Madalena
9 À mercê II
— Repito, não subestime as mulheres.
— Você era amiga de Madalena? Parente? Pode me dizer seu sobrenome? Porque ela nunca o fez.
— Sou apenas uma conhecida.
— Então como sabe que a conheço? Ou até mesmo, que a sua falta me aflige?
— Estava no enterro e te vi parado, sozinho, onde terminava o morro, observando tudo em silêncio.
— Não queria vê-la de perto.
— Por que?
— Não quero que me faça mais perguntas a respeito dela.
— Desculpa Tomás, não quero que me interprete mal, só estava tentando entender porque está assim.
— E eu o porquê de ter vindo aqui.
Charlotte se assustou um pouco com minha resposta, eu, sem dúvidas, estava e ficaria nervoso com situações iguais a esta, ou então, semelhantes. Ninguém em sã consciência questiona sem tantas ininterrupções a sua perda, considerada ainda recente. Ela mal me conhecia, conversamos por pouco mais que cinco horas, no máximo, e já se punha no direito de vulnerar as minhas aflições e sentimentos como o ocorrido.
— Devo dizer que gostei muito de você, portanto, vim apenas para visitar, mas se minha presença te incomoda, já estou de saída.
— A sua presença não me incomoda, mas se for para lançar um bombardeamento de perguntas, suponho que fique em silêncio.
— Perdão, não o farei outra vez.
— Assim sendo, seja bem-vinda.
Ela assentiu agradecida e andou um pouco, parecia observar cada mísero detalhe de minha casa, aquilo me trazia um leve desconforto. Passou os dedos pelo sofá, o contornou e se sentou.
— Tudo bem se eu me sentar?
— Sim — Pensei em continuar com as respostas monossilábicas, mas aquilo não me levaria a nada, já que as intenções de Charlotte não teriam sido ruins — Quer tomar alguma coisa? Suco, café, ou... Agua?
— Por favor, traga-me um pouco de água.
Fui até a cozinha, agradecendo as divindades por ela não ter escolhido as primeiras opção. Não havia nenhuma delas em minha cozinha. Enchi um copo d’água, coloquei algumas pedras de gelo e levei para Charlotte.
— Muito obrigada Tomás. Parece que você gosta de escrever, pude ver a quantidade de papéis preenchidos sobre sua mesa.
— São cartas.
— Olha só, que interessante, também adoro cartas.
— São cartas para Madalena.
Ela me pareceu um pouco confusa nesse momento, a dúvida que rondava a sua cabeça era provavelmente a de qual justificativa alguém escreveria cartas para quem já se foi? Não tiro sua razão, isso era mesmo de se perguntar.
— E pretende entregá-las?
— Não. Não são destinadas à Madalena na verdade, são destinadas a qualquer pessoa que queira saber sobre Madalena.
— Isso é muito interessante Tomás.
— Obrigado.
— Sei que não devo fazer muitas perguntas, mas lhe juro, achei super interessante o que faz. Gostaria muito de saber sobre Madalena, portanto, posso ler as cartas?
Isso não mudaria realmente nada, e seria bom ter uma opinião de alguém sobre as cartas, com certeza. Não vi problemas em deixá-la ler. Fui até a mesa, peguei as quatros cartas e a entreguei.
— Muito obrigada, fico feliz que tenha deixado — Ela me disse.
Então, pegou seu óculos que estava no bolso, vestiu e começou a passar os dedos pelas frases. Alguém, pela primeira vez, estava lendo os meus pensamentos. Ela dava alguns sorrisos disfarçados e vez ou outra, fazia algumas caretas de quem também sentia a minha dor. Leu a primeira carta com tamanha fugacidade, e assim que terminou a segunda fez uma pausa antes que começasse as outras e me perguntou:
— Mas Tomás... Por que “Mada”?
Havia me esquecido de que não dissera a resposta. Ri ao pensar nela, não que fosse besteira. Olhei para Charlotte e ela esperava ansiosa, então respondi. Talvez seria a única a saber essa resposta.
— Nas palavras de Madalena, eu repito: Meu caro, Tomás, Mada se faz quase em uma apologia. Apologia para quem ama pela metade tudo aquilo que é gente, por exemplo, eu te amo — Foi a primeira vez que ouvi-la dizer que me amava, arrepiou-me até os fios do cabelo — Mas não te amo como ama uma mulher, o seu namorado. Te amo não de lembrar todos os dias em você, mas de passar em frente a sua casa e parar para tomarmos um café. Te amo não querendo casar para nos prendermos em uma casa e rotina, te amo como quem vê e sente vontade de ficar por aquela noite, apenas para matar uma saudade esquecida e fazer com que toda vez pareça a primeira vez. Mada é quase uma palavra, é amor total por si próprio. Mada sou eu também. A Mada.
Charlotte abriu uma expressão em seu rosto de quem estaria impressionada, pareceu-me convincente, embora não fosse fácil compreender o real significado da palavra, eu mesmo, passei alguns dias pensando em seu real e estrondoso significado. E até hoje temo que falte muito a entender.
— Madalena parecia ser um ser de muita luz.
— E era — Eu disse.
Charlotte desviou sua atenção de mim e minhas ladainhas, por alguns segundos passou a fitar a janela, com o olhar distante, não de quem observava o horizonte e sim de quem estava com os pensamentos a tona ladeando sua cabeça. Quando seu olhos voltaram-se para mim, estavam cheios d’água.
— Por que você Tomás? — Ela me perguntou.
— Charlotte? — Admito que não havia entendido a pergunta.
Aproximei-me para poder dar algum consolo, embora parecesse que era eu o motivo de quase pranto, mas eu nunca tinha feito coisa alguma em momento algum. Quando cheguei mais perto, permiti que minhas mãos tirassem os fios de cabelo que atrapalhavam sua visão, num susto ela enxugou os olhos e desconversou o que falara anteriormente. Continuei sem entender absolutamente nada e tive receio em perguntar, aquele instante foi constrangedor para ambos. Nos olhávamos com ar de questionamento e não dizíamos sequer uma letra. O silêncio é quase sempre confortável... Quase sempre.
— Quer mais água? — Foi o mais criativo que consegui pensar no momento.
Ela sorriu tímida e balançou a cabeça negativamente.
— Não, obrigada Tomás, eu já estava de saída, preciso arrumar muitas coisas no trabalho e agora vejo que perdi a hora. Desculpe-me, apareço mais tarde, te escrevo, ou qualquer coisa do tipo — Ela recolheu suas coisas com rapidez e foi logo saindo de minha casa — Desculpe novamente, nos falamos depois. Tchau.
E eu continuei sem falas, sendo um imbecil por deixar que chegasse àquele ponto. Eu poderia ir na casa dela quando ela voltasse de seu emprego, mas não sabia que horas Charlotte sairia dele. Aliás, eu não sabia onde ela trabalhava, nem onde ela morava, eu, basicamente, sabia apenas seu nome. Não entendo se sou pouco desconfiado e ingênuo o bastante para me deixar levar assim por desconhecidos, ou se foi Madalena que me deixou mal acostumado. Devo ter vindo com um tipo de defeito de fábrica, desses que não estão incluídos na garantia. Ou você aprende a viver e a se virar, ou não lhe cabe mais alternativas para escolher.
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