Madalena

3 Segunda carta, Madalena.


"Esta é uma carta pequena de quem muito sente, escrita por mim e lida por quem estiver presente. Não a chamo de meu bem, nem de meu amor, suas feições enrijeceriam se me lesse agora com essas palavras na mente. Portanto, é apenas Madalena. Passei hoje pela venda, alguns que pouco sabem me perguntaram por ela. Disse que estava bem. Eu só queria saber, se eu não menti pr’aqueles homens do boteco. Eles pareciam sentir saudades, mas tolo sou eu, pois se lhes fossem dita a verdade de forma crua, não se levantariam nem de seus bancos aquecidos para desejarem sequer as condolências.

Se não me falha a cabeça, Madalena costumava sentar e tomar alguns copos com eles, lembro também, que pouquíssimas foram as vezes que a vi embriagada. Geralmente parava naquele instante exato do nível da risada mais tranquila e natural, quando as palavras, mesmo que demorassem a sair, saíam firmes e por vezes, no imperativo.

Do outro lado da rua, ficava eu na janela, usando o cigarro de desculpa para estar com a cabeça para fora a observando. Madalena quando via acenava e como de costume, criticava o meu vício:

— Tira o mortífero da boca — ou então — Você está ouvindo? São seus pulmões chorando...

E fazia caretas. Eu quase sempre ria, ela dava meia volta e voltava os olhos para a conversa da mesa, passava ainda um bom tempo olhando aqueles cabelos castanhos que terminavam num embaralhamento de cachos mal definidos. Eu deveria ter ciúmes de vê-la assim tão atraente perto de todos aqueles homens, mas não podia. Madalena nem mesmo agora é minha.

Hoje em dia, um fervor sobe as veias só de ver alguém se sentar naquela cadeira. Ah, vai, não aquela cadeira. Não se pode nem encostar em seu nome escrito com tinta na árvore que ficava ao lado:

— Não se marca a árvore assim com tanta grosseria Tomás, não a cortando e a sagrando dessa forma, que ser-humano insensível. Se for pra escrever, tente não agredí-la tanto, dessa forma talvez seja melhor... — E ela colocou os dedos na lata de tinta que pintava o bar e escreveu “Mada” em branco no tronco.

— Por que “Mada”? — Eu perguntei, e até hoje me marca a sua resposta...”