Madalena
6 Novo de novo
A chuva começou a invadir a casa e molhar o assoalho, corri para fechar as janelas e percebi como estava tarde.
Quando amanheci, meu corpo doía e minha mente pesava. Estava cansado para escrever e não queria alimentar essa fadiga de nada, levantei-me e fui até a casa de Abel, chamar-lo-ia para irmos novamente ao bar, mas ele trabalhava e havia saído bem cedo, portanto resolvi ser minha própria companhia.
Não era de se espantar que aquele lugar estivesse praticamente vazio a tarde. As mulheres não estavam em horário de expediente, as luzes eram claras e as janelas abertas. Não chegava a ser um ambiente familiar, mas melhorara bem o conforto e a tranquilidade do local.
Fui para mesa de sinuca e fiquei por lá um bom tempo, até que uma moça alta, morena e com o cabelo preso, apareceu:
— Posso me juntar a você? — Ela perguntou.
— Claro — Disse, entregando-lhe um dos tacos. Na verdade, eu não era assim tão ranzinza, tinha até um jeito bem receptivo para ser sincero — Prazer, Tomás Leal.
— Charlotte... Charlotte Benetti — Ela me estendeu a mão, nos cumprimentamos e começamos a partida.
Não pressuponho o que Charlotte tenha visto em mim que a fizera se aproximar assim. Minha cabeça ainda arrumava formas miraculosas de fuga para relacionamentos, por mais curtos que estes fossem, mas nada me impedia de ter apenas uma conversa aleatória e sem muitas delongas num bar.
— Aceita tomar alguma coisa Tomás? — Apenas após ela falar pude perceber que meu copo já havia esvaziado há tempos
— Claro. Obrigado.
— O que vai querer?
— O que você for querer...
Ela se foi enquanto eu jogava a minha rodada, quando voltou, trazia dois copos de água na mão.
— Boa escolha — Eu ri, sem demonstrar ironia alguma, mas água não era mesmo a melhor opção.
— Perdão, é que não bebo — Ela me disse.
— Sem problemas Madame.
Voltamos ao jogo, um copo de bebida não faz uma diversão, tampouco falta-me se não o tiver.
— Pois bem, o que faz aqui? — Perguntou.
— Venho para esfriar a cabeça.
— E funciona?
— Essa pergunta, bem... Oscila entre o sim e o não. Em momentos esqueço os problemas, em outros eles vêm a tona com tamanha intensidade. Mas, e quanto a você?
— Primeira vez que estou aqui.
— Mulheres não costumam frequentar muito ambientes assim, todavia, a tarde tudo isso soa mais receptivo.
— Sim, eu realmente não pretendo vir a noite...
Eu sorri. Lá fora já era quinze para cor-de-rosa, mas minha vontade de ir embora, por incrível que pudesse parecer, ainda não se manifestara. Fui para o lado de fora do bar ascender um cigarro, o céu estava bonito, as pessoas iam e vinham com pressa do mundo, embora tudo soasse tranquilo. O vento, o horizonte atrás dos tantos passos e no momento, até meus pensamentos. Pela primeira vez parei para ponderar o adiante, aquilo que se seguiria depois de minha fase de luto. A rotina que voltaria, o olhar das pessoas que nunca entenderiam a razão de tanto drama eloquente, pois, em suas mentes, não se sofre assim por algo que não se teve, e a forma de lidar com uma saudade quase que premeditada. Consequências de um amor desenfreado, que carrega a reminiscência como alimento.
— Também fuma Tomás?
— Para refletir. Embora nem toda vez que eu reflita esteja fumando.
— Então esse vício não se faz necessário — Pegando assim no meu pé, recordava-me até alguém, bem semelhante.
— Concordo. Por isso se chama vício.
Ela silenciou por alguns poucos segundos, parecia estar pensando na minha resposta, logo após, abriu sua expressão com um sorriso estendido apenas de um canto dos lábios e olhou para baixo, assentindo com a cabeça.
Fale com o autor