Madalena

5 Terceira carta, Madalena.


"Sábado, 03:42 da manhã

A data dessa carta é muito importante para mim, simplesmente por ser o dia que é. Sair com Abel me lembrou de quando conheci Madalena. Como explicação pela data, estávamos em uma tarde ensolarada de sábado, enquanto ia ao mercado comprar alguma coisa para comer, Abel me encontrou no caminho e me arrastou para as águas que embelezavam a cidade — Não era mar. Particularmente, aqueles canyons eram tão quanto, ou até mais bonitos que o mar. Dizia ele ter uma amiga que alugara um barco e que ela e mais um grupo iriam sair sem rumo, até o mais longe que pudessem chegar. Uma proposta tentadora para alguém que não teria planos para tarde, ou, para o resto do fim de semana.

Ao chegar encontramos algumas pessoas e o barco estacionado na beira. Num primeiro ver, nenhuma peculiaridade se exaltava em Madalena, para mim, era apenas mais um ser alucinado por aventura. O que não deixei de pensar com o passar do tempo, mas os verdadeiros adjetivos vieram depois de muito observá-la.

Entramos todos e nos acomodamos. Ela tomou partido do leme e iniciamos a viagem. A conversa que se seguia era sobre política e suas corrupções, aquilo tudo não me prendia nem por um segundo, então eu passei um bom tempo do percurso a observar as ondas que se formavam quando cortávamos a linha da trajetória imaginável. A primeira parada foi em uma ilha próxima, linda de se ver, formava uma elevação que ao subir deparava-se com um penhasco. Ver Madalena passar por nós como um vendaval, se despindo e não medindo esforços para pular de uns muitos metros de altura, rendeu-me um tremendo susto. Quando a vi subir novamente, comecei, com euforia, exclamar o perigo e interrogá-la sobre a sanidade ausente no momento. Ela debochou e sem muito pensar me empurrou lá de cima. Senti, ao mesmo tempo, um espetáculo de horrores e uma dança emocional fazendo festa em minha cabeça e corpo. Foram naqueles poucos segundos de queda que me apaixonei por Madalena, apenas não havia dado conta disto ainda, mas o fato de ter ido contra todas as minhas próprias regras e fronteiras, e de nem ao menos ter esperado para que eu me calasse, era impressionante. Nenhum ser normal viola seus limites com tanta ferocidade.

Quando voltamos para o barco, ela pediu que Abel continuasse a viagem e sentou-se junto a nós. Confesso que mantive certa distância de Madalena, mas aquilo parecia ter chamado sua atenção.

Andamos um pouco mais, alguns peixes nos seguiram, eles tinham as mais variadas cores e tamanhos. Paramos em uma área para camping. Lembro me exaltar por não saber que iríamos acampar, ou por não ter recebido nenhum aviso prévio.

— Pois então, você pode voltar se quiser — Madalena me disse.
— Tudo bem, como faço pra voltar?
— Nade de volta até a cidade.

Naquela hora, todos que estavam conosco riram, e aquele meu ar sublime e dominador não durou mais que segundos, apenas silenciei.

Claro que era uma oferta prescindível. Não havia maneiras lógicas de se voltar até a beira lago nadando. Apenas virei-me e passei a procurar um lugar vago para ficarmos.

Já tinha descido a noite e finalmente a fogueira estava acesa, sobre a labareda colocávamos alguns espetos que estavam no estoque do barco. Eles cantavam, riam, brincavam, dançavam e conversavam o tempo todo. Logo, pouco a pouco, as pessoas levantavam-se para dormir. Por fim, ficamos eu e Madalena.


— Quem dera eu, poder alcança o céu ao menos uma vez — Disse-me, e fere o coração pensar que está ela lá agora — Daqui parece pequeno, mas pequeno mesmo é a gente. Pequenos em proporção, pequenos por pensar que somos maiores, pequenos até em ser, ser a rotina maçante do trabalho que nos prende e não os nossos sonhos.
— Para realizar nossos sonhos precisamos trabalhar — Eu disse.
— Sonhos não custam Tomás.
— Não custam... — Indignei — Como não custam?
— Sonhos d’alma não. Sonhos materiais sim, mas esses se enquadram nas coisas tolas que você não leva como mérito para o céu. Sonhos d’alma não ficam postos sobre a estante, mas gravados em você, eles valem muito, valem mais que qualquer ouro. E é simples distinguí-los de quaisquer outros sonhos, pois para realizá-los basta sonhar.

Ela se afastou e entrou na barraca, não fiquei por mais muito tempo lá, estava sozinho e a solidão me amedronta, ao me virar para ir dormir vi uma sombra se aproximando, quando me dei conta, era Madalena me beijando"