Madalena
8 À mercê
Naquele fim de tarde eu quis ficar em casa sem fazer nada. Naquele fim de tarde eu quis cair aos prantos sem que ninguém me impedisse e passar o resto da madrugada molhando o travesseiro, que leva sempre a culpa por todos os nossos erros e os esporros pelos nossos traumas. Todas essas cartas de superação, as idas a lugares que não me satisfazem, a procura incessante pelo olhar desejado na rua, a decepção de perceber que essa procura, afinal, é nula, e as risadas não tão ritmadas como antes enganam apenas a mim mesmo. Madalena está morta, e não voltará para me fazer dormir essa noite.
A vida fará de mim mais um que atravessa a rua na esperança não de que encontre a calçada do outro lado e sim, outros milhares de caminhos que te indicam possibilidades surreais. A direita temos uma ida direta e sem retorno para o passado e a esquerda, o poder de poder excluir todas as memórias que hoje lhe ferem. O caminho a frente, sem dúvida, é o melhor deles, o domínio de conseguir trazer de volta quem desejar. Mas, sejamos realistas, este caminho é o único que existe e te oferece apenas uma opção, a de caminhar, de olhos vendados para que não se enxergue o fim da estrada, confiando apenas em seus próprios instintos. Sempre a frente, sempre afronte.
Somos desafiados a continuar a cada queda, desafiados a continuar sem lesões e triplicar as forças quando for a hora de se erguer. Somos desafiados a ser normais, porque seres normais escondem os seus ferimentos. A grande questão é que não me levantei, não cicatrizei e tampouco dei mais que dez passos na caminhada, não soube ponderar o adiante e chego a conclusão, no momento, infelizmente, de que sou completamente anormal, pois os danos no meu ser estão expostos para qualquer um ver.
Alguém bate a porta.
— Como sabe onde eu moro?
— Nunca subestime as mulheres Tomás — Era Charlotte — Você me parece bem aflito, aconteceu algo?
— Tudo.
— Tudo...?
— Tudo que poderia te fazer mal em determinado momento.
— Está falando de Madalena?
— Como conhece Madalena? — Eu pude perceber o espanto em minha fala.
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