Madalena

10 Quinta Carta


“Sobre sua vida pessoal eu me considerava ignorante, sabia a cor de seus olhos, sua estatura, sua personalidade e todas as outras coisas que estavam a minha vista de cor, mas não tinha conhecimento sobre o que de fato, não interessaria a ninguém. Talvez que seus pais morreram quando ela tinha dezesseis anos e passou a morar com os tios, mas os deixou dois anos depois quando decidiu ter uma vida independente. Talvez isso e só.

Nunca soube o que aconteceu em sua vida entre os dezoito e os vinte e três.

Não é o suficiente, sou apaixonado por alguém que não conheço bem. Sei seu nome, Madalena. Talvez isso e só. Mas Madalena o que? Madalena Leal seria uma ótima, mas não foi.

Sei que a cicatriz do canto direito de sua testa, quase sempre escondida pelos cabelos foi da vez em que roubou uma bicicleta por engano e quando olhou a cestinha levou tanto susto que perdeu o controle e bateu no poste a frente. Ela nunca contou o que tinha na cestinha, mas a história todo mundo sabia. Talvez isso e só.

Sei que odiava dormir com os pés descobertos porque uma vez, na casa de um amigo — Amigo era como ela dizia, porque sabia que eu morreria de raiva se usasse outros termos — depois de tanto assustá-la com lendas sobre fantasmas e demais, amarrou uma corda em seu pé a noite e o puxou, Madalena levou tanto susto que quebrou a cabeceira traseira da cama e dizia também que talvez tivesse quebrado até a própria cama. Talvez isso, mas isso e só.

Sei que ela nunca ficava pro café no outro dia. Quando acordava ela já tinha ido, também nunca via ela partir. Não sei porquê, mas sei que sim. Já tentei virar noites acordado para poder me despedir, mas se por um segundo me pegava no sono, era nesse exato segundo que ela ia embora. Nunca soube sobre os outros homens em sua vida também, assim como nunca soube se sabiam de nós. Nunca soube sobre sua primeira vez, ou, seu primeiro beijo, mas desejo fortemente que o último tenha sido meu.

De cada coisa contava um pouco, muito pouco, mas eram muitos “poucos”. E tudo bem que nem mesmo eu vá entender essa frase quando a ler novamente, mas sei, pelo menos, que Madalena riria ao me ver embaralhando as palavras em uma tentativa falha de dizer tudo muito rápido, quase como um trava-língua. Ah...

Sei isso. Mas talvez, só isso”

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.