Madalena

4 Sombra da noite


Nesse momento fui interrompido pelo bater incessante na porta, o café estava morno e o breu tomava conta do céu. Por alguns segundos fico sentado, apenas observando a lua, até que me dou conta que ainda estavam a bater na porta e corro para atender.


— Tomás... Tomás... Saudades suas, Tomás — Abel tinha esse seu jeito hiperativo até mesmo quando estava dormindo. Ele entrava na definição de amigo-irmão, daqueles que se conhece desde que estava no ventre da mãe.
— Olá Abel. O que faz aqui?
— Vim visitar meu amigo? Oras, desde que a linda e formosa dama morreu não o vi ir na praça ao domingo, começo até a desconfiar que estava lá apenas porque ela também estava — Óbvio que era

Abri um sorriso torto e dei de ombros, então ele continuou:

— Mas não vim aqui te visitar para ficarmos isolados nesse cômodo de sonhos reprimidos e lembranças amarguradas. O bar da esquina de casa reabriu essa semana, eles estão com mesa de sinuca e algumas doses que te farão melhor. Vim, na verdade, para te buscar.
— Não vou — Eu disse.
— Os dias têm te deixado ainda mais ranzinza. Você não chegou nem aos trinta, pare de se comportar como se já tivesse sessenta.

Ele se afastou de mim e foi em direção ao quarto, resmungou sobre a bagunça por alguns segundos enquanto recolhia algumas roupas do chão, analisava e as jogava de volta.


— Tomás, o que aconteceu com suas roupas? Parece que tornaram-se um amontoado de panos de chão.

Apontei para ultima porta do guarda-roupa e ele a abriu. Deviam ter quatro, ou talvez, cinco peças no máximo. Ele pegou algumas delas e atirou contra mim.


— Vista isso e vamos logo.

Juntei-as contra o anti-braço e fui ao banheiro me trocar. Abel trazia consigo esse mau costume de ser convincente, ou até mesmo um tanto ameaçador em seu tom de voz. Provavelmente a palavra “não” estava extinta de seu vocabulário auditivo.

O bar trazia em seu interior luzes opacas que se ofuscavam um pouco mais a cada passo, um lugar era parcialmente esférico, todo alternado entre preto, vinho e branco. No centro havia um grande palco seguindo o círculo, onde algumas mulheres dançavam por proventos e gorjetas. Nos arredores fixavam mesas e dois balcões para servir as bebidas. Todavia, com ou sem uísque aquilo me trazia vertigens. Carregava consigo um cheiro de volúpia quente e coração gélido. Alguns homens fatigados de suas bodas que por nós passavam, em três passos já maliciavam as damas de pouco senso, enquanto as mesmas sorriam fementido entre os trapos que pouco as vestiam. Ansiavam por ventura, aventura. E vestiam aquelas calcinhas fingidas.

Fiquei a observar assim que me sentei em uma mesa aveludada de algum dos cantos que não me seria de proveito algum saber qual, Abel sentou-se logo depois e por alguns segundos pôs-se a observar minhas expressões. Que indolência de minha parte pensar que este era um lugar para olvidar os problemas turvos. Aceito o fato de que sou homem sem muito valor e de rabiscos ilegíveis, mas até mesmo a luz que saia tênue da fresta da cortina de meu apartamento me chamava mais a atenção.


— Um bordel, Abel?
— Bravo estás, Tomás?
— Pare de graça! Minha rima não foi proposital.
— Nem a minha, menininha — Ele zombou — Vamos lá, divirta-se, se não quer ficar pelas mulhe...
— Evidentemente eu não quero ficar pelas mulheres — O interrompi.
— Se não quer ficar pelas mulheres, fique pela sinuca.

Então ele levantou e dirigiu-se até o balcão mais próximo, encheu dois copos de algo qualquer e retornou em minha direção, entregou-me um deles, gesticulando com a cabeça para que eu o seguisse.


— Ok... Pela sinuca e apenas por ela — Levantei-me também.

Fomos até a uma das mesas vazias e retiramos as bolas. As horas que seguiram não foram assim tão perturbadoras. Permanecemos um bom tempo disputando quem era, afinal, o melhor jogador e sem dúvida alguma, esse não era eu. A noite se estendeu mais um pouco, porém era cedo da madrugada e eu já havia chegado em casa.