MINHA OUTRA FACE
15 Desfile manchado
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═══🎭✦✧ Ainda na delegacia... ✧✦🎭═══
Will lançou um olhar demorado para Tony, depois voltou-se a Boca:
— Acidente?
— Isso mesmo, doutor... Olha lá, o senhor me prometeu delação premiada, e eu tô abrindo o jogo.
Will assentiu, firme.
— Se eu prometi, eu vou cumprir. Continue. O que exatamente você fez?
— Soltei a mangueirinha de freio do carro do bacana. O carro desceu o viaduto a baixo. Mas não morreu não. Fiquei sabendo que ficou aleijado, numa cadeira de rodas.
Tony murmurou:
— Fábio Meireles, o dono da Mulambo.
Will deu pequenos socos de leve na mesa.
— O Antunes queria matar o Meireles. Já desconfiava disso desde o início. Com Meireles morto, e as tramoias que ele havia feito na venda das ações, ele passaria a ser o único dono da Mulambo.
Tony balançou a cabeça, descrente:
— O cara realmente não valia nada.
Will assentiu devagar.
— Pelo o jeito essa história ainda vai nos dá trabalho, Tony.
═══🎭✦✧ Algumas semanas depois... ✧✦🎭═══
Um grupo de jovens modelos ensaiava para o tão aguardado desfile. A passarela improvisada no centro de uma quadra era o palco das atenções. Ana caminhava por ela com passos firmes, mas ainda inseguros. Ao redor, outras modelos observavam atentas, algumas cochichando, outras apenas acompanhando.
Frida, com um prancheta nas mãos, posicionava-se bem à frente de Ana.
— Calma, volta e vem de novo, Ana — pediu, com firmeza, mas sem perder a paciência. — Mas vem mais devagar, com o corpo ereto e o queixo mais levantado. Isso... não tanto, não é pra olhar pra cima. Muito bem, desse jeito tá bom. Amanhã quero ver você arrasando. Aliás, quero ver todos vocês arrasando. Vamos fazer bonito, gente!
Enquanto Ana voltava à posição inicial com um sorriso tímido, Daiana se aproximou de Frida, observando o ensaio.
— Muito bom, a Ana leva mesmo jeito — comentou.
Frida assentiu com um leve sorriso.
— Eu reconheço um talento quando estou diante dele.
— E já tá tudo certo pra amanhã? — Daiana quis saber.
— Certo não está. Ainda tem muito detalhe pra resolver. Mas já tá tudo encaminhado — respondeu Frida, voltando a dar instruções com um tom de autoridade. — Vão ensaiando aí, já eu volto. Carina, dá uma ajuda para as crianças.
Carina, afastou-se rapidamente para orientar um grupo de pequenos que se agitava nos fundos da quadra. Frida e Daiana se afastarem em direção a uma área mais reservada.
— E o Gabriel apareceu por aqui? — perguntou Daiana, em tom casual.
Frida balançou a cabeça.
— Aqui ele ainda não veio. Até pensei que você estivesse lá no orfanato com ele.
— Eu preferi vim direto pra cá, depois eu falo com ele.
— E como tá indo esse romance? Já consideramos aí um namoro?
Daiana sorriu de canto, hesitante.
— Acho que sim. Ai, Frida... é tudo tão confuso. Tô curtindo muito tá com o Gabriel. Mas tem hora que eu acho que tô com ele só por causa da semelhança entre ele e o Rodrigo.
— Você ainda gosta do Rodrigo, é isso?
— Pra te ser sincera, Frida, eu não sei mais nada. O Gabriel é como se fosse uma versão melhorada do Rodrigo. Ele é mais manso, mais sereno. O Rodrigo já tem um jeito mais bruto, arrogante.
— E sobre o crime? A polícia já deu alguma resposta?
— A polícia ainda não encontrou provas concretas pra saber quem de fato matou — disse Daiana, desviando o olhar, pensativa. — Mas eu sei que foi o Rodrigo. Ele e o Antunes nunca se deram bem. Não existe motivo nenhum pra culpar o Gabriel. Mas, mesmo sabendo que o Rodrigo é o culpado, o meu coração ainda fica perdido entre os dois.
Ela fez uma pausa, inspirando fundo.
— É engraçado, Frida. Porque quando eu lembro das coisas que vivi com o Rodrigo... não é como se eu tivesse vivido com ele. É como se eu tivesse vivido aquilo tudo com o Gabriel. Eu nunca estive tão perdida com os meus sentimentos como estou agora. Minha mãe acha que tô sendo louca em engatar um romance com o Gabriel, pra ela ele é o culpado.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Joana abriu a porta de sua casa e sorriu com gentileza ao ver Kléber.
— Bom dia! — disse ela, inclinando-se para um beijo no rosto.
— Bom dia! — respondeu ele, retribuindo o gesto com leveza.
Ambos entraram. Joana indicou o sofá com um gesto discreto, e enquanto ele se acomodava, perguntou:
— Alguma novidade?
— Estive na delegacia — disse ele, em tom contido. — Prenderam um sujeito que trabalhava para o Antunes. Um desses capangas... fazia os serviços sujos.
— Meu Deus! Um capanga?
— Lembra daquele celular que foi encontrado dentro de um envelope, na gaveta da sala do Antunes?
— Sim, lembro. Aquilo me causou até calafrio. Coisa mais medonha.
— Pois bem. O único número para o qual o Antunes havia ligado pertencia a esse homem. Ou melhor, não exatamente. O chip do celular estava cadastrado no nome de outra pessoa. Mas esse cara que foi preso... ele roubou o telefone dessa pessoa.
— Essa história tá ficando cada vez mais confusa. E pensar que um dos meus filhos pode estar envolvido nisso tudo.
Kléber hesitou por um segundo, depois perguntou:
— Esse nome, Epaminondas... te lembra alguém?
Joana virou o rosto na direção dele com surpresa.
— Epaminondas? O único Epaminondas que me lembro foi um motorista que o Antunes tinha. Mas o que ele tem a ver com essa conversa?
— É nesse nome que o número está cadastrado — revelou Kléber. — E esse motorista é irmão do Jurandir.
Joana arregalou os olhos.
— Não pode ser, Kléber. Você tá me dizendo que o Epaminondas era irmão do Jurandir?
Ele confirmou com um movimento silencioso da cabeça.
— No dia em que fugimos daqui... o Jurandir disse que o motorista estava do nosso lado, que ele ia atrasar o Antunes. Agora tudo faz sentido. O Epaminondas ajudou porque era irmão dele. Meu Deus... — ela fez uma pausa, perturbada. — O que foi feito do Epaminondas?
— A polícia foi atrás dele. E você não vai acreditar — disse Kléber, olhando-a nos olhos — Ele trabalha como jardineiro no orfanato onde o Gabriel mora.
Joana empalideceu.
— Então ele e o Gabriel já se conhecem? — murmurou. — Ai, Kléber... Isso tudo tá muito estranho. Eu preciso ir lá. Preciso falar com o Epaminondas.
— Não sei Joana. Não sei se procurar esse cara seja uma boa ideia.
Ela se levantou do sofá, os olhos firmes como não se via há tempos.
— Eu preciso entender melhor essa história, Kléber. O Epaminondas sempre foi um amor de pessoa. Tenho certeza que ele vai me receber muito bem.
Ela deu alguns passos em direção à janela e encarou o quintal silencioso.
— E é amanhã... amanhã é o dia do desfile. Mais um motivo pra eu estar lá.
Kléber se levantou, a voz agora mais suave.
— Tudo bem. Eu vou com você.
═══🎭✦✧ Casa dos Meireles ✧✦🎭═══
Angelina e o marido estavam no meio do quarto. Ele, em sua cadeira de rodas. Ela, com gestos cuidadosos terminava de ajeitar sua gravata.
— Só um instantinho... deixa eu dar mais essa voltinha aqui. — disse ela, com um sorriso satisfeito ao finalizar. — Prontinho. Tá um gato.
Meireles soltou um riso baixo, balançando a cabeça.
— Quem me dera. Já tô mais pra velho rabugento. — Seu olhar, no entanto, se suavizou ao observar a expressão dela. — Agora sou eu que tô vendo uma ruguinha aí, bem no meio da sua testa. O que foi? O que tá te angustiando?
Angelina respirou fundo.
— Tô tão preocupada, meu amor. Essa história da Daiana com aquele rapaz. Não tô gostando nada disso.
— Você ainda acha que ele tá envolvido na morte do Antunes?
— Claro que acho! — ela respondeu com convicção. — Quanto mais a gente mexe, mais mistério aparece na vida desse Gabriel. Mas a Daiana tá cega... apaixonada... não nos escuta mais.
— Mas, ele pode ser inocente, Angelina? Já pensou se o culpado for realmente o Rodrigo?
Ela passou a mão pelos cabelos, frustrada.
— Foi ele, Meireles. Eu tenho certeza. E tem mais... Eu não te contei, mas a polícia esteve lá na Mulambo essa semana.
— Como assim? — ele se espantou. — O que eles estava procurando desta vez? Descobriram mais alguma coisa?
— Descobriram sim. Prenderam o bandido que falava com o Antunes por aquele celular que foi encontrado. Foi ele que sabotou o seu carro no dia do acidente.
Meireles ficou pálido.
— O que você tá dizendo, Angelina?
— Que o freio do seu carro não falhou por acaso, meu amor. O Antunes pagou esse homem pra cortar a mangueira do freio. Ele queria te matar.
— Meu Deus do céu... — Meireles encostou-se no encosto da cadeira, atordoado. — Primeiro eu descubro que ele tentou me roubar... agora isso. E você? Por que não me contou antes?
— Desculpa... Eu quis te poupar. Você já tinha tanta coisa pra lidar.
— E eu, feito um idiota, sempre confiando naquela cobra.
— E tem mais, Meireles. O chip que o bandido usava tá cadastrado no nome do tio do Gabriel. E esse tio mora no mesmo orfanato que o Gabriel. Por tudo isso, você entende por que a Daiana não pode se envolver com esse rapaz?
— Você contou isso pra ela?
Angelina balançou a cabeça, cansada.
— Ainda não tive oportunidade. Sempre que começo a falar, ela me corta.
Meireles suspirou fundo.
— Vamos deixar esse desfile acontecer. Depois disso, a gente chama ela pra uma conversa séria. Você vai no desfile amanhã?
— Vou sim. Quero apoiar minha filha, e finalmente conhecer esse tal de Gabriel.
═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══
Ludmila pulava de alegria no meio da sala de sua casa, celular em punho, enquanto gritava animada. Carla, esparramada no sofá com um pacote de batata Ruffles no colo, apenas observava a cena.
— Ele acabou de me mandar mensagem!
— Quem? — perguntou Carla.
— O Fabinho! Me chamou pra ir na boate com ele!
Carla revirou os olhos.
— E eu ainda pergunto quem... Pelo jeito esse namoro tá a todo vapor, hein?
— Mais ou menos — respondeu Ludmila, caindo sentada no sofá ao lado da amiga. — O Fabinho é meio devagar, sabe? Mas tô curtindo muito estar com ele. Será que... será que eu tô apaixonada?
Carla soltou uma risada.
— Sem sombra de dúvidas. Agora... se ele também estiver gostando de você, não vai curtir nem um pouco saber que você deu uns pegas no Glauber.
Ludmila arregalou os olhos e se virou bruscamente.
— Mas ele não vai saber! E espero que você não abra essa sua boca!
— Francamente, Ludmila. Você acha mesmo que eu sou dedo-duro?
— Sei lá... você tem a língua meio solta.
— Me respeita, tá, piranha? Mas tem uma coisinha que você ainda não sabe.
— O quê? — Ludmila se endireitou no sofá, alarmada. — O Fabinho é casado? Tem outra mulher? Ai, Jesus!
— Para de show, Ludmila! Não viaja. — Carla fez uma pausa dramática. — O Edson é fisioterapeuta do pai do Fabinho. Chupa essa.
— Não, isso não! Puta que pariu! Que bafão! — Ludmila levou a mão à boca, boquiaberta. — Então eles se conhecem?! E se o Edson abrir a boca e falar do que rolou entre mim e o Glauber?
— Pois é. Ele te viu com o Fabinho e achou estranho. Acho que foi naquele dia em que você me deu um perdido e saiu sozinha com o boy. Mas fica tranquila. Eu expliquei tudo direitinho pro Edson e pedi pra ele não comentar nadinha com o Glauber.
Ludmila soltou um suspiro de alívio.
— Ai, piranha... ainda bem! Muito obrigada, sério.
Carla deu um sorriso vitorioso.
— Agora vê se controla o seu facho, tá?
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Gabriel e Daiana estavam sentados no jardim do orfanato.
— Já tá tudo tão lindo lá na quadra — disse Daiana, empolgada. — Prontinho para o desfile de amanhã.
— A criançada tá toda animada. A gente nunca teve um movimento assim por aqui. Sou muito grato a você e a todo pessoal da agência. Essa ideia do desfile mudou o clima do lugar.
— Pra mim tem sido gratificante — respondeu ela. — Ver o sorriso estampado na carinha dessas crianças nos dá fôlego. Ah, e a Ana... ela tá arrasando. Tenho certeza que amanhã vai brilhar na passarela.
— Ela tá eufórica. Ansiosa que só. Aquela menina é um raio de luz. Amo a Ana como se fosse minha irmã caçula.
— Frida gostou muito dela — revelou Daiana. — É provável que ela invista na carreira da Ana.
— Ela vai ficar tão feliz se isso acontecer.
— Engraçado... Já desfilei tantas vezes. Mas tô ansiosa como se fosse minha primeira vez.
— É porque, desta vez, tem um propósito diferente. É por uma causa nobre. Essas crianças precisam muito dessa ajuda.
— Eu sei — murmurou ela. — E, se quer saber... também tô muito ansiosa.
Os olhos dos dois se encontraram por alguns segundos e eles se beijaram, suavemente. Da janela do orfanato, Soraia espiava. Seus olhos estreitos não escondiam o incômodo.
— Maria! — a voz firme da Irmã Rosália soou atrás dela.
Soraia se virou, sem graça, forçando um sorriso.
— Oi, irmã!
— O que tá fazendo aí, menina?
— Nada... — respondeu, tentando disfarçar. — Só tava aqui, observando Gabriel e Daiana ali no jardim. Eles formam um lindo casal, né?
Irmã Rosália olhou desconfiada.
— Formam sim. Um casal bonito. E os seus documentos, cadê?
— Meus documentos? — Soraia empalideceu.
— Sim. Pra eu poder assinar sua carteira. Você disse que traria depois. Precisamos fazer tudo certo, Maria.
— Então... é que... os documentos se queimaram no fogo lá do acampamento.
— A pessoa não pode ficar sem documentos — rebateu irmã Rosália. — Você já devia ter pedido a segunda via.
— Eu sei, irmã. Já tô providenciando. Assim que estiver pronto, entrego pra senhora.
— Está bem. E pare de espionar a conversa dos outros. Isso é feio.
— Já parei. Vou ver se as outras irmãs precisam de ajuda. Com licença.
Soraia saiu, sem graça. Irmã Rosália olhou em direção à janela. No jardim, viu Gabriel se despedindo de Daiana, que já entrava no carro.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Rodrigo estava em seu quarto, sentado à beira da cama. Em suas mãos, ele segurava uma revista com Daiana na capa. Passava os dedos lentamente sobre a imagem, como se pudesse tocá-la de verdade. Duas batidas suaves soaram na porta entreaberta.
— Posso entrar? — perguntou Joana.
— Sim — respondeu ele.
Joana entrou devagar, sentando-se ao lado do filho. Ela o observou por um instante antes de falar.
— Que tristeza é essa, meu filho?
Rodrigo ergueu a revista, mostrando-a como se fosse um relicário sagrado.
— Ela é linda, não é? Amanhã vai desfilar de novo... E com certeza, vai estar deslumbrante, como sempre. Mas, desta vez, não sou eu quem vai estar lá, olhando, torcendo, admirando. É o outro. Gabriel agora tem aquilo que era meu.
— Se você gosta tanto assim da Daiana — disse Joana, com ternura — por que se envolveu com a Soraia, meu filho?
Rodrigo fechou os olhos com força, balançando a cabeça em um gesto de arrependimento amargo.
— Porque sou um idiota, mãe. Eu amo a Daiana. Sou completamente apaixonado por ela. Mas me deixei levar pela tentação da carne, pelo desejo do momento. Eu a traí... Traí a mulher que amo por uma aventura sem sentido. E agora, ela não me perdoa mais. Só de imaginar ela com aquele cara... — sua voz falhou — me dói a alma. Dói de um jeito que eu não consigo explicar. Era pra eu estar lá, do lado dela amanhã, como estive em todos os desfiles.
Joana se aproximou e pousou a mão sobre a perna do filho.
— Oh, meu amor... — disse ela com ternura. — A Daiana agora está com seu irmão. Os dois parecem felizes. Às vezes, meu filho, as escolhas erradas que a gente faz na vida não têm volta. Mas sempre existem caminhos. E você vai precisar encontrar o seu.
A menção a Gabriel fez Rodrigo cerrar os punhos. Ele se levantou, caminhando pelo quarto com passos duros.
— Eu tenho muito medo do que ele possa fazer com ela — disparou, com a voz carregada de raiva. — Esse cara é um psicopata ardiloso, mãe. Ele sabe como envolver as pessoas com aquela conversa mansa dele, como se fosse inocente. Mas eu enxergo quem ele é. Eu vejo por trás da máscara.
Joana se levantou também, o semblante endurecido, incomodada com a forma como o filho falava.
— Eu não quero que você fale assim do seu irmão — disse firme. — Gabriel sofreu todos esses anos, cresceu longe de mim, longe da nossa família. Ele só quer ser amado. Ele só quer pertencer a uma família. E nós somos a família dele. Dê uma chance, Rodrigo. Procure ele. Vocês são irmãos.
Rodrigo se virou bruscamente, os olhos acesos como brasas.
— Ele é seu filho — disse com dureza. — Eu sei. E não quero te magoar. Mas esse cara... esse cara nunca vai ser meu irmão. Nunca. E se ele machucar a Daiana, aí sim... aí sim eu viro um assassino de verdade. Porque se ele encostar um dedo nela, eu mato ele.
Joana recuou um passo, os olhos arregalados. Rodrigo, ainda ofegante, virou-se lentamente e encarou a mãe. Sem dizer mais nada, ela virou-se e saiu do quarto, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair.
═══🎭✦✧ Já era noite, próximo a quadra: ✧✦🎭═══
Soraia surgiu na calçada, com passos firmes e o olhar atento. Caminhava como quem não queria chamar atenção. Parou diante do portão principal da quadra, trancado com corrente e cadeado. Um pouco mais adiante, do lado de dentro, o vigia fazia sua ronda, com uma lanterna na mão. Ao ver a movimentação, apontou o feixe de luz na direção de Soraia.
— Algum problema, moça? — perguntou ele.
— Boa noite! Desculpe o horário — disse ela, colocando um sorriso educado no rosto. — Eu preciso dar uma olhada nas roupas do desfile. Algumas peças ficaram erradas e tenho que corrigir logo, o desfile já é amanhã.
— Ah, sim... claro. Vou abrir pra você entrar.
— Obrigada! — respondeu com doçura ensaiada.
Ele destrancou o portão e ela entrou, decidida. Caminhou em direção ao vestiário improvisado nos fundos da quadra, onde estavam guardadas as roupas das modelos. Ao empurrar a porta, ela acendeu a luz. Tudo estava arrumado com esmero: as peças penduradas em uma arara, cada uma com etiquetas cuidadosas informando o nome da modelo e sua ordem no desfile.
Soraia parou diante da arara, os olhos varrendo cada detalhe com um misto de inveja e desprezo. Quando viu a etiqueta com o nome de Daiana, soltou um sorriso torto.
— Impressionante... roupas de grife para um desfile beneficente. Francamente — murmurou com desdém. — E você, acha mesmo que vai brilhar amanhã, sua canela de seriema? Tá muito enganada.
Abriu a bolsa discretamente, tirando de lá um frasco de spray de tinta preta. Olhou uma última vez para a porta, certificando-se de que estava sozinha, e então começou a pichar as roupas. Um a um, os tecidos caros foram sendo manchados com tinta. Ela se deteve mais longamente na peça destinada a Daiana, borrando tudo com um prazer perverso.
— Agora sim... dei o meu toque especial. Vamos ver, Daiana, se esse desfile vai mesmo acontecer.
Soraia guardou o spray de volta na bolsa, puxou um pano que estava sobre uma cadeira e jogou por cima da arara. Com passos silenciosos, saiu do vestiário e caminhou de volta para o portão.
═══🎭✦✧ Boa te Eclipse ✧✦🎭═══
A música eletrônica batia forte enquanto Ludmila e Carla entravam.
— Ele disse que já tá aqui... — disse Carla, olhando em volta. — Só não sei onde se enfiou.
— Já o Fabinho — resmungou Ludmila, mexendo no celular — tá dizendo agora que tá saindo de casa. Esse boy é lerdo pra tudo, viu? Deus me defenderai.
Carla continuava a busca com os olhos. Ludmila ergueu o rosto e congelou.
— Ih, carái...
— O que foi? — perguntou Carla.
— O Glauber tá aqui — respondeu Ludmila, com os olhos fixos em uma direção.
Seguindo o olhar da amiga, Carla viu Glauber conversando descontraidamente com Edson, próximo ao balcão do botequim. Riam de algo e seguravam copos com bebidas.
— Gente... — murmurou Carla. — Eu falei pro Edson que você vinha comigo, e que ia encontrar o Fabinho.
— Eu vou embora — decretou Ludmila, já dando meio passo pra trás. — Depois eu invento uma desculpa pro Fabinho.
— Ah não, Ludmila! — reclamou Carla, virando-se pra ela. — Você fez o diabo pra me tirar de casa e agora quer fugir?
— Mulher, olha a situação! Glauber e Fabinho no mesmo ambiente, não dá.
— É só agir naturalmente — disse Carla. — Respira e finge costume.
— Eles tão vindo pra cá — sussurrou Ludmila, arregalando os olhos.
— Pare de show e finge normalidade.
Edson chegou sorridente.
— Pensei que vocês não vinham mais.
Carla abriu um sorriso e o cumprimentou com um beijo. Glauber veio logo atrás e, ao ver Ludmila, seus olhos brilharam.
— E aí, Ludmila... como cê tá?
Ela engoliu seco, forçou um sorriso e respondeu, tentando soar leve:
— Tô bem... e você?
— Com saudades — disse ele, direto. — Você sumiu, parou de responder.
— Ah, menino... meu WhatsApp vive dando problema — improvisou, olhando para qualquer lugar. — Aí já viu, né?
Glauber se aproximou um pouco mais, com um sorriso sedutor.
— Tô com vontade de repetir aquela noite. O que acha?
Ludmila engoliu mais seco ainda. Forçou outro sorriso, sem graça.
— A noite... foi boa. Muito boa, mesmo.
— Ludmila — interveio Carla, percebendo a tensão — vamos no banheiro rapidinho?
— Claro — disse Ludmila. — Com licença... me deu uma vontade de mijar.
As duas se afastaram rapidamente, sumindo em meio as pessoas.
— Piranha — disse Carla. — Tu vai mesmo se atirar pro boy assim? Esqueceu que o Fabinho tá quase aqui?
— Mas não sou eu, criatura! É ele que tá se atirando em cima de mim!
— Pelo jeito o Edson não falou nada pra ele sobre o Fabinho.
— Ai amiga... ele disse que tava com saudade da nossa noite. E, sinceramente? Eu devia ter aproveitado mais! Tô querendo de novo.
Carla riu de deboche.
— Você é uma vagabunda mesmo. Se contenha! E disfarça, porque teu macho chegou.
Ludmila arregalou os olhos de novo colocando a mão na cara, como se escondesse de Fabinho.
— Ih, carái...
═══🎭✦✧ Na manhã seguinte... ✧✦🎭═══
A quadra já começava a ganhar vida. Voluntários chegavam apressados, os últimos detalhes estavam sendo ajustados. Frida desceu do carro acompanhada por Daiana. As duas estavam animadas, mas concentradas.
— Vem Daiana, vamos lá no vestiário — disse Frida, apertando o passo. — Deixei tudo separado ontem à noite. As roupas estão na arara, etiquetadas com o nome de cada modelo.
— Ai, Frida, tô tão ansiosa... parece até que é a minha estreia nas passarelas — disse Daiana com um sorriso nervoso.
— E olha que você já desfilou bastante, hein! — respondeu Frida, rindo.
Mas o riso logo morreu. Ao entrarem no vestiário, Frida parou no meio do caminho e olhou em volta.
— Espera... tem alguma coisa errada aqui.
— O que foi? — Daiana se aproximou, preocupada.
— Ontem deixei tudo impecável... — murmurou Frida, andando até a arara coberta com um pano. — Isso aqui não tava assim.
Com um gesto rápido, puxou o pano.
— O que é isso?! — exclamou.
Daiana levou as mãos à boca, horrorizada.
— Meu Deus... as roupas... estão todas pichadas!
Frida tocava os tecidos incrédula.
— Isso não pode estar acontecendo — sussurrou Frida, com os olhos marejados. — São roupas de grife, peças únicas emprestadas especialmente pra esse evento. Todas arruinadas!
— Mas quem faria uma maldade dessas? — perguntou Daiana, revoltada. — Isso é vandalismo! É sabotagem!
Frida olhou ao redor, tentando processar o caos.
— O vigia... — disse com raiva contida. — Ele estava de plantão ontem à noite. Alguém entrou aqui, e ele tem que ter visto.
— Eu vou atrás dele agora mesmo — disse Daiana, já indo em direção à porta. — Ele precisa dar uma explicação!
Frida ficou para trás, olhando com tristeza e frustração para os tecidos manchados.
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