MINHA OUTRA FACE

26 O peso das ações


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═══🎭✦✧ Ainda na Fazenda de Rita... ✧✦🎭═══

Rita sorriu com um brilho satisfeito nos olhos, aproximando-se de Rodrigo.

— Muito bem — disse ela, orgulhosa. — Por um instante, achei que você fosse um frouxo igual ao meu neto.

Retirou o revólver das mãos dele. Voltou-se para Soraia, que jazia encolhida no chão. Sem hesitar, Rita ergueu a arma e disparou outra vez. Bira, com os olhos marejados, sentiu o nó apertar-se na garganta.

— Agora é com você — ordenou Rita, com frieza. — Trate de se livrar logo desse corpo.

Sem mais palavras, ela e Rodrigo viraram as costas. Bira permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando trêmulo vendo os dois se afastarem. Depois, aproximou-se do corpo de Soraia e arrastou-a até a cova.


═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══

Meireles estava sentado em sua cadeira, as mãos percorrendo os cabelos em gestos de preocupação.

— A Mulambo está afundando — disse ele, tenso. — E eu não sei o que fazer.

Angelina aproximou-se, pousando a mão em seu ombro, tentando transmitir alguma segurança.

— A gente vai achar uma solução, meu amor. Não podemos perder o controle.

— Que controle que ainda temos, Angelina? — retrucou Meireles, a frustração evidente. — Agora essa fofoca rodando na internet com meu nome...

Daiana, mexia no celular, ergueu os olhos, preocupada.

— E pior, pai, o pessoal continua postando coisas na internet. São tantos comentários grotescos, nem dá vontade de ler.

Meireles soltou um suspiro pesado.

— Olha a situação que me encontro. Hoje recebi diversas mensagens e ligações de investidores, todos preocupados com o nome de suas empresas vinculadas à Mulambo. Nunca enfrentamos uma crise tão séria.

Daiana olhou para ele, hesitante:

— E o Rodrigo? Como ele se posicionou diante de tudo isso?

Angelina respondeu, firme:

— Ele está disposto a fazer o que for preciso para reerguer a empresa. Pelo menos foi o que disse.

Meireles balançou a cabeça, ainda inseguro.

— Eu estou de mãos atadas, sem saber o que fazer. Não sei se devo confiar no Rodrigo.

Daiana, com uma expressão de desapontamento, revelou:

— Eu estive no orfanato. Fui prestar meus pêsames ao pessoal de lá. A irmã Rosália me disse que o Gabriel, antes de fugir, confessou que foi ele quem matou Antunes. Ou seja... podemos concluir que, pelo menos, assassino Rodrigo não é.


═══🎭✦✧ Casinha do Adolfo ✧✦🎭═══

Na pequena cozinha, Aparecida lavava as louças da janta. Gabriel se aproximou com a vontade de ajudar.

— Deixa, eu lavo — disse ele. — Você já fez todo o trabalho de preparar a janta.

Aparecida sorriu, com calma.

— Imagina, Gabriel. Já tô acostumada.

Ele olhou para ela, sério.

— É o mínimo que posso fazer, depois de tudo que vocês fizeram por mim.

Ela assentiu e começou a separar o que restara da comida nas panelas, organizando em vasilhas de plástico.

— Então tá certo, — disse, com um leve sorriso — vou adiantar e guardar o que sobrou pra amanhã.

Gabriel pegou as louças e começou a lavá-las.

— Seu pai ia me contar algo importante, — começou ele, com cautela — qual era a ligação dele com o Antunes?

Aparecida parou por um instante, visivelmente nervosa.

— Meu pai não tinha assunto nenhum com seu Antunes — respondeu, firme.

Gabriel percebeu o desconforto e recuou um pouco.

— Desculpe, não quis ser inconveniente.

Ela suspirou, abriu a geladeira e guardou as vasilhas com restos de comida, retornando então ao lado dele para começar a secar as louças.

— Meu pai, há muito tempo, chegou a trabalhar com seu Antunes, — começou Aparecida, escolhendo cuidadosamente as palavras — mas ficou doente e não tinha como continuar trabalhando. Ele ainda não tinha idade pra se aposentar, e foi o seu Antunes quem ajudou, sempre esteve do lado dele. Pagou advogado, comprou remédio... a gente é analfabeto, não entende muito da lei, e ele nos deu todo suporte. Mas, pra ser sincera, nunca gostei muito dele. Sempre foi cheio de liberdade pro meu lado, e eu sei que ele era casado. Nunca contei isso pro meu pai.

Gabriel parou um instante, olhando para ela, absorvendo cada palavra.


═══🎭✦✧ Casa da Carla ✧✦🎭═══

Carla e Edson estavam sentados no sofá, abraçados, assistindo a um filme. A luz baixa e o som da TV criavam um clima aconchegante. Carla segurava uma taça de vinho, enquanto Edson mexia no controle remoto.

— A Ludmila agora tá toda apaixonadinha pelo Fabinho — comentou Carla, com um sorriso animado. — Disse que iam fazer um programinha a dois hoje.

Edson lançou lhe um olhar breve, sem desviar os olhos da tela.

— Espero que dessa vez ela leve o namoro a sério e não fique brincando com os sentimentos do rapaz.

— Eu acho que tá levando sim. Nunca vi a Ludmila tão apaixonada assim por alguém.

— Sinceramente, eu duvido. A Ludmila é avassaladora. Gosta de ter o cara correndo atrás dela. É do tipo que se enjoa rápido.

Carla arqueou a sobrancelha, e olhou para ele desconfiada.

— Você parece que conhece ela bem, hein!

Edson suspirou, a expressão desconfortável.

— Conheço o suficiente pra saber que ela não é boa influência pra você.

— Ah, para, né, Edson? — retrucou Carla, séria agora. — A Ludmila é minha melhor amiga. É como uma irmã pra mim. Sempre fomos confidentes uma da outra.

— Meu amor, eu sei que você gosta muito dela — disse ele, tentando suavizar a fala. — Ela é sensacional, divertida, alegre... Mas convenhamos, é uma adulta com atitudes de pré-adolescente. Não leva nada a sério. Só digo que ela pode te colocar em situações complicadas. Como, acredito, já fez algumas vezes.

— É... — ela respirou, bebendo um pouco do vinho. — Com a Ludmila sempre foi oito ou oitenta. Uma vez, inclusive, acabamos na delegacia por causa das loucuras dela. Sorte que eu trabalho lá, o delegado deu uma aliviada.

— Exatamente — concordou Edson, firme. — Ela não cresce. E não adianta dar conselhos.

Carla estreitou o olhar, e se ajeitou no sofá.

— Me toquei agora de uma coisa... De onde exatamente vocês se conhecem?

Edson desviou o olhar para a taça de vinho que ela segurava.

— Ela não te contou? — perguntou ele, cauteloso.

— Não. Se estou aqui te perguntando... — respondeu Carla, direta.

Ele engoliu em seco, a voz baixa:

— A gente teve um namorico no passado. Ou melhor, eu namorei ela. Porque ela mesmo nunca levou a sério.

O sorriso de Carla desapareceu de repente. Ela colocou a taça sobre a mesa com força.

— Namorico? Você já ficou com a Ludmila? Aquela vaca não me contou isso! — explodiu, furiosa.

— Foi há muito tempo, época de escola... não significa nada hoje — tentou Edson, defensivo.

— Não significa nada pra você. Pra mim significa. Não dá pra acreditar que a Ludmila me escondeu isso — retrucou Carla, virando-se de frente para a TV.

— Meu amor, eu... — começou Edson, sem saber como contornar.

— Vamos assistir o filme, tá? É melhor — interrompeu ela.

Edson suspirou, recostando-se no sofá, enquanto Carla se acomodou novamente, tentando mergulhar na tela, mas o filme parecia distante.


═══🎭✦✧ Restaurante ✧✦🎭═══

O carro de Fabinho parou em frente ao restaurante. Ludmila, ainda dentro do veículo, arregalou os olhos.

— Uau, que restaurante chique! — exclamou, animada.

— Nada menos do que você merece — respondeu Fabinho, com um sorriso.

Ele desceu do carro, foi até a porta do passageiro e abriu para ela, estendendo a mão.

— Que romântico! — disse, pegando na mão dele.

Fechando a porta, caminharam de mãos dadas até a entrada. O maître os recebeu com um aceno discreto de cabeça.

— Boa noite, senhor, senhora. Reserva em nome de quem? — perguntou.

— Fábio Meireles Filho — respondeu Fabinho, sem soltar a mão de Ludmila.

O maître conferiu a lista em seu tablet e abriu um sorriso sutil.

— Sim, está tudo certo. Por favor, me acompanhem.

O salão estava iluminado por lustres de cristal e velas sobre as mesas. Ludmila não parava de olhar em volta, maravilhada.

— Nossa, olha isso, Fabinho... Parece coisa de cinema! Mas já pensou se uma vela dessas pega fogo na toalha? — comentou ela, rindo nervosamente.

— Não se preocupe, não há risco disso acontecer — respondeu ele.

Ao chegarem à mesa, o maître afastou a cadeira para que Ludmila se sentasse. Ela sorriu, tentando manter a postura elegante, e Fabinho acomodou-se ao lado dela.

— O garçom logo trará a carta de vinhos e o cardápio. Desejam começar com água, vinho ou espumante? — perguntou o maître.

— Espumante, por favor — disse Fabinho, olhando para Ludmila com cumplicidade.

O maître fez uma reverência discreta e se afastou. Ludmila soltou um risinho contido, balançando a cabeça.

— Gente, mas que frescurada da porra — comentou, divertida.

— Ludmila, por favor, né? — disse Fabinho, fechando a cara envergonhado. — Não está gostando?

— Claro que estou, tô adorando — respondeu ela, rindo novamente. — Mas na moral... espero que tragam comida de verdade. Esses restaurantes chiques têm mania de colocar só um pedacinho de coisa no meio do prato. Não tenho paciência pra isso, quero sustância, meu filho!

Fabinho riu sem graça.

— A comida daqui é boa, você vai gostar. — Ele a olhou, sério e terno. — Estou sendo romântico, te trouxe a um lugar especial. Vamos aproveitar a noite, só nós dois.

— Desculpe, bora sim. Eu sou uma mulher romântica — disse Ludmila, sorrindo.


═══🎭✦✧ Fazenda de Rita ✧✦🎭═══

Rita estava em pé próximo ao fogão, pegou um punhado de ervas verde e jogou dentro de uma chaleira antiga que fervia.

— Eu não entendi o que você ainda tá fazendo aqui, Bira — disse ela, mexendo as ervas com uma colher de pau. — Já deveria ter voltado pra sua casa, pro seu trabalho, pra sua vidinha medíocre.

— Meio difícil manter o trabalho depois de ter faltado tanto. Seu Juca não alisa pra funcionário que some assim não — respondeu Bira, encostando-se à parede e observando o chá borbulhar.

Rita retirou a panela do fogo e com uma peneira de metal, coou o chá em uma caneca de barro.

— Procure outro emprego, faça alguma coisa. Não dá pra ficar aqui, levanta suspeita — disse, o encarando com a caneca na mão.

Bira deu alguns passos lentos pela cozinha, apoiando-se na porta.

— A minha presença incomoda tanto assim a senhora? Só quero passar a noite aqui. Amanhã eu vou embora.

— Só essa noite. Não quero ser alvo de nenhuma investigação da polícia — disse Rita, olhando-o de canto.

Bira respirou aliviado.

— Ok, vai ser só essa noite. Hein vó, vamos lucrar o quê mesmo depois de ter ajudado tanto o Rodrigo? Porque agora, ele é que tá lá no bem bom, sendo um dos donos da Mulambo.

— Você é cabeça de vento demais para entender certas coisas. O objetivo agora é fazer Rodrigo se tornar sócio majoritário. Aí, sim, ele começará a retribuir os favores que fizemos. Mas meu objetivo maior... — ela pausou, parando de repente e olhando ao longe pela janela — esse já foi alcançado: mandar o Antunes para o quinto dos infernos.

Bira franziu a testa, mordendo o lábio inferior, desconfiado.

— Minha cabeça pode até ser de vento, vozinha, mas tem algo estranho aí. Que garantia a senhora tem de que Rodrigo vai nos ajudar quando estiver no topo?

Rita ergueu o queixo, fria e firme.

— Rodrigo tem o rabo preso comigo. Ele não seria nem besta de me deixar de lado.


═══🎭✦✧ De volta ao restaurante... ✧✦🎭═══

Ludmila encarava a mesa, olhando para os pratos que haviam sido servidos.

— Vem cá, eles ainda vão servir mais coisa, né? Porque o que trouxeram até agora não deu nem pra tampar o buraco do meu dente — reclamou.

Fabinho sorriu, tentando manter a postura romântica.

— Se você quiser pedir mais alguma coisa no cardápio, fica à vontade.

— Os pratos daqui têm nomes tão estranhos, nem dá pra saber direito o que é — comentou Ludmila, olhando o cardápio.

Nesse momento, Glauber entrou no restaurante acompanhado de Xavier, e se acomodou em uma mesa de frente para Ludmila.

— Ih, carái! — exclamou ela, surpresa.

— O que foi? — Perguntou Fabinho, virando-se. — Seu amante, né?

— Não viaja, Fabinho. Não vamos ficar remoendo assuntos do passado, né? — Ludmila desviou o olhar, tentando soar casual.

— Tanto restaurante em São Paulo, e o cara inventa de vir pra cá — murmurou ele, com raiva contida.

— Acho que a ideia foi do coroa, ele só tá acompanhando — retrucou Ludmila, tentando manter a calma.

Fabinho suspirou e afastou o olhar da direção de Glauber.

— Para de olhar pra lá. Vamos focar em nós dois aqui. Já escolheu o que vai querer? — perguntou, sorrindo com leve insistência.

Glauber se levantou da mesa, ajeitou a camisa e seguiu em direção ao fundo do restaurante. Ludmila, de imediato, largou o cardápio sobre a mesa com desdém.

— Não entendo nada desse cardápio. Pede alguma coisa de sustância aí, que ainda tô varada de fome. Um arroz com bife, um feijão tropeiro, que seja... Vou ao banheiro, tô quase mijando na calcinha — disse, levantando-se às pressas.

Seguiu pelo mesmo corredor estreito que Glauber havia tomado. No fim, abriu-se diante dela um lavabo coletivo, com um espelho largo que refletia toda a extensão do ambiente.

Ali, diante da pia central, estava Glauber, lavando as mãos. Ele ergueu os olhos pelo reflexo do espelho e seus olhares se encontraram.

— Que coincidência, hein? Ou seria o destino? — perguntou, com um sorriso provocante.

— O que foi, Ludmila? Vai querer estragar o meu programa de novo? — Glauber respondeu, sem paciência.

— Longe de mim, meu amor. Não sei se você reparou, mas estou muito bem acompanhada — retrucou Ludmila, cruzando os braços.

— Então pronto, cuida dos seus esquemas que eu irei cuidar do meu — disse Glauber, secando as mãos e se afastando.

Ele voltou para a mesa, e Ludmila murmurou revoltada.

— Nossa, que grosso!.

Endireitou-se, respirou fundo e caminhou de volta. Ao chegar, encontrou Fabinho já de pé, ajeitando a carteira no bolso.

— Já acertei a conta. Vamos embora. — disse ele, seco.

Ludmila arqueou as sobrancelhas, surpresa.

— Como assim, criatura?

Fabinho a encarou de frente, os olhos endurecidos.

— Você acha que não percebi que foi atrás do seu amante? Vamos embora logo. Já cansei de passar vergonha.


═══🎭✦✧ No dia seguinte, na Mascarenhas models... ✧✦🎭═══

A câmera disparou mais um flash. O fotógrafo girava as lentes com destreza, disparando cliques contínuos. Daiana mudava de pose mecanicamente, mas seu olhar permanecia vazio, distante.

À frente, Frida observava cada registro que surgia no monitor.

— Essa campanha precisa de impacto — disse. — A marca quer transmitir força, confiança. Não é só roupa, é atitude.

Daiana respirou fundo, tentando esticar um sorriso que não vingava.

— Mais atitude, Daiana — ergueu o tom Frida, coordenando a cena. — Como se estivesse em movimento, como se o vento fosse seu cúmplice.

O fotógrafo clicou mais algumas vezes. No monitor, imagens surgiam. Frida inclinou a cabeça, suspirou e ergueu a mão, encerrando.

— Tá bom por hoje. Já temos material suficiente. Obrigada a todos.

O fotógrafo guardou o equipamento, a equipe começou a dispersar. Daiana deixou escapar um suspiro longo, relaxando os ombros. Caminhou até um puff no canto do estúdio, sentando-se descalçou os sapatos. Frida a acompanhava com os olhos, até que decidiu se aproximar.

— Tem alguém aí? — perguntou, em voz calma. — Você não tá aqui. Parece que sua cabeça tá em outro lugar.

Daiana engoliu em seco. Seus olhos marejavam.

— Desculpa, Frida... realmente não consegui me concentrar. — uma pausa curta. — Mas as fotos ficaram boas?

— Dá pra selecionar algumas pra campanha — respondeu, com firmeza delicada. — Mas o que tá acontecendo?

Daiana baixou os olhos, passou a mão pela testa.

— É o Gabriel... Não consigo parar de pensar nele. É um vazio aqui dentro, entende? Um desejo absurdo de que ele estivesse vivo. A nossa história não podia ter terminado assim, tão de repente. Eu nem tive a chance de falar com ele de verdade.

Frida respirou fundo, mantendo o tom firme:

— Você tá lembrada que o Gabriel assumiu a culpa, né? Agora não resta mais dúvida.

— Eu sei... — murmurou Daiana, enxugando uma lágrima que escorria. — Mas acredita que isso já nem importa pra mim? Isso é algo que ele teria que resolver com a justiça. O que eu queria mesmo era só uma nova oportunidade. Olhar nos olhos dele, jogar pra fora tudo o que tá entalado aqui dentro, tudo o que tô sentindo: a frustração, a raiva, o amor, o desejo... Eu só queria mais uma chance de ver ele de novo. E ouvir da boca dele a verdade, sem rodeios. Talvez só assim eu aceitasse que realmente acabou.

O silêncio se instalou por alguns segundos. Frida encarava Daiana com compaixão.

— O coração da gente é complicado — disse por fim. — Mas você precisa ser forte. Essa conversa não vai acontecer. O Gabriel não está mais aqui... e você precisa seguir.

As lágrimas finalmente transbordaram. Daiana chorava sem conseguir conter.

— Eu gostava tanto dele. Só percebi agora que ele não tá mais aqui. Era diferente... não era como com o Rodrigo. Eu e o Gabriel, a gente se entendia simplesmente com o olhar. Sabe o que é isso?

Com as costas da mão, tentou enxugar as lágrimas, recompondo um sorriso trêmulo.

— Eu só queria que tudo isso fosse um pesadelo. E que ele aparecesse de repente... pra gente recomeçar a nossa história.

Frida pousou a mão sobre o ombro dela, num gesto de amparo. Daiana então se deixou tombar, deitando a cabeça no ombro da amiga.


═══🎭✦✧ Casa do Charles ✧✦🎭═══

Diná estava colocando alguns pertences na bolsa: celular, documentos, chaves. Charles entrou na sala, estranhando a cena.

— Ué, meu bem, vai sair? — perguntou, franzindo o cenho.

Diná ergueu os olhos, a respiração curta.

— Vou sim. Estou indo na delegacia. Vou registrar o desaparecimento da minha filha. Isso não tá certo, Charles.

— Ah, Diná... a Soraia tá querendo nos deixar doido, só pode. Essa mania dela de sumir sem dar satisfação... você sabe como é.

Diná fechou a bolsa, e jogou nas costas.

— Não, Charles. Desta vez é diferente. A Soraia não responder às minhas mensagens, não atender minhas ligações... até aí, vá lá. Mas agora o telefone dela está desligado. As mensagens que mandei nem chegam mais. — a voz dela embargou. — E as redes sociais dela? Sem nenhuma postagem há semanas. Isso não é a Soraia. Tem alguma coisa muito estranha acontecendo.

— Você tá certa. — colocou a mão no ombro dela. — Vamos na delegacia. Não vou deixar você ir sozinha, eu vou com você.

Diná ajeitou a bolsa contra o peito e acenou com a cabeça. Os dois seguiram em direção à porta.


═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══

Rodrigo segurava o celular na mão, mostrando o vídeo mais recente para Meireles e Angelina.

— Isso não vai parar mais — resmungou Meireles. — Todo dia um vídeo novo. Agora tão fazendo é piada... credibilidade zero.

Angelina deu alguns passos pela a sala, preocupada.

— Quando as coisas caem na internet, se perde totalmente o controle.

Rodrigo gesticulava com uma expressão grave.

— Isso é muito preocupante, seu Meireles. A imagem da Mulambo está seriamente comprometida no mercado. Precisamos de uma solução urgente.

Meireles suspirou, visivelmente preocupado.

— Isso eu sei, Rodrigo. Mas o que você sugere?

Rodrigo passou o dedo pelo visor do celular, como se reorganizasse suas ideias.

— Primeiramente, precisamos limpar nossa imagem diante dos internautas. Eu me proponho a gravar um vídeo de resposta, explicando a boa relação que sempre tivemos aqui dentro. Deixar claro que essa história de que o senhor teria infiltrado o Gabriel é apenas fake news, criada pela concorrência para nos desestabilizar.

Angelina assentiu, visivelmente animada com a proposta.

— Pode ser uma boa saída.

Rodrigo endireitou-se, firme.

— É a melhor saída que temos por enquanto. Precisamos limpar nosso nome no mercado e reconquistar a confiança dos investidores. Sem isso, todo o trabalho até aqui pode ser perdido.


═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══

Ludmila segurava o telefone com uma mão, gesticulando com a outra enquanto falava, andava pela sala de sua casa sem paciência.

— Tá com a cara emburrada pro meu lado de novo, acredita nisso? — resmungou. — Tenho paciência não, Carla! Esse garoto é fresco demais. Ontem me levou num restaurante chique... minha filha, você tinha que ver! Umas comidas de nomes estranhos, só um pedacinho no meio do prato. Fiquei rindo, ele ficou todo envergonhado porque eu reclamei. Se eu saio pra comer, quero encher o bucho, né? E, pra piorar, o Glauber apareceu lá, acompanhado do sugar daddy novo dele. Fabinho se enraiveceu de vez e... viemos embora.

Do outro lado da linha, Carla suspirou, a voz fria.

— Ludmila, tô trabalhando, não dá pra conversar com você agora.

— Nossa, que mal humor — retrucou Ludmila, surpresa. — Você disse na mensagem que estava tranquila, por isso liguei.

Carla fechou os olhos por um instante, respirando fundo.

— Estava tranquila, mas agora não estou mais. Quero conversar com você, sim, mas pessoalmente... pra olhar bem pra essa sua cara de cínica.

— Gente, mas que isso, do nada? Te fiz alguma coisa, piranha? — Ludmila protestou, indignada.

— O que tá pegando não é o que você fez, e sim o que deixou de fazer. — Carla respondeu, firme. — Fiquei sabendo de um negócio aí que não gostei nada.

Ludmila arregalou os olhos, curiosa e ansiosa.

— Ah não, Carla... agora você me deixou curiosa. O que aconteceu?

— Vai continuar curiosa — disse Carla, a voz cortante —, a gente se fala mais tarde.

— Pera aí! Não vai desligar agora, não! — Ludmila implorou, a voz subindo.

— Ludmila, se você é uma desocupada e não tem nada pra fazer, eu tenho, tá? Tchau! — Carla interrompeu, desligando o telefone.

Ludmila ficou imóvel por alguns segundos, segurando o aparelho, olhos arregalados.

— Meu Deus... agora lascou. — murmurou, sem entender. — Precisava me ofender desse jeito? O que será que não contei pra ela...


═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══

Diná e Charles atravessaram o saguão da delegacia e aproximaram-se do balcão.

— Boa tarde, moça — disse Diná, a voz levemente trêmula.

— Boa tarde. Em que posso ajudá-los? — respondeu Carla.

Diná respirou fundo, os dedos apertando com força a alça da bolsa.

— Eu... eu quero registrar o desaparecimento da minha filha.

Carla já foi pegando um formulário.

— Certo, senhora. Qual o nome da sua filha?

— Soraia Ribeiro da Costa... — respondeu Diná. — Ela tem 21 anos. Desapareceu há duas semanas. Não atende ligações, não responde mensagens... nem nas redes sociais ela está postando mais nada. E o celular dela só dá desligado.

— Já aconteceu dela sumir assim outras vezes? — Questionou Carla.

— A nossa filha não é nenhuma santa, moça — murmurou Charles, tentando soar racional. — Já vem aprontando há um tempo... isso tem nos causado muita preocupação. Mas nunca ficou tanto tempo sem dar notícia.

Diná balançou a cabeça, completando com amargura:

— Ela não é nenhuma santa, não. Mas o problema é que se envolveu com quem não presta.

Carla anotava cada detalhe.

— Entendo... — disse, levantando os olhos para os dois. — Vou registrar tudo aqui. Como se trata de um caso de desaparecimento, vou encaminhar para o escrivão de plantão. Mas preciso de mais informações: quando foi a última vez que viram Soraia, como ela estava vestida, os lugares que costumava frequentar... e se havia alguém com quem mantinha contato frequente.

Diná engoliu em seco, tentando organizar os pensamentos.

— O Rodrigo...

No exato instante, Will surgia de um dos corredores, acompanhado de Tony. O nome o fez parar, atento.

— Ele era noivo da Daiana Meireles... — Diná continuou, a voz embargada. — Filha da minha patroa. Mas a Soraia... a minha filha tinha um caso com ele.

Will se aproximou devagar, a expressão carregada de desconfiança.

— O Rodrigo a que a senhora se refere... é Rodrigo Antunes? Filho do sócio da Mulambo?

Diná ergueu os olhos.

— Ele mesmo. — Ela dizia séria. — Eu tenho certeza que ele sabe onde minha filha está. Foi ele que sumiu com a minha menina.

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