iniciais
Sorri levemente ao sentir a mão macia em meu peito nu e a voz risonha em meu ouvido. Fechei os olhos e me deixei levar pelo cheiro de sabonete que vinha do corpo em mim colado.
Estávamos deitados, pude perceber. As pernas alheias estavam enroladas com as minhas e o corpo quente e macio em meu lado direito parecia invadir meu espaço pessoal. Senti braços rodearem-me a cintura enquanto o ser risonho deixava um leve roçar de lábios em meu ombro.
Abri os olhos, podendo então vislumbrar a luz inebriante da lua que entrava pela janela. Pelo canto de olho, pude ver os olhos verdes concentrados em mim.
Will tinha um sorriso no rosto que iluminava seus olhos, mesmo no escuro. Seus braços estreitaram-se em minha cintura, enquanto eu acariciava os cabelos claros bagunçados, mais compridos que o normal. De perto, podia ver a covinha afundar-se em sua bochecha esquerda antes dele baixar a cabeça e juntar os lábios ao meu ombro novamente.
Já virado em sua direção, abracei-o com os dois braços, enquanto sentia os lábios macios subirem em meu pescoço, mais atrevidos que antes. Ergui a cabeça involuntariamente enquanto ele subia os lábios molhados até meu queixo, deixando escapar um leve riso. Will deixou os beijos para me encarar. Baixei a cabeça devagar, com o mesmo objetivo.
Quando nossos olhos ficaram na mesma altura, não hesitei em juntar meus lábios com os avermelhados de Will, que sustentava uma das mãos em meu rosto. Então abri a boca, sentindo nossas línguas úmidas se unirem, me trazendo a leve sensação de finalmente estar...
— Rich?
De repente, alguma coisa em meu braço esquerdo passou a me incomodar. Aos poucos, passei a ficar consciente do meu corpo e das sensações ao redor. O cheiro de comida invadiu minhas narinas ao mesmo tempo em que pude sentir uma leve brisa em meus braços desnudos.
— Rich! — A voz familiar repetiu, desta vez um pouco mais alto.
Abri os olhos rapidamente, vendo o rosto franzido de Jay. Este estava sentado na beirada do sofá onde me encontrava deitado, e chacoalhava-me o braço esquerdo de forma nada delicada.
— Onde é o incêndio, Jay? — perguntei depois de resmungar, sentando-me no sofá, onde havia adormecido.
— Em lugar algum, espero — respondeu-me, com um sorriso debochado. — Hoje está frio e você está todo suado, cara. Que sonho era esse? — perguntou, trocando o deboche pela malícia.
Alguns fragmentos de memória do que eu havia sonhado voltaram subitamente à minha cabeça, enquanto eu sentia todo o sangue do meu corpo subir ao rosto. Caralho!
A risada de Jay inundou o apartamento, como de costume. Me deu um leve tapinha no braço, como se soubesse de tudo, antes de levantar do sofá e caminhar em direção à cozinha.
— Mas bom — falou ao andar —, eu prefiro não saber, na verdade. — disse, com uma risada. — Você pode apreciar dos detalhes sozinho — completou, inundado de malícia.
Revirei os olhos, tentando inutilmente afastar a imagem do meu aluno – meu aluno! – com o corpo nu – nu! – colado ao meu. Era tão vergonhoso que cogitei a ideia de não ir à universidade amanhã.
Pisquei algumas vezes, olhando a porta da varanda aberta e atrás desta, a lua inebriante visível no céu noturno. Sim, já era noite. E estava mesmo frio, concluí, esfregando os braços nus. A leve brisa era o suficiente para fazer balançar as cortinas de cor bege postadas em frente à porta de vidro da varanda.
Levantei, sentindo o piso frio em meus pés descalços e fechei a abertura. Porém, não me movi. Grudei a cabeça no vidro observando a lua e fiquei assim por alguns segundos – ou minutos, não soube ao certo.
— Rich? — Jay soava preocupado. — Você está bem? Não imaginei que fosse um pesadelo — disse ele, já perto de mim.
— Está tudo bem — respondi sem mover-me, com um suspiro.
— Então por que você ainda tá com a cabeça grudada na porta como se fosse piradão? — perguntou, com um riso.
Suspirei novamente antes de virar-me em sua direção.
Jay usava uma roupa solta e larga no corpo musculoso. Na pele dos braços haviam traços de tinta acima de suas tatuagens como sempre, assim como no pescoço. Ele tinha as sobrancelhas escuras arqueadas e o sorriso tranquilo e familiar no rosto. Os dreads estavam presos atrás de sua cabeça, desta vez, e segurava uma colher em uma das mãos habilidosas.
— Sabe de uma coisa, Jay? — perguntei, encarando os olhos castanhos. — O lugar deste apartamento que você mais usa é a cozinha. Me pergunto o porquê... — Deixei a frase no ar, com um sorriso.
Ele me encarou com compreensão, como se soubesse que eu não queria falar a respeito. Ainda mantinha traços de preocupação no rosto.
Podia saber ele que o sonho se tratava de Will?
— Porque é o melhor cômodo daqui! — concluiu, rindo depois de relaxar o rosto, para meu alívio. — A propósito, enquanto você roncava como um inútil, eu fiz a janta. Aprendi a fazer esse macarrão italiano que é simplesmente divino! — contou, dando-me as costas, correndo em direção à cozinha novamente.
Porém, nem seu macarrão divino nem as conversas que se seguiram conseguiram desviar minha mente de tudo que havia acontecido nas últimas semanas. De Will.
Seu atrevimento com a gravata havia-me perturbado tanto que até sonhos nítidos eu estava tendo. Não, esse não foi o primeiro. Porém, foi o que a minha mente levou mais longe com a ousadia.
— Estive esperando algumas semanas de cortesia para ver se me contaria a respeito de Will... — A voz de Jay invadiu meus pensamentos. — Mas até agora, nada.
Ergui os olhos para o rosto do meu amigo que, desta vez, me encarava sério.
Havíamos terminado de comer já havia um tempo, mas continuávamos na pequena mesa bebendo cerveja enquanto ouvíamos as vozes vindas da televisão na sala. Suspirei cansado, tomando mais um gole da cerveja.
— O que exatamente você quer saber a respeito de Will, Jay? — perguntei, encarando o prato vazio.
Ele esperou alguns instantes antes de responder. — O que você quiser me contar — falou simplesmente.
Ergui os olhos em sua direção de novo, a tempo de vê-lo dar de ombros ao tomar mais um gole da cerveja também.
Pensei um pouco a respeito, considerando todos os prós e contras de metralhar tudo que têm passado pela minha cabeça ultimamente, em forma de palavras.
Por um lado, seria ótimo poder colocar tudo para fora, sem falar que assim que eu o fizesse, os fatos ficaram mais explícitos para que eu pudesse analisá-los. Mas se eu contasse, tudo se tornaria bem mais real do que era apenas em minha mente perturbada. Era algo a se considerar.
Como eu não disse nada, Jay esperou pacientemente. Era bom com pessoas no geral, ao contrário de mim.
Se tivesse que contar alguma coisa para alguém, seria para o Jay. Ele era a única pessoa no mundo com a qual eu podia contar completamente. Não me julgaria, nem por um segundo. E também, tinha a mente tão aberta que eu não sei como seu cérebro permanecia ali.
— Will não apareceu em minha sala na sexta-feira — falei lentamente, pensando que essa era uma boa maneira de começar a conversa.
— E ele deveria? — perguntou Jay, com cautela.
Cocei a barba, pensando em como responder.
— Ele sempre aparece nos dias que dou aula para sua turma — contei —, para tirar suas dúvidas — acrescentei rapidamente.
Jay assentiu devagar, com as sobrancelhas arqueadas.
— E você acha que aconteceu alguma coisa para ele não aparecer?
Raciocinei um pouco, pensando no que poderia ter ocorrido.
— Não sei — respondi, sincero.
Não sabia. Ele deveria ter ido até minha sala, já que era o último dia que poderia tirar as dúvidas antes da prova de amanhã.
Jay permaneceu em silêncio, me observando. Passaram-se alguns segundos desta maneira. O barulho que o relógio fazia juntava-se ao som da televisão, mas permanecíamos em silêncio.
Desviei o olhar antes de confessar a ele: — Talvez você tenha razão quanto à ele estar dando em cima de mim — contei, encarando a sala.
— É só nisto que eu tenho razão? — perguntou, direto. Arqueava uma das sobrancelhas, divertindo-se, apesar de tudo. Revirei os olhos, mas não respondi, desviando o olhar novamente.
— Não sou gay.
Pelo canto de olho, pude ver Jay balançar a cabeça, sério novamente.
— Eu nunca disse que você é.
Voltei meus olhos ao seu rosto, austero.
— Também não me aproveito de aluno algum — acrescentei, sem desviar os olhos dos castanhos.
— Nunca pensei que o fizesse — retrucou, sustentando meu olhar.
Ficamos assim por um tempo, até o celular de Jay tocar incessantemente. Aproveitei a deixa para levantar-me e juntar os pratos, levando-os à pia. Arrumei e limpei a mesa, enquanto Jay esbanjava suas cantadas pelo telefone, risonho. Balancei a cabeça, sorrindo.
Depois que Jay desligou o telefone com um sorriso no rosto, veio secar a louça que eu lavei, tagarelando sobre o encontro que teria no próximo fim de semana.
Esperei que me fizesse mais perguntas ou insistisse no assunto, mas parece que minhas poucas palavras eram tudo que ele precisava ouvir. Sentindo um leve peso deixar minhas costas, percebi também que era tudo que eu precisava dizer.
Com a mente mais limpa, deixei a cozinha para tomar um banho, enquanto Jay voltava para seu apartamento depois de me lançar um olhar caridoso.
Senti a água morna descer pelo meu corpo enquanto me ensaboava. Depois de um tempo, fiquei apenas parado embaixo do chuveiro, de olhos fechados, esperando que a água lavasse minha alma também. O peso que me deixou ao conversar com Jay era muito pequeno, na verdade.
Eu andava mais cansado que o normal no último mês. Parece que o esforço de me tornar um professor melhor acabava com minhas energias tanto quanto lidar com Will.
Ser uma pessoa boadá trabalho.
Não consegui evitar rir quando o pensamento me cruzou a mente. Que tipo de ser humano horrível eu sou?
Ainda rindo, saí do chuveiro enrolado na toalha. Parei em frente à pia e passei a mão no espelho embaçado. Credo.
Meu rosto sustentava olheiras visíveis, apesar de eu estar dormindo a mesma quantidade de horas que sempre. Meu cabelo já havia passado do ponto de cortar, minha barba estava por fazer já havia uma semana, meus olhos cinzas pareciam foscos. Eu não parecia ter vinte e nove anos. Parecia um idoso, prestes a morrer. Não pude impedir franzir o cenho ao encarar meu reflexo envelhecido no espelho.
Então é isso que Will vê sempre? Como ele pode se sentir atraído por um velho rabugento?
Resmungando, me direcionei ao meu quarto, logo vestindo uma roupa simples para dormir. Dei uma organizada na cama, que estava cheia de papéis de aula. Separei-os por turma e os organizei. Chequei e contei novamente as provas que entregaria amanhã para a turma do 3º semestre e as coloquei em uma pasta. Guardei o relógio que meu pai havia me dado na gaveta da cômoda. Havia estragado na semana passada e eu precisava mandar arrumar urgentemente.
Mais uma coisa para fazer, pensei, revirando os olhos.
Antes de fechar a gaveta, vislumbrei um pacote de três camisinhas no fundo desta. Balancei a cabeça, fechando-a de vez.
É, talvez seja por isso que eu esteja tão acabado.
Depois de tudo pronto, me ajeitei para dormir embaixo das cobertas. Achei que estava tudo bem se eu permanecesse com a mente vazia. Mas mesmo com ela vazia, não consegui dormir por horas. Não sei quanto tempo demorou para que enfim eu conseguisse fechar os olhos e descansar.
*
— Só quero na mesa: lápis, borracha, caneta e calculadora — falei em alto e bom som, enquanto ouvia o burburinho de mesas arrastando-se e conversas paralelas.
Passei o olhar em cada um dos meus alunos, observando atentamente se nenhum estava em posse de alguma cola.
— As únicas folhas que vocês vão usar são a da prova e a folha extra para as contas — falei enquanto distribuía as folhas. — Quero deixar claro também que é uma prova sem consulta — continuei, levantando uma sobrancelha e ouvindo risadinhas de fundo.
Passei por Will, entregando-o as folhas. Ele raspou de leve seus dedos nos meus ao pegá-las, com o típico sorriso no rosto. Revirei os olhos, balançando a cabeça.
Em seguida, quando eu já entregava as folhas para o aluno em sua frente, ainda com os olhos em Will, este piscou um dos olhos verdes como se compartilhássemos algum segredo. Desta vez, não reprimi o sorriso que surgiu em meu rosto. Assenti com a cabeça para ele, em seguida, entregando o resto das provas.
— Acho que é isso — falei quando cheguei na frente da sala. — Boa sorte, e me deixem orgulhoso!
Sentei na mesa observando-os ao passar do tempo. Alguns poucos entregaram a prova logo no início, e eu soube que ou não haviam feito nada, ou haviam escrito qualquer coisa para sair logo dali. Suspirei com decepção.
Laurel franzia seu rosto com tanto afinco ao encarar a prova que não pude evitar sorrir. Gabe e Will pareciam concentrados também, ambos escrevendo com o mesmo afinco com que Laurel encarava as perguntas.
No mais, o resto dos alunos parecia completar pelo menos metade da prova antes de entregá-la, o que já era um grande avanço em comparação ao semestre passado.
Quando restavam apenas cinco alunos na sala, quinze minutos antes do sinal, Will pareceu terminar sua prova depois de relê-la umas três vezes. Ergueu os olhos observando ao redor antes de dirigi-los em minha direção. Porém, ao invés de levantar-se, escorou-se nas costas da cadeira e ficou apenas me olhando com um sorriso.
Claro que ele seria o último a sair, pensei ao me dar conta do motivo de sua atitude. Sem minha permissão, um riso escapou de meus lábios, chamando a atenção de dois alunos. Will apenas alargou o sorriso, olhando para baixo para disfarçar.
Quando o quarto aluno saiu da sala, balancei a cabeça negativamente, cruzando os braços enquanto observava Will juntar suas coisas e caminhar em minha direção. Tinha um sorriso culpado no rosto.
— É claro que você seria o último a sair, não é, Will? — perguntei, verbalizando meu pensamento.
Ele deu de ombros, sorrindo com tranquilidade.
— Aqui está, professor — falou, entregando-me a prova e a folha extra.
Dei uma olhada por cima de sua prova, antes de erguer os olhos para seu rosto.
— Então, muito difícil? — perguntei, curioso.
Will levou a mão ao peito, como se o doesse de pensar, balançando a cabeça teatralmente ao esbugalhar os olhos.
— Demais! Achei que não fosse conseguir — falou, para depois rir.
— Então gabaritou — deduzi, encarando-o e depois sua prova com cuidado. A primeira questão estava certa, observei com satisfação. Claro que estaria.
— Não sei — respondeu, honesto. — Acho que fui bem, mas a questão 4 estava muito difícil de decifrar. — Deu um sorriso amarelo com um dar de ombros. — Me diz você, se gabaritei.
Neguei com a cabeça, levantando e guardando as provas em minha pasta.
— Sabe que não posso — indiquei. — Mas vou tentar corrigir tudo o mais rápido possível para divulgar as notas.
Will me observou em silêncio até eu terminar e levar minha pasta ao ombro, assim como ele mantinha a sua mochila no seu. Caminhei em direção à porta, seguido por ele e fechei-a depois de apagar a luz.
Will manteve-se em minha frente, ao lado da porta, assim como no primeiro dia de aula deste semestre. Tinha os olhos curiosos e me encarava com convicção. Quase podia ver fumacinhas saindo de sua cabeça, de tanto que parecia absorto em pensamentos, mas parecia também não saber o que dizer primeiro.
Will realmente parecia loiro hoje, talvez porque estava usando preto da cabeça aos pés. Os olhos verdes sempre arteiros me encaravam com ambição. Sustentei seu olhar, deixando meus olhos se aventurarem pelo rosto familiar de Will.
Ficamos nos encarando desconfortavelmente por uns segundos até que ele quebrasse o silêncio.
— Suponho que como hoje teve prova ao invés de aula, eu não tenha por que aparecer no plantão — falou, com os olhos verdes colados em mim. — Não é?
Arqueei as sobrancelhas. Não precisei pensar muito para perceber que aquilo era uma indireta. Bem direta na verdade. Ele queria um motivo para aparecer em minha sala, motivo este que eu teria que oferecer-lhe. Engoli em seco.
— Bom... — comecei devagar, sem saber como continuar.
Seus olhos pareciam mais esbugalhados que o normal, enquanto ele esperava por uma resposta.
Depois de uma guerra interna, relaxei os ombros, dando-me por vencido.
— Você não apareceu lá na sexta, Will... — comecei, deixando no ar.
Os olhos do meu aluno brilharam ao perceber o que eu quis dizer. Então completou por mim:
— Então seria justo se eu aparecesse hoje para compensar, verdade? — perguntou, com um leve rubor nas bochechas. Este não era um rubor de vergonha, mas de animação, o que me deixou ainda mais desconfortável do que pensei ser possível.
— Verdade — respondi simplesmente, depois de engolir em seco.
Jesus!
Ele assentiu devagar, sorrindo igual uma criança antes de começar a dar-me as costas. Porém, antes que o fizesse, virou novamente dando dois passos a mais em minha direção.
— Não pude vir na sexta-feira porque houve um imprevisto — explicou, enquanto segurava a alça de sua mochila. — Não tinha ninguém para cuidar do meu irmão, então tive que ir embora — contou, com um meio sorriso. — Caso você tenha se perguntado, é claro.
Caso eu tenha me perguntado.
Passei a tarde inteira encarando a porta da minha sala, cada vez mais nervoso porque nenhum dos alunos que por ali passaram era o de cabelos desgrenhados e sorriso travesso. Quando o fim do plantão chegou, pude perceber que meu mau humor havia voltado. E no fim de semana que se seguiu, pensei constantemente no que podia ter acontecido para Will não aparecer em minha sala. Pensei também no que podia ter passado em sua cabeça, ou no que podia não ter acontecido. Sonhei com ele. Mais de uma vez.
Caso eu tenha me perguntado...
— Não tem que me dar explicações, Will — falei sério, desviando o olhar. O cheiro de sua colônia infestava meu nariz, deixando-me tonto.
— Eu sei que não tenho — falou, arqueando uma sobrancelha —, mas eu quero — completou, como se fosse a coisa mais óbvia e simples do mundo.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, a voz de Laurel invadiu meus ouvidos.
— Will? Não vai almoçar? — perguntou ela, nos encarando com curiosidade.
Will apenas assentiu e piscou um olho para mim, caminhando em direção à garota dos cabelos vermelhos.
Quando os dois já haviam sumido de vista, fechei os olhos, suspirando pesadamente. Depois de largar minhas coisas na sala, caminhei em direção à cantina do prédio para almoçar. Não estava com muita fome, então comi apenas um pastel e tomei um café, observando ao redor. Fiquei um tempo sentado ali mesmo, apenas vendo o fluxo de pessoas aumentar e diminuir com o passar dos minutos.
Depois de pagar, voltei ao segundo andar e caminhei em direção à minha sala. Ao abrir, perdido em pensamentos, a princípio não dei-me conta da presença feminina na sala. Mas logo que ergui os olhos, pude notá-la, assim como o perfume enjoativo de flores.
A mulher estava sentada na cadeira que Will costuma ocupar, de costas para a porta. Podia ver seus cabelos loiros encaracolados em um coque acima da cabeça e seu paletó de cor cinza que lhe cobria os ombros.
— Srta. Clark — exclamei, realmente surpreso, vendo-a virar-se em minha direção ao levantar da cadeira. — Em que posso ajudá-la?
— Ah, Richard — falou, com um sorriso. — Desculpe importuná-lo logo na hora do almoço, mas eu preciso de uma ajuda com Sistemas de Informação — completou ela, os olhos azuis sorrindo também.
Srta. Clark era a professora atrapalhada que sempre se atrasava para suas aulas. Aparentava ter por volta da minha idade, tinha um formato bonito de rosto e era bastante atraente, especialmente com a ajuda dos cabelos loiros e olhos azuis. Sempre sorria e por ser atrapalhada demais, constantemente recebia apelidos maldosos dos alunos.
— Não me importuna de forma alguma — falei, observando-a com atenção —, mas receio que não entendi que tipo de ajuda você quer com Sistemas de Informação — completei, confuso.
Louisa Clark era a professora encarregada das matérias relacionadas com Sociologia e Filosofia Aplicadas à Administração.
— Você não ficou sabendo? — perguntou ela, confusa também. — O professor Jamie pediu demissão. Recebeu uma proposta de emprego em outro país. Eu fiquei encarregada de cobrir sua matéria até encontrarem um professor permanente.
Surpreso, lembrei de ter ouvido alguns alunos falarem a respeito. Porém, não sabia que seria a Srta. Clark a cobrir a matéria, afinal, ela era acostumada com a parte teórica apenas.
— Está tendo problemas em entender a matéria então, Srta. Clark? — perguntei, deduzindo o que seria.
— Sim — respondeu-me, com um sorriso amarelo. — E é Louisa, por favor — pediu com um sorriso. — Como você dá a parte financeira da Administração, o pessoal sugeriu que eu falasse com você.
Franzi o cenho.
— Por que você aceitou a matéria, se não tem prática nela?
Ela sorriu amarelo, dando de ombros.
— Achei que eu devesse, afinal, o próprio coordenador me pediu que o fizesse — falou, meio encolhida. Reprimi a vontade de revirar os olhos.
Céus, os alunos não zombavam dela sem motivo...
Por que Fitzgerald não pediu para que eu cobrisse a matéria, se nenhum outro professor podia? Minha matéria era interligada com esta, de certa forma. Devia pensar que eu não estava disponível, por causa da quarta-feira.
— Falarei com o coordenador eu mesmo, Louisa — falei a ela, tentando soar simpático. — Posso administrar essa matéria por enquanto, já que tenho alguns horários livres.
Seu rosto iluminou-se, grata. Seu rosto ficava ainda mais bonito quando sorria, percebi. Então ela mordeu o lábio inferior, antes de responder-me.
— Faria isso? — Assenti com a cabeça. — Ah, muito obrigada, Richard! — exclamou, exaltada.
Em seguida, fez algo que me deixou tão surpreso quanto desconcertado. Abraçou-me, rindo.
Fiquei uns instantes estático, cogitando se deveria abraçá-la de volta. Não queria mesmo, mas como achei que seria rude de minha parte se não o fizesse, abracei-a de leve.
— Ora, não é para tanto, Louisa — falei, sem graça.
A mulher era mesmo um tanto fora da casinha.
— Para mim, é — disse ela, afastando-se com um leve rubor no rosto. Me encarava timidamente ao continuar: — Podemos almoçar juntos algum dia desses, não é? Sei que geralmente você só come um lanche... Amanhã, quem sabe?
Arqueei as sobrancelhas, surpreso com a forma transparente com a qual se dirigiu à mim. Pensei a respeito por um segundo antes de assentir.
— Claro. Podemos sim — falei, sorrindo ao colocar a mão em seu ombro, tentando passar a tranquilidade que eu não sentia.
Louisa, mexendo desajeitadamente as próprias mãos, continuou a sustentar meu olhar com a profundeza azul enquanto ruborizava ao assentir, sorrindo. Como se a situação não pudesse ficar mais desastrosa, a porta se abriu em seguida.
Tenso, encarei o rosto bonito que havia aparecido entre a abertura. O sorriso que atingia os olhos de Will diminuiu aos poucos ao descer os olhos verdes de mim para a mão que eu mantinha no ombro da Srta. Clark. Em seguida, para a própria Srta. Clark, com o sorriso já murcho.
Deixei cair o braço direito rapidamente, trocando o olhar de Will para Louisa, que embaraçadamente deu um riso nervoso, afastando-se um pouco.
— Desculpe — disse a voz falha de Will, enquanto postava um sorriso no rosto novamente, sem brilho desta vez. — Eu devia ter batido. Não queria atrapalhar...
— Ah, querido — disse a Srta. Clark, obtendo uma sobrancelha arqueada da parte de Will. — Não atrapalhou nada, eu já estava de saída — continuou ela, recuperando-se ao pegar sua bolsa da cadeira. — Obrigada novamente, Richard! Nos vemos no próximo almoço, sim? — perguntou-me ao passar por Will em direção à porta.
— Claro — respondi, desorientado.
Quando a porta fechou-se novamente, Will ficou encarando-a por um tempo, o sorriso novamente se desvanecendo. Então virou o rosto em minha direção.
Nunca o havia visto tão sério antes, com exceção do dia em que reprovei-o em minha matéria. Senti um calafrio ruim subir-me pelas costas. Will não parecia estar bravo ou triste, mas eu não era capaz de decifrar seus olhos desfocados e sua expressão muda. Parecia simplesmente ter os olhos vazios ao me encarar.
Isso não parece bom, pensei com um aperto na garganta.
Imaginei que ele parecia com um furacão, prestes a eclodir. Então esperei, tenso, que a catástrofe acontecesse.
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