Madalena

2 Itinerário habitual


Os dias demoram a anoitecer, sou escravo do tempo, do vento e dos meus passos, que teimam em retomar aquela vaga memória da qual nem mesmo eu me lembrava. Noite passada, estava a choramingar aos pés de uma amiga, de questionar os destinos infelizes da vida quando ela já entediada da minha ladainha disse, com aquela voz brusca e autoritária:

— Pois escreva Tomás!
— Escrever? — Eu disse, bastante indignado, como se palavras curassem a saudade — Como assim escrever, menina? Enlouqueceu?
— A escrita é a forma mais fácil de se comunicar com o seu eu, e a mais viável para se esquecer.
— O problema é que não quero esquecer Madalena. Não vou escrever!
— Madalena não, esquecer o seu sofrimento. Escreva para entender o que te aflige, para enfrentar a saudade. Isso te fará melhor. Ainda que seja, por hora, somente uma fuga da realidade. Porém, Tomás, faça isso quando necessário e só. Você tem dessas de se entregar ao todo quando o todo, na verdade, não é nada demais.

Naquele momento eu calei, pus-me a pensar em suas palavras e foi dessa forma que rabisquei a minha primeira folha. Um diário de cartas, talvez, cartas para Madalena — para não, sobre ela. Cartas fantasiadas de sonhos e lembranças, Madalena, apesar da rudez disfarçada de seu ser, gostaria de cartas assim, de tanto apego. Decido o agora, então, escrever para desafogar, quando der e se der. Com toda certeza, a primeira carta é sempre a mais bela de todas, aquela em que você tenta resumir tudo o que sente em poucas estrofes e desaba ali os pensamentos reprimidos. As que se seguem são, na maioria das vezes, explicações de tanto resumo em pauta, resumo esse que não dizia nem em porcentagem tudo que precisava dizer.

Todas aquelas palavras infindáveis me fizeram bem melhor, mas a carta estava intacta, sem ter quem ler, sem ter onde por, sem ter o principal, um remetente. Morro de felicidade ao imaginá-la lendo e abrindo aquele sorriso disfarçado de quem não quer admitir que gostou, mas me entristece poder existir outra possibilidade, não a de que não leria porque não estava presente, e sim daquela que ecoa: “Por que ler uma carta de alguém que foi mais um alguém em sua vida?” Talvez porque essa era a única carta em que seu nome ainda vinha grifado.