Maçã com Canela
12 Capítulo 12
Notas iniciais
— Henry? — chamou Regina entrando no quarto do garoto. Os brinquedos dele estavam todos espalhados pelo chão e ele arrancava alguns desenhos pregados na parede.
— Meu Deus! Passou um furacão aqui! — cochichou Emma espantada.
— Henry, o que é isso?
— Não quero escolher ninguém! — gritou o menino enquanto rasgava seus desenhos e chutava os brinquedos.
— Henry, você não precisa, filho. Nós vamos cuidar de você. — afirmou Emma em um tom encorajador e neutro. Ainda bem que ela vinha lendo alguns livros sobre crianças. Às vezes ela esquecia que Henry não era um dos seus subordinados e que só tinha cinco anos. “Não ceda à birra. Mantenha-se calma.”
Henry sentou-se no chão e começou a chorar. Emma nunca havia visto aquele menino chorar tão copiosamente quanto agora.
— Henry, acalme-se, meu anjo. — pediu Regina docemente. — Venha aqui com a mamãe.
Ela o pegou no colo e sentou-se na cama. Emma passava a mão nas costas dele, tentando acalmá-lo. Como na primeira vez em que se viram.
— Nós somos uma família e nunca vamos te deixar. Certo? Não tem com o que se preocupar. — garantiu Regina.
— Vocês não gostam de mim! — acusou ele com a respiração ofegante
— Não é verdade, querido. E você sabe.
— Por que você está tão triste? — perguntou Emma, tentando descobrir o que o garoto estava sentindo.
Henry começou a chorar novamente e Regina o abraçou mais forte.
— A culpa é minha, não é? — sussurrou o garoto entre soluços
Regina e Emma se olharam.
— Se tem alguém culpado nessa história, Henry, sou eu — começou Emma. — Lembra aquela vez que te contamos o porque do seu pai estar brigando com a gente? — Henry balançou a cabeça, mas sem se afastar do peito de Regina — Nos te falamos, pequeno, que não é comum ter duas mamães. E seu pai não aceita. Mas não significa que ele não te ama.
Ela fez uma pausa, tentando ver se o garoto entendia.
— Nós só queremos o melhor pra você, Henry. Você prometeu que iria ser forte. E como você prometeu uma coisa, nós vamos prometer algo também.
Regina a olhou de modo repreensivo, mas Emma a ignorou.
— O quê? — perguntou com sua voz fraquinha
— Nós prometemos que você não vai precisar escolher. E que vamos fazer de tudo para manter essa família unida. Combinado?
— Mas como? O vovó disse que se eu ficar com vocês, eu nunca vou ver o meu pai. E se eu ficar com ele, eu não vou ver vocês.
— Bem, nós vamos pedir pra que isso não aconteça. E pra que tudo continue como está. Você morando com a gente e vendo seu pai e o Roland quando quer. O que você me diz?
— Promete, mãe?
Emma engoliu seco. Era uma promessa arriscada, mas ela faria tudo o que estivesse a seu alcance, usando sua posição na polícia para tentar um bom acordo com o juiz e com Robin. Ela faria de tudo por aquele menino. E pela mãe dele, pensou ela olhando para Regina.
— Prometo.
— Vamos, enxugue essa lágrimas. Não consigo ver esses olhos bonitos com tanta água neles — brincou Regina.
— Henry? Lembra do segundo filme d’O Rei Leão que a gente estava vendo ontem? — perguntou Emma. Henry fez que sim com a cabeça.
— Vamos assistir de novo? Lembra da musiquinha do Simba com a filha dele? — ela o pegou no colo e foi levando-o para sala, enquanto cantava “Somos Um”. Regina seguiu eles e tentou acompanhar o ritmo da loira. Henry ao vê-los começou a brincar com o neto e logo o resquício de choro se dissipou.
— Como você sabe dessas coisas? — perguntou Regina no ouvido de Emma, enquanto elas observavam o avó e o neto assistindo o filme.
— Pra quê você acha que eu leio todos aqueles livros? — brincou Emma. — Não vou ter um filho birrento. De jeito nenhum!
— Henry não é birrento, você sabe disso. — defendeu Regina — Toda essa situação é demais pra ele. Se está acabando com o nosso emocional, imagina com o pobrezinho.
— Você fez um bom trabalho com ele, Regina. E vai continuar fazendo. Eu prometi, lembra?
— Só espero que você esteja ciente do rolo que você vai causar se não conseguirmos um acordo com aquele idiota.
Eles fizeram uma refeição rápida e logo o advogado chegou. Ele explicou para Regina e Emma que era provável que a sentença do juiz fosse a guarda compartilhada, mesmo que Robin pedisse a anulação da presença delas. Emma perguntou se isso se aplicaria mesmo com Robin alegando que a homossexualidade de Regina era um problema.
— O princípio da igualdade ordena que evite-se discriminação por motivo de orientação sexual. No entanto, quando a progenitora é homossexual, coloca-se em risco a neutralidade do processo. O juiz está investigando o relacionamento de vocês e se for necessário, ele irá optar pela preferência da criança.
— Não queremos que Henry tenha que escolher. — afirmou Emma rapidamente.
— Essa questão é muito delicada, srta. Swan. Não será tão direto como vocês imaginam. O garoto passará por uma avaliação psicológica e, a partir dela, teremos um veredicto. Porém, seu ex-noivo utiliza argumentos homofóbicos e discriminatórios. Isso pesa contra ele, já que nosso país presa pela liberdade individual de cada um.
O advogado relatou exemplos de outros casos e perguntou sobre potenciais testemunhas. Após discutirem sobre situações hipotéticas e conversarem sobre como aconteceria a entrevista com Henry, eles se despediram.
Henry ainda estava acordado e esperava por elas com o avô.
— Vamos, garoto! Vou te colocar na cama!
— Você pode me contar uma história?
— Qual você quer?
— Peter Pan! Vou viver de histórias que nem ele.
— Peter Pan não crescia. E você quer crescer. — constatou Emma
— Bem… — se embananou o garoto — Eu vou crescer mais tarde. Eu sou o Peter Pan agora.
— Tá certo! Vamos lá!
Henry e Emma subiram e Regina voltou-se para conversar com o pai.
— Pai? Seja sincero comigo. O senhor acha que eu ultrapassei os limites com toda essa história?
Henry a olhou atentamente com seus olhos castanhos e bondosos.
— Minha querida, posso lhe garantir que o que todos buscam nessa vida é amor. E você está cercada por ele. Não importa de quem vem. Amor é amor. Se isso faz com que você tenha passado dos limites, então, não tenha dúvidas, você está onde deveria estar.
Regina concordou com os olhos marejados.
— Obrigada — sussurrou abraçando-o
Ao se separarem, Regina concentrou-se novamente em suas recentes e complicadas questões.
— O advogado falou sobre testemunhas, pai.
— E obviamente eu ficarei a seu favor.
Regina sorriu. Seu pai era, de fato, um homem maravilhoso.
— Nós dois sabemos que o problema dessa história tem nome, sobrenome e endereço.
— E é casada comigo — reconheceu Henry rindo amargamente.
— Pai, o senhor nunca pensou em se separar dela? — quis saber Regina, curiosa.
— Bem… uma ou outra vez já. A única coisa boa entre nós é você.
— O senhor deveria repensar isso. E pode apostar que vou te apoiar. Minha mãe já complicou nossas vidas o suficiente, não acha?
Eles ficaram em silêncio. Desviando o olhar, Henry garantiu antes de despedir-se:
— Sobre o processo, terei novamente uma conversa com ela.
— Não. É minha vez! — o olhar determinado de Regina era sombrio. Henry percebeu que a filha que procurou sempre agradar Cora não existia mais. Aquela mulher na sua frente estava disposta a tudo. E nem mesmo laços sanguíneos a impediriam.
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— Você tem certeza que vai sozinha? — perguntou Emma pela terceira vez
— Já disse que sim.
— Ok, ok. Nós vamos te esperar lá no parquinho, então.
O dia estava parcialmente limpo e a temperatura agradável. Regina, no entanto, estava em uma turbulência interna. Ela estava decidida a falar com Cora e resolver o assunto o mais rapidamente possível. Henry, não podia viver dias tenebrosos por muito mais tempo. Regina queria tanto protegê-lo. Mas ela também queria ser feliz. E se sua mãe não fosse ficar do lado dela, então não ficaria do lado de mais ninguém.
— Assim que eu terminar minha conversa com ela, eu encontro vocês.
— Vamos te esperar aqui.
Após deixar Emma e Henry no parque, Regina foi para a mansão Mills. Repetindo mentalmente um discurso que havia preparado, ela se perguntava como era possível sua própria mãe estar contra ela. Respirando profundamente, ela desceu do carro e tocou a campainha. Foi seu pai que abriu a porta
— Ela está em casa?
— Está na sala de jantar.
O corredor que os conduzia não era grande o bastante para aplacar o coração descompassado de Regina. Elas se encararam por um instante.
— Bom dia, Regina. Qual o motivo dessa visita logo cedo? — criticou Cora, que acabava de tomar o café da manhã.
— Como se a senhora não soubesse! Acha que eu sou burra? Acha que não sabemos que você induziu o Robin a fazer tudo isso? O advogado tem seu nome como principal testemunha dele. — as palavras de Regina eram carregadas de desprezo e intolerância
— Regina, tudo o que eu fiz foi para o seu bem. Seu pai e eu conversamos sobre isso. Essa relação com outra mulher não é saudável para o menino!
— Não ouse colocar meu pai e meu filho como desculpa para suas armações! — advertiu com uma expressão calma, longe de revelar o vulcão ativo agitado dentro de seu peito.
— Como eu havia lhe dito, Robin não é uma escolha maravilhosa. Mas aquela Emma? Você alguma vez pensou na humilhação que nos causaria? Na posição que nos coloca?
Regina ficou calada. Sim, ela acertara. Sua mãe, mais uma vez, preocupava-se apenas com as aparências.
— Você me garantiu que pensaria em se arranjar melhor. Viajar pelo mundo e ser alguém.
— Mas eu sou alguém — disparou ela, indignada
— Você entendeu o sentido que eu quis empregar! — explicou-se Cora com desdém
— Alguma vez eu fui boa o suficiente para você? Alguma vez meu pai foi? Você sempre quis tanto, mãe. Mas você nunca valorizou o que já possuía. — reconheceu Regina com amargura — Por que você não pode me deixar viver do jeito que eu quero? Por quê?
— Eu quero o melhor pra você, filha. Quero que você tenha o que eu nunca tive. Quero que você viva uma vida plena e feliz.
— Mas já tenho tudo isso! Com o meu filho. Com a Emma.
Cora colocou a mão na cintura e virou-se. Após um momento, ela voltou a encarar a filha.
— Eu te amo, Regina. E só estou fazendo isso tudo por você. Entenda que você pode ter muito mais, ser muito mais.
— “Existem muitas emoções que as pessoas julgam ser amor”. — citou Regina cabisbaixa. — “Mas não são”. Você nunca fez algo por mim de verdade.
— Eu sempre odiei essa vida inexpressiva à qual fui submetida. Se consegui alguma coisa, foi o poder e a vontade necessária para reconhecer que eu e você poderíamos conquistar o que quiséssemos!
Regina deu um sorriso sarcástico.
— Emma costuma dizer que o mundo está caótico porque as pessoas acham que o poder vem do ódio quando, na realidade, vem da verdade.
Cora travou a mandíbula, mas não disse nada.
— Você não pode mais culpar meu pai pela sua vida, nem ninguém. A única responsável é você. Eu consenti que você tivesse poder sobre mim, mas eu não permito mais que você me diga como viver. Minha relação com a Emma não lhe diz respeito. Meu filho ainda é seu neto, mas você está proibida de mencionar esse assunto com ele.
— Regina… — começou Cora, que foi ignorada.
— Diga a Robin que você não vai se envolver mais nessa história. Diga a ele que você pensou melhor e percebeu o quão errada está em condenar o meu relacionamento com a Emma tão precipitadamente.
— Ou o quê, Regina?
— Ou você terá que procurar um emprego e outra casa, pois não lhe darei nenhuma parte dos lucros do Clube. O que você achou ser o mínimo que tinha, vai virar nada. — Regina percebeu que não deveria ter perdido tempo preparando um discurso. Infelizmente, lá estava ela ameaçando a mãe.
— Você não faria isso!
— Sim, faria. Está tudo no meu nome. Deixe-nos viver nossa vidas, mãe. E vá viver a sua. Tudo que você diz que queria pra mim, você ainda pode ter. Por favor, arrisque a sua felicidade. Não a minha.
— Espero que seu filho não faça o que você está fazendo comigo! — Cora parecia desnorteada
— Ele não vai. Emma e eu não iremos interferir na vida dele.
— Você vai mesmo ignorar tudo o que eu fiz por você? Tudo o que eu te dei?
— O que você me deu? Coisas materiais se vão. Você nunca me deu o que eu mais quis: liberdade. Eu sempre fui presa à sua obsessão, à minha vontade em te agradar. Se hoje eu sou o que eu sou é por causa do meu pai. Você nunca nos considerou. — Regina respirou fundo. — Eu não a deixarei desamparada, mãe. Mas se você fizer algo para interferir novamente em nossas vidas, eu vou cumprir o que eu disse. E aí sim você poderá dizer que não tenho consideração nenhuma por você.
Regina deu às costas para Cora e voltou-se para Henry que assistia a tudo calado.
— Esse lugar nunca foi nosso lar, pai… Já tomei minha decisão. Por favor, é hora do senhor fazer o mesmo.
— Regina — sussurrou quando ela ia sair — Sou sua mãe!
— É, mas Henry é meu filho e Emma minha mulher, e eu os amo.
Achou tê-la ouvido arfar, mas não se voltou para olhá-la. Regina deixou a mansão Mills com a esperança de que fosse para sempre.
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Emma olhava estática para Henry que brincava no balanço. Ela odiava esperar. Como havia chegado ao posto de Sargento com esse defeito tão gritante, era um mistério para ela. Mas talvez ela tenha feito algo certo que recompensou essa falha.
Analisando sua vida, a loira percebeu que não tinha muito do que reclamar. Ela havia sofrido sim, mas ela soube canalizar aquela dor para fazer algo que valesse a pena. Trabalho duro traz recompensas. Mas naquele caso, a única beneficiada estava sendo ela.
Silenciosamente, ela fez uma prece: “Eu sei que não tenho nada para perder. Nada que valha realmente perder. Mas por favor, não tire dela o que eu mais prezo nesse mundo. Ela precisa da família. Por favor, por favor, ajude-nos a conseguir passar por isso sem muitos danos.”
— Em? — chamou Regina tirando Emma de suas reflexões. Sem esperar uma resposta, ela foi sentando-se ao lado dela no banco.
— Como foi?
— Não do jeito que eu havia planejado, com certeza.
— Isso não responde nada! Tem ideia do quanto eu estou aflita? — Emma esfregava as mãos nas pernas, tentando diminuir o nervoso.
— Eu só fui conversar com a minha mãe, Em. Não com um chefe da máfia!
Emma olhou para ela. O sarcasmo diante daquela sentença lutando para sair. Porém ela só ergueu as sobrancelhas deixando explícita a resposta muda.
— Eu sei, eu sei. Mas ela não é tão ruim assim.
Emma esperava que ela continuasse, mas Regina parou de falar.
— E então? — incentivou
— Com esse temperamento, eu não acho que você seja a mais indicada para ser tenente, Swan! — Regina estava claramente irritada.
— Você está descontando na pessoa errada. Guarde as garras pro Robin, Regina! O que aconteceu?
Regina suspirou. Como ela odiava discutir com sua mãe. Cora consciente, ou não, sabia como trazer seu pior lado. E ela detestava isso.
— Desculpa. Ela me deixa louca! — Emma apenas soltou um muxoxo em concordância — Resumindo: ela me fez perder a paciência, eu a ameacei e acho que cortamos relações em definitivo.
Emma a abraçou apertado.
— Me desculpe, Regina. Me desculpe.
— Pelo quê?
— Por ter que te fazer escolher entre mim e a sua família.
Regina a encarou. Com as duas mãos, ela emoldurou o rosto de Emma e disse pausadamente:
— Quem teve que fazer uma escolha hoje foi minha mãe. Entre a realidade e a fantasia que ela cultivava. Eu nunca escolhi entre você e a minha família, Em. E nem vou. Você também é a minha família!
— E você é a minha! — garantiu Emma enlaçando-a pelo pescoço e lhe dando um beijo breve.
— Vamos para casa.
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Outras conversas com o advogado se seguiram durante aquela semana, entre elas a do encaminhamento de Henry para o psicólogo. Eles tentaram fazer com que fosse sutil para o garoto e disseram que ele teria que ir conversar algumas vezes para ajudar no caso. Surpreendentemente, ele foi sem questionar muito. Regina, porém, sabia que isso foi fruto das conversas de Emma com ele, que contou que quando era menor teve que passar por muitos médicos daquele tipo e que ela teria tido muito mais sorte se eles tivessem sido iguais ao Dr. Hopper.
“Ele tem muitos brinquedos legais na sala dele e sabe muitas brincadeiras. Você vai ter que ir para aprender algumas e me ensinar” disse ela em uma das vezes que falou com Henry.
Com isso, os dias se arrastaram e o ambiente tenso na casa se intensificou. Regina e Emma estavam sempre apreensivas, tentando ao máximo fazer com que Henry não fosse afetado por nenhum dos comentários que elas faziam sobre a audiência estar chegando ou sobre Robin ou sobre a pressão constante para que Cora ficasse distante daquele tema.
O Natal passou sem grandes momentos. Emma queria comemorar corretamente e montou toda a decoração, mas o espírito delas estava tão carregado pelas preocupações, que a parte natalina ficou esquecida. O único que aproveitou de fato foi Henry, que ganhou novos brinquedos e um trenó do avô.
Na virada do ano, Regina e Emma levaram Henry para ver os fogos de artifício no parque e o dia seguinte ele passou com Robin.
Regina e Emma se revezavam entre trabalhar e manter o mundo de Henry o mais afastado possível do caos que estava o assunto da audiência. Assim, durante aquelas semanas, elas caíram numa rotina maçante, que as deixavam tão aborrecidas quanto cansadas.
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