Ma Chérie
28 Surpresa
Notas iniciais
Pov Anne
Foi difícil acordar cedo no dia seguinte. Meu corpo inteiro ainda estava em ritmo de festa, querendo descansar para depois cair na folia. Eu nem ao menos poderia começar a descrever como foi o Festival de Primavera. Uma loucura deliciosa do início ao fim. Pronto, escolho essa simples frase para dizer o que aconteceu.
Agora era hora de retornar a realidade, fria e capitalista, que me obrigava a trabalhar todos os dias para sustentar sozinha um apartamento. Ah se não fosse a ajuda extra que minha linda e santa mãezinha me enviava mensalmente. Mesmo que escondido de meu pai. Soltei um longo suspiro, balançando a cabeça de um lado para o outro afastando os pensamentos sobre aquele homem. Levantei em um pulo para a cama e como de praxe, levei meu celular para o banheiro para tomar um banho cantando desafinadamente e dançando debaixo do chuveiro. Mas não sem antes enviar uma mensagem por whatsapp para Nicoly.
Era como no automático. Sempre quem acordava primeiro, lançava o primeiro bom dia. Dessa vez, eu fui a primeira a despertar, mas sabia que em uma hora no máximo aquela loira iria me responder. Nossa amizade apenas fez crescer depois do nosso primeiro encontro no Rio de Janeiro, graças ao simpósio que fizemos parte. Se há algo a mais? Eu não sabia responder, nunca sabia. Brincávamos em flertes muitas vezes, algumas vezes assustava-me o quanto eu falava a sério mesmo que aparentando ser brincadeira.
Uma vez cheguei até mesmo a sonhar com Nicoly. Um sonho nada inocente e puro, pelo contrário. Havia acordado suada e ofegante, o corpo todo sensível e pedindo para ser aliviado. Claro que eu não contei isso para ninguém, procurava até mesmo não pensar muito sobre ou iria enlouquecer finalmente.
Sai do banho e tive de me apressar, já que tinha me distraído brincando enquanto estava debaixo da água. Ao sair de meu apartamento, quase que em sincronia, Liz estava a porta com Victoria em um beijo apaixonado.
–Urgh, eu não preciso ver isso todas as manhãs ok? Troca de saliva lésbica demais para mim – reclamei prontamente.
Elas demoraram alguns segundos para se separarem, Liz corada e com um sorriso culpado, Victoria com um olhar cafajeste e um sorriso travesso. Revirei os olhos, ainda me perguntava como elas poderiam ser tão diferentes e ao mesmo tempo combinarem tanto. Seguimos para o elevador ainda falando sobre o festival, no ônibus as duas correram para pegar os únicos acentos livres um do lado do outro. Restou para mim sentar ao lado de um rapaz com traços indígenas, até que bonito. Peguei prontamente meu celular para checar o whatsapp e... Nada, nem ao menos visualizado ainda. Segurei um suspiro e me recostei ao banco assim que o ônibus começou a se movimentar.
–Ei, bom dia! – garoto ao meu lado me cumprimentou com um sorriso de lado.
–Bom dia – respondi mais por educação.
–Tudo bem? Eu sei que pode parecer estranho, mas já te vi nesse ônibus outras vezes, mas não tive coragem de chegar.
Sério que aquele pivete estava dando encima de mim? Contive todas as respostas mal criadas, do tipo “dur, esse é o ônibus que vai para centro e passa pontualmente” ou então “ah me viu? Que engraçado, nunca notei você”. Porém optei apenas por um sorriso sem graça, voltando a atenção para meu celular acessando o instagram em busca de atualizações.
–Eu me chamo Lucas – ele insistiu.
–Oi Lucas – respondi mal o olhando.
Estava eu ali sendo paciente com um moleque que explodia de hormônios, movendo meu dedo sobre o display de meu celular quando vejo uma atualização recente de Nicoly. Meus olhos se abriram – sem piadinhas de como eles já são fechados, ok? – e meu coração falhou uma batida. Era uma imagem com edição, contendo três outras fotos montadas verticalmente uma do lado da outra. Em todas as três ela estava com uma morena do lado. Uma puta morena com um sorriso lindo. Na primeira, elas estavam abraçadas e rindo. Na segunda, a morena estava em seu colo dando tchau para a câmera. Na última, elas pareciam fazer uma selfie e faziam aqueles típicos bicos com os lábios, porém com as bocas muito próximas uma da outra. Depois de um tempo, eu já conhecia praticamente todos os amigos de Nicoly, e não eram poucos, mas em nenhum momento ela falou daquela morena!
–Ah olha só para aquilo – o moleque do meu lado comentou em um tom resmungado.
Minha atenção foi tirada da foto, eu piscava várias vezes e vi garoto fitando diretamente para o banco onde estava Liz e Vic. Liz com a cabeça deitada no ombro de minha amiga e esta fazendo bobamente carinhos em seu braço.
–As duas gatas e se pegando, é tão desperdício – ele comentou negando com a cabeça – O que será que leva duas garotas a se pegarem assim? Tipo, é meio errado certo? Uma brincadeira ou outra, um pouco é excitante. Mas elas estão sempre juntas, acho que tão se pegando bem a sério.
–Olha aqui pivete – eu já estava estourando, porém falando ainda em um tom baixo para não chamar atenção. Ele me olhou surpreso – Cale a porra dessa boca que você não sabe nem um terço das coisas dessa vida. Pare de pensar com a cabeça de baixo e tentar achar lógica apenas pelo sexo ok? Nem tudo se resume a isso. Elas se amam, elas são felizes, então cuida da porra da tua vida e se preocupa em virar homem, porque só moleques imbecis e burros pensam assim.
–Hey, eu só estava comentando! – o garoto tentou se defender.
–Comenta a vida da tua avó! Pirralho!
Levantei do lugar e fui para a frente do ônibus. Meu humor havia se tornado uma tempestade furiosa. O pior? Eu não sabia dizer se era pela foto, pelo fato dela não ter me respondido ainda ou por aquele moleque idiota. Liz estava tão no mundo da lua depois de um beijo de despedida que nem notou a minha mudança, o que eu agradeceria pois ela viria com um verdadeiro interrogatório.
Felizmente eu amava meu trabalho, apesar de reclamar bastante. Tentei me concentrar nas aulas da manhã, mas de hora em hora eu olhava o meu celular. Sem nenhuma mensagem de Nicoly. Isso não acontecia com tanta frequência, não sem um aviso prévio ou coisa parecida. Ela deve ter transado com a morena e estar dormindo ainda. Sim, era exatamente isso. Oh nossa, e eu aqui que nem idiota esperando uma mísera mensagem no whatsapp. Então eu simplesmente desliguei o meu celular, me recusando a dar mais ousadia a situação e finalmente me entreguei ao meu trabalho, dando graças a Deus por ter de ocupar minha mente com algo que eu realmente amava.
Então veio a hora do almoço, Liz apareceu convidando-me para almoçar com ela e Victoria. Prontamente declinei o convite, primeiro que eu não queria ficar pagando de vela do casalzinho meloso, segundo que não queria arriscar que elas percebessem o quanto eu estava abalada. Logo elas descobririam que era por causa da Nicoly e ficariam me provocando. Fui almoçar no meu segundo lugar favorito enquanto trabalhava, já que o primeiro era onde estariam Liz e Victoria.
Parei em frente ao Subway que tinha a um quarteirão da escola. Era um horário de pico e estava cheio como deveria estar. Mas eu poderia aguardar enquanto minha mente ficava me torturando com aquelas ideias venenosas de Nicoly com a morena. Era tão evidente que eu estava com ciúme que eu ficava mais irritada ainda por ser tão claro isso.
–Pode pegar o barato do dia para mim?
O meu susto foi tão grande que eu quase derrubei a pessoa que estava na minha frente ao saltar. A senhora me olhou feio, mas eu nem consegui pedir desculpas. Meus olhos apenas encaravam a loira que estava ali ao meu lado. Nicoly. Estava. Ali. Do. Meu. Lado. Como diabos isso era possível?!
–Eu pifei você? – Nicoly indagou começando a rir.
–Mas... Você... Como?
Eu nem conseguia formular uma frase. Como o meu tormento simplesmente se materializava do meu lado, no Subway? E ainda fodidamente linda. Nicoly usava óculos ray-ban estilo aviador, uma blusinha listrada em branco e azul marinho, um short azul escuro e curto, nos pés conserve branco. O cabelo estava uma deliciosa bagunça. Ele sempre era aquele tipo desorganizado bonito. Os lábios que tinha o desenho mais perfeito tinha um sorriso divertido, os dentes brancos sendo exibidos.
–Surpresa! – ela exclamou abrindo os braços e rindo de novo.
–O que faz aqui? – perguntei ainda em choque, ainda não tinha caído a ficha.
–Eu já disse, uma surpresa. Você deve estar com fome, está tão lenta!
–Não! Tipo... Mas que inferno – praguejei e balancei a cabeça de forma negativa.
Chegou a minha vez de ser atendida, vendo como eu estava atordoada, Nicoly tomou a frente e foi fazendo o pedido por mim. Sim, ela sabia exatamente como eu gostava do meu sanduiche assim como eu sabia o dela. O que não se conversava em uma madrugada de insônia, certo? Mal notei quando Nic pagou a conta e me puxou para uma mesa. Apenas despertei quando me sentei a sua frente.
–Espera – pedi antes dela abocanhar o sanduiche – Você veio do Rio de Janeiro. Fazer uma surpresa.
–Isso, finalmente está raciocinando! – Nicoly abriu um sorriso debochado – E ainda dizem que as loiras são burras e os japoneses superdotados.
–Idiota!
–Graças a Deus, você está voltando ao normal.
Ela riu e abocanhou o sanduiche. Eu pisquei diversas vezes e neguei com a cabeça. Nicoly era simplesmente assim, inusitada. Uma vez demorou quase uma hora para me responder no celular, simplesmente porque parou em um jardim para ficar fotografando uma borboleta. Ainda digitou um discurso de como elas eram raras em cidades grandes e ela não poderia deixar de registrar algo tão lindo e inesperado. Ela sempre se atrasava, por ser distraída e meio avoada, tudo o que a encantava a fazia parar e admirar. Isso poderia coloca-la em problemas, mas de certa forma eu achava fofo.
–Ok, então deixa eu te explicar, você não vai acreditar no que aconteceu – Nicoly começou de uma maneira agitada – Lembra que tinha uma galera fazendo uma rifa de um carro? E que o Tadeu me encheu o saco até que eu comprasse uma para ajudar?
–Sim, você ficou choramingando pelo dinheiro – lembrei.
–Adivinha quem ganhou?!
Eu a fitei incrédula e nós começamos a rir simultaneamente. Oh Deus, a risada dela conseguia ser ainda mais gostosa de perto. Os fones do celular nunca iriam reproduzir aquele sono de uma maneira tão cristalina.
–Agora tenho um pálio verde esmeralda. Fizeram até uma festinha ontem, mas eu quis logo estrear ele e pensei em vim para cá. Sou brilhante, não é?
Tão brilhante que me fez lembrar da morena da foto. Estreitei os olhos, não, não ficaram fechados por causa disso. Comecei a comer o meu subway apenas para não comentar sobre, pois a pergunta estava na ponta de minha língua.
–Ok, desembucha – Nicoly falou como se lesse meus pensamentos.
–O que? – me fiz de desentendida.
–O que você tem? Pensei que ia ta contente, dançando de alegria, literalmente. Juro que te imaginei dançando assim que me visse – Nicoly comentou em um tom divertido, mas fitando diretamente meus olhos.
–Nada, você me deixou realmente surpresa – tentei me fazer de convicta, mas logo a minha curiosidade e ciúme estavam falando mais alto – Ah, aliás, você ficou muito bem na foto que postou no instagram.
Sutileza deveria ser meu nome do meio. Estava abordando o assunto sem me denunciar. Não comentei pela falta do bom dia de resposta, afinal ela deveria estar na estrada e sem sinal.
–Você visualizou e nem curtiu? – ela fez beicinho e depois bebeu um pouco do suco que tinha comprado – Ah, tentei te ligar, seu celular descarregou?
–Desliguei, estava me distraindo na aula – respondi dando de ombros, nunca admitiria o real motivo de ter desligado é claro – Porém eu não consegui dizer quem era a morena – mordi a língua para não chamar de vadia – que estava com você.
–Fala da Cecília? É uma caloura, apareceu na festa e é muito legal – Nicoly disse como se fosse nada demais – Ela fica bêbada muito fácil e nem soube disfarçar que era bi.
–Não sabia que gostava de garotas mais altas que você – disse sem pensar, entortando a boca.
–Não estava a fim da Cecília, mas ela era uma caloura e o pessoal poderia se aproveitar mesmos em querer... Espera, você ainda está de bico – ela observou descaradamente a minha boca e depois sorriu — Está com ciúme?
–Ciúme?
Voltei prontamente a comer, mesmo que meu estomago estivesse embrulhando por estar sendo encurralada.
–Sim, ciúme. Da Cecília.
–Eu só fiquei curiosa de quem era ela. Era uma garota bonita que não tinha visto você comentar ainda.
–Sim, bonita e cheirosa – Nic acrescentou e eu a olhei afiado – Tinha a pele maciazinha e...
–Ok, informação demais! E não, não estou com ciúme! Só não preciso saber o que você pensa sobre outras mulheres e muito menos com quem você fica, ok? Ok. Agora vamos comer que meu tempo de almoço está voando.
Nicoly soltou uma risada abafada e deixou a cena passar. Eu sabia que ela sabia que eu estava com ciúme, mas a loira era inteligente demais para entender que não deveria provocar-me com aquilo. Provavelmente eu deixaria tudo ali e sairia pisando duro para não admitir que estava sendo ciumenta. Um silêncio se formou enquanto comíamos, Nicoly estava relaxada, as vezes balançando ao som da música do ambiente, seu pé marcando o tempo da canção. Ela logo se distraía com alguma coisa, e então voltava o foco para a comida. Não se importava com o silêncio, nunca se importou na verdade. Abri um sorriso sem nem ao menos perceber, era divertido observá-la, era melhor ainda saber que ela estava ali, bem na minha frente.
–Hey – chutei bem de leve a perna dela pra chamar sua atenção, enormes esferas azuis me fitaram e eu sorri de verdade – Adorei a surpresa, ok?
–Eu sabia que iria adorar – Nicoly se gabou e riu – Mas você poderia me emprestar seu apartamento? Eu meio que saí sem planejar nada, apenas peguei a estrada e vim. Tentei com a Liz, mas a Victoria não gostou da ideia.
Claro que a Vic não iria gostar, ela morria de ciúmes da loira a minha frente.
–Falou com elas? – indaguei.
–Sim, já que a senhorita não atendia – Nic revirou os olhos – Eu precisava de um rumo aqui na cidade. Perguntei por você e Liz me falou daqui. Tentei pedir o apartamento, mas eu escutei as recusas da Victoria e Liz deu uma desculpa educada, bem típico dela. Então me resta você, meu anjinho oriental, eu estou morrendo de cansaço da viagem porque mal dormir depois da festa.
Eu havia esquecido como Nicoly conseguia fazer perfeitamente uma expressão de cachorro vira-lata abandonado em uma noite de frio e chuva. Soltei um suspiro e peguei de minha bolsa as chaves do apartamento. Passei o endereço para ela e depois de conferir as horas, tratei de terminar rapidamente o meu sanduiche.
–Quando pretende voltar para o Rio? – questionei terminando de limpar minha boca com o guardanapo.
–Depois que saímos para jantar e você pagar a conta – Nic deu de ombros.
–Vamos jantar e eu que vou pagar? Que ideia é essa?
–Vim aqui só para te ver e paguei o seu subway! É o mínimo que você poderia fazer por mim.
–Mas não é perigoso pegar a estrada de noite? – desconversei prontamente.
–Não tenho onde ficar.
–Fica no meu apartamento, é só uma noite e tenho um sofá consideravelmente bom.
–O espaço que fica ao seu lado da cama me parece melhor.
–Ele é reservado para homens sarados e gostosos.
–Porque você nunca experimentou belas curvas ao seu lado, ou melhor, sobre seu corpo.
–Um dia, quem sabe? Mas não agora.
Pisquei um olho divertida e levantei, colocando minha bolsa sobre o meu ombro. Nicoly tinha um sorriso divertido enquanto me fitava. A expressão dela me lembrava algo do tipo “você não perde por esperar”. Desviei o olhar enquanto anotava o endereço do apartamento para ela usar no GPS. Despedi-me com um beijo estalado na bochecha dela, logo levando os dedos ao cabelo louro para bagunça-lo.
No caminho de volta, um sorriso idiota brincava em minha boca quando finalmente tinha percebido o que tinha acontecido. Nicoly estava ali para me fazer uma surpresa. Impensada e talvez até imprudente já que ela pegou a estrada pouco depois de uma festa. Mas ainda assim, ela estava ali e iriamos sair para jantar pela noite. Parei bruscamente antes de entrar na Escola de Dança, levei minhas mãos para o meu estômago e mordi o lábio inferior com força.
Puta que pariu, eu estava com borboletas voando alvoraçadas em meu estômagos. Ah isso definitivamente não era um bom sinal!
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