Ma Chérie
29 Sensações diferentes
Notas iniciais
Pov Anne
–Você está agitada – Liz comentou ao meu lado, dentro do elevador.
Dei um chute mental em mim mesma por não conseguir disfarçar o quanto eu estava abalada em estar cada vez mais perto de Nicoly. Dizer que eu pensei nela o tempo todo era eufemismo. Às vezes me desconcentrava na própria aula, pegando-me imaginando o que ela estaria fazendo em meu apartamento. Eu sei, pode ser loucura, eu vi a garota apenas algumas vezes no Rio de Janeiro e simplesmente dava as chaves de minha casa para ela. Porém não era bem assim. Aquela loirinha fazia parte de minha vida mais do que pessoas próximas fisicamente de mim. Por ela, eu até me debatia para poder digitar por um bom tempo no celular, sendo que eu odiava coisas escritas por causa de minha dislexia.
Estava tudo bem quando ela estava em horas de distância de mim. Eu sabia como lidar com aquele friozinho na barriga que me acometia as vezes quando nos provocávamos. Mas com ela tão presente, as dúvidas que assolavam a minha mente se mesclavam com a felicidade de tê-la tão perto. Eu nunca tive preconceito contra homossexualidade, tinha uma vadia lésbica como melhor amiga, mesmo que agora Victoria estivesse perdidamente apaixonada pela ruiva do meu lado. Mas quando se tratava de você, com dúvidas se estava gostando de uma garota ou não, sendo que a vida toda gostou de machos lindos e viris, o nó que ficava em sua mente era completamente cego e complicado demais de desatar.
–Se quiser, você e mademoiselle Nicoly podem jantar lá no nosso apartamento – Liz convidou assim que as portas do elevador se abriram.
–Não – neguei e soltei um longo suspiro – A Nic se autoconvidou para jantar comigo fora. Estou pensando em leva-la naquele restaurante oriental perto do Jardim de Santa Mônica.
–Oui, ela irá apreciar bastante a sua escolha. Mas tome cuidado que é meio de semana e o Jardim a noite é um tanto perigoso, está bem?
Era nesses momentos que eu entendia como Victoria se apaixonou tanto por aquela ruiva burguesinha. Ela estava sempre bem vestida, mesmo que não usasse roupas caras. Sua postura era o orgulho de qualquer professora de etiqueta. Mas seus olhos achocolatados refletiam uma genuína garota boa e gentil.
–Pode deixar madame. Também porque a Nicoly distraída do jeito que é, pode tropeçar em um ladrão, pedir desculpas e sair andando sem nem notar que perdeu a carteira.
Liz riu divertida e parou a frente da sua porta, entrando logo depois. A ruiva sempre chegava primeiro que Vic. Como eu dei minha chave para Nicoly, tive de bater uma, duas vezes. Mas ninguém veio atender. Soltei um suspiro e revirei os olhos, tentei girar a maçaneta e a porta estava aberta. Já estava preparando um sermão por ela ter deixado a porta destrancada, quando a encontrei deitada no sofá da sala. Eu tive de morder forte o meu lábio para não rir alto da posição que ela estava! Nicoly estava deitada de costas, uma perna erguida apoiada no encosto do sofá, a outra com o pé apoiado no braço. Um de seus braços caído para fora do móvel, a outra mão dentro da blusa repousando dentro da barriga. Ela estava toda torta! Como alguém conseguia dormir assim?! Não resisti a bater uma foto com meu celular e rir baixo. Aproximei e ajoelhei perto dela, ia tocar o seu ombro para acordá-la, mas parei por um instante com a mão ainda no ar, no meio de caminho.
Ela estava tão... Linda. Seu semblante era tão calmo que parecia pecado despertá-la, mesmo que o resto de seu corpo estivesse em uma posição tão esquisita. Parecia uma daquelas crianças com mal dormir medonho. Ao contrário do que planejava de início, eu parei ali para admirá-la. Gravei na minha mente cada traço daquele rosto, o contorno suave do nariz fino, o desenho perfeito da boca, as sobrancelhas bem feitas, formato do queixo, o modo que o cabelo moldava seu rosto tão suavemente. Acho que até aquele momento, nunca notei tantos detalhes em alguém.
Mas então ela moveu sutilmente o corpo e deu sinais de que iria despertar, respirando mais fundo. Recuei com o coração batendo alucinadamente dentro de meu peito, mas meu corpo congelou no lugar se recusando a obedecer minha ordem clara de fuga. Ela abriu os olhos um pouco atordoada, até fixar aquelas íris de um azul profundo em mim. A troca de olhares foi intensa, poderia ter durado um tempo inenarrável, pois eu era incapaz de desviar o meu olhar do dela. Nicoly ergueu a mão que estava caída, bem devagar como se me desses chances para escapar, a aproximou de meu rosto e acariciou minha bochecha com a ponta dos dedos, finalizando com um gentil gesto de colocar os fios lisos de meu cabelo atrás da orelha. Então ela sorriu, um sorriso que eu nunca havia visto nela antes, um que me deixou tremula e fez aparecer lindas covinhas.
–Você é linda, Anne – Nicoly murmurou.
Eu corei extremamente forte. Eu recebia elogios o tempo todo, meu estereótipo japonês chamava a atenção naturalmente. Mas com ela ali, com os olhos azuis fixos em mim em uma intensidade intimidante, a voz em um tom baixo e sincero, eu sabia que ela falava aquilo de verdade.
–Vou tomar meu banho – levantei bruscamente – Vamos jantar e temos de ir cedo para sair cedo, é perigoso ficar até tarde na rua. Vo-você já t-tomou banho?
Ótimo. Comecei a gaguejar. Isso sempre acontecia quando eu estava nervosa demais. Na minha adolescência era o fim, mas depois que passei a ficar mais desinibida, tinha praticamente sumido.
–Já sim, só vesti a mesma roupa porque trouxe nada, tem problema? Não vai me levar para um lugar chique, vai? – Nic indagou e sentou no sofá de forma preguiçosa.
–Do jeito que fiquei sem dinheiro depois do festival, capaz de eu te levar para uma barraquinha de cachorro-quente na praça.
Ela riu e se espreguiçou. Movimento errado, moça! Isso fez a blusa listrada dela se erguer e exibir uma linda barriguinha, lisa do jeito que toda mulher queria nascer com uma. Desviei meu olhar rapidamente e engoli em seco. Deus, é só uma barriga, eu via mulheres o tempo todo só de top dançando! Mas nenhuma delas era a Nicoly, ok.
–Não ia tomar banho? – a loira questionou, sentando melhor no sofá – E tinha razão, posso morrer nesse sofá tranquilamente.
Respirei fundo, revirei os olhos e decidi parar de ser uma adolescente com problemas com hormônios homossexuais. Se é que isso existia. Dei de ombros e finalmente fui tomar o meu banho.
(...)
–Oh sim, um restaurante oriental, você vai se sentir em casa!
Revirei os olhos, mas sorri. Realmente eu adorava aquele lugar. O Sr. Saito era o único japonês que eu conheci na vida que era realmente amigável e com certo calor humano. Meu pai? Era educado demais, frio demais, conservador demais. Tudo demais ao mesmo tempo que todo o resto que exigia um pouco de tato humano era de menos. Ele não era nem um pouco empático ou simpático. O mesmo era para os meus parentes ligados a árvore chata e oriental da família.
Assim que entrei no restaurante, Ayumi, filha de Saito e gerente do lugar, veio me cumprimentar com um lindo sorriso. Perguntou como eu estava e o porquê de ter desaparecido. Enrolei como sempre, até que a pequena – ela era ainda menor do que eu – nos levou até uma mesa mais reservada. Nicoly parecia encantada e distraída no lugar, seus olhos se focavam nos pontos mais inusitados. Como na prateleira que era cheia de bonsais, árvores em miniaturas. Ou quando levou quase cinco minutos inteiros olhando para uma estátua de um samurai, de quinze centímetros, um detalhe que passava despercebido para a maioria por estar em uma mesinha em um canto. Deixei que ela explorasse o lugar enquanto observava o cardápio, apesar de saber de có e salteado os pratos servidos ali, queria era conferir os preços. Eles sempre aumentavam anualmente.
–Gostei daqui – Nic finalmente se manifestou, esticando as pernas debaixo da mesa e as cruzando – É um ambiente lindo e aconchegante.
–Me faz gostar da minha parte oriental – respondi distraidamente, ainda passeando os olhos pelo cardápio.
–Você me pareceu uma dessas japas que sabem nada do mundo japonês.
–Ah eu sei, toda a tradição, meu pai me enfiou goela abaixo. Não foi um modo reforçador de gostar de algo, então ignoro a maior parte do tempo.
–Sumimasen – Ayumi retornou com o caderninho para anotar os pedidos, pedindo desculpas educadamente por interromper – Papai pede desculpas por não poder vim pessoalmente, mas um dos cozinheiros teve de faltar e ele está auxiliando lá dentro. Já sabem o que vão pedir?
–Eu vou querer o mesmo que ela – Nicoly respondeu e olhou para Ayumi com um daqueles sorrisos lindos e que, infelizmente, eram naturalmente galanteadores – Você fica realmente fofa falando essas palavrinhas em japonês. Sabe falar a língua?
Obviamente que Ayumi ficou corada e tímida. Saito apesar de ser amável e caloroso para um japonês, ainda assim mantinha muito da tradição. Sabia disso porque já passei horas ali conversando sobre isso com ele e a família. Ayumi como a filha mais velha, recebeu ainda mais da cultura do que sua irmã mais nova, Yui. Receber elogios diretos assim sempre a deixavam encabulada. Acabei sorrindo de lado, de certa forma, aquilo me lembrava muito Victoria, que falava simplesmente sem pensar, sendo bastante sincera quando elogiava alguém.
–S-sim – Ayumi falou uma nota mais baixo do que o seu normal, pigarreou e voltou a ser profissional – Sei sim, senhorita. Mas, os pedidos...?
–Para começar eu quero um temaki, eu não consigo vim aqui sem comer um desses – disse prontamente para salvar a menina – Um de salmão, camarão e cream cheese – olhei para Nicoly e ela acenou com a cabeça – Dois, na verdade. E uma barca de 30 peças para depois.
–Algo para beber?
–Sakê! – Nicoly falou mais rápido – Me recuso a vim a um restaurante oriental e não tomar sakê.
–Um sakê tradicional para ela e uma kiwiroska para mim, bem pouca vodka ok? Amanhã ainda tenho de trabalhar.
Ayumi agradeceu e quase correu para longe dali. Cruzei as pernas e relaxei na cadeira, no ambiente tocava o DVD de Maria Gadú e Caetano Veloso, outro ponto forte que me fazia adorar ali. Sempre tinha uma música de qualidade, mesmo que você fosse o único cliente a permanecer no estabelecimento.
–Você intimidou a garota – acusei Nicoly.
–Eu? Mas eu fiz nada! – ela me olhou um tanto surpresa.
–Sei – revirei os olhos e rir falando sem pensar – Mas é seu sorriso, ele é um grande distrativo.
–Meu sorriso? – Nic inclinou mais sobre a mesa, com um início de sorriso no canto da boca, isso a deixava terrivelmente charmosa – O que tem meu sorriso, Anne?
Engoli em seco sabendo que em hipótese alguma poderia dizer que ele era perfeito, porque ela tinha a boca perfeita. Ou que quando ela sorria daquele jeito desleixado, as covinhas apareciam e a deixavam com um ar galanteador. Que alguns dos sorrisos dela, mesmo que seja em fotos, fazia meu coração disparar. Claro que não diria isso! Então apenas dei de ombros fingindo descaso.
–É bonito. Ayumi é tímida. Só isso – e muito mais, pensei.
–Você gosta de meu sorriso – Nicoly afirmou como se decretasse algo, propositalmente sorrindo ainda mais.
Maldita! Estava fazendo aquelas malditas borboletas se agitarem em meu estômago. Não sorria desse jeito, é pecado, um crime!
–É bonito, já disse – tentei continuar neutra, não daria o braço a torcer.
–Que bom, porque você é a pessoa que está me fazendo sorrir bastante esses dias.
Nicoly recostou na cadeira e piscou um olho para mim travessa. Merda. Merda. MERDA! Era só o início daquele jantar e eu estava ficando vermelha por causa de algo assim. Vamos Anne, se recomponha.
–Oh – ri um pouco – Sua vida que deve ser muito chata então para ficar rindo de minhas baboseiras. Aliás, como estão as coisas lá no Rio?
–Tranquilas, a mesma rotina de sempre. Talvez por isso que eu vim para cá, quebrar um pouco desse cotidiano e ver você – ela pausou e acrescentou rápido – e a Liz é claro. Elas estão mesmo namorando?
Aquilo foi a válvula de escape para deixar a conversa normal de novo. Contei a ela prontamente sobre tudo o que aconteceu no Festival de Primavera. Rimos bastante do pedido de namoro da Victoria e o modo como as duas ficaram com cara de “eu-fiz-sexo-a-noite-toda” em um dos dias. Claro que me vangloriei por ter dado a ideia a Liz, considerava-me prontamente como a madrinha daquele namoro tão singular e para os leigos, inusitado.
–É muito bom que a Liz esteja tão feliz aqui – Nicoly falou bebendo um pouco do sakê, os temakis já se encontravam em nosso estômagos e o barco com as peças já deveria estar chegando – Apesar dela ter todo o estereótipo de dama da sociedade e saber dançar conforme a regra, eu to mesmo feliz por ela estar aqui, seguindo os próprios passos.
–Isso me faz lembrar uma coisa. Você nunca me contou direito sobre como pode existir você, Liz, Pierre e Europa na mesma frase – lembrei a olhando com certa curiosidade – É algum tipo de segredo?
–Em partes, se eu te contar teria de te matar – ela deu de ombros e riu – Não é nada demais, mas há certas coisas que envolve aqueles dois e eu não poderia contar tudo. Apesar dessa minha cara de tapada, eu sou bastante leal.
–Conte-me o que puder, não me deixe curiosa. Por favor?
Eu queria saber tudo sobre ela. Queria saber cada pedacinho sobre Nicoly. Eu não entendia essa necessidade, mas sabia admitir que ela existia, implantada fortemente em meu coração.
–Vejamos, eu sempre vive com minha mãe apenas. Meu pai morreu quando eu era bem pequena, mal lembro dele – Nicoly franziu o cenho enquanto buscava as memórias – Dona Clarisse sempre foi esse amor de pessoa que é até hoje. Ela sempre me contou que viveu uma verdadeira história de contos de fadas, mas eu só descobri que era verdade quando meu avô apareceu em minha casa.
–Uma conto de fadas?
–Sim. Ela teve de viajar pela empresa para a Europa, especificamente Genebra. Ficou lá por um ano e teve de retornar para o Brasil. Mas não voltou só. Arthur Sinclair veio com minha mãe e viveram felizes até que ele morreu em um acidente terrível de carro. Mamãe sempre diz que teria entrado em depressão, se não fosse por mim.
–Eu sinto muito...
–Não sinta, eu não tive muito contato com ele então não sofro tanto. Mas gosto de saber que meu pai era um bom homem. Ele adorava as artes e acho que herdei essa veia distraída e apaixonada pelas capacidades humanas de se expressar através da dança, música, pinturas, teatro.
–Ele era alguém importante lá? Em Genebra?
–Sim – ela remexeu na cadeira um pouco desconfortável – Era. Por isso meu avô quando descobriu que tinha uma herdeira, veio fazer a proposta de me levar para lá e me treinar para seguir com seu legado. Quando mamãe passou a recusar, ele literalmente tentou me comprar. Falou que ofereceria qualquer valor para que eu pudesse virar uma Sinclair de verdade. No fim, eu só fui por dois motivos: queria conhecer o resto de minha família e obter uma formação com diploma internacional. Em troca, faria algumas coisas que meu avô queria.
–Que absurdo isso! Esses ricos são tão...! Argh, nem sei dizer, é como se os outros humanos fossem objetos!
–Para maioria é assim, para outros não. Conheci pessoas realmente interessantes, excêntricas, divertidas. Aprendi com elas. Como Liz contou, nos encontramos em uma sala de aula, eu ensinando o português. Mas quando finalmente meu avô deu o ultimato para assumir as coisas definitivamente, eu me neguei prontamente. Teve umas chantagens chatas, não vale a pena lembrar disso, voltei para o Brasil e para a minha mãe. Ingressei na faculdade fazendo uma das coisas que mais gosto.
No tempo perfeito, ela terminou de falar e o nosso prato principal chegou. Uma barca cheia de peças como sashimis e sushis. Para minha surpresa, Nicoly sabia usar muito bem os hashis. Depois daquilo, ficamos conversando amenidades, coisas triviais e rindo de algumas besteiras. Era simplesmente fácil conversar com aquela loira. Às vezes ela se embolava e trocava as palavras, ficando vermelha, rindo sem graça e dando de ombros, me deixando zoá-la e acha-la extremamente fofa. A todo momento eu tentava imaginá-la comando os negócios de alguém, de terninho, olhar sério e cheia de pessoas falsas. Era uma imagem tão incompatível com a mulher a minha frente que ficava cômico em minha mente. Isso não era Nicoly, não. A minha menina era doce e gentil, extrovertida e cheia de criatividade. Espera, minha menina?
Pagamos a conta e eu olhei para o relógio. Dez e meia. Definitivamente não daria para ficar perambulando pelo Jardim, apesar de saber que Nicoly iria adorar. Talvez quem sabe da próxima vez? E ao pensar dela retornando eu almejei que fosse o mais rápido possível. Seguimos em silêncio para casa, cheias e cansadas do dia inteiro.
–Será que a Liz vai ficar chateada por eu mal ter falado com ela mesmo vindo aqui? – Nicoly indagou encarando a porta de minha vizinha enquanto eu destrancava a minha.
–Tenho certeza que não. E você pode voltar... Não é? – questionei um pouco incerta, abrindo a porta e acendendo a luz assim que entrei.
–Posso voltar?
–Está realmente perguntando isso? Claro que pode, idiota.
–Posso voltar para você?
Meu coração falhou uma batida e eu virei o meu corpo por simples reflexo. Apenas para descobrir que Nicoly estava próxima, perigosamente próxima. Eu podia sentir o cheiro do perfume dela invadindo meu corpo. Sabia que bastaria um passo para que eu estivesse com o corpo colado ao dela. A loira segurou em minha blusa e me puxou lentamente para perto de si, pousando as mãos em minha cintura. Nossos olhos estavam travados, o dela com uma clara mensagem do que iria acontecer nos próximos minutos. Os meus? Surpresos, encantados e confusos. Nic inclinou o rosto e por instinto virei o meu a fazendo beijar minha bochecha. Aqueles lábios que eu tanto achava bonitos estavam colados em minha pele, me fazendo arrepiar com apenas um maldito beijo no rosto.
–Desculpe – ela murmurou e soltou a respiração, seu hálito roçando a minha pele e me fazendo arrepiar mais uma vez – Estou avançando demais não é?
Eu senti o corpo dela se afastando e... Droga, eu não queria que ela se afastasse! A razão jogava em minha mente que ela era uma garota, uma mulher! E então a minha emoção rebatia com um sonoro “e daí?”. Por um segundo, lembrei do que Vic havia me dito no Morro, para deixar rolar e descobrir se eu gostava ou não. Então quando as mãos dela me soltaram, engoli todas as minhas incertezas e fiquei na ponta dos pés, envolvendo meus braços no pescoço dela.
–Se isso fosse um encontro tradicional, você está me devendo um beijo de boa noite – disse um tanto nervosa, tentando impregnar em minha voz o tom de diversão, mas meus olhos entregavam toda a minha ansiedade.
–Se fosse um encontro tradicional – repetiu Nicoly, seus braços circulando a minha cintura e puxando meu corpo para colar definitivamente no seu. Deus, isso era tão bom! – Eu diria o quanto eu me diverti e o quanto você é linda.
–Mas como não é, poderia me beijar logo? – pedi impaciente já.
Nicoly riu. Aquela risada que me fez estremecer em seus braços para no momento seguinte derreter quando aquela boca colocou a minha. Esse não era o meu primeiro beijo com uma garota. Brincadeiras, histórias de bebedeira.... Mas nada se comparava a esse momento. Eu queria, ah como eu queria! Eu estava consciente, estava almejando e entrando em um estado até então desconhecido para mim. Era completamente diferente. O corpo macio e não duro parecia encaixar no meu. Eu sentia o coração dela tão disparado batendo contra o meu. Os lábios, suaves, gentis, moldavam os meus sem pressa, sem pressionar, sem tomar como se quisesse comer minha boca.
O beijo foi simples, carinhoso até. Mas muito breve. Nicoly afastou os lábios dos meus e eu abri meus olhos para reclamar. Mas deparei-me com os olhos azuis dela, tão mais escuros e intensos do que antes. Eu me sentia presa, desarmada, entregue. Tudo isso tão rápido e arrebatador que um frio cresceu em minha barriga, brigando por espaço com todas as borboletas que estavam em frenesi. Apertei mais meu corpo contra o dela, roçando tão sutilmente que não se comparava a como meu corpo estremeceu. Dessa vez, eu a beijei.
Pressionei meus lábios contra os dela, ansiando por mais. Precisando de mais. Era como se eu tivesse descoberto o melhor dos chocolates, você não consegue comer apenas um pedaço, você sempre quer mais e mais. Nicoly gemeu baixinho contra minha boca e aquilo me fez morder o lábio inferior dela e o puxar até que se soltasse da prisão de meus dentes. Aquilo pareceu despertar algo nela, pois logo os braços se apertaram e ela passou a me beijar ainda mais. Entreabri os lábios e Nic adentrou com sua língua, buscando a minha prontamente. Foi então que eu perdi noção de algumas coisas. De onde estava. Do que estava ao meu redor. Porra, aquele beijo estava me enlouquecendo e era apenas um beijo! Ah, mas um beijo que me envolvia, que explorava a minha boca de um jeito gostoso, que envolvia minha língua em uma deliciosa dança. Nicoly sabia beijar muito, mas muito bem.
Tudo piorou quando a mão dela subiu por minhas costas e seus dedos envolveram meu cabelo escuro. Ela segurou de maneira firme, me fazendo inclinar um pouco a cabeça para trás. Então me beijou com mais vontade, de um jeito intenso que me obrigava a ser totalmente submissa, seguindo os seus movimentos sem ter chances de brigar. E quem disse que eu queria? Era tão gostoso, era tão diferente e envolvente que eu não queria parar. Então prolonguei o beijo o máximo que pude, até o ar fazer falta para nós duas.
–Deus, eu queria fazer isso desde a primeira vez que te vi – Nicoly murmurou perto de minha boca, nossas respirações se misturando de tão perto.
–Ainda bem que não o fez, pois teria levado um tapa – disse ofegante, rindo baixo e brevemente.
–Teria valido a pena, oh se teria.
Ela me beijou mais uma vez. Um beijo intenso. Beijou-me uma outra vez, um beijo mais brincalhão em que fazia movimentos com minha língua. E um último beijo em que simplesmente se entregava e me deixava beijá-la.
–É melhor... – um selinho – Você ir dormir – uma mordida em meu lábio – Ou eu não vou ficar contente só com beijos.
–Não estou contente por você parar – resmunguei e respirei fundo pela boca.
–Então é bom que você não tenha planos para esse final de semana, pois eu vou vim para cá.
–Você sabe que meu sofá estará a sua disposição não é? – afastei um pouco e sorri travessa – Só o sofá.
–Daqui até lá, mudarei esses termos. Nem que eu tenha de usar todo o meu charme para isso.
–Que charme?
–Meu sorriso. Você acha ele bonitinho. É alguma coisa certo?
Ri divertida, sem acreditar que depois de tantos beijos ainda estávamos daquele jeito, sem ficarmos estranhas uma com a outra. Nicoly sorriu e para mim aquele foi um sorriso diferente, um que pertencia só a mim. Ela me puxou e me abraçou apertado. Não ficou diferente, mas ao mesmo tempo já não era a mesma coisa. Eu deixei que o calor daquele corpo inteiramente feminino me envolvesse. Oh era tão diferente! Tão... Melhor. Mas eu tinha certeza de que aquilo era só com ela, que se eu abraçasse outras garotas meu coração não ficaria tão disparado.
–Vou sair muito cedo, então vou ter de deixar sua porta aberta, ok? – ela disse ainda agarrada a mim.
–Uhum – fiz carinho no cabelo loiro dela, descobrindo que os fios eram terrivelmente macios – Tome cuidado, está bem? Chegando lá no Rio me mande uma mensagem.
–Ok... – Nicoly se afastou, deu um selinho demorado e finalmente me soltou – Agora vou ali sonhar com você. Nos meus sonhos você implorar por meus beijos, já estou até prevendo.
–Só nos seus sonhos, baby.
Nicoly riu e se afastou de uma maneira relutante. Fui para meu quarto pegar um travesseiro e uma coberta para ela. Ah, mal sabia Nic que eu estava ali quase implorando em realidade para que ela me beijasse mais uma vez. Sorri de lado, sentindo as borboletas se manifestando como mais cedo.
Merda, isso não era um bom sinal mesmo, mas agora eu já não me importava mais com isso.
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