MINHA OUTRA FACE
12 O nome por trás do chip
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═══🎭✦✧ Ainda no barraco do Epaminondas... ✧✦🎭═══
A pequena sala permaneceu silenciosa por alguns instantes. Epaminondas respirou fundo e, sem pressa, sentou-se em uma cadeira de madeira diante de Will e Tony.
— E por qual motivo o senhor delegado acha que eu teria ligação com esse tal de Antunes? — perguntou Epaminondas.
— Por um motivo bem curioso. — Respondeu Will. — Nos pertences do senhor Antunes foi encontrado um celular... modelo bem antigo, por sinal. E nele havia diversas ligações para um número cadastrado no seu CPF. Como explica isso?
Epaminondas franziu a testa, surpreso.
— Agora também fiquei curioso — murmurou. — Como pode haver ligações no telefone desse senhor para o meu número?
Will inclinou-se ligeiramente para frente, afiado:
— Seu Epaminondas, não vamos perder o nosso tempo. Não tô falando de uma ou duas ligações. Foram trocadas nada menos que cinquenta e oito ligações entre o seu aparelho celular e o que pertencia ao Antunes.
Rapidamente, Epaminondas enfiou a mão no bolso e tirou seu celular. Estendeu-o para Will.
— Aqui está o meu celular. Os senhores podem conferir o que quiserem. É desbloqueado, nunca usei senha. Essas senhas só me atrapalham.
Will trocou um olhar rápido com Tony e assentiu.
— Já que ele tá permitindo, dê uma olhada, Tony. Veja mensagens, ligações, fotos... o que conseguir vasculhar.
Tony pegou o aparelho e começou a deslizar os dedos pela tela. Em poucos minutos, ergueu o olhar.
— O número que tá salvo no celular do Antunes não é o mesmo desse aparelho aqui.
Will voltou-se para Epaminondas.
— Então o senhor tem outro número?
Epaminondas pareceu entender de repente.
— Esperem... Acho que os senhores tão falando do número antigo. Do telefone que me foi roubado.
Will arregalou ligeiramente os olhos.
— Humm... o senhor teve um celular roubado?
— Sim. — continuou Epaminondas. — Alguns anos atrás, dois bandidos me cercaram na parada de ônibus. Me bateram, levaram tudo o que eu tinha, inclusive o telefone. Antes de irem, ainda me ameaçaram dizendo que, se eu procurasse a polícia, eles me achariam... e me matariam.
Tony e Will trocaram um olhar breve, carregado de desconfiança. Epaminondas se levantou da cadeira, caminhando lentamente pelo pequeno espaço do quarto, como se organizasse os pensamentos.
— Interessante. E por medo dessas ameaças, o senhor preferiu não dar queixa? — Will interrogou.
Epaminondas parou e o encarou.
— Eu tive medo sim, doutor. Porque aquele não foi um assalto qualquer, não foi um simples acaso que eles me escolheram como vítima. Os bandidos me conheciam. Sabiam quem eu era, onde eu morava. Aquele assalto foi um aviso. E se eu subestimasse, poderiam fazer coisas piores.
— Eu não compreendo. — Will comentou, ainda mais confuso. — Por que alguém lhe ameaçaria, seu Epaminondas?
O jardineiro hesitou. Seus olhos correram inquietos pelo quarto. Então, cerrou o maxilar e se sentou novamente.
— Acho que chegou a hora de contar a verdade — disse, num tom grave. Fez uma pausa breve, e completou. — Foi ele. O senhor Antunes que me ameaçou.
═══🎭✦✧ Praça da Matriz ✧✦🎭═══
Gabriel caminhava inquieto pela praça. Seus olhos percorriam o espaço, cheios de expectativa. Ele esfregava as mãos suadas na calça, tentando conter a ansiedade.
— Mãos suadas... Te acalma, rapaz! — disse Daiana, observando-o com um meio sorriso.
Gabriel sorriu de lado, mas logo os olhos se encheram de emoção.
— Você não tem noção do tempo que esperei por esse momento — murmurou, com a voz embargada. — É minha mãe, Daiana! Finalmente vou poder estar com minha mãe! Será que ela vem mesmo?
— Ela disse que vem. Se ela disse, confia. Ela já deve tá chegando.
Naquele instante, o som de um carro se aproximando interrompeu a conversa. O veículo parou a poucos metros dali. A porta se abriu devagar, e Joana desceu.
Seus olhos encontraram os de Gabriel, e, num segundo, marejaram. Ela levou uma das mãos à boca, como se quisesse conter o turbilhão que lhe subia pela garganta. Gabriel deu um passo hesitante... e depois outro. Mas antes que conseguisse pronunciar qualquer palavra, Joana correu ao seu encontro e o envolveu num abraço forte, apertado.
— Meu menino... Meu pequeno... Meu amor... — balbuciou ela, com a voz embargada.
Ela se afastou apenas o suficiente para segurar-lhe o rosto entre as mãos, como se ainda precisasse confirmar que aquele instante era real.
— Eu nunca acreditei que você estivesse morto. Sempre soube, aqui dentro, que em algum lugar você estava vivo... Agora, finalmente, vou ter os meus dois meninos do meu lado.
Gabriel sorriu entre lágrimas.
— Como eu queria te conhecer! — disse ele, emocionado. — Eu tinha tantas perguntas pra fazer... Minha mãe! É tão bom poder te chamar assim... Tanto que te procurei, tanto que desejei estar aqui, perto de você...
Joana acariciava seu rosto com mãos trêmulas, tentando conter o choro.
— Me conta tudo, filho. Onde você esteve todo esse tempo? Quem cuidou de você? Como foi sua vida sem mim? Eu quero te conhecer, saber de cada pedacinho da sua história...
Gabriel ainda absorvendo aquele momento, nem sabia por onde começar. Então Daiana, percebendo a intensidade daquele reencontro, interveio.
— Calma... Vocês vão ter muito tempo pra conversar. Vamos sentar ali, pra vocês ficarem mais à vontade.
Joana segurou a mão de Gabriel com força, como se temesse perdê-lo novamente. Os dois seguiram até um banco que havia ali.
═══🎭✦✧ De volta ao barraco do Epaminondas... ✧✦🎭═══
Ele continuava a contar sua história para a polícia.
— Irmãos? O senhor e o Jurandir eram irmãos? — perguntou Will, a voz carregada de surpresa.
Epaminondas assentiu lentamente, com uma memória distante.
— Isso mesmo. Depois da morte dos nossos pais, o Jurandir foi tudo que me restou. Eu era quinze anos mais velho, fui eu quem terminou de criá-lo. Quando cresceu, cada um seguiu seu caminho. Por causa do trabalho, a gente ficava muito tempo sem se ver. Até que um dia ele apareceu lá em casa, encantado por uma moça. Aquela moça foi o início do calvário do meu irmão. Os dois se amavam. Mas o pai dela, um viciado em jogo, vendeu a própria filha numa aposta que perdeu.
Tony interveio com um aceno de cabeça.
— Essa parte já conhecemos. Dona Joana contou ao prestar depoimento na delegacia.
— Continue, seu Epaminondas. — Disse Will, interessado no resto da história. — Quero entender como o senhor foi parar na casa do Antunes.
— Joana já estava grávida e Jurandir determinado a fugir com ela. — Epaminondas continuava a contar. — E ele faria isso de qualquer jeito. Corria risco de vida nas mãos do Antunes. Foi então que vi um anúncio no jornal: estavam contratando motorista. Me candidatei. Pensei que se eu estivesse lá dentro, poderia ajudar.
— E ninguém sabia que o senhor era irmão do Jurandir? — Will questionou.
— Como eu disse aos senhores a gente não era muito de se ver. Os nossos círculos de amizades eram diferentes, por esse motivo poucos sabiam do nosso parentesco. No dia em que ele marcou para fugir com a Joana, a gente combinou certinho. E eu enrolei o Seu Antunes o máximo que pude na rua, pra dar tempo dos dois fugirem.
— História interessante, seu Epaminondas. Mas fiquei intrigado com outra coisa. Como o senhor veio parar justamente aqui, onde o Gabriel foi criado? — Tony perguntou, intrigado.
O velho fez uma longa pausa, mexeu em um pequeno objeto que havia em cima da mesa, e só então proceguiu:
— Quando Jurandir morreu, eu tive medo. Pedi demissão do emprego. Diziam que a dona da casa tinha matado ele, mas eu sabia que era mentira. Fui até o presídio, visitei a Rita, e foi ela quem me contou que meu outro sobrinho havia sido trago para cá. Procurei o orfanato. Irmã Rosália me acolheu. Me deu esse emprego de jardineiro, e um lugar para ficar.
Will o olhou de canto de olho.
— Escute seu Epaminondas... E o Gabriel? Ele sabe que é seu sobrinho?
Epaminondas pensou por um instante, baixou os olhos.
— Não. Aqui ninguém sabe do meu passado.
— O senhor disse que foi roubado, e que os bandidos sabiam quem o senhor era. Mas por que o Antunes te ameaçaria agora, depois de tanto tempo? — Interessou Will.
— Um dia eu o vi saindo de um supermercado juntamente com o Rodrigo. Eu fiquei por um instante ali parado só admirando o meu sobrinho. Obviamente era inquietante a semelhança que Rodrigo tinha com o Gabriel. E isso me emocionava, pois eu não sabia qual vida que o Rodrigo estava levando sendo criado por um homem tão rude.
Will endireitou-se na cadeira.
— E o senhor chegou a encontrar o Antunes depois disso?
— Apenas uma vez... — respondeu Epaminondas, e seus olhos se perdiam novamente no tempo. — Eu fui até a Mulambo na expectativa de ver o meu sobrinho. Mas aí o seu Antunes acabou me vendo e foi até lá me ameaçar.
"Um flashback rompeu a linha do presente, revelando o momento em que um segurança se aproximou discretamente de Antunes, logo após ele sair da sede da Mulambo. Com um gesto sutil, apontou para o outro lado da rua, onde Epaminondas observava à distância. Antunes estreitou os olhos ao reconhecê-lo e atravessou a rua com decisão. Ao notar a aproximação, Epaminondas deu um passo para trás, pronto para partir, mas Antunes o interceptou, colocando-se firme em seu caminho, impedindo qualquer tentativa de fuga.
— Ei! Espera aí! — gritou ele, com voz ríspida. — O que tá fazendo aqui?
— Foi coincidência. Só estava passando. — respondeu Epaminondas, tentando manter a calma.
Antunes se aproximou ainda mais, o ódio estampado em cada traço do rosto.
— Coincidência, uma ova! Tá me vigiando. Já descobri que você é irmão daquele abusado que tentou seduzir minha mulher!
Epaminondas engoliu em seco.
— Não precisa projetar em mim o seu ódio. Eu não quero nada com o senhor.
Epaminondas respirou fundo, tentando conter a raiva e a tristeza que se misturavam no peito.
— Não se preocupe... — disse, com a voz baixa. — Eu não volto mais aqui.
Fez menção de se virar, mas parou por um instante, os olhos fixos no chão. Então levantou o rosto, encarando Antunes.
— Mas saiba de uma coisa: por mais que tente apagar o passado, ele sempre volta. E um dia... Bem, um dia ele cobra seu Antunes.
Sem esperar resposta, deu meia-volta e saiu andando lentamente pela calçada.
— É bom mesmo! — gritou Antunes atrás dele. — Volta pra sua zona de conforto e fique bem longe de mim, senão verá do que sou capaz. Velho maluco!"
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
De volta ao presente, Meireles se dedicava com afinco à fisioterapia.
— Isso! Mais uma vez, seu Meireles! Vamos lá? — disse Edson, com um sorriso empolgado. — Muito bem! Tô gostando de ver, hein!
Meireles respondeu com um sorriso cansado, mas pleno.
— Ter conseguido mexer o pé... foi como enxergar uma luz no fim do túnel, sabe? — murmurou. — Você acha que ainda demora pra eu voltar a andar?
— Olha, cada caso é um caso. Mas o senhor tá indo muito bem. É um processo lento, sim... mas os movimentos estão voltando aos poucos. O mais importante é que o senhor tá evoluindo.
Edson fez uma pausa, observando Meireles com atenção.
— E a família? Qual foi a reação da sua esposa? Dos filhos? Aposto que ficaram felizes com a notícia!
— Ninguém sabe — disse Meireles. — E quero que continue assim. Não contei pra ninguém ainda. Quero fazer uma surpresa.
Ele respirou fundo.
— Eles só vão saber quando me virem de pé. Andando. Tenho fé que esse dia tá mais perto do que parece.
Edson sorriu, comovido com a fé de seu paciente .
— Amém! Essa confiança e pensamento positivo ajudam muito na evolução da fisioterapia. Vambora trabalhar pra esses nervos fortalecer?
Meireles assentiu, determinado. Fechou os olhos por um instante e voltou a se concentrar nos exercícios.
═══🎭✦✧ Praça da Matriz ✧✦🎭═══
Gabriel estava deitado com a cabeça no colo de Joana. Ela passava os dedos lentamente pelos cabelos dele, num gesto que dizia mais do que qualquer palavra. Daiana, sentada em um banco próximo, observava em silêncio. Os olhos marejados denunciavam a comoção que sentia.
— O tempo passou tão rápido aqui contigo — disse Joana, com a voz embargada. — Oh, meu filho... não vamos mais perder o contato. Não quero me afastar de você nunca mais.
Gabriel ergueu os olhos para ela, um sorriso sereno no rosto.
— E não vai, minha mãe. Agora que te encontrei, não largo mais.
— Já tá ficando tarde, eu preciso ir. Quando a gente vai se ver de novo?
— Eu não sei... Mas espero que logo. Passei tanto tempo desejando esse colo de mãe.
— Filho, você bem que podia vir morar comigo. Lá em casa. Eu, você e seu irmão. O que acha?
Gabriel se sentou devagar, afastando-se levemente do colo dela. Sua expressão mudou, ficando mais cautelosa.
— Acho que... no momento não seria muito adequado. Creio que o meu irmão não iria gostar muito da minha presença.
Joana assentiu com tristeza. Não questionou.
— Tá certo. Vamos esperar, então. Esperar tudo isso passar. Um dia... um dia a gente vai ficar todos juntos. Como uma família de verdade. — Ela se voltou para Daiana, sorrindo com gratidão. — Daiana, muito obrigada. Você não tem noção do bem que me fez hoje.
— Imagina, Joana. Eu tô aqui emocionada. Vocês dois mereciam esse reencontro.
Do outro lado na rua, um carro se aproximava devagar. Dentro dele, Rodrigo. Ao avistar os três reunidos, freou discretamente, o rosto se contorcendo em uma expressão indecifrável. Seus olhos se estreitaram, fixos na cena. Por um momento, parecia prestes a descer... mas então, engatou a marcha e seguiu adiante, sem ser percebido.
═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══
Will recostou-se na cadeira, cruzando os braços enquanto a revelação ainda martelava em sua cabeça.
— Por essa eu não esperava. O irmão do Jurandir morando no orfanato. Isso tudo é muito estranho, Tony.
— O que você tá achando? Que esse Epaminondas pode tá envolvido no crime?
Will virou-se lentamente para ele, com um olhar grave.
— Motivos pra matar o Antunes ele tinha, né? Essa ida do Gabriel no desfile da Mulambo sempre foi suspeita. Agora, sabendo que o tio dele mora no orfanato... isso me faz ficar com a antena ligada. E se os dois estiverem juntos nessa? Temos que descobrir de onde vieram essas ligações.
— Já mandei investigar. — disse Tony, direto. — As ligações com certeza foram feitas por gente a mando do Antunes.
— É isso que precisamos descobrir. Quem ligou? Por que ligou? E, principalmente, o que mais ainda estão escondendo.
═══🎭✦✧ Boate Eclipse ✧✦🎭═══
A pista de dança estava animada. Ludmila e Carla entraram na boate com sorrisos no rosto e passos decididos.
— Eita, que isso aqui hoje tá bom, viu? — exclamou Ludmila, empolgada. — Hoje ninguém me segura, meu amor!
— Aí sim! Agora é a Ludmila que eu conheço. Bem melhor do que ficar em casa se lamentando por causa de homem, né?
— Ficou maluca, Carla? É ruim eu me lamentar por causa de homem, minha filha! Homem é igual biscoito: vai um, vem dezoito!
— Tá bom, hanhã, sei... — retrucou Carla, de forma divertida.
Mas o sorriso de Ludmila se desfez no mesmo instante em que seus olhos bateram em uma figura familiar do outro lado do salão. Ela apontou discretamente com o queixo.
— Ah não. Olha só quem tá ali... a chata da sua amiguinha.
Carla seguiu seu olhar e arregalou os olhos.
— É a Talita! Vamos lá até ela. — gritou, erguendo o braço. — Talitaaa!
— Pelo amor de Deus, Carla! — resmungou Ludmila, virando o rosto. — Você sabe que eu não suporto essa garota.
— Para de show, Ludmila! A Talita é gente boa.
— Gente boa, sim, mas cheia de conversinha fiada pro meu lado! Será que ela ainda não se tocou que eu não gosto do que ela gosta?
Antes que Carla pudesse responder, Talita já se aproximava, sorridente.
— Boa noite, meninas!
— Boa noite, Talita! — respondeu Carla com entusiasmo. — E aí, como você está?
— Eu tô ótima! — disse ela, encarando Ludmila com um olhar provocativo. — Mas minha noite pode melhorar muito mais...
Ludmila revirou os olhos e, com um suspiro entediado, a encarou impaciente.
— Você não desiste, hein, garota?
— Água mole em pedra dura... — retrucou Talita, piscando.
— Querida — rebateu Ludmila, sem perder a pose — o que eu gosto começa com pi e termina com ca. E você... não tem.
Carla caiu na gargalhada.
— Adoro! — gritou. — Gente, vamos parar de conversa fiada e vamos beber?
As três seguiram juntas rumo ao botequim.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Joana abriu lentamente a gaveta da cômoda. Dentro, repousava a manta, cuidadosamente dobrada. Ela passou os dedos sobre o tecido como quem acariciava uma memória viva, e seus olhos marejaram. O coração palpitava de alegria, uma alegria que há anos parecia impossível. Rodrigo entrou no quarto com um semblante pesado, e a encarou sério.
— Que carinha é essa, meu amor?
— Eu vi — respondeu ele, com a voz carregada de amargura. — Vi a senhora toda animadinha na praça com o seu filhinho marginal.
Joana virou-se, a expressão surpresa.
— Que isso, Rodrigo? Não fale assim do seu irmão. Poxa... eu tô aqui toda feliz por ter o encontrado. Você também deveria estar, meu filho. Finalmente vamos poder ser uma família de verdade. Falando no seu irmão, eu... eu convidei ele pra vir morar aqui com a gente. O que você acha?
Rodrigo riu sem humor, um som seco, amargo.
— A senhora perdeu a noção da realidade? Será que não consegue perceber o perigo que tá correndo? Esse cara foi capaz de manipular pra conseguir um emprego na Mulambo, só pra se aproximar da gente. Depois fez de tudo pra conseguir um convite pro desfile. E já estava tudo pensado, tudo calculado, ele foi lá com o intuito de matar o Antunes. Agora tá se aproveitando da semelhança física que tem comigo pra me acusar. E a senhora quer um delinquente desses morando na nossa casa?
— Seu irmão não faria isso! — Joana rebateu, a voz embargada. — Ele é uma pessoa boa, doce, gentil...
Rodrigo se aproximou, encarando-a nos olhos.
— Ah, é? E eu, hein? Me diga uma coisa minha mãe, com toda sinceridade: a senhora acredita na minha inocência?
A pergunta caiu como um raio. Joana piscou algumas vezes, como se precisasse processar aquelas palavras.
— Que pergunta besta é essa? — disse por fim, tentando se recompor. — É claro que eu acredito.
— Então não tô entendendo. Porque um de nós dois matou o Antunes. Se a senhora acredita mesmo na minha inocência, isso significa acreditar na culpa do Gabriel.
— Rodrigo, pelo amor de Deus não me põe nessa gangorra. Eu não quero ter que escolher entre um de vocês dois. Não estraga essa minha felicidade de finalmente ter vocês dois pertinho de mim.
Rodrigo suspirou, menos raivoso, mais contido.
— Eu sinto muito em te ver em meio a tudo isso... — disse, aproximando-se dela. — Mas a verdade é uma só: o Gabriel não é tão doce e inocente como se apresenta. Ele foi capaz de articular cada passo pra poder matar o Antunes. E a gente ainda não sabe quais são suas reais intenções. Não sabemos do que ele é capaz. Trazer ele pro nosso convívio agora é muito arriscado.
Joana sentada à beira da cama, segurava firme a manta entre os dedos. O rosto estava abatido, as emoções confusas entre o amor e o medo. Rodrigo a abraçou, apertando-a com força, como se quisesse protegê-la.
— Oh, minha mãe... eu entendo a sua alegria em reencontrar o filho que lhe foi arrancado de forma tão brutal. Mas não sabemos o que ele viveu nesses anos todos. E menos ainda o que sente por nós. Vamos com calma, deixa essa tempestade passar. Vamos esperar as coisas se resolverem primeiro, antes de procurar qualquer aproximação com esse sujeito.
═══🎭✦✧ Boate Eclipse ✧✦🎭═══
Ludmila e Carla estavam acomodadas em banquetas altas, próximas ao balcão do botequim.
— Ainda bem que aquela insuportável deu um tempo — resmungou Ludmila. — Sua amiguinha é chata, viu?
— Para de show, Ludmila — rebateu Carla, divertida. — Você bem que estava gostando quando ela tava aqui bancando o chopp pra nós.
— Alguma vantagem tem que tirar, né? — disse Ludmila com um sorriso malicioso, até que seus olhos se arregalaram de repente. — Ih, carái... o Fabinho tá aqui? — apressou-se a esconder o rosto atrás do copo. — Não quero nem que ele me veja!
— Deixa de ser boba. Você não tava doida pra falar com ele?
— Eu não! Quem te disse isso? Quero lá saber desse fresco.
— Fresco, mas você não para de falar dele — provocou Carla. — Deixa de fricote, vai lá falar com o boy.
— Carla, o cara passa dias sem dar sinal de vida. Você acha mesmo que agora eu vou correr atrás dele?
Mas antes que Carla pudesse responder, Ludmila paralisou.
— Ih, Jesus, agora lascou! Ele tá vindo pra cá. O que eu faço?
O coração dela disparou. Ela ajeitou o cabelo com um gesto rápido, puxou o copo de chopp para perto e mordeu o canto do lábio, fingindo naturalidade.
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