Notas iniciais
Embora este capítulo não seja fofo, dedicamos-o para todos que estão lendo e comentando, mas especialmente para os amados que comentaram no capítulo anterior, tanto aqui quanto no Twitter. E pra Perrychxnel, que é leitora nova ♥ A partir de agora, os capítulos 'densos' estão começando ~e que a sorte esteja sempre ao nosso favor hahaha Esperança Parte Final feelings~ Agradecemos desde já a todos que chegaram até aqui com a gente!

Dez dias depois….

Cora bebericava seu chá lentamente enquanto observava o relógio da sala. As últimas semanas haviam sido uma loucura e inconscientemente ela rezava para que aquela agonia se fosse e para que Regina estivesse realmente bem.

Após se inteirar sobre o que Marian tinha planejado, teve que reconhecer que a moça possuía boa índole e de boba não tinha nada. Mas o que a deixou realmente chocada foi Marian inserir Regina naquele plano e, depois, a filha pedir sua ajuda.

De fato tempo é tudo, pois se meses atrás alguém lhe dissesse que Regina e ela estariam se apoiando mutualmente, como uma família fazia, teria rido na cara da pessoa. Agora, contudo, não teria como negar que estava satisfeita com o rumo que sua vida seguia e como o relacionamento entre todos eles progredia. Mas estava se sentindo um tanto culpada mais uma vez. E ficou em dúvida se isso seria um sentimento constante agora. Sentia-se culpada por ter perdido tanto tempo recriminando a filha e tentando transformá-la em algo que não era. Culpada por não ter ajudado quando possível e por não ouvi-la antes. Culpada por ter sido tão intolerante.

Aparentemente culpa era algo que ela estava se acostumando a ter, pensou, enquanto encarava o chão. Será que isso ia passar? Ou será que era algo que estaria com ela para sempre?

Cora respirou fundo, tentando afastar a tontura que não a deixava em paz. Fugir da realidade não faz com que você pare de viver dentro dela, analisou amarga. E havia mais do que culpa para sentir naquele momento, havia medo e incertezas.

Regina estaria na empresa do ex-noivo naquela manhã, acertando os últimos detalhes da transferência e reconhecendo o lugar que administraria até a maioridade do filho. Sabia que sua indisposição se dava em parte à apreensão com esta história e do que poderia acontecer quando Robin descobrisse que não possuía mais nada.

De repente tudo havia sofrido uma reviravolta grande, e ela e Henry haviam sido arrastados para aquele mar de preocupação mais uma vez. Não que estivesse reclamando, mas queria se ver livre daquela inquietude e daquele bastardo que quase chamara de genro. E Regina também iria querer, com certeza.

Quando fechava os olhos, a imagem das vezes em que tentara ajudá-lo tomava conta de sua mente e ela se repreendia repetitivamente. Sabia que o mal já estava feito, mas consolava-se com a lembrança que, apesar de seus próprios interesses, sempre fizera tudo considerando o bem estar de Regina.

Os olhos castanhos já não fitavam o relógio, e tampouco seus ouvidos concentravam-se no tiquetaquear que ele fazia.

Poderia se considerar uma má pessoa por ter escolhido várias alternativas erradas e ter insistido tão arduamente em provar suas opiniões? Como poderia consertar as coisas e tentar se redimir com as pessoas que amava?

Com um suspiro desanimado, colocou a xícara na mesinha de centro, percebendo que era a primeira vez que achava chá uma bebida intragável.

Encostou-se novamente em sua poltrona, cruzou as pernas e colocou a mão na testa, esperando que a dor de cabeça fosse embora naturalmente. Mas ela duvidava, porque suas têmporas pareciam latejar sempre que seus problemas envolviam Robin Hood, fosse por um motivo ou outro.

O barulho da porta da frente sendo fechada não fez sua dor piorar como achou que fosse acontecer quando Henry chegasse. Pelo contrário, pareceu diminuir.

— Você está atrasado! — constatou com a voz controlada, sem sair do lugar.

— Eu sei, eu sei. Desculpe. A ausência de Regina por meio período no sábado já é trabalhosa, imagine como é ficar sem ela o dia todo. Aquele lugar virou um caos.

— Você falou com ela? Robin já sabe sobre a empresa? — perguntou com certa urgência, ignorando o relato sobre o Clube.

Henry, contudo, apenas lhe sorriu, depois de sentar-se no sofá maior, ao lado esquerdo da poltrona dela.

— Oh, não faça isso comigo! Tem ideia de como estou me sentindo com toda essa história?

— Tenho. — respondeu finalmente, e com um suspiro audível. — Porque tenho sentido o mesmo. A verdade, Cora, é que não sei como as coisas estão. Ainda não falei com ela e nem fui até lá. Pensei que você tivesse falado.

— Não. Quando liguei não havia ninguém em casa. E, bem, desocupei o telefone agora a pouco resolvendo uns detalhes que precisava, então ainda não liguei novamente.

E se eu tivesse ligado, o que poderia dizer sem amaldiçoar a situação toda?, pensou aborrecida. Ainda bem que tinha empregado sua energia com algumas amigas e conhecidas, e conseguiu reunir todas as informações necessárias para resolver uma questão que saberia como lidar.

— Meu atraso a deteve por demais, posso perceber.

— Ironia não combina muito com você. — apontou ácida.

Assim que processou o que havia dito, seus lábios formaram uma linha fina. Você não deveria ter dito isso, recriminou-se. Além de analisar minuciosamente as alternativas que tinha para resolver o problema que Robin era na vida da filha, Cora também examinou seu próprio relacionamento. O que a deixou loucamente brava. Mas com si mesma, não com ele.

— Desculpe. Velhos hábitos.

Aquilo fez Henry levantar a cabeça e incliná-la sutilmente.

— Velhos hábitos?

Cora o olhou tão profundamente que seus olhos pareceram escurecer.

— Henry? Acho que precisamos conversar. E não somente sobre Regina.

— De acordo.

Ela esperou que algo mais fosse dito, mas ele permaneceu calado. Seu dedo indicador direito apoiava sua cabeça, tombada levemente, e ele parecia mais sério que o de costume. Sob seu olhar atento, Cora remexeu-se desconfortável.

— Bem… quero que você vá comigo até a casa do Robin. Tenho uma proposta a fazer. E depois pensei que poderíamos passar da casa da Regina. Não estou certa se posso ser útil, mas quero vê-la. Você sabe que a amo e só quero o melhor pra ela. E para o garoto. E... até mesmo para a Emma.

— De acordo.

— Andei pensando que Regina tem um grande caráter e que talvez eu não tenha um dedo nisso. Não estou reclamando. Só apontando o fato de que, em parte, fico contente dela ter me desafiado e mostrado esse lado dela. Me fez respeitá-la muito mais. E bem… não pude deixar de notar que ela estava certa em muitas coisas. Exceto em duas.

Henry abriu a boca para lhe dizer algo sobre Regina, mas ela levantou a mão, em um pedido mudo para que ele não dissesse nada. Se ele fizesse, Cora sabia que não diria o que precisava dizer.

— Por favor, deixe-me esclarecer agora, e desculpe por ter demorado tanto. — ela fez uma pausa para engolir o nó formado em sua garganta. Aquilo era mais difícil do que tinha imaginado.

— De acordo. — disse rapidamente para incentiva-la a continuar, enquanto tentava impedir o interesse de aparecer em suas feições.

— Regina estava certa ao dizer que eu não valorizava o que tinha, mas ela, e você certamente, sempre foram bons pra mim. Bons demais. E eu nunca os culpei por nada. Principalmente pela minha vida. Ao contrário. Você me salvou de todas as maneiras possíveis. E quando pensei que não poderia ser melhor, você me deu Regina. Tudo o que eu fiz, com você e com ela, foi uma tentativa de não ser como minha própria mãe. Contudo percebo que fiquei muito pior do que ela jamais foi. E eu imploro seu perdão por ter feito sua vida tão miserável. — sua voz estava embargada e ela brigava com a emoção que tentava tomar conta dela — Fiquei entretida por um longo tempo pelas minhas fantasias e acho que deixei passar muitas coisas. Não acho que 30 anos de casamento possam ser resolvidos em apenas uma noite, mas você acha que posso recuperar algo? E, por favor, não diga ‘de acordo’.

Henry deu um sorriso fraco, o que mais pareceu para Cora uma careta, e respondeu divertido:

— De acordo.

— Henry!

— O que, Cora? — perguntou sentando-se na ponta do sofá e a encarando — O que você quer ouvir? Que quando Regina disse que aqui não era nosso lar eu discordei plenamente? Que quando você acatou e viajou a mando dela achei que uma separação seria o melhor, mas que não importa o quanto tente eu não consigo ver uma vida pra mim longe de você? Que você é uma tola por só estar percebendo agora o que Regina e eu já vimos há muito tempo? Bem, Cora Mills, ouça bem, pois só vou dizer uma vez: você é a mulher mais exasperante da face da terra e talvez, exatamente por isso, seja a única a conseguir recuperar qualquer coisa que queira.

Cora o abraçou apertado pelo pescoço, beijando-lhe delicadamente a bochecha em seguida. A barba por fazer lhe fez cócegas, mas ela não se importou.

— Sim, sou mesmo uma tola. Desculpe. Por tudo. — murmurou acariciando os cabelos dele e detendo-se por final nos olhos castanhos. — Fui orgulhosa demais para reconhecer que estava errada e cega. Não sei porque disse tudo o que já lhe disse e fiz tudo o que fiz. Mas nunca foi minha intenção magoá-lo. Ou Regina. Se eu pudesse voltar no tempo, eu mudaria as coisas. Estou arrependida por tudo, Henry.

— Eu sei. Conheço você, Cora. Estou vendo o quanto tem se esforçado para tornar tudo diferente, inclusive você. Mas a verdade é que gosto de você de qualquer jeito.

— Você é tudo o que há de melhor em mim, Henry.

— Está errada sobre isso, minha querida. Como esteve sobre outras coisas. Mas a amo mesmo estando errada — ele riu sutilmente, beijando-lhe rapidamente os lábios vermelhos para, em seguida, enxugar uma lágrima que escapou dos olhos dela. — Está tudo bem, Cora. Nós estamos bem. E Regina e a família dela também ficará.

— Não consigo amenizar minhas preocupações.

— Pare de ter medo do que poderia dar errado e pense no que pode dar certo.

— Precisamos ir, então. Quanto mais cedo resolvermos isso, melhor.

— Ir? Cora, por favor, não me diga que você está pretendendo…

— Pode apostar.

— E eu vou com você?

Ela o encarou, iluminada pela claridade vespertina. Por um momento considerou retratar-se pelo uso do pronome ‘nós’ e dizer que faria as coisas como sempre fez: sozinha. Contudo, estava exausta de tentar resolver tudo por si mesma e de lidar com Robin. Ter Henry ao seu lado lhe lembraria qual caminho seguir.

— Se você não se importar.

Aquilo foi meio chocante, Henry não negaria. Ele a olhou com surpresa, revelando que aquela não era a resposta que esperava.

— Achei que… Bem, não importa o que achei. Eu vou com você. Mas não sei se poderemos enfrentá-lo sem que haja consequências.

— Estou ciente disso. Confesso que não queria me envolver, porque sempre me disseram que os filhos deveriam resolver tudo sozinhos. Mas passei dessa fase há algum tempo... Enfim, estou divagando. O que quero dizer é que espero pelas consequências. Ou Robin aceitará minha, digo, nossa, — corrigiu-se quando viu o olhar indagador dele — proposta, ou fará algo que o colocará na cadeia novamente.

— E estamos contando com qual?

— Sinceramente eu não sei. Acho que com o primeiro, pois assim não haveria perigo para Regina.

— Sobre isso, o que faremos? Se ele escolher fazer algo impensado?

— Um passo de cada vez, Henry.

— Certo. — murmurou com um suspiro.

Cora viu o sorriso triste que lhe surgia e sentiu seu coração bater cada vez mais rápido dentro do peito.

— Por mais que goste de vê-la menos séria, essa sua imagem doce não nos ajudará muito na jaula dos leões.

— Não se preocupe, eu sei lidar com Robin.

— O que vamos fazer exatamente?

— Exatamente? — sua voz soou aguda até para si mesma. — Não sei. Mas quero tentar uma coisa... Te explico no caminho, pode ser?

O brilho nos olhos dela denotava perigo e determinação, o que fez o nó em seu estômago aumentar. Não importava como iriam interferir no destino de Robin, ele confiava nela e estava disposto a qualquer coisa.

— Então, vamos lá.

Segurando-a pela mão e ajudando-a a se levantar, ele pegou a chave do carro que tinha colocado no bolso e os conduziu para uma nova empreitada.

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Eles estavam parados na frente da casa de Robin há exatos 17 minutos. Henry estava cronometrando desde que havia visto a mão de Cora tremer ao abrir a porta.

— Quer conversar sobre isso? — perguntou finalmente.

— Não lhe parece hipocrisia que eu esteja aqui tentando ajudar Regina, quando algum tempo atrás eu fiz exatamente o oposto? E que eu o tenha recriminado por tentar interferir e estar aqui agora?

— Não. Dessa vez você está fazendo a coisa certa. E você me recriminou porque ameacei matá-lo. Não vamos fazer isso, vamos?

Cora o olhou considerando a proposta e sorriu.

— Por hora não.

— Ótimo, porque não vim preparado. Aliás, respondendo novamente a sua pergunta, só o fato de eu estar aqui já torna tudo diferente.

— Não se vanglorie tanto. — recriminou Cora, apesar de ter um brilho divertido em seus olhos e sentir o mesmo. Ter Henry ali mudava a perspectiva de muitas coisas. — Mas você está certo e devo admitir que estou contente por fazermos isso juntos. — afirmou segundos depois, reconhecendo em voz alta o que lhe passava na mente.

Tons laranjas e roxos coloriam o céu de fim de tarde e por um momento o ar ameno de Outubro pareceu ficar abafado.

— Às vezes fico pensando que as coisas poderiam realmente ter acabado mal e que tudo teria sido culpa minha.

— Sim, poderiam. Mas elas deram certo. E devemos nos concentrar nisso, porque o que foi feito está feito. Vamos mudar as coisas que ainda não aconteceram. De acordo?

A frase teve efeito e Cora sorriu em concordância.

— De acordo. — Pela janela, ela encarou um ponto qualquer antes de voltar-se novamente para ele. — Você tem alguma dúvida?

— Sobre o que o advogado falou não, sobre como Robin irá reagir e como você irá proceder eu tenho um monte.

— Somos dois. Só… só entre no meu jogo, ok? Ainda não sei o que direi, mas farei aquele miserável me pagar pelas situações em que me colocou.

— Situações que ele te colocou?

— Com a namorada. Tive que aceitá-la mais rápido do que eu gostaria. E ele me deve muito por isso.

Henry a olhou com adoração e descrédito.

— Emma é uma boa pessoa, e vale mais do que todos os namorados que a Regina já teve juntos.

— Eu sei — disse Cora com um sorriso de lado — Mas ela não precisa saber. Vamos, quero acabar logo com isso.

Após bater a porta do lado do passageiro com força, ela observou a residência com certo desdém. Incrível como algumas casas simples e bonitas não se enquadram tão bem à personalidade de seus moradores, pensou.

Tentando dissipar o nervosismo, ela jogou os cabelos soltos para trás e puxou seu casaco vermelho para baixo, de modo que sua roupa estivesse alinhada e sua imagem impecável. Por um breve momento ela quis que Henry, que agora se encontrava ao seu lado, segurasse sua mão e dissesse que Robin havia sumido para sempre. Porém, ela sabia que isso seria impossível.

Fechando os olhos, ela pensou no dia em que Regina fora a sua casa. Ela pode se ver nela aquele dia, e isso a deixou feliz. Toda a convicção e comprometimento que ela demonstrou com o que queria lhe fez perceber que Regina era quem ela sempre quis que fosse. Também se recordou do que Emma lhe disse, verdades que comprovavam ainda mais sua certeza de que Regina não era mais dela. E havia as palavras charmosas de Robin, ditas tempos atrás, que soaram muito bem e a fez acreditar que ele seria a melhor opção. Aquilo ferveu seu sangue. Cora Mills poderia aguentar qualquer coisa, menos ser lograda e enganada.

Então, quando seus olhos encararam a casa novamente, eles estavam mais escuros, ameaçadores e obstinados. Essa seria a última vez que ela e Robin interfeririam na vida de Regina. Levantando ainda mais o queixo, ela acenou com uma expressão mortal para o marido.

Henry se adiantou e tocou a campainha. Ele queria muito sorrir, porque sabia que Cora tinha várias facetas e usaria a pior lá dentro. Quando ela lhe contou que havia ligado para todos os advogados que conhecia — e ela conhecia muitos, todos inseridos numa lista de pretendes para Regina — e havia conseguido formular uma proposta irrecusável, ele pensou que a esposa tinha ido longe demais. Porém, aparentemente, era a única opção que eles tinham agora.

— Vieram me culpar de quê agora? — perguntou Robin com a voz arrastada ao abrir a porta. A expressão dele era de cansaço e condizia com as roupas amaçadas e a barba por fazer.

— Culpar? Oh, não. Só viemos colocar o papo sobre Regina em dia. — ironizou Henry, tentando conter a raiva. Pelo canto do olho ele pode ver a surpresa de Cora pela sua explosão. Bem, ela disse que ele devia entrar no jogo, não disse?

— Regina? Ela está bem?

— Não, graças a você. — comentou Cora passando por ele sem esperar por um convite. Henry a seguiu, olhando com um misto de tédio e desaprovação para a figura que um dia ele e a esposa encorajaram a ficar com a filha.

— O que houve com ela? — indagou enquanto fechava a porta e ia para a sala, onde se jogou numa poltrona. Analisando o aspecto mórbido dele, Cora mais uma vez se recriminou por tudo o que fizera. Era evidente a bagunça pela casa, assim como o desinteresse por outra coisa que não fosse o nome de Regina.

— É necessário algo específico? O fato de tornar a vida dela e a do meu neto um inferno não é suficiente? — começou Cora. — O que você causou ao menino foi a gota d’água para todos nós. Não podemos ignorar que seus atos foram totalmente inconsequentes.

— Henry é meu filho e faz o que mando. — interrompeu soando mais sóbrio do que Cora e Henry esperavam. — Ponto final. Vocês não possuem moral e nem um prêmio de melhores pais do mundo para falarem assim comigo. Digam o que houve com Regina ou saiam.

— Robin, Henry e eu viemos aqui para tentar ajudá-lo.

Henry suspirou profundamente, sem paciência. Cora estava tendo tato demais na opinião dele.

Cora olhou para o marido em busca de apoio. Fazer as coisas de improviso não era muito a sua área, já que sempre calculava tudo meticulosamente, porém, achou que seria melhor abordar Robin da maneira mais sutil possível, contrariando o que havia planejado mais cedo.

— Vieram me ajudar? Parece difícil de acreditar, Cora.

A primeira vista, seus gestos pareciam torpes e seu comportamento afetado, o que a fez imaginar que ele deveria estar sob efeito alcoólico novamente. Contudo, olhando bem para o sorriso felino expressado no canto do lábios, ela soube que mesmo que houvesse bebida correndo pelo corpo dele, a quantidade não era suficiente para que ela dedicasse qualquer dose de delicadeza. Melhor, reconheceu, pois assim poderia usar seu tom mais mordaz, sem se preocupar se ele estava tonto demais para entendê-la.

Quando a sorte está do nosso lado, pensou, temos que fazer de tudo para ajudá-la da mesma forma que ela está nos ajudando.

A senhora elegante, entre a casa dos cinquenta e sessenta anos, encarou o homem a sua frente, e o ar diabólico e cheio de desprezo que tomou suas feições poderia ter feito qualquer um sair correndo.

— É realmente difícil, não é? Bem, deve ser porque é mentira. Você sabe que posso ser tudo, menos altruísta. Mas estou aqui em nome de Regina, pois é hora de esquecer e deixá-la ir.

Robin a ignorou.

— O que ela disse sobre mim?

— Quem? Regina? — Cora mantinha sua postura distante, embora parecesse estar se divertindo — Você acha que Regina está preocupada com você após tudo o que fez? Com ela e com Henry?

As palavras eram ditas cheias de frieza, enquanto se aproximava lentamente. Ultrapassando uma linha invisível, ela invadiu o espaço pessoal dele, e o deixou visivelmente incomodado com o ataque verbal. Sua voz, contudo, estava baixa e suas maneiras controladas, o que o irritou ainda mais.

— Você poderia ter sido mais, Robin. Eu estava disposta a apoiá-lo e Henry também. Poderíamos ter sido uma família feliz e completa, mas você estragou tudo. Achei uma vez que a culpa de ter Emma ao lado de Regina era só minha, mas percebi que é sua também. Você a deixou quando ela mais precisava, com uma criança pequena, assustada e desamparada. Qual a sua defesa ou desculpa Robin Hood?

— E qual é a sua Cora?

— Sempre me preocupei com o que era melhor para Regina, — contestou dando de ombros — mesmo indo contra a vontade dela. Mas isso não é um jogo, Hood, então não brinque comigo. Responda a pergunta.

— Eu também me preocupo com o que é melhor para ela.

— E não é incômodo para você causar sofrimento e desgosto à mulher que ama?

Com um sorriso zombeteiro, ele deu de ombros.

— Sofrimento passa.

— Suas ações não são motivados por algo que eu chamaria de amor — disparou ela — É mais obsessão que sentimento de verdade.

— Dê o nome que quiser. — retrucou arrogantemente — Seu escárnio não me incomoda. Pelo contrário, me diverte.

— Fico feliz. Deixe-me aproveitar seu bom humor, então, e lhe contar uma novidade! A data para o casamento da minha filha foi marcada — o tom usado por ela parecia sugerir mais uma fofoca do que uma discussão, e isso o desconcertou. — E adivinhe? Você não é mais o noivo.

— Eu já sabia. — grunhiu Robin. — E muito me admira você estar jogando isso na minha cara. Regina vai se casar com aquela mulher nojenta. Você vai permitir isso, Cora? Que Regina se associe com uma sapatona?

— Mais respeito, Hood! — murmurou Henry, que até então assistia a tudo calado. Na verdade, sua interrupção não tinha muito a ver com o termo usado por ele. Henry era inteligente o bastante para não deixar aquele tipo de linguajar irritá-lo, porém sabia o que aquele tipo de instigação poderia provocar em Cora. Com certeza ele não temia por ela, mas temia pelo que ela podia fazer com aquele verme.

Há muito tempo, ele pensou que seria sua função proteger a esposa do mundo, mas deveria ter sabido que alguém como Cora jamais seria afetado por desventuras sem sair com um mecanismo perfeito de resistência. E lá estava ela, exercendo com maestria o que ditados populares sempre encorajavam: ‘a melhor forma de defesa é o ataque’.

— Oh, não se preocupe, Henry. — disse com sinceridade enquanto voltava para seu lugar, na outra extremidade da sala — Robin só quer me atingir porque sabe que dessa vez é definitivo e que só eu poderia impedir o casamento delas. Bem… eu até poderia. Mas acontece que não quero. Já faz muito tempo que não vou à festas de casamento. Eu deveria ter ido a uma cinco anos atrás, mas não pude.

Cora franziu a testa, virou-se para Henry e tombou a cabeça.

— Por que mesmo que não pudemos ir?

— Porque a noiva desmanchou o compromisso quando percebeu que o noivo deixava muito a desejar? Principalmente nos momentos em que ela mais precisava dele?

— Ah, sim! Exatamente! Que cabeça a minha! Sabe, Robin, às vezes temos o costume de esquecer o que nos convém. Essa é uma coisa que Regina faz com frequência a seu respeito. Mas eu, infelizmente, não sou esse tipo de pessoa. E Emma também não. Você tem ideia que depois do que houve ela vai concentrar todas as suas forças em mandá-lo para a cadeia? E acredite, ela vai conseguir. Você já tem ficha mesmo, e voltou com a bebedeira. Assumir um bom comportamento lá dentro não vai funcionar na segunda vez.

— Vocês claramente não me conhecem. Tenho dinheiro e posso conseguir um acordo muito bom. Se não fosse por você, Cora, eu teria conseguido a guarda do Henry. E então Regina voltaria correndo pra mim. Mas você teve que estragar tudo, não teve? Suas intervenções são ardilosas e calculadas, mas dessa vez você não vai sair por cima.

— Posso lhe dar um conselho? Não faça apostas hoje. — a risada que ela deu foi exagerada e ecoou pelo cômodo. — Você deveria checar sua conta bancária mais vezes. No momento, você não tem nada. Nem dinheiro, nem influência e nem qualidade alguma que o faça merecedor do que Regina uma vez sentiu por você.

Robin se levantou de maneira súbita, indo pra cima de Cora, que se desvencilhou com facilidade da mão que ia ao pescoço dela. Sendo mais rápida do que a letargia dele poderia prever, ela colocou o pé na frente do homem, fazendo-o tropeçar pelo tapete.

— O que você fez? — gritou. — O que você fez?

— Não me espanta que Regina tenha te largado. — foi dizendo Cora enquanto ia para perto do marido, que se encontrava encostado na parede que dava para a porta de saída. — Você se tornou uma sombra do que costumava ser. Uma pena, pois quando você disse que Regina era sua chance de ser feliz eu acreditei. Mas ela não foi capaz de ser sua primeira e nem segunda chance, porque você não a ajudou. Um relacionamento não tem como ser saudável se só há uma das partes envolvidas, Hood. — Você deveria ter considerado meu exemplo com mais atenção, acrescentou mentalmente.

— Lamento por você, sinceramente. Mas não é tarde. E é por isso estamos aqui. Viemos tratar de negócios.

Os olhos cansados perscrutavam Henry e Cora avidamente em busca de algo que os pudesse trair. Mas não havia nada nas expressões duras e distantes que demonstrasse algo que ele pudesse utilizar para acusá-los de uma armadilha. Tomando consciência de que ainda estava apoiado com uma perna no chão, ele levantou-se sem romper o contato visual.

— O que querem?

— Primeiro, para sua informação, não tive nada a ver com sua ruína. Aquela moça que morava aqui foi bem esperta em não sair sem nada. E eu só vou aproveitar a oportunidade. Como você também deveria, já que talvez possamos nos ajudar.

— Já ouvi isso uma vez e veja onde estamos. Saia da minha casa! Você mentiu sobre a guarda do Henry, mentiu sobre a Regina e está mentindo sobre isso também.

— Estou? — perguntou inclinando o rosto pra cima e lhe dando um olhar gélido. — Quer ligar para o banco? Pra sua empresa? Para o seu advogado? Fique à vontade. Eu já fiz tudo isso, mas é claro que você vai querer conferir por si próprio.

Henry queria ter uma câmera para registrar a expressão de pânico de Robin.

— O quê?

— Notícias aterrorizantes, eu sei. — solidarizou-se Henry. — Neste momento, até sinto certa empatia por você. E por causa disso, Cora e eu queremos lhe oferecer um acordo. Consideramos o que você significou na vida de Regina e o fato do nosso neto ser seu filho, e chegamos a conclusão que você merece uma segunda chance.

— Acho que já é a terceira. — opinou Cora com desdém.

— Vocês vão me ajudar com a Regina? — perguntou Robin sem entender muito bem o que ouvia. Cora revirou os olhos, e resolveu conceder um crédito ao homem somente porque ela ficaria em estado de choque também, caso soubesse que tinha perdido tudo.

— Com certeza. — garantiu Henry — Iremos manter a última imagem de dignidade que lhe sobrou perante ela e o seu filho.

Robin abriu e fechou a boca, enquanto voltava a se sentar. Tudo parecia estar indo para uma direção errada e muito, muito rápido. Quando seus planos saíram completamente do eixo?

Cora foi até a mesinha ao lado do sofá e pegou o telefone.

— Ligue pro seu advogado e diga que estou aqui.

Engolindo em seco, Robin fez o que ela mandou. Do outro lado, a voz lhe explicou todas as ofertas que Cora estava propondo e como a oportunidade era boa.

— Não haverá acordo semelhante a este, Robin. Você deveria aceitar.- aconselhou o homem.

— Isso quem resolve sou eu! — gritou enquanto jogava o telefone sem fio em um canto. Durante toda a conversa dele, nem Cora e nem Henry disseram uma única palavra. Até mesmo agora, quando Robin começou a andar de um lado para o outro, eles mantinham silêncio.

— Vocês se acham muito espertos, não? Mas vocês não podem me comprar. Oferecer dinheiro para que eu deixe Chicago e Regina é muito baixo da parte de vocês. Ela sabe que vocês estão aqui? Regina sabe? O que diria do pai tão querido dela estar me chantageando? De você nós sabemos que ela não tem uma boa opinião mesmo. — disparou rancoroso e cheio de ressentimento, enquanto olhava de Henry para Cora.

— Ela não sabe. Mas faria alguma diferença para você? Cora e eu não somos o problema aqui. Tome uma atitude uma vez na vida.

— O quê? O que quer que eu faça? — berrou Robin.

— Aceite o acordo. Mantenha-se longe dela e do menino. Vá para a Califórnia, arranje um trabalho, pare de beber de verdade dessa vez, comece uma vida nova e prove que consegue fazer mais do que… do que isso. — exasperou-se Cora gesticulando para a bagunça na sala e para algumas garrafas.

— Nunca é fácil quando você se envolve, não é sra. Mills? — perguntou baixinho e com deboche. — Você me dá pena. Querer consertar seus problemas maternos me usando não dará tão certo quanto você quer.

Henry fechou a cara e sentiu a raiva consumi-lo. Cora enrijeceu-se ao seu lado, mas sua feição continuou sarcástica, e seu sorriso permaneceu frio.

— Você já resolveu meus problemas maternos... Quando abandonou Regina. E não me importo com o que diz. É melhor ser digna de pena do que de nojo. — afirmou pausadamente — E esse é o único sentimento que você inspira ultimamente.

A expressão patética dele deveria lhe causar algum remorso pela abordagem agressiva, mas não conseguiu sentir nada.

— Última chance, Robin. — disse Henry, a voz baixa e intensa.

— Ou o quê?

— Não há ‘ou’, seu idiota. Henry está exitante com você e Regina está apaixonada por outra pessoa. — A voz dela pareceu cortar como aço quente. — Você não percebeu ainda? Não há mais nada pra você aqui!

— Eu posso fazê-la me amar novamente. — insistiu Robin.

— Não se pode fazer uma pessoa amar outra.

— Ainda mais quando não passa de outra decepção. — acrescentou Henry — Se você possuísse um mínimo de decência, certamente veria que isso era o melhor a se fazer.

Naquele momento, Robin se levantou com um pulo e avançou de modo intimidante até o pai de Regina. Ele o encurralou na parede e o fogo que chispava na lareira da sala não era nada comparado aos olhos inflamados pela ira dele.

— Eu sou decente e nada do que vocês digam vai impedir que Regina e eu fiquemos juntos. Nosso amor é forte e vai sobreviver a isso.

— O sentimento das pessoas mudam quando elas mudam. — afirmou Cora olhando-o sugestivamente, e tentando manter-se calma diante a visão de Robin tão perto do marido.

— Chega disso! Me deixem em paz. Já tomei minha decisão.

— Você deixou de ser uma boa pessoa há muito tempo, não é? — indagou Henry em voz alta e tom neutro. Os punhos estavam contraídos e a irritabilidade que havia dentro dele estava pronta para fazer alguns estragos.

Robin ignorou o senhor Mills, tendo entendido o que foi dito mais como afirmação do que como pergunta. O tom lamentoso que se seguiu poderia ter enganado os Mills naquele momento, caso eles já não conhecessem a inclinação de Robin para o drama e o fingimento.

— Vocês acham que ninguém é bom o bastante para Regina. Mas eu sou e sempre serei a melhor opção dela.

Ele dizia aquilo diretamente para Henry, sem desviar o olhar ou esconder a aversão que sentia por ele. Absorto por tais palavras e por expressar sua antipatia, Robin não viu Cora aproximar-se. Só a percebeu com o canto dos olhos tarde demais, quando o líquido fermentado e amargo lhe descia pela cabeça e pelo pescoço.

— Realmente ninguém parecia bom pra Regina. — começou ela sem demonstrar o quanto lhe satisfez derramar cerveja nele. E mesmo ao voltar-se enraivecido e a mirar com ódio e rancor, ela permaneceu insensível como uma pedra, contendo uma risadinha desdenhosa ao voltar a provocá-lo.

— Até Emma aparecer! — comentou mordaz, enquanto devolvia a garrafa a mesa e fazia sinal para Henry ficar ao seu lado. Havia um sentimento latente de preocupação entre eles, mas o meio sorriso que trocaram o abrandou. O cheiro característico da bebida impregnou a sala e eles não viam a hora de sair dali. Mas não podiam. Ainda não.

— Não diga o nome daquela machorra na minha casa! — urrou enquanto passava as mãos pelos cabelos encharcados e se aproximava dela.

— O que você vai fazer? — perguntou com falso temor — Rele a mão em mim ou em meu marido e você fará dessa tarde a melhor coisa que aconteceu na vida de todos. Acredite, posso fazer um ano de pena virar uma década para você.

Ele lhe lançou um olhar duvidoso e voltou a andar.

— Maldito seja o dia em que fui pedir sua ajuda.

— Digo o mesmo! E todos seus resultados fracassados só servem para mostrar que não estou blefando. Seu advogado sabe que estamos aqui e isso só vai piorar seu caso. — comentou audaciosa. — Mas se quiser me fazer este favor, vá em frente e continue. Apesar de parecer uma velhinha indefesa, posso garantir que não sou tão fraca e frágil quanto pareço. Embora isso seja mais um ponto a favor no relatório policial.

Robin estacou, passando as costas da mão por sua tez melada e perdendo a compostura novamente, mas apenas por um momento. Logo o sorriso afetado estava de volta, assim como o tom de desprezo.

— Não custa nada vocês serem gentis comigo.

— E custa menos ainda você calar a boca. — devolveu Cora aumentando a voz e com certa acuidade. — Você está tendo uma ótima oportunidade, Robin. E talvez demore para ter outra como esta. E quando sairmos, sua chance sai conosco. Não desperdice sua vida. Aceite.

— Que vida? Não tenho mais vida, Mills. E vocês ajudaram a acabar com ela.

— É hora de escolher. — disse Henry, encarando-o — Você tem liberdade para escolher entre felicidade e infelicidade. Experimente o arrependimento e pense em algo além de você mesmo.

A incredulidade no rosto contorcido era evidente, assim como o escárnio perante as palavras ouvidas, que foram totalmente ignoradas. O que os fez lamentar-se por ele.

— Eu tinha uma vida, sabe? Com Regina. E íamos nos casar. Íamos nos casar, — repetiu com tom sonhador — criar nossos filhos e viver felizes para sempre.

— Ninguém vive para sempre, Robin. E muito menos só de felicidade. — proferiu Cora com desprezo. — Adverti você, assim como Regina, uma vez. O amor é perigoso. Em alguns casos, como o de vocês ele enfraquece. Apodrece. Ele absorve o melhor da pessoa e deixa somente aquilo que ela não consegue controlar. Se você for fraco, será consumido e reduzido a nada, porque ele destrói a ordem. E sem ordem só nos resta o que, além do caos?

O coração batia ainda mais forte quando jogou seu peso de um pé para o outro. A raiva que irrompeu dentro dela fê-la estremecer de tão repentina e intensa. Cerrou os punhos no colo e não fez esforço nenhum para reprimir as palavras veementes que afloraram:

— Você insiste em querer lidar com a situação como se fosse um jogo, então estou disposta a fazer o mesmo. E devo dizer que é um bem repetitivo, e bem entediante após todo esse tempo. Contudo, você fez seu movimento e eu fiz o meu. — afirmou fazendo referência ao xandrez. — E em uma partida bem jogada, uma rainha vale muito mais do que o rei.

Antes que Robin percebesse, Henry já estava com a porta aberta e com Cora pendurada em seu braço, preparada para partir. E assim que ela o fizesse, a oportunidade que oferecia sairia com ela.

— Adeus, Robin. — despediu-se Henry com falsa polidez.

— Não me dê às costas, Cora!

Contudo, foi o que ela fez, e rindo. Sem olhar para trás nenhuma vez.

Notas finais
Hi guys! Bom, mais uma vez, muito obrigada a todos que estão nos acompanhando!! E apertem os cintos pois entramos na parte 'dark' da fic. Sério gente, vai ser meio pesado... Mas acho que vocês vão compreender. E ainda não podemos dar spoilers haha Sorry. NotSorry. Esperamos que vocês estejam curtindo. Queremos muito saber o que acharam deste capítulo. Não poupem palavras, por favor ~e digam se estamos sendo non sense ou não, isso ajuda também~ Palpitem (aqui ou no Twitter) o que esperam e o que gostariam de ver. Beijo grande, HeyBones e Cath