MINHA OUTRA FACE
14 Confissões do Boca
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═══🎭✦✧ Ainda no Lar São Tarcísio... ✧✦🎭═══
Soraia trancou a porta, pegou o celular, digitou rapidamente e sentou-se numa cadeira próxima à penteadeira.
— Bebê, escuta — disse ela ao telefone. — A freira agora inventou que eu vou ser monitora.
— Como assim, monitora de quê? — perguntou Rodrigo do outro lado da linha.
— Como de quê? Ela quer que eu cuide dos pirralhos. O pior não é isso, Rodrigo. Ela quer assinar minha carteira. E pra isso vai precisar dos meus documentos.
— Soraia, isso tá ficando perigoso.
— Eu sei. Tô tentando conseguir alguma coisa aqui, mas tá difícil. Toda hora tem alguém na minha cola. E não dá pra abandonar o barco agora.
— Dá um jeito de entrar no quarto desse cara. Assim como tinha a foto da minha mãe lá, pode ser que tenha alguma coisa mais comprometedora.
— É exatamente isso que tô tentando fazer.
— Mas toma cuidado. Dá um jeito de achar alguma prova aí e cair fora o quanto antes. Se cuida.
— Pode deixar, eu vou me cuidar. Beijão! Não se esqueça, bebê... eu te amo, viu?
— Tá bom, tchau — respondeu Rodrigo, frio.
═══🎭✦✧ No dia seguinte, na casa dos Meireles... ✧✦🎭═══
Meireles estava deitado em uma maca, enquanto Edson fazia exercícios em suas pernas.
— Isso, tô gostando de ver. Tem que ficar bom logo pra gente jogar uma partida de futebol — disse Edson, animado.
— Eu gosto do seu otimismo, rapaz — sorriu Meireles.
— Mas temos que ser otimistas, pensar positivo — disse Edson, empurrando a perna de Meireles. — Vamos mais uma vez!
— Opa, vamos com calma.
— Tudo bem, vamos descansar um pouco.
Meireles olhou para Edson, mais sério:
— Seja sincero comigo. Tem alguma chance de eu voltar a andar?
— Claro! Não se desanime, seu Meireles. O senhor não rompeu a medula, foi apenas uma lesão parcial. E é por isso que voltou a sensibilidade nas pernas. O senhor já tá conseguindo mexer os pés, isso é um ótimo sinal.
Fabinho se aproximou, entrando na sala.
— E então, pai, como tá indo na fisioterapia?
— Você ainda tá por aqui, menino? — brincou Meireles, pedindo ajuda a Edson para se levantar. — Me ajuda aqui, Doutor.
— Já tô de saída — disse Fabinho, se aproximando — passei aqui só pra te dar um beijo.
Meireles, já sentado na maca, provocou:
— É desse jeito que você quer assumir o meu lugar na empresa? Chegando atrasado?
O celular de Edson tocou.
— Desculpe, esqueci de desligar o telefone — disse Edson, apressado.
— Não tem problema nenhum, pode atender — respondeu Meireles.
— Depois eu retorno — disse Edson, desligando rapidamente.
— Cheio dos contatinhos, hein, doutor? — brincou Meireles.
— Imagina, é só uma moça com quem eu saí ontem. Fomos a uma boate.
— Olha aí, Fabinho, o doutor é igual você: chegado numa boate.
— Você gosta de boate? — perguntou Edson.
— De vez em quando eu gosto de ir — respondeu Fabinho.
— Vamos combinar de ir juntos da próxima vez, então.
— Fechou! — animou-se Fabinho.
— Não vai levar o meu doutor à perdição, hein? Eu preciso dele sóbrio pra ressuscitar os movimentos das minhas pernas — disse Meireles, em tom bem-humorado.
— Pode deixar, pai, eu vou ficar de olho pra ele não abusar da bebida — disse Fabinho, dando um beijo no pai. — Agora preciso ir. Bom trabalho aí pra vocês.
Depois que Fabinho saiu, Meireles olhou para Edson e disse:
— Bora lá, meu bom doutor, colocar essas pernas pra funcionar?
═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══
Estava tudo calmo. Apenas três pessoas aguardavam sentadas nas cadeiras, enquanto alguns policiais circulavam de um lado para o outro. Nesse momento, Will chegou, todo animado.
— Bom dia a todos! Bom dia, Carla! — cumprimentou.
— Bom dia, Will! — respondeu Carla.
— E essa cara de ressaca? — brincou ele.
— Nossa, tá dando pra perceber assim? — perguntou ela, rindo.
Will balançou a cabeça, confirmando.
— Ontem eu fui a uma boate com alguns amigos. Acabei indo dormir tarde — explicou Carla.
— Mulher, vai devagar com essas cachaças. E Tony, já chegou?
— Já, tá na sua sala. E junto com um dos bandidos que vocês estavam procurando. Aquele caso dos gêmeos, suspeitos de matar o empresário.
— Maravilha. Vou lá ver.
Will atravessou o corredor até sua sala. Lá dentro, encontrou Tony em sua mesa. Boca, algemado, estava sentado na cadeira em frente, com um policial em pé ao seu lado.
— Bom dia, meu amigo! Estamos com visita, é isso? — disse Will, entrando.
— Bom dia, Will! — respondeu Tony, entregando a prancheta para ele. — Aqui está a ficha do meliante. Pelo que tudo indica, foi ele quem assaltou o Epaminondas.
— Ótimo! — disse Will, dando uma olhada na ficha. — Reinaldo Cardeal da Silva, mais conhecido como Boca.
Will sentou-se na cadeira de frente para o rapaz.
— Bem, vou direto ao ponto. Qual a sua ligação com o Antunes?
— Sei quem é Antunes não, senhor — respondeu Boca, desdenhando.
Will consultou novamente a ficha e falou:
— Vamos ver aqui. Tráfico de drogas, pena de até oito anos. Roubo à mão armada, de quatro a dez anos. Homicídio doloso, uns quinze anos. Fora os outros crimes listados aqui. A coisa não tá nada fácil pro seu lado, meu caro.
Fechou a ficha e apoiou os braços na mesa, encarando Boca:
— Eu posso facilitar ou piorar a sua situação. Que tal fazermos uma delação premiada? Você abre o jogo comigo, e eu vejo o que dá pra fazer pra amenizar a sua pena.
Boca olhou desconfiado:
— E como é que eu vou ter certeza de que o senhor vai cumprir com a sua parte no acordo?
Will sorriu, paciente:
— Aí que tá. Não tem como ter certeza. Mas digamos que você não tem muita escolha. A verdade mais cedo ou mais tarde aparece. A polícia tem seus meios pra investigar. Eu só tô tentando poupar trabalho, e facilitar um pouco o seu lado. Agora, se você não topar, vamos continuar as investigações, e você vai ver o sol nascer quadrado por um bom tempo. Sua ficha tá mais suja que pau de galinheiro.
— O senhor acha que eu sou besta? Só vou falar na presença de um advogado.
Will assentiu:
— Tudo bem, é um direito seu.
Virou-se para o policial:
— Leva o nosso inquilino para os seus novos aposentos. A nossa conversa ainda não acabou.
═══🎭✦✧ Mascarenhas Models ✧✦🎭═══
Frida estava em pé diante de uma arara de roupas, com um vestido nas mãos. Daiana, sentada em um puff, com o pensamento distante.
— Dá uma olhada nisso, Daiana — disse Frida animada. — Uma peça mais bonita que a outra! Tô muito empolgada com esse desfile. Já temos oito modelos confirmadas. E mais a menina do orfanato, a Ana. Estava pensando em colocar mais duas crianças pra entrar no final. O que você acha?
Daiana mantinha um sorriso leve no rosto, daqueles que denunciam que o pensamento está em outro lugar.
— Daiana! — chamou Frida, notando a distração.
— Oi! — disse Daiana, saindo do transe. — Desculpa... você falou alguma coisa, Frida?
— Sim. Tô aqui mostrando a coleção que vamos usar no desfile. Mas você parece longe. Tá tudo bem?
— Me perdoa. Eu estava perdida aqui nos meus pensamentos.
— Eu percebi. Mas o semblante era de quem estava pensando em coisa boa.
— Não sei se é bom ou ruim.
— Deixa eu adivinhar, coisa do coração?
— Meu coração tá feito trem descarrilado.
— Quer desabafar?
— Estava aqui pensando no Gabriel. Acredita?
— No irmão do seu ex-noivo?
— Pois é. Parece loucura, né? Rodrigo foi meu primeiro amor. Meu único amor, na verdade. E talvez por isso eu tenha criado uma espécie de dependência, um medo constante de perdê-lo. Sempre vivi com aquela pulga atrás da orelha, sabe? Nunca consegui confiar plenamente.
— Por quê?
— Porque ele me dava motivos, Frida. Eu sou ciumenta, sim, não nego. Mas ele sempre alimentava essa minha insegurança... vivia apagando mensagens no WhatsApp, desligava o celular assim que eu chegava perto. Como se estivesse sempre escondendo algo. Ver ele com a Soraia foi como levar uma facada. A confirmação de que eu nunca fui paranoica. Que meu instinto tava certo o tempo todo.
— Entendo.
— E o pior é que, olhando agora, talvez aquele Rodrigo que eu tanto amava nunca tenha existido. Talvez fosse só uma imagem que eu criei. Mas aí, aparece o Gabriel. E, de repente, é como se eu encontrasse tudo que sempre procurei no Rodrigo, mas nunca tive. O Gabriel me passa paz. Me faz sentir segura. Como se, pela primeira vez, eu pudesse baixar a guarda.
— E isso te assusta?
— Me faz pensar se tudo isso não é loucura minha. Você acha que é?
— Não sei. Mas às vezes, o coração entende coisas que a cabeça ainda tá tentando decifrar.
— Mas é estranho, Frida. Ele tem o rosto do Rodrigo. O mesmo olhar. O mesmo jeito de sorrir de lado. Às vezes, é como se eu estivesse me apaixonando pelo Rodrigo de novo... só que em outra versão. Uma versão que me faz bem. Mas e se for só carência? E se for só a dor tentando se agarrar em qualquer colo que pareça seguro?
— E o Gabriel em meio a tudo isso? Será que ele quer viver essa história com você? Se ele quiser, por que não se permitir? Tem momentos em que a gente só precisa viver. Não precisa entender.
Daiana ficou pensativa com as palavras que ouvia da amiga.
═══🎭✦✧ Mulambo Têxtil ✧✦🎭═══
Fabinho estava sentado à sua mesa, com Talita ao seu lado. Ambos separavam alguns papéis enquanto conversavam.
— O lance entre você e a Ludmila é sério? — perguntou Talita.
— Estamos nos conhecendo, ainda não sei no que vai dar — respondeu Fabinho.
— Fiquei surpresa ao ver vocês dois juntos, nem sabia que vocês se conheciam.
— Eu também fiquei surpreso ao ver você com a amiga dela. Vem cá, tá pegando?
— A Carla é hétero, Fabinho. A minha relação com ela é só amizade. Agora... eu sempre fui afim da Ludmila.
— Sai fora, gavião! — brincou Fabinho.
— É sério. Fiquei meio decepcionada em ver vocês juntos. Você quebrou minhas pernas.
— Tá falando sério? Mas que culpa eu tenho? Nem sabia que você gostava dela.
— Faz diferença nenhuma também... ela nunca me deu bola.
— Vamos trabalhar que a gente ganha mais — disse ele, entregando alguns documentos. — Leva esses documentos na tecelagem e pede para o supervisor assinar pra mim.
— Ou seja, o seu sogro?
— Sogro? — estranhou Fabinho.
— Não sabia? A Ludmila é filha do Juca, o encarregado da tecelagem.
— Então pode deixar que eu mesmo levo. Vou lá conhecer o meu sogro.
Fabinho se retirou da sala, deixando Talita sorridente.
═══🎭✦✧ Restaurante ✧✦🎭═══
Carla e Ludmila se serviam em um buffet por quilo, enquanto conversavam.
— O Edson gostou de você — comentou Ludmila, com um meio sorriso nos lábios. — Me mandou mensagem elogiando.
Carla revirou os olhos, rindo.
— Pois é, menina... ele também me encheu de mensagens. Um grude! — disse, enquanto colocava um pedaço de lasanha no prato. — E você e o Glauber? Rolou alguma coisa?
Ludmila parou por um instante, e compartilhou.
— Rolou... até mais do que eu esperava. A gente passou a noite no motel.
Carla arregalou os olhos, surpresa e divertida.
— Uhuu! Tirou as teias de aranha, hein, piranha! — sussurrou com malícia, dando uma cotovelada leve na amiga.
As duas seguiram para uma mesa ao fundo, tentando se afastar do burburinho e encontrar um pouco de privacidade.
— Mas eu não gostei — confessou, desanimada. — Não consegui ficar à vontade. Fiquei pensando no Fabinho.
Carla a encarou, confusa.
— Ah, Ludmila... não dá pra te entender. Na moral!
— Ontem ele me mandou um monte de mensagens melosas — continuou ela, quase num sussurro. — Será que ele tá gostando de mim?
Carla deu de ombros.
— Não sei. E você? Gosta dele?
— Também não sei. Só sei que me senti desconfortável com o Glauber. Como se não fosse certo.
Carla olhou atenta para Ludmila com um sorriso debochado.
— Gente! É isso mesmo que tô percebendo? Não acredito! Piranha, você tá apaixonada!
— Menos, Carla! — disse Ludmila. — Também não é pra tanto. Eu gosto dele, sim. Mas daí a dizer que tô apaixonada?
— Chama ele pra sair! Vai na boate, sei lá.
— Não. Vou esperar ele me chamar. Também não posso ficar correndo atrás, né minha filha?
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Joana surgiu com duas xícaras de café, pousando-as sobre a mesinha de centro. Kléber estava sentado no sofá, a observando.
— Você não precisava ter vindo aqui, Kléber — disse Joana, sentando-se à sua frente. — Poderíamos conversar por telefone mesmo... ou então, mais tarde eu passaria no seu escritório. Não tinha que se incomodar.
Kléber sorriu, com aquele jeito gentil que Joana conhecia bem.
— Você nunca me incomoda. É sempre um prazer estar com você.
Ela desviou o olhar.
— Não leva o assunto para outros rumos.
— Por que você foge disso? Eu sinto que você também sente algo por mim.
— Vamos mudar de assunto? Já disse que não quero falar sobre isso. Me respeite.
— Tudo bem — respondeu ele, com a voz mais baixa. Mudando o foco, tentando recuperar o clima da conversa. — Então... você tá mesmo decidida a vender sua parte nas ações?
Ela assentiu.
— Estou. Não quero mexer com nada que vem daquele lugar. O Antunes tinha ambição, vivia falando que ainda iria ser dono de tudo aquilo. É claro, estava passando o Seu Meireles pra trás. Eu naquela empresa ficaria vendo o fantasma do Antunes em cada departamento. Eu quero vender as minhas ações e montar algo pra mim. Pode até ser algo pequeno, mas que seja meu.
Kléber escutava com atenção, os olhos fixos nela.
— Eu entendo. Mas confesso que também entendo o Rodrigo, Joana. Trocar ações de uma empresa como a Mulambo por um negócio menor fará você perder dinheiro.
— Não me importo — disse ela, com firmeza. — Posso muito bem começar do zero. Dona Angelina disse que posso vender minha parte e deixar o Rodrigo com a dele. E é isso que eu vou fazer.
— Sim, claro — ele respondeu. — Mas, de toda forma, ainda precisamos esperar o inventário.
— Esse inventário ainda vai demorar muito?
— Um ou dois meses. Já dei entrada com todos os documentos. Agora é só aguardar os trâmites.
Joana ficou em silêncio por alguns segundos, pensativa. Depois, falou num tom mais baixo:
— Sei que o Rodrigo tá detestando minha decisão. Mas, no fundo, eu tenho é medo de que lá dentro daquela empresa, ele comece a se perder na ganância, assim como o Antunes.
Kléber assentiu, compreensivo.
— Eu te entendo.
Por um instante, os dois se encararam em silêncio.
═══🎭✦✧ De volta a delegadcia: ✧✦🎭═══
Tony estava sentado em sua cadeira, quando Will entrou na sala.
— O Boca tá lá agora conversando com o advogado dele — informou Will.
— Você acha que ele vai colaborar? Vai abrir o jogo com a gente?
— Eu conversei primeiro com o advogado e falei das vantagens de uma delação. Tenho certeza de que ele vai colaborar — respondeu Will, confiante.
— O que sabemos até agora é que o Boca se desfez do telefone que usava pra falar com o Antunes.
— O telefone que pertencia ao Epaminondas.
— Isso mesmo. Cara, minha cabeça tá fervendo com tantas interrogações: por que o Boca assaltou o Epaminondas agora, depois de tantos anos? Será que o Epaminondas e o Antunes ainda mantinham contato?
Fez uma pausa e continuou:
— E se isso realmente acontecia, o Epaminondas pode ser cúmplice do Gabriel.
Will assentiu lentamente.
— O que foi que eu te disse? Tô começando a acreditar que foi o Epaminondas quem infiltrou o Gabriel na Mulambo.
— Será Will? É... realmente isso faz sentido.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Gabriel e Daiana caminhavam lentamente pelo jardim. Ele a olhava com um brilho sereno nos olhos.
— Eu nem acreditei quando a Ana disse que você estava na sala me esperando.
Daiana abaixou os olhos por um instante, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Eu fiquei pensando muito na gente. Precisava vir aqui te ver.
— Eu também não paro de pensar em você — confessou ele. — Em como você foi encantadora ao me ajudar a reencontrar minha mãe. Nunca vou esquecer aquele gesto.
— Eu gosto muito da Joana, e foi muito gratificante pra mim testemunhar o reencontro de vocês dois. — Ela fez uma pausa, respirando fundo antes de continuar. — Mas eu confesso que estou confusa com os meus sentimentos, Gabriel. Eu estava noiva do Rodrigo, estava apaixonada por ele. Aí me decepcionei ao descobrir a traição. Depois, mais decepções vieram. E agora você apareceu... e tudo virou uma bagunça aqui dentro. Às vezes, acho que tô criando um sentimento por você. Outras vezes, penso que é só confusão, por vocês dois serem idênticos. Desculpa, talvez eu nem devesse estar dizendo tudo isso.
Gabriel se aproximou um pouco mais, com suavidade.
— Claro que devia. É muito bom ouvir isso — disse, com ternura. — Não sei o que se passa exatamente aí dentro da sua cabeça, Daiana. Talvez nem você saiba. Mas se o seu coração te trouxe até aqui... isso já diz muita coisa. Isso significa que não tô sentindo tudo isso sozinho. Eu não sou o Rodrigo. Posso ser idêntico a ele, sim, mas somos muito diferentes. Eu vejo o mundo de outro jeito. E, desde a primeira vez que te vi, algo mudou em mim. Nunca senti por ninguém o que estou sentindo por você.
— É tudo muito rápido, muito confuso. Às vezes tenho medo de estar te usando como válvula de escape pra tudo que senti com o Rodrigo.
— Você não tá me usando. E mesmo se estiver com medo, vamos devagar. Vamos nos permitir viver isso. Porque também quero. Quero muito estar com você.
As palavras pairaram entre eles como uma promessa. Daiana, se aproximou mais um pouco e ele entendeu o recado. O beijo veio suave, selando algo entre os dois.
Do outro lado no pátio, Soraia observava a cena com os olhos atentos, semicoberta por uma trepadeira.
— Não tô acreditando nisso! — resmungou, sozinha. — A canelinha de seriema não perde tempo.
Ana se aproximou sem que ela percebesse.
— Quem não perde tempo?
Soraia deu um pulo.
— Ninguém! Eu só tava aqui, pensando alto — respondeu, com um sorriso amarelo.
Sem esperar mais perguntas, saiu apressada, deixando Ana parada, observando sua pressa com uma expressão intrigada.
— Será que ela ficou com ciúmes?
═══🎭✦✧ Delegacia ✧✦🎭═══
Will estava sentado à sua mesa, Tony entrou com um meio sorriso no rosto.
— Você estava certo — disse Tony, direto. — O Boca topou colaborar com a gente.
Will ergueu os olhos, com um sorriso satisfatório.
— Eu sabia. Manda trazer ele agora.
Tony assentiu e se virou. Foi até a porta entreaberta, onde um policial o aguardava.
— Pode trazer o rapaz!
Boca surgiu algemado, conduzido por um policial até a frente da mesa de Will. Ao lado, o seu advogado que lhe acompanhava.
— Pode sentar — disse Will, olhando diretamente para Boca. — Foi inteligente da sua parte aceitar colaborar. Só tem a ganhar com isso. Agora, nos conte tudo o que sabe.
O advogado deu um leve toque no ombro do cliente.
— Conte tudo ao delegado. É o melhor pra você.
Boca, com as mãos ainda algemadas, puxou a cadeira com dificuldade e sentou-se. Respirou fundo.
— Mas primeiro eu quero garantia de que minha pena vai ser amenizada.
Will cruzou os braços, encarando-o.
— Você ainda vai ser julgado. Mas, se colaborar, podemos incluir sua confissão no processo. E isso pode pesar a seu favor. Depende de você.
O silêncio pairou por um instante, até Boca soltar:
— O seu Antunes me deu uma grana pra eu assaltar o velho. Aproveitei e fiquei com o telefone dele, eu tava sem nenhum.
Will franziu o cenho.
— E por qual motivo Antunes queria que você assaltasse o Epaminondas?
— Isso aí eu já não sei, doutor. Parece coisa antiga... rincha lá do passado. O que sei é que esse Epaminondas apareceu umas duas vezes rondando a Mulambo, e o seu Antunes não gostou nadinha. Depois disso, mandou eu ficar de olho nele. Foi assim que descobrimos que o outro gêmeo tava vivo. Demo a letra pro seu Antunes. Aí ele mandou logo a ordem: era pra dar um susto no coroa. Eu e meu parceiro aproveitamos e demos uma coça no velho durante o assalto.
Will passou a mão no queixo, pensativo.
— Então Antunes já sabia da existência do Gabriel. E sabe dizer se ele e Epaminondas chegaram a se encontrar nesse tempo?
Boca balançou a cabeça.
— Não posso dizer com certeza. A gente ficou meses vigiando o velho. Nunca vi nada, nenhum encontro.
— Existem muitas ligações entre o telefone que você ficou e o do Antunes. Depois do assalto, o que tanto vocês falavam?
— Coisas que ele me mandava fazer...
Will apertou os olhos.
— Que tipo de coisas?
Boca parou por um instante, depois respondeu.
— Ele me pagou pra mexer no carro do sócio dele. Mandou soltar o freio pra parecer acidente.
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