Madalena
7 Quarta Carta
“Seu riso me encanta como a gota de orvalho, e é com essa metáfora clichê que reforço meu sentimento, pois com rimas eu não falho. Esta carta não é poesia porque é carta, e não está sendo escrita nem para contar o que vivi, nem para recordar os momentos, porque no momento, tenho apenas seus traços petrificados na cabeça.
Madalena e seus olhares promíscuos, veneno letal para o peito se te fitasse bem lá no fundo. A voz quando saía mansa tinha o poder de enluvar os seus ouvidos, era quase terapia ouví-la cantar canções de ninar para as árvores. Subia galho por galho, até o topo. Eu passava alguns minutos a procurando, preocupado com os perigos iminentes, quando acreditava que não a enxergaria mais, notava-se que lá em cima, onde terminava o verde, surgia seu rosto entre as folhas, e um jeito meio selvagem de amar a terra como um ideal primordial.
O tempo me fez não mais estremecer com seus delírios. Quando queria fazia, e se diziam que aquilo era lesivo, fazia duas vezes mais. Gostava de exceder, principalmente, os seus marcos peculiares e em meio a tanto distúrbio transcendia, transcendia a beleza de sua autonomia. Enquanto lá fora muitos dos outros seguiam suas vidas se privando do nocivo, no mundo em que ela criara, a privacidade era o nocivo.
Madalena passava dias e dias sem me procurar, se ela se cansava ia embora, e quantas vezes não entendi o porquê de existir tanto defeito acumulado em mim e todo o restante das qualidades possíveis voltadas como ima para seu eu. Quando retornava, batia a minha porta, se negava à justificativas, afinal, deixava bem claro de que não éramos um casal. E não recebê-la de volta estava fora de quesito, pois se feito isso, Madalena partiria, sem lástima, remorso ou nostalgia.
Ela tinha seu jeito bárbaro de acompanhar a vida. Apontavam os trilhos para que percorresse, e sua lei era, basicamente, andar fora deles. Nenhuma dessas palavras se assemelha à teimosia, Madalena faria se lhe fosse prazeroso.
Conseguia, regularmente,na lábia, — e meu Deus... Que lábia! — tudo que queria. Parecia ter estudado o homem em seus temas mais distintos, porém já me dissera uma vez, que para começar a compreender o início do que basicamente somos, são necessários anos de silêncio e observação, sem criar pré conceitos e muito menos julgamentos. Madalena não julgava ninguém, e ninguém ousava julgá-la”
Fale com o autor