Maçã com Canela
36 Capítulo 36
Notas iniciais
Se alguém lhe dissesse, um ano antes, que ele reconheceria que havia trabalho demais, Henry diria que a pessoa estava louca. Mas ali estava ele, finalizando os últimos papéis de contratação do novo pessoal e analisando os livros contábeis, tão satisfeito e contente como era quando mais jovem.
— Por quê está sorrindo? — perguntou Regina da poltrona que ficava em frente a escrivaninha.
— Não posso mais sorrir?
— Claro que pode, papai. Mas são… — ela olhou para seu relógio de pulso. — 8h15 da manhã de uma segunda-feira. Ninguém em sã consciência estaria tão animado assim sem um motivo.
— Você olhou para a grama hoje?
Regina voltou novamente seu olhar para o velho senhor e fez uma careta.
— Eu deveria?
— Bem, sim. Se você reparar, verá que a até a grama que rodeia o Clube parece melhor.
A risada baixa e rouca da morena encheu o ambiente e Henry torceu o nariz.
— Você parece a sua mãe. Deveria observar as coisas melhor.
— Não dê ouvidos a ele, Regina! — disse Cora entrando apressada. — Você sabe como fico atenta aos detalhes quando quero.
— O que você está fazendo aqui, mãe? E tão cedo?
— Achei que precisava vir, porque Eva me ligou pedindo para avisar você. Sabem como ela é a respeito das novidades…. Quer estar por dentro de tudo. Apesar do quão detestável isso é às vezes, acaba sendo muito útil.
— Sabemos como é, mãe. — disse Regina com um tom contido, olhando cheia de sarcasmo para Henry, que apenas menou a cabeça. — E qual era o aviso?
Cora sentava-se no outro sofá, colando a bolsa na mesa de centro, quando notou a expressão da filha.
— Não me olhe assim, Regina. E não me dê ordens. Vou falar quando estiver pronta.
— Você está pronta agora? Porque, sabe, ao contrário do que você pensa, eu não tenho o dia todo.
— Posso saber por que você está na defensiva logo cedo? O final de semana não foi bom?
Regina levantou-se e começou a andar pelo cômodo. Contava ou não contava? Dirigindo sua atenção ao pai, ela parou atrás da poltrona de Cora e espalmou suas mãos no encosto.
— Lembram-se da reunião que eu cancelei na sexta?
Henry assentiu, colocando o dedo indicador sobre os lábios, formando uma carranca, enquanto Cora cruzava o tornozelo por detrás da perna oposta em silêncio.
Regina então, contou das visitas semanais e do que Robin disse para Henry. Ela achou que fosse chorar quando contasse essa história, mas descobriu que só sentia rancor.
O maior erro de sua história com Robin foi perceber que não funcionaria, mas insistir em querer que funcionasse. Às vezes isso acontece: você ama uma pessoa e não se importa com mais nada. Foi só quando viu que ele não mudaria, nem por ela e nem por ninguém, que conseguiu se libertar. Pena que Robin não. Se não houvesse Henry ela seria obrigada a dizer que fora um fracasso total.
— E acho que posso ter piorado tudo, porque dei um soco nele. — finalizou sem muitos detalhes.
— Você o quê?! — gritou Henry. Quando percebeu que havia cerrado as mãos em cima da mesa, concentrou-se em relaxá-las. Controlar e canalizar as próprias emoções eram habilidades que ele aprendera a transformar em arte ao longo dos anos.
— Emma. — pronunciou Cora baixinho balançando a cabeça.
— Não foi culpa dela. Eu que pedi pra aprender alguns golpes pra auto defesa. Depois daquele episódio com Robin, achei que seria útil.
— Auto defesa, Regina. — expôs Cora com ironia, virando-se na poltrona para enxergá-la. — Não estou dizendo que é culpa dela, mas você deveria ter pensado melhor antes de sair agredindo aquele idiota.
— Acha que eu não sei?
Cora se limitou a olhá-la sugestivamente.
— O que ela disse?
— Emma?
— Quem mais?! Apesar de tudo ela ainda é policial, não é?
— Sim. Bem, ela disse que teria feito pior e que acha que não foi tão sério assim. Foi um alerta pra ele, mãe. Pai?
— Vocês já estão com a ordem de restrição?
— Já.
— Bom. Não seja mais boazinha com ele, Regina. Mesmo pensando no Henry. Ele terá que entender que Robin não pode fazer parte da vida dele.
— Mas como eu direi isso?
— Não diga. — afirmou Cora. — Regina, ele vai sentir falta dele, e quando isso acontecer, conte uma memória ou algo do tipo. E deixe-o saber que Robin não está ali por sua culpa. Dê um pouco de crédito ao Henry. Ele é inteligente e percebe as coisas. Pare de protege-lo, porque um dia ele vai crescer e saber a verdade. Você não pode esconder quem o pai dele de fato é pro resto da vida.
— É. Tenho ouvido muito isso ultimamente.
— Comece a colocar em prática, então. E aquele imprestável não merece sequer um pensamento seu, portanto pare de se preocupar.
— Sim, mãe. — respondeu, tentando demonstrar seu agradecimento com um sorriso.
— Tenho certeza que Emma cuidará das questões de segurança pertinentes ao assunto.
— Estamos preocupadas com a Marian, mas Emma dará um jeito pra casa dela ser vigiada. E falando em vigilância, instalamos câmeras e um alarme mais potente. Isso tem nos ajudado a dormir mais tranquilas.
— Muito bom, filha.
— Acho que deveríamos pensar nisso também, não acha Henry? Colocar câmeras pelo menos do lado de fora. Isso faria os moleques da rua pararem de apertar a campainha. E eu teria algo pra contar na próxima vez que ver Eva e as outras garotas.
— Garotas… — disse Regina baixinho com a voz cheia de deboche, deixando de lado aquele assunto por um instante. Cora revirou os olhos e voltou-se para sua posição normal, já que seu pescoço estava doendo.
— Regina, por favor, pegue um chá ou qualquer coisa que tenha na cozinha pra mim e depois sente-se onde eu possa enxergá-la sem perder, literalmente, a cabeça.
Regina deu uma risadinha e saiu do escritório.
Henry olhou da porta por onde ela tinha passado para Cora. Como sempre, ela estava impassível. Aquela conversa frívola dela sempre fora boa para amenizar e distrair algumas coisas. Mas por um momento, quando seus olhares se encontraram, ele percebeu como ela estava aterrorizada.
Ela sustentou o olhar dele, sem emitir som algum. Eles não falariam, mas estava explícita a preocupação deles diante ao que Regina contara. Robin era perigoso quando queria ser, e eles sabiam disso.
— Me ajude a pensar num plano. — sussurrou ele.
— O que você acha que podemos fazer?
— Eu não sei! Por isso estou te pedindo ajuda. — ele levantou e encostou-se na escrivaninha. — No momento, estou pensando em matar aquele canalha eu mesmo.
— Não nos fará bem algum causar um problema na tentativa de resolver outro. Pense nisso. E controle-se. Já chega Regina fazendo as coisas sem analisar antes.
— Cora… O que você…
Neste instante Regina entrou com uma bandeja e Henry ficou mudo. Como haviam chegado aquela situação?
— O que você veio nos contar mesmo?
— Oh, sim. O Clube foi citado nos cinco principais jornais de Chicago. Isso não é ótimo?
— Com certeza é.
— E vai haver uma apresentação este final de semana? Eva me perguntou, mas não soube responder já que ninguém me conta nada.
— Neste final de semana não. — disse Regina rapidamente, ignorando a vitimização de Cora e fazendo Henry a olhar de soslaio. — Temos aquele almoço marcado, lembram?
Cora encostou ruidosamente a xícara de chá no pires, e seus lábios estreitaram-se numa linha fina, demonstrando sua insatisfação com o compromisso.
— Eu já desmarquei e remarquei tantas vezes que é compreensível que vocês tenham se esquecido. — reconheceu Regina encostando-se no móvel ao lado do pai.
— Achei que você já tinha desistido desse almoço.... Aliás, almoço pra quê?
— Acho que não temos nos reunido com frequência suficiente, mãe.
— Essa foi a pior desculpa que você já deu na vida… Diga novamente o horário para eu poder programar as coisas.
— Oh, não se preocupe! Emma e eu estamos cuidando de tudo.
Ela soltou um muxoxo inconformada.
— Não seja tão dura com a menina, Cora.
— Certo. — concedeu vencida após alguns minutos de falsa revolta. — Devemos levar alguma coisa?
— Na verdade vai ser aqui no Clube.
— Por quê? — perguntou indignada.
— Mudança de ares. E porque o Henry gosta de ficar aqui.
— Nós não ficamos aqui o suficiente?
— Um pouco mais não vai nos matar — respondeu Henry com uma advertência clara para Cora. — Já são nove horas? Como o tempo voa. Você não precisa se encontrar com o comitê beneficente?
— Achei que você havia perdido sua cortesia, Henry. Mas vejo que não. — disse com um tom sarcástico e mordaz, sem sair do lugar.
Regina pegou a papelada que precisava e saiu do escritório sem olhar para os pais. Ela tinha consciência de que a mãe ficaria ali até que sua teimosia tivesse passado e estivesse cansada de encarar Henry. Apesar de tudo, sabia que havia respeito e um certo companheirismo naquele relacionamento, e isso parecia funcionar pra eles.
Pensando na reação que teriam quando descobrissem o que diria no almoço, ela seguiu para as baias voltando vez ou outra seu olhar para a grama em que pisava. Tinha que concordar com o pai que ela parecia mais verde e brilhante.
—------------------------------------------------------------------------
Apesar do Clube ser bastante movimentado aos domingos, a casa da fazenda ficava em volta de um jardim que a deixava quase isolada, o que restringia o barulho e lhe deixava mais particular. Por insistência do pequeno Henry, o almoço foi servido na maior varanda, ao ar livre.
Sentada do lado direito da mãe, que estava em uma das cabeceiras, Regina pode notar o calor dos raios do sol na grama e o ar perfumado pela lavanda que enfeita o centro da mesa. A luz dourada que cercava o ambiente fazia tudo parecer mais elegante do que realmente era e ela gostou disso.
A ocasião não pediu grandes gastos, mas sim uma criteriosa seleção nos detalhes servidos. Para a entrada havia pães temperados e uma boa salada. O prato principal envolvia macarrão ao molho branco e uma carne assada, acompanhados de vinho tinto para os adultos e suco de uva para Henry, para que assim ele não se sentisse excluído.
Antes de saírem de casa, Emma e Regina discutiram sobre o momento em que contariam seus planos futuros e decidiram-se por depois da sobremesa, que seriam um flan de baunilha com calda de caramelo.
Henry e Cora estavam dispostos nas pontas, enquanto nas laterais estava sentada Emma, do lado esquerdo do senhor Henry, e Alexa do lado direito, e Ariel ao lado esquerdo Cora. A conversa foi agradável, embora estivesse evidente a pergunta silenciosa que todos faziam: “Por que diabos estamos aqui?”.
O silêncio, até então ocasional entre eles, foi acentuado ao final da refeição, quando todos bebiam vinho e olhavam curiosos por cima de suas taças.
Regina inclinou-se em direção a Henry, sentado entre ela e Emma, quando ele a cutucou no braço com os dedinhos ansiosos.
— Mamãe, o que tá acontecendo? — sussurrou pra que ninguém ouvisse. — Por que estão olhando engraçado pra gente?
— Vamos falar do casamento, filho. Por isso estão todos assim. — cochichou Regina tão baixinho quanto ele.
— E o casamento é uma coisa ruim? Por isso estamos quietos?
— Não, meu amor. — respondeu com um risinho, dando um beijo na cabeça do pequeno para encerrar o assunto.
Ariel, que observava tudo atentamente para tentar ler os lábios da amiga, cansou-se do esforço em vão e resolveu ser direta. O vinho que havia tomado não era suficiente para a falta de interesse em uma conversação que a mãe dela insistia em manter. Para sua sorte, o que é que fosse dito poderia ser aguentado após experimentar o delicioso doce que era colocado a sua frente.
— Regina, o que vocês queriam nos contar? — perguntou Ariel após a primeira colherada e quebrando o silêncio restabelecido.
— Não era um almoço em família? — indagou Cora com seu humor ácido enquanto apontava para Ariel e Alexa. — Porque elas estão aqui?
— Mãe! — repreendeu Regina alto enquanto rolava os olhos. Seria inútil tentar consertar a grosseria dela e por isso ela não o fez. Ariel e Alexa não se incomodaram em absoluto, já que sabiam como ela era, apesar de ser a primeira vez que se encontravam pessoalmente.
O aniversário de Henry não contava, pois não tinham sido formalmente apresentados ou trocado mais do que duas palavras. Não que houvessem melhorado a articulação entre elas, longe disso. Mas, aos olhos de Alexa, Cora era tudo, menos a pessoa torpe que um dia imaginou após conversar com Emma.
— Nós temos um comunicado a fazer.
— Não acredito que você engravidou minha princesa antes do casamento, Swan! — brincou Henry, descontraindo o clima pesado após o comentário de Cora.
— Pai! Meu Deus! — Emma e Regina ficaram vermelhas até a raiz dos cabelos, e Regina pensou que se houvesse um buraco ali perto, entraria e não sairia mais.
— Mamãe, a senhora também vai contar dos bebês mágicos? — questionou o pequeno, inocentemente.
“Era tudo o que me faltava”, pensou Emma, enquanto o senhor Henry ria audivelmente.
— Como é? — Os olhos de Cora arregalam-se tanto que parecia que iriam soltar das órbitas e ela engasgou-se com o vinho que tomava.
Imediatamente Ariel se aproximou dela, solícita.
— A senhora está bem?
Emma e Regina deram sinal para que Henry ficasse calado. Com uma carinha sapeca e um “ops”, ele foi obrigado a voltar sua atenção para o flan.
— Estou. — respondeu com uma careta de desagrado, que fez Ariel recuar na hora.
Limpando a garganta e preferindo não justificar-se, Regina decidiu que não poderiam desistir agora. Percebendo o embaraço da morena, Emma encostou sua mão sutilmente na dela e lhe deu um sorriso de encorajamento.
— Como eu estava dizendo… Emma e eu vamos no casar.
Ariel não poderia dizer que estava surpresa com a notícia, porque não estava. Assim como os outros, incluindo até mesmo Cora. Era questão de tempo até que elas tomassem tal decisão. Sua mente começou a trabalhar rápido, feliz com as inúmeras possibilidades de criação que teria. Regina e Emma querendo ou não, teriam sua ajuda no planejamento da cerimônia. Seria um arraso!
Logo o significado de casamento e festa se consolidou entre eles e a comoção e felicitações preencheram o tempo que seguiu.
— Parabéns! Parabéns! — gritou Alexa com sincera felicidade. Ela saiu de seu lugar e contornou a cadeira do senhor Henry para abraçar Emma e depois fez o mesmo com Regina e o pequeno Henry, que sorria bastante animado.
Regina, após abraçar Ariel, foi abraçar o pai que lhe cochichou ao ouvido:
— Dessa vez você está fazendo a coisa certa.
Ela acenou freneticamente com os olhos marejados e afastou-se, parando de frente para a mãe. A menção silenciosa de Robin não a atormentou tanto quanto as ideias cruéis que sua mente criou sobre qual seria a reação dela.
Cora a olhou durante um longo instante. Depois, com uma voz terrivelmente serena, disse:
— Talvez vocês não acreditem, mas não encaro esta notícia com aborrecimento. Você já me deixou claro mais de uma vez que tem controlado bem a sua vida e sou capaz de reconhecer os méritos de Emma nisso. E posso ver que Henry está feliz e você também. Isso é o que importa, Regina.
Cora estendeu os braços, num pedido mudo de permissão para abraçar a filha. Emma só percebeu que estava prendendo a respiração, quando segurou um gritinho ao ver elas se abraçando. Aquele dia realmente merecia ser comemorado.
Quando elas se separaram, Regina viu Emma parando ao seu lado. A loira tinha uma expressão convencida e ergueu a mão para que Cora a apertasse. Havia sido um longo caminho até ali, mas elas não podiam reclamar muito.
Tudo estava bem.
Cora segurou com firmeza a mão da loira e ficou olhando-a fixamente, sem fala. Finalmente, pronunciando cada uma das palavras com cuidado, disse:
— Sobre esses bebês, eles serão de laboratório?
Regina bufou diante ao atrevimento da mãe e Emma soltou a mão rindo nervosamente. Foi Henry que veio no socorro delas, fazendo o clima amenizar-se novamente.
— Não vovó, eles serão feitos na casa de bebês mágicos.
O senhor Henry deu um olhar de zombaria para esposa, chegando perto dela e sussurrando:
— Foi você quem perguntou.
Cora não retrucou pra ele, mas lhe deu um olhar atravessado. Ela disse uma concordância qualquer para o garoto e afastou-se. Henry se prontificou a mostrar o aras para Alexa e Ariel, e o garoto lhe seguiu entusiasmado por poder mostrar os cavalos.
Emma e Regina os acompanharam de mãos dadas, mas com um passo mais lento, deixando-os ir na frente para trocarem confidências. A felicidade que as rodeava era evidente e pela primeira vez Cora percebeu o quão apaixonadas elas estavam.
Observando-as dobrar a pequena curva que separava a casa do resto do clube, ela teve que reconhecer que, apesar de ter sido estranho no começo, agora era tão comum quanto o resto de suas atividades.
Ninguém pareceu se lembrar dela durante o resto da tarde, mas ela não se importou. Em realidade, necessitava de tempo para assimilar tudo o que estava acontecendo e o que precisava ser feito para alterar o furacão que estava por vir.
Fale com o autor