MINHA OUTRA FACE
27 Jogos de poder
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═══🎭✦✧ Ainda na delegacia... ✧✦🎭═══
Carla levantou os olhos do balcão. Will fez um gesto discreto para ela.
— Pode deixar, Carla, eu cuido daqui — disse ele, antes de voltar-se para o casal. — Vocês dois, por favor, tenha a gentileza de me acompanhar até a minha sala.
Antes de se afastar, ele lançou novamente o olhar à atendente:
— Carla, peça ao escrivão... acho que é o Henrique que está de plantão hoje. Chame-o e peça que vá também até a minha sala.
— Sim, senhor — respondeu Carla, já se apressando.
Will então abriu passagem pelo corredor, indicando com a mão:
— Por aqui.
O casal o seguiu em silêncio, com Tony logo atrás.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
Meireles estava sentado em sua cadeira de rodas, atrás da mesa. O celular repousava em suas mãos, os olhos atentos à tela. De um lado, Angelina observava o vídeo; do outro, Fabinho se inclinava para não perder nenhum detalhe. À frente deles, imóvel e expectante, estava Rodrigo.
Na tela, o vídeo corria. Rodrigo, em sua própria sala, encarava a câmera com o tom seguro de quem precisava convencer o público.
📲🎥"Muita gente tem falado sobre uma suposta infiltração do Gabriel dentro da nossa equipe, como se isso tivesse sido articulado pelo senhor Meireles. Quero deixar bem claro: isso é mentira. Nós, da Mulambo Têxtil, sempre tivemos uma relação de respeito e transparência com nossos clientes e fornecedores. O que está circulando por aí não passa de fake news, criada pela concorrência para nos desestabilizar.
Esse rapaz, que há pouco descobri ser meu irmão gêmeo, cresceu alimentado por ódio e desejo de vingança. Ele arquitetou tudo e se infiltrou na empresa com o único intuito de matar o meu padrasto, o Antunes. Por isso, peço a vocês: não se deixem levar por fofocas mal-intencionadas. Obrigado a todos pela confiança."📱
O vídeo chegou ao fim. Meireles soltou o ar devagar e pousou o celular sobre a mesa.
— Ficou muito bom. — disse. — Espero que com o seu depoimento as pessoas comecem a enxergar as coisas de outra forma. Obrigado, Rodrigo.
Rodrigo inclinou a cabeça, num gesto de respeito, mas sua postura era ereta, desafiadora.
— Essa empresa também é minha, seu Meireles. E como eu disse... vou fazer o que for preciso para erguê-la novamente.
Angelina sorriu, aliviada.
— Que bom ter você aqui de volta, Rodrigo. Acho que nos preocupamos à toa.
Meireles virou o rosto para ela, chamando atenção.
— Angelina...
— Meireles, o Rodrigo não é o Antunes — contestou Angelina. — Conheço esse rapaz desde menino. Sempre dedicado, sempre correto em tudo o que faz. Não podemos deixar que tudo o que aconteceu manche a relação de confiança que construímos durante todos esses anos. Ainda mais agora, quando enfrentamos a maior crise da história da empresa.
Rodrigo aproveitou o ensejo, o tom se suavizando:
— Fico feliz com sua confiança, dona Angelina. Pode ter certeza: não irei desapontá-la.
Fabinho também opinou.
— O vídeo ficou bom, Rodrigo. Mas acredito que ainda teremos que postar mais coisas.
— Sim. — Rodrigo concordou com um leve aceno. — Já estou mais ativo nas redes sociais, respondendo comentários e combatendo os haters. Mas, seu Meireles, isso é só o primeiro passo. Precisamos de algo maior: tomei a liberdade e marquei uma reunião com nossos investidores. Já enviei e-mail convidando, inclusive para os que se afastaram. É hora de reconquistar a confiança deles.
Meireles apoiou as mãos na mesa, respirando fundo, como se calculasse cada risco.
— Tá certo. Precisamos mesmo nos reunir o quanto antes.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Kléber estava sentado no sofá, o celular na mão. Ao lado dele, Joana permanecia imóvel, cabisbaixa.
— Rodrigo acabou de postar um vídeo aqui — comentou ele, quebrando a quietude. — Defendendo o seu Meireles das acusações que ele vem recebendo. Achei sábia a postura dele.
Joana franziu as sobrancelha, preocupada.
— Agora tá do jeito que ele gosta, enfiado dentro da Mulambo.
Kléber suspirou, guardando o celular e voltando-se para ela.
— Mas ele tem mesmo que cuidar das ações dele, Joana. E você? Quando vai começar a trabalhar no seu restaurante?
— Como eu posso ter cabeça pra isso agora, com meu filho desaparecido?
— Eu sei que não tá fácil pra você. Mas, como diz um velho ditado: cabeça vazia, oficina do diabo. Você precisa se distrair, Joana. Ficar nessa casa remoendo suas dores não te faz bem. Cuidar do seu projeto é a melhor solução. E eu tô aqui pra te ajudar no que for preciso.
Ela o encarou, pensativa.
— Será, Kléber? Eu ando tão angustiada... sem notícia do Gabriel. Por que o corpo ainda não apareceu?
Ele respirou fundo, procurando transmitir algum conforto.
— No dia chovia muito, Joana. A correnteza do rio estava forte, pode ter levado o corpo dele pra longe. Isso acaba dificultando o trabalho da polícia, dos bombeiros... Mas você tem que pensar no seguinte: o Gabriel não iria querer ver você abatida desse jeito. Com certeza ele gostaria de ver você dando a volta por cima, realizando os seus sonhos. Faça isso por você, mas faça também pensando nele.
Um leve sorriso escapou dos lábios dela, tímido, quase um reflexo involuntário.
— E o que eu faço agora?
Kléber se levantou, estendendo a mão para ela, os olhos brilhando de confiança.
— Confia em mim? Vem, vou te levar a um lugar.
— Mas... pra onde você vai me levando?
Ela hesitou, mas segurou a mão dele, erguendo-se lentamente.
— Confia. Só confia.
Kléber segurando as mãos dela a levou pra fora.
═══🎭✦✧ Delegacia✧✦🎭═══
Will caminhava pela sala, parou diante de Tony:
— A moça que ajudou Rodrigo está desaparecida. Bem suspeito isso, não acha?
Tony recostou-se na cadeira, cruzando os braços.
— Talvez não seja nada demais. O pai mesmo contou que a ameaçou, disse que a colocaria para fora de casa se não arrumasse um trabalho. Pode ser que tenha preferido sumir para não encarar a família.
— Pode até ser... — respondeu Will, pensativo. — Mas tem algo mal explicado nessa história, Tony. Sei lá, essa garota desaparecer logo agora. Vamos investigar, tentar descobrir o paradeiro dela. Pode ser que nos traz uma nova resposta. E tem aquele outro desaparecimento que me atormenta. O corpo do Gabriel... Onde foi parar?
— Não teria a possibilidade dele estar vivo?
Will balançou a cabeça.
— Pouco provável. Com a tempestade daquele dia, é mais fácil acreditar que a correnteza o tenha levado.
═══🎭✦✧ Flashbacks mostrava o momento do acidente... ✧✦🎭═══
O trovão ribombava distante. A kombi despencara ribanceira abaixo, engolida pela tempestade, como se fosse apenas mais um acidente perdido na noite. Do alto, Rodrigo observou por alguns segundos o veículo sumir na escuridão, antes de se afastar.
Mas o destino não seguiu o plano dele. O cinto de segurança falhou, e Gabriel foi lançado para fora, rolando ribanceira abaixo. O corpo ferido e encharcado se arrastou até parar em algumas pedras próximas a margem do rio. O sangue que escorria pela testa misturava-se à lama e à chuva, enquanto sua respiração arfava. Já não estava inconsciente, mas a dor e o choque o mantinham preso à beira do desmaio.
Dois guarda-chuvas recortaram a escuridão da estrada. Aparecida vinha ao lado do seu pai, carregando uma cesta de verduras. Os dois pararam diante dos destroços.
— O que aconteceu aqui? — murmurou Adolfo, franzindo o cenho.
— Parece que houve um acidente... — respondeu Aparecida, os olhos se movendo atentos pela encosta. Até que um clarão iluminou a cena. — Meu Deus, pai! Tem alguém lá embaixo... Ele tá vivo!
Adolfo apertou os olhos, tentando enxergar melhor, mas a cortina de chuva turvava sua visão. Segurou o braço da filha com firmeza.
— Cuidado, menina. Essa ribanceira tá lisa. Você pode cair também.
— A gente não pode deixar ele aí! Temos que ajudar, de qualquer jeito!
Gabriel, entre a lama e as pedras, abriu os olhos apenas o suficiente para ver vultos no alto. Tentou falar, mas apenas um murmúrio fraco escapou.
— Dá pra descer por ali — apontou Aparecida, decidida. — Eu preciso ir.
— Filha, calma. É melhor buscar uma corda em casa.
— Boa ideia. Mas o senhor vai, eu desço pra ver como ele tá.
Adolfo hesitou, a testa vincada pela preocupação.
— Isso é perigoso, Aparecida.
— Tem árvores pelo caminho, já desci por ali outras vezes. Eu consigo.
Ele suspirou, vencido pela determinação dela.
— Pelo amor de Deus, menina... toma cuidado.
— Vai logo, pai! — ela insistiu. — Não podemos deixar esse homem aqui.
Fim do flashback. O rio, agora mais calmo, corria ao fundo do quintal do barraco simples onde Gabriel se recuperava. Ele de pé, olhava para a água encarando o abismo de sua própria sorte.
Aparecida se aproximou devagar, observando o silêncio dele antes de falar.
— Cê tá bem?
— Eu poderia ter morrido, se você e o seu pai não tivessem me ajudado.
— A gente não podia deixar você lá.
Ele a observou com uma gratidão silenciosa, a voz saindo baixa.
— Você é corajosa, Aparecida. Poucos teriam feito o que você fez.
Um sorriso breve curvou-lhe os lábios.
— Desde menina aprendi a me virar sozinha. Minha finada mãe dizia que eu tinha jeito de macho.
As palavras dela ecoaram no peito de Gabriel. Ele voltou o olhar para o rio.
— Falando em mãe... como será que a minha tá? E o pessoal do orfanato, minha nossa senhora... Todos devem estar pensando que eu morri.
— Cê não prefere voltar pra sua casa? — perguntou ela.
Gabriel balançou a cabeça, firme.
— Não posso, Aparecida. Eu não sei do que meu irmão é capaz. Ele tentou me matar. Enquanto eu não provar minha inocência, tenho que continuar escondido. Só posso voltar quando tiver como mostrar a verdade.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
A mesa de reuniões estava tomada. Pilhas de relatórios se misturavam a laptops abertos, copos d'água, celulares vibrando em silêncio.
Meireles se ajeitou em sua cadeira e começou a reunião.
— Quero, antes de tudo, agradecer a presença de todos. Em especial, aos investidores que, por algum motivo, se desligaram da nossa empresa, mas que hoje estão aqui dispostos a nos ouvir e, quem sabe, voltar a somar com a nossa equipe.
Rodrigo inclinou-se para frente, exibindo um sorriso confiante.
— Obrigado pela presença de todos vocês. Fiquei muito feliz que aceitaram meu convite. É verdade que a Mulambo está passando por um período delicado: perdemos contratos grandes, a imagem não anda bem no mercado... Mas quando algo não vai bem, é preciso recalcular rota. E, como sempre, contamos com a ajuda de vocês, amigos investidores.
Um silêncio estratégico se formou, até que Xavier tomou a palavra.
— Se me permitem... vou direto ao ponto. Trago uma solução prática. Há uma holding interessada em aportar capital, recompor a linha de crédito e, principalmente, blindar reputacionalmente a Mulambo. A proposta é objetiva: compra de participação relevante, com possibilidade de aquisição de ações de atuais sócios... desde que haja adesão.
Meireles lançou um olhar de canto para Angelina, que manteve a postura rígida. Rodrigo, por sua vez, esboçou um leve sorriso, quase imperceptível.
— E o que exatamente significa "blindar reputacionalmente"? — questionou Angelina.
Xavier entrelaçou os dedos sobre a mesa, como um professor explicando uma fórmula simples.
— Significa separar, juridicamente e perante o mercado, o passado recente de qualquer questão sensível. A holding assume a comunicação com clientes, injeta caixa e cria um muro de governança: auditoria independente trimestral, comitê de gestão renovado, métricas ESG. Em seis meses, a Mulambo respira novamente, sem a sombra do escândalo.
Meireles recostou-se na cadeira, a voz carregada de cautela.
— Vender participação... isso é delicado. Quem é essa holding, afinal?
Xavier sustentou o olhar, firme.
— É a TexHold Capital, um grupo sólido, estrangeiro. Capital limpo, disposto a injetar recursos e reestruturar passivos. É a chance da Mulambo voltar a ser competitiva.
Rodrigo apoiou as mãos sobre a mesa.
— Eu concordo. Não podemos perder essa oportunidade. É uma operação rápida: due diligence, contrato assinado e pronto. Simples.
— Simples? — repetiu Meireles, o cenho franzido. — Calma aí, Rodrigo, não é bem assim que funciona. Estamos falando de entregar parte da empresa. Precisamos ter certeza de que não estamos caindo em nenhum golpe.
Xavier sorriu, cínico.
— Com todo respeito, seu Meireles, golpe é continuar do jeito que está. O mercado já não confia mais na Mulambo. A TexHold vai é limpar o nome da companhia. Sem isso... — ele fez uma pausa proposital — o risco é afundar de vez.
Rodrigo desviou os olhos para Xavier.
— Se houver capital e governança — insistiu Rodrigo —, não vejo por que adiar.
Meireles olhou apreensivo, a dúvida estampada na expressão.
— Xavier... quem é o beneficiário final dessa holding?
— Um grupo com sede em Lisboa, braço em São Paulo — respondeu Xavier, sem hesitar. — Especializado em reestruturações no setor têxtil. Não posso abrir nomes antes do term sheet, cláusula de confidencialidade. Mas garanto: capital limpo, apetite de longo prazo.
Rodrigo não perdeu tempo:
— Seu Meireles, é isso ou a falência. Eu não vejo outra saída.
Meireles respirou fundo, sentindo o peso da pressão sobre os ombros.
— Eu não sei... — murmurou, por fim. — Isso precisa ser analisado com calma. Não podemos tomar uma decisão assim, em cima da hora.
Rodrigo interveio, solícito, mas com um brilho de vitória nos olhos.
— Então façamos o seguinte: marcamos uma reunião exclusiva com um representante dessa... dessa...
— TexHold — completou xavier.
— TexHold — continuou Rodrigo. — Ouvimos a proposta, avaliamos e... decidimos se assinamos ou não. Tudo certo pro senhor, seu Meireles?
Meireles assentiu devagar.
— Perfeito, assim tá ótimo.
Rodrigo e Xavier trocaram um olhar breve, mas cúmplice.
═══🎭✦✧ Espaço do futuro: "Casa da mãe Joana" ✧✦🎭═══
Joana entrou maravilhada, os olhos brilhando diante do espaço amplo, ainda vazio. Kléber vinha logo atrás, observando-a com atenção, satisfeito com o impacto que aquele lugar causava nela.
— Esse lugar é perfeito, Kléber — disse ela, caminhando pelo espaço. — Já consigo ver as mesas espalhadas por ali, o balcão aqui, o caixa logo na entrada... É exatamente como sonhei. Só precisa de uma pequena reforma.
Kléber abriu um sorriso confiante.
— Eu sabia que você ia gostar. Já acertei tudo com o proprietário. Só falta o seu "sim" pra fecharmos o negócio.
Joana girou, absorvendo cada detalhe, mas um suspiro escapou-lhe, carregado de insegurança.
— É tudo tão perfeito... que chega a me dar medo de dar errado.
— Nada vai dar errado. — A voz dele soou firme. — A gente tem que pensar positivo. Vamos trabalhar e colocar a "Casa da Mãe Joana" de pé.
O nome arrancou dela um sorriso verdadeiro, pela primeira vez em dias.
— "Casa da Mãe Joana"... gosto disso. Tô com muita vontade de trabalhar, Kléber. Quero ver esse salão cheio, os clientes saindo satisfeitos, felizes com a minha comida.
Ele a olhou com ternura.
— Eu já tive o prazer de provar. Sei que seu tempero é divino.
Joana desviou os olhos, emocionada. A voz dela saiu num sussurro.
— Obrigada... por me trazer esperança num momento tão difícil.
Kléber aproximou-se um passo, sem conseguir esconder o que sentia.
— Tudo vale a pena só de ver esse sorriso no seu rosto. Eu gosto muito de você, Joana. Muito mais do que imagina. O que eu mais quero é ter a chance de te fazer feliz.
Ela se virou de costas, tomada por um constrangimento, como se não soubesse ao certo como reagir.
— Desculpe... — disse ele, após um silêncio breve. — Não quero avançar o sinal.
Apressou-se em mudar de assunto, tirando do bolso uma caderneta e uma caneta.
— Vamos trabalhar? Olha só... — apontou para a parede à esquerda. — Aqui eu pensei em abrir um nicho, fazer uma estante com temperos e vinhos expostos. E nessa outra parede, dá pra colocar um painel de madeira, criar um ambiente mais aconchegante...
Enquanto ele rabiscava ideias com entusiasmo, Joana o observava em silêncio. A forma como ele a olhava, como se acreditasse nela mais do que ela própria. Ela, encantada, deixou-se por um instante sonhar com a possibilidade de recomeçar.
═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══
Ludmila estava largada no sofá, a televisão ligada num programa qualquer que ela nem prestava atenção. Quando a porta se abriu e Carla entrou sem bater, ela saltou do lugar como se tivesse levado um choque.
— Piranha do meu coração! — exclamou, escandalosa, correndo até a amiga. — Que bom que você chegou! Eu já estava aqui que não me aguentava de ansiedade. Já roí todas as unhas das mãos e já ia começar a roer as dos pés.
Carla, de semblante fechado, nem se rendeu à graça.
— Vaca não tem unha, vaca tem casco.
Ludmila arregalou os olhos.
— Valha, mulher! O que foi? Tá com a TPM atacada?
Carla foi direta, sem rodeios:
— Por que você nunca me contou que namorou o Edson?
Ludmila revirou os olhos, exasperada.
— Ah, não! Sério que você me deixou ansiosa o dia inteiro por causa de uma besteira dessas?
— Besteira pra você, Ludmila. — A voz de Carla era cortante. — Mas me diz, você acha mesmo que tá tudo bem eu descobrir só agora que a minha melhor amiga é ex do meu namorado?
— Que negócio de ex, minha filha! — retrucou Ludmila. — Eu e o Edson só demos uns amassos na época da escola. Ele deve ter te contado isso todo emocionadinho, feito um garoto fresco que é o que ele é. Você também faz uma tempestade em copo d'água, hein, Carla?
A outra permaneceu imóvel, encarando-a com o cenho franzido. Ludmila suspirou, tentando quebrar a tensão.
— Senta aqui, vai. O meu babado é bem mais forte que esse.
Puxou Carla para o sofá, mas a amiga se deixou cair de má vontade, ainda emburrada.
— Então, como eu te disse... — continuou Ludmila, animada. — O Glauber apareceu no restaurante onde eu tava com o Fabinho. Não... você precisava ver o clima! E ele, todo gostosinho, você tinha que ver. Minha nossa... Eu até tentei dar uns pegas nele no banheiro, acredita? Mas ele me deu um chega pra lá!
Carla soltou um suspiro fundo, pesado.
— O Edson tem razão sobre você, Ludmila. Você é uma adulta com atitudes de pré-adolescente.
Levantou-se de repente, como quem não aguenta mais.
— O que foi, piranha? — Ludmila a seguiu com os olhos, intrigada. — Você tá estranha.
— Vamos começar a mudar umas coisas, tá? — disse Carla, firme, virando-se para ela. — Primeiro: meu nome é Carla. Eu falo sério, Ludmila. Você só leva tudo na brincadeira. Você não trabalha porque em todo emprego faz palhaçada e é mandada embora. Não estuda, porque sempre desiste no meio. Esse concurso que eu fiz pra trabalhar na delegacia? Foi você que teve a ideia, trouxe o edital, disse que faríamos juntas. E no fim, foi desclassificada porque ficou dando em cima do fiscal durante a prova!
Ludmila sorriu maliciosa, desviando do sermão.
— Ah, mas convenhamos... ele era bem gostoso. E nem te contei: encontrei ele na boate outro dia...
— Para, Ludmila! — cortou Carla, já exasperada. — É disso que eu tô falando. Eu tento conversar sério com você, e você transforma tudo em piada. Assim não dá.
Sem esperar resposta, pegou a bolsa e saiu, batendo a porta atrás de si. Ludmila ficou parada no meio do cômodo, incrédula, falando sozinha.
— Ah, fala sério, Carla. Piranha, volta aqui! Vamos conversar! — gritou, mas a amiga já estava longe. — Gente... o que deu nessa garota hoje?
═══🎭✦✧ Restaurante ✧✦🎭═══
Rodrigo, já acomodado em uma mesa discreta no canto, ergueu o olhar ao perceber a aproximação de Xavier. Levantou-se com um sorriso, estendendo a mão.
— Boa noite! — disse, com cordialidade. — Que bom que veio jantar comigo.
Xavier retribuiu o gesto e logo se acomodou.
— Fiz exatamente o que você pediu — anunciou em voz baixa. — Agora é esperar pra ver se seu Meireles vende as ações dele para a "holding".
— Ele vai vender — disse Rodrigo, confiante. — Está desesperado. Agora precisamos pensar bem: quem vai à reunião representando a holding?
Xavier respirou fundo, ajeitando-se na cadeira.
— Quanto a isso, pode ficar tranquilo. Já tenho um nome em mente.
Rodrigo arqueou uma sobrancelha, deixando escapar um sorriso enviesado.
— Só espero que não seja nenhum dos seus... dos seus boys, né?
Xavier engoliu em seco, mas não deixou que o desconforto se prolongasse.
— Não. — fez questão de frisar. — Esse é um amigo estrangeiro. O sotaque vai ser a credencial perfeita.
Rodrigo abriu um sorriso satisfeito, quase debochado.
— Excelente. Antunes nunca soube jogar esse jogo... mas eu sei. — Abaixou a voz. — Em breve, a Mulambo Têxtil será minha.
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