MINHA OUTRA FACE
13 Identidade em risco
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═══🎭✦✧ Ainda na boate... ✧✦🎭═══
A boate continuava cheia, a música embalava o ambiente. Mas, para Ludmila, tudo isso parecia distante. O mundo havia encolhido ao tamanho da banqueta em que estava sentada e do olhar de Fabinho, tão perto do seu.
— Oi! — disse Fabinho, já se aproximando.
— Oi! — respondeu Ludmila.
— Com licença, vou ver se eu encontro a Talita — disse Carla, se afastando, e antes de desaparecer, virou-se para Fabinho com uma piscadinha: — Ah, arrocha no chopp, tá geladinho!
Assim que Carla saiu, Fabinho ocupou o lugar vago.
— Você nem quis mais falar comigo pelo WhatsApp?
Ludmila deu de ombros, olhando para o copo.
— Eu quase não mexo no meu celular.
— Mas toda vez que eu olhava seu perfil, você estava online.
— Engraçado, o seu também.
— Eu entrava mesmo só pra ver se tinha alguma mensagem sua.
Ludmila fingiu não se abalar. Tomou um gole do chopp, fingindo despreocupação.
— Não falei nada porque pensei que você estivesse zangado, pelo o que aconteceu no cinema.
— Se você quer mesmo saber, eu fiquei um pouco zangado sim. Achei meio desrespeitosa aquela confusão. As pessoas tentando assistir o filme, e você fazendo barulho. Não gostei muito da sua atitude.
Ludmila arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Ah, é? Fala sério, garoto! Você veio aqui só pra me jogar isso na cara?
— Não, calma! — Fabinho levantou as mãos em sinal de paz. — Não vamos fazer outro barraco aqui. Vamos ficar numa boa.
— Tem hora que não dá pra te entender, sabia? — rebateu ela, bufando. — Você nem caga e nem desocupa a moita. Qual é a sua mesmo, hein?
Fabinho deu uma risada baixa.
— Você é engraçada, viu? Eu gosto desse humor. Sabe do que eu gosto também?
Ludmila virou o rosto devagar, encarando-o.
— Do quê?
— Dos seus beijos.
— Você é saliente. Já tá levando a conversa pra outro rumo.
— Posso te dar um beijo?
— Aqui? Agora?— perguntou ela, arregalando os olhos.
— Qual o problema?
— Nenhum. Mas é que, sei lá... A gente estava aqui discutindo, de repente você muda o rumo da conversa.
— Tem coisa melhor pra fazer, ao invés de discutir. Vamos ficar mais juntinhos — disse ele, se inclinando para ela, com aquele sorriso que ela fingia não gostar, mas que fazia seu estômago revirar.
— Ah, meu pai! — sussurrou Ludmila. — De repente aqui começou a ficar quente.
— E a tendência é a temperatura subir mais ainda — disse Fabinho, já com o rosto colado ao dela.
— Ih, cárai!
E antes que pudesse dizer mais alguma coisa, os lábios dele tocaram os dela. O beijo começou tímido, mas logo ganhou intensidade, como se quisesse recuperar o tempo perdido entre mensagens ignoradas e silêncios forçados.
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
Daiana estava acomodada no sofá, distraída com o celular nas mãos. Angelina entrou na sala, notando de imediato o semblante alegre da filha.
— Bom dia, minha filha! Que carinha risonha é essa? Com quem tanto conversa?
Daiana não disfarçou o sorriso, e nem escondeu a resposta:
— Com o Gabriel. Ele tava aqui me contando o quanto tá feliz por ter reencontrado a mãe dele.
— Ah, então ele e a Joana se encontraram, foi?
— Mãe, foi lindo. A senhora tinha que ver. Eu encontrei por acaso o Gabriel no shopping, e tive a ideia de chamar a Joana para que os dois se encontrassem. Quando os dois se abraçaram, foi de derreter o coração. Parecia que o tempo parou só pra eles dois. Eu fiquei ali, parada, sem saber se sorria ou se chorava junto.
Angelina se aproximou mais e sentou do lado da Daiana.
— É, eu imagino. A Joana sofreu muito todos esses anos. Ter o filho nos braços de novo deve ter sido uma emoção que não cabe no peito. — Fez uma pausa e olhou pra filha séria. — Mas escuta aqui, minha filha. Eu não tô gostando nem um pouco desse seu envolvimento com esse rapaz. Fica fora disso, pelo amor de Deus.
— O Gabriel não matou o Antunes, mãe. Eu tenho certeza disso.
— E como você pode ter tanta certeza, Daiana? O que você sabe de verdade sobre esse rapaz? A gente não conhece o passado dele, nem o que passa no coração dele. Nem tudo é o que parece. Por favor, minha filha, quanto menos você se envolver nessa história, melhor pra você.
— Eu entendo sua preocupação. Mas no dia que a senhora conhecer o Gabriel, vai entender. Ele e o Rodrigo se parecem só por fora. Mas por dentro são completamente opostos. Gabriel tem uma luz, mãe. Um jeito calmo, verdadeiro... não sei explicar.
Angelina a fitou com mais atenção, captando algo novo no tom da filha.
— Pelo jeito que você tá falando, já tá toda mexida com esse rapaz, né?
Daiana sorriu, sem negar.
— Eu gosto de estar com ele. Me sinto bem. Tudo isso vai se resolver, mãe. A senhora vai ver que tô certa. O Gabriel não tinha nenhum motivo pra querer a morte do Antunes. Já o Rodrigo... a gente sabe muito bem como era a relação deles.
— Espero mesmo que você esteja certa. Mas se quer um conselho de mãe... tome muito cuidado, Daiana. Ninguém vem com o caráter escrito na testa.
— Tá bom. Eu prometo que vou tomar cuidado.
Angelina assentiu com um leve movimento da cabeça.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Joana estava sentada na poltrona da sala, preocupada. Diante dela, Kléber escutava em silêncio.
— O Rodrigo ficou me questionando, querendo saber de que lado eu estou. Eu não quero ser obrigada a escolher entre os meus filhos, Kléber. Agora que o meu Gabriel apareceu, como eu posso me voltar contra ele? Mas o Rodrigo... o Rodrigo sempre esteve aqui. Comeu o pão que o diabo amassou nas mãos daquele canalha. Eu não posso deixá-lo sozinho agora.
— Você não tem que escolher lado nenhum, Joana. Os dois já são homens feitos, responsáveis pelos próprios atos. Você não tem culpa de nada, não carregue esse peso.
Joana desviou o olhar, deixando um leve sorriso atravessar seu rosto enquanto mergulhava nas lembranças.
— Ontem foi tão bom, Kléber... parecia que eu tava sonhando. Meu filho deitado aqui em meu colo, e eu lhe fazendo cafuné. O meu menino que eu sempre pensei que estivesse morto, aqui de volta nos meus braços.
A porta se abriu e Rodrigo entrou com passos firmes, o semblante carregado de mágoa.
— Controle a sua emoção, dona Joana. Porque esse menino que a senhora idolatra já é homem. E foi capaz de tirar a vida de outra pessoa.
Joana se levantou devagar, a voz mansa, mas reprovadora:
— Não fale assim, meu filho. Eu não gosto.
— Já conversamos sobre isso ontem — insistiu Rodrigo. — Sei que minhas palavras são duras, mas a senhora precisa de um choque de realidade.
Kléber tentou intervir, comedido:
— Vamos com calma, Rodrigo. Sua mãe só tá emocionada. Reencontrou um filho que acreditava perdido. Isso mexe com qualquer um.
Joana então se voltou para o filho, encarando-o com serenidade.
— Na verdade, Rodrigo, foi bom você ter chegado. Eu queria mesmo falar com você. Mas sobre outro assunto. Tomei minha decisão: vou vender a minha parte das ações da Mulambo para o senhor Meireles.
Rodrigo deu um passo à frente, como se tivesse levado um golpe.
— A senhora não pode fazer isso! Essas ações são minhas por direito!
— Na verdade, ela pode sim, Rodrigo. — Disse KLéber — A Joana era casada com o Antunes sob o regime de separação total de bens. A parte das ações que ela herdou pertence exclusivamente a ela. Pode vender, doar, investir como quiser.
Rodrigo riu, incrédulo.
— Kléber, minha mãe quer vender essas ações pra montar um restaurante do zero! Um restaurante, Kléber! A Mulambo é uma empresa reconhecida internacionalmente. Não tem comparação! É insano!
Joana não recuou. Seus olhos agora tinham o brilho de quem reencontrava a própria essência.
— O que é insano, Rodrigo, é você achar que a vida se mede só pelo que rende. A Mulambo carrega o nome do seu pai, mas nunca foi minha alma. Abrir um restaurante... isso sim sempre foi meu sonho. Eu cansei de viver os sonhos dos outros.
Rodrigo balançou a cabeça, exasperado.
— A gente não pode vender essas ações, minha mãe! Vamos trabalhar pra fazer elas renderem. A senhora tem que pensar com a cabeça, não com o coração! Carregar o nome desse maldito pelo menos tem que me render alguma vantagem!
Joana se aproximou, olhando o filho nos olhos.
— Não, meu amor. Eu não quero mais nada que me ligue ao Antunes. Agora eu quero viver minha vida. Construir o que é meu.
Rodrigo virou o rosto, furioso, quase sem saber como conter a frustração.
— Isso é um erro... um grande erro. Kléber, você precisa fazer alguma coisa! Não pode deixar ela fazer essa loucura!
Joana respirou fundo, encarando o filho.
— O único erro, Rodrigo, foi terem me impedido de viver a minha vida por tanto tempo. Agora ninguém mais vai me impedir de ser feliz.
Rodrigo não disse mais nada. Kléber apenas olhou para Joana com um sorriso orgulhoso.
═══🎭✦✧ Casa dos Juca ✧✦🎭═══
Ludmila estava na cozinha preparando um misto quente quando Carla chegou, invadindo o ambiente com seu jeito espontâneo. Sem cerimônia, pegou o misto que Ludmila havia acabado de preparar.
— Bom dia, piranha! — disse ela, já mordendo o misto que Ludmila acabara de tirar da frigideira.
Ludmila se virou devagar, com uma expressão de falsa indignação.
— Resolveu aparecer, puta?
Carla riu alto, sentando-se à mesa como se fosse dona do ambiente.
— Oxe, a gente se viu ontem à noite!
— Sim, e você preferiu ficar com a sua amiguinha do que vir comigo — rebateu Ludmila, enquanto começava a preparar outro sanduíche.
— Para de show, Ludmila! Você tava com o Fabinho. Queria o quê? Que eu fosse lá ficar segurando vela?
— Nada a ver. Você não foi porque quis ficar com a Talita. Sua amiguinha querida.
Carla estreitou os olhos, provocadora.
— Dramática, hein! Mas me diga... e você e o Fabinho, como estão?
— Tem hora que eu gosto dele, tem hora que tenho raiva. Garoto fresco, cheio de cu doce.
Carla gargalhou, jogando a cabeça pra trás.
— Então vocês deram certinho! Porque tô pra conhecer gente mais cu doce que você!
— Menos, né? Também não é pra tanto. Eu gosto de homem com atitude, sabe? Fabinho é cheio de nove horas, fica zangadinho por qualquer besteira. Mas admito: tem um beijo muito gostoso.
— Hummm! Aí sim! Agora entendo esse fogo todo. — disse Carla, inclinando-se sobre a mesa com olhos brilhando de malícia. — Mas vem cá... só o beijo que é bom?
Ludmila deu de ombros, fazendo charme.
— Sim, né, minha filha. Ainda não conferi o resto.
Carla arregalou os olhos, rindo com escárnio.
— Nossa, mas o negócio aí tá devagar, hein?
— Pois não é disso que tô reclamando? Ali parece que não desenrola!
As duas cairam na risada, enquanto Ludmila terminou de preparar o segundo misto e sentou-se à mesa com Carla.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
O pátio e o jardim do orfanato estavam animados, repletos de crianças correndo e brincando. Sentado sobre uma meia parede que separava o pátio do jardim, Gabriel mantinha um sorriso bobo no rosto, perdido em pensamentos — claramente pensando em Daiana. Foi nesse momento que Soraia o avistou. Sem pensar duas vezes, aproximou-se, sorrindo.
— Oi! — cumprimentou ela.
Gabriel pareceu sair de um transe e respondeu:
— Oi, Maria! E a mão, como está?
— Tô bem. Foi só um corte pequeno. A irmã Tereza fez um excelente curativo. Logo vai estar cicatrizado.
— Que bom.
Soraia, com um tom mais descontraído, comentou:
— Eu vi você e aquela moça conversando aqui no jardim.
— E o que tem demais nisso?
— Nada... É que vocês pareciam tão íntimos. Você já conhecia ela?
— Não. Ela foi noiva do meu irmão. Aquela história que já te contei.
— Ah, sim. O mesmo irmão que tá sendo acusado de ter matado aquele cara da empresa, né?
— É... Ele cometeu um erro, mas eu tenho certeza que ele vai sair dessa. E, quem sabe, até sejamos amigos um dia.
— Tomara. Esse tempo todo que você ficou aqui no orfanato, nunca soube nada da sua família?
Gabriel desviou o olhar para o chão, pensativo.
— Soube algumas coisas. Coisas que investiguei por conta própria. Mas nada muito concreto.
Soraia curiosa, arriscou:
— Coisas? Que tipo de coisas?
Gabriel sorriu com gentileza, mas falou com firmeza:
— Maria, não me leva a mal. Mas esse é um assunto particular. Prefiro não falar sobre isso.
— Tudo bem, desculpa. É que essa história é tão intrigante. Deixa a gente curiosa. Eu torço pra que tudo se resolva logo. Que você consiga se livrar dessas acusações. E... também torço por você e pela Daiana.
Gabriel riu, tentando disfarçar o desconforto.
— Não existe nada entre eu e a Daiana.
— Ainda, né? — provocou Soraia, piscando o olho. — Porque pelo clima que tá rolando... talvez isso não demore.
Gabriel deu uma risadinha.
— Que isso, Maria? A Daiana é modelo, influencer da internet. O que ela iria querer com um cara como eu?
— Tá sendo modesto — disse Soraia, encarando-o com doçura. — Eu, por exemplo, te acho muito interessante.
— É mesmo? Muito obrigado, então. Você também é uma moça muito interessante. Aposto que tem algum namoradinho escondido por aí.
Soraia fingiu está tímida, mexendo nas mãos nervosamente.
— Não. Nunca fiz essas coisas. Morro de vergonha.
— Não tem nada pra se envergonhar. Essas coisas acontecem no tempo certo.
Soraia então olhou fixamente nos olhos dele, com uma expressão sincera e emotiva.
— Eu vou fazer isso só depois de encontrar um homem que eu amar de verdade.
Gabriel ficou meio desconcertado diante da intensidade do olhar dela.
— Bonita essa sua atitude.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Joana estava sentada, tensa, e desabafava, a voz embargada de mágoa:
— Aquele homem era um monstro, Kléber. Minha vida foi triturada nas mãos dele. Eu apenas sobrevivi, nunca vivi de verdade.
Ele aproximou-se e sentou ao lado dela. Com um gesto delicado, pegou a mão dela e falou com suavidade:
— Mas agora acabou, Joana. E você pode, enfim, recomeçar. Ser feliz, e quem sabe encontrar alguém que cuide de você de verdade. Alguém que te trate como a mulher incrível que você é.
Num gesto rápido e firme, ela puxou a mão de volta e se afastou.
— Que isso, Kléber? Eu sou uma mulher viúva! — exclamou.
— Sério mesmo que você tá preocupada com a memória do Antunes?
— Não é por ele. É por mim. Isso... isso não é certo, Kléber.
Kléber, com o coração apertado, insistiu:
— E por que não seria? Eu gosto de você, Joana. Gosto de verdade. E sei que você também sente algo por mim.
Joana se levantou num ímpeto, andando inquieta.
— Eu já não penso mais nessas coisas. Minha preocupação agora são os meus filhos, que estão aí na mira da polícia.
Ele também se levantou, tentando alcançar a razão dela.
— Mas seus filhos são adultos! Você tem o direito de cuidar de você agora!
— Eles estão sendo acusados de assassinato, Kléber! Você acha mesmo que eu tô com cabeça pra pensar em... em saliência?
— Joana, amor não é saliência.
— Chega! Eu exijo respeito. Se for ficar falando dessas coisas, é melhor ir embora agora.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Kléber baixou os olhos, visivelmente arrependido.
— Desculpa. Não foi minha intenção te ofender.
═══🎭✦✧ No quarto de Ludmila... ✧✦🎭═══
Ela falava animadamente ao telefone. Carla ao lado só prestava atenção na conversa dela.
— Com certeza! — disse, sorrindo.
Carla, curiosa, perguntou:
— Tá falando com quem, doida?
Ludmila fez um sinal com a mão pedindo que ela esperasse. Continuou a conversa, empolgada:
— Claro! Ela vai amar sair contigo, imagina. Minha amiga é maravilhosa. Te mostrei a foto dela, né? Tenho certeza que você vai gostar dela. Naquela boate? Isso na boate eclipse. Combinadíssimo, nós vamos estar lá.
— Nós quem? Ludmila, o que cê tá aprontando?
— Tchau, gatinho! — Ludmila desligou o telefone com um sorriso maroto e virando-se para Carla, explicou — Nós, somos eu e você.
Carla cruzou os braços, ainda desconfiada:
— Com quem você estava falando?
Ludmila jogou o corpo na cama, rindo:
— Com o Edson, um gato ma-ra-vi-lho-so. E ele está caidinho por você.
Carla arregalou os olhos:
— Ah, tá! E você me joga assim, sem nem perguntar o que eu acho?
— Amiga, você tá na seca, matando cachorro a grito. Para de show, vai! Eu não vou lhe colocar em roubada. E quem sabe um amiguinho dele, que também é gatinho, não vai junto?
— E o Fabinho?
Ludmila, fingindo não entender, respondeu com um ar inocente:
— Quem é Fabinho? Conheço não...
Carla a encarou, irônica:
— Oxe! Pensei que vocês tinham feito as pazes e agora estariam juntos.
— Ah, Carla, sabia que eu nem sei? Hoje ele me mandou mensagem mais cedo, cheio de coraçãozinhos, todo meloso. Mas, amiga, eu não sei o que faço! Não sei se eu quero namorar com o Fabinho.
— Deixa de onda, Ludmila! Tá na cara que você já tá arriada pelo boy.
Ludmila soltou uma gargalhada:
— Até parece que sou igual a você. Não sou de me apaixonar fácil não, minha filha. Tô apenas curtindo com o Fabinho. Entendeu? Não é nada sério. Até porque aquele dali é devagar, quase parando.
— Tá bom, acredito! Agora me mostra aí uma foto desse Edson, deixa eu ver se é gatinho mesmo.
Ludmila pegou o celular toda orgulhosa e mostrou a foto.
— Claro que é, meu amor. Cê acha que eu vou te arrumar homem feio?
— Humm! Gostei, dá pra dá uns pegas.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Irmã Rosália chegou ao barraco de Epaminondas, entrando devagar. Ele estava na pequena cozinha, separada dos outros cômodos apenas por um balcão.
— Com licença. Epaminondas! — chamou ela.
Epaminondas ergueu os olhos e sorriu.
— Olá, irmã! Pode entrar, fique à vontade.
— Eu já disse que não precisa cozinhar. Fazemos comida suficiente para você também — comentou.
Epaminondas, enquanto mexia em uma panela no fogão, respondeu com serenidade:
— Eu gosto de fazer a minha própria comida.
— Tá bem, então...
Ele apontou com a cabeça para um dos bancos encostados no balcão.
— Se arranje por aí, irmã. Fique à vontade.
Sentando-se, irmã Rosália foi direto ao ponto:
— O que a polícia tanto queria com você, meu amigo?
Epaminondas desligou o fogo e se virou para ela.
— Quando a vida é tirada brutalmente de alguém, todos os vivos são suspeitos. Nas investigações da morte do Antunes, a polícia encontrou um celular. E nele havia registros de ligações feitas a partir de um aparelho que eu perdi.
Irmã Rosália perguntou boquiaberta.
— E esse telefone que foi encontrado, pertencia ao Antunes?
— Ele mantinha esse celular em um envelope, trancado dentro da gaveta do escritório dele.
— Eu não tô entendendo mais nada, Epaminondas. Você e esse Antunes já se conheciam?
Epaminondas fitou-a por um instante antes de responder:
— Eu cheguei a trabalhar um tempo como motorista na casa dele, irmã.
— Que história é essa?
Ele segurou o olhar dela com firmeza.
— Não se preocupe, irmã. Eu não tenho culpa nenhuma da morte desse senhor.
— Eu não quis dizer isso, pelo amor de Deus, não me julgue mal — apressou-se em dizer irmã Rosália.
Epaminondas sorriu, mas seu olhar trazia uma sombra de amargura.
— Mas pensou... E tudo bem. Afinal, cheguei aqui sem passado, atrás de um emprego. E a senhora, generosamente, me deu esse lugarzinho pra ficar. Mas nem tudo a gente consegue manter no passado. Às vezes, coisas do nosso passado também fazem parte do nosso futuro.
— Você só me deixa mais confusa com essas suas palavras. Eu fico aqui preocupada com o Gabriel no meio desse rolo todo. Rezo todos os dias para que isso seja resolvido logo.
Epaminondas se aproximou do balcão, apoiando-se nele.
— A senhora já parou pra pensar na possibilidade de o Gabriel não ser tão inocente, irmã?
— Nem quero pensar nisso! O Gabriel é um menino honesto, incapaz de fazer mal a alguém.
Epaminondas, sereno, citou:
— "De tanto ver triunfar as nulidades e prosperar a desonra, o homem chega a desanimar da virtude e a ter vergonha de ser honesto." Assim dizia Rui Barbosa.
— Pelo amor do Divino Pai Eterno, Epaminondas! Eu já tô aqui cheia de caramiolas na cabeça, e você vem me falar umas coisas dessas?
Ele sorriu com bondade e disse:
— Não aflige seu coração, irmã. Deixa pra polícia o desvendar desse mistério.
═══🎭✦✧ A noite na Boate ✧✦🎭═══
Carla e Ludmila estavam sentadas nas banquetas próximas ao balcão. A música alta fazia vibrar o chão sob seus pés.
— Ah, hoje eu não tô nem um pouco animada de ter vindo pra cá — reclamou Carla, olhando em volta com desânimo.
— Se fosse a sua amiguinha que tivesse te chamado, você estaria toda animada — provocou Ludmila, com um sorriso de lado.
— Para de show, Ludmila, nada a ver isso. E o cara que você disse que ia vir, onde está?
— Agora ficou animada, né? Sossega a periquita, ele já deve tá chegando.
— E o Fabinho? Será que vem pra cá hoje?
Ludmila mordeu o lábio, pensativa.
— Pois é, piranha, é nisso que tô pensando. O Edson vai vir acompanhado daquele amiguinho gostoso que te falei. Se o Fabinho aparecer como vou fazer?
Carla soltou uma gargalhada.
— Mas quando a pessoa é quenga também não sabe sossegar o facho. Tá xonada no Fabinho, mas já tá aí se coçando toda querendo o outro.
— Quem aqui tá apaixonada? Não viaja! Eu, hein! — Ela deu uma olhada no celular e completou: — O Edson mandou mensagem, eles chegaram. Bico calado, viu? Nem vem estragar minha noite falando em Fabinho.
— Claro, né piranha? Nem precisa me pedir isso.
Ludmila levantou o olhar e avistou Edson e Glauber do outro lado da pista de dança.
— Olha eles bem ali! — apontou, chamando — Edson, aqui!
Edson atravessou a pista, abrindo um sorriso.
— Boa noite! — cumprimentou.
— Boa noite! Essa é a Carla, a amiga que eu tinha te falado — apresentou Ludmila.
Edson aproximou-se e cumprimentou Carla com três beijinhos.
— Prazer!
— O prazer é meu — respondeu Carla, sorrindo.
— E esse é o Glauber, o amigo que eu te falei — continuou Edson.
Glauber, sem cerimônia, também se aproximou para cumprimentá-la.
— Ele não exagerou quando disse que você é linda — elogiou, com um sorriso maroto.
Ludmila deu uma risadinha maliciosa.
— Ih cárai! Já gostei do seu amiguinho.
Glauber deu três beijinhos em Ludmila e Carla. Edson, percebendo o clima, comentou:
— Vejo que o negócio aqui tá fluindo — e virando-se para Carla, perguntou — E entre a gente, o que você acha?
Carla piscou de leve e respondeu:
— Pode fluir também.
— Opa! — exclamou Ludmila, divertida.
Glauber então puxou Ludmila pela mão.
— Vamos deixar os pombinhos sozinhos, Ludmila. Vem aqui comigo.
Sem hesitar, Ludmila foi com ele para um canto mais reservado, deixando Edson e Carla a sós no botequim.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Irmã Rosália chegou ao quarto de Soraia e deu dois toques na porta.
— Posso entrar? — perguntou.
— Claro, irmã. Tá precisando de alguma coisa? — respondeu Soraia, sorrindo.
— Só queria conversar um pouco contigo. Você conseguiu achar um lugar pra ficar?
— Num deu certo, não. Os aluguel que achei tudo é caro demais, não tenho condição de bancar, não. Pensei em ficar na casa da minha prima, que encontrei aqui, mas ela é casada e o marido dela não gostou muito da ideia. Tô pensando em ir pro Maranhão, pra casa da minha vó. Lá a vida é dura, mas eu num tô vendo outro jeito não, irmã.
Irmã Rosália se aproximou mais e, com um sorriso, disse:
— Eu tenho uma saída pra você. Falei de você para o padre Ernesto, nosso pároco, e pedi pra ele te contratar como monitora das crianças. O que você acha? Não vamos poder pagar muita coisa, mas com certeza vai te ajudar até encontrar outra coisa.
Soraia, surpresa, arregalou os olhos.
— Eu, monitora? Mas como é que é isso, hein? Monitora de quê?
— Monitora das crianças, Maria. Você vai me ajudar a cuidar dos pequenos. E então, o que acha?
— Nossa, irmã... Eu não sei nem como agradecer a senhora — disse Soraia, fingindo tá emocionada.
— Imagina! Nós é que ficamos felizes em ter você aqui para nos ajudar. Agora, eu preciso dos seus documentos.
Soraia colocou o cabelo para trás da orelha, preocupada.
— Meus documentos?
— Sim, Maria. Identidade, carteira de trabalho... Para que a gente possa te registrar de acordo com a lei. Você vai trabalhar com tudo que tem direito: férias, décimo terceiro...
Tentando disfarçar, Soraia respondeu:
— É que agora, irmã, eu num sei onde é que tá esses documento. Posso entregar outra hora?
— Claro! Mas me entrega o quanto antes.
Irmã Rosália sorriu e saiu do quarto, deixando Soraia sozinha. Assim que a porta se fechou, Soraia sentou-se na cama, aflita.
— E agora, o que eu faço?
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